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Hoje falamos da escravidão infantil e, por isso, convidei uma amiga, uma antiga colega, a jornalista, grande repórter Alexandra Borges, para nos falar da reportagem que fez há mais de uma década com as crianças escravizadas por pescadores no Lago Volta, no Gana, e a associação que daí fundou, os Filhos do Coração, para saber como está tudo e o que têm feito. Obrigado, Alexandra, desde já. Muito obrigado por teres aceitado este convite. Bem-vinda ao Salvador.

Obrigada.

É um prazer estar aqui contigo. Tu nasceste em Lisboa, em maio de 68, uma data memorável. Foste repórter de guerra, és grande repórter da TVI já há duas décadas. É impressionante como o tempo anda. Aliás, foste para a TVI levada pelo José Eduardo Moniz?

Exato, nessa altura.

A tua reportagem "Infância Traficada" sobre a escravatura infantil no Gana, que estávamos a falar depois, foi uma causa que prometeu abraçar até o fim, mudou-lhe a vida e levou-a a criar uma ONG e a escrever dois livros. Tu és formada em Comunicação Social, jornalista da TVI, portanto, iniciaste a tua carreira pela TVE, depois passaste pela CNN, pela Globo, pela RTP. Estiveste em muitos sítios e sítios bons, importantes, e entendes o jornalismo como uma missão. E nesse sentido, já fizeste coisas importantes. Estou-me a lembrar daquele caso da hepatite C, por exemplo, graças a ti, muitos doentes que não teriam, se calhar, acesso a esse remédio, hoje têm obrigatoriamente porque tu fizeste uma denúncia.

Pública, sim.

Pública.

Foi importante, mas eu quero lembrar também com muita saudade o Zé Carlos Saldanha, que foi um dos meus entrevistados e que se tornou a bandeira desta causa. Lembras-te quando ele apontou o Paulo Macedo e disse...

Ministro da Saúde, na altura.

Exatamente. E o obrigou a tomar uma decisão perante os portugueses. Embora, eu lembro-me na altura, toda a gente falava de que estas pessoas com hepatite C eram ex-toxicodependentes, como era o caso do Zé Carlos Saldanha. E eu achei que era extremamente injusto, porque essas pessoas recuperaram a sua vida, tinham filhos. E depois achei sobretudo injusto, porque descobri que havia muita gente que tinha sido transfundida no hospital e que tinha sido contagiada pelo sistema. Portanto, o sistema teria a obrigação de as curar quando tem uma cura para elas. E é um orgulho fazer parte de alguma forma disto, Portugal, neste momento, é um case study, porque não tem hepatite C. Ou seja, conseguiu.

Graças a este remédio a custo zero que foi lançado.

E é tão simples, é só dar a conhecer, pôr os dados na mesa. O Saldanha teve um papel fundamental com aquela intervenção. E hoje vou cometer uma inconfidência, porque nesse dia eu estava na redação e já tinha feito a reportagem. Lembro-me que passaram, era o Pedro Castro e o Saldanha, dois doentes que nós uma vez levamos a estúdio porque eles eram amigos e um tinha conseguido o medicamento e o outro não, e estavam a falar. E o Pedro Castro, que já tinha conseguido o medicamento, dizia: "Mas ele está pior e eu não consigo tomar este medicamento." E o Saldanha dizia: "Mas eu ainda não tenho, tu tomas." Aquilo foi um momento em que tu vês ali dois amigos numa situação delicada, em que um tem, porque aquilo era atribuído por autorizações do Infarmed, e eram escolhidas as pessoas, um bocadinho. E toda a gente teria direito, uma vez que há uma cura e há um sistema nacional de saúde, toda a gente teria direito. Era um investimento. Mas que tinha de ser feito. Era uma questão de humanidade. Sim. Eu estava em contacto com o laboratório, também com a Gillette. E uma coisa que me lembro é que nessa tarde em que o Saldanha confronta o ministro, eu estava na redação, já tinha passado este momento, e nós ficamos amigos. E ficamos amigos muitos anos, graças a Deus, ele ter continuado cá. Nessa semana em que ele faleceu, ele telefonou-me para irmos almoçar, por uma circunstância da vida dele. Eu lembro-me que ele estava a manifestar-se cá fora na assembleia e telefona-me para a redação. Nós estávamos a emitir em direto, nós todas as televisões, porque o ministro teria de justificar-se ao Parlamento. E ele telefona-me e diz-me: "Ó Alexandra, aquilo é à porta fechada?" Eu digo: "Não, Saldanha, é à porta aberta, o público pode entrar." E poucos minutos depois de desligar, vejo-o entrar pela sala. Depois vejo-o a sair outra vez e vem cá fora e diz-me assim: "Alexandra, se eu confrontar o ministro, eu sou preso?" Eu disse: "Não, o máximo que pode acontecer é tirarem-no da sala." E vejo-o entrar outra vez, e em direto assisto a ele levantar-se e confrontar o Paulo Macedo. E eu estava nos bastidores a pensar: "Este homem é incrível." Ele fez o seu trabalho de casa, digamos assim, telefonando-me e dizendo: "O que me vai acontecer? Porque eu também não quero, tenho uma filha de oito anos", na altura.

Claro.

E ele acabou por ser a bandeira desta causa, mas que foi importante que o público português percebesse que havia uma cura, e percebesse que não eram só toxicodependentes, e percebesse que havia famílias atrás dos números. E isso eu acho que é a nossa missão. É fazer essa investigação, é na altura confrontar os políticos com isso, porque eles são responsáveis pelas decisões que tomam ou pelas decisões que não tomam, João Paulo.

Muitas vezes é por omissão.

Aqui é por omissão.

Pois.

Também me lembro de uma pequena coisa, só contar-te. Nessa da hepatite C foi muito giro, porque nós fomos todos, o país acordou no dia seguinte a isso, com a notícia de que o Paulo Macedo tinha fechado o acordo com a Gillette e que 30 mil doentes...

Farmacêutica e, portanto, iam ter direito ao custo zero.

E o meu filho, que estava a tomar o pequeno-almoço à mesa e eu estava despistada, ouviu a notícia e vira-se para mim e diz-me uma coisa que nunca me vou esquecer. Diz-me: "A mãe é pior que um gato." Eu digo assim: "Como, Vicente, o que está a querer dizer?" "Sim, a mãe é pior que um gato. Os gatos têm sete vidas, a mãe já safou 30 mil." O que me acho graça foi que eu falo das reportagens com os meus filhos e eles depois vão vendo a evolução.

Tu também ao longo desta tua carreira, nós temos aí uns minutinhos até esta síntese de notícias, cobriste várias situações de guerra, por exemplo, eu estou a me lembrar de algumas, e nomeadamente apanhaste muito, quer no Kosovo, quer depois no Afeganistão, quer depois em Angola também, muito esta questão dos refugiados, que hoje em dia voltou a ser uma praga autêntica, um problema que parece que não tem resolução e que os Estados fogem.

E neste momento está a Síria, com este problema, estão crianças a morrer de frio na Síria. E portanto, o que eu fiz sempre foi dentro do que é o conflito, o que eu gosto é fazer os refugiados, porque são os mais Os quais sofrem com as decisões políticas são estas pessoas que se deslocam a fugir de uma guerra, como eu faria e tu farias.

Exatamente.

Lembro-me também da crise da Macedónia, ainda agora vi aqui o Pedro Castro, que esteve comigo lá. E da crise dos refugiados, das movimentações destas pessoas. São famílias, são histórias de vidas.

Ter de partir, largar tudo para trás, as relações, as coisas todas que construíram.

Eu tenho uma grande proximidade com estas pessoas.

Já várias vezes contaste essas histórias, que é uma coisa que tu gostas de fazer, contar a história das pessoas e dos anónimos.

Temos tendência a reduzir as pessoas a números.

Tu até fizeste um curso de storytelling em Inglaterra, eu sei isso.

Exatamente.

Aprendeste isso, que é muito importante.

Tenho que contar as histórias das pessoas, para as pessoas conseguirem esquecer a frieza dos números. Não faz sentido que nós pensemos: "Não sei quantos milhões de refugiados." Sim, mas quem são esses milhões? Atrás desses números há histórias de vidas como tu e como eu, de pessoas que tiveram que deixar tudo para trás.

Trás a identificação. Exatamente.

E depois, suas vidas.

A criança na praia da Turquia.

Essa criança, na praia da Turquia, fez com que eu fosse para lá. Eu lembro que o João Vasconcelos, que também já faleceu, eu hoje estou aqui a falar de amigos que faleceram. O João Vasconcelos tinha o aniversário dele marcado e decidiu: "Não, não faz sentido eu ter amigos. Então juntem-se os meus amigos e vamos fazer a caravana." E eu fui com a caravana, porque fui lá levar coisas e fiquei impressionada com a capacidade de organização daquelas pessoas e capacidade de auxílio, de entrega. E pus-me lá. Eu fui levar coisas e fiquei lá. Levei os meus filhos para separar bens alimentares e acabei por ir como jornalista. E tudo isto se mistura com uma grande facilidade, porque eu gosto de pessoas, eu gosto muito de contar as suas histórias.

Tem a ver contigo. Ao mesmo tempo, isso também já te deu uma questão de fadiga crônica e hipertireoidismo. Lembro que os médicos chegaram a te recomendar: "Para um bocadinho, vá de férias uns tempos, porque você não está aguentando." Isso também tem uma fatura pesada.

Tem, porque eu vivo as histórias, eu não consigo desligar das pessoas. As pessoas não são descartáveis. Os meus câmaras, os repórteres de imagem que estão comigo, dizem sempre: "Tu perdes muito tempo a falar com as pessoas antes de filmarmos." E eu digo: "Não, estás enganado. Eu invisto tempo a falar com as pessoas, porque as pessoas não são descartáveis, as pessoas têm que criar uma relação comigo para eu conseguir entrevistá-las como deve ser, para elas se abrirem e darem tudo o melhor de si." E aí eu acrescento, aí eu consigo acrescentar. E isso é muito importante, eu sentir que não estou a usar a pessoa, eu sentir que ela não é descartável. Tanto que as minhas histórias acompanham-me sempre. A última, há pouco tempo que fiz, foi a Margarida, que é uma miúda que precisa de um transplante pulmonar e, entretanto, umas amigas e umas conhecidas juntaram-se e fizeram um grupo e já angariaram 200 mil pessoas para ela ter um segundo diagnóstico no Children Boston Hospital, porque em Portugal não vão transplantar uma criança de sete anos. Mas o problema aconteceu aos sete anos e a Margarida tem direito a uma infância. E nós vamos fazer aquilo que o Serviço Nacional de Saúde devia estar a fazer, que é levá-la para ter uma segunda opinião. Agora, se lá disserem, como está escrito em vários relatórios, que eles têm só 5% de rejeição e que a miúda tem uma solução lá, aí eu vou confrontar as autoridades cá, porque ela tem direito a que seja pago o tratamento dela lá.

Uma lutadora, já vamos continuar a conversa. Estamos aqui à conversa com Alexandra Borges, grande repórter, a propósito da reportagem que fez com as crianças escravas no Gana e a propósito de outras reportagens que ela fez também. Alexandra, estou-me a lembrar, por exemplo, que fizeste outras coisas, por exemplo, já há quase 20 anos sobre a eutanásia. Lembro dessa, que recebeste, aliás, o prémio da Santa Casa por causa dessa reportagem, "Tempo de Vida, Tempo de Morte". Fizeste reportagens sobre o trabalho infantil no Paquistão, sobre os maus-tratos a crianças, fizeste uma série delas. Além destas, a escravatura infantil, a infância traficada, que já vamos falar dela. Lembro-me muito bem daquela da vida de Rita, sobre os cuidados paliativos.

Essa foi uma reportagem que o mérito é todo da Rita. Eu lembro-me que recebi um prémio dessa reportagem, já a Rita tinha morrido, pedi à mãe dela que o fosse receber, porque eu não me sentia bem em receber aquele prémio.

Prémio Novartis.

Novartis. Porque, na verdade, aquela reportagem vale pelo testemunho da Rita.

Agora volta à tarde à guerra com esta questão da eutanásia e tudo, não é?

Não, é porque se calhar temos que começar a falar de cuidados paliativos e das faltas dos cuidados paliativos antes de discutirmos a eutanásia. Eu acho que isto é tudo uma precipitação e eu disse está bocado, fora do estúdio, que a reportagem da eutanásia foi aquela que eu fiz que mais dúvidas me colocou, porque nós entramos numa reportagem, às vezes, com ideias feitas, e foi o meu caso em relação à eutanásia. Toda a gente diz que não quer sofrer, que não se importa de morrer, mas não quer sofrer. E perante isto, toda a gente também acha que se alguma dignidade estiver em causa. E é tão fácil nós entrarmos nestes discursos construídos e depois chegamos e encontramos uma pessoa que está há 15 anos a olhar para um teto branco num hospital de São José e que diz: "Eu não quero morrer" e não se mexe do pescoço pra baixo. E isto leva-nos a questionar muitas coisas. E diz: "Eu adoro a minha vida", e a vida dela, para nós, é estar numa cama de hospital a olhar para um teto branco, mas não é. Ela diz: "Eu tenho muitas memórias, eu vivo as minhas memórias todos os dias." E realmente é avassalador. Quando tu ouves isto.

Desmontou os teus conceitos, as tuas ideias.

As minhas ideias feitas.

Que toda a gente tem. Tu és uma pessoa que diz isso sempre. Não acredito no jornalismo objetivo, nesse aspeto.

Não, eu sou aquela pessoa que acho que até na filmagem, na maneira como filmamos e como editamos uma reportagem, tem algo de nós. Eu disse sempre essa história do jornalismo objetivo.

O pior é a indiferença quando tu estás sem fazer, isso é que mata.

É assim, eu se fosse uma pedra ou então fazia um computador o meu trabalho, pra que era preciso eu lá? Era muito mais barato fazer um computador.

Só tem que emprestar emoção.

O meu cunho está lá. E eu assumo.

E mesmo que seja o mesmo tema, tu não fazes igual à Ana Leal, a mim ou a outro qualquer.

Não. Faço completamente diferente. É o meu cunho, é a minha linguagem, é a minha maneira, é o meu approach ao tema. E é isso que eu apresento. Se as pessoas gostam, eu fico maravilhada que gostem, mas sou eu que estou lá e não vou dizer que é outra pessoa. Essa objetividade não existe na prática. Eu acredito em isenção, é outra coisa, é seres isento, é seres rigoroso, aproximação à objetividade no sentido em que os dados estão lá, a investigação tem que ser séria, não se pode manipular Temos que ser sérios. Mas isso é uma coisa que nós já somos na vida, pelo menos eu. E, em última análise, eu não posso ficar constrangida comigo própria. Quer dizer, eu tenho que ser séria para mim própria. E depois, aquilo que transmito é uma questão de consciência, de honestidade intelectual. Agora, o resto?

Ideológica também.

A música que eu escolho, a forma, o approach que faço, tudo isso é subjetivo. Outra pessoa faria diferente.

Além disso, estou aqui a passar por alto, nem dá tempo a falar disso, ou ficávamos aqui até quarta-feira. A transexualidade, que fizeste uma também, as crianças adotadas que são devolvidas. Tive aqui a Patrícia Reis por causa daquele romance dela, "As Crianças Invisíveis", que é um drama que a pessoa não faz ideia que isso existe.

Não faz ideia que isso acontece.

A vida sexual dos deficientes, muita coisa.

Essa foi uma reportagem muito gira. À semelhança da "A Vida de Rita", que está a ser utilizada nas universidades para falar dos cuidados paliativos. Eu sei que está a ser usada na universidade, porque me pediram autorização e direitos para ser utilizada na universidade de medicina. No caso da "As asas do desejo" também, porque ninguém nunca pensou que um deficiente tem vida sexual.

Exato, normalmente é tabu ou acha que não tem, ou que é uma coisa inferior.

E as coisas que às vezes têm que acontecer. Há países em que isto é uma questão real e resolvida. Em Portugal não é e, portanto, atrás da cortina estão mães a masturbar filhos, estão terapeutas a fazê-lo, estão deficientes a masturbar-se entre eles. E perceber que estas pessoas têm desejo sexual. E há umas asas do desejo. E foi muito importante contactar com estas pessoas, até hoje também entramos em contacto sempre. É engraçado que eu nas minhas reportagens vou ficando com resquícios da reportagem e amigos. Eu tenho muitos amigos da reportagem, porque eu escolho tanto os meus entrevistados, que normalmente escolho pessoas que valem mesmo a pena, que fazem a diferença, que têm discursos muito importantes.

E depois te acompanham-te até cá também para fazer um serviço importante.

E acabam por me acompanhar e eu acompanhá-los.

A propósito de acompanhar e continuar, esta tua reportagem do "O segredo dos deuses", aí com a IURD, já é outra questão. E aí acompanham-te no mau sentido, no sentido em que tu recebes ameaças. Eu sei que depois vai haver uma reportagem desenvolvida sobre isto, mas, para já, tu tens recebido ameaças por causa desta reportagem que fizeste. Isso deve acontecer a jornalistas de investigação.

Eu sei. Estão entregues a quem devem estar entregues, à Polícia Judiciária. Mas efetivamente, desde que eu fiz esse trabalho, eu tenho um conjunto de ameaças constantes.

Mas e para os teus filhos e para tudo? Eles sabem onde moras.

Sim, são coisas assustadoras, mas que sobretudo para mim são assustadoras, João Paulo, porque, neste momento, as instituições que deviam estar a funcionar e não estão, e digo isto com todas as letras, não está o Ministério Público, não está a Polícia, não está as instituições políticas que sabem do assunto.

Nesse tema, nesse assunto? Das adoções ilegais?

Neste assunto, não é só das adoções, é do que um jornalista de investigação tem que passar para manter vivo o jornalismo de investigação. E isso para mim é o mais grave.

É que isso se calhar assusta muita gente.

Não é a ameaça à Alexandra Borges, é a ameaça real que existe neste país hoje ao jornalismo de investigação. Porque antes, se calhar, tinhas uma ameaça econômica, política, neste momento religiosa, sim. E eu acho que as instituições tinham que funcionar. Um jornalista de investigação não se pode sentir intimidado por um movimento qualquer estranho que eu não sei definir, que a Polícia Judiciária está à procura, e invadido na sua privacidade constantemente, numa tentativa de que não continue uma investigação, que continuará independentemente de tudo, porque, João Paulo, eu não sou...

Mas tens coragem, tem que ter coragem, porque a pessoa para revelar isto, que é uma coisa grave, seja em que assunto for, e nesse caso ainda é mais grave.

João Paulo, vou-te dizer, o Ministério Público arquivou por prescrição, é bom que os portugueses entendam isso, alinhavando e elencando ali um conjunto de crimes graves, como tráfico de pessoas, corrupção, associação criminosa. A prescrição não foi porque não havia provas. A prescrição aconteceu porque isto aconteceu há 23 anos.

Pois.

Mas também há ali, eu até hoje não consegui aceder ao processo, e estamos a falar de um processo de adoção com 23 anos, que está prescrito. Portanto, por que aquilo continua em segredo de justiça? Não é de justiça, é segredo por causa da questão das adoções. A questão é que eu gostaria muito de folhear cada página daquele processo para perceber a disfunção do sistema, que eu sei que existe, porque isto chegou à Procuradora-Geral da República. Na altura, era a coordenadora do serviço do Ministério Público, Joana Marques Vidal. E que era procuradora até há pouco tempo, mas que na altura era coordenadora do Ministério Público. E foi denunciado a ela, e não foi uma denúncia anônima. Foi a babysitter que denunciou às pessoas da Santa Casa, que foram lá, que se deslocaram e que disseram: "Estas crianças estão sequestradas, não estão com quem deviam estar". E perante isto, ela não faz nada durante um ano. A questão é: por quê? Qual é a motivação que leva uma pessoa a não fazer?

Mas chegaste a confrontá-la alguma vez ou tiveste algum indício? Ou ela recusou-se sempre a falar sobre isso?

Ela recusou-se sempre. Eu falei com ela pessoalmente. Devo dizer-te que sim, e pedi-lhe uma entrevista. E ela recusou a entrevista. Eu acho que ela se tinha que explicar perante o país. A antiga Procuradora-Geral da República deve uma explicação a este país sobre por que esteve um ano e teve que ser sob coação, mediante um pedido do juiz para devolver o processo à secção. Ela avoca o processo, ela tem-o em cima da secretária um ano e não faz nada, sabendo que estas crianças estavam nas mãos de quem não deviam.

Pois.

E, portanto, há aqui um silêncio ensurdecedor para mim e para muitos portugueses que se deviam ficar seriamente preocupados, como é que as instituições deste país não funcionam e põem em causa a vida de crianças neste sentido. E, portanto, eu acho estranho, no mínimo Isto continua. O Conselho Superior da Magistratura fez uma análise processual a tudo e um instrutor chegou a dizer: "Eu não posso analisar a senhora procuradora-geral da República", quando o que de fato ele estava a analisar eram atos da atual procuradora-geral da República, quando ela era coordenadora do Ministério Público junto ao Tribunal de Honras.

Funções antigas.

Portanto, este país não pode funcionar assim, não é uma república das bananas e as pessoas precisam de explicações. Eu, como jornalista, preciso e não vou desistir até o último dia da minha vida, de abrir aquele processo e denunciar cada folha, porque eu sei que desapareceram folhas naquele processo. Aquele processo vai revelar os podres das instituições deste país. Eu já revelei alguns.

Fora ter esses meios para acabar e conseguir-

Não, falta-me só que estas instituições não sejam cobardes, porque se elas não tivessem nada a esconder, o dever de transparência diz-lhes que me deviam dar o processo. Deixem-me ler, deixem-me ver, porque o que eu vi no processo foi que aquelas mães pediram ajuda várias vezes, e o juiz, inclusivamente. Ela queria uma creche para poder ter três empregos, porque ela precisava trabalhar. Ainda hoje ela trabalha. E o juiz disse à Segurança Social: "Arranje-se uma creche para esta senhora." O que nunca aconteceu, João Paulo.

Até hoje.

E perante isso, ela tinha que deixar os irmãos mais novos de 12 anos cuidarem dos mais novos.

Dos mais pequeninos ainda.

Isto é o que acontece na casa de muitas portuguesas deste país. Não é nada de transcendente e nós sabemos que acontece, que crianças são entregues a crianças mais velhas. Crescem muito mais depressa e são muito mais maduras. Até os ingleses deixaram lá as crianças no caso Maddie.

Exatamente.

Portanto, é assim. Mas esses não foram para irem trabalhar, foram para irem comer uma mesa de restaurante.

Exatamente.

E perante isso, sabemos como é que Portugal reagiu. Perante uma mãe que não tem dinheiro, que precisa de trabalhar em três empregos para dar de comer a estas crianças, o Estado não lhe providencia uma creche. E depois ainda lhe retira as crianças. E na verdade, o que aqui aconteceu é que não foi a retirada das crianças só. Foi o sequestro, o roubo que houve destas crianças, porque este esquema é ilegal de adoções. Foi uma secretária do bispo Macedo que aparentemente serviu no papel para adotar crianças e andar a distribuí-las a bispos que não podiam ter filhos. Isto é vergonhoso e aconteceu há 23 anos neste país e é vergonhoso. E não aconteceu só com três crianças. Este é o caso mais grave. E vamos discuti-lo. Vamos continuar a discuti-lo.

Esta reportagem já tem dois anos, mas é uma coisa que vais ter que continuar a aprofundar e a resolver, até ter acesso.

Vão ter acesso a uma coisa que eu disse quando o Ministério Público prescreveu o processo. Eu disse: "A verdade não prescreve." Porque pode haver uma verdade jurídica, judicial, criminal, e essa pode ter prescrito, porque os homens dizem que aconteceu há 23 anos, já não se criminaliza ninguém, embora os crimes estejam lá apontados. Mas não, sai tudo ileso. Tudo bem, eu não discuto isso. Mas há uma coisa que eu te vou dizer, João Paulo. Há outra verdade para mim, que é a verdade real do que aconteceu naqueles anos, trazer a lume tudo, tintim por tintim, perceber como é que as instituições, sobretudo para perceber o meu país, como é que isto tudo foi disfuncional, como é que a Santa Casa da Misericórdia fez o que fez, como é que a procuradora-geral da República, na altura responsável pelo Tribunal de Honras, fez o que fez, sabia do que sabia e não fez, no caso dela não fez, e como é que foi possível esta monstruosidade destas crianças serem levadas desta forma em avião privado, para sítios que não podiam sequer ir e entregues a pessoas assim. Eu não me conformo com isto e é bom que as pessoas saibam.

E vais lutar até o fim. Acho muito importante isso.

Sabes por quê, João Paulo? Porque se eu fosse conivente como eles são com isto, eu calava-me. Mas eu recuso-me. E, portanto, é assim, se eles não querem fazer a transparência do processo, eu hei de chegar lá. Por portas e travessas, eu hei de chegar lá. E um dia vou expor tudo o que está lá e que eu sei que está lá.

A essa altura vás, vai ser importante servir e ser mostrado.

Se eles quiseram calar o processo, calaram. Mas não vão calar a verdade, porque a verdade não prescreve. Ainda hoje tu estás a descobrir coisas do Holocausto.

Exatamente.

E portanto, há uma verdade histórica aqui que é importante para um país assumir. Eu acho que se os homens fossem decentes, as pessoas que estão à frente destas instituições deste país fossem decentes, o que podiam no mínimo fazer a estas mães é mea-culpa. Porque também te vou dizer uma coisa, na Justiça isto não acabou, porque isto vai até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. E Portugal vai ser envergonhado, como é muitas vezes lá fora.

Sim. A propósito de crianças, e temos falado disso nestes minutos que faltam, e era muito importante, porque eu sei que crianças são crianças aqui ou a 3500 km de distância. É sempre uma ideia que tu tens e que tens passado isso. Tu fizeste uma reportagem, alertada por uma reportagem do New York Times, em 2006. Em 2007, foste ao Lago Volta, este maior lago artificial do mundo em África, e deparaste com essa situação destes milhares e milhares de crianças que eram escravizadas por aqueles pescadores e que os pais vendiam por tuta e meia, nem 30 € eram vendidos, com três, quatro anos, crianças indocumentadas, portanto se desaparecessem ou se portassem mal, eram mandadas ali ao lago e os pescadores desapareciam.

E que se chamavam Kobis e Kofis, conforme o dia em que foram vendidos.

Era como o próprio Kofi Annan, por exemplo, era um dos meninos da sexta-feira. Só que era de uma família aristocrática e isso nada lhe aconteceu, muito engraçado. Então fundaste esta associação, Filhos do Coração, que neste momento é importante falarmos disto agora, porque está a decorrer ainda uma campanha, se não me engano, no Pingo Doce.

Sim, o grupo Jerónimo Martins juntou-se a nós desde há muito tempo e esta campanha acontece todos os anos e é o nosso maior mecenas para garantirmos a educação das crianças. E aí, João Paulo, deixa-me dizer-te que isso aconteceu há 13 anos. E há 13 anos eu resgatei três crianças e comecei a pagar-lhes a educação do meu próprio salário. Educação, saúde, tudo aquilo que eles necessitavam. E 13 anos depois, há 95 crianças no nosso centro de acolhimento com uma americana, com a Pam Hope, que é minha amiga. Em vez de nós fazermos aquela quintinha, estávamos a fazer a mesma coisa, juntámos e temos uma coisa maior. Mas eu digo sempre, porque resgatar uma criança, a melhor maneira de a resgatar é resgatar a sua infância, mas sobretudo o seu futuro. E isso passa pela educação. A educação é a maior porta para a liberdade.

Desses 95, 10 já estão na universidade e deve ser um grande consolo para ti.

Ó João Paulo, eu posso dizer-te que eu espero-

Eu vejo alguns vídeos, é preciso dizer às pessoas, estão em vários YouTubes.

Se as pessoas tiverem curiosidade, vão a www.filhosdocoracao.org.

É impressionante o jeito como eles falam. Uma quer ser presidente e outro.

Esse é o meu sonho. Já temos esse discurso, já temos um miúdo que já está na universidade e quer ser presidente do Gana. Eu digo sempre isso.

Eles falam muito bem e, ao mesmo tempo, aquela coisa de "ninguém se preocupava muito comigo, os meus pais venderam-me, mas eu perdôo os meus pais, porque eu sei que eles passaram por dificuldades".

Eles são tão grandes. Eles têm uma generosidade do tamanho do mundo e aqueles miúdos merecem-me todo o respeito e todo o respeito dos portugueses, porque têm sido os portugueses a patrocinar a sua educação. E isto é um projeto válido dos portugueses que dão 1 €.

É a porta para a liberdade.

É a porta para a liberdade. Quando tu diferencias uma criança, e nós temos tido essa preocupação, só para te dizer que o ano passado levámos computadores e um designer para os ensinar, porque temos miúdos com muito jeito. E não há designer no Gana, designer gráfico e informático. E montámos um centro informático no nosso centro de acolhimento para que as crianças possam desenhar em computador. Tudo isso são ferramentas diferenciadoras que tu estás a dar a miúdos onde não existe no país. Eles podem fazer a diferença no seu país. O que eu lhes digo sempre é: "Vocês não vão sair daqui e fazer a diferença noutro sítio, vocês vão fazer a diferença aqui. E eu quero muito que um de vocês seja um dia presidente do Gana" e posso dizer-lhe para esta, porque aí ele sabe.

Já vês nos vídeos, já ouves dizerem isso.

Já, quem quer ser presidente do Gana, porque eu tanto transmiti esta ideia.

Fizeram também a terapia de arte, que é muito giro. O Diogo de Barros, se não me engano, que foi lá. Incrível, já foi nosso convidado também.

Foi, o Diogo é incrível. Pintou, meteu os quadros no lago, ele tem uma maneira. Porque os miúdos pintavam coisas muito realistas e eu dizia: "Não, já que eu não posso tirar os miúdos e trazê-los para este mundo para lhes mostrar outras coisas, eu vou levar o mundo até eles". E é uma coisa que nas nossas missões vai sempre, vai a Paula Teixeira, que a Paula Teixeira faz o imaginário das crianças. Eu digo sempre, é preciso estimular o imaginário destas crianças, porque senão aquela coisa que nós estamos a pôr nas pulseiras do Pingo Doce, que é: dream, believe and conquer. Sonha, acredita e conquista. Se tu não estimulares o imaginário das crianças, elas nem pensam que podem conquistar, nem sonhar. E, portanto, nós estimulamos muito o imaginário, damos-lhes muito mundo, que elas não podem sair de lá, mas levamos o mundo para lá, para elas poderem querer ser. E vou-te dizer, João Paulo, este ano, na passagem de ano, eu recebi a melhor mensagem do mundo, do Jono, um dos nossos meninos, que me dizia basicamente: "Mãe", eles a todos, os 95 mais 3, chamam-me mãe. E dizia-me: "Mãe, eu quero te, no dia de hoje, agradecer a oportunidade que me dás de ser alguém na vida, porque eu cresci num lago a pescar, fui vendido duas vezes pela minha mãe", porque entretanto foi resgatado e foi devolvido aos pais quando ninguém pensava que eram os pais que os vendiam, "e eu hoje sei que posso conquistar o mundo". E isto é tão bonito, vindo de um miúdo que já tem 20 anos e que te diz isto. E ele está a dizer isto a todos os portugueses, porque eu não sou ninguém, eu só sou aqui uma bandeira e uso a minha credibilidade profissional, a minha imagem, em prol de uma causa.

Tu e os americanos também.

Exatamente, a Pam Hope, do Touch a Life Kids. Agora, para os portugueses que nos dizem sempre, que eu odeio esta pergunta quando dizem: "Mas por que faz no Gana e não faz em Portugal?" Porque cada um impacta-se com a causa que sente próxima e porque crianças são crianças aqui em qualquer parte do mundo. E não vamos confundir escravatura infantil com o que se passa hoje em Portugal. Quer dizer, que tens saúde gratuita, escolaridade gratuita, tens comissões de proteção de menores.

E assim chegas a todo lado, realmente tens um coração grande, Alexandra. Olha, infelizmente, nós não temos tempo para mais. Sabes que a rádio se faz desta forma.

Eu sei.

Sabes como isto passa num instante, mas quero agradecer-te mais uma vez.

A boa conversa parte, passa num instante.

Num instante. E muito obrigado. Quero te agradecer esta tua disponibilidade e a tua reportagem também sobre os Filhos do Coração e todos os assuntos que trouxeste aqui, este alerta que tu vieste aqui lançar, que é muito importante.

Cuidado, salvem o jornalismo de investigação.

Que isso é muito importante. Fica este recado que é essencial. Também acho que sim. E na sequência de uma entrevista que demos dia 10 de março aqui neste espaço na Rádio Observador, à jornalista Alexandra Borges, passo a ler este direito de resposta da IURD: "No passado dia 10 de março de 2020, no podcast Convidado Extra, emitido na Rádio Observador e publicado no site do Observador, foi entrevistada a jornalista Alexandra Borges, tendo sido referida a IURD como estando envolvida num esquema de adoções ilegais e ainda sendo acusada de sequestro e roubo de crianças, além de se insinuar que a IURD estaria também envolvida nas ameaças que a jornalista diz receber desde que fez a reportagem denominada 'O Segredo dos Deuses', transmitida na TVI, que dava conta do alegado escândalo das adoções ilegais. A jornalista Alexandra Borges insiste em imputar à IURD, de forma leviana, infundada e irresponsável, factos manifestamente censuráveis que não correspondem à verdade, o que assume contornos de elevada gravidade. Pese embora o caso das alegadas adoções ilegais tenha sido sobejamente apreciado pelas entidades competentes, não só pelo Ministério Público, como também pelo Conselho Superior de Magistratura, pela Procuradoria-Geral da República e pelos Serviços da Segurança Social e da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, a jornalista Alexandra Borges insiste em ignorar e desvirtuar as conclusões a que estas entidades chegaram sobre as referidas adoções. A verdade é que se concluiu pela inexistência de qualquer irregularidade por parte das entidades intervenientes nos processos de adoção em apreço, assim como se concluiu pela inexistência de qualquer ilícito criminal, como demonstra o despacho de arquivamento proferido pelo Ministério Público, após uma longa e detalhada investigação às denúncias infundadas apresentadas pela jornalista Alexandra Borges. Não existiu nenhuma rede internacional de adoções ilegais, nenhuma criança foi roubada ou sequestrada da sua família biológica, sendo que todos os processos de adoção seguiram os trâmites legais e foram chancelados pelos tribunais portugueses. Ao contrário do que a jornalista parece querer insinuar, não existiu qualquer ilegalidade ou falta de transparência na tramitação dos processos de adoção, os quais apenas se mantêm em segredo e inacessíveis ao público por representarem matérias de natureza reservada, nos exatos termos em que a lei o prevê e, por esse motivo, exclusivamente acessíveis à pessoa adotada que aí foi parte. Por outro lado, o que se revelou pouco transparente e deontologicamente reprovável foi a investigação jornalística levada a cabo pela jornalista Alexandra Borges, a qual não só não assegurou o contraditório, como conduziu as suas fontes no sentido que mais convinha à história que pretendia contar. Não olvidemos que uma das mães biológicas das crianças adotadas, que consubstanciava uma das principais fontes da reportagem, veio publicamente e perante as autoridades judiciais competentes, revelar que havia sido manobrada pela jornalista Alexandra Borges para corroborar a história sensacionalista criada por aquela jornalista em prol das audiências, tendo sido iludida com a vã promessa de que só se o fizesse poderia rever os seus filhos. Assim, a maior ameaça ao jornalismo não é externa, mas sim a falta de rigor, isenção e objetividade com que alguns jornalistas exercem a profissão. A IURD ressalva ainda que nunca endereçou qualquer ameaça à jornalista Alexandra Borges ou à sua família, comportamento que não perfilha e que repudia veementemente. Como tal, e por considerar extremamente preocupante a situação descrita pela jornalista nesta entrevista, procedeu-se já à sua comunicação junto das autoridades judiciais competentes para que esta circunstância seja devidamente investigada e identificados os responsáveis pelas alegadas ameaças que a jornalista afirma ter recebido. Por fim, salientamos que no cumprimento das suas funções de apoio social, a IURD sempre desenvolveu um papel de reconhecido relevo na proteção de crianças e menores em risco, proporcionando direta ou indiretamente estruturas de acolhimento que garantiram o ambiente sadio, estável e seguro a várias crianças necessitadas, acompanhando de perto a vivência diária de milhares de pessoas e satisfazendo diversas necessidades das mesmas a que o Estado não consegue chegar. Por tudo isto, repudiamos todas as imputações e falsas insinuações feitas pela jornalista Alexandra Borges, exigindo a reposição da verdade para salvaguarda da reputação da nossa instituição e de todos aqueles que partilham a nossa fé."

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.