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A mostra surpreende pelas cores, texturas, tema, mensagem e até pelo espaço onde se apresenta. "Know Your Place", "No teu lugar", é o título da mais recente exposição de Carolina Piteira, que reflete sobre as expectativas e responsabilidades frequentemente impostas às mulheres. São 21 obras de pintura e colagem e está em exibição até 10 de setembro, numa galeria de arte temporária na Rua Nova do Almada, número 48, no Chiado. O projeto conta com a curadoria e textos de Inês Pinto e Sousa, que convidei para se juntar a nós nesta conversa. Olá, Carolina. Olá, Inês. Bem-hajam por terem aceitado este meu convite. Bem-vindas às duas.

Obrigada.

Para a Carolina é um regresso. Olá, Carolina, de volta a esta casa. Vieste cá em janeiro de 22, se não me engano. Foi quando estavas com o "Tempo sem Tempo", "Out of Time", aquelas 22 obras de grande formato que tinhas sobre o desafio das alterações climáticas, que foi ali na Central Tejo. Estou agora a reparar que é 22 obras aquela, 21 esta. Tens algum fetiche com a importância dos números?

Por enquanto 19.

Vai diminuindo, vai deixar de expor em 2058.

Exatamente.

Mas foi pura coincidência?

Foi coincidência.

Pintas assim aos 20 para as tuas exposições, é o número mágico.

Se calhar correu bem, então é melhor não mexer. Vamos continuar assim.

Exatamente. Gosto sempre de referir esta questão de te ter conhecido em Londres, onde estiveste uns anos, fizeste Erasmus na University College London. Ganhaste, aliás, este prémio como melhor aluna da tua escola, onde conheceste a Paula Rego. Várias vezes visitaste o ateliê dela.

Sim.

Uma pessoa extraordinária, e ela como uma rookie, como uma principiante. Na altura, tu eras superacessível e foi importante?

Foi muito importante sentir que uma artista já com bastante peso, a nível mundial, muito consagrada, me abriu a porta do ateliê e recebia sempre que eu pedia. Isso fez com que hoje em dia, estamos a falar de níveis completamente diferentes, mas sempre que eu vejo alguém de Belas Artes, algum estudante, algum miúdo que não sabe muito bem o que quer fazer dentro das artes, pede para ir ao ateliê, eu nunca fecho a porta por causa disso.

Lembras-te disso, que foi realmente importante. Desde 2010 que tu expões, tu és muito nova ainda, deves ter começado aos seis. Entretanto, em Londres, Paris, Roma, Atenas, Madrid e Lisboa. Eu lembro-me da tua primeira exposição em Londres, no The Camp, estamos a falar em 2010. Depois em Kiev, em 2017. Agora que está uma guerra a decorrer lá, faz sempre impressão. Estiveste lá mesmo nessa exposição? Gostaste da cidade? Gostaste das pessoas? Nem por isso?

Não estive.

Não foste lá. Mandaste obras?

Mandei obras.

Então há coisas expostas tuas, vendeste lá obras, com certeza.

Sim. Nós temos várias exposições, ou seja, os artistas fazem exposições individuais ou exposições coletivas. E muitas vezes nas coletivas nós só enviamos o trabalho se tivemos oportunidade de ir. E essa era coletiva.

Se fosse tu em devido altura, claro que irias, neste caso, agora sim, mandas uma ou duas obras.

No início de carreira, nem eu conseguia financeiramente ir às minhas exposições todas, só havia dinheiro para mandar os trabalhos. Eu não conseguia ir atrás.

Muito giro. Entretanto, eu acho que dos pormenores que mais te lançaram foi esta Bienal de Veneza, talvez há quatro anos, se não me engano.

Sim, foi uma excelente oportunidade.

Muito bem. E depois em 2022, claro, esta "Out of Time", que foi aqui na Central Tejo, uma coisa extraordinária. Além de estar na coleção do Luciano Benetton, isso é uma coisa também importante. Mas é engraçado, Carolina, porque tu és uma pessoa que tem sempre estas causas, entras naqueles leilões para ajudar o SNS. Esta, concretamente, da Central Tejo, foi muito curioso, porque era mesmo para alertar as pessoas, tinha o vídeo para a tua filha quando tiver daqui não sei quantos anos, esta ideia do mudar já hoje ou amanhã. E esta que vamos falar hoje também tem um pouquinho a ver com isso, é mensagem para o que está a decorrer no mundo. Tens sempre uma mensagem a ver com o que se passa à tua volta, é muito giro isso. Puro prazer da estética.

Não, a beleza não é o principal objetivo com o meu trabalho. Eu acho que é muito mais importante nós conseguirmos passar uma mensagem do que propriamente só fazer coisas bonitas, porque isso depois tem pouca relevância, a meu ver. E em diferentes alturas da minha vida, eu senti necessidade de falar de diferentes temas, e desta vez foi esse tema sobre as mulheres. Sim, celebrar as mulheres.

Já vamos falar disso com calma. Correu bem esta da Central Tejo, vendeste tudo, o que é muito bom, é sempre um grande sinal e um bom sinal. E também há uma coisa curiosa que é estas coisas das conversas com energia. Isto é com a Fundação EDP, imagino. Depois vão por escolas e também com o Novo Verde, RP Portugal, vão a escolas falar com alunos e também pintas lá?

Não, não pintei.

É só conversa, perguntam coisas?

Foi só conversa. Por incrível que pareça, não precisaram que eu pintasse, foi só mesmo falar um bocadinho sobre a perspectiva de uma artista neste mundo das energias verdes.

Muito giro. Essa é uma ideia extraordinária, eu acho isso muitíssimo bom.

Eu gostei bastante.

Estamos aqui com a Inês Pinto e Sousa, que é a curadora e também autora de muitos destes textos que eu gostei imenso e por isso fiz questão que a Inês viesse. Acho que és muito importante para esta exposição também, Inês.

Obrigada.

Apesar de não teres dado uma pincelada.

Eu também acho.

A Carolina também acha, porque é extraordinário. Mas é verdade, acho que é mesmo um contributo muito importante. Adorei aqueles textos, adorei o que ali se explicava e o que ali estava, e acho que é um complemento perfeito. Como é que tu apareceste, Inês, nesta dupla?

É uma história engraçada. Posso contar?

Claro.

Eu e a Carolina conhecemo-nos já há muito tempo. Nós andámos na mesma escola primária.

Ok, não sabia.

Na mesma turma primária. E passámos décadas, eu acho que posso dizer, sem falarmos. Claro que eu conhecia a Carolina e seguia bastante o trabalho dela. Acho que fomos contemporâneas em Londres durante talvez meses, não sei muito bem. E depois, há uns tempos atrás, eu fui fazer um segundo mestrado em História da Arte.

Que não é aquele Júlio Pomar, ou é esse?

É esse.

Tu foste bolseira da Fundação da Casa-Museu, não é? Do Ateliê-Museu Júlio Pomar. Sim, há uma semana a minha convidada estava Antónia Matias. Eu gosto imenso daquele ateliê, gosto imenso daquela gente.

É, eles são incríveis. Gostei muito de trabalhar com eles.

Então fizeste este mestrado sobre os elementos mitológicos na obra do Júlio Pomar.

Exato.

Incrível. E isso levou-te a Londres?

Não.

Essa coisa foi cá.

Foi cá.

A investigação nas obras dele.

Londres estive há mais tempo atrás. E entretanto, no decorrer dessa investigação, dessa tese, na altura fiz um vídeo para o Museu Júlio Pomar a falar sobre uma das obras, que a Carolina viu.

E gostou? Contactou-te?

Acho eu que gostou, pelo menos contactou-me e perguntou-me o que eu andava a fazer, se queria falar um bocadinho com ela, se fazia sentido colaborarmos alguma coisa, e desde então temos estado a trabalhar nesta série.

Boa, porque já tinhas um bocadinho essa ideia. Era importante alguém que dissesse alguma coisa, que tivesse alguma empatia contigo, para ajudar nestas exposições e a divulgar, porque é uma coisa que tu também fazes. É importante os artistas saberem comunicar a arte, tu és especialista nisso.

Absolutamente, sim.

E muitas vezes são ótimos artistas, mas não se conseguem cruzar com as pessoas certas ou com os sítios certos ou as oportunidades e acabam por se perder um bocadinho a sua obra, porque ninguém sabe. É importantíssimo dar a conhecer e apresentá-la.

Sim, ainda por cima no mundo atual em que as redes sociais e a internet fazem parte-

Chovem as publicitações, exatamente. Obrigatoriamente

...da vida de toda a gente, acho que é importantíssimo as pessoas terem noção como é que podem utilizar estas ferramentas, no fundo, a seu favor. E um dos meus objetivos é precisamente ajudar nessa parte, porque tenho alguma experiência nisso e acho que é importante as pessoas conseguirem.

Engraçado, porque tu vens de Design, do IADE, depois tiraste este Marketing de Comunicação. Cá está, University of Westminster, que passaste por lá.

Exato.

E depois também tiraste mestrado em História da Arte, que também é aqui pela Nova, se não me engano.

Sim, pela Nova, é isso.

Tens várias áreas dentro da arte e da comunicação, tu és a pessoa ideal para agarrar uma exposição, seja o que for, ou para um trabalho sobre história da arte, ou de restauro, ou de conservação, ou o que for.

Espero que sim.

Porque sabes disso, é muito engraçado. E tu segues muito os trabalhos e gostas de artistas que contam histórias sobre o mundo atual, uma vez disseste isso. Isso é muito cheiro.

É, acho que é importantíssimo. Para mim é um dos valores que eu não abdico em nada, que é: eu acredito que a arte deve ser acessível a toda a gente, ou melhor dizendo, as pessoas não devem ter medo de irem a museus, de conhecerem melhor a arte e às vezes talvez seja um bocadinho intimidador. E uma coisa que eu gostaria de fazer, ou que eu tento fazer, é facilitar um bocadinho esta ligação, tanto do lado dos artistas como do lado dos públicos, e conseguir trazer mais pessoas à arte ou trazer arte a mais pessoas, talvez seja mais por aí.

Incluindo públicos novinhos?

Por exemplo, sim.

E tens jeito para isso? É fácil convencer uma escola a visitar um museu de arte contemporânea, por exemplo. Eu acho sempre que devem levá-los lá, mas não sei se é fácil seduzi-los e ver coisas assim muito Pollocks.

Não sei se talvez seja a pessoa mais indicada para isso.

Talvez. Mas que era importante, se calhar.

Mas acho que é importante, sim.

Essa ligação, claro, de fazer mais visitas de estudo. Eu acho isso essencial nas escolas.

Acho que sim, acho que é preciso esse contacto também. As pessoas que o conseguem fazer, no meu caso, eu comecei a ter mais contacto com arte precisamente em criança, mais nova, e acho que isso despertou essa minha paixão cedo. E, portanto, se há crianças que conseguem ter essa oportunidade, é fundamental.

Cheiro. Tu também em pequenina ias muito a museus. Bem, tua mãe pintava, não é?

Sim, a minha mãe pintava, por isso eu ia sempre atrás e foi sempre uma coisa que eu gostei muito. Mas eu reconheço esse problema, porque eu acho que a maior parte dos miúdos hoje em dia cá, não ligam, não querem ir aos museus.

Engraçado dizeres cá, porque, de facto, estou a pensar em muitas coisas que eu vi na Alemanha, em Inglaterra, não sei o quê, os miúdos vão em bôus aos museus.

É fixe, é uma coisa cool lá fora ir a um museu.

E vamos a esses museus e Louvres e companhias, e todas as escolas todas sentadas no chão a desenhar, a copiar a Gioconda. Eu acho aquilo engraçado. E já vi cá uma vez, mas uma vez, há não sei quantos anos. Não vejo isso habitualmente e faz um bocado de impressão isso, não cultivarmos isso nos miúdos, como a leitura.

Estou a dizer, não há muito esse hábito.

Hábito, exatamente, instituído, o que é verdade. Há umas coisas que eu quero saber da Inês, nomeadamente, ela gostar de ler. Livros sobre história, e BD, e fantasia, e não sei o quê, e biografias e tal, tudo bem. Agora, história europeia do século XX e história soviética, é extraordinário. Gostas de ler sobre isso?

Gosto. Eu não sei.

Por quê?

Não consigo explicar porquê. É uma pancada. É um interesse assim um bocado fora que eu tenho, mas sou absolutamente fascinada por essa altura da história.

Porque quando aparece um livro de história da União Soviética em 100 páginas, compras de correr?

Sim.

O Mulhaz, que escreveu a história, já motivou uma conversa aqui muito gira sobre a história global da União. É excecional, eu aprendi imensa coisa a ler aquilo.

Acho absolutamente fascinante.

Mas tu também pintas e também desenhas.

Sim, mal.

Não para o público em geral.

Não.

Eu sei que a Carolina já conhecia as tuas obras e aceita trabalhar contigo, porque acho que não lhe vais fazer sombra.

Sim, é precisamente isso.

E correr, que te ajuda. Gostas também de correr de vez em quando, ainda continuas a correr de vez em quando, para aliviar a cabeça.

Exato. Eu gosto de correr. Não gosto de correr durante muito tempo, porque chega ali uma altura em que começo a me aborrecer. Nem é tanto ficar cansada, fico aborrecida. Mas sim.

Mas sim, faz-te bem à cabeça. E depois entra a música classic metal. Não estou nada a ver, eu acho isso extraordinário.

Lá está, eu acho que disse aí que-

Fora da caixa em tantas coisas, eu acho isso incrível.

A música pra mim é uma coisa absolutamente fundamental. Eu cresci com música, quer dizer, ouvir música

Também a tocar sou péssima.

Tocavas alguma coisa?

Tentei tocar guitarra, mas foi um desastre. Mas gostava muito de tocar.

Um clássico metal.

Ultimamente, sobretudo, tenho ouvido imenso Iron Maiden e Judas Priest. Não sei por que estou a passar uma fase.

Meu Deus, enquanto não chegares ao Sepultura, ficas muito bem connosco. Antes de te receber. Tu pintas com música, Carolina?

Sempre.

Tu tens que ter uma playlist ou uma coisa assim? O género que preferires.

Muitas vezes a Inês é a minha DJ.

Ah, é?

Sim, porque a Inês-

Sim, mas coisas um bocadinho mais ecléticas

Está bem. Mas gostas e tens que criar um certo ambiente ou não? A música é importante, não ter mais ninguém e ter a música de fundo.

Sim, é sempre agradável.

Claro que sim.

Em qualquer trabalho, imagino eu.

Também há pessoas que não, têm que estar completamente alheadas de tudo e de todos, não leem nada, nem ouvem nada.

Não, eu gosto.

Enquanto estão a pintar.

E até muitas vezes podcast é uma coisa muito interessante.

É? Estás a pintar e a ouvir outras histórias, outras coisas?

Exatamente, sim.

Ok, muito bem. A ideia desta exposição é celebrar as mulheres. No fundo, Carolina, a ideia era pintar as mulheres como as vês.

Exatamente. A mulher contemporânea.

Mas não é uma exposição contra os homens.

Não.

Faço questão sempre de dizer isso. É para elas se afirmarem. É importante.

São coisas diferentes.

Estou mesmo a ver as pessoas que dizem: "ui, deve ser aquelas feministas". Mas não, é importante dizer, embora reveles muitas ideias e muitas bocas e habitats que os homens mandam.

Homens e mulheres.

Exatamente. Aquelas bocas mais inconvenientes. É engraçado, uma reflexão perspicaz e sensível sobre os papéis e responsabilidades frequentemente impostos às mulheres. E tu partiste muito destes comentários e questões desconfortáveis que foste ouvindo ao longo da tua carreira, que deixaram um peso, que moldaram, como tu dizes, a tua vivência. Ouves muitas vezes essas perguntas e comentários indesejados. Mas acho que todas as raparigas ouvem estas coisas. Não deviam, mas ouvem: "Então, quando é que casas, quando é que tens filhos?" Os senhores são um bocado obrigados a seguir aquele papel da sociedade, à espera que tu sigas. "Já tens 30 e não tens filhos ainda. O que é que se passa? Há algum problema?" Esse tipo de coisas que não têm nada a ver com as pessoas, mas as pessoas querem saber, são cuscas.

E às vezes podem ofender muito.

Pois é.

Não sabem o que é que está do lado de lá.

Exatamente. E às vezes até há coisas de saúde ou problemas que as pessoas têm e que as obriga a pensar nisso e a ter isso presente. Às vezes te perguntam essas coisas, Inês?

Sim, montes de vezes.

"Quando é que trazes o namorado? Queremos conhecer o namorado ou namorada", ou quem for. As pessoas às vezes não são mal-intencionadas, mas estão habituadas a este chavão e a estas ideias pré-concebidas.

Sim.

As pessoas têm que seguir este guião, acabou. E fora disto não...

É um bocado seguir a receita daquilo que é suposto ser uma mulher ou uma mulher de uma determinada idade, depois isto vai mudando.

Exatamente.

À medida que vamos ficando mais velhas, as perguntas vão mudando um bocadinho, ou as perguntas, os comentários, etc. Mas estão sempre lá.

Estão sempre presentes. Muito bem, Carolina, Inês, nós temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Muito bem, estamos a conversar com Carolina Piteira e Inês Pinto e Sousa, respetivamente a pintora e a curadora de uma nova exposição que está patente até 10 de setembro numa galeria temporária ali na Rua Nova do Almada, número 48, no Chiado, em Lisboa. "Know Your Place", "No teu lugar", que celebra as mulheres, a maternidade, os seus valores e como são vistas no mundo de hoje. É uma exposição extraordinária. Eu gostei muito desta exposição por todas as razões, Carolina, Inês, tenho que dizer isto. Está até 10 de setembro então nesta Rua Nova do Almada, de terça a domingo, das 14 à 19, na parte da tarde. Todas as pessoas que puderem vir à Baixa ou puderem ir ao Chiado, aproveitem, deem lá um pulo. Vale a pena ir de propósito. Só o espaço é extraordinário. Como é que descobriram este espaço? Aliás, este espaço tem a ver com o teu ateliê, não é, Carolina? Tu tens o ateliê no primeiro andar deste edifício, que não vai durar se calhar muito tempo como galeria, mas pelo menos até setembro.

Exatamente. Depois não sei o que acontecerá.

Como é que descobriste isto? Se calhar estavas há quanto tempo?

Eu já estou neste ateliê há cerca de dois anos e de repente percebi que quem estava a arrendar saiu e achei que podia haver ali um espacinho para eu ter uma exposição, uma janela aberta para fazer uma exposição durante uns meses. E concretizou-se.

Isto era na antiga Casa Cena, era uma famosa loja de desporto, um prédio lindo pombalino, com abóbadas de pedra e de azuleira e os arcos de pedra, muito bonito. E eu tive a sorte, por acaso, de conhecer também e visitar o teu ateliê, que está em cima, que está muito bem arrumadinho. Como é que escolheste este título? As suas posições, a tua influência inglesa e também para vender a estrangeiros, se calhar, até é tudo em português e inglês, "Know Your Place". Mas "Know Your Place" não é o sinónimo de "no teu lugar". Portanto, também aqui não há uma correspondência exatamente igual. Mas este título foi escolhido por quê? Por causa de um desses comentários?

Porque pode ser dito e essa mensagem recebida de duas maneiras completamente diferentes. Imaginamos um homem, há uns tempos atrás, virar-se para uma mulher e dizer: "Know your place, tens de saber o teu lugar. põe-te quietinha, be like a lady, comporta-te".

Exatamente.

Ou pode ser um homem ou uma mulher a dizer: "Sabe o teu lugar, tu tens de te valorizar". E é engraçado que eu disse o título a diferentes pessoas antes de abrir a inauguração, antes de abrir a exposição, e diferentes pessoas tiveram diferentes perspetivas deste mesmo título.

Cada uma deu o seu significado, o seu ponto de vista.

Cada uma viu, exatamente, através do seu ponto de vista, e eu gosto muito disso. Ou seja, quando os conceitos são muito fechados, não interessam tanto na arte. É importante é que haja uma abertura e que haja conversa depois.

No fundo, são mais abrangentes e podem abrir-se a mais pessoas, mais pessoas podem interpretar e dar uma ideia diferente do que conviram aquilo.

Não fechar o conceito, sim.

Muito bem. A Inês, tu escolheste para curadora, tem uma vida muito diferente da tua. Por exemplo, não é mãe, tem muitas coisas diferentes. Como é que tu passaste a ideia desta É bom ser uma pessoa diferente e por isso poderem comunicar isso.

É ótimo, somos duas mulheres. Basta-nos isso. E há imensas coisas que nós temos em comum.

Muitos comentários são os mesmos que vocês ouvem as duas. Tem tudo a ver. E comunicaste essa ideia. A ideia da exposição veio de ti e propuseste nessa altura essa colaboração com ela? "Inês, estou a pensar fazer isto."

Foi em conjunto. Havia dois ou três temas que nós achávamos que eram relevantes e que eventualmente ainda iremos visitar. E este das mulheres, eu tinha muita vontade de falar sobre isto, porque desde que fui mãe, eu praticamente não pintei homens. E foi uma coisa que foi acontecendo por acaso. De repente, eu olhei para trás e vi que há três anos que só estou a pintar mulheres. Isto quer dizer alguma coisa, porque eu passei a olhar para a mulher com muito mais admiração. Já tinha, mas olhar de uma forma diferente. E este foi um dos temas que eu falei com a Inês no início, porque a Inês acompanhou todo o processo de produção das obras e deu-me carta verde e disse: "Ok, eu acho que sim, faz sentido, vamos trabalhar esse tema."

Esta série que estamos a ver agora na exposição, quanto tempo é que levaste a pintá-la? Um ano, dois? Já foi pós-pandemia?

Foi pós-pandemia.

E é muito engraçado porque estas são 21 telas, nestes dois andares que estão expostas nesta galeria. Isto é uma narrativa, desde o princípio, ao longo destes vários quadros, parece que os pesos se vão tornando mais leves, são mulheres que carregam cestos de frutas ou de flores. Mas é sempre esta questão importante do papel das mulheres, porque como tu dizias, lembro que disseste isso lá quando nos mostraste os quadros, que antigamente a mulher aparecia na arte como modelo ou quando muito de musa, mas nunca como a criadora ou objeto da arte. Outro dia tive uma entrevista sobre as mulheres mecenas, que desde a Idade Média e antes disso, apoiavam e pagavam aos artistas. É uma coisa que as pessoas não têm muita noção, mas existiram sempre, é muito importante. E eu lembro da Josefa de Óbidos que também não assinava, muitos quadros ela não assinou, e estamos a falar já no século XVII, porque era mal visto, o pai é que era pintor e ela não. Até que um dia começou, teve a sua casa, o seu dinheiro, a sua renda e começou a assinar. É incrível.

A assinatura de uma mulher não vale tanto como a assinatura de um homem, ainda hoje.

É impressionante. Como hoje os ordenados e as coisas. E continua isto. Após décadas de luta, mas continua assim.

Mas está a mudar.

Está a mudar, devagarinho.

Devagarinho, está.

E porquê muitas mulheres da América do Sul e da África?

Porque são mulheres que carregam pesos ainda mais pesados. E eu acho que elas fazem isso de uma forma muito graciosa, muito feminina e muito leve. Portanto, para mim é absolutamente extraordinário olhar para estas mulheres que transportam estes pesos, que eu não consigo imaginar, mas ao mesmo tempo, de uma forma muito graciosa. E isso a mim interessa-me, esse lado feminino e forte, lutador.

Ao mesmo tempo.

Ao mesmo tempo, sim.

Eu estava a pensar, por acaso quando estava a vir à exposição, que não foste nunca para as mulheres asiáticas, mas de facto, só aquelas mulheres árabes na Arábia Saudita ou no Irão, ou então ainda pior, no Afeganistão, não te choca imenso?

Sim, podia dar a volta ao mundo.

Não podem guiar. Está bem, claro. Mas em países onde elas nem podem sair à rua sem marido, não podem guiar um carro, não podem ir a um estádio, como no Irão, foi proibido há uns meses. Antigamente podiam, deixaram de poder ir a um estádio ou ir a uma escola. Até no Afeganistão, estão a cortar as meninas. É uma coisa que no século XXI não te faz imensa confusão?

Imensa. E pode ser que nós a seguir vamos por aí, por esse tema.

No sentido em quê? O mundo caminha para o fechamento?

Não, o nosso trabalho, meu e da Inês, de falar também sobre estes temas, porque há muita coisa que nós ainda queremos explorar. É horrível, é absolutamente terrível.

Tu és uma pessoa muito atenta, Inês, o que tu achas disso? Essa questão do papel das mulheres. Há países onde ainda está pior do que destes. Em África, como tu dizes, e realmente Carolina passa um bocado esta imagem das mulheres. Eu só penso naquelas mães santo e naquelas pessoas hiertas com os cestos. Estou a ver imagens lindíssimas do quadro dela, mas dos filmes e das viagens que a gente faz e que vai vendo. Por mais problemas que tenham, acabam por ter sempre uma certa graciosidade, uma criança ao colo, às vezes uma à frente e uma atrás, e cheia de roupa. Isso é uma coisa que é uma imagem que ficou marcada e parece que estão sempre bem dispostas.

E as cores dos filmes.

E prontas para dançar. É, exatamente. Nos países tropicais há muito mais. Não te choca imenso a diferença para outros lados do mundo onde estamos longe?

Sim, choca-me imenso, claro. É uma realidade muito diferente da minha, da nossa, aqui na Europa. E é curioso, porque eu sinto que a certa altura, quando estava a escrever os textos para estes quadros e a pesquisar sobre este assunto, sinto que quase que estes pesos que nós falamos, quase que fazem parte também destas mulheres. É quase como se elas não soubessem ser diferentes sem estes pesos.

De outra maneira.

Exato. Ou seja, conseguem ter este equilíbrio entre a leveza e o peso. E acho que aquilo que a Carolina depois propõe ao longo da exposição, também é uma proposta interessante, que é voltarem-se a conhecer sem esta carga toda e começarem a largar um pouco isto e encontrarem-se, encontrarem facetas novas.

No mundo ou na sua personalidade, ou em quê?

Um pouco em tudo, eu acho. Se calhar um bocadinho partir mais para dentro e delas próprias, mas também uma perspectiva nova de olhar para o mundo. Especificamente neste caso, nas obras que temos. Claro que há coisas que estão fora do nosso controle e claro que há pessoas que Não é um conselho se calhar tão fácil para muita gente integrar, mas pelo menos das coisas que estão dentro do nosso controle, há a possibilidade de reavaliar, olhar de uma forma diferente e pensar: será que vale a pena que isto pese em mim ou não? Se calhar isto vale mais para nós que temos a vida um bocadinho facilitada e não exatamente uma rapariga que vive no Afeganistão e que não consegue ir à escola. Eu acho que precisamente nós, por termos talvez a vida tão facilitada, eu pelo menos sinto algum dever em lutar por essas pessoas, por essas raparigas que não podem ir à escola.

Contributos que podemos dar, não é? Na nossa área de influência.

Sim, de qualquer forma que eu possa fazer, acho que ganhamos todos por viver num mundo mais justo e mais igual.

É muito engraçado, porque estavam a dizer isso das cores. Realmente exercem esta gravidade, a importância das cores, que são fortes e muito saturadas no princípio. E depois parece que ao longo desta exposição e desta narrativa, vão se libertando, vão se tornando mais suaves, mais luminosas. Isso é muito engraçado, porque há uma visão de cada quadro ou de cada série, mas há também uma visão de conjunto da exposição toda, o que é muito giro. Outra coisa, Carolina, que tem os seus quadros, tem sempre esta que eu gosto imenso, que é esta questão da segunda leitura, quando se vê de perto. É extraordinário, porque eu começo a ver e adoro ver essas coisas, os elementos, os tecidos, os papéis, os veludos, as folhas, as palhinhas. Aquilo é tudo feito, deve dar uma trabalheira gigante. Imagino que sim, cortar aquilo tudo às lâminas e aos tamanhinhos e colar aquilo, mas que é uma coisa que tu fazes questão. Já na primeira exposição tinhas muito isso. Tu gostas imenso dessas técnicas mistas.

Sim, eu acho muito importante nós descobrirmos a pintura mais do que uma vez. Ou seja, nós não podemos olhar para a pintura e esgotá-la num primeiro olhar. Eu trabalho tanto esse tal pormenor quando é aproximado assim na pintura, que muitas vezes eu esqueço-me daquilo que eu já fiz. E para mim também é interessante, aproximar-me dessas pinturas e ir voltando a reencontrar elementos e quadros que eu acho que fazem todo sentido ali. E nesta exposição em particular, foi a exposição onde eu usei mais texturas, para salientar e dar ênfase à ideia do peso. Acho que fazia sentido aqui.

Lembra-me só de coisas que tu usaste aqui. Eu lembro que na primeira, daquela da EDP, até tinhas folha de prata e folha de ouro.

Também.

E papéis que tinhas trazido da Índia e do Japão.

Sim, e nesta também usei. Todas as viagens que faço, trago sempre coisas.

Umas recordações. A outra até tinhas velas, por causa da vela do Lufinha.

Tinha o kite do Lufinha.

Que atravessou o Atlântico, aquela coisa com a Fundação EDP. Portanto, arranjas sempre materiais. Esta tem mais algum material mais estranho. Por exemplo, estas palhinhas e estas folhas vêm tudo de onde?

Isso são tudo papéis de parede e tecidos que eu peço a decoradores e arquitetos que já não vão usar.

Exato. Às vezes até têm aquelas amostras.

É, são essas amostras, são coisas muito pequeninas e eu vou cortando os catálogos. Também essa ideia da reutilização de materiais interessa-me muito.

Exatamente.

Ou seja, o lixo dos outros acaba por ser a minha matéria-prima.

Criação tua. Exatamente. E há também uma parede com aqueles dos cestos vazios, que eu gostei imenso. Aquilo é para simbolizar o quê? Porque no fundo os quadros têm todos as mulheres com estes cestos.

Sim, elas todas têm cestos, exatamente.

Depois há uma parede inteira que está lindíssima, do chão ao teto, só com cestos.

Parece uma cascata de cestos.

Pois é, é giríssimo. E arranjaste também isso aqui? Foi tudo arranjado cá?

Foi tudo arranjado cá, sim.

Mas para dar essa ideia também do: aqui estão as coisas, mas sem nada.

Esses já estão vazios, porque a ideia é que nós podemos ter os cestos cheios ou vazios, mas cabe-nos a nós fazer essa escolha. É óbvio que todos nós temos responsabilidades e vamos continuar a ter. É importante. Mas há coisas que nós conseguimos largar. E a exposição fala muito sobre esse lado da esperança. Essa mudança tem de começar em nós e essa, não quero dizer luta, porque se calhar não é muito bem empregue aqui.

Essa missão.

Essa missão ou esse caminho.

Esse caminho.

Esse caminho, acho que faz sentido. Aliás, porque todas as mulheres na minha exposição estão a caminhar e estão à procura do seu lugar. Portanto, esse caminho, sim, faz sentido.

Portanto, no fundo, também há uma mensagem de esperança. Tu também não és a coisa negativa. As mulheres são vistas assim, tudo isto é mau. Não, tu exerceste a mensagem de esperança que encontras na narrativa, as coisas vão evoluindo nas cores, nos cestos menos carregados. Até à última, que nem tem as mulheres, tem só os cestos largados na areia ou junto à água. A ideia é essa, fazer uma libertação.

A ideia é essa. Ou seja, nesse último quadro, nós só vemos uma palmeira, vemos o mar, vemos os tais cestos que elas carregavam nas outras pinturas, já pousados no chão, já quase a desaparecer, a cor deles já não é tão intensa, e não vemos mulher. E isso pra mim simboliza que a mulher finalmente se encontrou. Ela precisou desaparecer para se conseguir encontrar.

She found her place.

She found her place, sim.

E também é muito engraçado ao longo destas tuas pinturas, que há algumas mulheres a desaparecer, meio transparentes. Isso significa o quê? As mulheres que já passaram, é o futuro, é o quê?

É porque é a ideia de diferentes gerações passaram todas pelo mesmo processo.

A ideia é bonita, estão incompletas, consegue-se ver só o esboço delas, mas estão lá atrás com as outras e a apoiá-las.

Para dar um bocadinho a ideia de renovação. São os pesos que passam de geração em geração, que as minhas avós carregavam, a minha mãe, e agora a minha filha Teresa também irá carregar os seus pesos e era para passar essa ideia.

Engraçado. Agora estou a pensar, Inês, em alguns textos que tu fizeste para aqui. Estou a pensar exactamente naquela primeira série dos vasos, toda cheia de legendas, que a Carolina pôs. Por exemplo, tudo em inglês, mas diz: "Quando é que tu paras de fazer bebés e começas a fazer arte outra vez? Não penses que vais vender mais pinturas só pelos teus bonitos olhos. O teu problema é o teu sucesso." Isto porquê? Porque é suposto a mulher, se tiver muito sucesso... Como tu dizias, Carolina, não pode ter sucesso nem demais, nem muito rápido.

Exacto. E foram tudo coisas que me disseram.

"O que é que o teu marido faz?" É uma coisa que é recorrente.

Essa pergunta ouvi muitas vezes.

Isto é, estás a pintar, tem alguém que te sustente.

Exactamente. É essa a pergunta.

Não podes pintar, ninguém vive.

"O que é que ele faz?" Faz isto: "Ah".

Está bem, está explicado.

Está explicado. Porque é que ela anda aqui a brincar às pinturas?

Exacto. É incrível.

E por isso é que nesse quadro eu estou a pintar no ateliê, eu estou a pintar o último quadro da exposição.

Tal da do mar.

Sim. E depois embaixo tem um título, que está em inglês, que é: "A mulher de um homem de sucesso, successful businessman, sonha em tornar-se uma pintora". Ou seja, eu acabo por dar uma volta àquilo, exactamente, e gozar um bocadinho com a situação.

Mas é extraordinário. Estes textos também percebeste muito esta ideia dela, não é? Dessas bocas que ela ia passando e tu disseste: "Isto é ideal". Há um que tu escreveste que tem a ver com a mulher que carrega o apelido do pai e depois carrega o apelido do marido. Eu adorei esse, porque nunca é ela. Primeiro é o pai, depois é o marido, é em função de. Não tem a sua identidade, a sua personalidade.

É, parece que vivemos agarradas à identidade de outra pessoa.

Neste caso, a de um homem, de quem te suporta.

Sim, somos definidas como a filha de não sei quem ou a mulher de não sei quem. E é um bocado esta ideia, apesar de isto serem tudo coisas que disseram à Carolina, eu já ouvi coisas muito parecidas também. Portanto, foi muito fácil para mim identificar-me com isto e escrever à volta disto também.

"A vida de uma mulher", agora estou a citar, "é vista em função dos outros. É filha, é irmã, é esposa, é mãe. Herda o nome do pai, ganha o nome do marido enquanto tenta criar para si uma identidade que não dependa de outros. Estamos sempre próximas de conseguir, mas mesmo quando construímos uma vida, uma obra, uma carreira sozinha, há sempre alguém que quer saber o que o nosso marido faz na vida." Isto é extraordinário. Eu adorei estes textos. Confesso que eu li devagarinho um a um, porque isto é incrível. Eu penso: "Claro que elas estão a ver isto agora".

Estão a ver, exato.

É ótimo, complementa lindamente aquela exposição, tem tudo a ver com esta mensagem e esta missão da Carolina levar isto a bom porto contigo, Inês, e está a conseguir, porque é incrível. E depois todo o simbolismo que tem também este cesto de frutas, "when she moves, colors become alive". É muito giro, aquilo tem muito movimento, todas aquelas pinturas. "Effortlessly carrying the world". Eu gosto muito destes títulos e acho que tem tudo a ver com aqueles quadros que a gente está a ver. Estes cestos onde não cabem só as frutas, mas também, como lá está escrito, todos os estigmas, todas as preocupações. E realmente é grande o peso que carregam muitas dessas mulheres pelo mundo fora e que vocês dão um bocadinho aqui a conhecer. É muito giro. Esta coisa vai chegando até ao fim, o peso, "her lightness is her strength", a sua leveza é a sua força.

É porque essa mulher parece que está a flutuar. Pois é.

Desafia os limites. Muito curioso.

Já está meio a quase desaparecer.

É realmente uma ideia muito gira, os cestos que se vão desvanecendo ao longo da exposição até ao fim. Tu dirias que tens algum estilo, Carolina? Ou é o teu estilo e acabou, ninguém tem nada com isso, é assim que eu pinto e acabou? Ou tens alguns pintores que tu aprecias excepcionalmente e as pessoas dizem: "É parecida com não sei quem."?

Eu acho que não tenho um estilo parecido com nenhum pintor em particular. Sim, tenho uma pincelada solta, uso e abuso da cor.

É verdade.

E esta tendência que eu tenho usado nos últimos anos, de colagem, acho que é muito particular da minha forma de pintar.

Exatamente. Enriquece muito, eu acho.

E uso principalmente uma escala grande.

Isso também é verdade, o grande formato é muito contigo. Eu lembro que até na outra da Centraltejas dizias: "Há aqui obras que eu só vi montadas aqui, porque aquilo é tão grande". E é verdade, ocupava um espaço grande.

Uma sala inteira do museu.

E ali com a Centraltejas dava para pôr as coisas gigantes. E eu diria: "Olha, primeira vez que eu vejo isto na sua dimensão toda e não aos troços, que eu tenho aqui pintando". É incrível. A última coisa que tu fazes é assinar?

Há quadros na exposição que ainda não estão assinados.

Ainda não?

Não. Porque eu geralmente assino um quadro quando ele sai do ateliê. E como a exposição é debaixo do ateliê, eu senti que ainda não saíram bem dali, ainda são meus, ainda estão ali guardados.

São os teus filhos à tua guarda.

Sim, exatamente. E no final eu vou assinar, não me posso é esquecer.

Pois é, quando venderem as pessoas vão crer que está assinado, obviamente.

Na véspera da montagem, eu estava a alterar alguns quadros, porque me apeteceu. Exatamente.

Mas és muito perfecionista.

Sou muito perfecionista.

Tu agora vês outra vez os quadros, mesmo antigos. "Isto aqui ficava melhor assim." É porque estás a trabalhar neles.

Não, muito antigos, não. Isso já não tenho vontade, mas aqueles que tinham acabado de sair do ateliê. E deu-me algum gozo: "Vou me divertir um bocadinho". E então no catálogo há quadros que não estão exatamente iguais ao que eles estão agora.

Ah, OK.

Mudaram um bocadinho.

Uma diferençazinha. Após o catálogo. Já está feito, vai sair, como é que é? Desta. Vais fazer algum folheto especial?

Vou.

Ok. E esta exposição vai ficar por aqui, Carolina, ou pensas itinerar com ela ou mostrá-la nalgum outro sítio? Em Salvos, sei lá, num sítio qualquer, uma galeria que tu quisesses um dia mostrar isto, porque elas podem existir noutros sítios.

Se alguém de Salvos me quiser fazer esse convite.

Eu estou a fazer. É o que eu disse, uma galeria do Porto ou um outro sítio qualquer.

É esse o projeto.

Existe essa ideia ou não? Ou poderia acontecer se te pedissem?

Se me pedissem, sim. Teria, obviamente, de pedir aos colecionadores que já começaram a adquirir as obras, os trabalhos emprestados, mas isso tudo se faz. Mas eu gostava muito de continuar esta narrativa. Não será exatamente igual, mas terá o seu caminho, que eu e a Inês iremos descobrir qual é. Mas não queria largar já este tema.

Está bem, então vais continuar. Há de haver uma segunda série, "Not Your Place 2". Vamos lá ver.

Sim, depois não é nada.

Nada, vai ser ótimo, certeza. Última pergunta, mais chata: a arte é importante por quê? O que se pode fazer com a arte, Carolina?

A arte é uma forma de comunicação.

Uma forma de comunicação. Boa.

Sim, é uma linguagem que é transversal a todos os países, a todas as culturas. Eu faço um trabalho aqui e uma pessoa em qualquer ponto do mundo vai conseguir decifrar à sua maneira, através do seu olhar.

Nunca será igual o meu olhar ao de uma brasileira.

Não, mas isso também é interessante. E eu acho que como a arte tem esse poder de chegar a todo lado, acho que é uma arma muito forte que nós temos na cultura. E por isso eu sinto essa vontade de falar sobre temas que são relevantes.

Para o momento atual, para o mundo em que vivemos. Claro.

É. Eu acho que a arte, e voltamos ao início, não pode ser só uma coisa bonita, mas tem de ter algum contexto, tem de ter uma mensagem forte. E o meu papel é simplesmente ser uma mensageira de algumas coisas que são, a meu ver, importantes. É, o veículo.

É engraçado, "vessel", estava a pensar no "vessel", não sabia bem a palavra. Uma vez que isto esteja vendido e disseminado, eu percebo o que eu estou a dizer, que é importante as pessoas verem esta exposição agora, porque perde-se um pouquinho esta narrativa, esta sequência, não é?

Sim.

E portanto, eu estou a pensar que era giro as pessoas exatamente verem agora. Inês, não te escapas. Inês Pinti Sousa, agora quero teu ouvido. A arte pode servir para quê?

Acho que a arte pode servir para muitas coisas. Se calhar vou ser um pouquinho clichê, mas eu acredito mesmo que a arte pode mudar o mundo e pode tornar o mundo um sítio melhor. É um pouco aquilo que a Carolina diz. Acaba por ser uma linguagem transversal. Eu acredito que toda gente se consegue relacionar com um quadro, com música, com literatura, seja lá o que for. E não só nós conseguimos relacionar-nos com essa obra, como conseguimos, se calhar, entender um pouquinho melhor o próximo, a pessoa que o fez ou outra pessoa que está ao nosso lado e que está a olhar para a mesma coisa, que pode ter uma ideia diferente. Sinto que a arte pode ser uma forma de, se calhar, às vezes, juntar pessoas que, à primeira vista, não têm nada a ver uma com a outra, e conseguir criar algo novo a partir daí.

Muito bem. E com isto me calam. Nós não temos tempo para mais, infelizmente. Quero agradecer muito aos dois, Carolina Piteira e Inês Pinti Sousa. Bem-hajam pela vossa disponibilidade, a vossa presença aqui no "Observador". Para si que nos ouve, fica aqui o convite. Até 10 de setembro, não perca a nova exposição de Carolina Piteira, "Not Your Place", no teu lugar, na Rua Nova do Almada, 48, ali aos Chiados, de terça a domingo, das 14h às 19h. Muito obrigado, Carolina, Inês, até breve.

Obrigada nós.

Obrigada.