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Porque psicólogos saem todos os anos das faculdades. Jornalistas saem todos os anos das faculdades. Nós temos que ter mundo. E a melhor forma de ter mundo é viajar, mas é sabermos o que está a acontecer. Eu leio muito e eu acredito que muitas das coisas nós conseguimos perceber através dos livros, mas não chega. Nós temos que falar com as pessoas e estar com as pessoas.
No que toca ao voluntariado, estamos entre os 10 piores países da Europa. Apenas 7% da população portuguesa faz voluntariado na Europa. A média ronda os 19% e há países que atingem os 40. Entre os jovens, o panorama não é muito melhor. Só 12% dos jovens portugueses estão envolvidos no associativismo estudantil ou juvenil e 42% não votaram nas últimas eleições. Como resolver o problema da baixa participação cívica e social no país? O que falta para motivar mais gente? Se há tanta entidade e tanta gente que precisa, por que não aderimos mais? Quão generosos e agradecidos somos? Para nos falar disso, convidei a psicóloga Joana Moreira, consultora de inovação social e impacto, considerada desde há três anos uma das melhores empreendedoras sociais do mundo e que integra o top 100 das mulheres da Comissão Europeia nesta área. Verdadeira ativista pelo voluntariado, é diretora da Transformers e da Reformers, duas ONGs focadas na participação cívica e social dos jovens e dos seniores em Portugal. Vamos conhecer melhor esta jovem apostada em duplicar o voluntariado em Portugal e que acredita que os voluntários podem, de facto, mudar o mundo. Olá, Joana, e bem-hajam por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.
Olá, João, obrigada eu.
É um grande prazer estar aqui a conversar contigo. Tu és do Porto, tu és portuense.
É verdade.
E apaixonada por problemas sistémicos, formada em Psicologia e Empreendedorismo Social. Tu tiraste Psicologia Clínica da Saúde, foi? No Porto.
Exatamente, no Porto.
E depois Gestão de Marketing no IPAM e fizeste o MBA aqui na Católica também do Porto. Tens passado por estas, os Transformers, os Reformers, agora vamos falar disso. És cofundadora da MadPanda, por exemplo, que é uma organização dedicada ao abandono animal, não é?
Exatamente.
E dá um grande flagelo na nossa sociedade. Acontece muito?
Cada vez mais, sobretudo nas férias. O abandono é altíssimo na altura do verão e a MadPanda tenta, de alguma forma, colmatar esse problema.
Muito bem. Também és formadora, especialista em impacto da IRIS. A IRIS é o quê?
É a Incubadora Regional de Inovação Social.
Muito bem, que funciona no Porto?
Exatamente.
Muito bem. És Incubadora Regional de Inovação Social, sim, exatamente. Tu tens esta experiência associativa e de voluntariado. Como tu dizes, é uma frase tua: "Se cada pessoa fizer a sua parte, tudo isto faz mais sentido". Claro. Em 2006, estamos a falar há quase 20 anos, tornaste-te voluntária ou acordaste para o voluntariado porque achaste que as nossas férias eram muito grandes, que cabe muita coisa nas nossas férias, é isso?
Sim, e na verdade, foi assim que tudo começou. Eu tinha 16 anos na altura, sou filha única, portanto, estou habituadíssima a estar sozinha no meio dos livros, sou uma introvertida e achava que tinha muito tempo livre nas férias de verão. E portanto, com a ajuda da minha mãe, inscrevi-me, na altura, para ser monitora de colónias de férias de miúdos desfavorecidos.
No Olival, não é? Em Vila Nova de Gaia.
Exatamente, em Vila Nova de Gaia. E fui monitora de colónias de férias, acabou o verão, pediram para eu ficar lá como voluntária semanal a dar aulas de artes plásticas.
Ah, quer dizer, mentora de artes plásticas no bairro social.
Exatamente, porque eu tinha tido a oportunidade, quando era miúda, de andar na pintura e no piano. Portanto, eu sou das artes e também achei por bem, depois desse verão, candidatar-me para ser voluntária regular. E foi aí que esta carreira, se lhe quisermos chamar carreira do empreendedorismo social, começou.
Agora, a propósito de seres mentora de artes plásticas no bairro social, por exemplo, as artes de facto são muito importantes, é um bom elevador para a psicologia dos miúdos, e nomeadamente aqueles que são mais carenciados, com famílias mais desestruturadas.
Eu acredito que sim, João, até porque é a forma, muitas vezes, que eles têm de se expressarem, que às vezes não há vocabulário suficiente, não conseguem expressar por palavras como é que se sentem. E através da pintura ou através da música, sobretudo do hip-hop, é muito mais fácil eles conseguirem expressarem-se. Portanto, eu acho que a arte é fundamental na vida de qualquer pessoa.
Até porque muitas vezes quando nós temos em bairros mais degradados ou com piores condições, faz com que os miúdos não leiam, por exemplo, não desenvolvem vocabulário. A própria linguagem é muito limitada. As redes sociais também ajudam a limitar um bocadinho a linguagem, eu acho. Por isso é mais uma forma de expressão que pode ser útil, importante.
E na verdade, nesses contextos, não é por mal que não acontecem de ficarem sem a arte, é tão preocupados em sobreviver e em fazer aquilo que conhecem.
Isso passa à frente de tudo, obviamente.
Claro, e o que conhecem muitas vezes é o futebol. São os jogadores de futebol, agora os modelos de referência são os gamers e os YouTubers, que é isso que veem, como tu estavas a dizer. Esses tornam-se os modelos de referência e às tantas tudo o resto fica um bocadinho esquecido. E é importante nós irmos lembrando da importância de fazer outras coisas.
Tu trabalhaste em bairros sociais, em prisões juvenis, centros de acolhimento e de apoio à deficiência e até em contexto internacional também.
Sim.
Em prisões também é o caso?
Não, no contexto internacional, eu fiz uma missão internacional de voluntariado em São Tomé e Príncipe.
Sim, isto faz agora uma década.
Em 2015, sim. Se me perguntares se eu voltava a fazer, acho que não.
Por quê? Porque é duro demais?
Não é por ser duro demais. Eu acho que o voluntariado internacional, quando não é bem feito, às tantas torna-se volunturismo. E nós vamos para lá, achamos que estamos a fazer a diferença, e de facto fazemos a diferença, mas no dia em que eu me vi embora, eu tive três meses a acompanhar um grupo de crianças e jovens, a dar aulas de artes e de dança.
Foste abordada porque cruzaste com o Celso.
Exatamente.
E então, quem é o Celso e como é que ele te impactou?
O Celso é um bom exemplo daquilo que estávamos a dizer. O Celso era muito agressivo, fisicamente muito agressivo.
Tinha nove anos.
Nove anos, exatamente, na altura. Só consegui chegar a ele através do desenho, eu desenhava para ele, ele desenhava para mim. Durante três meses foi assim que nós comunicamos Ele ia sempre às aulas, era o primeiro a chegar e o último a sair. E no último dia, quando eu me vi embora a chorar imenso, porque aquilo, de facto, mudou a minha perceção do mundo, ele disse-me uma coisa extraordinária que foi: "Sabes, Joana, obrigado por teres vindo. Nós gostamos muito de te ter cá, mas tu vais para a tua vida com água potável, com os teus amigos, com o teu conforto e nós ficamos exatamente na mesma. Vocês virem cá, mudarem de alguma forma a nossa realidade, mas depois deixarem-nos cá exatamente com as mesmas condições". E aquilo foi, para mim, um murro no estômago. Acho que o voluntariado internacional tem que ser muito bem feito. Revi a minha forma de ver o voluntariado internacional e também o nacional. Acho que temos que profissionalizar quer um, quer outro, preparar bem os voluntários que vão para estas coisas, para a despedida, para o impacto que vamos ter é um impacto a curto prazo, ainda que nós achamos que somos white saviors e vamos para lá e vamos mudar a vida daquelas pessoas. Não vamos. Vamos mudar naquele tempo.
É isso. É uma pedrada no charco.
Exatamente.
Naquele momento, um oásizinho na vida deles, e depois volta tudo a ser igual. Agora fizeste-me pensar uma coisa que eu nunca tinha pensado nisso, se às vezes não será até contraproducente, no sentido em que eles de repente veem pessoas ótimas, bem formadas, que trazem livros e trazem telemóveis e falam de uma vida ótima e que há centros comerciais e há cinemas e há filmes, e eles não têm nada disso. Se eles depois a gente vai-se embora, não ficam ainda mais afundados naquela falta? Naquela carência.
E há outra coisa que a mim me incomoda muito, que é as pessoas que vão aproveitar-se do coitadismo.
Sim, isso é imenso.
Tirar as fotografias, e agora há uma data de influencers a fazer voluntariado internacional. Nós não temos autorização de imagem daquelas pessoas.
Exatamente. Há uma proteção de dados que devia ser respeitada.
Nós não podemos publicar a foto daquelas pessoas.
Sem a autorização delas.
Temos que manter a dignidade daquelas pessoas e portanto esta coisa de tirar fotografias a pessoas de outra cor, que estão sujas, com as roupas rotas, não vale tudo.
É humilhante, é degradante.
Não vale tudo nas redes sociais. Eu acho que há aqui movimento do voluntariado internacional se aproveitar deste coitadismo para alimentar o ego, e isso a mim preocupa-me muito. Mas eu também acho que não teria esta consciência se não tivesse ido.
Ganhaste-a indo, mesmo passando por isso tudo e não tendo rematado-se bem nesse aspecto. Para eles, às vezes, é mais duro, mas de facto estiveste um mês e meio, seis semanas com 100 crianças. Foi intenso, com certeza. Mas é o tempo que dedicamos aos outros que melhora a qualidade do nosso próprio tempo, diz isto. Muitas vezes estamos em sítios em que não precisam de nós, uma vez que disseste isto. É verdade?
É verdade.
Quer dizer que há ações de voluntariado em sítios que afinal não era muito preciso, há outras que precisam mais, por exemplo.
Porque não se fazem diagnósticos. Nós queremos tanto ajudar e tanto contribuir, que não fazemos a pergunta básica de: "Vocês precisam de nós?" É como com os nossos amigos, é: "Tu precisas que eu vá aí?" E eu acho que nós temos que estar em sítios que precisam de nós. É isso que tentamos fazer há 15 anos com o movimento Transformers, que é perguntar quais é que são os territórios que precisam de ativar a juventude, ativar a participação, porque há outros que já têm tão boa política interna, já têm tanto movimento associativo que não precisam da nossa intervenção e está tudo ok.
O cardeal patriarca, antigo António Ribeiro, que dizia: "O próprio terra de missão, os meninos querem ir para as Áfricas e para as Cores de África. E Lisboa e as periferias de Lisboa têm imensos territórios de missão a que ninguém acorre, e aqui ao lado de casa precisamos imenso também. Portanto, não há necessidade de ir para..." Só que pronto, cá está, aqui temos o Instagram. Isto já foi ainda antes de haver Instagram, mas eu já dizia isto. Mas de facto, aqui ao lado, pode ser mais preciso. De facto, os Transformers fazem isso, essa espécie de, entre aspas, estudo do mercado para saber se é mesmo importante lá ir e as necessidades que há em cada país. Pode ser diferente, ir só dar umas aulas ou levar material, por exemplo.
Sim, e agora até também com a experiência e com os 15 anos, nem temos sido nós a entrar em contacto com as cidades, têm sido as cidades a entrar em contacto conosco, como a Pampilhosa da Serra, em Coimbra, que entrou em contacto conosco porque não tem associações de estudantes, queria ativar o associativismo, portanto alguém lhes disse que o movimento Transformers era a melhor entidade para o fazer. Desenhamos um programa em conjunto de dois anos e estamos na Pampilhosa da Serra. Portanto, é isso que tem acontecido, é municípios que precisam da nossa intervenção.
Mais municípios que solicitassem. O que vocês podem desenhar para isto? Vocês depois também aí estudam a região e as necessidades locais, não é? Pode ser que seja importante acorrer lá. Os portugueses então são pouco voluntários, Joana. Apenas 10% da população, e depois já vi números mais recentes que dizem que até deve ser 7. Estamos entre os 10 piores países, não sei se da Europa, se do mundo. De facto, muito pouca gente votou entre os jovens. Na Europa, a taxa de voluntariado, os números de 2018, por exemplo, falam em 7,8. As estimativas mais recentes falam em 6,4. Isto é muito pouco, quando a média é 19 na Europa, e há países que chegam aos 40. Como é que nós podíamos resolver este problema da baixa participação cívica e social? Tudo faz mais sentido, como tu disse, se cada um fizer a sua parte. Mas eu vejo que lá fora, por exemplo, há imenso trabalho comunitário, as pessoas que limpam a rua, limpam os parques, ajudam a plantar árvores, vão ajudar nas escolas, os sem-abrigos, distribuem comida, roupas. Cá também há coisas destas, mas de facto ainda há muito pouco.
Ainda há muito pouco. Eu não tenho a resposta para te dar de como é que se muda isto.
Pelo exemplo, se calhar, pelo testemunho?
Sim, pós-Covid isto piorou. As pessoas ficaram em modo de sobrevivência, muito preocupadas com elas próprias.
Consono próprio, nós fomos vigtuístas disso.
O que é absolutamente normal e, portanto, deixaram de dedicar tempo. Acho que tem muito a ver com a conjuntura política também, que é as rendas estão altíssimas, as pessoas recebem mal, as pessoas estão muito cansadas, temos uma grave crise de saúde mental A nível mundial, temos pessoas que não estão bem, que estão deprimidas, que têm que tomar medicação para continuar a funcionar. Portanto, o voluntariado deixa de ser uma prioridade também porque há pouca literacia para o voluntariado. Fala-se pouco disso nas escolas. Está provado que quem faz voluntariado fica menos vezes doente, tem maiores índices de felicidade, porque está a utilizar o seu tempo para melhorar a vida de alguém.
Só tem vantagens nesse aspeto.
Nós somos seres sociais e fazendo voluntariado, estando com os nossos amigos, que são coisas diferentes, ao estarmos em interação, melhoramos a nossa qualidade de vida.
E fazer voluntariado com amigos ainda é o melhor então, junta as duas realidades.
É perfeito. Eu tento sempre puxar os meus amigos para fazerem voluntariado.
Ajuda-te e partilham experiências e chamas mais gente para te ajudar nestas obras. Mas, de facto, o que é que fazia falta? Por exemplo, a disciplina de Cidadania podia ser uma boa ajuda nisso?
Eu acho que falta imensa literacia nas escolas. Eu também acho que faz falta estruturas públicas reinventarem-se. E também há aqui uma coisa relativamente recente que é: sim, não há muitas pessoas a fazer voluntariado formal, mas há cada vez mais grupos informais de jovens que se juntam para ir a manifestações ativistas, para fazerem voluntariado no seu bairro. O movimento que existiu na altura do Covid, ajudarmos os nossos vizinhos.
Exatamente.
Isto nem sempre entra para as estatísticas. O que é bem isto de fazer voluntariado? Voluntariado formal é tudo aquilo que nós fazemos através de uma organização.
Que há várias, pode ser a Liga Portuguesa contra o Cancro ou o que seja. Ou voluntariado, por exemplo, em hospitais. Esse género de coisas conta, não é?
O voluntariado informal é todo aquele que nós fazemos a título individual.
Informal, sim.
O informal. Eu saio daqui e vou, enquanto Joana, visitar alguém num lar. Não vou em nome dos Reformas ou não vou em nome da UNICEF. E é muito difícil quantificar este voluntariado informal. Tu ajudares um vizinho teu a ir às compras, se for uma atividade regular, pode ser considerado voluntariado.
Sim, mas às vezes é uma coisa pontual.
Como é que se mede? É difícil. Ainda assim, nós somos um país altamente solidário. Houve ainda agora há pouco tempo a campanha do Banco Alimentar.
Exatamente.
Nós contribuímos, nós queremos ajudar, nós somos solidários, mas participamos pouco.
E vai subindo, aliás, todos os anos há mais toneladas de pessoas a contribuir e também há mais gente a precisar. O João Jerónimo falava sempre nisso, todos os anos há mais famílias que infelizmente vão precisando de estar associadas a instituições que lhes deem as suas comidas, porque há mais gente que vai ficando no limiar da pobreza e isso acontece muito.
Desculpe interromper. Há aqui outra coisa que tem a ver com que cada vez há menos associações de estudantes.
Há menos?
Há menos.
Havendo mais universidades, não há mais associações de estudantes?
Eu estou a falar aqui essencialmente até ao ensino secundário.
Ok.
Que há menos listas, há menos associações de estudantes. E vamos voltar ao que tu dizias também, que é esta questão das redes sociais e do ativismo digital, que eu acho que é importante darmos voz ao que está a acontecer do outro lado do mundo nas nossas redes. Faz com que este ativismo digital, que é mais fácil, eu posso fazer do conforto do meu sofá, faz com que depois participe menos em coletivos, menos em associações de estudantes.
Tens toda a razão.
E também há outra coisa que é: um grupo de miúdos querer criar uma associação de estudantes na escola, não sabe. Não se ensina isto nas escolas.
Cá está a literacia que tu dizes que faz falta e que é importante. Tens toda a razão, a pessoa distrai-se, porque é mais fácil ajudar uma inundação na China e que a pessoa faz qualquer coisa, faz uma ação para lá, do que de facto encontrar as pessoas. O problema dos telemóveis e das redes sociais é isso. O encontro cara a cara e tentar fazer uma coisa na sua faculdade, juntando gente e discutindo e fazendo debates e fazendo reuniões, isso é mais difícil de acontecer hoje em dia. A importância da participação cívica é, de facto, muito grande. É a base de uma sociedade democrática, coesa, saudável. Como tu dizes, os países com níveis mais elevados de participação apresentam melhores índices de saúde mental e de física, taxas mais baixas de doenças, depressão, suicídio e crime.
Exatamente.
As pessoas não sabem, mas as pessoas não sonham isto, Joana, não fazem ideia destas coisas. Cá está. E é ver esta literacia, ensinarem estas particularidades. O ativismo ambiental, apesar de tudo, por exemplo, estou a pensar na Climáximo, às vezes não são as melhores ferramentas, as melhores ações, mas apesar de tudo, pode ser uma oportunidade para crescer os números disto.
Eu acho, sem dúvida que sim. Acho que depois as pessoas se vão identificando com diferentes tipos de ativismo. Uns mais vocais do que outros. Eu acho que é importante para chamar a atenção. Eu sou fã do trabalho da Climáximo, ainda assim também afasta outras pessoas. Mas eu também não sei, João, qual é que devia ser a fórmula, porque eu não acho que eles estejam errados, mas vou dar um exemplo.
Em tudo o que fazem? Achas que concordas sempre?
Não, não concordo sempre.
Está bem.
Não concordo sempre.
Aquelas do pintar os quadros do Louvre com tintas das cores para chamar a atenção para não sei o quê.
Não concordo sempre.
Não sei se isso chega ao objetivo, claro, que é falar.
Chama a atenção, mas muitas vezes afasta. Vou dar um exemplo. O meu pai, que é muito contra esse tipo de manifestações, sempre que isto acontece, ele liga-me a dizer assim: "Já viste? Lá estão os teus amigos ativistas a bloquear a entrada das pessoas." Ou seja, também pessoas que já são contra ficam ainda mais afastadas.
Sim.
Mas também não sei se a solução é deixar de fazer, porque ao mesmo tempo alerta.
Sim, eu acho que depende das coisas. Nem tudo é válido. E cortar uma circulação onde as pessoas têm que ir trabalhar, têm que ir para um hospital, têm uma operação, têm uma coisa marcada. Não sei se é assim a melhor solução. Não sei se chama mais a atenção com isso, porque hoje em dia leva à violência. Isso a gente já sabe. A maneira de dizer as coisas, chamar a atenção, sim. A maneira de chamar a atenção é que acho que pode ser um bocado discutível e pode ser um bocado contraproducente.
É a forma, não é?
Exato, a forma. Isso é muito importante. Três causas para este desinteresse. O excesso de informação faz com que muitos vezes os jovens se sintam perdidos na hora de participar. A educação para a cidadania não ser uma prioridade nas escolas também já percebemos que não ajuda. O impacto brutal da pandemia, tu falaste disso, repetiu-se muito a nível da saúde mental. Cada vez há mais jovens com ansiedade e com problemas de relacionamento. Para duplicar este interesse, eu sei que é uma das tuas metas, Joana, quais são as políticas públicas que têm de mudar? Eu estou a pensar, por exemplo, naquela alteração promovida pelo Instituto do Desporto e Juventude, que antes só apoiava associações de estudantes juvenis e agora associações de caráter juvenil, aquelas que trabalham para os jovens, mesmo que os dirigentes não sejam propriamente os jovens. Por exemplo, essas pequenas alterações na lei podem ajudar a aumentar este interesse?
Podem, sendo que isso vai mudar outra vez, em breve.
Ah é?
Portanto, eu acho que faltam alterações, mas eu também acho que falta as alterações se darem tempo elas próprias para funcionarem. Eu acho que falta uma coisa essencial, que é perguntar às pessoas o que as faria participar, o que elas gostavam de fazer. Porque o que acontece na maioria das organizações é que têm programas de voluntariado, em que a equipa de gestão pensa no programa e depois vai implementar. E depois não há adesão, não há participação, as pessoas estão contrariadas. E há 15 anos com o que nós fazemos nos Transformers, e que trabalhamos essencialmente com crianças e jovens em risco de exclusão social.
Que é o vosso target.
Sim. O que tu gostavas de aprender? É hip-hop, é poesia, é culinária.
Jardinagem, o que seja.
É jardinagem, é breakdance, é natação. O que tu gostavas de aprender? E garantimos que estes jovens podem aprender o que quiserem na sua comunidade com mentores voluntários. Portanto, são mentores voluntários que já têm estes talentos, que ensinam estas atividades a jovens que querem aprender. E isto muda tudo, porque uma das perguntas que mais nos fazem é: o nosso programa de voluntariado é de nove meses, todas as semanas, portanto, é voluntariado regular, implica algum tempo. E perguntam-nos: "Vocês não têm desistências ao longo do ano, de voluntários?" E a verdade é que não.
Uma vez que entram, ficam seduzidos.
Porque as pessoas estão a ensinar uma coisa que gostam muito de fazer.
Claro.
Tu gostas muito de comunicar.
Porque tu foste aos voluntários dizer: "O que vocês querem?" Então dão-lhes isso. E quando lhes dão isso, são eles que escolheram.
Sim, nós fazemos o match entre o que as pessoas mais gostam de fazer com o que outras pessoas querem ensinar. Tu podias ser nosso mentor, João, de comunicação, por exemplo.
Isso era se eu fosse bom, Joana. Mas tu dizes sempre que acreditas que todos temos um talento.
Sim.
Isso é muito bom dos Transformers. A Joyce, por exemplo, uma das tuas transformadas, passou dois anos depois de entrar como alvo destas ações, a ser ela própria voluntária. Ela adorou isto.
Mentora de capoeira.
Ai, é capoeira? Que giro.
Exatamente.
Quis ter ela a ensinar outros.
Ou o Diogo, que cresceu numa casa de acolhimento, onde nós temos grande intervenção, que aprendeu a dançar breakdance conosco e que dois anos depois tornou mentor de breakdance. E isto muda tudo, porque uma coisa sou eu, Joana, privilegiada, ir a uma casa de acolhimento dizer: "Eu venho vos ensinar a tocar piano, porque eu pude ter aulas". Outra coisa é o Diogo, que cresceu numa casa de acolhimento, dizer: "Eu sei exatamente o que vocês estão a passar. Eu cresci num sítio igual a este. Eu aprendi a dançar breakdance com os Transformers e agora está na altura de ser eu a ensinar".
Fantástico.
Então a ligação é imediata. É uma educação pelos pares, a educação não formal.
Exatamente.
E cada vez temos mais mentores voluntários, que são estas figuras de referência de jovens que são iguais a eles, só muda a idade. E eu acho que isto de perguntar e colocar ao serviço os nossos talentos é o que faz sentido.
É o match perfeito, vai ao encontro daquilo, através daquilo que eles gostam de fazer. E isso é extraordinário. Exemplos de áreas, tu tens aqui em 14 anos ajudaram milhares de jovens a descobrir o que os apaixona, do hip-hop à poesia, ao futebol, ao parkour, ao teatro, à patinagem. É incrível. Este Transformers existe desde quando?
2010.
2010. E depois deste Reformers, eu gosto, parece que tiraram o nome dos Transformers, mas tem a ver com seniors, não é? Na cidade do Porto, já desde 2017. E depois, é uma espécie de spin-off do Transformers, um programa criado para combater o isolamento social sénior. E para combater um bocado também o edadismo, é uma coisa que ainda há muito, não há, Joana?
Há. Este preconceito que nós temos que as pessoas a partir dos 70 anos ou vão-
Morrer para um lar.
Sim, ou vão aos passeios da igreja e veem a televisão o dia todo.
Exato.
Portanto, nós percebemos que a metodologia funcionava com os jovens e foi validada e recebeu imensos prêmios, e decidimos aplicá-la a séniors. E portanto, o que fazemos é exatamente igual, João. É perguntar a pessoas com mais de 70 anos o que elas gostavam de ter aprendido e nunca tiveram a oportunidade.
Sim.
Ou de outra forma, o que gostavam de aprender antes de morrer. E garantimos que essas pessoas aprendem o que quiserem Também com mentores voluntários nas suas comunidades. E o mais giro disto tudo, e que nós não esperávamos, é que nós temos mentores seniores.
Ah, também?
Nós temos o caso do Domingos, que foi alfaiate a vida toda, ficou viúvo, está sozinho e candidatou-se como mentor voluntário. É ele que dá aulas de costura a uma turma de seniores, que estão todas apaixonadíssimas por ele, porque ele é lindo e maravilhoso.
Faz uma coisa muito bem feita e todas adoram.
Mais uma vez, é perguntar às pessoas o que elas gostavam de ensinar e perguntar às outras o que elas gostavam de aprender.
Há alguma plataforma, Joana, uma pessoa do nada, que gostava de ajudar em alguma coisa. Os Transformers têm site que a pessoa pode ir e ver onde é que se encaixa ali, se é possível acontecer, a pessoa saber.
Sim, no nosso site movimentotransformers.org, tem lá mais informação. E nós vamos divulgando algumas iniciativas de voluntariado a nível nacional. Nós trabalhamos do Porto para todo o país, mas é importante que as pessoas percebam, primeiro, se estão disponíveis para fazer voluntariado. E quando falo em disponibilidade, falo em disponibilidade de tempo, mas também emocional. É muito importante percebermos isto. Depois, qual é a causa que nos move? E não têm que ser todas. O que me tira o sono?
Exatamente.
Há pessoas que há de ser o ambiente, há outras que é os sem-abrigo, há outras que são os animais, há outras que é esta questão da falta de participação.
Há muitas coisas.
Há muitas causas. E eu vou ser muito mais efetiva se fizer voluntariado numa causa que me apaixone. E vou contribuir de forma muito mais efetiva. E é importante nós fazermos esta autoanálise primeiro.
Exatamente. Muito curioso isso. Em dezembro de 2024, começou esta academia de rua.
Exatamente.
Faz agora um ano. Aceleração de talentos, entre aspas, garantir o igual acesso a oportunidades no desenvolvimento e projeção dos vários talentos dos jovens. Um espaço aberto para quem quiser aprender e praticar o seu talento durante um ano. Uma casa, um espaço seguro para criar, experimentar, falhar também e conhecer. É uma frase vossa: "Não podemos continuar a perder artistas, bailarinos, atletas. Não podemos deixar que os jovens deixem de investir no que mais gostam de fazer por falta de recursos". E é, no fundo, o que move esta academia. Tem estes vários eixos de intervenção, o voluntariado, tem este projeto Escolas de Superpoderes Reformers, projetos de intervenção com crianças e jovens em risco e seniores isolados. Tem este associativismo, também tem estes projetos de capacitação, consciencialização, esta T-Academy. Isto faz o quê?
Isto é aumentar a consciência para a importância de participarmos mais, divulgamos formações, oportunidades de voluntariado, artigos de opinião, para que as pessoas tenham mais literacia sobre este tema e depois acabem por se envolver.
A participação cívica e social está diretamente relacionada com o sucesso escolar. Por quê? Quanto mais as pessoas participam, também vão tendo mais tempo a estudar e percebem que é importante vingar nos seus estudos, é isso?
Nós fizemos um estudo de impacto há uns anos com a Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, em que conseguimos provar exatamente isso que dizias, que é pelo fato dos jovens estarem a fazer uma atividade que eles escolheram e que querem aprender com o mentor voluntário, que não cumpre aqui o papel de professor, é como se fosse um irmão mais velho, eles ficam mais motivados para irem à escola, para aprenderem, para serem, no fundo, melhores cidadãos. Porque nós temos um princípio em todas as nossas atividades, que é o princípio de payback, que é todas as nossas turmas estão a aprender uma atividade durante o ano, mas são incentivadas a fazer um payback, que é uma ação de retorno à comunidade. Se eu estou a aprender esta atividade, como é que eu posso usar esta atividade para mudar alguma coisa? Pode ser fazer uma atuação de breakdance em que o valor de entrada para a atuação seja um quilo de alimentos que depois vamos dar a alguma entidade. Portanto, é tornar os jovens e os seniores mais conscientes de que não são seres passivos, não estão só a aprender uma atividade, têm que usar aquilo que estão a aprender para mudar alguma coisa à sua volta.
É muito curioso ver este ativismo jovem. Nós rejeitamos a ideia de que os jovens sejam preguiçosos ou desinteressados, coisa que vocês fazem, e bem. O ativismo jovem não é uma fase, é uma base de uma democracia viva e não pode continuar a ser o parente pobre das políticas públicas. Isso é verdade. Estava a pensar, por exemplo, da maneira de financiar isto, a questão da consignação do IRS. É muito curioso, porque o aumento da porcentagem de IRS que os contribuintes possam consignar para organizações da sociedade civil, de 0,5% passou para 1%, é um grande passo, é um passo importante, mas explicar isto tem de ser alargada e comunicada de forma clara. Não é dinheiro que nos sai do bolso. Joana, eu acho que há muita gente que não dá e não consigna e não se lembra por aquele NIB nas declarações de IRS, porque acham que vão lhes tirar dinheiro. E não é dinheiro que nos sai do bolso. As pessoas têm que perceber isso.
Sim, as pessoas têm que perceber isso.
É uma ajuda essencial.
Consignação de IRS não custa nada às pessoas. A nossa campanha externa até foi: doar é uma forma de participar. Nós doarmos parte do nosso IRS, que na verdade não nos sai.
Pois não, é importante.
É aplicada às organizações da sociedade civil.
Isso nem sequer foi comunicado, que aumentou para o dobro, é tão importante. E de migalha em migalha, é imenso o que pode vir.
Mas eu também acho, João, que é da responsabilidade das organizações sociais, da sociedade civil, como lhe quisermos chamar, furar estas bolhas, porque ainda há muitas pessoas que não sabem que isto é possível. Vou te dar dois exemplos. Eu fiz agora recentemente um MBA, eu era a única pessoa deste setor, todo o resto eram diretores executivos de grandes empresas.
Sim.
E é muito esta coisa de: "A mudança da vida das pessoas ou trabalho social é responsabilidade das Santas Casas, não é da minha responsabilidade. Eu não tenho a responsabilidade de contribuir, eu não tenho a responsabilidade de saber o que é".
É demitir-se.
Exatamente. Mas é porque cresceram muitas vezes numa bolha, que não furam a bolha. Mas nós também somos responsáveis por isso. Nós estamos sempre a conversar com pessoas deste setor e temos que furar estas bolhas e falar diretamente com estas pessoas. Igualmente com as empresas também. Nós temos que responsabilizar as empresas para a importância De contribuírem. Nós temos vários programas com empresas como a Água das Pedras, que está a investir num programa de mentoria, em que temos mentores experientes que vão dar parte do seu tempo. É um programa online, vão dar parte do seu tempo a ajudarem jovens que querem desenvolver o seu talento na área da comédia, na área da costura. É um programa mais curto.
Por isso é que é este programa, por exemplo, com a Sara Correia, com o Salvador Martinha.
Com o Salvador Martinha.
Esta coisa do ser natural traz frutos.
Exatamente.
É um bootcamp feito pela Pedra Sabores, para apoiar os jovens a seguirem os seus sonhos, implementado por vocês, pelos Transformers.
Exatamente. E é nesta lógica de: é importante, porque sem isso nós não conseguimos funcionar, sem este investimento por parte das empresas. Isto tem um impacto gigante na vida dos jovens, vai ter um impacto na empresa e os colaboradores destas empresas vão estar mais motivados sabendo, está estudado, que a empresa está a contribuir significativamente para a sociedade. E isto é win, win, win, win.
Exatamente, para todos.
Sem parar.
E é muito curioso, Joana, porque hoje em dia também, é uma coisa que se nota muito e tenho ouvido muitos, até superiores meus a falar disso, quando vão a entrevistas de emprego, cada vez mais as entrevistas interessam-se mais por isto. E isto é uma coisa que também tem que ser divulgado. Até para arquitetura e para ateliês disto e daquilo e empresas de advogados e escritórios de advogados. Interessa muito saber se você já fez voluntariado, que género de coisa você fazia. Fez campo de férias, foi animador de alguma coisa. Interessa às vezes mais isso do que ter média 19 ou 18,5. Percebes? Do que o currículo. É muito engraçado.
Eu sou superapologista disso.
Começa a entrar na seleção dos candidatos quando as pessoas estão voluntárias. Isso quer dizer muito sobre a personalidade do candidato.
Até porque são essas competências, e eu só posso falar por mim. Não foi o curso na faculdade ou a formação que eu fui fazendo que me fez ser mais consciente. Foram estas experiências de voluntariado, o entrar em contacto com estas pessoas.
Os celtos que se cruzaram com a tua vida.
Exatamente. Essa frase é ótima, os celtos que se foram cruzando na minha vida.
Mas é incrível, porque avisam-nos, alertam-nos.
Porque psicólogos saem todos os anos das faculdades. Jornalistas saem todos os anos das faculdades. Nós temos que ter mundo. E a melhor forma de ter mundo, sim, também é viajar, mas é sabermos o que está a acontecer.
Claro.
E eu acredito, eu leio muito, e eu acredito que muitas das coisas nós conseguimos perceber através dos livros, mas não chega. Nós temos que falar com as pessoas e estar com as pessoas.
O que não se aprende nos livros e na escola. O facto de seres tão reconhecida, em 2021, por exemplo, estavas no Top 100 Women in Social Enterprise, Comissão Europeia. E depois houve a Ashoka, esta organização fundada em 81, nos Estados Unidos, que reúne cerca de 3600 inovadores sociais, os Ashoka Fellows, que te premiaram também e que te inscreveram como um destes inovadores sociais. É importante estes reconhecimentos também para chegares onde queres chegar e fazeres TED Talks nas faculdades e ires às escolas.
Sim.
Dá-te projeção, isto?
Dá projeção, é muito importante.
Para divulgar o que se faz e o que se pode fazer.
Mas eu também não gosto de só falar dos brilhos e das purpurinas. É claramente importante para mim e para as organizações que lidero, para as pessoas que represento.
Dá projeção, pelo menos, dá voz.
Sim, ainda o ano passado ganhamos o Prêmio Direitos Humanos da Assembleia da República.
Verdade.
E fui discursar em nome dos jovens que represento e a minha preocupação era se estava a falar bem por eles.
Sim.
E a dar-lhes efetiva voz. Portanto, é ótimo, mas também traz muita carga de-
Responsabilidade?
Responsabilidade, expectativa. Já se espera que eu faça bem, que não falhe. Então, para mim, falhar-
A fasquia já é tua alta.
É terrível, é sentires que não podes falhar, que tens muitas vidas que dependem do teu trabalho e do teu entusiasmo, e nem sempre eu estou entusiasmada. E, portanto, tem coisas muito boas, mais do que as menos boas, mas também tem coisas menos boas.
Esta tua paixão pelo mar, e pelo mar, sejas inverno, sejas verão, sejas o mar gelado. O mar gelado pode ser já de caminho, tu mergulhas da praia de Molede na boa?
Sim, João, eu entro sempre na água.
A água é congelada, é Antártida.
Eu entro sempre na água do mar. Mas se me pedires para eu tomar banho de água gelada em casa, eu não tomo.
Ah, ok. Mas vai sempre porque eu atraio-te muito, é engraçado. Também ajuda-te a quê?
Eu adoro.
Pensas, meditas, tens ideias quando estás dentro da água ou é só um escape?
Eu acho que a praia tem tudo de bom, é gratuita.
Sim.
É dos poucos sítios gratuitos.
Faz bem.
Faz bem, cheira bem. Gosto cada vez mais da praia no inverno porque há menos barulho.
Sim.
Mas eu adoro-
De facto, passear à beira mar, mesmo com aqueles mares revoltos, é maravilhoso. E tu no norte tens uns mares fantásticos.
No norte é extraordinário.
Isso concordo. Há outra coisa, viagens marcantes, uma delas, que além de São Tomé já falaste, o Rio de Janeiro também foi importante para ti.
Eu adorei essa viagem.
Mas aí contactaste com o Roças e com favelas.
Sim, fui às favelas de forma muito inconsciente, porque conheci pessoas na praia, portanto marcamos e fomos. Eu gostei muito do Rio de Janeiro pela leveza das pessoas, mas também por perceber, acho que não pela primeira vez, como é que é possível um sítio tão bonito ser tão mal gerido, ter tanta violência e incentivar ao medo. Eu senti-me sempre com medo, mas sempre entusiasmada com as vistas.
De facto, é a cidade mais bonita do mundo.
É extraordinário.
É incrível.
É extraordinário. Mas depois estás na praia, que é absolutamente extraordinária e há um assalto.
Sim. Não pode ir sozinha ao Multibanco, alguma coisa.
Sim, então se fores mulher é ainda pior. Eu gostei, fui na passagem de ano, portanto também acho que dá aqui um impacto diferente, mas gostei mesmo muito de conhecer o Rio de Janeiro, que é uma cidade maravilhosa.
A única vez que eu lá fui, sabes uma coisa que eu reparei? Passeava pelas ruas e estava a achar: "Alguma coisa aqui estranha nesta cidade, que eu não estou a definir o que é". E depois percebi ao fim de uns dias que foi todas as casas com grades.
É verdade.
Grades, câmaras, seguranças muitas. Eu pensei: essa cidade é fechada. As ruas normais, todas as casas. E eu pensei: é isto que é estranho, toda essa separação, com medo que haja um assalto, desçam das roças e venham por aí, das favelas. E é isto, esta cidade toda a ferro e fogo. E apesar de ser uma maravilhosa, como tu dizes, natureza e é um povo extraordinário e alegre, de facto é uma viagem.
E a música na rua é muito bonito.
Muito bem. Há outras ideias que também se falam. O IKEA, por exemplo, tem um programa de recrutamento inclusivo, isto é muito bem, e pede-vos ajuda numa triagem de pessoas, é engraçado. O modelo de ensino hoje em dia está um bocadinho desatualizado. As escolas estão a formar, como vocês dizem, para seguir a maioria, ainda muito focadas na memorização, em vez de fomentar o pensamento crítico. Isto é importante. Desenvolver o pensamento crítico, tu já falaste disto. O que nos falta, além da lei que já falaste, que a lei vai alterando devagarinho, mas depois não avisam e não divulgam, o que é uma pena. Também há uma coisa que tu dizes, que é: "Não toda a gente pode fazer voluntariado". Quem é que não pode?
Era aquilo que dizia há bocadinho, quem não está preparado emocionalmente.
Ok.
Quem não tem o tempo necessário para fazer aquele tipo de voluntariado. Eu acho que essas pessoas não devem fazer voluntariado neste momento. Portanto, se calhar podem fazer daqui a um ano. Acontece muito nos IPO, por exemplo, que é alguém que perdeu um familiar.
Exatamente, para o cancro.
Depois se inscrever para ser voluntário. Eu acho isto uma atitude muito nobre. A questão é que é muito importante fazer os processos de luto. Agora é a Joana psicóloga a falar.
Sim, é verdade.
Porque senão essas pessoas vão se cruzar com alguém com câncer e vão chorar.
A lembrar-se do seu caso.
A lembrar-se do seu caso. E isso não é bom nem para a pessoa, nem para a criança ou a pessoa que está doente.
Passa o doente a tentar consolá-la. Exato.
Portanto, é importante nós fazermos esta autoanálise.
E tudo, até para escolher depois onde é que podemos ajudar e tudo, como tu falaste desde o princípio, isto é muito importante. Joana Moreira, eu quero agradecer muito a tua disponibilidade em vir aqui à Rádio Observador. Nós falámos em Natal.
Eu é que agradeço.
Falámos tanto em generosidade, em consciência e em ajuda ao outro. Que corra tudo bem e que haja, de facto, tudo de bom para os Transformers e para os Reformers e outras ONGs que se juntem a esta necessidade que nós temos de aumentar estes níveis de participação, que ainda são tão baixinhos em Portugal, mas são tão importantes para o mundo. Bem-hajas.
Obrigada. E esperamos por ti como mentor de comunicação, porque é um talento teu.
Bem-hajas. Obrigado.
Obrigada.