Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Sejam bem-vindos. O viajante desta semana já viveu em vários países e há uns anos deu uma volta ao mundo. Quando regressou a Portugal, criou um grupo no Facebook onde se reúnem amantes e entusiastas das viagens. A partir daí, começou a organizar expedições cá dentro e lá fora e três anos depois, o grupo transformou-se em agência de viagens. Chama-se Portugueses em Viagem e o português que a lidera é o João Oliveira. Olá, João.

Olá, tudo bem?

João, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo. Onde é que tu estás agora?

Antes de mais, obrigado pelo convite a ti e ao Observador. Eu estou neste momento na Tailândia com o grupo de Portugueses em Viagem. Estamos aqui na expedição Tailândia Sete Ilhas.

Muito bem. Sete Ilhas?

Sete Ilhas.

Que ilhas são essas?

Começa em Koh Samui, são várias pequenas ilhas no Golfo da Tailândia. E a ideia por trás desta expedição é oferecer às pessoas a possibilidade de conhecerem uma Tailândia que vai além daqueles locais muito turísticos. Portanto, há uma Tailândia com uma beleza natural infinita, incrível, que muitas vezes está no imaginário das pessoas, mas se fores ver depois a realidade de alguns locais, que toda gente sonha com as fotografias que vê no Instagram, mas depois chegam lá e as praias estão invadidas por milhares de pessoas. Mas ainda existem parques naturais, ainda existe uma Tailândia mais natural e incrivelmente bonita, e é nesta expedição, é isso que nós tentamos oferecer às pessoas.

Onde há poucos turistas ou está minado também de turistas?

Está a começar. Mas ainda existe bastante autenticidade nas pessoas e existe, sobretudo, a possibilidade de estares próximo da natureza. Nós hoje na praia devíamos estar, além de nós, umas 20 pessoas, numa ilha inteira. Estivemos muito bem. E as sete ilhas, no fundo, é uma espécie de fio condutor. Vamos conhecendo estas pequenas ilhas. Duas são mesmo num parque natural incrível. E fazemos aqui algumas atividades nas diferentes ilhas, mas esse é o desenho desta expedição.

Estamos a ter esta conversa na primeira semana de novembro, aí é primavera?

Estes países não é tanto a primavera ou não, é mais a estação das chuvas ou não. Ainda conseguimos ter aqui bom tempo e as chuvas ainda não começaram, vão começar dentro em pouco, dentro de uma ou duas semanas, e depois o tempo volta a ficar bom, a época alta deles será janeiro, fevereiro.

Muito bem.

E depois em agosto, que é quando vêm os europeus, porque têm férias nessa altura. Mas apanhamos bom tempo e é um prazer.

Fantástico. Olha, Tailândia é um país que tu sugeres a que perfil de turista ou de viajante?

Olha, eu sou um apaixonado por todos os países. Eu acho que não é tanto o país para o perfil, eu acho que o que as pessoas têm que fazer quando viajam é porem um bocadinho de parte o seu perfil. Acho que a viagem faz sentido quando nós saímos da nossa zona de conforto e saímos das nossas pré-definições e vamos à procura do algo novo. E isso nós temos em todos os países. Os países são linhas inventadas. Há um poeta qualquer que escreveu que disse isto, e é um bocado verdade, as fronteiras, esta ideia que nós temos, estes estereótipos que nós criamos para os sítios. O planeta é só um, a humanidade é só uma, e o que é giro na viagem é a pessoa deixar para trás os seus estereótipos, os seus pré-conceitos, os conceitos que tinha, e partir à descoberta. Nesse sentido, eu ainda não estive em nenhum destino que não encontrasse algo que me fascinasse. À partida, não é por uma pessoa me dizer que tem uma determinada idade, ou um género, ou uma profissão, que eu acho que aquele destino é para aquela pessoa, que aquele destino é para outra.

O mundo tem algumas particularidades. Vamos explorá-las mais à frente. Vamos só recuar até 2008, o ano em que arrancou a tua volta ao mundo de dois anos. João, em que contexto é que se dá esta grande viagem na tua vida?

Eu estava num gap entre duas empresas, estava a sair de uma e estava a ser convidado para outra. E tinha aqui a oportunidade de aproveitar esse gap para fazer um sonho que já tinha há muito tempo, que era dar a volta ao mundo.

O que é que fazias na altura?

Sempre viajei muito. Eu trabalhei na indústria farmacêutica, sou veterinário de formação. Estudei pouco tempo na faculdade, depois trabalhei na indústria farmacêutica e foi neste gap entre uma e outra que eu fui realizar esse sonho, que era dar a volta ao mundo.

Volta ao mundo.

Porque já tinha feito muitas viagens, muitas vezes, como agora recebo os meus clientes, viagens de 15 dias, um mês, e sentia muita vontade de fazer algo com mais tempo.

Nunca chega, não é? O tempo nunca chega.

Nunca chega. Nunca chega e não deve chegar. E essa é a magia da viagem. Mais do que um somatório de destinos, mais do que um somatório de locais fascinantes ou de países, ou de troféus que as pessoas às vezes embandeiram: "Ai, fui aqui". O que eu senti na volta ao mundo foi uma sensação de liberdade plena.

Mas como é que se dá essa decisão de ir viajar durante dois anos pelo mundo? Estavas entre empregos, não é?

Quando eles me disseram que só me davam aquele tempo, eu disse: "Não, então não volto. Não é isso que eu quero". Quando pude experimentar esta liberdade absoluta, porque há uma altura que é liberdade absoluta, depois para o fim já não é tanta, porque começa a acabar o dinheiro e a pessoa começa a pensar que tem que regressar à vida comum. Mas há ali um momento em que sim.

O vil metal a mandar em nós, não é?

Exatamente. Mas há uma altura em que sim, em que somos plenamente livres, em que não há uma data de regresso, em que todos os caminhos estão abertos e em que deixamos para trás, não só fisicamente, as condicionantes que temos, os nossos amigos, o nosso universo, que nos mantém um pouquinho a sermos sempre quem somos, e estamos rodeados de pessoas novas e de maneiras de pensar novas. Deixamos para trás tudo isso e começamos a descobrir nós próprios, ficamos também nós mais plenos.

Era uma coisa que tu querias mesmo muito fazer, dar uma volta ao mundo. Quando te despediste, tinhas na altura 40 anos.

Não, 33.

33, ok.

33 anos.

Muito bem. 33. Já se tem alguma maturidade, não é? Com 33 anos já não queremos viver o que se vive aos 22 ou aos 20 e poucos. Já se tem alguma experiência.

Sim, e eu acho que isso é superimportante, por acaso.

Pois, era por aí a minha pergunta.

O que eu te posso dizer é, por um lado, obviamente, eu não sou de famílias abastadas e, portanto, as primeiras viagens que fiz foram todas na Europa, foi Interrail e foi quando eu trabalhava em part-time como estudante, para conseguir dinheiro para viajar nas férias e fazer essas viagens em part-time. As minhas grandes viagens vieram mais tarde. E isso, ao mesmo tempo, tem um lado positivo, que é quando nós já somos um homem, sendo um homem ou uma mulher mais maduros, isso permite-nos, porque a componente mais interessante da viagem é compreender o que está a acontecer à nossa volta e é saber interagir com as pessoas. E para isso, uma certa maturidade humana é um enorme ajuda.

Porque aos 20 queremos outra coisa.

Aos 20, se calhar, só nos queremos divertir e não é que não faça sentido. O que eu acho é que quando temos uma certa maturidade, como noutras áreas da nossa vida, em que já sabemos ler as pessoas e ler as situações com maior profundidade, e isso pode nos tornar, por exemplo, permite-nos ajudar as pessoas de uma forma mais eficaz, permite-nos ser mais assertivos conosco próprios, com os outros. Se isso for feito mais tarde, a viagem, com certeza, também eu acho que acaba por chegar-nos mais longe.

Muito bem.

Viajar aos 33 anos, acho que ao mesmo tempo acabou por ser bom.

Foi positivo no teu caso.

Foi na altura certa.

Ótimo. Foi na altura certa. Muito bem. E as pessoas lá em casa estão agora a perguntar: "Então, mas para onde é que ele andou? Onde é que ele foi?" Vamos lá, saíste de Alcochete dizendo adeus ao emprego que tinhas na altura e foste para onde, João?

Olha, eu comecei pelo Irão.

Irão, por alguma razão especial ou calhou?

A ideia era ir a vários destinos que eu sempre tinha sonhado e que me ofereciam, e sempre com esta componente da diferença e de sair da minha zona de conforto.

Na altura pareceu-te assim o mais radical ou o mais exótico.

Era um país que eu sabia pouco, sabia a parte histórica e quanto mais lia, mais me apercebia da sua enorme importância e riqueza histórica. Sabia que vivia num sistema político opressivo, em que temos aqui uma mistura que é sempre muito pouco sã da religião com o poder, e tinha muita curiosidade em conhecer e em perceber como é que as pessoas vivem, como é que elas pensam, como é que elas olham para nós. E portanto, o Irão era um dos destinos que eu tinha em mente.

Surpreendeu?

Surpreendeu bastante e continua a surpreender. Uma das coisas que os meus clientes me dizem é que eu continuo fascinado com os destinos que faço e com os sítios onde vou, porque às vezes é a mesma coisa que o Irão continuar a ser um destino dos portugueses em viagem. É um pouco como se alguém te perguntasse a ti se tu não te cansas do teu melhor amigo ou da tua namorada.

Ou dos filhos.

A gente não se cansa. As pessoas têm sempre coisas interessantes a conhecer e nós vamos conhecendo novas facetas e a nossa relação com as pessoas vai se enriquecendo. E o mesmo acontece na minha relação com os países.

É sempre a somar, no teu caso.

É sempre a somar. Na verdade, é sempre, mesmo sempre a somar.

É sempre a somar. És uma pessoa bastante otimista e positiva. És?

Não sei.

Não sabes.

Somos sempre maus juízes em casa própria, mas posso te dizer que é sempre a somar.

Ótimo. Então depois do Irão, seguiste para onde, João, nessa volta ao mundo?

Foi a Índia, que também é um dos destinos dos portugueses em viagem hoje em dia, e que foi uma viagem fascinante. Aí também somos atirados para fora.

Quanto tempo estiveste na Índia?

Eu penso que estive um mês. O meu plano era normalmente um mês por destino. Houve alguns que foi menos, houve outros que foi um pouco mais, mas era sempre mais ou menos este plano. E também te vou dizer uma coisa que acho que foi importante. Eu defini para mim próprio cinco ou seis objetivos centrais, que tinham a ver comigo. Por exemplo, ir ao Taj Mahal, ir ao Irão, ir à Austrália. Tinha assim alguns pontos que eu queria mesmo ir. E o resto era feito pelo caminho. Ou seja, por um lado, havia uma certa estrutura na minha organização, "eu vou aqui, esta é a minha direção", mas havia também espaço Para tudo incrível poder acontecer e que eu ainda não sabia. Ou seja, para aceitar o convite: "Olha, não queres vir conosco?".

Deixa-me ver se percebi. Saíste de Alcochete com o Irão e a Índia na mira. Alguns sítios no Irão.

E mais alguns. O Peru, a Austrália, a Tailândia, onde estou agora.

Depois o resto era a viagem que levasse. E levou-te a situações e a viver experiências que estavam fora do guião, João Oliveira?

Quase todos os dias.

E que possas partilhar aqui na rádio.

Pois, não sei. Eu por acaso acredito num mundo em que se devia poder partilhar tudo.

Podes, aqui podes tudo.

Sim, acho que sim. Muitas experiências bonitas, muitas pessoas bonitas, muitas histórias de amor.

Apaixonaste-te na viagem?

Várias vezes.

Várias vezes.

Sim. Eu acho que isso faz sempre parte de uma viagem.

É ou não é?

É, faz sempre parte de uma viagem. E, portanto, se a pessoa está livre, vais sempre encontrar, com certeza, pessoas fascinantes, porque também estão livres, porque também estão a viajar. Só aí é logo um filtro enorme.

Claro.

E depois há ali um contexto de afastamento. Portanto, não é de todo difícil que tu vivas uma relação bonita, seja ela de alguns dias, de algumas semanas, mas isso vai acontecer. E ainda bem que acontece.

Claro que sim.

São sempre das melhores memórias que nós podemos trazer de uma grande viagem.

Claro que sim. Então vamos voltar aos imprevistos, àqueles imprevistos positivos.

Também não eram imprevistos.

Pois, sim, claro.

E também são positivos.

Sim, é verdade.

Não foi nada planeado.

Exato. A pergunta ia tentar fazer a ponte para coisas mais materiais e mais corriqueiras, que não são corriqueiras, mas imprevistos surpreendentes ao longo da viagem, que estavam fora do guião, João.

Eu nem me lembro de tantos, mas porque o que é importante é o modo em que tu estás. E se o modo em que tu estiveres é o modo de descoberta, de conhecer, de dares chances a pessoas diferentes de ti, de as escutares. Hoje em dia, vê-se muitas pessoas a dizer assim: "Eu não gosto de jazz" ou "só gosto disto", ou "só gosto daquilo", e fecham-se ali num conjunto de coisas. E em viagem é muito importante deixar isso para trás. E conhecer alguém que nos diz: "Olha, vou a um concerto de música clássica, queres vir?" E a pessoa nunca foi e disse: "Vou". E mesmo uma rejeição, mesmo um monte de coisas que eu experimentei, que conheci e que percebi que isso não é para mim, isto não sou eu.

Mas viveste-as. Isso é importante.

Isso é um autoconhecimento. E, portanto, é esse deixar fluir. Agora, isso levou-me a imensa gente, imensas histórias, desde um marajá na Índia. Eu acabei por tomar café com um marajá na Índia e entrevistá-lo para o Jornal de Alcochete. Eu escrevia uma crônica no Jornal de Alcochete de 15 em 15 dias.

E entrevistaste o marajá, foi?

Sim, é super divertido, porque eu conheci um rapaz. Ouve esta história. Eu conheci um rapaz que era professor de inglês, ou era assessor de inglês do marajá. E disse-me que ele era muito conhecido e que já tinha sido entrevistado nos Estados Unidos, etc. E eu disse-lhe: "Eu escrevo para um jornal em Portugal, dá-me o teu contacto, que eu gostaria de entrevistá-lo." E o senhor aceitou. Eu acho que ele não sabia que estava a dar entrevista para o Jornal de Alcochete. Mas o mais que me divertiu foi escrever o artigo.

Alcochete que para um indiano é um bairro.

Não sabe onde é. Mas literalmente o mais divertido foi eu escrever: "Depois da BBC, depois da CNN, o marajá Manveya aceitou."

Era entrevistas em bateria, portanto, ele estava a dar entrevistas para várias órgãos.

Aceitou a entrevista exclusiva.

Para o Jornal de Alcochete, com o repórter João Oliveira.

Eu não sou repórter, sou jornalista. Mas esse tipo de situações diverte, porque isto é são, é saudável e é divertido.

Claro que sim.

Foi divertido para mim, foi divertido para quem leu.

O que é que se pergunta a um marajá indiano? Ou o que é que perguntaste, João? Ainda te lembras?

Nem me lembro bem da conversa. Aqui perto não tenho a crônica. Ficámos amigos, ficámos em contacto. E lembro-me da cena que era como é que eu me vou vestir, porque eu estava já em viagem há não sei quanto tempo e não tinha roupa decente nenhuma. E então assim: "Eu tenho que estar minimamente apresentável para falar com o marajá."

Sim.

Lembro-me perfeitamente de pensar: "Vou vestir aqui uma camisa mais ou menos e vou pôr um grande sorriso e vou falar com o senhor."

E foste comprar roupa para entrevistar o marajá?

Depois vou te dizer, eu viajo sempre com uma camisa que deve ser, e essa é uma das histórias que ilustra a importância de ter sempre uma camisa decente contigo, lá no fundo da mochila.

Muito bem, vamos deixar isso para a segunda parte, porque estamos a ficar aqui já curtos de tempo na primeira parte. Ainda temos o álbum de viagem. Vamos então abrir o álbum de viagem. João, guardas algum objeto que seja especial e que tenhas trazido das tuas viagens?

Olha, o que eu te posso dizer é que acaba por ser a minha casa toda. Eu tenho a casa toda forrada, é uma idiossincrasia minha, quem lá vai. Eu tenho a casa toda forrada com fotografias e objetos que trago dos países que visitei. Já quase não tenho espaço. Quando acordo de manhã, sinto-me rodeado com a boa energia destas viagens todas. E embora se me perguntares se eu vou a um hotel ou a um sítio, eu até gosto de uma decoração super clean e gosto da simplicidade das coisas, mas em casa vivo completamente rodeado de objetos do mundo inteiro.

Integram-se.

Tenho desde estátuas. Sim, no fundo está ali a minha história ou a parte melhor da minha vida. E isso é um prazer. Embora aquilo não seja, do ponto de vista, se quiseres, estético ou do design. Mas funciona, as pessoas adoram quando lá vão. Mas, de facto, a casa toda é o meu álbum de viagem, como tu dizes, e portanto eu não te consigo isolar um objeto só.

Ok. João, há pouco deixámos ali pendurado o percurso da tua viagem de volta ao mundo. Começaste no Irão, depois foste à Índia, sei que foste ao Peru, por onde é que andaste mais?

Assim muito breve, da Índia fui para os Estados asiáticos, cheguei à Austrália, da Austrália a Estados Unidos, desci pela América Central e depois um pouco da América do Sul. Depois do Rio de Janeiro, vim a Portugal passar o Natal e depois fui para a África. Esta foi a minha viagem de volta ao mundo, que se estendeu por muito mais do que os seis meses.

Muito mais do que os seis meses?

Dos seis meses que tínhamos falado na primeira parte.

Portanto, a tua ideia era seis meses, acabaste por ficar a viajar dois anos, não foi?

Dois anos ou três, depende muito, porque houve ali uma fase já no final em que eu trabalhei. É um pouco diferente quando nós estamos a trabalhar e a viajar. É uma forma diferente, depois depende se queres ou não integrar isso na minha grande viagem.

Fizeste esse interregno para vir a Portugal passar o Natal. Quando chegaste, sentiste que trazias um olhar novo ou uma perspectiva nova do mundo e da vida? Os teus amigos, a tua família, disseram-te que vinhas diferente? Partilha comigo e connosco, João.

Olha, eu não acho que nós fiquemos tão diferentes quando viajamos. Ficamos melhores, aperfeiçoamo-nos, desenvolvemo-nos. Portanto, aquela base que é o que nós somos, a nossa identidade, que é aquilo que os nossos familiares nos conhecem, etc, essa está lá. Eu apareci de surpresa na véspera de Natal, abri a porta e estava eu.

Imagina o choque.

É uma coisinha.

Choque positivo.

Exato, também é. Claro que sim. Mas eu não acho que tenha mudado. E não acho que as pessoas mudem. Acho que as pessoas crescem mais.

Ok.

O exemplo que eu costumo dizer é, às vezes, isso até no contexto profissional, se calhar, tu já tiveste em equipas que havia uma pessoa que quase não se dava por ela, mas quando mudou o chefe ou mudou a equipa, quando mudou o contexto, aquela pessoa desabrochou. Portanto, eu acho que isso muda. Muito, o contexto é muito importante.

O contexto é muito importante. E qual foi o país que te acrescentou mais, João?

Eu aí volto àquela tua questão inicial. Não há nenhum país. Nós estamos obcecados com os países, os países não interessam. O que interessa mesmo é andar por todos eles.

Há países onde te sentiste muito bem e outros onde te sentiste menos bem.

Sabes qual é a minha experiência? Porque com este trabalho dos "Portugueses em Viagem", regresso aos países. Tenho a oportunidade de regressar repetidamente, várias vezes, com pessoas diferentes e em épocas diferentes, etc. E acompanhar até a evolução dos países. E o que eu sinto, muitas vezes, os motivos de uma pessoa gostar mais ou gostar menos de um país, ou gostar mais de uma cultura ou menos de uma cultura, são interiores, são da própria pessoa, não tem a ver com o país em si. O que é, de facto, importante, não é que eu tenha um país que eu possa dizer: "Ah, é que o país mudou-me". Não. O que me mudou foi exatamente o viajar com o tempo através de países muito diferentes entre si. É essa mudança que nos permite perceber o que é de comum e perceber o que é precioso em determinado local, e precioso em determinada cultura ou em determinada forma de pensar.

Então, o que é que nós temos em comum, todos os países?

O ser humano. Sabes que uma das coisas que eu acho mais triste no turismo é as pessoas que o fazem de uma forma zoológica. Zoológica é quando tu vais a um jardim zoológico e estás a ver os animais. "Olha, como aquele pinguim anda para a direita", ou "olha aquele animalzinho, como o leãozinho sobe para as costas da mãe". E as pessoas às vezes viajam e descrevem o que estão a ver. Repara, estão num país qualquer: "Olha, já viste como é que ela caminha à frente do marido?", ou "o marido é que leva o filho". É preciso ver além disso, é preciso ver além dos fatos coloridos, que são muito interessantes culturalmente, as cores dos fatos, mas há algo muito mais interessante além disso. Tem a ver, por exemplo, com o pensamento, um país em que as pessoas, por exemplo, nós temos aqui os países judaico-cristãos que acreditam no inferno, têm a culpa, etc. Um país em que não há culpa, por exemplo, têm formas diferentes de agir. Um país em que acredita no carma. Cada cultura tem uma filosofia e essa filosofia tem algumas pedras-

Basilares

...basilares importantes, que vão determinar mesmo a forma como as pessoas encaram alguns pontos centrais. Justifica os seus comportamentos.

Claro. E a diferença, não é? Daí sermos todos diferentes uns dos outros.

Tenho um cliente meu que disse uma coisa muito engraçada: "João, se as pessoas fossem todas diferentes e únicas, como todos achamos que somos, eu não tinha trabalho". E é verdade. Nós não somos assim tão diferentes uns dos outros. Nós todos seguimos aqui uma série de coisas que são determinados, que são influenciados por essa cultura, essa história. Só saindo é que tu ganhas insight sobre isso, sobre ti próprio, sobre a tua cultura, é que tu percebes. E o ganhar insight não é rejeitar. Há imensas agências que escolhem nomes ingleses, acho uma palermice. Nós somos viajantes portugueses, somos portugueses em viagem. Eu gosto muito de ser português. E vivo muito a minha cultura e defendo muito a bica e o pastel de nata. Não tenho nada a ver com isso. Mas o insight é muito positivo.

E o viajar, ir para fora, faz de ti um português mais orgulhoso ou nem por isso?

Faz de mim um português, sim. Eu não diria daquele orgulho bacuco ou lazarento. Diria que é um orgulho, sobretudo, nós, de alguma forma, a nossa cultura sempre prosperou quando não ficamos fechados aqui em Portugal.

No cantinho.

Sim. E é, de facto, motivo de orgulho. Eu tive, mesmo em contas profissionais, etc, chegar a sítios e perceber como ser português, que ter a proximidade cultural que nós temos com uma fatia significativa do planeta, é um privilégio. É um enorme privilégio. Há heróis, há portugueses fantásticos. Não é só o Vasco da Gama e o Pedro Álvares Cabral. Há histórias de portugueses fantásticos, incríveis, que estão por contar, que até estão nas crónicas, mas que não são populares, de tipos que fizeram coisas incríveis em África, sobretudo na Ásia, etc. E essas histórias, por exemplo, são fascinantes.

Muito bem. Fascinante foi também a tua viagem à Síria em 2018, em plena guerra civil neste país do Médio Oriente. O que te levou a visitar a Síria em plena guerra civil, João Oliveira? Loucura?

Foi muito crítica. Não, eu tenho um defeito grande, que é gostar mesmo de ter a minha opinião. E sinto muitas vezes que a informação, isso eu faço mesmo no dia a dia. Eu não me contento em seguir um órgão de comunicação social ou um cluster de órgãos de comunicação social. Eu acho que é muito importante as pessoas procurarem diversa informação. Não é que a verdade esteja no meio, às vezes a verdade está mesmo só de um dos lados, mas ajuda-nos a compreender o que está a acontecer no mundo ou num país, e eu tenho que fazer isso para o meu trabalho. Atenção, mesmo. Portanto, ajuda-nos a compreender termos de fontes de informação diversificadas.

E era isso que faltava no caso da Síria? Era necessário ir lá para perceber?

Por um lado, sim, e por outro, porque eu acredito que o turismo é a indústria da paz. E há algo que eu acho que os Portugueses em Viagem me oferecem é poder ter viagens e destinos que fazem a diferença. E na altura, eu acredito que a Síria, de alguma forma, vai encontrar o seu caminho para a paz, tal e qual como a Ucrânia. E em ambos os países, eu espero que os Portugueses em Viagens estejam na linha da frente a apoiar esses países, a apoiar os Joões Oliveiras que moram lá, que são empreendedores, que têm um hotel, que têm um restaurante, que eram guias, etc. E apoiar essas pessoas com o trabalho, que é uma forma extremamente digna de ajudar as pessoas.

Claro que sim. Mas gostava que me falasses da Síria, João.

O que eu achei? Olha, foi isso que mais me impressionou.

Quanto tempo lá estiveste e o que é que viste?

Estive cerca de nove dias. O que eu fiz foi estabelecer contactos com outros agentes, com agentes de viagens e com as estruturas locais, no sentido de quando isto estiver em paz, eu quero trazer pessoas aqui e como é que podemos fazer. E o que eu senti foi o enorme poder da esperança.

Mas o que é que viste? Um país já destruído, não é? Muitas cidades destruídas, bombardeadas.

Vi de tudo. Vi a diferença entre o que se ouvia nos media e o que se passava lá, porque havia diferenças. Vi um país, mais do que país, vi pessoas muito resilientes. Isso impressionou-me muito. Vi muitos colegas da profissão. Espero que dê tempo para contar uma história. Vou contar uma história. Muito rápido, porque eu ia mostrar uns mosaicos, que são muito famosos, do Apolo, perto de Damasco. E eu fui lá, fui com uma guia local e aquilo foi super importante. Eu percebi, porque aquela mulher, durante os vários anos da guerra, deixou de ser guia e sofreu tudo o que possamos imaginar. Mas ela recebeu uma chamada através de um colega: "Há aqui um português, ele quer começar a trazer pessoas cá quando estiver em paz, tu podes lhe mostrar as ruínas". E ela vai. E eu percebi, isto é trabalho normal, mas eu percebi como isto era importante para ela, porque no fundo era o poder da esperança, como eu estava a dizer. E quando chegámos lá, descobri que foi preciso pedir as chaves, foi toda uma série de peripécias para conseguir abrir o museu e quando chegámos ao museu, os mosaicos não estavam lá. Tinham desaparecido. E naquele minuto, aquela mulher Eu senti, caiu tudo. E ela agarrou, é quase comovente, agarrou num postal cheio de pó que estava na entrada do museu, como há muitas vezes nas entradas dos museus, pra vender nas souvenirs, que tinha sobrado após tudo. E começa-me a fazer a visita com o postal, porque ela precisava de fazer a visita, porque esse era o seu papel, ela precisava de fazer aquela visita. E eu, com o nó na garganta, também percebi que eu precisava, naquele momento, de ser o colega interessado que está a aprender sobre o destino, embora não tivesse nada interessado nos mosaicos e tivesse só a tentar segurá-la no seu papel. Isso e outras cenas. Lembro-me de chegar uma vez a uma igreja que tinha sido completamente destruída pelo Daesh. A senhora tinha impresso em cores fotografias das coisas que tinham sido destruídas pelo Daesh e tinha colado na parede. E foi isso que ela mostrou. E eu, ao mesmo tempo, acho tudo isso como uma norma comovente, é uma forma de resiliência. E eu senti o poder da esperança e eu acredito muito nisto. É o poder de tu, com o teu trabalho, ou com as skills que tu já tens, tu em vez de estares a fazer um destino que já não precisa de ajuda, fazeres um destino em que há pessoas que dessa forma vão ter emprego, que dessa forma vão ter rendimentos e com aquela dignidade de não ser uma coisa dada, não ser caridade, mas é um rendimento ganho com o seu trabalho, com horários, com responsabilidades. Isso é uma forma muito bonita de trabalhar.

Muito bem.

E o turismo é isso, tenho que te dizer isso. O turismo é a indústria da paz. É a primeira coisa que as ditaduras fazem, se reparares, de esquerda ou direita, é tirar os passaportes das pessoas. O turismo é a indústria da paz, é sempre um sinal, se permite às pessoas conviverem com culturas diferentes, é uma forma incrível, por exemplo, de passar o empoderamento das mulheres.

É verdade.

Podem fazer 5 mil palestras, mas só o comportamento de um dos meus grupos, da forma como as mulheres estão, como as mulheres se comportam perante os homens, junto aos homens, é quase por osmose. Estamos a passar um conjunto de valores que são importantes. Portanto, eu acredito nisto. E daí ter o prazer que tenho no que faço.

E estamos a chegar ao final do programa. Vamos fazer check-out, João?

Sim, tem que ser.

Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases. Peço-te que sejas curto e rápido. Na minha mala vai sempre...

Uma camisa decente.

Uma camisa decente, porque nunca se sabe, pode aparecer por aí um marajá pra entrevistar, não é uma história que tu contaste na primeira parte.

Exatamente. E as coisas autênticas não são só as pobrezinhas. Há sítios autênticos que exigem uma determinada apresentação e nós temos que estar preparados pra isso também.

A viagem com mais peripécias?

Eu diria que foi, por uma questão de ser a mais extensa, a volta ao mundo.

A volta ao mundo. O carimbo de passaporte mais difícil de obter até hoje, qual foi?

Foi o Irão mesmo.

Onde tudo começou na volta ao mundo, não é?

É engraçado. E sabes como é que eu consegui o visto? Porque eles não davam o visto. Na altura, tinha que se pedir em Lisboa, era um processo. Também se pode pedir em Lisboa, mas o processo era muito complicado. Não me queriam dar o visto e só me deram o visto quando lá fui pedir o passaporte. Ele perguntou porque é que eu já não ia ao Irão. Eu disse: "Olha, eu não vou ao seu país. Eu tenho estes países todos do mundo pra ver e eu escolhi o seu. Não acredito no que dizem na televisão. Mas se, de facto, vocês não querem que eu vá conhecer o seu país, eu vou à Turquia, vou a outro país qualquer". E ele pegou no passaporte, foi cinco minutos lá dentro e deu-me o visto, e ainda bem.

Temos ali um chantagista emocional. Senhor embaixador, carimbo já isto.

Não é chantagista emocional. Eu senti mesmo isto. Eu não vou estar a pedir, eu quero ir. Eu respeito o teu país, respeito a tua cultura e eu podia acreditar no que dizem na televisão e achar que vocês são todos maus e não ir lá. Eu quero ir lá conhecer o teu país. Então, se não queres, eu não vou.

Fizeste bem.

Mas pronto, afinal.

A recordação de viagem mais cara?

A recordação de viagem mais cara é uma sandes de bife em Tóquio que me custou €160.

Bife de quê?

De uma vaca sagrada qualquer. E a história é que foi comida num tipo tasca.

Sim.

E eu enganei-me, porque eu fiz o câmbio e li €15. E pensei: "Olha, €15 não tá caro". E quando veio a conta, até doeu. Eu só de ver: "Eu não acredito nisto, eu não acredito que vou pagar isto". E era mesmo o preço, eu não fui enganado, eu é que me enganei a mim próprio. Ainda hoje me rio. Eu estava com um amigo meu, o Paulo. Ainda hoje nos rimos imenso desta história, mas de facto é a minha recordação. Ainda por cima é virtual, mas é a minha recordação mais cara de viagem. Sem dúvida.

E olha, e a refeição mais estranha?

Tubarão podre, que é um prato tradicional na Islândia. Eu tive uma namorada islandesa e minha sogra, como todas as sogras, amorosa, como elas são sempre, fez questão de reunir a família toda pra assistir ao João a provar tubarão podre. 99% das pessoas normais tomam aquilo e não conseguem, deitam tudo fora. E ela achou que era um show divertido.

E comeste?

Eu de facto tentei. Eu tentei, mas não faço parte do 1% da humanidade, ou 0,01%, que gosta daquilo. Mas pronto.

Tá valendo.

Tentei. O amor é assim.

É isso. Olha, gostavas de viajar com

Eu gostava de viajar com o Barack Obama. Vou explicar porquê. Ele tem um livro fantástico, muita gente já não se lembra, que é das histórias do meu pai, que é uma viagem que ele faz às suas origens. Nesse livro, além de eu achar muito interessante a forma como ele descreve a viagem, ele também fala das viagens que fez antes. Ele foi backpacker também, andou de mochila às costas pela Europa. Eu escolhi esse livro exatamente por isso, porque acho que, seguindo o que falámos há pouco, as viagens tornam-nos maiores. É muito difícil tu encontrares um grande líder que tenha sido positivo no mundo, que não tenha viajado. Normalmente é o oposto, aqueles que vêm com umas ideias que depois nos arrastam todos para a escuridão, normalmente nunca foram a lado nenhum. Ao leres este livro, tu consegues perceber de uma forma muito clara o humanismo dele e como ele ganhou no fundo de ter nascido num sítio, de ter sido criado na Indonésia, etc., e depois revelou-se um bom presidente. E o livro fascinou-me. E tem uma coisa que eu também gosto, deixa-me só dizer isto, é que é raro tu encontrares um livro de viagens que, ou muitas vezes ou são muito técnicos a descrever: "Agora vais aqui, agora vais ali", ou são muito egocentristas: "Eu isto, eu aquilo". Este livro consegue sair disso e consegue acrescentar algo mais. Eu gostei muito do livro, viajar é uma excelente forma de conhecer alguém, portanto se o Barack Obama me convidasse para viajar com ele, eu aceitaria com muito gosto.

Muito bem. Senhor Barack Obama, se estiver a ouvir este podcast, aceite o desejo do João Oliveira. E vá com ele ao Quénia.

Obrigado, João.

Ora essa. Olha, João, chegamos ao fim. Que música escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana?

Ainda nesta onda um bocado dos Estados Unidos, a "I Wish" aquela da Nina Simone, "I wish I knew how it would feel to be free".

Muito bem.

Eu gosto muito dessa música, além da letra, que tem a ver com o que estamos aqui a falar. Só tenho de contar isto: eu vivi na Guiné-Bissau e lá punha música. Eu tinha lá um acordo com uma discoteca e punha música, era o DJ tuga. E eu lembro-me perfeitamente de pôr a Nina Simone. E quando coloquei a Nina Simone, eles não conheciam. E lembro-me perfeitamente de ver uma discoteca cheia de pessoas, com algumas centenas de pessoas, e de perceber que a plateia não estava bem a perceber. Mas de repente, a Nina Simone entrou neles e eu começo a ver as pessoas a reagir à letra e ao ritmo. E a casa foi ao delírio. Foi o mesmo momento épico.

Mandaste a casa abaixo.

Foi absolutamente incrível. E portanto, é a música que eu escolhi, até porque a letra acho incrivelmente bonita e até porque a Nina Simone é outra que também viveu em vários sítios e viajou bastante, e só lhe fez bem. E portanto, escolhi esta música para nos despedirmos.

Muito bem. João Oliveira, obrigado, foi um gosto.

O prazer foi meu, João. Muito obrigado pelo convite.

Boa continuação de viagem pela Tailândia. Corra tudo bem.

Obrigado.

Obrigado. Nina Simone a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Regressamos na próxima semana neste horário. Já sabem, sejam bons e boas viagens.