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Sabemos que Lisboa é a casa de celebridades como a Monica Bellucci, o Christian Louboutin, a Comporta, o refúgio de férias secreto da Adriana Abascal ou Carolina de Mónaco. Mas o que há de comum na decoração das suas casas? Os desenhos, cerâmicas e esculturas da artista portuguesa Bela Silva, que a meio caminho entre as artes plásticas e o artesanato, refletem a pura alegria de viver. Pintora, escultora e ceramista, a viver entre Lisboa e Bruxelas, Bela é uma das melhores artistas portuguesas contemporâneas, criadora de trabalho vibrante e exuberante nas cores e formas orgânicas e naturais nas várias artes que trabalha, sejam lenços de seda para a Hermès, ou ilustrações para o The New York Times, objetos para a Vista Alegre, Viu Valamego ou Bordal Pinheiro, roupa infantil e artigos para a casa, para a Monoprix, e até peças de arte pública, como os murais dos jardins do Centro Cultural Sakae, no Japão, ou dos azulejos da estação de metro de Alvalade, aqui bem perto, em Lisboa, com mulheres vestidas de cores que dançam enquanto o macaco de longa cauda toca guitarra celebrando a vida. Olá, Bela, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite diretamente de Bruxelas. Bem-vinda ao Observador.
Olá. Bom dia.
É um grande prazer estar a falar contigo, Bela. As tuas peças são realmente uma maravilha. Eu devo dizer para informar os nossos ouvintes que descobri a Bela através de um amigo comum, o Pedro Carrasco. Ele é galerista, é um designer com 30 anos de atividade, paixão pela comunicação, arte e comunicação da arte, que depois de abrir há quatro anos aqui um espaço em Lisboa, inaugurou então em Madrid a primeira galeria de arte portuguesa em Espanha, em fevereiro de 2020, em plena pandemia. Vem então aqui, Bela, a este mesmo sítio, a este espaço, contar essa aventura. E no passado 6 de outubro recebi esta notícia: a Bela Silva juntava-se à família da Galeria Carrasco. Portanto, para mim é uma grande honra. E tu, Bela, tens a arte no sangue, porque a tradição artesanal já vivias em casa, pela mãe, pelo pai, pelo avô.
Sim. Eu cresci a ver eles a trabalharem, criarem objetos. A minha mãe fazia padrões para a moda. Portanto, eu cresci a ver as coisas a ser feitas. E a criação, como é que se começa um objeto. E então esse cheiro do ateliê, do metal.
O teu pai era artesão metal, exatamente.
Sim, ainda hoje em dia ajuda-me.
E o avô trabalhava em couro. É muito curioso. Em Portugal existe uma grande tradição de artesanatos e artes decorativas.
Sim, há coisas muito interessantes. E eu acho que quando nós criamos a distância, às vezes quando estamos em cima das coisas, acabamos por não vê-las. E eu lembro na altura, em Chicago, um dos meus professores de História e Arte, até me disse: "Bela, tu desenhas bem, nunca experimentaste desenhar sobre um azulejo?" Eu disse: "Não." E depois quando eu experimentei, realmente adorei. E mais tarde, depois tive essa oportunidade de fazer o metro.
Tu adoravas, estavas sempre a desenhar e tinhas um sonho que era ir trabalhar para a Walt Disney.
Não, ainda fui convidada para trabalhar para o Cartoon Network em Nova York, numa altura que eu ia apanhar o avião para Lisboa. Havia sempre projetos. Eu às vezes até dizia assim: "Eu tenho que pôr a mala a fingir que vou viajar, porque eu quando vou para apanhar o avião, há sempre um convite para um trabalho."
Muito bem. Tu és artista, disseste uma vez, porque não podia ser outra coisa, é algo natural. Mas agora esta pergunta, Bela: se tu não fosses, o que tu poderias ser?
Eu estive muito indecisa entre o desporto, porque eu também sou muito ativa. Eu corria e ganhava mesmo nos saltos. Conseguia ganhar mesmo àqueles que tinham as pernas muito compridas. Não sei como é que se faz, era o balanço, mais os meus saltos, comprimento. Portanto, houve uma altura que fiquei indecisa, mas as artes acabou por levar a melhor.
A tua vocação para as artes vem um bocadinho de quê? Tens a família toda artista, já percebemos, mas tiveste, por exemplo, bons professores de desenho, visitavas museus?
Sim, visitava museus, mas eu penso que foi mesmo essa questão dos desenhos animados. Foi mesmo a Walt Disney. E depois também sempre gostei de ler as fábulas, as histórias. Também era uma família que havia muito esse hábito de contar histórias e os contos. Isso interessa-me, as lendas, e que acaba por também inspirar-me.
Claro. Tu estudaste em Lisboa, no Porto, em Inglaterra e Chicago. Portanto, licenciaste-te em escultura, depois tiraste o mestrado em arte no Art Institute of Chicago. Depois estiveste no Norwich Fine Arts, no Reino Unido.
Sim.
E mais ou menos na altura da tua licenciatura em escultura, foste estudar cerâmica no Arco. Eu digo isto porque a cerâmica é sem dúvida o que te tornou mais famosa. É a tua marca, digamos, da tua personalidade, estas camadas e camadas em todos os tons possíveis de verde e azul, as folhas, as ramagens, os animais fantásticos, a mesa dragão, a mesa crocodilo. Isto consideras tu o quê? O teu estilo. É uma coisa quase barroca.
Também tem a ver um bocado. Quer dizer, nós crescemos a ver as nossas igrejas, o barroco, a utilização do azulejo com a talha.
Exatamente.
E isso inspira-me. Agora, quer dizer, eu lembro-me na altura, eu depois fiz cerâmica também nas Belas Artes e senti que o barro era realmente um material que podia dar origem a tudo aquilo que eu quisesse, das formas. Mas também tem uma parte muito técnica. Eu não sou uma técnica de cerâmica e realmente para fazer alguns projetos, tu tens, porque as pessoas não entendem o processo. Às vezes pensam que fazemos uma peça e ao fim de duas semanas já está pronta, mas não, a peça tem que secar, demora tempo, tem que ir ao forno várias vezes.
E depois há o vitral, há isso tudo.
Depois há os acidentes de percurso. Não é fácil. E realmente também tem umas consequências físicas, porque há projetos que eu faço que eu fico de rastos mesmo fisicamente. E o próprio médico diz: "Tu tens que ter uma preparação quase de um atleta de alta competição." O problema é quando se vive entre dois países, não se consegue arranjar rotinas para praticar esse desporto e para ajudar realmente a trabalhar os músculos para fazer esse tipo de projeto. Portanto, é muito físico. E eu realmente quando estou a desenhar, que é a base de tudo, é realmente o desenho. Eu neste momento estou a precisar de fechar-me e desenhar. Quando estou a desenhar há quase uma meditação, uma surpresa, não sei como é que vai acabar. Hoje em dia vivemos num mundo tão maluco, tão doido, com tanta coisa. Ali é como se fosse uma maneira de recarregar as energias também.
Exato, é uma espécie de catarse.
É o meu boost. O meu desenho é o meu boost.
Muito engraçado. Fizeste também uns workshops de cerâmica que era no Japão e em Marrocos.
Com jovens.
Isso que eu ia dizer, mas foste ensinar ou foste aprender? Foste ensinar? Foste estudar?
Fui ensinar. Eu gosto imenso de trabalhar com jovens, às vezes ainda tenho muitas pessoas que me procuram, mas é verdade que não tenho dado mais workshops nem aulas porque tenho realmente falta do tempo. Com o passar da vida, o tempo torna-se tão precioso. Mais tarde voltarei a fazer, mas pelo momento não, porque eu gosto muito de estar com jovens.
Bela, se tu pensasses em mestres ou artistas que mais te influenciaram, antigos ou contemporâneos, ou se há um artista nacional ou internacional, vivo ou morto, de quem não percas uma exposição. Quem é que pensarias? Dois ou três nomes.
Eu em Portugal tive como professor o Jorge Vieira, que como sabes, no início, pelas suas esculturas em terracota, foi um professor maravilhoso. E depois em Chicago também tive a ocasião de encontrar várias pessoas. Eu vivi em vários países e tenho encontrado também pessoas que me têm apoiado neste percurso, que não é fácil. E agora vivo em Paris, porque o que Bruxelas tem é que geograficamente é interessante. Eu apanho o comboio, a uma hora estou em Paris, estou em Londres.
Estás no centro da Europa.
E realmente há exposições excelentes. Neste momento acabo de ver da Joan Mitchell e do Monet, que é uma maravilha. Tu sais, ficas com vontade de chorar daquele trabalho.
O amor levou-te primeiro a Nova Iorque e depois a Bruxelas. Na terra tua estiveste.
Não foi bem assim.
Então, diz lá.
Eu fui estudar para Chicago e depois encontrei lá uma pessoa. É normal, estás num sítio, fazes a tua vida, encontras alguém. Depois essa pessoa tentou viver em Portugal. Na altura, foi muito difícil para ele, um americano há quase 30 anos em Portugal era um extraterrestre. Hoje em dia já não seria. Portugal, Lisboa mudou imenso. Foi muito difícil para ele e depois eu disse: "Há um sítio que eu tenho curiosidade em viver", e então fomos até Nova Iorque.
Incrível, estiveste naquela zona impressionante onde contactaste com a cena do blues, do jazz, a arquitetura de Frank Lloyd Wright, o Mies van der Rohe. Incrível.
Eu não conhecia ninguém. Chicago, em termos de arquitetura, é uma maravilha, não é?
Estudaste no Art Institute, que é só emanada o principal museu da cidade.
Pois.
É a tal injeção de estética todos os dias.
É, e tive um professor de História da Arte que era fã da cultura latina, adorava Portugal, adorava Espanha e depois ia sempre jantar com os estudantes. Era muito próximo. Não era o senhor doutor, era o Bob, e nós íamos ver e o Bob tinha um currículo incrível. Era uma pessoa conhecida. Então havia essa proximidade que foi muito importante e muitos deles mantêm-se ainda em contacto comigo, alguns professores.
Há uma coisa curiosa também em Nova Iorque, por exemplo, quando moravas ainda no East Side. Por exemplo, um dos encontros que tu tiveste foi quando conheceste a Louise Bourgeois, esta autora maravilhosa daquelas aranhas gigantes, que eu gosto imenso das coisas dela. E ela falou contigo.
Ela tinha sempre uma vez, não me lembro se era todas as semanas, mas ao domingo ela recebia. Nós tínhamos de chegar era com uma caixinha de bombons, chocolates, que ela adora. Eu também. É o meu pecado. Mas às vezes também temos que pecar.
Claro. Senão não tinha graça.
Não tinha graça. E ela tinha lá um áudio da Amália Rodrigues, mas ela era bastante crítica e meteu algumas pessoas lá a chorar. Não foi assim. Mas comigo lá gostou do meu trabalho. Ela falou na importância da dimensão no meu trabalho e realmente eu tenho essa tendência para a dimensão.
Também tens a obra pública, e portanto é um bocadinho isso. A parte da dimensão, para ti o miniprojeto é mais satisfatório que grandes obras de arte pública ou não? Tu fizeste os painéis para o Centro Cultural, fizeste projetos em Chicago, o painel das lojas aqui na Bica do Sapato, tens aquela para a Escola João de Deus nos Açores, o metro do Alvalade, aqui mesmo ao lado do Observador, a estação do metro do Alvalade, são painéis azulejos teus. São obras gigantes.
Mas mesmo assim não têm surgido muitos projetos nessa área. Sabes que a vida é feita de encontros e realmente eu tenho trabalhado mais no estrangeiro e com estrangeiros. Tenho tido mais oportunidades com os estrangeiros.
Tu gostas de fazer esta coisa, as obras grandes normalmente são trabalhos feitos à mão. Estou-me a lembrar que fizeste aqui o mar em Carvalhal, um projeto com o curador Jacques Rage. Este passeio pelo Tejo, o grande mural que fizeste para um palácio em Sintra há pouco tempo, se não me engano, é um dos teus últimos trabalhos cá.
Sim, foi uma pintura sobre parede. Agora estou com uma série de projetos interessantes para o ano. Tenho que me pôr agora em boa forma física.
Tu tens o ateliê em Bruxelas.
Tenho, numa zona muito gira.
Que é perto de Sablon? Perto da Faria D'Abreu?
Bruxelas às vezes as pessoas ficam assim: "Bruxelas, o que estás aí a fazer em Bruxelas? É cinzento". Mas realmente é uma cidade muito internacional. Também é uma cidade que estranha-se, mas depois entranha.
Sim, exatamente.
Como se costuma dizer. É uma cidade com bastantes parques, tem uma arquitetura art nova incrível e eu vivo num quarteirão, o Sablon, que são os antiquários. Quando saio da minha casa vejo antiquários.
A Notre-Dame du Sablon. Tem aquela praça onde todos os domingos há uma feirinha de manhã.
Sim.
E é perto do Saint-Martin, do restaurante maravilhoso.
Cada sítio que tem, tem as suas coisas, o seu charme. Eu acho que temos que nos concentrar no presente, porque às vezes o problema do ser humano, nós estamos no passado ou estamos no futuro e às vezes não nos concentramos no presente. E realmente, neste momento estou aqui e tenho feito bons encontros em termos profissionais, há bons colecionadores e portanto, oportunidades de trabalho.
O teu ateliê era de uma antiga fábrica de collants, foi adaptado ao teu ateliê. Muito curioso.
Isso já não é.
É um sítio giríssimo.
Já mudei.
Estás noutro?
Já estou noutro.
E tu não sentes falta da luz de Lisboa? Que eu lembro que uma vez tu disseste: "O frio não me importa, mas a ausência de luz mata-me". Eu lembro-me disso.
Sim.
Bruxelas é um teto baixo, é como em Inglaterra, não é? Tu também te queixaste de Inglaterra de ser mais escuro.
Sim. Quer dizer, Inglaterra às 15h já é noite. É difícil. É o que eu costumo dizer, Bruxelas é o meu limite. A falta de luz custa-me bastante. Sim, não é fácil.
Muito bem. É muito bom, Bela, estar aqui a pensar que, por exemplo, a luz de Lisboa é uma coisa que tu gostas muito. Tu dizes que inspira-te muito a natureza e também o mar. Daí os teus verdes e azuis infinitos que tu usas, a luz deste teu país, Portugal, do Portugal natal, e o mar, consideras que são mesmo uma boa inspiração para o teu trabalho, que no fundo é tão orgânico e é tão colorido?
O sol dá energia, não é? Tu vês quando ele dá. Agora estive em Londres e estava um sol magnífico e estavam as pessoas mais bem dispostas, com outra energia. E depois o mar também. Eu cada vez que entro no nosso mar, às vezes as pessoas queixam-se: "Ah, mas o Atlântico é tão frio", mas tem realmente um cheiro, o mar. Eu adoro estar sentada, olhar o mar e sentir e ouvir o barulho. Por isso é que eu às vezes não entendo como há restaurantes agora à frente do mar, que é um barulho! Meu Deus, será que não temos direito a ouvir as ondas do mar?
À contemplação.
Hoje em dia parece que já não há tempo para essa contemplação, que é necessária para dar energia. Quando eu deixo o meu último banho é sempre um momento difícil .
Exatamente.
Quando eu saio de Portugal.
Quando tu viajas, Bela, e tu viajas bastante, mas tu estás aí no centro de tudo. Bruxelas é completamente o umbigo da Europa. Quando tu viajas, vais criando fases novas ou inspirações novas na tua carreira, no teu trabalho, certo?
Sim, acabam por me inspirar. É quase um diário de viagem, de imagens. É muito importante, porque a criatividade também tem que ser alimentada. Não é estar sentada numa cadeira que as ideias surgem. Às vezes vês qualquer coisa que inspira. E depois cada país, o que eu também gosto de ver é a combinação de cores. Cada país tem a sua combinação de cores diferente, a maneira como misturam. É isso.
Por exemplo, o Japão, aquele trabalho que fizeste, aqueles painéis para os jardins do centro cultural. Aí tiveste que, se calhar, informar-te muito, passear por lá, beber daquele ambiente. Que era realmente um mundo diferente, não é?
Já há muitos anos que estive lá, já não vou lá há 20 anos, infelizmente. Na altura, fui convidada a ficar lá, a trabalhar também, a fazer workshops. E gostei imenso. E depois tem uma grande tradição também nos têxteis e a maneira realmente como eles fazem, desde um pequeno embrulho, a parte da loiça ou preparam a refeição. É tudo uma coisa.
O cuidado e a minúcia.
Gostei muito. E depois estive na Índia, que foi realmente uma explosão de cor. Foi outra experiência. Aí é que eu digo mesmo, foi uma viagem, foi quase uma reencarnação. Eu lembro-me na altura, quando cheguei a Bruxelas da Índia, vi um saco plástico, uma sombra preta numa árvore, pensava que era um macaco. Tu vens entranhada de ver tantos bichos e de repente chegas aqui. Não, era um saco do lixo pendurado, mas tu vês naquela coisa de ver animais.
E do ambiente, e também dos cheiros e tudo.
Há cheiros, sim. Cheiros há bastante. Bons e maus.
Exatamente. Uma coisa também, a história da arte de Portugal. Eu sei que gostas muito do nosso património, do teu património também, o estilo manuelino, a janela do Convento de Cristo, as colônias, a arte de África até Macau. Também é uma coisa que absorveste e trabalhaste, certo? Tu trabalhas muito bem o artesanato.
Porque está impregnada a nossa arquitetura, mesmo a nossa culinária está impregnada de todas essas viagens que os portugueses fizeram. E que também tem a ver um bocado com a minha vida.
Exatamente. É muito curioso também tu pegares exatamente essa questão do artesanato, parece que tu integras nas tuas obras e reinterpretas, de uma maneira contemporânea, artesanato de vários países. És pessoa para quando vais viajar, e às vezes a sítios mais exóticos, trazes peças e gostas de trabalhar com isso?
Sim, eu gosto de cerâmica. Há uma questão que é o objeto. Eu gosto do objeto, pode ser desde o jarro, o prato, da minha criatividade. A artista acabo por criar e gosto de coisas diferentes. Mas às vezes as pessoas têm a mania de porem-te logo um rótulo. Ou que é artesanato. É realmente a criação. Às vezes quando eu olho para uma cultura, quer dizer, os objetos dizem muito sobre essa cultura. Nós, por exemplo, em Portugal, a nossa arquitetura, tu vês as influências das viagens da China, da Índia.
Inclusiva nisso, não é?
Sim.
Fomos bebendo dessas influências e também deixámos lá. No fundo, há esta troca tão importante.
O uso das especiarias.
Exposições que já tiveste por Itália, Croácia, Estados Unidos, a China, o Brasil, Hungria, Espanha, Bélgica, França. Está a haver aqui uma há 30 anos, não sei se foi a tua primeira a solo, em 92, no Centro Nacional de Cultura. Houve aqui uma exposição, "A Bela e os Monstros". O título é maravilhoso.
Pois, "A Bela e os Monstros".
"A Bela e os Monstros" é genial. Isso é genial. Terá sido a tua primeira a solo, é possível, cá em Lisboa?
Sim, já faz muitos tempos.
Em 92?
Sim. Mas pronto, eu agora estou num momento realmente tenho que concentrar, tenho que fechar um pouco para desenvolver o trabalho e vai surgir aí outras exposições.
Olha, entre design, cerâmica e escultura, Bela, o que é que tu preferes? Ou há um equilíbrio exatamente entre os três? O design é talvez a base de tudo, certo?
Eu tenho que criar. Como eu te digo, eu gosto muito da escultura, mas é muito mais físico. E eu às vezes tenho que criar um balanço entre momentos em que estou a desenhar. Mas eu gosto de tudo, quer dizer, não posso não escolher.
Não há um filho favorito.
Se tiveres a tua mão esquerda ou a direita, é difícil.
Tu tens uma grande rotina, Bela.
Tenho que escolher. Sim, uma rotina.
Isso tem que ser. É um trabalho mais solitário, às vezes.
Sim, é muito solitário.
Todos os dias vais para o ateliê?
Eu conheço pessoas, colegas meus, que estudaram comigo, que eram bons e não aguentaram. Mas eu sou daquelas pessoas que, por exemplo, numa entrevista de Monet, ele falava que havia até pessoas que tentaram conhecê-lo, compraram casa onde ele vivia e tudo, mas ele tinha ali poucos amigos, ia para o ateliê trabalhar. E hoje em dia há muito social, há muita dispersão e chega uma altura que senão não consegues criar.
Exatamente.
E é preciso mesmo disciplina.
Mas vais todos os dias. Todos os dias levantas-te para ir esculpir ou para ir desenhar.
Sempre, todos os dias.
É engraçado, porque isso é uma arte muito solitária, muitas vezes, mas tu dizes: "Mas eu gosto muito de fazer coisas também para..." Tu fazes outras obras, como falei na Hermès, na Serax, na Monoprix, Viva la Meat. Mas tu dizes: "Eu gosto de ter estas encomendas porque obrigam-me a sair da oficina."
Sim, isso também é fantástico, estar em grupo com outras pessoas, haver essa troca. Quando estive com a Hermès foi maravilhoso, com o Monoprix, uma equipa fantástica, claro.
Depois até foi um grande sucesso e esgotaram rapidamente as peças todas.
Mas isso já é outro tipo diferente. Às vezes estar com pessoas que têm a ver com o teu trabalho, que ajudam a concretizar coisas.
Exatamente.
Agora muito aquela conversa já da treta do café, que não tenho muita paciência.
Da vernissage do croquete.
Já não tenho, confesso, não tenho tanta paciência.
Diz-me outra coisa. Esta questão, por exemplo, da ilustração, também fizeste. Engraçado, para livros da Alice Vieira, por exemplo, da Maria Alzira Cabral, e para o New York Times e para a revista Elle americana. Isto são trabalhos que também gostas?
Gosto, mas o problema da ilustração é: dão-te um texto para tu ilustrares. Logo, isso aí eu preferia que fosse ao contrário.
Ter total liberdade?
Total liberdade ou que as pessoas escrevessem o texto a partir dos desenhos, escolhessem desenhos meus. Portanto, foi uma altura que eu tive realmente a oportunidade também de desenvolver mais essa área da ilustração, mas obedece a uma série de coisas que eu realmente preciso muita liberdade e, portanto, acho que não é realmente o que funciona melhor para mim.
Bela, tu precisas de isolamento para criar ou não?
Completamente.
E ouves música?
Sim.
Tens uma playlist ou pões sempre música clássica, ou jazz, ou qualquer coisa? Ou depende?
Não.
És eclética.
Tudo, sim. Jazz, blues, anos 80, disco.
E outra coisa, se tu tens uma peça na cabeça, não sei como é que isto funciona. Começas sempre por desenhá-la? Como é que tu sabes que aquilo vai acabar numa grande pintura, que também fazes pintura- aliás, eu gosto imenso das tuas cores todas. Ou como é que sabes que o que tens na cabeça vai acabar num objeto?
Sabes que eu tenho flashes. Eu tenho sempre um caderno ao pé da minha cama. É uma chatice, porque às vezes eu acordo com uma ideia e tenho que fazer ali assim um ga fanho, um esboço, um ga fanho, de manhã lembrar-me: "Ok." Ou às vezes vou andar na rua, portanto, eu tenho sempre um bloco pequenino, vou andar na rua e aparece-me assim uma imagem. Aparece assim páf! E eu tenho que desenhar isso, tomar nota, senão depois passa. Isto mais para os objetos. E depois é assim, uma coisa é tu desenhares e outra, depois estás a concretizar.
É as mãos na massa, é na terra.
As mãos na massa, aquilo acaba sempre por ser diferente, porque depois há o lado também prático. Às vezes há desenhos, que depois não é possível pôr em prática.
Tu mostras sempre as tuas obras primeiro a quem? Tu ouves conselhos? Quando estão prontas ou quase prontas, procuras mostrar? Tens alguém de confiança?
Tenho os meus galeristas, eu mostro os desenhos e eles depois escolhem e apresentam. E tenho galerias em vários sítios.
Exatamente. Tu consideras logo quando uma obra de arte está pronta? "Isto está pronto, não vou tocar mais." Ou tens aquela coisa do Perfeccionista e vais dando uns toques.
Tu sentes isso.
Há pessoas que não conseguem largar.
Não, há alturas que é isso, é saberes: "Olha, se eu continuar, vou estragar o desenho." Tu sentes isso quando é o momento.
Está pronto? Muito bem. Na pandemia, como é que foi muito complicado? Porque quando começou o confinamento, Bela, estava a haver a abertura da tua exposição sobre o México, exatamente numa das tuas galerias, este Spazio Nobile, aí em Bruxelas. Claro que afeta tudo, afeta as vendas, o público não vem. Foi complicado viver este período, estes dois anos?
Realmente foi muito complicado. Já até em termos emocionais, porque acabei por estar longe da minha família. A família em Lisboa, o meu filho em Londres, ficamos esse tempo todo sem estarmos juntos. E depois com uma exposição que abre e fecha.
Exatamente, tem que puxar outro.
E projetos e tudo. A verdade é que eu acho que mesmo a arte, os artistas, ainda hoje em dia, na nossa sociedade, as pessoas ainda não entendem bem. Pensam que ainda os artistas são bon vivants e que não trabalhamos. "Do que é que estás cansada? uns bonecos", que é fazer bonecos. Não percebem.
Tu é mais física, até. Tu tens a parte de escultura, não é?
Mas hoje em dia, com o Covid, o que é que safou as pessoas para não enlouquecer? Foi ouvir música, foi ler.
Exatamente, foram as artes.
Foi cinema. Enfim, sei o quê? As artes.
Literatura, foi ler, ver séries, ver filmes. Exatamente.
Mas depois não há grandes apoios.
As pessoas acham que os artistas não pagam contas. Quer dizer, não têm noção que eles também pagam rendas e contas e têm a renda de casa e do ateliê.
E buscar o drive para continuar na criação e tudo isso.
Mas aproveitaste também para desenhar muito e ler muito?
Desenhei muito e li, sim.
Fizeste coisas que nunca tinhas feito antes?
Não, por um lado, como eu viajo imenso, sou-me bem estar sossegada. Viajar em casa, viajar pelos livros. Que é importante.
Tu dás importância às críticas, Bela, e aos críticos? Ou não ligas muito?
Na verdade, não. Eu acho que isso, por acaso, é uma idade incrível. Porque é uma idade que há coisas que te faziam, quando és mais novo, queres ser amigo de toda a gente, queres que todas as pessoas gostem de ti. E depois com a idade não estás tanto aí.
Não estás nem aí.
Não, é mesmo concretizar, é aproveitar o tempo, é ler. É verdade, há aqui um switch muito diferente. E fazer o trabalho. Pois é claro, há pessoas que gostam, outros que não gostam. Não se pode agradar a todas as pessoas. Mas é quase uma missão. É como se eu: "Ok, a minha missão é a criação, não tenho dúvidas."
Tu consegues viver da tua arte hoje confortavelmente ou não?
Sim, consigo viver, mas é uma luta.
Claro.
As coisas não caem, os projetos, é tudo. E pois é assim, se hoje consigo, também has been a long way. Tem sido bastante tempo. Que às vezes eu digo aos jovens.
Lutaste por isso.
Já não tenho 30 anos, é todo um percurso.
Exatamente, claro. O que achas que faz falta para se promover mais a arte junto do público, Bela? Que isso devia estar mais divulgadas, devia haver mais espaços, mais galerias, mais programas sobre a arte. Sentes alguma coisa que custas chegar às pessoas? Tu estás numa cidade, Bruxelas, onde isso é mais ou menos facilitada. Há muita arte a acontecer e é muito divulgada. Cá em Portugal, se calhar, não tanto. Mas sentes isso? Quando vens cá a Lisboa, sentes que falta essa condição de arte?
Quando vou a Lisboa agora para estar com a minha família, como se eu saí do circuito. Portanto, posso conhecer muitos dos artistas, pessoas nos museus e tudo, mas eu não faço parte desse circuito de Portugal, porque realmente não estou aí. Tu sabes, quem não aparece acaba por ser esquecido.
Exatamente.
Portanto, não estou muito a par das coisas aí. Realmente, eu nesta altura, estou com exposições no estrangeiro. De qualquer maneira, eu tenho uma galeria que me representa, a galeria do Rui Freire, que me representa aí em Lisboa.
Galeria Rui Freire, Fine Art, ali no Chiado, na Serpa Pinto, número um.
No Chiado, mas eu realmente estou mais com exposições no estrangeiro.
Custa-te separar-te de obras tuas quando as vendes ou quando as dás? Ou tens coisas que conservas para sempre?
É difícil. Não. Há coisas que sim, que eu ofereço ao meu filho, para ele ter, porque a verdade, como eu vivo do meu trabalho, fez com que eu não conseguisse pôr muitas obras de lado. E chega uma altura que tu ficas num grande estresse. Houve uma altura que eu disse: "Meu Deus, se me acontece alguma coisa, tenho que pensar também naquilo que vou deixar." E isso torna-se importante a partir de uma certa altura.
Tu tens alguma exposição agora a decorrer, esta "Levé du végétal", na Galeria Regala, em Arles, por exemplo.
Não, isso já acabou.
Foi já este ano, mas já acabou.
Adorei. Arles também, com muita história.
Isso faz lembrar o Van Gogh.
Tu sabes. Sim, as cores, é outra cor, adorei.
Provence.
Da Provence, gostei imenso.
Bonito. E esta "Season 21", Bela Silva e Ver Vermesht, foi uma exposição a meias, tu com esta artista em Bruxelas. Já foi aí na tua galeria, não foi?
Já foi na Spazio Nobile.
Mas que já fechou?
Já fechou também. Ela a fazer tapeçarias. Eu gosto também destes diálogos com outros artistas.
É, sempre foste muito versátil.
A Vera faz umas tapeçarias incríveis, também a utilização da cor. E ela inspirou-se muito nas paisagens de Piemonte.
"A Árvore da Vida", chamava-se a exposição.
Sim. E a Itália realmente é um país com as cores.
Sim, fascina.
Para cima, come-se lindamente. Eles são incríveis. Com uma coisa muito simples, eles fazem uma coisa fantástica. Ainda agora estive lá, comi uma polenta com uns cogumelos grelhados, aquilo sabia tão bem. Mas isto são uns cogumelos.
Isso é outra arte, Bela. És realmente uma pessoa muito versátil, é muito giro. E na Carrasco, em Madrid, ou aqui na Galeria Ruy Ferreira, que te representa aqui em Lisboa. Podemos esperar alguma coisa tua em breve? Após o fim do ano.
Já não. Só 2024 e não vai ser nessa galeria. E o Pedro está, porque realmente eu em Espanha não sou conhecida. Embora tenha vivido alguns anos até com um espanhol e fui pedida em casamento em Barcelona, na altura. E adorei ter descoberto. Eu tinha 20 e poucos anos, descobri o Gaudí nessa altura. Adorei Barcelona. Mas Madrid tenho bastantes amigos e fico contente com esta parceria, porque o Pedro é uma pessoa que eu gosto.
Sim, o Pedro é fantástico.
E também é determinado e com os seus projetos. E eu em Espanha sinto-me bem. Sabes que eu em miúda chamavam-me espanhola. A minha alcunha era a espanhola. E eu realmente quando estou em Espanha, eu gosto daquela maneira de ser deles.
Aquela movida que tem a ver contigo.
Não, e às vezes em Portugal, quando queres fazer alguma coisa, as pessoas começam logo a falar na parte negativa. Há muito esta coisa do velho do Restelo.
Exato.
Em Espanha é diferente, eles são mais "let's go", percebes?
Mais para frente, mais despachados. Mais espabilados. Isso é bom.
Mas acho que é uma boa combinação, os espanhóis e os portugueses é ótimo.
Portanto, 2024, talvez na Galeria Carrasco, lá em Madrid, é possível?
Não sei. Eu agora estou com projetos muito interessantes, mas por momento ainda não posso abrir a caixa.
Ainda é um pouquinho segredo.
Agora tenho que estar mesmo fechada.
E focada.
E focada. Ir às entranhas.
Muito bem, muito bonito. Sim, senhora. Bela, não vou tomar mais tempo, já tomei muito tempo do que podias dar, mas quero te agradecer muito a tua disponibilidade. Parabéns por todas as obras. Eu fiz um percorrido pela net a ver coisas tuas e as revistas que falam de ti. Isso são realmente coisas fascinantes, vibrantes, orgânicas, muito barrocas, muito vivas. É engraçado, tu moras em Bruxelas e passaste em Londres, passaste em Norwich, sítios com pouca vitamina D, mas as tuas obras têm uma vitamina que nunca mais acaba, e isso é muito bom.
Os flamengos com pintura a óleo, foram eles que descobriram.
Exatamente, incrível.
Um beijinho, foi um prazer. Hoje está aqui um tempo daqueles de me matar.
Que nunca seque essa tua inspiração, essa alegria de viver, que as tuas peças continuem a espalhar esta cor.
É para isso a música e a leitura.
Isso ajuda. Bem-hajas. Um grande beijinho, Bela. Até breve. Muito obrigado.
Obrigada. Tchau.