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Há muita gente que olha agora para a inteligência artificial, Duarte, com entusiasmo, outras pessoas com medo. De que lado é que tu estás da barricada? Como é que tu vês isto?
Já tive algum medo. Neste momento tenho muito mais entusiasmo do que medo. Acredito piamente que aquilo que se está a passar já aconteceu em escalas e velocidades diferentes. Revoluções tecnológicas já aconteceram no passado. E o medo que nós temos é medo do desconhecido. O que é que aí vem? Eu não consigo fazer previsões a 50, nem a 30.
Futurologia.
Mas aquilo que eu tenho observado, e aquilo que os dados históricos me dizem, é que, por exemplo, ao nível do emprego, vão criar-se muito mais empregos do que aqueles que vão desaparecer nos próximos anos.
Como funciona uma recrutadora de talentos e como estamos de fuga de cérebros? Duarte Gorrão Fernandes é psicólogo social e há uns anos CEO da KWAN, uma empresa que se dedica ao recrutamento tecnológico. Este é um setor em grande mudança, em que quase todos os dias há novidades e novas tendências. Mas o meu convidado é ele próprio um exemplo vivo de foco e grandes mudanças. Há oito anos partiu a coluna em vários sítios, esteve uns tempos sem sequer saber se ia poder voltar a andar. A nível pessoal, físico e profissional, tornou-se num inspirador exemplo de superação. Que mão é que nós temos no nosso futuro e que futuro é que esperamos para o nosso trabalho e para o nosso país? Olá, Duarte, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Olá, João.
É um grande prazer estar a falar contigo.
Igualmente. Obrigado pelo convite.
Há uma curiosidade que é o significado do teu nome Gorrão. Tu sabias?
Olha, é muito giro estares a dizer isso. Ainda neste fim de semana estive a ver a etimologia das palavras e uma delas foi obviamente esse nome, Gorrão.
Além do gorro e do traje académico, um gorro grande.
Exatamente, o gorro grande. Profissão de alguém que fabricava gorros, alguém com a cabeçorra grande.
Essa não sabia.
E há inclusive registos do nome nos Açores. Não me lembro do primeiro nome, qualquer coisa Duarte Gorrão. É interessante que ele tinha Duarte no meio.
Há o Gorreana. Agora lembrei-me que há o Gorreana, por exemplo, o famoso chá dos Açores, a única plantação de chá da Europa é lá.
Exato.
E é Gorreana, provavelmente também tem a mesma raiz.
Poderá ter. E há Gorrões no Brasil também.
Não sabia. Mas sabes que outro sinónimo de gorrão é uma pessoa aproveitadora?
Oh, meu Deus!
Que vive à custa dos outros. Sabias?
Nunca tinha ouvido falar disso.
Vem no dicionário. É incrível. Acho engraadíssimo tu que proporcionas trabalhos a pessoas e aconselhas empresas.
Aliás, sublime. Escolhi não apanhar essa.
É extraordinário. Exato. Em criança, tu gostavas muito de ter sido astronauta, como uma vez disseste, cientista e cantarista. Isso é o quê? Cantor e artista ao mesmo tempo, lado?
Os meus pais perguntavam: "O que é que queres ser quando fores grande, Duarte?" "Cantarista". E as pessoas chegavam lá a casa e eu pegava no isqueiro do meu pai e cantava.
Simulavas de microfone. Tu imaginavas que um dia irias viver da criatividade ou tinhas outro plano para o teu futuro?
Eu não tinha grandes planos para a vida.
Ok. Interessante.
Sempre me acostumei muito a viver o momento e de aproveitar aquilo que o destino me vai trazendo. O palco sempre foi algo que cá esteve. Tens proporcionado de outra forma, porque estar à frente de uma empresa requer ir para palco algumas vezes, mas não da forma artística.
Sim, claro. Depois licenciaste em Psicologia Social e das Organizações. Tu ias ser sexólogo, acho que é uma graça, mas depois rapidamente tiraste a ideia.
Foi qualquer coisa para me distinguir do resto do pessoal.
Para impressionar as miúdas.
Ou clínico, ou empresa. Tipo jovem, 18, 19 anos, miúdas: "Ah, quer ser sexólogo". Toda a gente achava imensa graça, mas rapidamente percebi que não era por aí lidar com as parafilias.
Exato. Mas, no entanto, talvez seja um bocadinho de resta resta e do cientista que tu querias ser, o Quantum. Perceber um bocadinho o modelo de comportamento.
É interessante saberes também o que é o Quantum. O Quantum foi um modelo que nós desenvolvemos na KWAN precisamente para perceber os estilos comportamentais das pessoas nas organizações. É um modelo facilmente compreensível para quem recruta e para quem gere clientes conseguir perceber com mais facilidade quem é que tem à frente. E então desenvolvemos o Quantum, que é um acrônimo de KWAN Traits Understanding Map. É um nome marketed.
Exatamente. Interessante. O primeiro trabalho que tu tiveste era componentes automóveis, estamos a falar da zona de Setúbal.
Estive numa linha de montagem, é verdade.
A sério?
E aí foi onde tive o primeiro gostinho por recrutar, testar as pessoas, perceber quem é que serve para que função. Porque eu fui submetido a isso nessa altura e fiquei com esse interesse.
Que giro. Mas não sabias tu que irias depois trabalhar nisso.
Aí já foi quando talvez comecei a pensar: "Poderá ser por aqui".
Tu foste para a Rupial, é assim que se diz?
Rupial.
Rupial, que era uma PME, na altura.
Hoje em dia é um grupo. Na altura era uma PME, foi uma empresa com a qual eu tive uma relação de cliente comprador, eu era comprador.
Eras account manager também.
Na altura eu estava numa outra empresa, comprava serviços à Rupial. E o dono da Rupial, na altura, precisava de alguém para gerir este negócio, ele queria se dedicar a outros negócios da empresa. Acabamos por desenvolver uma amizade, acabei por ficar.
Que é o Rui Pedro Alves, certo?
O Rui Pedro Alves.
Que apostou em ti à grande.
À grande. Nós tornámo-nos grandes amigos. Ele é engenheiro, eu sou psicólogo. Casou muito bem essas duas vertentes e acabámos por criar a KWAN em conjunto, dentro daquilo que se tornou o grupo Rupial. Ele depois dedicou-se às outras empresas, a outros investimentos do grupo e eu fiquei com a KWAN.
Que era a maior empresa do grupo.
É a maior empresa do grupo.
300 pessoas neste momento, por volta disso.
Mais de 300 pessoas.
Importante. Esta KWAN nasceu em Austin, no Texas. E vi uma vez no teu Instagram esta questão do filme do Jerry Maguire, não sei o que, o Tom Cruise dizia: "Algumas pessoas têm a coin, a moeda, mas não têm o KWAN". E o KWAN como se sente este sinónimo de amor, de respeito, de comunidade.
É verdade.
E já agora, também o dinheiro que também dá jeito. É o the whole package.
Exatamente.
É muito curioso isso.
Está no filme.
Portanto, é mais do que qualquer coisa, não é só o dinheiro, ter o KWAN. Se é que vocês são os Kwaners.
O que nós fazemos é: nós recrutamos estes consultores tecnológicos para os nossos clientes, só que estes consultores continuam a ter um vínculo laboral conosco, eles são nossos empregados, são nossos colaboradores. E o que nós fazemos é gerir a carreira deles do ponto de vista não só da motivação, como Da formação, daquilo que são as necessidades deles em termos práticos no mundo do trabalho. E não chega eles serem alguém que está a trabalhar para o nosso cliente e que nós faturamos ao final do mês, isso não é suficiente. O nosso foco é o foco na pessoa, no desenvolvimento da sua carreira, nas suas necessidades intrínsecas e profundas, o que é que ele quer fazer na vida, por que ele quer fazer isso, onde é que ele quer chegar.
É tão bom. Eu quero ser o vosso empregado. Porque vocês têm essa coisa boa. A pessoa vai a uma empresa, contrata-o, veio através de nós, nós somos manager disso. E depois vocês são o ponto entre o manager e o que desempenha, a pessoa que faz. E portanto, a pessoa vai trabalhar para vocês, não estão preocupados com os salários, com as logísticas, com os conflitos. São uma espécie de coaches de carreira das pessoas.
Tal e qual.
Isso é muito bom, porque a pessoa trabalha focada no que está a fazer.
Nós temos a figura do People Experience Partner, que é a pessoa que faz a gestão dos consultores do ponto de vista de carreira e às vezes até de vida, às vezes até da escolha de um veterinário para o gato. Chega a este ponto. Nós queremos mesmo que eles estejam a fazer aquilo que gostam com o mínimo de preocupações possíveis.
E vocês tratam do resto. Se tem um problema, fala conosco e a gente resolve isso. Tem grandes vantagens para os empregadores, porque aí não têm aqueles investimentos de contratar e depois têm que despedir. Vocês procuram depois arranjar outra carreira, se alguma coisa acontecer.
O nosso cliente, tipicamente, são clientes que estão à procura de desenvolver novos projetos onde identificam maior risco e, portanto, não têm a certeza se o projeto vai avançar e não contratam logo pessoas.
Não podem investir uma prioridade logo no princípio, claro.
E depois nós asseguramos a continuidade das pessoas em novos projetos. Ou clientes que têm projetos que são non-core face à sua atividade principal e, portanto, também lhes convém ter um parceiro que assegure a alocação dos profissionais nestas áreas. E nós continuamos, sempre que os projetos acabam, a dar garantia de que estes profissionais continuam a desenvolver.
Procuram outras coisas para eles.
Também há casos em que eles preferem, e o cliente também assim o deseja, passar para o quadro do cliente, isso também é frequente.
Pronto, OK. Vocês já fazem parte da história da publicidade no nosso país. Eu tinha aqui uma nota que faziam cerca de 100 entrevistas por semana.
Sim, é verdade.
Para 54 clientes ativos, não sei se agora têm mais ou não, incluindo candidatos para países como Alemanha, Bélgica, Brasil.
Sim, nós trabalhamos com vários países.
Estados Unidos.
Mas o que nós fazemos do ponto de vista internacional tem mais a ver com o recrutamento de pessoas de diferentes países. Nós trazemos muitas pessoas do Brasil, de países de língua portuguesa, Médio Oriente.
Angola, também México. Vocês fazem coisas também que têm a ver com o México.
Já fizemos algumas coisas no México. Depois temos clientes nos Estados Unidos, Inglaterra, Finlândia, maioritariamente na Europa, Suíça, mas o core continua a ser Portugal. Cerca de 70% dos nossos clientes são portugueses.
Uma espécie de parceiros de outsourcing talento, no fundo, é o que vocês são.
Sim, é exatamente isso que nós somos.
Ainda há muito êxodo de cérebros para o exterior. Tu costumas dizer: "Ainda há algum, mas também há já quem esteja a voltar". É verdade? Sentes isso?
É verdade, há quem esteja a voltar, sobretudo a seguir à pandemia. Por quê? Porque como nós trabalhamos na área de tecnologia e a tecnologia é digital, e portanto, é muito mais fácil das pessoas trabalharem remotamente, e a pandemia veio trazer isso mesmo, o desmistificar da possibilidade de se trabalhar online e que as pessoas continuam a trabalhar, não estão a fazer outras coisas. E com o advento da pandemia, acabámos por conseguir trazer as pessoas de volta, porque as pessoas continuam a ter a possibilidade de trabalhar para projetos no estrangeiro, mas estão no seu país. Nesta área.
Sim. Este modelo focado nas pessoas é o tal People First.
People First.
Que alinha um bocadinho à psicologia, esta contratação de engenheiros de informática, por exemplo.
Sim, aquilo que nós percebemos foi que o maior medo do ser humano é não ser visto, o maior medo do ser humano é não ser amado, o maior medo do ser humano é não ter significado. E como é que nós podemos mostrar às pessoas que são amadas, têm significado, são úteis? É reconhecendo. Não é elogiando, é reconhecendo. "Eu vejo a dificuldade pela qual estás a passar, como é que posso ajudar? Eu vejo o sucesso que tiveste, o que é que tiveste de fazer para aí chegar? Eu vejo que estás desiludido com isto. Como é que eu te posso ajudar é de uma próxima vez trabalharmos em conjunto para lá chegarmos". É diferente do parabéns. Tipicamente, o elogio é da performance.
É diferente da palmadinha nas costas.
É. O elogio é da performance, o reconhecimento é à pessoa. E nós sistematizamos isto. Nós desenvolvemos um conjunto de iniciativas para que o reconhecimento não seja só algo que acontece espontaneamente. Ele para se tornar espontâneo, teve de ser sistematizado. Então há um conjunto de atividades que eu próprio desenvolvi, uma delas no LinkedIn, que é "É com o teu nome que se escreve quando", que mensalmente reconhece alguém pelos seus desafios, ou pelos seus sucessos, ou por simplesmente estar a dar à empresa e ainda não ter lá chegado, mas há de chegar o momento. Temos outro momento que é o Top Quanners, em todos os trimestres fazemos um reconhecimento. Não é bem o empregado do mês, porque o empregado do mês é mais sobre a performance. Aqui é mais sobre "esta pessoa passou por isto, demonstrou comportamentos de liderança ou de apoio, ou de esforço". E portanto, ao sistematizarmos isto, o que é que começámos a ver na intranet da empresa? As pessoas inconscientemente, como as lideranças o fazem, nós também vamos fazer. E começámos a ver os colegas a fazerem uns aos outros, na intranet da empresa, os managers a fazerem aos consultores na intranet da empresa e termos vários exemplos de como isso começou a acontecer com espontaneidade.
É muito giro isso. E a coisa do exemplo, que a pessoa superou. Mas tu, então no primeiro ano foste sempre tu, não, nos 12 meses? Já lá vamos. A expansão, portanto, de Portugal, Alemanha, Bélgica, são coisas que vocês também estão a internacionalizar-se. Mas não há KWAN lá fora?
Não, nós já tivemos uma sucursal na Holanda e depois, lá está, com o advento da pandemia, percebemos que não fazia sentido.
Não fazia sentido. Os digital nomads podem trabalhar em qualquer lado.
Neste momento, este último trimestre, por exemplo, tivemos muitas leads a cair do Reino Unido. Já fechámos este trimestre três clientes que vêm do Reino Unido. Continuamos a apostar. Essa geografia temos estado a apostar, percebemos com as nossas métricas de negócio que seria uma geografia a apostar agora a partir desta altura e tem estado a trazer resultados interessantes também.
Houve alguma campanha, que tem que importar isto, onde tenhas pensado: "Epá, isto vai correr mal, isto vai correr mal", e acabou por ser um enorme sucesso. Já te aconteceu ou não? Ou não, acertaste sempre?
Não acertei sempre, de certeza.
Alguma que tenhas tido mais receio, um bocadinho medo que isto vai dar. Mas depois foi muito bem recebido e correu muito bem, as pessoas gostaram muito.
Olha, posso te dar um exemplo de quando nós trabalhávamos numa lógica de 360, em que no core business da empresa, todos faziam tudo. Nós percebemos que a partir de uma altura era importante ter alguém que gere cliente e engirie cliente, alguém que faz o recrutamento das pessoas e alguém que gera as pessoas, que é a experience partners. Passar para o caminho da especialização. Isso pra nós era uma incógnita. Essa altura foi difícil, houve muita gente que saiu da empresa porque não se identificou com o novo modelo. Mas acabou por demonstrar que ao fim de seis meses-
Uma aposta vencedora
...sim, ao fim de seis meses demonstrou que era uma aposta vencedora. Mas ao início estávamos com muito receio de tanta gente a ir-se embora e depois vão atrás dos amigos e ok, agora temos que encontrar pessoas novas para esta realidade. No fim, acabou por correr bem, mas sim, houve receio.
Suaram aí. Duarte, no teu género de trabalho, há muito esta coisa da pessoa quando sai, levar clientes. Tu sentes isso também?
Este negócio é uma venda consultiva e por isso as relações acabam por ir atrás das pessoas. Muitas vezes, o que acontece é que é verdade que essa relação se mantém, mas as empresas cada vez mais, sobretudo as empresas corporate, têm um conjunto de procedimentos que é difícil entrar. Um novo fornecedor tem dificuldade de entrar por via da burocracia e da certificação. E isso dá-nos tempo para que a nova pessoa estabeleça relação. Por outro lado, tenho a felicidade de dizer que muito pouca gente core da área de gestão de clientes sai. Tenho pessoas comigo há oito, nove, 10 anos.
É incrível. Há uns anos terminaram um evento da vossa empresa com o desafio do gelo. É uma coisa que trouxe o Ricardo Pinhão.
Que giro tu saberes essas coisas todas.
Estávamos todos a banhar, meu Deus, com o método win-off. Uma das tuas mais importantes aprendizagens, o sem lutar, ir pro gelo, neste caso, sem lutar, porque se fores pro gelo a lutar, o gelo ganha.
Eu falei disso o fim de semana passado, estive no Texas.
Que exemplo tão giro.
E estava a falar com uma pessoa que fez outra coisa que eu também fiz, que é o fireball. Fireball que é fazer aquelas caminhadas em cima de brasas.
Ok. À la caí da índia.
E estava a falar com essa pessoa sobre o estado em que se vai para caminhar em cima das brasas, é um estado de eu vou vencer, eu vou conseguir, eu vou fazer.
Sim, de foco.
Eu vou ganhar, eu domino. No gelo é o contrário. No gelo, se eu vou com este estado, o gelo ganha-me, porque o corpo começa a lutar contra o gelo, começas a tremer, como se costuma dizer, que nem várias verdes, e é horrível. Se tu aceitares, ok, eu vou entregar-me a isto, o corpo para de tremer. É uma aprendizagem muito gira. E é preciso perceber que sim, em determinados desafios, a atitude mais, utilizando a metáfora do yin e do yang, a atitude mais yang, mais de ataque, mais agressiva, faz sentido e funciona, mas dadas as características de cada desafio, pode haver momentos em que é preciso uma atitude mais yin, mais receptiva, mais de escuta.
Mais passiva.
Mais passiva.
Ok, curioso. De fato, são técnicas.
E o gelo ensinou-me isso, muito giro. Ainda hoje tomo banho de água fria de manhã.
A sério?
Sim.
É bom pro ambiente. Os Legos é uma coisa importante desde pequenino na tua vida, ou não? De vez em quando ainda brincas com Legos.
Ainda brinco com Legos.
Compras sets?
Sim, ainda agora montei a Taça do Mundo. O Kiko ainda gosta que eu ajude a montar e depois destrói tudo. Tem quatro anos. Ainda agora montei a Taça do Mundo, a réplica da Taça do Mundo, montei o Cristiano Ronaldo também, Star Wars, cidades emblemáticas.
E Harry Potters e companhia. E Titanics?
O Titanic está na banca de revista pra comprar.
Ok. Outro indivíduo que era também fanático e era o Taj Mahal, que era um monumento gigante.
E saiu agora há pouco tempo a Sagrada Família também, que também está na banca de revista.
Este ano acabou, não é?
É verdade.
Boa. O Egito foi muito importante pra ti, por quê? A experiência, tinhas este gosto desde pequenino de ir às pirâmides?
O Egito mostrou-me quando entro no Vale da Rainha, Vale dos Reis, na pirâmide, entre uma delas. O Egito disse-me: "A verdade não é só aquilo que tu estás a ver. Há aqui muita coisa que aconteceu na humanidade e que provavelmente acontece e que não é aquilo que a arqueologia tradicional conta". Até porque hoje em dia sabe-se que muitas das coisas que há no Egito não têm 2, 3 mil anos, 4 mil anos, como eles dizem, têm provavelmente 15 ou 12.
Sempre pensava.
E todas aquelas construções com a tecnologia que existia na altura, aquilo que se descobriu agora, um investigador italiano, que há estruturas com vários quilômetros debaixo da Pirâmide de Gizé. E entretanto, ele também já descobriu, saiu mês passado, o Filippo, que é o tal investigador italiano, que há uma outra esfinge enterrada do outro lado das pirâmides. Ele está a descobrir estas coisas, o governo do Egito não quer que se saiba. Eu sou interessado no Egito, gosto muito.
Estiveste lá há pouco tempo ou há muito?
Não, estive lá em 2008. 2009.
Tu ainda não viste, eu também estive muito antes disso, foi em lua de mel, mas ainda não vi o novo museu, por acaso estou curioso.
Ainda não, o novo museu do Cairo. O meu primo já lá esteve e quero mesmo ir ver.
Acho que sim. Muito engraçado. Tudo muda, de fato. Aos 35 anos, estamos a falar em 2018, tu tinhas o teu pai, a tua mãe, a tua mulher Sara, que adoravas, a mulher dos teus sonhos, os filhos, um bom emprego, ganhavas bem, tinhas os investimentos imobiliários que tinham corrido bem, casa com piscina, um carro esportivo, mas sentias um grande vazio.
É verdade.
O que é que faltava aí?
Havia qualquer coisa. Eu estava muito no ter. Ter, ter, ter. E de repente, ok, há sempre qualquer coisa a mais que podes ter, mas naquela altura, algo me disse...
Isto não é suficiente, isto não me faz feliz.
Falta aqui qualquer coisa.
Incrível.
E andava a caminhar infeliz. E o universo encarregou-me de me partir as costas.
Porque isto aconteceu o quê? Um acidente de carro?
Não, foi uma queda infeliz. A história não tem nada de transcendente. E a parte interessante é a forma como eu me senti. Eu só descobri dois dias depois, ainda quando fiz 300 km com as costas partidas.
A sério?
Ao qual o médico me disse: "Ouça, o senhor deve estar a delirar, isso não é possível". Está bem. Mas o que é facto é que aconteceu.
Muito bem. Duarte Garrão Fernandes, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Duarte Garrão Fernandes, ele é o CEO da KWANU, uma consultora de recrutamento tecnológico, que nos fala dos desafios da mudança no setor tecnológico, mas também da grande mudança que teve a sua vida, uma vez que há oito anos partiu a coluna e esteve dias numa cama de hospital sem sequer saber se alguma vez iria voltar a andar. Mudou completamente a tua vida este teu acidente. Tiveste mais mudanças na tua vida, mas esta foi, de facto, a mais radical. Continuas com seis parafusos nas costas, na lombar.
Seis parafusos, duas ferras na coluna.
Tens mesmo ferras metidas?
Sim, tenho. Cinco dias sem saber se ia voltar a andar.
Tu estiveste cinco dias numa cama de hospital sem poder mexer-te.
Porque o meu caso não era emergente e todos os casos que apareciam emergentes passavam-me à frente. Casos de vida ou de morte, o meu não era, tive que ficar sem mexer numa cama.
Imobilizado.
Imobilizado, no Hospital de São José. Profissionais fantásticos que com as poucas condições que têm, aproveito para dizer, fazem um trabalho incrível.
De facto, que é uma homenagem ao SNS, é perfeitamente merecida a tua comissão, o que é normal.
Sim.
E sentiste esta gratidão na dor, como é que é possível?
A dor ajudou-me a perceber que o ter não significa rigorosamente nada e que é importante, se quisermos continuar a ser feliz, aprendermos a ter, mas perceber que há muito mais do que o ter, há o ser. E o ser está muito relacionado com a gratidão, as relações.
E a outra coisa é tu aprendeste a conjugar o contribuir e agradecer, o ser grato. Isso é extraordinário.
O ser grato é incompatível com o estar zangado e com o estar chateado. Quando nos falta a luz é que nós percebemos: "Epá, pera lá, isto é mesmo essencial. Como é que eu tenho todos os dias e não dou por ela?"
Exatamente.
Como tivemos aquele apagão em abril do ano passado. E a situação em que eu me encontrei ajudou-me a perceber isso. Portanto, eu estou mais uma vez grato pelo facto de ela ter acontecido.
Tão bom.
E fui para a recuperação com uma energia que eu não conhecia.
Vês os resultados, vês os teus 40 anos, publicaste imagens de Mr. Universo. Extraordinários, Mr. Olympia. Mas de facto, uma fisioterapia complicada e longa, de certeza.
Eu não fiz fisioterapia.
Nenhuma?
Nenhuma.
Como é que recuperaste? Foste para o Coitão, nada?
Nada.
Então, ginásio.
Fui andar.
Teve que ser muito cuidado.
Fui andar e fui fazer ginásio com uma pessoa especializada em recuperação de lesões. E fui, durante o primeiro ano, levantar pesos de talheres, o peso de uns talheres, algo pouco mais.
Exato. Mas aqui é o Ricardo, o teu PT, que ajudou, ou não?
A equipa do Ricardo Lino.
E a Rita, a tua nutricionista, também ajudou?
E a minha nutricionista, Rita, exatamente.
Fantástico!
Foi uma equipa que me acompanhou nesse processo todo.
Que diferença tu, antes e depois. Aí já tinhas pesado os 104 quilos que tu chegaste?
Já. Estive muito tempo sem fazer nada. 104, 105 quilos.
É impressionante a tua mudança. De repente, fizeste 40 anos, querias ser um pai que os filhos se orgulhem. Mas tiveste que estar muito focado.
É que depois chegou a um ponto em que uma pessoa estar nos 8, 10 % de massa gorda não é sustentável para o resto da vida. Depois deixou um bocadinho disso, porque ia chegar aquele momento para marcar o momento, mas depois aquilo que me levou a continuar com saúde e com mobilidade, apesar daquilo que tenho nas costas, foi poder estar lá para os meus filhos, com vitalidade, com energia, atirá-los ao ar, brincar com eles, correr atrás deles.
Atirar a bola como ele gostava.
Completamente.
As pessoas, depois disso, Duarte, relativizam um bocadinho as coisas, relativizas tudo. Foi uma segunda vida que tu ganhaste?
Na altura, eu senti isso, depois tu habituas-te.
Sim.
Guardas algumas coisas daí.
O que é bom.
Mas aquele grande impacto, aquela grande mudança, aquela revolução interior, perde a energia. Agora, aquilo que fica, no meu caso, agradecer, sentir-me grato, sentir-me valorizado por tudo aquilo que acontece, não dar as coisas por garantido e relativizar os problemas. Há muitos problemas que não são problemas. O problema não é o problema, é o estado com que nós enfrentamos o problema.
Exatamente.
E aí houve qualquer coisa que mudou.
É tão importante isso, vou deixar isso assentar, porque isso é muito importante para as pessoas ouvirem. Hoje tens mais dificuldade em lidar com o medo ou aprendeste a conviver um bocadinho com o medo e com o risco?
Eu acho que deixei de ter medo por mim e por eventos que podem acontecer, como doenças, catástrofes, insucessos. Deixei de ter medo. Neste momento, a única coisa da qual eu tenho medo, e aí tenho que admitir, é os meus filhos. O que lhes pode acontecer ou o que é que pode acontecer a mim e que eu não esteja lá para eles.
És um pai como deve ser.
Mas depois disso, sim, as coisas são relativizadas e tu acreditas mais naquilo que tiver que acontecer, acontece.
Hoje tens muito cuidado nos teus exercícios, na tua comida. Tens cuidados?
Tenho cuidados. Não tenho tanto cuidado com a alimentação como tinha quando quis chegar àquela foto, por exemplo.
Dos 40 anos.
Sim. Tenho alguns cuidados, não quero ultrapassar um determinado peso. Tenho muito cuidado com a forma como treino. Treino sempre com um personal trainer.
E de facto começaste com os talheres, como tu dizes, e para ir ampliando. Estou a pensar em exercícios que impliquem lower back. Deve ter sido complicado.
Agachamento com barra.
Com seis parafusos.
Comecei com 20 quilos, hoje em dia faço 130 e sinto que as minhas pernas poderiam fazer muito mais, mas eu não vou passar daí porque vai estar a impactar o meu lower back.
Sim. E o teu corpo já lê o que vai acontecer e pede. Em plena pandemia tiveste os teus filhos, a Pilar e o Kiko.
É verdade. A Pilar nasceu em 2020 e assim que começa a minha licença de paternidade em março, nessa segunda-feira.
Souberam que vinha aí outro.
Não, nessa segunda-feira acaba a licença de paternidade do Kiko, da Pilar, desculpa, e nessa segunda-feira eu ia começar a trabalhar e já não fui, porque começou o primeiro confinamento.
Em cheio.
Foi giro. Tivemos lá para a Pilar, conseguimos estar para a Pilar, o primeiro filho, de uma forma que de outra forma não estaríamos.
Meses, claro. O que foi bom para ela nesse aspeto, sim. Houve também aqui estas, que eu fadisse, é um pormenor, mas não sei se é tão pormenor como isso, a Lola, por exemplo, a vossa cadela, e depois agora a Sancha. A Sancha é a tal cadela que: "Nunca mais queremos um cão, porque a Lola foi complicado despedirem-se dela". É sempre um luto que tem que se fazer, é complicado. Ainda não havia filhos nesta altura? Ou já?
Quando a Lola veio, a Lola e o Júlio vieram, não havia filhos, portanto eles foram os nossos primeiros filhos. E a Lola partiu o ano passado, foi uma dor muito grande, não estava à espera.
Sim, perdeste um poço incrível.
Ela só tinha oito ou nove anos. E foi uma dor muito grande.
Mas partiu o ano passado, já os seus filhos já tinham convivido muito com ela.
Muito. E hoje ainda dizem: "Olha aquela estrelinha que ali está é a Lola". E eu disse: "Nunca mais quero cães".
Pois foi.
E ao fim de uma semana temos a Sancha.
A Sancha, exato. Entre parêntesis, ou, por outras palavras, nunca mais queremos um cão.
Exato.
Eu adorei isso. Típico.
O Júlio passava os dias a uivar.
Coitado.
E eu: "Epá".
Precisava de uma companhia.
"Tenho que arranjar uma companhia".
Extraordinário. E é complicado às vezes, mesmo para os miúdos. Foi complicado com a Lola.
Eu acredito que tem uma função. Eu acredito que tudo que acontece, independentemente de ter prazer ou dor, tem uma função. E a função da partida da Lola foi ensinar os miúdos a lidar com a partida, com a despedida desta energia mais terrena.
Tens toda a razão.
Eu acredito que tudo tem função. Claro que provocou dor e ainda hoje lembramos a Lola com saudade e com pena.
Obviamente.
Mas faz parte.
Claro, é isso. Aprenderam também a lidar com a frustração e com a dor, e com o luto.
E depois em dezembro partiu a minha avó com 100 anos.
É incrível.
O Kiko ainda tem quatro.
Sim.
Mas a forma como a Pilar lidou, eu sinto que já foi diferente e com uma compreensão diferente, porque já tinha passado pela Lola uns meses antes.
Exatamente.
Portanto, eu acredito perfeitamente que aquilo aconteceu com uma função.
A tua família viveu este período contigo, concretamente o sair deste acidente e a tua recuperação. Aprenderam contigo muito, ajudaram-te, apoiaram-te sempre que puderam. A tua mulher revelou-se. As pessoas quando casam não estão a pensar que vão estar com o marido tetraplégico numa cadeira. Mas aceitar, nunca desistir e apoiar-te. Aprendeste muito com eles e eles contigo.
A Sara tem uma medalha que usa, que está relacionada com algo que nós trocamos nos nossos votos de casamento, que nos consigamos adaptar a cada Sara e a cada Duarte.
Tem que ser.
E nessa altura houve essa incerteza, lidar com essa incerteza e esse mantra estava lá: adaptar a cada Sara e a cada Duarte.
"Eu escolhi isto".
E a verdade é que o Duarte que vem é um Duarte mais maduro e com uma perspectiva de vida mais madura do que aquele que passou pelo acidente, mas poderia ter sido de outra maneira.
Exatamente. E ela teria aberto a isso com cela, mas ela ganhou com o novo Duarte que veio aqui.
Espero que ela esteja a ouvir isto para se sentir mesmo bem. Sim, foi mesmo assim.
Se não está, mandas-lhe o link e ela ouve várias vezes.
Exato.
Estás a preparar a festa grande da tua empresa, já foi?
Já foi, o Summer Sessions.
O Summer Sessions deste ano. Já há 14 anos que vocês fazem isso.
Sim.
Eu vi alguns filmes. É espantoso o que vocês fazem entre concertos e jogos e desportos e piscina, animação.
É espetacular. São 200 e tal pessoas.
Os barbecues.
Assim que a gente consegue ir. Fazemos tatuagens e as pessoas fazem tatuagens.
Eu sei, eu vi isso.
Já há dois anos que fazemos tatuagens.
São loucos.
Eu as que tenho, não fiz lá, mas há pessoas que já tatuaram o K da KWAN, inclusivamente. Não é qualquer empresa que os colaboradores tatuem o K.
Claro, completamente. Com a CGD se ter uma coisa no braço, ia dizer "Pingo Doce". Muito bom. Sim, é fantástico. Chegaste a fazer também terapia, tens esta Maria que te ajudou muito.
Hoje em dia já estou com outra pessoa. Eu faço psicoterapia há 12 anos, 13 anos já.
Portanto, ainda foi antes do teu acidente e tudo?
Sim.
Boa.
Uma pessoa que estuda psicologia fica com esta abertura.
Exato, para a saúde mental é tão importante.
E durante as diferentes fases, porque a relação terapêutica chega um momento em que poderá fazer ou não sentido mudar. E já tive quatro pessoas diferentes nestes 13 anos, que me trouxeram coisas diferentes, perspectivas diferentes, aprendizagens diferentes. Sim, e agora estou com outra pessoa desde o início do ano.
Agora estou a pensar naquilo de um post que vi teu também a dizer: "Ó filho, o pai agora não pode, porque o pai tem que trabalhar". E tu dizes: "Oiçam, isto é uma coisa má, as crianças vão ficar a pensar que o trabalho é uma coisa má e que me afasta do meu pai e da minha mãe". Portanto, há outras maneiras de dizer as coisas, eu gostei muito isto. Há outras maneiras de dizer as coisas. Diz: "Ó querida, tu queres mesmo mostrar isso agora, não é? Olha, eu também quero mesmo ver, mas o pai primeiro tem que só resolver esta coisa muito rápida. Vamos inventar uma coisa para tu fazeres enquanto o pai já te vai dar atenção?" É muito giro isso. As coisas que a gente vai dizer às crianças marcam nelas.
Às crianças e a nós e aos adultos também, porque isso tem a ver com o reconhecimento que eu falava há pouco na empresa, porque o que é preciso é reconhecer à criança que a vontade dela agora é legítima, e é legítimo, porque é uma criança, que seja agora e não daqui a bocado. Então nós podemos não fazer a vontade, não quebrar, podemos não ralhar, mas também podemos, ao mesmo tempo, não fazer porque por algum motivo não faz sentido, mas reconhecer que a pessoa o quer e o deseja. E, portanto, é reconhecer o que a pessoa está a sentir.
Validar isso.
Validar a emoção da pessoa.
Exatamente.
E isso está relacionado com o reconhecimento que há pouco falava que praticamos na empresa.
Imagina que daqui a muitos anos alguém vai resumir a tua vida em duas ou três frases. O que é que tu gostavas que fosse dito sobre ti? Mais como homem do que publicitário, digamos assim. Daqui a 20, 30 anos.
Um tipo louco que esteve lá para os outros.
Muito bom. Há muita gente que olha agora para a inteligência artificial, Duarte, com entusiasmo, outras pessoas com medo. De que lado é que tu estás da barricada? Como é que tu vês isto?
Já tive algum medo. Neste momento, tenho muito mais entusiasmo do que medo. Acredito piamente que aquilo que se está a passar já aconteceu em escalas e velocidades diferentes. Revoluções tecnológicas já aconteceram no passado e o medo que nós temos é medo do desconhecido, é o que aqui vem. Eu não consigo fazer previsões a 50, nem a 30, nem a 20. Mas aquilo que eu tenho observado, e aquilo que os dados históricos me dizem, é que, por exemplo, ao nível do emprego, vão criar-se muito mais empregos do que aqueles que vão desaparecer nos próximos anos. A partir de 2035, 2040, não sei. Mas nos próximos anos, aquilo que eu tenho observado é que está a haver um shift de funções e não um desaparecimento de funções. Muitas empresas estão a usar a AI como desculpa para fazer layoffs, que isso é mais que sabido e tem-se observado, e já se observou no passado noutras revoluções tecnológicas, em crises. Mas aquilo que nós vemos é que essas pessoas não ficam no desemprego. E a demanda por pessoas continua. Querem é pessoas mais especializadas em AI, pessoas que já utilizem mais tools de AI, pessoas que consigam produzir um maior output com o mesmo tempo de trabalho, porque utilizam ferramentas que aumentam o seu output, ferramentas de AI. Isto no passado já aconteceu. Quando apareceu o Excel, quando apareceu o computador.
Internet.
Quando apareceu a internet.
Exatamente. Usados como ferramentas que potencializam.
Tudo isso, o nível de funcional aumentou o output das pessoas. E o que se espera não é: vou ter menos pessoas para produzir o mesmo. É eu com as mesmas pessoas vou produzir mais, e já que consigo produzir mais, até vou pôr mais gente, porque o output exponencia-se. E é isso que nós temos estado a observar. A demanda está outra vez a aumentar. Se nós olharmos para os gráficos de benchmark da demanda por software developers, programadores nos Estados Unidos, nos últimos 12 meses já está a subir outra vez, apesar de ter descido a seguir à pandemia. Agora já está a subir outra vez. E aquilo que tenho observado e que a nossa experiência nos tem dito, mesmo com os nossos clientes, é isso. A demanda está a subir, o shift para uma necessidade mais AI driven mudou, de facto.
A criatividade sempre foi uma coisa muito humana, Duarte, mas quando a inteligência artificial já escreve, já desenha, programa e faz música, o que é que continua a ser exclusivamente humano, nosso?
Essa pergunta é aquela pergunta que muita gente tem feito e acho que não há uma resposta concreta. Costuma dizer-se que o ser humano é o animal racional. Eu não acredito nisso. Eu acredito que o ser humano é um animal emocional com capacidade de raciocínio, porque nós a maior parte do tempo, para tomar as nossas decisões, não estamos a pensar A, B, esquerda, direita. Não. Nós agimos no momento com base em heurísticas do nosso cérebro, que são elas muito mais emocionais do que racionais. E por isso, aquilo que nos distingue é a emoção, é a capacidade de sentir. E parece-me a mim que essa capacidade de sentir, de compreender o outro, de reconhecer o outro, de ver o momento em que o outro está e decidir em conformidade disso, ou não, mas ajudando o outro a fazer a mudança, são características que vão ser cada vez mais valorizadas e importantes no mundo em que as máquinas se vão ocupar de tarefas cada vez mais mundanas.
Se eu hoje pudesse aconselhar um jovem que está a escolher o curso ou está a escolher a primeira profissão, que competências é que tu dirias para ele desenvolver, sabendo que a inteligência artificial já está aí e está a mudar tanta coisa?
Sim.
O que é que tu recomendavas?
Que conheça os modelos de inteligência artificial e trabalhe com eles.
Que os domine.
Que os domine o mais possível. Mas, por outro lado, que se preocupe em identificar cursos comportamentais de training, formações comportamentais, bons formadores comportamentais que ajudem a desenvolver competências, como sejam inteligência emocional, a capacidade de reconhecer as emoções do outro, da capacidade também de reconhecermos as nossas próprias emoções e orientarmos a nossa atividade em função disso, perceber quando é que tenho que descansar, perceber quando é que posso ser muito mais ativo. São competências que vão ser cada vez mais importantes, na minha visão.
Estes skills que são, de facto, necessários.
Mas nunca esquecer aquilo que aí está e que vai continuar a existir, que a inteligência artificial ainda é um bebé. Portanto, um jovem deve, a meu ver, não descurando e focando-se nas soft skills, continuar a desenvolver essas hard skills que são muito importantes.
Imagina que voltamos a conversar daqui a 10 anos, Duarte. Qual é a mudança tecnológica para ti, pensa um bocadinho, que hoje parece completamente ficção científica, mas tens quase a certeza que vai fazer parte do nosso dia a dia?
O nosso dia a dia. Olha, aquela que é mais óbvia é: as pessoas vão deixar de conduzir. Eu acho que conduzir vai se tornar um hobby em que se tu tens gosto para a função, arranjas um carro desportivo ou alugas, vais para o Estoril e conduzes. Isso é uma delas. Outra delas é que tu vais deixar de ir às compras. As máquinas vão perceber o que é que tu precisas em casa, vão sair por ti e entregam-te e tomam a decisão de compra, porque tu já pré-autorizaste, elas já conhecem os teus comportamentos. Acredito que todos nós vamos ter, como todos nós temos uma máquina de lavar, comecemos a ter um ajudante em casa, que é uma máquina com inteligência artificial, com aspecto humanóide ou não.
Sim.
Acredito que possa ser. Em termos de dia a dia, eu acho que são estas as grandes mudanças que nós vamos assistir.
Quando diz o humanóide em casa, para limpezas e lavar?
Limpezas, estar sempre a tratar da arrumação. Eventualmente fazer o jantar.
Por a mesa. Ok.
Sim.
Muito bem. Não temos tempo para mais. Duarte Gorrão Fernandes, quero te agradecer muito essa tua disponibilidade em vir aqui. Foi muito bom conversar contigo, ver essa tua noção de futuro, ver que és uma pessoa, é engraçado que falaste muito de emoções e és uma pessoa também emocional, obviamente, tens sensibilidade. Estavas a falar disso agora mesmo há bocadinho e eu a pensar: os homens não gostam muito de falar de emoções. Tu tiraste psicologia.
Eu acho que isso está a mudar.
Mas eu também acho que está, por acaso, e ainda bem, e até a questão da saúde mental e os terapeutas, essas questões hoje em dia já era quase tabu, era um estigma. Hoje em dia é a coisa mais vulgar.
Como te digo, nós somos seres emocionais com capacidade de raciocínio, e eu acho que é para aí que estamos a mudar e a evoluir.
Muito bem. Duarte, muito obrigado por teres vindo.
Não, obrigadíssimo. Foi um gosto, foi muito bom.
Muito obrigado.
Obrigado.