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Então eu vou escrever um livro, um capítulo sobre o amor, como nunca foi escrito.

Até hoje.

Numa ótica diferente. Na ótica do amor, é aquela emoção estranhíssima que nos faz fazer algo completamente contra a nossa natureza.

Sobrevivência.

O nosso instinto de sobrevivência, que é desarmar-nos voluntariamente perante um outro membro da mesma espécie.

É tudo menos autopreservação.

É tudo menos autopreservação.

Desde a tristeza profunda até à paixão assolapada, desde a procrastinação crônica até à criatividade mais intensa, da explosão de euforia à recompensa do exercício. Cada estado mental tem uma assinatura química. Mas o que quer isto dizer na prática e como é que podemos usar isso a nosso favor? Está feito o convite para ler "A Química das Emoções: uma viagem molecular pelo que sentimos". O terceiro livro de Nuno Malvide, cientista e comunicador de ciência português, que é professor de piano e professor catedrático de química na Universidade de Viena. Eleito aos 39 anos cientista do ano à Áustria, sendo o mais novo e único estrangeiro membro da Academia de Ciências Austríaca. Talvez por ter sido recentemente pai de gêmeas, o professor e investigador, a quem já chamam o Cristiano Ronaldo da química, volta-se agora para uma dimensão mais íntima da nossa existência: as emoções e os sentimentos. E o resultado é este livro maravilhoso. Olá, Nuno, e bem-hajado por teres aceitado mais uma vez o convite. Bem-vindo à Rádio Observador outra vez. Esta é a tua casa, já estás habituado.

Já é a minha casa.

Embora a última vez já foi há muito tempo, há cinco anos, com o teu primeiro livro.

Mas parece que foi ontem.

É simpatia tua. Muito bem, 17 de dezembro era o dia dos anos do Papa, já não é. Agora este Papa já faz anos noutro dia, mas tu fazias anos dia 17 de dezembro. Foi quando recebeste aquela chamada. Lembro que falámos disso da primeira vez.

Exatamente.

Estavas no avião, recebeste uma chamada a dizer que tinhas sido eleito o cientista do ano. É extraordinário. Muito bem, eu não vou falar do que já falámos da primeira vez, de seres professor de piano e teres feito ginástica no Sporting, muito bem. Ter os dois amores, do piano e da química. Continuas a ser professor de piano ainda? Dás umas aulinhas de vez em quando a particulares?

Já não dou. Agora o piano é mesmo só pra mim e tenho agora duas alunas fantásticas.

Pequeninas acabadas de nascer. Que nasceram quando?

Em 2024. Já têm dois anos e quatro meses.

Está bem. Por acaso achava que era há muito tempo.

Me impossibilitam de tocar piano. Cada vez que eu abro o piano lá em casa e tento arrumar, vem a correr uma de cada lado com os seus dedinhos e fazem assim: . E quando eu tento tocar as minhas coisas, elas fazem: "Ah!" E pegam na minha mão e tiram assim, tipo: "Não sabes nada disso. Deixa-me tocar". Depois elas sentam e começam a tocar: A, B, C, D, E, F, G.

E isso é que é ficar pra elas.

Isso é que é.

É extraordinário. Mas tu chegaste a fazer concerto, gravaste discos, não me lembro.

Não. Mas quando estavam na barriga da mãe, uma coisa que eu fiz foi alugar um estúdio com engenheiro de som e sentei-me ao piano e toquei livremente durante umas duas, três horas. Depois ele partiu aquilo em faixas.

Ok.

E eu escolhi as melhorzinhas pra fazer uma espécie de um presente pra elas ouvirem da barriga da mãe.

Que giro.

Com algumas músicas assim bem suaves, bem calminhas.

Porque dizem que influencia muito, mesmo na barriga da mãe já ouvimos os sons, as discussões, concertos.

Se calhar é por isso que elas agora não dormem, porque ouviram demasiada música minha. Estou aqui a culpabilizar-me neste momento, agora estou a fazer dois mais dois e a pensar que se calhar não devia ter feito isso.

Exato. A química, de facto, está em tudo, mas como tu disse também muito bem, não há que ter medo.

Não, não há que ter medo porque não é determinista. O livro é muito nessa ótica. Às vezes as pessoas poderiam pensar: "Ah, agora vai-nos convencer que tudo aquilo que nós sentimos está tão pré-determinado por uma assinatura química, que não há nada que podemos fazer". E a mensagem que eu tiro do livro é precisamente o oposto disso. É tentemos compreender de onde é que vêm estes estados emocionais, para depois podermos usar até de maneira mais avisada e mais informada, o nosso livre-arbítrio.

Exatamente.

Porque nós é que decidimos, a decisão é nossa. Não no momento em que sentimos a tristeza, ou a raiva, ou a dor, ou o nervosismo, estava muito nervoso antes desta entrevista, mas no momento em que percebemos: "Espera, isto é uma sensação perfeitamente normal, é uma emoção perfeitamente normal. Deixa-me usar isto a meu favor e jogar com isto de uma forma ou de outra. Mas não me deixo a mim dominar e controlar por essa emoção."

Muito bem, eu percebo isso e gosto muito da tua função. Primeiro, que és um divulgador de ciência de alto gabarito, extraordinário. És melhor que o Cristiano Ronaldo a divulgar ciência.

Obrigado.

E segundo, é aquela ideia de só conhecendo é que eu fico a amar e a conhecer as coisas e poder mudá-las se for preciso. Muito bem, posto isto, Nuno, se uma pessoa está com uma grande depressão, depressão profunda, a pessoa não é bem dona dos seus sentimentos. É difícil dessa tristeza crônica, porque é diferente de tristeza. Tenho tido vários psicólogos e psiquiatras que dizem: "Não confundam 'o meu segundo está sempre triste'. Isso não é depressão, é outra coisa a depressão. É um quadro mental de outro estilo, de outra profundidade. Mas se a pessoa está muito deprimida ou está muito aflita, não consegue controlar as suas emoções.

E esses são os momentos em que talvez faça sentido ter uma intervenção externa.

Sim, uma ajuda exterior.

O curioso é, eu sou filho, como já mencionaste, sou filho de médicos.

Exatamente.

Mas lá em casa, uma coisa que raramente se fazia era tomar medicamentos.

É engraçado.

Nós estávamos doentes.

O pai Ibrahim dizia isso: "Filho, não te vou dar isso, só vai curar o sintoma".

Exatamente.

Não vai à causa das coisas, não é?

E portanto, eu sou muito apologista dessa ótica de, em momentos em que a pessoa não consegue controlar, em que a química está tão descontrolada, então eu acho que sim, o medicamento faz todo o sentido. Para a pessoa conseguir atingir novamente um estado em que depois possa então controlar.

Muito bem, isso é muito importante. Muito bem, lembro também de teres falado destes dois projetos que tu tinhas em mãos. Um era sobre o mentol. Não sei se isso avançou ou se não. Como é que é? Tu tinhas uma coisa sobre o mentol, que a gente usa em rebuçados, em cigarros, em cosmética e em medicina. E era reinventar essa síntese. Foi uma coisa que tiveste em mãos, conseguiste?

Ainda bem que me perguntas, porque é para as pessoas também perceberem que os projetos de investigação evoluem. E às vezes aquilo que parece muito excitante numa determinada altura e que tem imenso potencial, depois vai-se a ver e não tem. Essa é uma síntese bonita, mas que acaba por não ter o impacto comercial que eu esperava que ela tivesse, na medida em que não pode facilmente substituir os processos que são atualmente utilizados pra fazer mentol na indústria. O que foi é que evoluiu Para uma dimensão em que fazemos um derivado do mentol, a mentilamina.

Ok.

E essa sim, tem um interesse bastante particular.

Comercial até, ou eventual?

Exatamente. Estamos agora, aliás, a tentar encontrar um parceiro comercial para desenvolver isso mais a fundo, porque depois há aí uma questão de vários derivados da mentilamina com propriedades ligeiramente diferentes e estruturas ligeiramente diferentes.

Ok.

O projeto evoluiu para lá daquilo que era o objetivo inicial e conseguimos encontrar uma outra coisa que, se calhar, se me tivesses perguntado há cinco anos quando aqui estive. "Então e a mentilamina?" "Mentilamina o quê? Sei lá o que isso é."

Exato. E isto é tirado de onde? A menta é uma planta? É uma folha?

A mentilamina não existe na natureza.

Então é uma coisa sintética.

É um composto sintético.

Muito bem. E depois outra coisa que eu lembro que tinha a ver com os teus projetos era o tremoço. Também fazias a extração do composto orgânico do tremoço, havia esta Spartax, esta startup que tu tinhas.

E estou muito orgulhoso de poder dizer que a Spartax, neste momento, está em vias de avançar para um projeto de larga escala, em que já não é só para extrair aquele composto do tremoço, é para reutilizar tudo. Porque se pensares bem-

Isso é a economia circular, é muito importante.

Exatamente. O tremoço tem uma dimensão, tem um óleo de tremoço, tem uma proteína lá dentro. Tem uma casca. As pessoas falam a mesma coisa do aspeto. O tremoço, as cascas deitam fora.

Agora está a haver o mundial, é uma coisa que toda a gente está a consumir.

Toda a gente está a consumir com a sua mini. As cascas de tremoço contêm quantidades consideráveis de um composto, não posso agora dizer qual é, mas de um composto bastante interessante para a cosmética.

Ah, ok.

E portanto, até o lixo das cascas, eventualmente conseguimos tirar alguma coisa.

Pode ser aproveitado e reaproveitado.

É o que eu diria a visão holística do tremoço.

Exatamente.

Em todas as suas facetas.

Olha, da experiência que tu tens de cruzar ao longo destes anos com outros cientistas portugueses, Portugal ainda está a apoiar pouco os cientistas no teu ponto de vista, Nuno? Sentes falha nos programas do governo, nos programas dos ministérios, de apoiar a investigação? Com a extinção da FCT, por exemplo, foi um grande golpe. Este género de coisas, achas que ainda temos que dar estes passos? Lá fora dão, se calhar, com mais rapidez e com mais profundidade.

Eu acho que é uma questão estrutural e é uma decisão que eu acho que Portugal ainda não tomou.

É vontade política.

Mas a vontade política também é vontade popular.

Ok, portanto, estaria nas nossas mãos.

Será que as pessoas, o homem e a mulher normal na rua, percebem aquilo que a ciência tem para lhes... Quer dizer, quando tu vês o sucesso que tem um livro chamado "A Química das Emoções".

É extraordinário.

Então, de certa forma, tu deduzes que o público tem interesse, procura e quer saber mais, e valoriza isto.

Claro.

Como é que esse interesse não se traduz numa vontade de: "Ok-

Consolidar isso

...vamos redesenhar-

Aproveitar isso

...a estrutura científica em Portugal, vamos fazer algo realmente sério", porque não é com investimentos de 1% do PIB que vamos fazer o que quer que seja.

É como a cultura, nem chegam lá, não é possível.

Exatamente. Isto é como o futebol. Se o Benfica, o Porto e o Porto não quiserem pagar 20 milhões por um jogador de topo, não têm um jogador de topo.

Exatamente.

Pronto. E uma coisa acontece, não penso que seja segredo, não posso revelar as instituições, mas em começo do ano passado, começo de 2025, eu recebi uma proposta, porque isto é como o futebol. Uma universidade do top 20 das universidades mundiais, veio à minha porta e assinou-me e disse-me: "Nuno, nós gostávamos muito de..."

Incrível. Contar contigo.

Pronto, tu traz o teu grupo de investigação e vens, e passas a ser professor aqui.

E sairias da Áustria? Isso é possível de acontecer?

Sim, claro.

Com uma oferta irrecusável.

A proposta era simplesmente fantástica.

Incrível. Mas claro, tu poderias ir porque és chamado, porque vão buscar um talento, tu és muito bom no que fazes.

E porque aquela instituição tinha os recursos e tinha a visão, se calhar, para dizer: "Não, nesta área da química orgânica, a pessoa certa para nos levar à próxima invenção é o Nuno Malheid". E vieram ter com o Nuno Malheid e puseram uma quantidade assombrosa de dinheiro e de recursos na mesa. O meu salário era mais ou menos o mesmo que ganho no Centro de Investigação, nem tinha um grande aumento. Mas os recursos que eu teria para fazer aquela investigação.

Isto às vezes é importante para a investigação.

É isso que faz a diferença. Temos de pagar salários, temos que contratar pessoas, temos que arranjar máquinas, temos que comprar reagentes químicos, temos que comprar solventes. E é o tipo de coisa que infelizmente é realidade nestas instituições de topo, mas que em Portugal ninguém faria.

Estamos ainda a anos-luz dessas coisas. Há áreas em que não, eu estou a pensar na neurociência. Há áreas que têm laboratórios já muito bons, há institutos de medicina molecular, muito bem, que é de excelência.

Quase tudo com iniciativa privada.

Sim, Champalimaud.

Mas a iniciativa pública, eu acho que está a faltar. E depois esses institutos também vêm aqui e acabam muitos sobreviver à custa de financiamento europeu.

Sim.

Acabam depois a ganhar imensas bolsas aquelas das ERC, exatamente. Porque os financiamentos nacionais, nunca ninguém-

O Albino Oliveira Maia esteve cá outro dia, extraordinário exemplo, e faz investigação, e faz clínica médica e psiquiátrica, nessa área de neurociência também. É extraordinário, e com os apoios que ele tem, mas exclusivos já na Fundação Champalimaud, que não o quer deixar fugir, obviamente.

Faz muito bem.

Pronto, eu percebo isso, mas faz-me pena.

A mim também.

Porque eu acho que ao mesmo tempo ouvimos discursos políticos, Nuno, e é importante os jovens, e mesmo que vão lá para fora e tirem curso de Inglaterra, em Stanford, não sei o quê, passares por lá, mas depois vêm para cá. Eu sei, mas não dão condições, é difícil fixá-los cá, não é?

Apesar de, vou ser muito sincero.

Diz.

A seguir ao curso, é capaz de ser a fase onde eu mais facilmente teria regressado a Portugal. Mas depois a pessoa vai fazer o doutoramento lá fora e começa a ver uma realidade de investigação.

Que não tem nada a ver.

Que não tem nada a ver e que fica muito difícil regressar.

Quando dizes o teu curso é engenharia química no Técnico?

Sim, química no Técnico. O último ano fiz ele todo no estrangeiro.

Ok.

E nessa altura eu ainda era capaz de ser permeável a regressar, porque gostava e estava muito presente a experiência de vida em Portugal. Tudo no estrangeiro é muito mais difícil quando estás a viver sozinho, sem pai, sem mãe, sem amigos, sem a estrutura social. Quanto mais anos se passa lá fora, mais difícil fica conceber.

Sim, e quando és bom e és chamado para aqui e para acolá, mais as pessoas te agarram. Eu percebo isso. Eu tive um filho a doutorar-se em neurociência em Columbia, e a minha namorada também já ficou aqui e começou agora a doutorar-se ao lado de mim. E eu: "Mas o teu edifício no campus de Columbia tem outro laboratório?" "Ó pai, o edifício onde o meu laboratório é, tem 76 laboratórios."

Exatamente.

Um edifício com 76 laboratórios diferentes, onde usam macacos, experiências, usam cérebro. É impressionante, é outra escala, de facto. E não é que sejamos iguais a essa escala, mas podíamos dar outras condições a outros institutos. Começa a haver umas coisinhas, mas acho que ainda tão pouco.

Mas eu acho que é falta de uma visão-

É mais estratégica, mais profunda, mais larga, mais abrangente. É verdade.

Ainda bem que falamos disso, que é um assunto importante. Teria alguém que se sentar e dizer: "Esta é a nossa visão conjunta". Teria que ser um consenso político, que é para não estar dependente dos partidos que estão na governação.

Exatamente, porque isso depois são ciclos de quatro anos.

Em quatro anos não se faz nada.

Não, tem que ser uma estratégia a longo prazo.

Tem que ser uma coisa prolongada e que todos concordem que se formos nós amanhã para o governo, isto não se mexe.

Exato. Porque é de interesse nacional, eu acho. É como dizia o Marçal-

Achas tu e estamos todos

...quando nós somos bons, somos muito bons. E tu és uma prova disso, como há tantos lá fora que eu conheço que é difícil voltar, não têm cá condições. Mas somos de facto bons e lá fora reconhecem, vão-nos buscar, obviamente. Muito bem, cozinha. Por causa da cozinha molecular, agora que me lembrei disso. Nós temos azoto líquido e gelo seco em casa para fazer estes cozinhados moleculares?

Não temos, não é fácil.

E é perigoso também, não é?

Sim, tem que ser com algum cuidado, mas hoje está mais fácil do que nunca encomendar esse tipo de coisas.

É?

Sim, pode-se encomendar com um bocadinho mais ou menos de dificuldade. Gelo seco é uma coisa que eu acho que se pode encomendar, até muitas vezes para festas de anos.

Fazer aquela coisa que fica a sair, como aqueles coquetéis da Polinésia.

Mas a cozinha molecular manifesta-se em coisas tão simples como, por exemplo, a minha receita preferida, mousse de chocolate, só com chocolate e água.

A sério?

Sim.

E fica com a consistência cremosa da mousse?

Fica com a consistência cremosa da mousse, com um sabor muito mais profundo a chocolate. Não está mascarado com os ovos, com as natas e com as coisas que se põem. É só chocolate e água, portanto ele sabe mesmo a chocolate. Ou seja, tem que comprar um chocolate de boa qualidade, não é aquele chocolate-

Sim, mais corriqueiro.

Mais corriqueiro. E depois se quiserem, até podem pôr umas gotinhas de um aroma de laranja ou qualquer coisa assim, e o vosso mousse fica com um aroma diferente. É uma coisa que as pessoas às vezes quando pensam em cozinha molecular, pensam: "Tem que ser aquelas coisas em que sai fumo".

Exatamente.

E na verdade, há princípios da cozinha molecular que permite fazer coisas simplesíssimas.

Esferificar e coisas do gênero.

Coisas simplesíssimas com conceitos muito simples. Aliás, se eu um dia tivesse uma outra vida, a Mia bem diz que eu me meto em demasiadas coisas e acabo por ocupar o meu tempo com um bando de coisas. Uma coisa que eu gostava muito de fazer era oferecer uma cadeira de cozinha. Não lhe chamaria cozinha molecular, chamaria-lhe gastronomia química, algo assim.

Ok.

Porque eu acho que a definição de cozinha molecular tem um bocadinho aquela ideia de coisas exóticas.

Sim.

E eu gostaria de explicar às pessoas o que é que está a acontecer quando estão a cozinhar.

São reações químicas.

Para elas poderem controlar com o mínimo de equipamento, coisas em casa, sem precisar de fazer aqueles sous vides, aquelas coisas, com o mínimo de conceitos. Um dia destes, quem sabe? Quando os dias tiverem 36 horas.

Exatamente. Olha, achei piada porque o teu livro que vieste cá falar: "Como se transforma ar em pão: esta e outras questões que só a química sabe responder".

Não tem nada a ver com pão.

Pois não, mas muita gente foi logo assim fazer as experiências que tu lá puseste. Eu pretendo rir com isto. Vi um comentário depois ao teu livro. "Então acho que estou a experimentar coisas". Muito bem. Houve este depois no ano seguinte: "Como desvendar o quebra-cabeças da origem da vida: estas 27 perguntas sobre a vida e o universo que sempre quis fazer a um químico". Mais filosófico também, o que é que faz de nós seres humanos, do que é que é feito o universo, a origem da vida. Apareceu uma caixa com os teus dois livros, também muito engraçado. Dentre os problemas atuais, problemas uma maneira de dizer, das questões atuais, a inteligência artificial é muito importante e tu dizes: "Não há que ter medo, nenhuma razão para ter medo da inteligência artificial, porque as máquinas nunca irão conseguir atingir a nossa desordem". Eu adoro isto. Não há mesmo. Houve agora uma encíclica do Papa Leão XIV, extraordinária, "Magnifica Humanitas", onde ele diz: "A inteligência artificial não é má, mas também não é neutra. O maior perigo é reduzir o ser humano a dados e algoritmos". Isso é um perigo, diz ele. E também diz que o verdadeiro desafio da inteligência artificial é moral e espiritual. Não há algoritmo, diz ele, que possa tornar uma guerra moralmente aceitável. Incrível, uma visão interessante.

Uma visão interessante.

E de facto, a inteligência artificial não é para as pessoas terem medo. Tu já passaste essa fase.

Já passei essa fase.

O presente nosso, o futuro das minhas filhas.

Eu acho que é uma ferramenta fantástica, tem muitas possibilidades. É uma ferramenta perigosa. Aliás, vou falar disso amanhã.

No encontro com-

No encontro com professores do ensino secundário, que têm também eles muito receio. E a minha ideia da inteligência artificial é mais naquela ótica de: é muito boa a dar respostas, quando nós cada vez mais vivemos num mundo em que não há ninguém que coloca as perguntas certas.

Ok.

Porque como já terão reparado, tu escreves uma coisa hoje, recebes uma resposta. Amanhã escreves exatamente a mesma coisa e a resposta é sempre diferente.

Sim.

Portanto, não é um sistema em que colocar as melhores perguntas seja necessariamente recompensado, porque as pessoas também vão à procura da IA sempre para obter a sua resposta com o mínimo de fricção possível. E como eu direi amanhã aos professores, o grande perigo, na minha opinião, é a geração que cresce com isto na escola, perder a vontade de experimentar aquilo que eu chamo fricção associada ao ensino, que é aquele momento em que tu tens uma pergunta e não sabes a resposta, e nem sabes onde é que hás de encontrar a resposta.

Mas isso não leva a uma frustração ou a uma coisa? Isso é bom?

Aliás, eu sou pai de crianças de dois anos, a pior coisa que eu posso fazer é retirar-lhes todas as frustrações do caminho.

Exato. Treiná-los pra isso, porque vai acontecer toda a vida.

Nós vivemos numa era em que a criança está a sofrer um bocadinho pra apertar os sapatos: "Espera, o paizinho já vai mostrar como é que se faz". Não.

Evitamos todo o desconforto.

Estão a brincar com coisas e eu vejo que elas ficam frustradas e tiram com os brinquedos ao ar. E a vontade é ir lá mostrar: "Não, isto é assim que se faz. Olha como é que se faz".

Mas é importante passarem por isso.

A aprendizagem verdadeira só existe com fricção. E a IA apresenta um mundo completamente sem fricção, frictionless, em que a aprendizagem é tac, tac, tac.

Imediata, automática. Exatamente. Nuno Malo de Oliveira, temos que fazer aqui um rapidíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Nuno Malo de Oliveira, professor catedrático de química, investigador e divulgador de ciência, que nos traz o seu novo livro, "A Química das Emoções: uma viagem molecular pelo que sentimos", no qual se volta pra uma dimensão mais íntima da nossa existência: as emoções e os sentimentos. A ideia deste livro, este é uma edição Planeta, nasceu de um biberão. Aliás, de dois biberões. Foi ou não foi?

É.

Então por quê?

É verdade. Em parte. Eu comecei a escrever um capítulo, eu não sabia que livro ia resultar.

Ok.

Mas a Planeta disse que muito queria um livro novo.

Ok.

E mais virado pra emoções.

Com razão.

Obrigado. E comecei a escrever um capítulo chamado "A Química da Procrastinação", porque dei por mim sentado à frente do computador, com a página em branco, uma coisa que eu falo no livro, o dilema da página em branco. E não conseguia, não me saía nada. Eu pensei: "Olha, vou escrever sobre este ato de ter que escrever o livro e não conseguir fazer nada". E depois dava por mim sempre: "Ah, deixa-me ir aqui fazer esta coisa. Ah, tenho aqui este artigo pra corrigir. Vou chamar aqui este aluno pra conversar. Olha, vem, anda cá conversar. Entra". Os alunos passavam na porta do gabinete. "Entra, entra, estava fazendo o quê? Vem conversar um bocadinho". E ficou esse capítulo, mandei esse capítulo e pensei: "Olha, não sei como é que o livro vai avançar, mas este capítulo gostei de o escrever".

Exatamente.

E depois então aconteceu a cena do biberão.

Foi o quê?

Foi com as minhas filhas, pequenas, gêmeas.

Eu sou pai de gêmeos, então sei quem tu estás a falar.

É intenso. É intenso, sem ter a voz a viver na mesma cidade, é ainda mais intenso.

Pois.

Estávamos mesmo sozinhos, eu e o Junier, durante muito tempo.

Que é croata, não é ela?

Sérvia.

Sérvia, é isso. E então?

E então eu fazia às noites. A minha sogra foi morar conosco durante um mês, um mês e pouco, porque senão aquele começo não era...

Não é fácil.

Então estava a minha sogra meio morta na cama, a minha mulher ao lado e eu ali no quarto. A criança acorda e eu ponho o biberão. E depois apercebo-me, naquele momento, que as minhas meninas eram muito teimosas e continuam a ser, muito manientas. Se eu lhes mexesse o biberão um centímetro que fosse, ou se eu mexesse aquele braço que está com o bebê um centímetro que fosse, já desequilibrava e mandavam o biberão pra fora. Feliz de nós, quando elas acordavam, faziam "ah", a pessoa pegava nelas, fazia shh, shh, shh, punha o biberão na boca, elas bebiam, silêncio. E nesse silêncio, toda a casa em silêncio, toda a gente a dormir, não se ouvia nada, nem eu tinha mãos livres pra pegar no telemóvel, foi a sorte.

Pois.

Se eu tivesse três mãos, o livro não tinha existido.

Já vamos falar disso, do tédio.

Com duas mãos apenas.

E tens umas ilustrações com isso, com mudar fraldas.

Com duas mãos apenas, ocupadas, sem poder fazer nada, sem ter nada pra me estimular, a não ser olhar pra cara daquela criança linda, dei por mim a pensar: "Olha, e se eu fizesse isto?" E apareceram-me ideias pra startups, apareceram-me ideias pra me proteger, apareceram-me ideias pra resolver problemas que eu não tinha conseguido resolver dos meus dois colaboradores na universidade.

Foi um momento de criatividade incrível e inesperado.

E depois fui pesquisar um bocadinho e percebi realmente que há uma química muito especial que se ativa no tédio, que é uma coisa da qual infelizmente a nossa sociedade parece querer fugir como o diabo da cruz.

O horror do vazio. E como tu dizes, e tédio não é: "Ai, vou ficar a fazer scroll". Não, não é isso. Esconde o telemóvel e fica a olhar o ar, como tu dizes.

Ou fecha os olhos e pensa em nada. Tarefa: pensar em nada. A única agenda é pensar em nada.

É extraordinário isso, mas o nosso dia a dia não está formatado pra isso.

Está. Apanhar o autocarro era o momento perfeito pra fechar os olhos e pensar em nada. Mas as pessoas estão no autocarro, estão a fazer o quê?

Telemóvel.

Telemóvel. As pessoas estão no comboio, estão a fazer o quê?

Os meninos no recreio, na escola, o que é que estão a fazer?

Os meninos no recreio, na escola.

Agora pra cá estão a proibir, finalmente.

Finalmente.

A país a dizer: "Não, até aos 16 anos não queremos ninguém nas redes sociais". Eu acho que vai haver um ganho na geração futura com isso, se isso for generalizado, porque de fato estes meninos estão a ficar quadrados. O nível de inteligência está a descer por causa disso, porque está tudo a papinha feita. Não vão pesquisar nada.

Não há fricção.

Não há fricção, não há debate, ideias.

E a fuga do tédio limita imenso a criatividade.

Sim. É um grande laboratório de criatividade.

As melhores ideias, historicamente, as melhores ideias pra resolver problemas difíceis vêm de momentos de tédio. Sobretudo momentos em que se está a pensar em algo completamente diferente, que é o momento em que o cérebro consegue finalmente e começa a ligar aquele bocadinho de ontem com aquele bocadinho da semana passada, com aquele momento do ano anterior.

Sequer faz ligações inesperadas.

Com aquele momento da infância e de repente aparece ali uma ligação inesperada, como tu disseste agora mesmo.

É incrível. Também há quem tenha escrito que escreveste este livro, que este livro é uma declaração de amor à tua mulher, que é um livro muito emocional. Por quê?

Porque a minha mulher é muito emocional.

Fala de amor, também, mas fala de imensas outras coisas.

É uma pessoa muito emotiva e eu sempre fui o racional da nossa relação. E como é uma coisa que eu tenho reparado, as pessoas, sobretudo no nosso caso, quando são pessoas de feitios muito diferentes que se juntam, o amor leva àquilo que eu chamo uma convergência, em que cada um de nós se torna um bocadinho mais como o outro. Eu dei por mim a ficar um bocadinho mais emocional e a minha mulher a ficar muito mais racional do que era anteriormente. Acabamos por convergir um bocadinho na direção um do outro. E o livro é um momento em que eu digo: "Olha, afinal estas emoções todas não têm nada de mal. Antes pelo contrário São apenas demonstração de uma química muito vital.

Exatamente. Não é moral, é neuroquímica.

É neuroquímica. Não é moral, é neuroquímica.

É muito bonito isso. E é engraçado, a tua tese é um pouquinho deste livro: as emoções são processos químicos. Tudo o que sentimos resulta da interação de moléculas que atuam no cérebro. E depois aparecem estes arquitectos invisíveis do comportamento, como tu chamas. A dopamina, estes ingredientes deste cozinhar. A dopamina, ocitocina, serotonina, o cortisol, a vasopressina. Aprendi imensas. Noradrenalina, outras que eu não conhecia. Endorfina, sim, sabia, mas a maioria não. Adrenalina também a gente sabe.

Sim.

E de fato vais explicando, ponto a ponto, o tédio, o exercício físico, o jejum. Vais ponto a ponto. Por que nos apaixonamos? A perda amorosa, os cheiros, o que é que despertam, a autofagia. É extraordinário. E de fato eu começo a ver. E ele pega nestas peças de Lego e vai encaixando. Há mais desta, há menos desta, esta toma conta desta, esta sobrepõe-se. E de fato são estes componentes químicos que se vão organizando, os mesmos podem dar coisas diferentes conforme a intensidade.

E também é tudo muito pessoal. Cada um tem a sua química. Por isso é que há pessoas que têm tendência a ser mais alegres, outras pessoas têm tendência a ser menos alegres. Tem tudo a ver com a química do nosso cérebro e eu acho que é importante não demonizarmos: "Fulano é muito nervoso".

Ou é muito emotivo.

Fulano é muito impulsivo.

É muito racional, não tem filtro. Exatamente, tu falas nisso.

Não é defeito, é feitio.

Temos que mostrar que isso não é defeito.

É química, como dizia outro.

E mostras um pouquinho que as pessoas mais emotivas não são mais frágeis, não é necessariamente ser mais frágil. É muito curioso isso.

E foi nesse sentido que eu escrevi o livro. Aliás, pra mim o livro estava completo sem o capítulo oito.

Que é o amor. Pois eu percebi, tu tiveste uma resistência a escrever sobre o amor. Mas é que é tão importante.

Sim, foi o que a editora disse.

Claro.

Não podemos publicar um livro sobre emoções sem...

Tu querias escapar, não conseguiste.

E eu disse: "Mas eu não vou escrever um livro sobre a coisa que as pessoas mais escreveram".

Ao longo desde os gregos.

Exatamente. Que é aquela fase do amor, da paixão, outra fase do não sei o quê, outra fase do tédio. Não vou escrever isso. Não vou, Nuno, mas tens de arranjar maneira de escrever um capítulo sobre amor. Depois passávamos pra aí um mês e meio nisto. Porque o negócio estava fechado.

Neste bate-bola.

Neste bate-bola e eles queriam, eu não queria, eles queriam, eu não queria, e eu disse: "Ok, então eu vou escrever um livro, um capítulo sobre o amor, como nunca foi escrito".

Até hoje.

Numa ótica diferente. Na ótica do amor, é aquela emoção estranhíssima, que nos faz fazer algo completamente contra a nossa natureza.

Sobrevivência.

O nosso instinto de sobrevivência, que é desarmarmos voluntariamente perante um outro membro da mesma espécie.

É tudo menos autopreservação.

É tudo menos autopreservação.

Deixamos cair todas as defesas. E tu dizes: "Isto não é normal no ser humano normal", porque digamos que o seu instinto é sobrevivência, é lutar, sobrepor-se, é conseguir vencer o outro. E não, ali desarmamos, deixamos acontecer tudo e fazer tudo, até ao doentio, às vezes.

Por causa da química.

É extraordinário.

Mas ao mesmo tempo, não somos obrigados, é a mesma conversa que tivemos no começo da entrevista, não somos obrigados a deixar-nos subjugar por isso. pesar que há pessoas que se amam e decidem não viver juntas.

Exatamente. É muito curioso. Aqui entra a dopamina, o motor do desejo. Ocitocina, portanto, esta molécula da ligação. Serotonina, estabilidade emocional. E a vasopressina, que eu não sabia, este pilar, o compromisso, a fidelidade, o sustentar da relação.

Aliás, está em preparação, não sei se vamos falar isso, provavelmente falaremos da minha conta de Instagram em breve. Está em preparação um vídeo, que pensei em gravar pro Instagram, relacionado com isto.

Boa.

Porque há pessoas que têm muita dificuldade, por exemplo, em esquecer os ex-namorados.

Sim.

E que passam-se anos e continuam a falar do ex-namorado ou da ex-namorada.

E outros que não se dão bem. Não estão bem com isso, o parceiro, obviamente.

Exatamente. Outros já não estão bem com isso.

Claro.

E ficamos a pensar: "Mas tu gostas mais do ex-namorado do que da ex-namorada comigo?"

Exato, por que estás sempre a trazer isso?

E, na verdade, também tem muito de química. Tudo tem a ver com química.

Exatamente.

Não quero levantar demasiadamente o véu, mas é uma questão de hábito.

Ok.

O namorado, a namorada, o companheiro de cinco anos, o companheiro há 10 anos, é uma pessoa que estava sempre lá, que mandava mensagens.

Sim.

Que aparecia pra ir tomar café.

Estava muito presente.

Que aparecia pra almoçar.

Sim.

Que aparecia pra jantar, que estava presente.

Sim.

E de repente essa pessoa não está presente, mas o nosso cérebro ainda está à espera.

Ficou com esse vácuo.

Ou ainda está à espera. Porque o nosso cérebro é muito bom. Não sei se já percebeste isto.

A ligar ao hábito.

O cérebro passa a maior parte do seu tempo e da sua energia a tentar antecipar o que vai acontecer.

Ok.

Porque é um instinto de sobrevivência mais forte que nós podemos ter, é antecipar.

Exatamente. Não ser surpreendido.

Não ser surpreendido.

Exato.

E com isso o cérebro habitua-se. Se pensares na complexidade das coisas que tu fazes no teu dia a dia, todos os gestos, todas as motóricas que fazes. É tão complexo que se o teu cérebro, se tivesse, por exemplo, que pensar de cada vez que está a respirar.

Sim, que chatice.

Que chatice.

Ainda bem que há coisas automáticas.

É uma sobrecarga.

Sim.

E há certas coisas da tua vida que se tornam automáticas, como a presença daquela pessoa.

Exatamente. Então se foi um namoro de cinco anos, sete anos.

E o cérebro simplesmente antecipa e espera.

E por isso é que não lembra-se de trás. Ok.

É porque o cérebro antecipa. Não é um caso de ainda estar a amar aquela pessoa, é um caso do teu cérebro ainda não ter recebido a mensagem.

Então. Exato.

Ainda não recebeu a mensagem, aquela pessoa já não vai aparecer.

Quando é que volta àquele equilíbrio, àquela energia mínima, aquela coisa que estou habituado. Que engraçado. E como é que se combate isso? Agora digo eu, ao ensinarmos isto tudo, Nuno, tu dizes: "É pra gente ter conhecimento, e pra gente poder também modular isso e ser racionais".

Mas não é um livro de autoajuda.

Pois não, tu fazes questão de dizer.

Nem quero nunca na vida entrar por essa ótica, não sou psiquiatra.

Não és aqueles influencers famosos.

Não sou nem influencer, nem famoso.

O cérebro pode nos enganar, é verdade, mas a pessoa também não pode enganar o cérebro e dizer: "Não quero nunca mais pensar nesta..."

Claro. Então, mas a questão da procrastinação é a mesma coisa. Tens que perceber como é que o cérebro funciona. E o cérebro funciona muito à base de: eu quero uma resposta rápida a qualquer ação que tomar. Eu quero receber dopamina rapidamente como recompensa por aquilo que faço.

Ok.

Por isso a resposta, por exemplo, à procrastinação, no meu caso, foi: em vez de ter na minha lista de coisas a fazer, escrever um capítulo sobre não sei o quê.

Sim.

Desconstruir essa tarefa, que é uma tarefa difícil.

Sim.

Só podes pôr um check quando acabares de escrever o capítulo. Comecei a desconstruir em: escreve agora quatro bullet points sobre o que vais falar no capítulo.

Ok.

Que é muito mais fácil de fazer.

Mais fácil. Pronto, mais fazível.

Lê três artigos sobre esta temática.

Boa. Exatamente.

E de cada vez que tu podes fazer um check numa destas missões, o teu cérebro recebe quase como uma recompensa. É quase como passares um nível no jogo de computador.

Exato.

Ganhaste! Já podes ir embora sabendo que fizeste o que tinhas a fazer naquele dia.

Agora, pontos extra, bônus. Continua.

E portanto, quando se desconstrói estas coisas, estamos a jogar com aquilo que o cérebro quer, que é receber recompensas em momentos.

E vais cumprindo a tarefa que tinhas estado a procrastinar desde o princípio. Também, isso é bom.

Exatamente. Simplesmente por desconstruir.

É um bom truque.

É a gamificação das tarefas.

Como é que tu reages com esta expressão, falámos do amor, tem que ser, esta expressão do haver química entre duas pessoas? É uma coisa que te faz rir, diverte, não achas graça nenhuma?

Sim, porque é uma química muito especial.

De facto há. Como tu dizes, o amor não é só química, mas sem química não haveria amor.

Sem química não haveria amor.

Exatamente.

Não é só química, porque depois há uma escolha. Há uma escolha de tomar uma ação em relação àquela-- eu conto sempre a história de como conheci a minha mulher.

Por acaso não sei. Conta.

Não sabes?

Não.

Foi num evento na Universidade de Viena. Eu era membro do júri de um comitê de habilitação, que é o equivalente à agregação aqui em Portugal, para a pessoa ter a permissão de dar aulas para os estudantes. E o candidato em questão era um colega italiano. No grupo de investigação dele tinha muitos italianos, entre os quais uma estudante de doutoramento, que vivia partilhando, era roommate da minha mulher, da minha futura mulher.

Sim. Ok.

A minha mulher estava a estudar Farmácia, então não tinha nada com aquele grupo de investigação, simplesmente a roommate dela era uma estudante de doutoramento naquele grupo. E a roommate dela levava-a para as festas todas dos italianos, que eram todos italianos. Os italianos gostam muito de se recrutar uns aos outros.

Exato.

E ela conhecia o pessoal todo do grupo de investigação. Portanto, quando houve a habilitação com festa a seguir, a roommate disse logo à minha mulher: "Vai haver festa a seguir, vem, vai ser divertido". E a minha mulher nesse dia tinha que trabalhar. E a minha mulher disse-me, e a roommate confirmou, que nunca tinha faltado ao trabalho sem estar realmente doente. Ela tem uma ética laboral muito forte.

Irrepreensível.

Irrepreensível. Nunca lhe teria passado pela cabeça telefonar a dizer: "Não posso porque estou doente", sem estar doente.

Exato. Mentir.

Talvez até por receio.

Também pode ler sobre mentira, já sabe, ficar ouvindo.

Capítulo sobre mentira.

Exatamente, na química das emoções.

É verdade.

Mas diz.

E nesse dia a roommate insistiu tanto: "Mas vem, vem, vai ser divertido". E ela foi.

Incrível.

Se ela não tivesse sido, não nos tínhamos encontrado.

Exato.

E ela aparece e está no auditório em que está a fazer a apresentação e a argüência da tese. E o auditório é daqueles auditórios muito em declive.

Exatamente.

E eu estava na fila da frente, a minha mulher estava lá em cima, nas últimas filas. Não tinha interesse nenhum eu vir aquela apresentação.

E é aquele perfil mais bonito, mais inteligente, mais coisa, está na primeira fila. E tu reparou que eras tu.

Não, ela só ouviu a minha voz.

Ok.

Porque eu levantei a mão, fiz umas perguntas, porque eu era o especialista, fiz umas perguntas na argüência, e a minha mulher ficou muito desassossegada.

Pela voz?

"Quem é esta voz? Quem é esta pessoa?"

Que curioso.

E tentou ver, mas não conseguia, porque o declive era tão grande, não conseguia ver.

Tão acentuado.

E perguntou à roommate, e a roommate: "É um professor chato de Química, não queres saber quem é. É um tipo desinteressante, o Nuno Maulide".

Mas não disse. Desencorajou.

Desencorajou. E acabou aí. Acabou, bateram as palmas, ele passou, o júri fechou-se e deliberou que ele tinha passado.

Muito bem.

E depois, no final, eu nem costumava ficar para as festas a seguir, porque eu tenho sempre muito trabalho para fazer. Geralmente, a seguir a estas coisas, eu iria para o meu gabinete, não conhecia ali ninguém, responderia e-mails. Mas naquele dia decidi também eu próprio ficar ali um bocadinho.

É um monte de coincidências.

Beber um copinho, comer umas coisinhas, tinham uns canapés bons, uma coisinha boa. E de repente, em mesas daquelas mesas de standing, para receção, mesas volantes, como se diz em português. Eu vejo, a três mesas de distância.

A mulher mais bonita que já viste.

A mulher mais bonita que alguma vez vi na vida. Mas mesmo. Os olhos mais fascinantes que alguma vez vi na vida. E naquele momento, houve ali química. Depois eu tive um momento muito difícil de decidir o que é que eu fazia, porque eu estava ali como professor, aquela pessoa nem sei quem era.

Mas provavelmente seria uma aluna.

Seria uma aluna, isto é um contexto social, não é apropriado eu agora estar a fazer o que quer que seja. O que eu vou fazer? Não faço, não faço, mas é a mulher mais bonita que eu vi na minha vida. Avanço, não avanço, não vou, não vou, mas se calhar eu podia ir só falar e tirar o número de telefone, depois saímos daqui.

Mais tarde, exatamente, noutro contexto.

Pronto, acabei por avançar, com alguns recuos, fui, não fui, depois ia, depois não ia, depois avançada parada. Desviado para ir para ir comer mais uns camarõezinhos, umas coisas.

Procrastinava.

Procrastinava, exatamente. E lá decidi ir falar com a roommate, porque eu conhecia a roommate, como era estudante de doutoramento, a minha mulher não tinha nada a ver com a área de química orgânica. E começo a falar com a roommate um bocadinho e depois, de repente, meto conversa com a minha mulher. E digo: "E quem és tu?" E a minha mulher olha para mim com um ar interessantíssimo e diz: "E quem és tu?" E a conversa começou num ponto até um bocadinho frio. De repente, começámos a falar um com o outro. Eu digo uma coisa, ela diz outra coisa. De repente, a roommate afasta-se para ir buscar mais comida. As outras pessoas na mesa volante começam a sair umas das outras e ficamos só nós os dois a conversar, a conversar, a conversar durante duas horas e meia.

É uma história de amor extraordinária, Nuno.

E trocamos números de telemóvel e nessa noite mandámo-nos muitas mensagens.

Houve atração física também, portanto, da química passaram para a física. Estava tudo.

Estava escrito.

Muito bem. Ser pai, como tu foste, Nuno, muda tudo. É, de facto, o amor mais forte, como tu escreves no teu livro. O teu eu deixa de ser o centro, a prioridade, e desfoca-se. É um bocadinho também este desarmar do amor.

É um desarmar completo. E perder o foco sobre si próprio é muito importante, porque a pessoa não chega onde chega em termos de carreira, sem ter um foco muito grande no seu desenvolvimento pessoal. De repente, retirar o foco de si Para ver as coisas com outra perspectiva. Aliás, o foco em mim, neste momento, existe mais na ótica de: eu tenho que ter cuidado com o que me acontece, porque eu não quero que estas miúdas fiquem sem pai.

Eu já não sou sozinho.

Não és sozinho.

Há pessoas dependentes de mim. Claro que sim.

Aliás, aquela famosa oferta de que falámos, que chegou o ano passado, a decisão foi muito condicionada por: eu tenho que levar agora duas crianças pequenas e a minha mulher, e temos que nos desenraizar daqui desta cidade para ir criar raízes num sítio diferente.

É extraordinário. Este livro vai falando, nós estamos a terminar, mas só para dar aqui a dica, vai respondendo a estas perguntas: por que sentimos borboletas no estômago quando a gente se apaixona? A perda amorosa, tudo isto, o que isto implica, o exercício físico, as mioquinas. Aprendi sobre as mioquinas e a BDMF. Não fazia ideia. Estas moléculas libertadas pelos músculos. Portanto, quando a gente faz exercício, também há uma melhoria cognitiva, o que é muito importante.

É o cérebro que ganha. É verdade.

É uma novidade que eu, por acaso, não sabia. O desempenho cognitivo também melhora.

Exatamente.

O que é muito bom. Isto é em concreto, mas este livro e as emoções, esta química com aquele superpoder das mães que, por exemplo, o filho foi atropelado e há mães que de repente conseguem levantar um carro para cima e libertar o filho. Juro que quando li o livro pensei nisso. Há mães que fisicamente, isoladamente, não conseguiriam levantar nada, mas há mães que conseguem levantar um carro para tirar o filho que está debaixo de uma roda ou debaixo de um carro.

São os momentos de alta operação.

De repente, todos os músculos se ficam com aquela energia. É extraordinário.

Que demonstra bem que essas mesmas mães, se quisessem, até podiam ser bodybuilders.

Exato. Naquele momento é extraordinário o que se consegue fazer. Falas da autofagia também, dos cheiros. É muito importante isto, a ligação direta entre o olfato e a memória. Muito importante. O prazer da comida, o tédio, falaste aqui já, foi este capítulo que te deu mais gozo escrever.

Foi.

No fundo. É uma grande força criativa.

Foi o capítulo que no fundo desencadeou o resto do livro, porque quando eu escrevi a procrastinação seguida do tédio, eu percebi: "Ok, este livro vai ser assim".

Sobre isto.

E depois todos os outros capítulos aparecem mais ou menos de forma natural.

Contas a história do Einstein, que dizia que a teoria da relatividade foi escrita nos correios de Zurique, ele a trabalhar.

A fazer as coisas mais monótonas.

A pegar papel e carimbar, pegar papel, carimbar. Enquanto há aquela coisa automática, vieram várias ideias da teoria da relatividade.

Para uma razão é que o eureka aparece com Arquimedes numa banheira.

Exatamente. E aliás, há algum livro recente que diz a história das ideias. Como é que as grandes ideias surgiram. É um livro lindíssimo. De facto, eu vi muito aqui nesta tua obra. E depois, finalmente, o envelhecimento, que também não é necessariamente mau, como tu dizes, é uma oxidação, as rugas, aquilo do carbono. Nós estamos já a converter-nos no ambiente, o que é bom, é uma coisa boa.

Não é bom. Aliás, a perspectiva ecológica do ser humano.

É a maneira como se olha que faz toda a diferença do envelhecimento. É muito curioso.

Infelizmente, vivemos numa sociedade que demoniza um bocadinho ficar mais velho, quando, na verdade, estar velho é simplesmente, como eu digo às vezes, é a prova de que já estivemos aqui e já vivemos bastante e já demos a nossa contribuição de carbono.

A tua é extraordinária e, portanto, é muito bom. Nuno, tenho que acabar com este convite para as pessoas, para os nossos ouvintes, para o teu Instagram, Nuno Malide. Podem ir.

É o mais fácil de todos.

O mais fácil. Tu postas imensas coisas muito curiosas que nos surpreendem, desde que bactérias é que há numa esponja, a manola, de lavar a louça, por que faz mal isto e aquilo.

Por que as janelas dos aviões são redondas.

Exatamente. Porque quando eram quadradas, provocavam acidentes e depois explicas tudo. Muito bem, fica aí então esta dica: "A Química das Emoções", do Nuno Malide. Uma viagem molecular pelo que sentimos da edição Planeta. Nuno, ainda bem que te apanhei cá, entre vindas da Áustria para cá, porque foi muito bom conversar contigo e ao vivo e ficamos à espera da tua próxima obra para voltares. Muito obrigado por teres vindo, Nuno.

Obrigado pelo convite.