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Concordo que esse olhar pelo retrovisor é importantíssimo. De facto, o 25 de Abril foi um marco importantíssimo na nossa história, mas nós queremos dizer que o 25 de Abril foi o início. Foi o início de um caminho de luta nas suas mais diferentes vertentes, não só de luta feminina, e que é um caminho que não é de sentido único.

E agora faço-lhe um convite irrecusável, uma minissérie portuguesa a não perder em três episódios que estreia já amanhã na TVI. "Mulheres às Armas" faz-nos recuar aos tempos difíceis da ditadura em Portugal, os tempos finais mesmo. Os tratores finais da ditadura lançam um olhar novo e poderoso sobre o papel das mulheres portuguesas durante a guerra colonial. Acompanhamos a luta de cinco mulheres anônimas, de diferentes origens e contextos sociais, que se unem numa jornada de libertação contra uma sociedade que as via apenas como mães, esposas, donas de casa ou trabalhadoras pagas abaixo dos homens. Uma ideia original de Cristina Ferreira, baseada nas cartas da sua avó, que promete marcar a ficção em Portugal. Comigo em estúdio tenho uma das protagonistas, Sílvia Chiola, e a argumentista, a premiada escritora e jornalista Filipa Martins, biógrafa de Natália Correia. Olá, Filipa e olá, Sílvia. Bem-hajam por terem aceitado este meu convite. Bem-vindas à Rádio Observador.

Obrigada.

É um grande prazer e é uma grande honra estar aqui com vocês na véspera desta estreia, que é muito importante. Eu vou começar pela Sílvia Chiola, lugar às novas. Não, vou começar porque eu acho o teu nome extraordinário. Chiola vem de onde, sabes alguma coisa da história dele?

Tanto quanto eu pesquisei, Montemor o Novo, Alentejo.

Alentejo.

Mas eu gostava que fosse de Itália. Soa assim uma coisa a Chiola.

Pois, Chiola.

Tenho o nome que gosto de imaginar que também possa vir daí, mas é do meu avô de Montemor, Chiola.

Mas o azeite de Montemor é muito melhor do que o azeite italiano, tenho que te dizer.

Nós temos um azeite maravilhoso.

E as atrizes também.

Exato. Agora a próxima convidada for de Montemor, meu Deus, tenho que ter cuidado. Muito bem, tua formação, Sílvia, foi música, sobretudo. Fizeste piano clássico e solfejo e aquilo tudo, desde os seis anos.

Desde os seis anos, sim.

E tinhas artes?

Estudei artes pela sugestão, quase impositiva, dos meus pais.

É muito giro isso, eles apoiarem nisso, porque hoje em dia os pais talvez tenha mudado um pouquinho.

Apoiaram com equilíbrio, porque eu queria ter ido para a escola profissional de teatro logo.

Aqui em Lisboa?

Sim, em Cascais.

Em Cascais.

Em Cascais, que ainda é o ensino profissional, portanto, é do décimo ao décimo segundo, ainda não é faculdade. Queria ir aos casting todos de Morangos, que se ouvia falar. E houve ali um compromisso de: "Vais tirar um curso que seja mais geral, neste caso, artes".

Portanto, em vez do ensino profissional, eles preferiam que fizesse o secundário convencional.

Mais convencional, exatamente.

Por que nas Caldas?

Porque isso foi depois. As Caldas já foi a faculdade. Eu terminando o ensino secundário, aí pensei: "Agora vai ter mesmo que ser aquilo que eu quero".

Exatamente.

Porque é para fazer com gosto. Passamos quase os anos todos da nossa vida na escola a estudar coisas que não nos diz nada.

Exato.

E ao menos, já que vamos formar-nos numa coisa especializados, tentar ir para uma coisa que gostamos. E aí fui eu que não lhes dei grande hipótese.

E escolheste aquela escola, foste tu?

Não, eu tinha escolhido a escola ESTC da Amadora, aqui a escola de teatro, e fiz as audições, fiz tudo.

Ok.

Mas depois, como tive um exame mal corrigido de geometria descritiva e havia uma ficha em anos que dizia que tu terminaste o secundário, isso atrasou e eu liguei a dizer: "Olhe, só consigo para a semana." Então deixe estar que a sua candidatura foi abaixo. E eu fiquei do nada, sem faculdade, sem nada. E a melhor coisa que me aconteceu foi realmente ter descoberto as Caldas da Rainha.

E por influência de quem? Até engraçado teres ido para lá.

É mesmo, sim.

Onde tiveste galinhas.

Criei galinhas desde pequena. Isto nunca aconteceria em Lisboa.

Pois não, isso é verdade.

Isso nunca aconteceria num apartamento em Lisboa.

Isso é maravilhoso.

É incrível, eu fui muito feliz lá.

E adoro tu falares nisso.

Eu acho que sim, é um ponto marcante na minha vida. Mas as Caldas da Rainha foi através de uma amiga, que foi tirar cerâmica, e ela disse: "Mas olha, há teatro nas Caldas, por que não?"

Porque é uma escola muito boa.

Foi assim tão simples. E a escola é no meio da natureza, de uma mata, de pinheiros.

De um parque brutal.

Sim, é incrível. Foi tudo muito ботиньо.

Este fascínio da representação, Sílvia, vem de onde? O que é que tem o teatro, a televisão, o cinema, no teu caso, de tão importante, tão único, que outras artes não têm?

Eu vou descobrindo coisas tão únicas e tão especiais nesta área ao longo do tempo. Não é uma coisa que eu mantenha, como: "Já descobri, é isto que para mim significa." Não. Sempre me fascinou pôr-me no lugar do outro e perceber como é que a cabeça funciona de maneira diferente da minha, não estando errado, nem mesmo.

Encarnar personagens.

Sim, e ganhar alguma empatia por elas e perceber como é que funciona. Atrai-me muito esta coisa da psique humana e ao mesmo tempo, depois também descobrir que, como acontece comigo, quando eu vou ao teatro ou quando vejo um filme, que às vezes ressoa na minha vida e eu descubro coisas ou chego a conclusões, perceber que isso também pode ser uma ajuda para outras pessoas. Alguém que me está a ver, que se vai rever e de repente decide mudar de vida para melhor.

Engraçado este vosso trabalho, "Mulheres às Armas", tem muito disso. Tu encarnares e veres que tu fazes aquilo com um empenho. Tu és aquela mulher e tu és aquela Odília, é incrível. E isso perpassa com certeza para muita gente que ainda viveu aquilo ou quase aquilo e que ouve as histórias das mães, dos pais e das avós.

Eu creio que sim.

Tu passas mesmo aquela vivência, o que é extraordinário. Vou saltar um bocadinho aqui para a Filipa, romancista premiada e argumentista, que a escrita preferiste pelo jornalismo, não foi? Começaste para aprender a escrever. Por quê? Querias mesmo ser jornalista?

Na verdade, eu acho A escrita nas suas mais diferentes formas acompanhou-me desde sempre e eu acho que a minha paixão pelo jornalismo e pela escrita literária cresceram em conjunto. Eu comecei como jornalista a estagiar aos 18 anos na redação do Diário de Notícias. Tinha à minha frente sentado o Pedro Mexia, ao lado do Pedro Mexia, o João Miguel Tavares, ao meu lado direito estava o Eurico de Barros.

Estavas muito bem acompanhada. Passaste por todo lado, pela Ler, as Invasões, Notícias Magazine, o Jornal i, a Visão.

E nessa altura eu já escrevia ficção. Nessa altura eu também concorria aos prêmios Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias. Ganhei.

Tiveste este prêmio com "A Esteira", este conto?

Portanto, a escrita sempre me acompanhou. Na verdade, eu cresci nos arredores dos subúrbios de Lisboa, nos anos 80, numa altura em que estávamos todos ainda a aprender o que era isso da liberdade. Nasci em 1983, vinha muita gente das ex-colônias. Havia um medo crescente do outro, um pouco à semelhança do que estamos a assistir agora. Ou seja, de facto, a história é cíclica, tem essa particularidade. Lembro-me que havia um detalhe na arquitetura dos prédios que eu acho que era um bocadinho simbólico dessa necessidade por uma barreira em relação ao outro. Foi um momento em que toda a gente queria ter uma marquise, então fechavam as varandas. Portanto, o único lugar de ligação, crescemos todos em prédios. Os meus pais não queriam que eu fosse brincar para a rua. Eles que tinham vindo da aldeia e tinham sido criados assim.

São de onde os seus pais?

O meu pai é de Lisboa, mas de uma zona de Quintas, e a minha mãe veio da Beira Alta. Mas os meus pais não queriam que eu fosse brincar para a rua. Começamos também a lidar com estatísticas, com números de criminalidade, porque éramos todos muito infantis no que dizia respeito à manipulação e à digestão da informação. Vínhamos de 40 anos de ditadura. E a forma como eu tinha de compreender o mundo, muitas vezes era através da palavra escrita e da leitura.

Lias muito já nessa altura?

Sim, claro.

Porque escreveste sempre muito, portanto tinhas que ler muito, obviamente.

Eu assaltava a biblioteca da minha irmã, que tem seis anos a mais do que eu.

Que é mais velha que tu.

Lembro-me dos meus primeiros trabalhos de que me orgulho, foi ter concluído ou dado um final alternativo ao diário de Anne Frank. Devia ter aí seis ou sete anos e aquilo foi um problema enorme lá em casa, porque as mães não respeitam a privacidade das filhas. Então eu comecei a escrever um diário, a dizer que era uma menina presa num sótão e que me sentia desesperada e perseguida. E ela pensou que aquilo devia ser um alter ego qualquer meu.

Exato. Psiquiatra, psicólogo já.

Foi para o pedopsiquiatra. E o que foi extraordinário, e ainda bem que era um grande clínico, foi que quando cheguei lá, ele obviamente 10 minutos depois percebeu o que tinha acontecido. Em vez de sair de lá com o rolo de medicamentos para aviar na farmácia, saí de lá com o rolo de livros para ir buscar à livraria.

Que bom. Boa lista de remédios.

Exatamente, foi o meu primeiro grande orientador. E aí contactei com livros extraordinários. Foi as Viagens de Guliver, a Volta ao Mundo em 180 dias, tudo isso começou a construir o meu universo. E essa seleção de leituras mais obviamente adaptadas à minha idade.

Com o nosso amigo, com o Mouro Costa, fizeste também este programa da biblioteca, muito giro, que iam a bibliotecas de famosos. Era um bocadinho para divulgar a leitura e os livros.

De leitores. O facto de serem pessoas conhecidas era só um acrescento. Nós escolhemos profundos leitores, tivemos lá grandes leitores.

Durou muito tempo este programa?

Mais de um ano. Era um programa semanal. Houve entrevistas que me sensibilizaram muito. Lembro-me de entrevistarmos o Eduardo Lourenço ainda pouco tempo antes de ele morrer. E outras figuras cimeiras. O Eduardo Lourenço contou-nos uma história engraçadíssima. Não sei se com o microfone em on, se com o microfone em off, exatamente sobre livros. Ele dizia: "Sabe, menina, por que é que as pessoas agora se divorciam muito? Porque não têm bibliotecas. Eu chego lá a casa, olho para a minha biblioteca e penso: que trabalheira que isto ia dar para tirar daqui. Portanto, é melhor deixar-me sossegadinho aqui e continuar casado."

A ideia é maravilhosa. Vou aqui passar um bocadinho acima para falar, também fizeste um curso de dobragens, por exemplo, fizeste curso então de teatro, ramo atores. Este Imitation Game que estamos aqui a falar, isto foi em Manchester, estiveste lá em Inglaterra?

Sim, foi muito giro. A minha professora dava na faculdade e eu fiz assistência de encenação de uma companhia de teatro que existia lá

Com alguns colegas meus e ao fazer a assistência de encenação, consideravam também parte do grupo e convidaram-me para ir com eles, quase como ingressar na companhia, já como atriz, nesse caso, e ir fazer um gênero de workshop. Isto com vários grupos de todo o mundo, da Bélgica, já não me lembro de que mais.

Essa experiência é gira, porque abre horizontes.

Era muito giro. Íamos eu e o encenador e encenávamos um espetáculo que iria ser apresentado no final dessa semana e foi uma experiência incrível.

Stacy Makishi.

Stacy Makishi, sim. Era a Viana.

Este contact theater. Ai, giro.

Viana, linda.

E tu tens teatro, algumas coisas, tens de televisão muitas coisas, tens em cinema também algumas coisas.

Adorava fazer mais teatro.

Mais dobragens. Tudo isto, algum meio que tu prefiras ou o que vier à rede, "eu seleciono e gosto de tudo"? São coisas diferentes.

Eu gosto sempre de interpretar personagens, sejam elas no cinema ou no teatro.

O suporte é o cinema.

Mas sim, se calar, se tivesse que destacar, teatro, cinema, séries.

Ok. Fizeste também de concubina aqui na "Sibila".

É, foi a minha estreia em cinema. Sim, devo ter sido 0,005 segundos que eu apareço, mas sim, foi muito giro.

Fazes concubina, é ótimo.

É, era com a Sandra Faleiro e com a Maria João Pinho, foi muito bom conhecê-las. Foi muito giro, foi uma experiência boa.

Este romance da Agustina. "Na Mata dos Medos" também, este é do ano passado já.

Sim.

Do António Borges Correia.

António Borges Correia, exatamente.

Este filme que mistura um bocadinho a criatividade, a realidade e o processo criativo. Vocês entram numa guionista, uma realizadora, a própria história entra.

Eu fazia uma personagem a desenhar, era assim uma coisa mistura.

O filme que entra exatamente no próprio filme que ela está a preparar, é muito giro.

Sim.

Na televisão, tu passaste imensa coisa fantástica. O "Conta-me como foi", por exemplo, passaste por lá, que é uma coisa incrível.

Sim, também para a Silvia pequenina foi bom.

"Para Sempre", a "Lusitânia", "Os queridos papás", "Os eleitos". Passaste pelo "Rato, Peixe" também?

"Rato, Peixe", tive lá uma participação, sim.

"Morangos com Açúcar" logo a seguir.

Também fiz.

Este "Cacau" também.

O "Cacau" foi muito bom.

Foi a mais recente. Depois disso, talvez "Irreversível".

Talvez o "Irreversível", sim. Fui ao Brasil com a Cacau, que também foi uma ótima-

Uma boa oportunidade, ótima viagem.

Ótima viagem, é verdade.

E Creta, onde tu foste ver uma amiga tua e foste a uma ilha grega extraordinária.

A Natália Miguel das Caldas. Ela estava lá a fazer Erasmus e eu que nunca tinha andado sozinha de avião e que até hoje me custa andar de avião, mesmo. Apanhei três para ir ter com ela a Creta.

Meu Deus!

E quando cheguei em Creta, foi uma grande experiência.

É sitio lindo. E também o Vietname, também estiveste agora. Quando diz Vietname, é Vietname mesmo, Silvia, ou foste a Camboja e Laos?

Não, foi mesmo só Vietname.

E gostaste imenso?

Meio meio.

Houve coisas que adoraste, houve coisas que não tanto.

Foi difícil.

A comida gostaste?

Depende. Até perceber como é que iria gostar.

Ah, ok.

Foi um desafio, foi tipo nível de jogo. Do género, o que é que vai acontecer hoje? Qual é o bicho hoje ou qual é a mazela hoje física? Mas foi muito giro.

Já percebi. Aconteceu-te imensa coisa, tudo e mais alguma coisa.

Um milhar de coisas, sim.

Foi uma experiência de vida esta viagem.

Mas completamente. Mas foi muito giro, porque o Vietname é completamente diferente do sul ao norte, ao interior. É mesmo diferente. Gostei mais da parte do campo.

Ok. Gostaste de arrozais e coisas que também havia?

Sim, tipo Miyazaki, paisagens meio Miyazaki, mesmo bonitas, os arrozais.

Os búfalos.

O Ho Chi Minh foi aquilo, water buffalo.

Exatamente. Ho Chi Minh era a capital.

É mais americano. Sim, é mais da parte americana. Depois tens Hanói. Hanói acho que é a capital.

Hanói é a capital, sim.

Que é no norte, exatamente.

Está mais montanhoso, aquelas zonas.

Tem mais a ver com a cultura deles. Ho Chi Minh é uma coisa mais política da noite, não tem tanto a ver comigo.

É mais americanada.

Sim, barulhenta, vive muito pra noite. É tipo, eu imaginava Albufeira vezes mil.

Sim.

Foi a sensação que eu e minha amiga tivemos.

Quase Las Vegas.

Parece um bocado Albufeira, não é aqui que queremos. Mas foi uma viagem incrível, foi um mês.

Alguma coisa, passando agora aqui a flipa também, que pós-graduaste em Ciência Política, muito giro, e és doutoranda, agora em Estudos Portugueses.

É verdade.

Qual é a tua tese? Estás a fazer a tese sobre o quê? É uma coisa que se pode dizer ou não?

Claro, a minha tese nasceu depois do livro.

Ah, foi?

A minha autora será Natália Correia, naturalmente, porque em 2023 publiquei a biografia.

O dever deslumbrar. Eu adoro este título, só o título é lindo de morrer.

Na verdade, é um título que é um piscar de olho à própria Natália. Na verdade, é quase um furto, porque ela tem um poema muito bonito que se chama "Do Dever de Deslumbrar".

Ah, sim, ok.

E é o lugar dela no mundo. Ela efetivamente considerava que tínhamos de deixar uma marca profunda no outro, de alguma maneira. E ela sentia essa obrigação, daí o dever.

Engraçada esta mulher extraordinária, como tu dizes, palavras tuas, por vezes fêmea, por vezes monja, uma mulher com carisma paralisante. Tu também, além dessas, investigaste, estiveste seis anos a estudar a vida dela a fundo, mas além deste livro extraordinário da Contraponto, fizeste também um documentário, fizeste várias coisas, uma série.

Eu comecei-

Deu para tudo.

Sim, a Natália, na verdade-

Se ela estiver viva, dá para tudo.

Sim, a Natália tem panos pra mangas, usando aqui uma expressão, piscando aqui o olho à nossa Adília das Mulheres às Armas, que é a costureira.

Exato.

A Natália entrou na minha vida através da ficção e eu acho que foi isso que me salvou.

Ah, ok.

Eu escrevi as três mulheres pra RTP, uma série também, sendo que uma das mulheres era Natália Correia.

Além da Vera Lagoa e da Snoke Assis.

E de todas, efetivamente, aquela que eu pensei que tinha mais arco dramático, mais tonos, seria certamente a Natália, sendo que elas as três eram e foram mulheres absolutamente extraordinárias.

Mulheres de armas também.

Mulheres de armas.

Caramba.

E que arregaçaram e lutaram.

Mas esta é deslumbrante, esta é carismática, esta elegeu o idiotismo como arma política, que é isto, quer dizer. A autora mais censurada da ditadura. Incrível.

Claro.

Os discursos dela ficaram pra história no Parlamento. E eu amo a tristeza.

A questão é que tu consegues costurar a vida da Natália com mais um piscar de olhos.

Uhum. Há costureira. Há costureira de ficção aqui presente.

Consegues costurar a vida da Natália com os principais episódios do século XX português. Portanto, ao contares a história dela, estás a contar a história do país.

Sim.

E ela não foi só testemunha, ela foi protagonista e foi encenadora.

Exatamente.

E, portanto, a biografia demorou seis anos. Claro que, naturalmente, não estaria só a fazer isso.

Cinco anos.

Mas porque é também uma viagem pela história política, cultural, sentimental do que foi Portugal durante o século XX português.

E depois absolutamente sem papas na língua, o que é extraordinário. Apesar de ter sido deputada, ela desprezava muito a política partidária, e se calhar, com alguma razão. Como é que tu hoje vês isso? Como é que ela veria hoje o Parlamento, Filipa?

Se ela estivesse no Parlamento, garanto-se que os debates parlamentares seriam muito mais interessantes e animados. É muito divertido ler as transcrições das discussões parlamentares e perceber que aqueles deputados não faziam a mínima ideia que estavam a ser enxovalhados pela Natália.

Sim.

Ela tinha uma enorme verve de hariete. Ela conseguia ofender de uma maneira que ia ao tutano e à medula do adversário político. A questão é que a Natália sempre teve a sua agenda política, que era baseada só nos seus valores. Muita gente diz que ela foi uma espécie de catavento político. Como é que a autora mais censurada da ditadura contra o antigo regime, depois, durante o PREC, é acusada de ser contrarrevolucionária?

Exato.

De ver novamente as suas crónicas, neste caso na "Capital", censuradas. E depois no Parlamento, era a voz mais polêmica. Todos os jornalistas iam correr atrás dela nos Passos Perdidos. Cada vez que a AD, na altura com o Vasco Pulido Valente como secretário de Estado da Cultura, fazia algum corte e ela não se coibia minimamente de criticar o próprio governo, que apoiava parlamentarmente. Portanto, ela muito rapidamente percebeu que a vida parlamentar era um fato que ela não conseguia adaptar ao corpo. Ela começou como deputada porque se apaixonou pelo grande caso de amor entre Sá Carneiro e Silva Piçarra.

E Silva Piçarra, exatamente. Muito bem, falamos de "Mulher d'Armas", já vamos falar mais logo a seguir, para já temos que fazer um pequeno intervalo. Filipa Martins, Silvia Chiola, até já. Estamos a conversar com Filipa Martins e Silvia Chiola. Elas são, respetivamente, a argumentista e uma das protagonistas da minissérie "Mulheres às Armas", que estreia já amanhã à noite na TVI e que em três episódios nos leva a acompanhar a vida e a luta de cinco mulheres de diferentes origens e contextos sociais, que em pleno Estado Novo, se aventuram no caminho titubeante da emancipação, da luta social e da política. Ainda vou voltar um bocadinho às carreiras de cada uma, mas para já, acho que convém, porque a gente depois entusiasmam-se nas conversas e não falamos da série, e é importante. "Mulheres às Armas" então, dias 11, 12 e 18 de abril, portanto, sexta, já amanhã às 09h50, depois no sábado, no dia a seguir, às 21h30, e na outra sexta, na sexta-feira santa, outra vez às 09h50.

Creio que não.

Não?

Acho que vão dar dois no sábado. Ou seja, acho que é um dia 11.

Então acabei tudo este ano?

No dia 12. Exatamente.

Pronto.

Primeiro episódio, dia 11.

Amanhã, às 09h50.

Exatamente. E depois o segundo e o terceiro.

É no mesmo dia?

No mesmo dia.

Então isto eu apanhei uma versão anterior quando lançaram, a dizer: "Não, vamos dar na semana seguinte". Se calhar quiseram concentrar tudo neste fim de semana e pronto.

Eu acho é que podia haver muitos problemas cardíacos se as pessoas ficarem uma semana à espera do desenlace.

Mas antigamente era assim, Filipa. Eu lembro que eram os ficheiros secretos, ficávamos a ansiar pela sexta-feira.

Pico de entradas na urgência. O que é que vai acontecer no final das "Mulheres às Armas"?

O SNS pediu para antecipar. Então vai ter então um episódio sexta à noite e no sábado então os dois últimos. Pronto, e acaba com estes três episódios, uma produção da Santa Rita Filmes, que a Patrícia Sequeira realizou. Argumento então da minha convidada, Filipa Martins, e a Silvia Chiola é uma das protagonistas. Muito bem. Então, nós recuamos aqui em 73, 74. Estamos em 1973.

73.

Um Portugal marcado ainda pela repressão, pelo peso de uma guerra mortífera, a guerra colonial. Para começar, eu gostava muito que falassem disto, que a ideia parece que é da Cristina Ferreira, é muito engraçado. Ela, aliás, é a diretora da ficção da TVI, não é?

Sim.

Mas a ideia veio por causa da avó dela, é muito giro isto.

Eu não conhecia a Cristina. Um amigo em comum, o Rui Coceiros, que é nosso editor, o meu.

Da Contraponto.

Da Contraponto. Juntou-nos um dia na Porto Editora.

Grande escritor também.

Grande escritor também, é verdade.

Então apresentou-te à Cristina.

Porque a Cristina tinha este projeto já há muito tempo. O desafio foi este, contar o lado feminino da guerra colonial.

É muito original, é uma ideia muito gira.

As mulheres que ficam, as mães que se vestiram de preto quando os seus filhos entraram no Vera Cruz para ir para a Guiné, Angola. Porque ela tinha esse universo familiar. Mas a verdade é que a Cristina nunca interferiu na linha narrativa da história. A forma como eu criei estas personagens e desenvolvi esta série foi em total e absoluta liberdade.

A sério?

Sim, o desafio partiu dela, o convite partiu dela.

Porque ela tinha estas cartas da avó, talvez que foi rever tudo.

A ideia partiu dela.

Quando o filho partiu. O filho, que nem sequer era namorado da mãe. Como é que era?

O filho partiu.

A mãe é que ainda não era namorada.

O filho partiu e a avó dela, a avó paterna da Cristina, convidou a mãe dela.

A namorada do pai.

A namorada, nessa altura, a viver com ela, que era algo muito comum.

Para chorarem as duas a distância.

Para se apoiarem mutuamente.

É muito engraçado. Ela leu as cartas, achou muito giro, mas a história não passa por aí. Isso é só a ideia.

A história não passa por aí de todo.

Porque tu inventaste tudo.

Na verdade, o que eu fiz foi ouvir muitas histórias, ler sobre o tema e estas quatro personagens, a Adília, a Lourdes, a Isabelle e a Deolinda, são o resultado da súmula de centenas de histórias anônimas de muitas mulheres que viram, no fundo, quando os seus maridos, amantes, filhos partiram, tiveram de assumir novos papéis sociais na sociedade portuguesa. E a verdade é que já passaram 50 anos, quase 51, sobre o 25 de abril, e nunca foi feita a devida homenagem a esta força braçal, este esforço de guerra. Eu estive há pouco tempo em São Francisco, fui a um museu extraordinário, que é o Museu de Arte Moderna, e estava lá uma enorme exposição sobre as mulheres americanas que foram preponderantes durante a Segunda Guerra Mundial. E numa pequena legenda, eu percebi que elas só foram reconhecidas politicamente no final do século XX, em 1999, por aí. Portanto, foi preciso passar mais de meio século para que as mulheres que foram a força braçal dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial fossem reconhecidas e recebessem uma medalha de mérito.

Isso faz lembrar também aquele filme, os Hidden Figures, aquele filme sobre a NASA, com aquelas matemáticas americanas, que é a mesma história.

Exatamente.

O homem foi à Lua há 50 anos e só agora é que vem dizer: algumas mulheres que foram essenciais nos cálculos.

As mulheres demoram demasiado tempo a ser reconhecidas. E agora estamos a virar, já virámos as cinco décadas sobre o 25 de Abril, e agora estamos a reconhecer esse papel. Mas eu acho que o ponto mais importante desta série, e isso foi sempre algo que eu quis sublinhar desde o início. Nós não queríamos fazer mais uma série a celebrar o 25 de Abril, que existem, que estão a sair, que são extraordinárias. Concordo que esse olhar pelo retrovisor é importantíssimo. De facto, o 25 de Abril foi um marco importantíssimo na nossa história, mas nós queríamos dizer que o 25 de Abril foi o início. Foi o início de um caminho de luta, nas suas mais diferentes vertentes, não só de luta feminina, e que é um caminho que não é de sentido único e que nós ultimamente temos visto retrocessos.

Exatamente.

Tem andado muito para trás.

Tem andado muito para trás. Aqui e lá fora, muito.

Esta série, sendo uma série histórica, é uma série também sobre os dias de hoje. Muito atual, sim.

A luta continua, portanto. Como se ouve.

Exatamente. Daí as últimas palavras da série ser exatamente: a luta continua.

Há um elenco extraordinário.

Deixa-me acrescentar. Já agora, faço este piscar de olho a quem nos ouvir, para ficar atento, porque das últimas cenas da série, é uma manifestação.

Na rua.

E eu gostaria que as pessoas olhassem para aqueles slogans, porque eu acho que nós fizemos ali um bocadinho de batota, e aqueles slogans são um bocadinho anacrônicos.

E são de hoje, completamente.

Na verdade, nós atualizámos os slogans e colocámos slogans de hoje.

Então é um bocado exagerar ter posto "não ao André Ventura" e "não ao Trump". Isso deviam ter tirado.

Não digo mais.

Está bem.

Portanto, vão ter de ver.

Mas é verdade, essa cena está, e aliás, aparece no trailer, essa cena vê-se bem da manifestação na rua, mas de facto aqueles slogans pintados é de hoje, aquilo é completamente a luta, de facto, continua, infelizmente continua, porque não está tudo resolvido. Este elenco é extraordinário, tem a Silvia Chiola aqui presente, a Madalena Almeida, a Sara Carinhas, a Vitória Guerra, mas claro, depois há a Dalila Carmo, o Pedro Granger, o José Condessa, a Fernanda Serrano, a Vânia Jerónimo, o João Lagarto, o Rodrigo Thomaz, imensos atores extraordinários, é um elenco muito bem escolhido. E a Dalila está aqui, a Silvia Chiola, tu fazes de uma costureira.

Sim.

Quase analfabeta.

Analfabeta, sim.

A namorada, portanto, desta série.

Sim.

Agora, és uma operária resiliente, como diz na tua descrição, uma das costureiras da Coelima, desta fábrica de confecções, tu filmas na Coelima. Vocês, portanto, contactaram, para te preparares para este papel. Contactaram mesmo com as operárias originais?

Foi inacreditável, que trabalham lá ainda hoje e trabalhavam antes.

Aquilo está em laboração mesmo.

Aquilo continua.

Eu sabia que aquilo era já um museu industrial, digamos assim.

Não.

Ah, não sabias?

Aquilo continua em funcionamento e elas estiveram conosco no fim de semana e durante a semana já estavam a trabalhar. Ou seja, nós estávamos em filmagens e passávamos por elas, elas contentíssimas, mas já estavam a trabalhar. Mas isso foi um sonho, porque eu já tinha pensado: como é que com figurantes, claro que estamos na fábrica. É óbvio que isso já é um passo para tu te sentires no...

Exatamente. No ambiente da altura, no tempo.

Mas de repente, tu tens realmente as costureiras que sabem. Eu não duvidava um segundo que estava numa fábrica a trabalhar. Foi inacreditável, foi uma bela surpresa.

As que te fiz a produção são extraordinárias.

Foi uma emoção. É mesmo. E atribuíram a cada uma de nós uma madrinha de costura.

Ah, que giro.

Tínhamos esse apoio.

Que vos ensinou?

Não nos ensinou, porque não havia tempo. Nós tivemos um workshop aqui em Lisboa de costura, mas as máquinas que nós aprendemos são máquinas de hoje em dia, Singer, domésticas. E nós lá tínhamos, nem as senhoras-

Aquelas industriais antigas.

Industriais antigas e já podres.

Mas que ainda funcionam e fazem o serviço e não sei o quê?

Mal. Não, elas já não usam, a telinha está podre. Eu cheguei, arrebentei uma agulha logo e pensei: "O workshop não funcionou, vem a minha madrinha Celeste: 'Não, isto é porque isto está...'". Pronto, é normal. Mas estávamos sempre com esse apoio do lado delas. Porque mesmo que tu tenhas a atitude, é bom saber como é que a coisa funciona.

Claro.

E tê-las ali foi o: estamos a fazer isto certo, senão elas diziam que não. Silvia está a fazer o enxoval agora. Exato. Está a fazer ponto cruz em casa. Exatamente. Não, eu já tinha uma máquina de costura em casa.

Fez eventos na Proze, agora está habituada.

Até que me safo.

Mas isso é muito engraçado. A nível de ouvir histórias e de contarem-te coisas, gostaste? Aprendeste muito com isso?

Com elas, sim. Não fazia ideia, eu nem sabia da existência da Coelima.

Isso é uma fábrica secular, já é centenária.

E do quão grande foi, quer dizer, tinha uma equipa de futebol feminino, tinha um ginásio, tinha um supermercado, tinha uma creche, tinha tudo e mais alguma coisa lá dentro.

Assente, como se diz.

Era mesmo uma comunidade, funcionava muito como comunidade. E eu conheci pessoas que trabalhavam lá desde os nove, 10 anos.

A história também se fez ali em Providão, portanto, já percebi.

Sim, exatamente.

As gravações decorreram aqui entre Lisboa e Guimarães. Tem uma coisa muito bonita também nesta série, que é a banda sonora do Rodrigo Leão, acho que é muito bem escolhida e é um sonho.

É um sonho.

O que a gente ouviu dos vários trailers e tudo, é muito bonita. Conseguiram partilhar histórias, elas conseguiram partilhar com você histórias delas daquele tempo, de 20, 30. Apanharam empregadas lá que já eram operárias há 40 anos?

Sim. A minha madrinha de costura, acho que foi aos 13 anos, que ela ainda agora estava a dizer que fomos a uma entrevista.

Estava lá aquela idade, aquela altura?

Desde miúda. E continua lá, e a família, e depois passam os filhos e os netos. E continuam. Agora, se calhar, a meio gás, não estão no seu auge, mas continuam a trabalhar e a exportar muito, acho que maioritariamente para fora.

A nível de projetos teus, aprendeste muito com esta filmagem, Sílvia?

Sim, acho que este está à vontade.

Cresceste muito?

Sim, foi a minha grande oportunidade de poder ter uma personagem com uma história, com um arco brutal, um desafio incrível. Eu nunca tinha tido esta oportunidade. Tens aí o meu currículo. Fiz trabalhos, sim, mas nada desta-

Com esta dimensão.

Sim. E com esta responsabilidade, porque sobretudo sinto isso também, que é uma responsabilidade.

É, só que eu também tenho curioso. Nisso concordo muito com o José Eduardo Aguiar que dizia isso: "Isto muda um bocadinho a ficção, é uma história que tem que ser contada, que as pessoas têm que saber. Não é só o entretenimento e a pessoa gostar muito, isso é importante para toda a gente, e a cultura vive muito isso também.

Sim, é bom entreter e a televisão também serve para isso.

Mas isto tem uma função, isto faz as pessoas pensar, eu acho.

Sim.

Há outro lado que as pessoas não se apercebiam.

Mas vão pensar através da emoção. Isto é um bocadinho estar a elogio em causa própria.

Em casa própria. Sim, mas merece.

Estas personagens são personagens muito fortes, complexas, com lutas muito grandes. Nós percebemos por que elas se levantam, por que elas acordam, por que elas lutam, quais são as suas dificuldades, as decisões que têm de tomar. A Adília, obviamente, tem um conflito enorme entre família e o amor. A Deolinda é aquela-

Isso fala um bocadinho de cada uma. Isso é a Madalena Almeida que representa?

Sim, é a Madalena Almeida. É aquela personagem que acha que é muito inteligente, que está tolhida pela sua condição social, que acha que através da formação, da educação, consegue ganhar outros voos. A Lourdes é a politizada.

A Sara Carinhas, neste caso.

É a politizada, é uma mulher moderna, que saiu da universidade, que foi expulsa da universidade.

Foi uma família conservadora, a família dela.

Exatamente, que é clandestina, que foi para a fábrica, que de alguma maneira tenta mobilizar as mulheres para uma luta social. É corajosa enfrentar o regime. Luta contra a guerra colonial. E, por fim, a Isabel.

Que é a Vitória Guerra, neste caso, a atriz.

A Vitória Guerra, que vem de um estrato social diferente, mas que de repente vê-se-

É a única que é viúva desde a Guerra do Ultramar.

É viúva da Guerra do Ultramar, mas vê-se completamente amputada nas suas liberdades, por causa do contexto do Estado Social, do Estado Novo, da ditadura em si, que não permitia à mulher, por exemplo, fazer um levantamento ou um depósito sem a assinatura do marido.

Exatamente. Ou viajar.

Ou viajar.

Era o homem o chefe de família.

E de repente ela sente-se na obrigação de voltar ao mercado de trabalho, assumir funções, porque é uma mulher com estudos, assumir funções que eram normalmente assumidas por homens, aceitar ganhar muito menos para a sua função. E, no fundo, há aqui uma interação muito bonita entre estes quatro universos. Estas mulheres de alguma maneira complementam-se.

É positivo, porque são todas de origens diferentes e com histórias diferentes, é muito lindo.

Conseguem crescer umas com as outras, e todas interferem na vida umas das outras. E esse hino à amizade feminina eu acho que vai comover muito as pessoas.

Que ideia que tu tinhas, Filipa, da importância do papel da mulher em Portugal nos anos 70? Quer dizer, tiveste que investigar ainda mais? Tu tinhas já feito estas biografias.

Sim, já é um universo que me era muito próximo. Na verdade, a Cristina quis falar comigo porque já conhecia o meu trabalho, já se percebia o que eu tinha feito com as três mulheres, também com as Doces.

As Doces depois foi outro argumento. És argumentista também do bem bom. Aliás, realizado também pela Patrícia Escara. Eu gosto muito da Patrícia. Acho super discreta. Ela é uma pessoa muito humilde, não se gaba nada, mas faz uns trabalhos fantásticos. Ela é maravilhosa.

Ela é uma mulher cheia de força, não é verdade? Sim.

Mas é muito apagada.

Não acho que seja apagada.

Não é de grandes espalhafatos.

Não, eu acho é que-

Faz um trabalho muito consistente, muito bom.

Sim, eu acho que ela deixa que o trabalho fale por ela.

Exatamente. E consegue, e é bom.

Isso é uma virtude.

Claro que sim. Antes fosse toda a gente assim. Mas de fato, é uma história que está muito bem contada. E tu tinhas já esta experiência de trabalhar com a história das Doces também, com a história da tua biografada Natália Correia, mas também da Snook, quando investigas todas estas histórias, são também desta altura. Quer dizer, tinhas muito conhecimento já destas andanças, do clima deste tempo.

Sim, às vezes nós quando olhamos retrospectivamente para a nossa história, é que começamos a perceber padrões. Na verdade, o meu primeiro romance, o "Elogio do Passeio Público", que eu escrevi com 21 anos ou 22 anos, que foi à altura da Associação Portuguesa de Escritores.

Da APE, exato.

Era uma fantasia sobre o Estado Novo, e a única personagem que tinha nome e que funciona quase como uma espécie de vírus social naquele Portugal um pouco até infantilizado por um regime ditatorial, é uma mulher Às vezes quando nós olhamos retrospectivamente, percebemos que estamos a contar uma história nos vários trabalhos que aceitamos e que queremos fazer, sem darmos por isso.

Estava a passar aqui pelos teus outros romances. Claro, escreveste "O Julgamento do Passeio Público", em 2008. Depois, por acaso eu tenho aqui este, "Quanto a Terra", este romance oficial das sete maravilhas de Portugal no mundo, também pela Guimarães Editores. Uma tiragem muito especial, com histórias muito curiosas que leva Portugal, que acontecem coisas em Cabo Verde, em Malaca e no Brasil, e em todo lado, é incrível. Depois o teu "Mustang Branco", que saiu já há 10 anos, já na Quetzal. Aqui fala também de Moçambique e fala de Paris. "A Memória dos Rouxinóis" é sobre este matemático que defendia que o esquecimento era o maior veículo para tomada de decisões, mas depois contrata uma biógrafa para fazer a vida dele. Tu aqui tinhas já o bichinho da biografia.

Sim, eu acho que isso foi premonitório.

Mas é isso. Tu gostas muito de jogar com memória, não é?

Esse romance foi premonitório. Sim, a memória está, de alguma maneira, presente nas minhas obras. Nas duas primeiras, a memória histórica, ainda que ficcionada. Nos trabalhos para cinema e para televisão, tenho bruçado muito sobre biografia, portanto, sobre personagens reais. Trabalhei a Maluda, que também é uma grande mulher.

Outro teu telefilme. De há quatro anos. O Egas Moniz, também? O nosso PM inovador.

Sim. E este último romance, o "Na Memória dos Rouxinóis", é quase o corolário, porque é pôr no mesmo patamar de importância a memória e o esquecimento. E questionar, em última instância, se o ato de lembrar não é, sobretudo, um ato de esquecer. De selecionar, de perceber o que persiste.

Quase uma catarse.

Exatamente. E o que é deixado à margem.

O nosso tempo voou. Fica já este convite para vermos amanhã e este fim de semana, portanto, toda esta série, esta minissérie, três episódios. Mas, Filipa, ainda queria que falasses um pouquinho deste "Na Porta ao Lado". Estamos a falar aqui de um telefilme de que também foste a argumentista, e também com a Santa Rita Filmes, que vai para esta plataforma OPTO, da SIC. Aliás, foi nomeado para os Globos de Ouro, é de 2021, mas que fala deste tema da violência doméstica. E isto de estar em canal aberto, está aqui um apelo já que eu faço. Isto é tão importante.

Total apelo, sim. Ainda mais se pensarmos que o crime que mais mata em Portugal é o crime de violência doméstica contra as mulheres. E a maioria dos agressores estão no foro íntimo, portanto, estão dentro de casa.

E é um crime público.

E é um crime público, daí também se chamar "Na Porta ao Lado", e de alguma maneira responsabilizar a sociedade como um todo na denúncia.

Portanto, resumindo e concluindo, a luta continua. Silvia, continua, não continua?

Claro que continua.

Porque tudo está a acontecer à nossa volta, parece que estamos a retroceder na civilização. Estes cancelamentos também, isto tudo são coisas que estão a piorar e estamos a censurar-nos cada vez mais.

Sim, parece que estamos a ir ao outro extremo.

Exatamente. A história cicla, mas não aprendemos com a história.

Se calhar também é necessário irmos a um extremo e depois encontrar um equilíbrio, não sei. Sei que esta série vem em boa hora.

Claro que sim.

E foi maravilhosamente escrita pela Filipa. Foi maravilhosamente pegada e realizada pela Patrícia.

É um bom elogio. E é verdade.

Não me estão a ver, mas eu estou a corar.

Está a corar muito. Eu atesto.

Os trabalhos que eu tenho, é raro encontrares uma coisa boa. Mas às vezes isso não significa nada, porque tu podes ler, é incrível, mas depois, de repente, vais realizar, pôr em prática e às vezes não chega a fazer jus.

Não resolve.

Exatamente. E a Patrícia sempre disse uma coisa que é: "Isto já é bom e a ideia é sempre fazer melhor". E eu lembro-me de estar em casa entusiasmadíssima com as cenas do dia a seguir, e eu: "Como é que ela vai fazer isto?" E a forma de resolução, sempre pela simplicidade, e não estou a tirar valor, é incrível, inacreditável. De uma história excelente, eu acho que uma série excelente também saiu.

A Patrícia fez a melhor versão de cada uma das minhas palavras.

Foi, sim.

E as atrizes também, e a equipa toda.

Claro que sim. Por isso, fica aqui este convite. Quero agradecer muito às duas, Filipa Martins, Silvia Chiola. Muito obrigado pela vossa disponibilidade, em terem vindo aqui à Rádio Observador. A si que nos ouve, então já sabe, a não perder este fim de semana, esta sexta, já amanhã, e depois no sábado, estes três episódios de "Mulheres às Armas", à noite na TVI, esta minissérie realizada pela Patrícia Sequeira, com argumento da Filipa Martins e a Silvia Chiola como uma das protagonistas. Quero ver mais vezes as duas a trabalhar com mais gente, com mais histórias fantásticas, porque há mais histórias para ser contadas.

Tantas.

Muito obrigado às duas e bem-hajam. Muito obrigado.

Obrigada. Foi tão bom.