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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana é professor universitário, autor de muitos livros sobre comunicação e marketing, deu aulas em várias universidades europeias, em África e também na América Latina, dá palestras em todo o mundo e viaja muito. Neste momento, contabiliza quase 90 países. Qual deles o mais vendável? Olá, Filipe Carreira. Carreira, não, Carrera.

É fácil trocar os pós.

Bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo. Então vamos começar por aqui. Os países vendem-se?

Os países vendem-se. Eu acho que neste momento as pessoas estão demasiado comerciais com os países. Eu, pessoalmente, gosto de ir a países em que normalmente as pessoas não vão. Esses é que eu gosto mesmo de visitar.

Por exemplo.

Por exemplo, o ano passado, uma das coisas que fiz com muito gosto: andei a cavalo no meio das estepes no Cazaquistão.

Uau.

E só tinha cazaques à minha volta.

Não é uma chatice, porque uma pessoa quando viaja pro Cazaquistão, presumo eu, quer estar com cazaques, não é?

É, mas isso também é uma das coisas-

Se calhar muita gente viaja pra Lisboa e depois não encontra cá lisboetas. Mas isso é outra conversa.

Mas eu, por acaso, nisso tenho uma sorte fantástica. Uma sorte que tu queres. Estas coisas, às vezes, a sorte faz. Eu, onde quer que vá, costumo dizer que não visito países, eu infiltro-me. Por quê? Porque habitualmente, com exceção de um que visitei, que foi Omã, eu conheço sempre pessoas amigas lá.

Faz amigos?

Não é faço amigos, eu já tenho amigos.

Ok.

O que quer dizer que o meu normal é chegar a um aeroporto e não estar uma pessoa com uma treira a dizer: "Sr. Carrera". É: "Filipe, vamos ali comer". Por exemplo, no Vietnã, a primeira coisa que me fizeram: "Vamos ali comer um pequeno-almoço espetacular". E é assim. E isso pra mim é uma forma de viajar completamente diferente, porque acabamos por fazer a vida dos locais. Por isso eu já dormi em casa de amigos, em hotéis que me colocaram lá, e às vezes nem hotéis. Eu agora lembro que me colocaram uma vez numa biblioteca pública na Romênia.

Uau!

Sim, porque tinha quartos. Eu fiquei também admirado.

Dentro da biblioteca?

A biblioteca tinha quartos.

Mas um anexo aos corredores, livros, lá no fundo, bibliográfico?

Eu tinha que entrar mesmo pela biblioteca. Aliás, uma das vezes até entrei à noite e estavam lá os guardas da biblioteca e eu disse: "Eu vou pro quarto". Porque a biblioteca tem lá quartos para visitantes.

Ok. Acordou mais esperto.

Sim, claro, por osmose.

Se assim fosse, toda a gente dormia em bibliotecas. Fantástico. Portanto, não é aquele viajante que gosta de ir aos países e tirar a fotografia onde toda mundo tira a fotografia, colocar a hashtag.

Não sou escravo do Instagram. Não sou. Eu gosto de experiências completamente diferentes e muitas vezes não sei onde é que eu vou. Não sei, não faço a mínima ideia. Agora mesmo regressamos do Canadá e tivemos um dia livre. Tenho lá amigos, por acaso, estes são sírios, e estivemos a dar umas pequenas voltas em Montreal. Acabamos a almoçar num restaurante sírio espetacular. Eu gosto muito de comida síria. E uma das coisas mais interessantes é que foram chegando amigos meus, que estão em Montreal, que alguns nem sabia que estavam lá, que eles fizeram uma surpresa. E estávamos junto à Basílica de Montreal, lá em cima, sentados, a ver curiosamente a chuva à frente e nós com um bocadinho de sol, e amigos a virem ter. Isso pra mim é a coisa mais espetacular. Eu costumo dizer que eu não sou rico, mas tenho uma rica vida por causa disto.

Pois.

Porque quando uma pessoa está muito longe de casa e tem amigos que vêm ter.

Mas o Filipe também tem sorte, tem uma carreira internacional, não é? Isso permite-lhe ir colecionando-

Lá está, a sorte também faz.

Pois, exato. Claro

Isto é, a minha própria carreira-

A sua rede de contactos é vasta, não é?

Isso aí ajudou

Mas podia não lhe desligar Peva.

Mas essa é uma outra vantagem que eu tenho.

Sim.

É que eu sou o patrão de mim próprio. E o meu patrão é um tipo espetacular, porque ele diz-me assim: "É a primeira vez que vais a esse país, fica mais dois ou três dias, porque assim dá pra conhecer". Mas eu faço isso também de propósito, porque se eu vou pra um país novo e vou dar uma formação, uma conferência, vou dar aulas numa universidade, eu não gosto de fazer aquela figura de aterrar no avião, ir diretamente pra sala e sair a seguir e sem, pura e simplesmente, entender a cultura local. Então é, digamos assim, obrigatório que eu visite o país, que eu me infiltro no país. Por isso eu vou a coisas como aos supermercados. Eu visito supermercados, gosto de ir a supermercados, a mercados, a estações de comboios, porque eu aí muito rapidamente tenho uma noção do país. E pra mim isso é extremamente importante, porque depois isso vai refletir-se naquilo que vai ser a minha apresentação, naquilo que vai ser o meu trabalho.

Também faz uma coisa que antigamente se fazia muito, agora menos, porque as pessoas não consomem nada em papel: comprar jornais, por exemplo.

Em papel, não.

Não.

Eu agora devo dizer que-

Eu pergunto isso porque era uma coisa que eu fazia muito e que ainda continuo mais ou menos a fazer.

Isso eu fazia há muitos anos atrás.

Mas vejo que há menos viajantes a fazer isso.

Eu agora tenho que confessar que me rendi à inteligência artificial.

E pede aos browsers ou aos motores pra lhe fazerem guias.

Fazer tudo e mais alguma coisa. E faço mesmo diálogos com a inteligência artificial. Isso é apenas e só quando eu tenho um furo que não estou com amigos. Porque quando estou com amigos, é à vontade. Aliás, eu estava a me lembrar, a primeira vez que estive no Irã, uma rapariga da mesma organização-- eu trabalho com uma ONG chamada JCI, que é Junior Chamber International, e há uma organização local em Isfahan, e esta rapariga, a Mina, vem ter comigo ao hotel. Eu sou uma pessoa bem conhecida nesta organização e ela vinha um bocado intimidada e vem ter comigo e diz assim: "Eu preparei aqui várias opções", e abre-me o caderno. E eu digo assim: "Olha, vamos fazer assim: vais fechar o caderno e vais escolher a opção. Por quê? Porque vais me dizer, preferes A, que não conheces, B, que não conheces, ou C, que não conheces". Não faço a mínima ideia.

Pois, então o Filipe colocou-se nas mãos da rapariga e confiou. Boa. Já teve muitas desilusões?

Até agora, nunca.

Não. Pronto.

Até agora, nunca.

Que bom.

Eu, por exemplo, também quando vou a um restaurante, fiz isso ainda anteontem em Montreal, com os amigos sírios. Eu disse: "Olha, eu não vou escolher a comida, porque vocês é que sabem, neste restaurante, o que é melhor. Não sou eu. Por isso vocês escolhem, fazemos aqui uma misturada e assim estamos bem e escolhemos o que quisermos".

Muito bem. O Filipe já conhece perto de 90 países.

Por acaso, agora com esta última viagem, atingi os 91.

Boa, então já ultrapassou a barreira dos 90 países.

Fazendo uma conta, porque eu costumo dizer que é 89 mais dois, porque há dois países que não são reconhecidos internacionalmente que eu visitei. Um é a República Turca do Norte de Chipre.

Sim.

E a outra é uma terra muito estranha, que se chama Transnístria.

Sim, aquela república-

Secessionista da Moldávia.

Exatamente.

Que é uma coisa-

Uma espécie de protetorado da Rússia, não é? É uma coisa híbrida, ninguém percebe o que aquilo é.

Eu achei muito interessante visitar.

Sim.

Eu tive direito a um visto de 10 horas.

10 horas?

10 horas, porque o visto é 10 horas.

Mas isso não dá pra nada.

Não dá, porque o país é pequenino. Deu pra visitar a capital Tiraspol e uma cidade chamada Bender, que tem lá uma fortaleza turca muito interessante. Mas a parte mais interessante é que aquilo está congelado no tempo.

Pois.

Aquilo é a União Soviética, 1990, com carros novos e telemóveis. Porque de resto, parou no tempo. Tem as estátuas do Lenin, tem os T-40 como monumentos, os tanques. É uma coisa, tudo à boa maneira soviética, como eu, que já conheço a Rússia bastante bem, nunca vi tão-

Tão bem preservado

...tão bem preservado.

Aquele brutalismo soviético, tudo ali à mostra.

Mas é muito interessante. Achei uma viagem que eu queria fazer há muito tempo e os meus amigos moldavos deram-me a escolher: "Nós temos aqui duas opções". Eu aí escolhi, porque queriam que eu fosse para uma adega, para experimentar vinhos e não sei o quê. E eu, por acaso, devo ser um dos poucos portugueses que não gosta de vinho. E deram-me essa possibilidade da Transnístria. Eu disse: "Quero a Transnístria".

Pois, claro, evidentemente. Eu percebo.

Apesar de ser pouco tempo depois da invasão russa da Ucrânia, eles por acaso ficaram na dúvida se eu quereria ir.

OK. Porque é um país que está ali na região e havia alguma instabilidade.

A fronteira da Transnístria de um lado é a Moldávia, do outro é a Ucrânia. E as tropas que lá estão são russas. Por isso.

Dois mais dois. É somar, não é? Muito bem. E já teve muitas desilusões, países nos quais esteve, Filipe, em que pensou: "Isto não valeu mesmo nada a pena."

Digamos que eu tenho a pergunta contrária muitas vezes feita: "Qual é o país que gostaste mais?"

Qual foi?

Lá está, não vou ser politicamente correto nisto, não é por ser politicamente correto. Dependem as experiências.

Sim.

Em termos de desilusão, eu só penso numa cidade, mas também me diverti imenso lá, mas é uma cidade que não tem nada de especial, que é Dallas, nos Estados Unidos. Não tem nada de especial. Apesar que até tive a oportunidade de uma coisa que eu me lembro da famosa série Dallas.

Sim.

Eu tive a oportunidade de ir ao clube dos barões do petróleo.

OK.

Que é no topo de um arranha-céus e, de repente, é tudo em mármore, dentro. É mesmo ostentação ao máximo e tivemos uma festa no clube dos barões do petróleo. Mas lá está, os meus amigos é que me levaram ao clube dos barões do petróleo de Dallas.

E o que fazem os barões do clube de Dallas, dentro do clube? Não fazem nada?

Ali, pelos vistos, têm festas. E deve ser trocas de reservas, porque de resto, eu fui lá no âmbito de uma conferência na área da formação e de recursos humanos. E os meus amigos lá disseram: "Vamos a um sítio diferente". Foi a única coisa, mas lá está, são as experiências.

OK. Mas, portanto, Dallas, não percebi, não gostou muito.

Dallas é uma cidade triste.

Deserto e arranha-céus, não é? Ou não? Eu nunca estive em Dallas, não sei.

Os Estados Unidos têm este problema que quando a pessoa vai pro centro, é só arranha-céus.

O centro, aquilo que nós chamamos a baixa, downtown.

É, o que eu aprendi na escola como CBD.

CBD, o Central Business District. Muito bem. Também era bom aluno em geografia.

Eu sempre gostei de geografia, aliás Todas as questões em termos de viagens, eu aqui tenho que confessar uma coisa. Eu quando era miúdo, a minha família não tinha grandes posses. O meu pai era imigrante espanhol, que veio da Galiza, passou muitas dificuldades aqui e não dava para fazermos viagens. Também era uma altura em que se wanter um avião era muito caro. A minha primeira viagem foi a Cuba, curiosamente, e foi porque eu consegui arranjar o dinheiro dentro da comissão de finalistas do Instituto Superior de Economia e Gestão. Mas uma das coisas que os meus pais me podiam oferecer, que eu gostava mais, era um atlas. E eu viajava com os dedos. Agora tenho uma satisfação imensa em ver que em muitos sítios onde os meus dedos foram, eu já lá estive também. E eu chego a determinados sítios e eu sei o que é que eu vou ver, o que eu estou à espera. E isso também me permite ter uma conexão melhor com os próprios locais, porque eu sempre fui um bocadinho cromo nisto. Eu conheço um bocado da história, um bocado da geografia, o que quer dizer que as conversas que eu tenho com as pessoas não são muito básicas. Eu vou a perguntas um bocadinho mais, chamemos assim, sofisticadas.

Sim. Tentas alimentar a sua curiosidade, é isso?

Exatamente, porque eu sempre fui curioso. Quando era miúdo, eu tinha a possibilidade de ter, aí sim, eram jornais de papel. Havia um vizinho meu que era um jornalista famoso até há bem pouco tempo, o Carneiro Jacinto. Ele era assessor do Mário Soares, quer seja primeiro-ministro, quer seja presidente da República. E então eu morava na parede ao lado, em termos de edifício. Era um edifício ao lado, mas não era o mesmo edifício. E então, ele tinha acesso a uma quantidade de jornais, como assessor para a imprensa de ambos, do Mário Soares nessa altura. E então ele passava-me os jornais, aliás, era a esposa que me passava os jornais e eu tinha um saco. E eu só via a parte internacional, que na altura, por acaso, quando estamos a falar nos anos 80, os jornais tinham muito mais componente internacional.

Verdade.

Agora não tanto. E normalmente internacional é sempre a mesma coisa. Digamos, uma pessoa abre os vários jornais e internacional é sempre os mesmos assuntos.

São dois temas e 17 colunistas.

Eu se visse um artigo sobre a situação-

Antigamente era ao contrário, era 17 temas e dois colunistas.

Não, e perdiam-se muitos correspondentes no estrangeiro.

É verdade.

Eu se houvesse um artigo sobre a situação dos cereais no Uzbequistão, era isso que eu ia ler. Eu era tão cromo quanto isso.

Muito bem.

Isso, curiosamente, tornou-se a minha base de que quando eu vou viajar, e por isso, se calhar, também estabeleço muitas relações de amizade. Porque para além de saber algumas coisas, eu depois também tenho um hábito assim um bocadinho estranho. Eu gozo muito com todos os países. Eu faço muitas piadas com todos os países. E agora estivemos numa conferência na República Dominicana e os argentinos são conhecidos por serem um bocado arrogantes, etc. E aliás, em toda a Latinoamérica. Eu lembro-me uma vez que eu estava no México e uma amiga minha, que foi aí que eu notei, diz-me assim: "Épa, agora parecias mesmo um argentino". E eu: "Isso é um elogio ou é uma crítica?" "Não, arrogante como um argentino." E eu: "Ok". E então aí eu percebi. E então havia lá um colega argentino em que eu, ao mesmo tempo, esteve sempre a gozar com ele.

Sim.

Sempre. E ele termina: "Foi ótimo, o melhor da viagem foi conhecer-te."

Boa.

E eu estive todo o tempo a gozar com ele. E ele, claro, também gozava comigo e pronto.

Pois, mas para fazer troça de alguém é preciso saber.

Saber. Não é só-

Não é só vacuidades e frivolidades. Muito bem, estamos na reta final da primeira parte das Conversas do Fim do Mundo desta semana. Filipe, vamos abrir o álbum de viagem. Guarda consigo algum objeto, Filipe, que tenha trazido das suas viagens e que seja especial?

Bom, eu trago um que não trouxe aqui, até porque ele é tão grande.

Não cabia no estúdio?

Caber, cabia, mas o transporte era complicado. A primeira vez que fui ao Irão, eu dei uma formação naquele que é o maior centro comercial do mundo. Toda a gente pensa que é o Dubai Mall, mas não é. É o Teerão Mall, que é ainda maior que o de Dubai. E arranjaram lá uma sala de formação muito bonita e deram-me um tapete com a minha cara, do meu tamanho.

Ok.

Isto é, pelo menos o torso e a cabeça.

Ok. Para pôr no chão ou na parede?

Com a bandeira de Portugal. Neste momento está na parede, na minha cozinha, porque era a única parede que eu tinha espaço para meter aquilo, porque é realmente enorme. É uma coisa extraordinária.

Boa, grande honra, então.

É. E eu pareço o Godzilla. Não, é sério! É porque é a minha imagem.

Não me diga que está com ar ameaçador no tapete.

Não, eu estou de braços cruzados e a silhueta de Teerão está por baixo de mim.

Sim.

É a mesma imagem do Godzilla, com a bandeira de Portugal e a do Irão.

Muito bem, Filipe, o Fróes sobre o skyline de Teerão. A fechar a primeira parte das Conversas do Fim do Mundo desta semana. Vamos fazer aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana com o professor universitário, formador e também palestrante Filipe Carreira. O Filipe já viajou a mais de 90 países, 91 concretamente, sendo que o último foi o Canadá, não foi?

Sim, mas esse eu já o conhecia.

Já o conhecia. Então qual foi o último?

O último que eu fiz pela primeira vez foi o Panamá.

O Panamá!

Mais uma vez, estivemos com amigos.

Fez o estreito?

Sim, claro.

Que liga os dois oceanos.

Quando vai à Cidade do Panamá, tem que ir pelo menos a Miraflores, que é a parte mais próxima. Aliás, só muito rapidamente.

Sim.

Por causa destas coisas de ir com amigos, acabei numa noite a dançar Apita o Comboio, porque puseram lá essa música.

No Panamá.

No Panamá. Eu costumo dizer que tenho tido muitas oportunidades de ser ridículo pelo mundo fora.

Mas isso é bom.

É.

Acho eu.

Ficam memórias. Eu não me vou esquecer que andei a dançar Apita o Comboio no Panamá. Isso vai ser difícil, é demasiado traumático.

Se é para ser, que seja longe de casa, não é? Onde ninguém te conhece.

Mas há vídeos.

Digo eu.

Agora está tudo nas redes sociais, não é?

É verdade. E eu queria também levar um pouco a conversa por aí, porque o Filipe é especialista em marketing. Esta coisa das redes sociais, das pessoas quererem tirar fotografias em cima de pedras, de monumentos, ao lado de estátuas, à frente de fachadas de edifícios conhecidos. O que isto está a fazer ao turismo e às viagens, Filipe? E aos viajantes?

Tudo depende. Se eu estou da parte da indústria turística, eu tenho que admitir isso e tenho que até forçar isso.

Ou seja, é bom.

É bom. Portugal, durante a troika, dá uma volta imensa com o turismo por causa de uma política muito clara de aposta em influencers e na aposta de utilização das redes sociais, porque antigamente era aquela questão das feiras em que andávamos a distribuir folhetos. Isso mudou completamente. Nós temos é que atrair determinadas pessoas.

Proporcionar-lhes uma experiência, não é? E elas depois poderem contar ao mundo essa mesma experiência.

Muitas das vezes essas experiências podem estar metidas de forma subliminar. Há uma série que a minha namorada Olga me fez ver um bocado, que é uma série sul-coreana.

Sim. Traduzida e legendada, espero eu.

Claro. E nós acabamos por ir a um sítio ao pé de Interlaken.

Isso é onde? Na Coreia do Sul?

Não. Peço desculpa, na Suíça.

Na Suíça.

Mas estavam lá camionetas de sul-coreanos e chineses. Por quê? Porque uma das cenas mais românticas dessa série é um indivíduo, que é o protagonista da Coreia do Norte, que está a tocar piano num cais nesse lago. E então vai toda a gente lá tirar fotografias. E isto está a acontecer.

À semelhança do turismo Game of Thrones.

Mas atenção, isto também está a acontecer com Portugal. Eu tive uma experiência assim.

Aliás, nós temos um exemplo, peço desculpa, Monsanto, não é?

Sim.

Monsanto, na Beira Baixa, divulga imenso.

Eu posso dizer que tive também um bocadinho essa experiência. Eu estava com um colega português numa conferência no Camboja, em Siem Reap. Era uma noite de vários países e então estamos no pavilhão da Coreia do Sul e de repente vemos uma banda feminina de K-pop a dançar num vídeo gigante e começamos a olhar: aquilo é a Casa dos Bicos. E de repente era a Rua Augusta, era a Belém. E não é por acaso que, por exemplo, agora temos voos diretos de Lisboa a Seul. Não é por acaso.

Pois.

Já não é só as pessoas que fazem per se com o Instagram, com o TikTok, fazem publicidade a determinados sítios. É que há uma indústria cinematográfica que puxa pessoas e que vão buscar determinados detalhes que são absolutamente extraordinários, como o tal lago em Interlaken em que toda a gente vai tirar uma fotografia a um cais. Uma coisa estranha.

Onde alguém tocou piano.

Onde alguém teoricamente tocou piano.

Muito bem. Vamos então sair do marketing digital e ir para as viagens do Filipe. Noventa países, deve ter imensas histórias para contar, Filipe, ou não?

Sim, algumas complicadas.

Sim, vamos lá. São essas que eu gosto. Também são essas que eu gosto.

Ora bem. Não é uma questão de uma desilusão, foi uma experiência de vida. Eu estive a dar uma formação em abril de 2011, em Damasco.

Na Síria.

Na Síria. A meio dessa formação, eu fui informado que havia combates ao pé da universidade. Isto é, eu estava lá quando a guerra civil começou.

Ui.

E então eu tive que organizar uma evacuação. Éramos 40 pessoas. Tive que organizar essa evacuação, como liderava essa academia, debaixo de fogo de metralhadoras pesadas, aquelas tipo antiaéreas. Foi uma situação complicada. Cerca de 200 pessoas morreram próximo Mas conseguimos salvar a todos. Depois, por acaso, fomos para outras instalações da Câmara de Comércio e o que aconteceu foi que, de repente, os serviços secretos sírios também entraram lá porque viram 40 pessoas a entrar para dentro de um edifício, que por acaso era no mesmo bairro em que morava o Assad, o ditador.

O Bashar al-Assad.

O Bashar al-Assad, o ditador de lá de serviço. Foi complicado. Mas a lição de vida foi que nós a seguir fomos jantar e estávamos todos alegres, a comer. Eu tive aquela experiência de sair um pouquinho do meu corpo, olhar para a situação e pensar: "Estes indivíduos estão doidos. O país está a cair numa guerra civil, claramente, e estamos aqui a comer, a contar piadas, etc."

Quase em espírito Titanic, é isso?

Eles é que tinham razão, porque eles sabiam que aquele era o último jantar que nós íamos ter.

Pois.

Alguns deles iam ter que sair do país, outros se calhar iam morrer, outros ia lhes acontecer outra coisa qualquer. Isto é uma coisa que eu aprendi naquela situação e que às vezes é uma coisa que eu tento explicar, porque também já dei formação no Iraque e trabalhei lá. Uma das coisas que às vezes nós não entendemos, principalmente agora um pouco nesta cultura que vivemos do ofensivo, é que o humor é uma forma de manter a saúde mental. E às vezes é mesmo o humor negro que se utiliza naquelas ocasiões. E eu aprendi imenso. Eu tenho, neste momento, muitos amigos sírios espalhados pelo mundo, até inclusive em Portugal, porque nessa altura foi uma espécie de ligação que criamos entre combatentes. Não estou a comparar de todo, que eu não tenho essa coragem.

Ficaram assim uma espécie de irmãos de armas, é isso?

Exatamente.

Porque sobreviveram a uma situação limite, não é?

E onde quer que eu os encontre, a alegria do reencontro é absolutamente extraordinária. Eles, felizmente ou infelizmente, estão espalhados pelo mundo, e eu vou sempre encontrando.

Muito bem. Filipe, mas ainda não nos disse qual é o país que gostou mais até hoje.

Eu acho que há um país que-

Entre os 91

...entre os 91, que eu diria que toda a gente devia ir lá uma vez na vida. E é o Irão.

Ok.

Isto por quê? Só para termos uma ideia, uma vez eu li que há 15 climas distintos no mundo. O Irão tem 12. Dos 15, o Irão tem 12. O que quer dizer que a paisagem é completamente diferente. Eu tive a oportunidade de viajar até ao famoso Estreito de Ormuz. Eu estive na fortaleza portuguesa em Ormuz.

Ok.

E viajei, por exemplo, até Yazd, no meio do deserto. Eu estive no Golfo Pérsico, em Teerão. Ainda me falta visitar a parte mais a norte, junto ao Azerbaijão.

Mas nós, que gostamos de viajar, devemos ir ao Irão?

Agora é melhor não.

Não, agora não. Se bem que há por lá viajantes.

O Irão tem tudo. Tem história, tem arquitetura, tem um povo super hospitaleiro. Aliás, aquela zona toda, eu, por exemplo, também gosto muito de ir à Síria, porque eles também são extremamente hospitaleiros.

Já foi ao Afeganistão?

Não, é o que eu costumo dizer, falta-me para o meu bingo do Homeland Security.

Mas gostava de ir? Eu pergunto isto porque eu tenho visto muitos viajantes que estão nesta altura no Afeganistão. É verdade que para muitos deles, os talibãs proporcionam boas experiências porque estão a tentar lavar a imagem do regime, mas todos sublinham esse caráter amistoso e extraordinário que tem o Afeganistão, tal como tem o Irão. História, diversidade, receber bem, etc.

O Afeganistão, primeiro, não tenho lá amigos ainda. Quando eu tiver, eu vou.

Tem de tratar disso.

Porque eu acho que um país como o Afeganistão tem que ser visitado com pessoas locais. E eu, sinceramente, não gosto muito da experiência do guia. Eu gosto mais de ter amigos que me levam. Eu depois de começar a guerra na Síria, eu ainda visitei a Síria mais duas vezes durante a guerra.

Ok.

E uma delas até levei os meus filhos.

Boa. Extraordinário. Foi uma boa experiência?

Fantástica. Mas lá está, eu fui com a minha rede de amigos. Eu sabia onde ir, onde não ir. Aliás, eu aprendi isso quando foi dessa situação em 2011. Numa sexta-feira, eu fiz um telefonema para casa a dizer assim: "As notícias que vão sair da Síria vão ser más hoje. Não se preocupem, eu estou bem." No sábado eu telefonei: "Atenção, as notícias que vão sair agora ainda vão ser piores, mas não se preocupem que eu estou bem." E foi o dia em que fomos evacuados. Porque são coisas que uma pessoa consegue saber, desde que esteja bem ligada à rede local. Por isso é que eu costumo dizer: "Eu não visito países, eu gosto é de me infiltrar."

Ok.

E assim eu tenho informação que, digamos assim, o turista distraído não tem, nunca tem.

Ok. Se eu puser no título deste podcast: "Gosto de me infiltrar", as pessoas vão pensar que eu estou a entrevistar ou a conversar com um espião.

Às vezes pensam isso.

É, pensam?

Eu estive poucos meses antes da Primavera Árabe começar na Tunísia. Depois estive na guerra civil na Síria. Também estive no Iraque, no Irão. Estive duas semanas antes da invasão da Ucrânia, na Rússia, a andar pela Rússia. E curiosamente, uma das coisas que vi: eu ia a caminho de Kazan, aliás, estava de regresso de Kazan para Moscovo, e vejo um comboio cheio de tanques. E eu: "Olha, um comboio cheio de tanques." Ia para a frente.

Muito bem, portanto têm o meu número de telefone. Já sabem, enviem-me sempre uma mensagem para eu acautelar as minhas viagens também.

Sempre que for a sítios estranhos, é uma boa opção.

Muito bem. Filipe está na Dinamarca 15 dias depois. Não, esperemos que não.

Não. Na Dinamarca, a única coisa que tive a oportunidade foi de voar por uns minutos um ultraligeiro. Pilotar.

Pilotou?

Sim, foi giro.

Boa.

Mil metros de altitude é giro porque se vê a Dinamarca toda. E depois como é um ultraligeiro, aquilo a velocidade mínima é 40 km/h, o equivalente, então dava para saltar de nuvem em nuvem.

Ok, país muito ventoso também, não é?

Eu vi muitas eólicas lá embaixo.

É verdade. Filipe, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer o check-out?

Vamos a isso.

Vamos embora. Então vou pedir-lhe para completar as habituais frases: na minha mala vai sempre...

Seguro de viagem. Aconselho vivamente, há muita gente a viajar, a ir para sítios e depois a meter-se em despesas absolutamente absurdas, porque não tem isso.

Já preencheu a declaração?

Eu tenho um seguro de viagem anual já por causa disso.

Ok. Nunca se viu em apuros, nunca teve de recorrer à seguradora?

Já tive uma operação em Malta.

Ui, então?

Aconteceu, tive uma pedra no rim. Mas isso foi ainda mais complicado, muito rapidamente, porque eu tinha que sair no domingo.

Sim.

E tive que fazer a operação no domingo e quando o médico volta depois da operação, eu já estou a marcar o voo da Ryanair na terça-feira para ir para Lisboa, porque tinha outro voo para o Vietname na quarta-feira e eu não queria perder.

Ok.

E a minha namorada Olga ficou furiosa comigo, porque eu ia para o Vietname e para o Camboja e depois voltava por um dia para ir para a Finlândia. E fiz isso tudo.

Caramba, que globe trotter.

Pois.

Fantástico.

Mas pronto, foi uma situação que correu bem.

Lá lhe tiraram a pedra.

Tiraram a pedra.

Foi mais leve. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.

Certamente foi aquela que eu descrevi da Síria. Espero não ter nenhuma dessas outra vez.

Diga-me uma coisa, quem assiste a um momento histórico como esse, o início de uma guerra civil num país, depois fica sempre ligado a esse país ou não?

No meu caso, eu estou sempre ligado a todos os países. Porque, por exemplo, agora mesmo o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Eu tenho amigos russos, eu tenho amigos ucranianos. Quando a situação aquece na Moldávia, eu tenho amigos na Moldávia, já fui lá várias vezes. O Médio Oriente todo. Eu tenho estado em contacto com os meus amigos iranianos. Quando há mais bombardeamentos, eu pergunto sempre como é que as coisas estão, etc.

E o que é que eles vão respondendo?

É assim, eu sei que alguns deles são completamente, até se calhar a maioria deles, completamente contra o regime e outros até trabalham para o regime. Por isso eu tenho amigos por tudo. Mas eles são um povo muito resiliente. É uma das coisas que nós aqui não temos a perceção, o que é ser resiliente e às vezes nós pensamos que estarmos a ver um outro povo com os nossos olhos, com os nossos óculos, é um grande erro. E pensar: "Não, eles já estão cansados." Não, eles já passaram tanta coisa.

Que vão aguentar mais. Pois. O carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter?

Não foi um visto, foi um processo. Por quê? Porque eu decidi ir à Arábia Saudita em 2021, ainda durante o Covid, e o meu check-in no aeroporto, eu ia preparado, demorou cerca de uma hora e meia.

2021, isso foi quando a Arábia Saudita se abriu ao turismo.

Sim, eu tive um dos primeiros vistos turísticos.

Ok.

Porque eu tinha que fazer prova de não sei quantas coisas, em termos do Covid. O coitado, no aeroporto de Lisboa, que me estava a fazer o check-in, estava a ver no computador dele e depois a telefonar para Frankfurt, porque eu fui com a Lufthansa, é mais isto. E eu apresentava: "Tenho aqui". Porque eu sou um tipo muito organizadinho, então tinha os papéis todos. Eu tinha um dossiê completo para poder ir à Arábia Saudita.

O que é que lhe pediam? Vacinas, declarações?

As vacinas. Uma das coisas que eu me lembro, isso já foi em 2021, que eu tinha que ter uma app onde tinha que estar registado. Que depois eles até utilizaram essa app lá, depois eles explicaram, na Arábia Saudita, lá está, os meus amigos na Arábia Saudita explicaram-me que essa própria app agora também utilizam para multas de trânsito. Então, no fundo, é uma app do cidadão saudita.

Ah, ok.

Ou do residente saudita e neste caso, do visitante saudita. Mas foi o processo mais complicado. Não foi um visto.

Um visto. A recordação de viagem mais cara?

A recordação mais cara, eu normalmente não compro coisas caras, mas eu comprei uma vez uma coisa, a qual não teve grande resultado, que foi uma moldura no Sri Lanka, que é feito um papel que a sua origem não é a celulose, mas sim as fezes de elefante. E levei para a minha namorada e disse: "Olha, está aqui uma moldura de fezes de elefante".

Não gosta da sua namorada.

Não achou muita piada, mas foi com todo o carinho que eu ofereci as fezes de elefante.

Tem cheiro? Tem que se fazer esta pergunta.

Não, não tem cheiro.

Eu peço desculpa aos ouvintes, mas tem que se fazer esta pergunta.

Não tem cheiro, porque é papel.

Ok, é bonito.

A celulose cheira muito mal.

É verdade. Refeição mais estranha, qual foi, Filipe?

A refeição mais estranha, eu comecei a comer sem saber, foi num restaurante mexicano. Fui com amigos, e um deles é um Especialista em vinhos e comidas, etc. Ele levou-nos a um restaurante de comida pré-hispânica.

Comida pré-século XV.

Exato.

Sim, século XV.

Sim. Tinham uns tacos crocantes e eram o que eles chamam de chipolinas, que são grilos.

Sim.

Estava bom, era crocante, mas não é coisa que eu tenha que comer outra vez obrigatoriamente. Mas comi.

Tinha um bom sabor?

Muita proteína.

Muita proteína. Gostava de viajar com, Filipe?

Por acaso eu sou um ouvinte dos vossos podcasts e há duas pessoas que eu acho muito interessante em termos da sua cultura histórica aqui na Rádio Observador. Um é a Helena Matos e o outro é o Rui Ramos. Devia ser muito interessante ir a determinados sítios, por exemplo, estar lá na fortaleza em Ormuz e ter uma explicação à Rui Ramos. Isso capaz de ser interessante.

Muito bem, quem sabe um dia.

Nunca se sabe.

Tudo se pode proporcionar. Chegámos ao fim, qual foi a música, Filipe?

A música é "O Inventor" e tem uma história que é a seguinte:

"O Inventor"? Dos Heróis do Mar.

Dos Heróis do Mar.

Anos 80.

Anos 80. E é uma música que me foi oferecida por uns amigos de infância, no momento em que eu decidi, aos 18 anos, eu tinha a possibilidade de ter dupla nacionalidade, ter nacionalidade espanhola, porque meu pai é espanhol, ou ter só nacionalidade portuguesa. E na altura, curiosamente, se eu decidisse ter nacionalidade portuguesa, tinha um risco, que era fazer o serviço militar obrigatório. E eu escolhi ser português. Eu nasci português e escolhi ser português, apesar de ter que ir fazer o serviço militar obrigatório.

E fez?

Fiz 28 horas na Escola Prática de Administração Militar, porque houve muitas mulheres que apareceram lá. Mas eu gosto especialmente desta música porque uma das coisas que muitas vezes me acontece é que eu sou o primeiro português que as pessoas conhecem nas minhas conferências, nas minhas formações, porque muitas vezes eu vou a sítios relativamente remotos e que não têm esse conhecimento. Por isso eu sou um embaixador e uma das coisas que eu gosto de explicar é que a bandeira portuguesa é a única bandeira que tem a representação do mundo. Não há outra bandeira.

Tem a esfera armilar, não é?

Não há outra bandeira no mundo com uma representação do mundo. E eu dou duas explicações para isso. Uma tem a ver com os descobrimentos, o impacto que tivemos no mundo, e a outra, mais pessoal, é que para se ser um bom português, há que sair de Portugal.

Muito bem, é uma bela frase. Nós temos essa veia universalista. Muito bem. Filipe Carreira, foi um gosto. Muito obrigado por ter vindo às conversas do Fim do Mundo. Gostei muito. Vamos fechar com essa música dos Heróis do Mar, "O Inventor". Já sabe, estamos de regresso dois ou oito dias. Sejam bons e boas viagens.