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O meu convidado extra de hoje é o médico cirurgião Joaquim Barradas, que foi diretor dos serviços de cirurgia nos hospitais Garcia de Orta, em Almada, e de São Bernardo, em Setúbal, e foi condecorado pelo presidente pela sua carreira. É um interessado pela história, em particular pela história da medicina. E na sua estreia na ficção, escreveu "O Libelo da Rainha", o extraordinário e verdadeiro caso que opôs uma rainha de Portugal contra o marido Dom Afonso VI e conseguiu que, por razões sexuais, o Papa anulasse o casamento para ela casar com o cunhado, que veio a ser o Dom Pedro II. Olá, Joaquim, muito boa noite e muito obrigado por ter aceitado este nosso convite diretamente de Setúbal. Bem-vindo ao "Observador".
Muito obrigado, é um prazer.
O Joaquim nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, e depois especializou-se em cirurgia geral. A última função que teve foi chefe de serviço de cirurgia geral do Hospital da Horta, nos Açores. Tirou o curso de medicina em Lourenço Marques, atual Maputo, e também estagiou no St. James Hospital em Londres. Chegou a ser condecorado, como disse, pelo Presidente da República. E digamos que este "Libelo da Rainha" é a sua primeira incursão na ficção, mas antes disso, teve outra obra que saiu há uns anos chamada "A Arte de Sangrar de Cirurgiões e Barbeiros". Portanto, tudo que seja a história, concretamente da medicina e especialmente a ver com a nossa história, a história de Portugal, também apaixona, eu já percebi. E era muito curioso, porque, aliás, neste "Libelo da Rainha" fala disso várias vezes. Era uma maneira que usavam antigamente para curar as pessoas. Diziam que os males estavam em humores, uma coisa meio espiritual, meio física e que saía quando a gente tirava sangue dos doentes. Era o que se acreditava na altura, não?
Era. Pensava-se antigamente que a causa das doenças era o desequilíbrio dos humores. Dos humores que eram os líquidos que havia no organismo. Eles até consideravam quatro líquidos, que era o sangue, a bílis amarela, a bílis negra, que é uma coisa que não existe, mas eles achavam que sim, porque as hemorragias, por exemplo, do organismo que saem, o sangue torna-se negro e provavelmente eles atribuíam isso a um humor, não era? Era sangue, de fato, escurecido. E a fleuma, a chamada fleuma, que eram os líquidos mais claros, mais translúcidos, como o muco nasal e os líquidos de cor esbranquiçada. Bom, eles atribuíam a doença ao desequilíbrio desses humores e achavam que com a sangria podiam retirar para fora os humores que eram maus, que eram deletérios, e assim restabelecer o equilíbrio e voltar a dar a saúde. Evidentemente, isto era um conceito muito teórico e foi isso que me levou a investigar, porque nós hoje fazemos o contrário, os médicos. Hoje nós damos sangue.
Exatamente.
Antigamente, eles retiravam o sangue. E foi essa contradição extraordinária que me levou a investigar o assunto e a tentar compreender por quê. Não me foi fácil entender, mas eu penso que o comum das pessoas, pelo menos, pode ter uma noção, ainda que longínqua, através disto. É retirar aquilo que faz mal ao organismo para restabelecer o equilíbrio.
Uma coisa quase intuitiva, mas claro que não era assim. Eu lembro que neste seu "Libelo da Rainha", tem uma descrição de um mal que atingiu Dom Afonso VI, muito grave, onde depois os cirurgiões barbeiros, estes médicos, que era assim que se chamavam, uma coisa estranha, tiveram a decidir onde é que iam fazer essa sangria e depois decidiram pelo pé. Era uma coisa muito complicada, este tratamento, que levava, se era estes humores viciosos, vinham do fígado ou do pé esquerdo, se o pulso já estava muito fraco. Incrível. E então tem uma descrição muito pormenorizada disso. E realmente eram discussões extraordinárias. O avanço da medicina realmente nisso foi uma coisa extraordinária. Também, agora que pode ser, que já é um reformado do Serviço Nacional de Saúde, com isto tudo, e falou precisamente hoje em dia os médicos fazem transfusões, dão sangue, em vez de tirar. Um dos remédios, por exemplo, para esta Covid, se não me engano, passa por injetar plasma de pessoas que já foram infectadas e que ficaram salvas, já ficaram imunes à Covid. Isso, se não me engano, é um dos procedimentos que se está também a testar neste momento, certo?
Estão a testar, mas isso não está provado que seja eficaz. Na realidade, quando o organismo é atacado por um micro-organismo, por uma bactéria ou por um vírus, desenvolve anticorpos, portanto, desenvolve proteínas que servem para combater essas bactérias e esses vírus. E isto é o racional, isto é a explicação para as vacinas. As vacinas consistem em estimular com agente patogênico enfraquecido, estimular o organismo para ele criar defesas para esse micro-organismo. E o nosso sistema imunológico tem aquilo a que se chama mesmo, tecnicamente, a memória imunológica. O organismo já não esquece quem o atacou. Se ataca novamente, então, desencadeia todas as defesas nesse sentido. Essas proteínas, os anticorpos, circulam no plasma. E a explicação racional para a utilização do plasma como tratamento do Covid-19 é precisamente essa, retirar plasma de pessoas que já têm imunidade, portanto, têm anticorpos circulantes E esses anticorpos seriam então eficazes para tratar os agentes patogênicos que desencadeiam em outra pessoa. Isto racionalmente é assim, mas em medicina é preciso ter uma verdade científica, e a verdade científica não pode ser baseada na teoria e no que parece ser racional.
Tem que ensaiar.
Tem que ter uma prática, tem que ter uma experimentação para se comprovar que assim é na maior parte das pessoas. E isso ainda não aconteceu.
Como é que tem tentado acompanhar este caso? Com certeza está confinado neste momento. O seu Serviço Nacional de Saúde, como é que o vê nesses últimos dias? Tem tido razões de preocupação ou pelo contrário, tem visto que até tem reagido bastante bem? Qual é o seu parecer no que tem tentado ver e acompanhar a partir desta pandemia?
Olha, eu estou, de facto, reformado, já não frequento os hospitais há mais de dez anos, mas para mim é um orgulho enorme estar a assistir àquilo a que estou a assistir. Este Serviço Nacional de Saúde respondeu muito bem e está a responder muito bem. Nós vemos aí países muito mais poderosos, muito mais ricos, com maiores meios, mas o nosso pequeno país conseguiu reagir a esta pandemia de uma forma extraordinária.
Exemplar, sim.
E eu tenho imenso orgulho no trabalho dos meus colegas e acho que os agradecimentos de que eles têm sido alvo são inteiramente merecidos. Mas aqui eu gostava de abrir um parêntese.
Diga.
São os médicos que merecem esse agradecimento, são os enfermeiros que merecem esse agradecimento, mas também são muitos técnicos que trabalham no hospital, técnicos de radiologia, técnicos de laboratório, técnicos de fisioterapia, um número muito grande de técnicos e também os assistentes operacionais, que são pessoas que nunca são lembradas e elas estão na frente da batalha, são as que trabalham mais próximo dos doentes, são as que trabalham com a intimidade dos doentes, às vezes trabalhos muito desagradáveis e difíceis. Os assistentes operacionais nunca deveriam ser esquecidos no meio desta pandemia.
Não posso deixar de, antes de fazermos um pequeno intervalo e depois voltarmos à conversa então sobre o nosso livro e só sobre o nosso livro, também referir aqui que tem dois trabalhos que eu gostava de lhe perguntar muito brevemente, um sobre feridas por arma de fogo, por que foi uma coisa que lhe interessou, e outro que é uma breve história da alma. Já deu uma comunicação sobre a breve história da alma na Ordem dos Médicos e gostava de saber isso, porque é que quer um, quer outro, quais são as razões desta sua escolha?
São duas coisas muito distintas, não é?
Sim, completamente.
A alma. A medicina, durante 1500 anos, até ao século XIX, praticamente, baseou-se muito nos princípios aristotélicos e nos princípios, inclusive, também platônicos, e nos princípios de Hipócrates. Hipócrates é o pai da medicina.
Exatamente, com o juramento.
Todos eles, nessa época, se passa isso 200, 300 anos antes de Cristo, todos eles defendiam a tese de que a alma é que comandava qualquer coisa que se movesse. O corpo tem movimento porque a alma é que desencadeia esse movimento. E a alma tem alguma comunicação divina com os céus, com o etéreo. E é através dessa comunicação, é o divino que prodigaliza isso. E a alma, então, desencadeia o movimento. Não há nada vivo que não tenha alma. E para Aristóteles, também as plantas tinham alma e também os animais tinham alma. É claro que eu também acho que os animais têm alma, ainda hoje. Muita gente talvez não ache, mas eu acho que eles têm alma. Mas então interessou-me isso da alma, porque ela está intimamente relacionada com a medicina. E, por outro lado, está relacionada com a religião, é evidente.
Exatamente.
E a medicina aceitou, nos primeiros séculos depois dos gregos, até Galeno, que foi um médico grego, trabalhou em Roma, mas já no ano 200 depois de Cristo, acreditou que era a alma e eram os espíritos que desencadeavam os movimentos, desencadeavam as funções de um organismo. Para Galeno, havia três espíritos. Havia o espírito vital, com sede no coração, que dava calor e distribuía vida pelos tecidos. Havia o espírito natural do fígado, que transformava os alimentos em sangue. E havia os espíritos animais, que ele chamava espíritos animais, que se encarregavam do movimento e também da sexualidade, da procriação. Ora bem, tudo isto está muito relacionado com a medicina e foi isso que me levou a tentar sintetizar numa breve comunicação a história da alma na medicina.
Agora, Joaquim, temos que fazer aqui um pequeno intervalo e voltamos já à conversa, então.
Sim, senhor. Até já, então.
Chamo Rita Porto e sou jornalista da seção de sociedade. Trabalho os temas de saúde no Observador e posso dizer que estamos a acompanhar o surto do novo coronavírus desde o primeiro dia. Ainda ninguém imaginava que se iria tornar uma pandemia e que em tão pouco tempo chegaria a Portugal. E aqui estamos, o Observador a informar, a explicar, a dar-lhe conta da evolução do coronavírus minuto a minuto. É isto que fazemos todos os dias, a toda hora, com rapidez, mas sempre com clareza e rigor para lhe fazer chegar a melhor informação. Estamos sempre ao seu lado e agora precisamos que esteja do nosso lado. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.
E retomamos aqui a conversa com o Joaquim Barradas, um cirurgião que se debruçou sobre um caso médico com 350 anos, que deu brado nas cortes europeias e que levou a que uma francesa, parente do Rei Sol, fosse casada com dois reis de Portugal. Eu acho que era importante, para já, Joaquim, primeiro falar um bocadinho do contexto desta história. Estamos a falar dos filhos de Dom João IV. Antes de mais, foi o seu primeiro livro de ficção, espero que não seja o último, porque está realmente muito bem escrito e entreteve-me imenso essa história. Vou-lhe também perguntar como é que surgiu esta ideia, por que se lembrou de fazer este livro com esta história, que concretamente é uma história verdadeira, mas é tão incrível que, para mim, suplanta qualquer ficção que se pudesse escrever sobre o assunto.
Muito obrigado. Eu vou-lhe contar a verdade toda. Eu, desde há muitos anos, sou um frequentador de alfarrabistas. Eu gosto de andar lá, gosto de tentar descobrir o que eles têm, descobrir coisas antigas. E na realidade, eu era um frequentador porque na sangria eu fui buscar textos antigos para compreender o que se passava, porque na atualidade não há muitos textos que expliquem a sangria. E um dos livros que eu peguei foi um que dizia "As causas da nulidade do casamento de Dona Maria Francisca de Sabóia". Maria Francisca de Sabóia era um nome que eu tinha vagamente na memória e comecei a folhear aquilo. E quando folheei aquilo, estavam lá os depoimentos dos médicos nos julgamentos do Rei Afonso VI, e foi aquela linguagem médica que me levou a comprar o livro e a começar a interessar-me pelo assunto. E de facto, peguei no fio à meada e fui por aí adiante até concluído e fazer este livro.
E gostei muito também do seu livro, porque faz realmente este contexto, conta como era Lisboa e como era a vida em Lisboa, e as festas, e as luminárias e as procissões. Isso é muito importante, porque recuamos três séculos e meio, quatro séculos à Lisboa de então e aprendemos muito com aquelas personagens históricas, com o Padre António Vieira, com a Dona Luísa de Gusmão. Estamos a falar de dois filhos de Dom João IV. Estamos depois de 1640, Portugal restaurou a independência e estamos em plena Guerra da Restauração. Tudo isso se passa em plena Guerra da Restauração. As pessoas têm um bocado aquele engano que a Restauração foi em 1640, no primeiro dezembro, no dia seguinte estava tudo bem e éramos todos portugueses outra vez, quando, no fundo, foi uma guerra que durou 28 anos. Isso tudo se passa durante a última fase dessa Guerra da Restauração, que só em 1668 ficou resolvida. É preciso também dizer que entre os filhos de Dom João IV e desta Dona Luísa de Gusmão, a tal que era andaluza, filha dos duques de Medina-Sidônia, uma das famílias mais poderosas de Espanha, e que disse aquela frase: "Mais vale rainha um dia do que-
Princesa toda a vida.
Exatamente, princesa toda a vida. Esta frase extraordinária. Eles tiveram vários filhos, o mais velho, Dom Teodósio, o Príncipe Brasil, que era para ser rei, mas morreu muito novo, com 19 anos. Dona Ana de Bragança morreu no dia em que nasceu, portanto, não viveu muito. A terceira filha, Joana, a Princesa da Beira, a quarta, a Catarina, que foi casar então com o Rei Carlos II de Inglaterra. O quinto, Dom Manuel, também morreu no próprio dia e o Dom Afonso VI é o sexto filho, e o Dom Pedro II, o sétimo, o mais novo, o tal que depois usurpou o trono, digamos, e ficou a governar, fez do irmão depois de o ter exilado. Estamos a falar de um rei, que foi cognominado o Vitorioso, e afinal, o 22º rei de Portugal, o Dom Afonso VI, que tinha, e o Joaquim descreve isso muito bem, vários problemas desde menino, mas um deles parece que não seria a debilidade mental. E, no entanto, nós crescemos com esse mito, que ele era um rei maluco e que andou às voltas no Paço de Sintra e que acabou por morrer lá, porque era atrasado mental, tinha um problema qualquer mental. Mas parece que não foi o caso. Apesar de ter muitos problemas desde os quatro anos, era coxo, era um bocado estrábico e teve muitos problemas de saúde, mas a sanidade mental parece que não era um deles.
Essa questão é discutível, mas a minha opinião é de que essa foi a ideia que a facção política vitoriosa desta disputa tentou fazer passar para a posteridade, nomeadamente o irmão Dom Pedro II. Eles tentaram dizer que o rei era um incapaz, que era um louco, que era isso, que era aquilo. Evidentemente que o rei não era uma pessoa inteiramente normal e tinha de facto problemas de saúde, porque ele deve ter tido ou uma meningite ou uma encefalite quando era criança, aos três ou quatro anos. E na realidade, ficou com uma paralisia parcial da perna direita e também, provavelmente, do membro superior direito. E, portanto, com alguma incapacidade. Ele coxeava, pois era estrábico, também tinha alguma paralisia.
Apesar de ter os olhos azuis. Era estrábico.
Exatamente.
Eu diria sempre que a cara parecia aquelas pessoas que tiveram uma trombose. A cara também parece que estava descaída para um lado ou qualquer coisa.
Exatamente, devia ter uma paralisia facial. É provável que tivesse também uma paralisia facial que o desfigurava. Ele não tinha propriamente a figura de um rei, mas daí até ser doente mental ou ser um incapaz, eu acho que vai uma grande distância. E essa ideia, que eu também tinha inicialmente, é fruto da propaganda e é fruto-
Da facção vencedora.
De se fazer passar sobre este rei para justificar as sevícias que lhe foram feitas. Foram verdadeiras sevícias.
Depois que já falámos disso, as várias doenças que ele teve. Ele também adorava touros e sofreu várias colhidas, caçadas e caía do cavalo e tudo lhe acontecia, coitado. Os médicos faziam sangrias repetidas e banhos nas Caldas. Tudo aquilo não correu muito bem com a saúde dele. No seu livro fala muito bem, tem uma descrição muito boa do casamento da irmã Catarina com Carlos II, com este dote extraordinário, que ela levou. E depois fala, por exemplo, tudo isto corresponde à verdade, o santo motim que aconteceu, esta insurreição com o saque da casa do Marquês de Marialva. Tudo isto se passou também, Joaquim, exatamente?
Passou, sem dúvida nenhuma. Infelizmente, a história não relata estes aspectos mais desagradáveis da vida dos povos. E o Marquês de Marialva, que foi o alvo do saque, a casa dele que foi alvo do saque, o Marquês de Marialva é uma pessoa a quem este país deve imenso. Ele venceu a Batalha das Linhas de Elvas, depois venceu a Batalha de Montes Claros, que foi a batalha decisiva, já ao fim de 25 anos de guerra, e foi essa batalha que conduziu à paz. E ele para conseguir isto tudo, teve que ser um homem que soube lidar com as outras pessoas, sempre soube considerar os outros e era um homem cheio de méritos. Mas também foi um homem que serviu o Rei Afonso VI e foi capaz de se deixar aliciar para testemunhar naquele julgamento vergonhoso contra o rei. Portanto, ele foi depor contra o rei, que tinha servido durante meia dúzia de anos, sendo um dos seus generais, e foi depor um bocado contramão. Portanto, o Marquês de Marialva foi, de facto, um grande homem, mas para mim tem este grande senão. Devo dizer que a Batalha de Montes Claros foi num sítio entre Vila Viçosa e Borba, um sítio que eu visitei com muito cuidado para compreender bem como é que se passou a batalha. E subi a um morro que lá existe, onde há uma vista enorme sobre o campo de batalha, uma vista muito bonita. Onde ele subiu também para ver como é que as tropas espanholas vinham de Vila Viçosa, espalharam-se pelo campo de batalha e os portugueses estavam a formar enquanto ele estava lá em cima a ver como é que as coisas se dispunham para a batalha. Bom, eu subi esse morro e desci à aldeia do Barro Branco, é assim que se chama a aldeia ali perto, e falei a pessoas agora, há uns anos atrás. Falei a pessoas sobre o Marquês de Marialva, sobre o monumento que ele mandou construir ali no morro da aldeia do Barro Branco, e as pessoas, curiosamente, disseram que o Marquês de Marialva era uma pessoa a favor da paz, porque de facto, aí no morro, o Marquês de Marialva deixou uma enorme pedra em mármore com quatro metros de largura e três metros de altura, a dizer: "Eu espero que o povo português nunca mais volte a passar pelos sofrimentos que nós passamos nesta Batalha de Montes Claros".
Que legal. Um bonito testemunho também. Portanto, estamos a assistir, ao ler o seu livro, a todos esses movimentos, a esta Lisboa seiscentista, o Bairro do Mocambo, as ruas que foi buscar, extraordinário, com estes nomes, a Rua do Pai de Seus Filhos, ao pé de São Nicolau, a Rua do Tem-Te Lá, a Rua do Cata Que Farás, esta era a única que eu conhecia. Isso foi extraordinário. Portanto, retrata muito bem a Lisboa daquele tempo e as festas e tudo o que havia. Relembra o assassínio do bispo de Lisboa, da Torre da Sé, isto no tempo de D. Nuno de Orteles, portanto um bocadinho antes. Porque este julgamento fez-se ali também numa das capelas da Sé de Lisboa. Introduz-nos também esta rainha, Maria Francisca Isabel de Sabóia, rainha consorte de Portugal, portanto esta que era parente do rei Luís XIV, e que o Conde de Castelo Melhor tinha ido buscar a França para arranjar uma boa mulher para o rei, até porque nos interessava esta aliança com os franceses. Ela era mademoiselle de Nemours e d'Aumale, portanto parente do rei, gentil, tinha um dote valioso, casou por procuração. Esta coisa do rei não ter comparecido ao cais na Junqueira quando ela chegou, isso também foi assim?
Foi, exatamente assim. Os historiadores não acentuam muito isso, porque de facto, isso não tem grande relevância para o fato histórico, mas do ponto de vista pessoal tem grande relevância.
Claro. Nem a foi receber.
O rei passou o dia com evasivas para não ir ter com ela. Casaram por procuração, ela chega de barco, num dia de imenso calor, acho que 2 de agosto, e fica no barco o dia inteiro à espera que o rei chegue. E de facto começa uma grande movimentação em terra para ir ter com a rainha, mas ninguém sabia do rei. Estavam já todos preparados para ir, mas o rei andava com evasivas. E arranjou um pretexto, que foi uma capela qualquer, rezar, mas isso demorou o dia inteiro e só ao fim da tarde é que o rei, de facto, foi praticamente obrigado.
Ou foi convencido a ir.
Foi convencido a ir ter com a rainha.
E é verdade também essa história que o Conde de Cascais chegou a confrontar o rei, portanto, a dizer: "Passa-se isto". No fundo, já havia esta inimizade grande. A rainha estranhou aquele rei, aquele rei estranhou aquela rainha, aquilo não correu muito bem a nível físico também, é o que consta, é o que ela se queixava também. E às tantas, ao contrário, a própria rainha, dona Maria Francisca de Sabóia, aproximou-se muito do irmão, dom Pedro II, que tinha outra figura, o irmão mais novo do rei, e Conta-se que até teriam tido algumas intimidades e por isso passarem em Salvaterra de Magos, passarem em vários sítios. E por isso, às tantas, o Conde de Cascais teria confrontado o rei, e que o rei teria ido à janela pedir socorro, para ele abandonar e para ele abdicar. Isto terá sido também exatamente assim, no sentido em que ele às tantas foi confrontado até por amigos, que devia mudar de atitude em relação à rainha, porque isto, no fundo, precipitou tudo.
Olha, isso foi mesmo assim. Eu quero dizer que eu tenho por princípio, isto é um romance histórico, evidentemente que a ciência e a história vive de documentos. A história não pode fazer afirmações se não tiver uma documentação a justificar essas afirmações. Mas no romance há alguma liberdade. Agora, há liberdade para preencher alguns espaços que nós encontramos que sejam vazios.
Os diálogos, claro, obviamente.
Exato. Mas eu não atropelo nenhum fato histórico. Tudo isso são fatos históricos que eu escrevo ali. De fato, o rei depois vai fazer uma boda para o Palácio de Alcântara, que é o sítio onde está a Polícia de Segurança Pública, atualmente à frente.
Aqui no do Calvário?
Do Calvário, exatamente.
Já sei.
E no Calvário, à frente à capela onde eles foram, depois de saírem do barco, foram rezar à capela antes de irem para a Quinta de Alcântara, que era uma Quinta Real, onde o rei corria touros, exatamente como falou há bocado, corria touros. E foram à capela e foram fazer uma ceia de recepção à rainha, e é uma ceia também de casamento. Ora, o rei, logo nesse dia, ele diz que está indisposto, está cansado e não pode ir à ceia. Era a noite de núpcias.
Pois incrível.
É. O rei tinha, de fato, um problema terrível. Andou todo dia a fugir e quando chegou a altura da noite de núpcias, ele disse: "Eu estou mal disposto, estou cansado e não vou." Está a vir uma rainha que vem de França. Faz uma viagem de dois meses, talvez, com um incômodo imenso naquela altura. Às vezes os barcos não progrediam porque não havia vento, ficavam dois ou três dias parados. E o que acontece é que nem à boda ele foi. Quer dizer, nem uma conversa teve. O rei tinha a sua constante-
Eles estranhavam-se um ao outro, que é estranho. Chega a escrever esta frase: "A rainha estranhava o rei, o rei estranhava a rainha." Mas escrito este livro e depois de ler toda esta documentação, Joaquim, qual é a sua ideia? Porque ele depois esteve durante este julgamento incrível, e está muito bem descrito, nós não temos muito tempo, mas resumindo, testemunhos quer do cirurgião real, Pedro Ruiz, cirurgião do Hospital Real de Todos os Santos, quer de calcanhares e de uma série de mulheres que tinham estado com o rei, em que estes fazem as descrições mais incríveis da anatomia do rei. Umas dizem que sim, que ele conseguia fazer coisas, outras que não. O Conde de Castelo Melhor dizia que o rei tinha tido uma filha e que ele era bem capaz de ter, nunca ficou provado. Qual é o seu sentir depois de escrever isto e depois de ler esta documentação toda, Joaquim, o que realmente se passava com o rei? Algum medo, alguma insegurança total, alguma sexualidade não consta.
O rei tinha medo, era inseguro e certamente tinha grandes razões para isso.
Se calhar a nível físico também, uma vergonha?
Como?
Uma vergonha também a nível físico?
Não é só vergonha, é muito difícil com os elementos que se dispõem a esta distância, estar a fazer uma espécie de diagnóstico preciso. Mas eu tenho para mim, e isto pode ser algo crítico, que o rei sofria de uma doença que se chama hoje hipospádias, tem um nome assim cavalo, que é um defeito embrionário, um defeito congênito de desenvolvimento do pênis, em que o meato urinário está na face ventral do pênis e há ali uma fibrose, e quando a pessoa tem ereção, é uma ereção que não se desenvolve para adiante, fica ali retida por esta fibrose. Ora bem, isto é uma doença que tem tratamento hoje em dia, mas naquela época era uma doença rara, que não tinha tratamento e que não se mostrava a ninguém. E mais, quando uma pessoa com esta doença urina, ela não tem controle sob a direção do jato urinário. E portanto, se um homem, porque tem pênis, urina de pé, ele arrisca-se muito a molhar as calças todas.
A molhar toda a volta, exato.
Portanto, essas crianças, e eu penso que foi isso que aconteceu com o rei, essas crianças têm que urinar sentadas. E, portanto, na fase inicial da vida, tem cinco, seis, sete, oito anos e urinam sentada. E eu penso que os conflitos do Afonso VI começam logo aí na infância. O Afonso VI nunca teve uma amizade com as amas que o tratavam. Normalmente, os reis criam grande amizade com as amas de leite, porque são bem tratados, são reis. Criam relações emocionais próximas com essas pessoas. Eu penso que o rei não começou porque elas não entendiam aquilo e provavelmente ralhavam com ele, o que é que as meninas é que urinam sentadas.
Sentadas, exatamente.
E penso eu que começa tudo aí. E, portanto, o rei depois está com outras mulheres. Umas dizem que sim, mas as mulheres nunca dizem tudo, felizmente, as mulheres são de uma discrição, em geral, enorme nesse aspecto E não dizem de facto as coisas. Mas algumas contaram nitidamente que foi ejaculação precoce, mas isso é uma questão que-
Como elas diziam, que o sêmen saía para fora do vaso. Como elas diziam.
Hã?
Diziam que ele ejaculava para fora do vaso, o sêmen derramava-se fora.
Elas quando dizem vaso, querem dizer a vagina.
Sim, eu percebi. Era a expressão que elas usavam, muito engraçado.
Que elas usavam. Hoje em dia também há pessoas que têm essa doença, mas os médicos ajudam a resolver. As mulheres, se forem compreensivas, também podem dar grande ajuda e geralmente estas pessoas têm descendência. Portanto, o rei tinha condições para ter descendência. O que ele não tinha era apoio médico, era uma doença desconhecida, ou muito mal conhecida, que ele viveu com ela sozinho, numa solidão enorme e foi esta a vida dele. Sobre aquilo que disse do Marquês de Cascais, isso já é mais adiante. Isso é quando o rei, um ano e meio depois de casar, já havia uma grande cumplicidade entre o irmão Dom Pedro e a rainha. E isso é na altura em que o Dom Pedro vai enfrentar o rei e faz uma espécie de assalto ao palácio, em que ia de facto o Marquês de Cascais, mas também ia o Duque de Cadaval e mais outras personagens. E é aí que o Marquês de Cascais, de facto, diz uma graçola em relação ao rei. O Marquês de Cascais era uma pessoa sensível, com sentido de humor, mas eu acho que ele foi muito infeliz nessa graçola que disse. Eu descrevo isso no livro, não vamos agora entrar em detalhes. Mas é essa a participação do Marquês de Cascais.
Nós, infelizmente, Joaquim, não temos tempo para mais, em rádio é assim mesmo, mas gostei muito e agradeço a sua disponibilidade para nos vir contar este caso extraordinário, que mexeu com a justiça, com a história, com a medicina, com a monarquia, com a ambição política também. E quero agradecer, portanto, por este livro, fica aqui a dica, "Libelo da Rainha", uma edição da By the Book, por Joaquim Barradas. A história deste caso extraordinário, que dava um filme maravilhoso e que realmente se passou na nossa história há 350 anos. Muito obrigado, Joaquim, até breve. Bem-haja pela sua contribuição.
Muito obrigado eu pela sua gentileza. Até breve.
Até breve. Obrigado.
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