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Hoje temos como convidado extra o arqueólogo João Zilhão, que nos vem falar de uma descoberta muito importante para a pré-história feita numa gruta do Portinho da Arrábida, que prova que os neandertais praticavam a economia de subsistência há cerca de 100 mil anos, muito antes, portanto, do que se pensava. É um assunto que nem há uma semana foi publicado na revista Science, a mais importante revista científica do mundo. Vou ver se estou já em contato com o João Zilhão. Boa noite, João.

Olá, boa noite.

Muito boa noite, João Zilhão, e bem-vindo ao "Observador". O João é doutorado em História, investigador do Departamento de História e Arqueologia da Universidade de Barcelona e do UNIARQ, o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa. Posso dizer que há 30 anos tem pesquisa arqueológica ativa, contribuindo para o estudo da arqueologia pré-histórica e da evolução humana. Só para situar também os nossos ouvintes, em 96 montou e dirigiu o Parque Arqueológico do Vale do Côa. No ano seguinte, criou e dirigiu o IPA, o Instituto Português de Arqueologia, e no ano seguinte chegou a comissariar com sucesso o Pavilhão de Portugal da Expo 98, tanto que foi feito comendador pelo presidente. Desde 2012, se não me engano, João, tens citações na revista Science. Esta que saiu na sexta-feira passada foi apenas mais uma.

Pois, são muitos anos de trabalho. Felizmente, têm-se feito descobertas interessantes que justificam a publicação nas revistas.

Já te tenho visto apresentado, João, como arqueólogo, outras vezes como paleoantropólogo. Tu revês-te um bocadinho como as duas coisas?

Eu sou arqueólogo. Paleoantropólogo é uma designação que é comum nos países de língua inglesa e que reflete o facto de quando trabalhamos nas fases mais antigas da pré-história, em que se combina a arqueologia com a evolução humana no sentido biológico. Há uma fusão de especialidades. Quem trabalha nessas épocas, para dar um número, na pré-história dá mais de 30 mil anos. Geralmente tem tanto que saber e dominar os campos da arqueologia, mas também os da paleontologia humana, da genética das populações, da genética, dos estudos ambientais. É um campo muito vasto onde confluem praticamente todas as disciplinas do conhecimento científico, desde a física nuclear, por causa das datações, até à filosofia. No sentido que muitos dos problemas, dos debates e das controvérsias que existem, em última análise, têm mais a ver com a cabeça das pessoas do século XX ou do século XXI do que propriamente com os fósseis que estudamos. É assim.

João.

Arqueólogo sou porque-

É tua formação de base. Tu és doutorado em Arqueologia Pré-histórica.

Sou um escavador.

Exatamente. Como dizia outro, o arqueólogo é o único cuja profissão está em ruínas. No fundo, é uma boa definição, quanto a mim. Tu tens motivos para sorrir, sempre que fazes grandes descobertas que vão contra as ideias dominantes, e já aconteceu mais do que uma vez, e agora foi o caso disso. Vamos começar pelo princípio, João, e o princípio aqui recua muitos anos. O homem de Neandertal é uma espécie ancestral humana extinta, com a qual o homem moderno conviveu, uma coisa que tu comprovaste, aliás, que surgiram há 400 mil anos na Europa e que se extinguiram por volta de 28, 29 mil anos, se não me engano, certo?

Vamos lá ver. Eu não uso a palavra espécie para designar os neandertais. É verdade que durante décadas, e até há cerca de 10, 20 anos, a opinião científica, majoritariamente, defendia esse conceito de que os neandertais eram uma espécie humana diferente.

Sim.

Diferentes não só a nível anatômico, em pormenores da anatomia do esqueleto, sobretudo ao nível da face.

E das ancas também. Há assim uns pormenores.

Coisas basicamente da aparência racial, se quiser.

Mas que no fundo, partilha 99,7% do DNA com os humanos atuais.

Exatamente. Não só isso. A humanidade atual, sobretudo na Europa e na Ásia, cada um de nós tem no seu genoma uma porcentagem que varia entre 2% a 4%, que é de origem neandertal. Mas cada um de nós não tem os mesmos 2% a 4%.

Ok.

Se somarmos os 2% a 4% das centenas de milhões de habitantes da Europa e da Ásia, chegamos à conclusão que 50, e há quem diga, até especialistas, que 70% daquilo que é específico dos neandertais, em termos do material genético, está presente na humanidade atual. E se isso é assim Não faz qualquer sentido falar dos neandertais como uma espécie extinta, diferente.

Pois, porque afinal o cruzamento.

Passados.

Exatamente.

São antepassados.

Cruzaram-se, como aliás conseguiste provar isso. É uma coisa que, infelizmente, é verdade que normalmente há uma teoria, era visto até no imaginário popular, o neandertal como um ser grosseiro e pouco inteligente, mas tu tens também conseguido provar, essas teorias e esses mitos têm sido um bocado mudados, inclusive que seria um homem dos frios e que só iria caçar os mamutes, essa história. Tu tens conseguido provar por várias descobertas, a criança do Lapedo, por exemplo, prova essa convivência, porque tem genes, tem características das duas subespécies. Tens conseguido provar que afinal tinhas capacidades estéticas, capacidades espirituais, revelava, por exemplo, nas sepulturas já decoração e, por exemplo, esta criança do menino do Lapedo, que foi uma grande descoberta feita em 98, onde estiveste envolvido, desta criança de quatro anos mostrava isso, uns restos de colares e uns restos de uma touca que ele eventualmente teria, o coelho que foi oferecido com ele, tudo aquilo com ocre, a mortalha toda tingida. Portanto, já tinha algumas preocupações estéticas e não era, afinal, só o neandertal, o homem do frio e na caça do mamute, como tu depois até com esta descoberta recente provaste que não.

Pois, o que acontece é que o homem neandertal foi o primeiro fóssil humano a ser descoberto. Mais ou menos na mesma altura em que estava a começar a ganhar força na comunidade científica, nos naturalistas do século XIX, a noção da evolução. O homem neandertal é descoberto em 1856.

Na Bélgica, sim?

Não.

Não foi na Bélgica.

Há fósseis descobertos na Bélgica antes disso, que mais tarde vieram a ser reconhecidos como pertencendo, digamos, à mesma população que os neandertais. Mas o fóssil tipo é o descoberto em 1856 na Alemanha, e o livro do Darwin, "A Evolução das Espécies", salvo erro, é de 1859.

Dois anos depois, acho eu. Sim.

Pronto. Ora, o que é que acontece? Na altura, o conceito de evolução misturou-se mal, embora o próprio Darwin nunca tenha dado pé para que isso acontecesse, mas aconteceu nos divulgadores, e no fim na opinião científica, e depois isso acabou por transferir-se para a opinião pública, a noção de que evolução é a mesma coisa que progresso. E portanto, se alguma coisa é mais antiga ou muito antiga ou fóssil, tem que ser necessariamente mais primitivo.

Claro.

Menos evoluído, nesse sentido.

Exatamente.

E aquilo que existe atualmente. E, portanto, a descoberta do homem neandertal vem demonstrar duas coisas. Uma, vai ter duas consequências assim, num certo sentido contraditórias. Num sentido, é a demonstração da evolução do homem, que o homem também faz parte da natureza, e evoluiu para aquilo que é atualmente através de formas ancestrais diferentes. Tal como todos os outros seres vivos, nesse sentido, o homem faz parte da natureza.

Da evolução natural, exatamente. Não é um caso à parte, exato.

Que era uma coisa que-

Defendiam os criacionistas

Os especulistas que aceitavam a teoria da evolução, mas queriam conciliar essa aceitação com a manutenção dos ensinamentos da Bíblia.

Da fé, exatamente.

Fé, etc. Havia muito esta coisa, nessa altura, em meados do século XIX, a noção de que a evolução funciona para o resto do mundo vivo e no fundo é o mecanismo que Deus arranjou para criar, para dar forma a uma Terra, a um planeta, em condições, preparado, perfeito para receber a criação suprema que seria o homem. O homem é criado, a evolução aplica-se ao resto do mundo vivo. A descoberta do homem neandertal vem pôr em causa esta tentativa de conciliar religião e ciências naturais. Demonstrar que o homem também-

Foi alvo dessa evolução natural.

Segundo as mesmas regras e as mesmas leis da seleção natural, etc, que o resto do mundo vivo. Mas teve a consequência contraproducente, por assim dizer, de alguma maneira, de ser associado a esta ideia de evolução e progresso, portanto, fóssil primitivo, ou seja, no fundo, a noção de que: vejam bem o que nós éramos aqui há centenas de milhares ou milhões de anos e o que somos agora. Somos muito bons.

Evoluímos muito, muito bem.

Fomos brutos que viviam aqui há dezenas ou centenas de milhares de anos. Isto num contexto em que as ciências antropológicas eram profundamente racistas no século XIX. Havia a noção de que havia raças, que hoje sabemos que não tem sentido, biologicamente é um conceito sem sentido, mas na altura pensava-se, havia raças, e essas raças estavam hierarquizadas em função das suas capacidades. Os brancos acima, etc.

Exatamente.

Enfim, no topo.

Os ingleses, talvez, em primeiro lugar?

O anglo-saxão, o inglês, depois os povos do sul do Mediterrâneo um pouco mais abaixo, e por não falar do resto, os asiáticos.

Havia essa correlação entre a aparência física e a inteligência, não é?

Exatamente. E havia, também, esta noção de hierarquização das raças, que nem todos os seres humanos eram dotados das mesmas capacidades intelectuais. E isto combinava-se com a noção de que havia uma correlação entre forma do crânio e capacidades cognitivas e psicologia do indivíduo.

E isso está ligado à sua dieta. Aqui é que tem a tua grande descoberta.

Sim, mas a dieta já é outro assunto. Isso já é uma coisa mais recente. Para compreendermos bem.

A questão dos mariscos.

Gerar esta imagem dos neandertais como um ramo extinto, portanto, primitivo, que não tem nada a ver com a evolução humana. Há aqui este outro aspecto, que é a noção que deu origem a uma disciplina que rapidamente caiu em descrédito, que se chamava frenologia, que se baseava na ideia de que as funções da psicologia, portanto, a inteligência, a sensibilidade, as emoções, etc, residiam em partes específicas, determinadas do cérebro. Que a forma do cérebro refletia a importância e o peso que cada uma destas funções da cognição tinham, e que isso se traduzia também na forma da caixa craniana. O cérebro variava de forma em função das capacidades cognitivas das pessoas, da inteligência, da psicologia, etc. E a caixa craniana, que envolvia o cérebro, refletia essa forma interna. Como a caixa craniana do neandertal era diferente em certos aspectos.

Do homem moderno, digamos.

A conclusão óbvia e imediata.

Era mais básico e era mais burro.

Mais básico, e etc.

João, nós temos três minutos.

E essa é a origem, portanto-

Deste mito.

Do mito dos neandertais como-

Como uma raça mais atrasada, digamos.

Raça mais atrasada.

E esta tua descoberta muito importante que tu tiveste, só pra situar as pessoas, lideraste uma equipa com 21 especialistas, aqui na gruta da Figueira Brava, que é no Portinho da Arrábida, em Setúbal. Entre 2010 e 2013 escavaram lá. Atualmente é uma gruta que está à beira-mar, mas chegou a estar a dois quilômetros da costa, e aí descobriram uma série de quantidades significativas de restos de peixe e de marisco, que corresponde a uma dieta alimentar com uma componente marinha importante, que chegava a ser de 50%. E toda aquela ingestão de ômega 3 e tudo o que o peixe permite, não era só aqueles povos com origem na África do Sul, que depois viriam pra cá fazer o homem moderno mais inteligente e que teria levado à extinção do neandertal mais atrasado. Mas não, cá também havia esse avanço civilizacional, digamos, e eles cruzaram-se, com certeza, o Menino do Lapedo é uma prova disso. Não foi um ramo extinto, mas foi um ramo que depois foi integrado. Mas isso revolucionou, João, temos dois minutos, revolucionou completamente estas teorias que já vinham desde o século XIX.

Sim, aqui a questão da dieta entra no seguinte contexto: no fundo, a história da dieta, que o consumo de recursos marinhos é que permitia uma expansão, desenvolvimento dos tecidos cerebrais e, portanto, uma expansão, um aumento do cérebro e das capacidades cognitivas, é, por usar uma expressão coloquial, uma história da carochinha. Foi uma coisa que se inventou. Como era uma coisa que se sabia que acontecia na África do Sul, em associação com populações de anatomia de esqueleto mais parecido com o atual do que no caso dos neandertais, usou-se isso como argumento para dizer: "Estão a ver? Estes gajos faziam isto, os neandertais não faziam, por isso é que estes gajos acabaram por desenvolver mais capacidades e cresceram demograficamente, desenvolveram uma sociedade mais complexa. Ao expandirem-se pra fora da África, claro, encontraram aqueles primitivos e acabaram com eles".

Exatamente.

A gente, com o resultado dos nossos trabalhos na gruta da Figueira Brava, demonstramos que na mesma época, contemporaneamente, há 100 mil anos.

100 mil anos, pois.

Na Europa Atlântica, os neandertais, que era quem cá vivia, faziam exatamente a mesma coisa. Das duas, uma: ou esse consumo de recursos aquáticos ajudou as populações humanas, todas elas, neandertais na Europa e, entre aspas, modernos na África do Sul, e é um fator importante, mas não é exclusivo das populações da África do Sul, ditas modernas, ou então exagerou-se muito, que é aquilo que eu penso, essa importância, até porque se pensarmos bem, a esmagadora maioria das populações desta época não viviam à beira-mar. Portanto, não consumiam, porque ao não viver à beira-mar, não tinha frigoríficos pra transportar a mercadoria pro interior das terras. O consumo dos recursos do mar era algo que era importante pras populações que viviam na costa, mas bastava estar a 30 ou 50 quilômetros pra dentro, e já não há recursos do mar pra ninguém, porque os territórios eram de populações de reduzido tamanho Sendo caçadores coletores com territórios muito grandes, podemos pensar que um bando, um grupo de cinco famílias, 25 pessoas, utilizava como território de subsistência 500 km² para dar uma ideia. Mas 500 km² na costa é uma distância pro interior de 10, 15 km, se pensarmos em termos de um círculo. E daí mais pra dentro, já não há recursos aquáticos. Portanto, eu penso que basicamente o que nós mostramos é que qualquer que seja o critério que tem sido utilizado do ponto de vista arqueológico para distinguir as capacidades dos neandertais por comparação com os seus contemporâneos de uma refugia mais parecida com a atual, que viviam em África, aquilo que a arqueologia demonstra, e boa parte dos resultados que eu tenho obtido nestes últimos anos vão nesse sentido, como acabo de dizer, é que não há diferença. Portanto, estamos a falar de antepassados, e essa é a forma correta de enquadrar esse problema. Portanto, todos foram nossos antepassados. Uns contribuíram mais, outros contribuíram menos, mas todos são antepassados da humanidade atual.

Perfeitamente uma revelação nestas teorias recentes. João, quero dar os parabéns por este artigo da Science que saiu há uma semana. Infelizmente não temos tempo pra mais. Muito obrigado por nos trazeres, a nós e ao mundo, esta descoberta que lança luz sobre os nossos antepassados. Como tu dizes, desfaz mitos, vira uma importante página da nossa evolução.

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