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Muito boa tarde. Com a aproximação do verão e os avisos das autoridades a apontarem para um ano de risco de incêndio agravado, a prevenção florestal assume aqui contornos de máxima urgência. E hoje vamos falar de uma resposta concreta a este desafio. O Lidl Portugal acaba de anunciar um financiamento de €100.000 à WWF Portugal para uma intervenção urgente de gestão florestal e prevenção de fogos numa parcela de 25 hectares da Mata Nacional do Valado, no distrito de Leiria. E para percebermos o alcance deste projeto, tenho hoje comigo, em estúdio, Vanessa Romeu, Head of Corporate Affairs do Lidl Portugal, e Catarina Grilo, diretora de conservação da WWF Portugal. Muito bem-vindas às duas, obrigado por terem vindo à Rádio Observador. Vanessa, começaria aqui por si. O cenário atual na Mata do Valado pedia uma intervenção rápida antes deste calor do verão, que já até se tem feito sentir nos últimos dias. O que levou o Lidl Portugal a atender prontamente a este apelo e assumir um financiamento integral de uma operação de €100.000?

É verdade. Por um motivo muito simples, porque, de facto, no Lidl, nós acreditamos genuinamente que cuidar da biodiversidade é cuidar do nosso futuro. E acreditamos em investimentos que são reais, em ações concretas e, acima de tudo, que sejam oportunas, como é o caso que estamos a verificar aqui hoje. Na prática, nós somos um retalhista alimentar, um supermercado. E o nosso negócio é vender alimentos. Portanto, isso está intimamente associado à necessidade de cuidarmos do ambiente, dos ecossistemas, das plantas, dos insetos, dos animais, para garantir que, de facto, no futuro, nós conseguimos ter alimentos com qualidade. Neste caso em particular, no caso concreto de Leiria, esta é uma região que tem sido muitíssimo fustigada.

E não só por incêndios, infelizmente.

E não só por incêndios, mas as tempestades que tivemos em janeiro e fevereiro, de facto-

Podem ter aqui um impacto, não é?

Podem ter um impacto e há um conjunto de alertas no sentido de que estamos a chegar a uma situação crítica. Por isso, para nós fez todo o sentido podermo-nos aliar à WWF e ao ICNF para contribuir, neste caso, através deste financiamento, para a limpeza numa primeira fase, para prevenir e evitar incêndios, e numa segunda fase, o restauro daquele espaço.

Catarina Grilo, a WWF Portugal assume agora a execução deste projeto. Pelo que percebi, vai durar cerca de um ano. O trabalho técnico arranca de imediato. O que é que vai ser feito concretamente nesta primeira fase para travar este risco de ignição e a acumulação crítica de madeira seca, que este sim, é o resultado um pouco das intempéries?

Sim, nesta primeira fase, aquilo que já está a acontecer, aliás, no terreno, pela mão do ICNF, e bem, é a remoção destas árvores que foram mortas e que tombaram.

E ficam mais secas também por causa disso.

Exatamente. E então agora com estes dias mais quentes, isso também é uma preocupação por elevar o risco de incêndio. Portanto, essa é a primeira fase. Depois há uma fase subsequente, que é também remover espécies invasoras. Nas zonas onde se retirou esse material lenhoso e onde também se vai remover espécies invasoras, nomeadamente a acácia, vai-se fazer plantação do pinheiro-bravo, porque toda aquela zona é uma plantação bastante antiga de pinheiro-bravo. E há outra zona, mais perto da orla do Monte de São Bartolomeu, onde se vai adensar com outras espécies autóctones, como o medronheiro.

Já tinha uma pergunta também a propósito disso mesmo, mas, Vanessa, há aqui um detalhe muito interessante sobre a origem desta verba. Este valor de €100.000 resulta diretamente do sucesso da venda daqueles conhecidos sacos de compra solidários, que até tinham uma ilustração de uma tartaruga, correto?

Exatamente.

Era isso. Ou seja, há aqui uma ligação direta entre o compromisso dos vossos clientes e também a vossa agilidade em responder a esta urgência.

É exatamente isso. E talvez isso seja a parte mais bonita deste projeto. Porque quando nós lançamos o saco com a tartaruga e com o logotipo da WWF, e assumimos este compromisso de restaurar ecossistemas. No arranque, não sabíamos até que íamos conseguir angariar e, portanto, não havia um plano exato. E a nossa agilidade, de facto, advém da capacidade de: há aqui uma necessidade concreta, neste caso, que advém das intempériesE vamos atuar. Já atuamos no Parque Nacional Peneda-Gerês no início do ano. Estamos com um programa de restauro há cinco anos e agora temos esta oportunidade também de contribuir para evitar que os incêndios levem a melhor.

Sim, estamos todos à espera que este ano seja péssimo e todos a desejar que não aconteça. Catarina, voltando um pouquinho a essas fases do projeto, fiquei curioso, porque depois desta limpeza entra então o restauro ecológico. Como é que a plantação de espécies autóctones, como medronheiro, carrasco, aderno, ajuda a criar uma barreira natural contra as chamas?

Primeiro que tudo, é mais pela substituição do material lenhoso seco que isso vai acontecer. Substituímos matéria seca por matéria viva, que à partida tem menor risco de incêndio. E depois também o fato de removermos a acácia, que é também uma espécie invasora, que substitui as nossas espécies autóctones, ocupa o seu espaço e que também é altamente inflamável. Por essa via, conseguimos reduzir o risco de incêndio, renaturalizando aquela área com a biodiversidade local.

Este é um projeto que tem também uma dimensão de escala, já que a WWF vai colaborar com 16 municípios do distrito de Leiria, através também da análise dos seus planos municipais de adaptação às alterações climáticas. O objetivo é capacitar estas autarquias para lidar com fenômenos extremos?

Sim, exatamente, porque muitas delas, por obrigação legal, já têm os seus planos municipais ou de ação climática ou de adaptação às alterações climáticas. Nós fizemos, logo em março, uma análise destes planos para vários municípios do distrito de Leiria. Por acaso não foi o da Nazaré, que é onde fica a mata do Valado, mas aquilo que analisamos permitiu-nos perceber que há algumas melhorias a fazer em termos da monitorização que fazem, das medidas que têm. Um sinal positivo é que todos têm soluções baseadas na natureza, que é trabalhar com a natureza para reforçar também a nossa resiliência às alterações climáticas. Mas falta aqui também algumas melhorias em termos da implementação, da identificação de fontes de financiamento e de previsão também deste tipo de fenômenos extremos. Estamos todos muito virados para os incêndios, que já está muito no nosso radar, mas este tipo de tempestades bastante extremas e violentas não era algo para o qual estivéssemos preparados. Aquilo que nós pretendemos é trabalhar com os técnicos destes municípios e capacitá-los e identificar oportunidades de melhoria nos seus planos e também depois, eventualmente, fontes de financiamento. Por isso também queremos vir a trabalhar com a estrutura de missão centro, que foi criada após as tempestades de janeiro e fevereiro.

E parece que toda a comunidade científica é unânime em dizer que estes fenômenos vão ser mais recorrentes. Vanessa, para fecharmos, este investimento na mata do Valado demonstra que o papel, de fato, do retalho moderno vai muito para além da venda de produtos, integrando ativamente na resiliência e valorização do próprio território, voltando um pouquinho àquilo que me tinha respondido no início desta conversa.

De fato, o retalho moderno já não é só vender produto, fechar a porta e irmos à nossa vida. Nós temos, de fato, uma responsabilidade grande. No caso do Lidl, estamos presentes de norte a sul de Portugal, mais de 290 lojas, estamos em todos os distritos, temos uma capilaridade, temos uma responsabilidade enquanto empregador, mas também perante os nossos fornecedores, que estão espalhados por todo o país e por isso não há forma de evitar este sentido de responsabilidade, e de garantir que ajudar a criar florestas mais saudáveis, no final do dia, vai nos permitir valorizar a economia também e criar valor. Isso é algo que de fato nos move e para o qual trabalhamos também diariamente.

Muito bem, uma intervenção urgente, 12 meses, que arranca já no distrito de Leiria, unindo a responsabilidade social do setor privado, a conservação da natureza e também o poder local na prevenção dos incêndios. Fica aqui um exemplo prático de uma parceria entre o Lidl Portugal e a WWF Portugal. Vanessa Romeu, Catarina Grilo, muito obrigado por terem vindo aqui à Rádio Observador partilhar este projeto. Muito boa tarde e muitos parabéns. Amas, obrigada.

Muito obrigada.