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Por isso é que é importante ler mulheres escritoras, é importante ler escritores estrangeiros, é importante perceber essas realidades, porque vão nos dar o outro ponto de vista. Isso é sempre interessante para o compreendermos e para o aceitarmos mais. Para o aceitarmos, ponto final.
O arranque é já esta sexta em Braga. Vão ser 10 dias com a programação que assume a literatura como peça central e em que conversas com autores, lançamentos, leituras cantadas e comentadas, entrevistas, podcasts, exposições, espetáculos, filmes, oficinas, debates, workshops e sessões em escolas vão decorrer em vários espaços da cidade dos arcebispos. Aí está a terceira edição do Utopia, o festival literário de Braga. Entre as novidades mais aguardadas estão os jantares literários, que juntam autores e leitores em volta da mesa para momentos que combinam o melhor da gastronomia com a partilha de histórias. Além de uma peça do mestre Macedo de Sousa Tavares e outra do cardeal poeta Tolentino Mendonça. Vai haver também uma extensão digital, outra à Colômbia e uma projeção para os Açores. Para saber tudo, convidei o seu diretor, Paulo Ferreira, fundador da Booktailors, diretor-geral da The Book Company, para nos falar desse festival criado para ser uma marca global e saltar fronteiras e que vai levar dezenas de convidados a Braga nos próximos dias, entre os quais nomes como o Prêmio Nobel de Literatura 2021, Abdulrazak Gurnah, mas também Mia Couto, Ricardo Araújo Pereira, Frederico Lourenço, Cátia Guerreiro, Afonso Cruz, Mário Cláudio e Dino Santiago. Olá, Paulo, e bem-hajam por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo de volta à Rádio Observador, porque tu já tinhas estado aqui na primeira edição há dois anos. Tu, Paulo, uma coisa que eu de repente reparei, tu no meio do teu nome tens Jorge Jesus.
É verdade.
Além que Paulo Ferreira, o teu nome é sempre complicado.
Sem qualquer mérito na escolha.
Mas tu divertes-te ou assusta-te quando vês notícias do-
Não me assusta nada. Eu próprio já faço a brincadeira.
O Jorge Jesus podia ser o patrocinador teu. Está incluído no teu nome. O resto adorou, o Paulo Ferreira. É um colega meu aqui do Observador, que todas as manhãs cá está e que aliás também vai estar nesta Utopia e já esteve na primeira edição também. Muito bem, The Book Company, a tua empresa, esta tua paixão com os livros, eu gosto sempre de lembrar isto, a tua paixão, este clique com os livros veio com o Tom Sawyer, que é uma coisa extraordinária.
Veio com o Tom Sawyer, a versão infantil, nem sequer foi a versão para adultos. Foi uma versão infantil, um livro que me ofereceram aos oito anos.
E foi no aniversário, se não me engano.
Foi no aniversário.
E lembras de quem te deu?
Lembro perfeitamente, foi a dona Isabel que mo deu e a dona Guiomar.
Que são amigas dos seus pais?
São pessoas muito amigas dos meus pais.
Pensava que era um tio ou um avô.
Mas foi ela que me ofereceu o livro. Tenho-o ainda na estante.
Foi o trigger, foi o teu gatilho.
Foi a versão infantil. Eu digo sempre isso, depois mais tarde, apesar de gostar muito do Twain, li a versão-
Para adultos. Descobri que havia uma segunda.
Mas a verdade que eu gostei realmente foi aquela inocência dos oito anos e estar a comer o que ficou da festa de aniversário do dia anterior, as sobras.
Na varanda dos seus pais.
Na varanda.
O dia inteiro.
Tu lembras-te disto?
Como estava lá. O repórter estava lá.
Mas é isso mesmo.
E ficaste apaixonado por aquela leitura. Que giro.
Fiquei apaixonado por aquela leitura e percebi que aquilo era um espaço que me era muito confortável e que eu gostava muito. E a partir daí, talvez tenha se perdido um diplomata, não sei, ou que estivesse nas relações internacionais, ou uma série de outras áreas.
Ou um publicitário de carreira continuada.
Ou um publicitário, onde fiz carreira.
É engraçado, tu tinhas muitos livros em casa, Paulo, o que é muito bom, mas também ias à biblioteca. Por quê?
Ora bem, eu na verdade tinha muitos livros em casa, mas tinha muitos livros em casa porque meus pais achavam que era importante terem livros, nomeadamente os do círculo de leitores, o senhor que chegava, entrava em casa, mostrava o portfólio. E os meus pais sempre acharam que era importante ter livros. Apesar de eles próprios não terem grande capacidade para absorver muito do conhecimento que está ali, e é algo que lhes vou estar grato a vida toda, porque foi efetivamente aquele bichinho que fez com que eu aos 15 anos olhe para a estante um bocadinho antes de entrar no secundário, o que é que eu tinha? Tinha a geração de 70, tinha uma coleção da geração de 70 do Círculo de Leitores, tinha as obras do Camilo, tinha as obras do Aquilino, Terra Quental, etc. E eu acabo por, sem ter grande preparação ainda, entrar naquele universo. E a verdade é que até ainda hoje, e fiquei muito feliz de ver, o trabalho que foi feito dos 200 anos do Camilo, porque o Camilo foi um daqueles autores que me pegou pelos colerinhos.
Que giro, boa.
E que eu acabei por ler aquela coleção toda e mais tarde a Biblioteca Surdas, porque eu chego ao ensino secundário, saio de uma vilazinha em Alhandra, vou para Vila Franca, e onde existiam bibliotecas públicas, coisa que eu não sabia que existia até então. E a verdade é que a primeira vez que requisitei um livro, devo ter feito uma triste figura, porque cheguei ao final e perguntei quanto é que era, porque achava que era como videoclube.
Tão bom.
Eu ia ao videoclube.
Exato.
Para os nossos ouvintes mais novos, era aquelas lojas onde nós pedíamos por um, dois, três dias ver um filme.
Blockbuster ou o que fosse.
E nós pagávamos. E eu achava que era a mesma coisa, que alguém me ia pedir 100 escudos, 150 escudos, algo assim. E quando eu percebi que não só não pagava, como podia trazer sempre dois filmes, aliás, dois livros, creio que um filme e um CD, aquilo foi uma excelente notícia.
É fantástico. Outra coisa que eu adoro a tua relação com os livros, que é tu não levas muito a sério o objeto livro. Tal como eu, praticas a marginalia, escreves nas obras, coisas emprestadas. Não te lembras a quem emprestaste.
Não, não me lembro. Esqueço-me de tudo.
Ainda bem, principalmente.
Se alguém estiver a ouvir isto e tiver um livro meu, pode mandar um WhatsApp e devolve. Mas não, é verdade, eu esqueço-me por completo disso e tenho uma relação muito saudável.
Tens respeito pelo conteúdo.
E agora o melhor disto tudo, sabes o que é? É que eu disse, a minha filha tem cinco anos. Olá, Maria, se estiveres a ouvir. E certa alhura no outro dia disse-lhe: "Estás a ver esta estante toda?" Nós temos uma estante gigante em dupla fila com livros, e disse: "Isto é tudo teu". E ela levou aquilo muito a sério. Então volta e meia diz: "Vai buscar um livro." Eu disse: "Maria, cuidado com o livro, não disseste que era meu." Portanto, passou a ser dela.
Que idade é que ela já tem?
Ela tem cinco anos.
Incrível.
E ela já olha e diz: "Isso é tudo meu, o pai disse que é meu". E é verdade, é tudo dela.
É um privilégio e uma sorte só trabalhar com livros?
É um privilégio e acho que é uma sorte. Não me estou a fartar de trabalhar com livros. Claro que com a idade vamos nos tornando mais esquisitinhos, se calhar, com aquilo que pegamos e porque se calhar também começamos a perceber que não vamos ter tempo de ler tudo.
Exatamente.
Mas é um grande prazer e continua a ser uma obsessão, e felizmente-
Pior é o espaço.
Pior é o espaço. Neste momento já não há espaço em casa. E nem sempre é fácil estar numa casa onde há livros em todo lado.
Sim. Eu lembro da finca do Hemingway em Cuba, que era na casa de banho, móveis, livros na casa de banho. Até na casa de banho.
Na casa de banho não tenho, confesso.
Eu tenho alguns.
Não tenho, confesso.
E é engraçado porque, e aqui é esta homenagem que eu quero fazer, o programa "Mil Imagens" do José Nuno Martins na RTP, foi algo que te seduziu muito, viste aquele programa, adoravas aquilo e pensaste: "Eu gostava de ser publicitário". E aliás, a tua carreira começou na publicidade uns anos.
Queria ser publicitário quando vi o programa.
A importância do programa.
Sim, foi pelo programa. Achava aquilo tudo sensacional.
Tem tido várias curiosidades, dizem: "Vê as reportagens dos médicos, não sei o quê, eu vou para Medicina". É tão engraçado a importância e a influência que isso pode ter, é incrível.
Foi um programa que eu via religiosamente e que me fez pensar: "Se calhar posso fazer isto", porque eu tinha alguma dificuldade, até porque isto revelou-se mais tarde, mesmo quando se faz. Eu sempre achei que os livros eram uma paixão tão grande que eu nunca achei que ia ter a oportunidade de trabalhar. Uma parte de mim que achava: "Não, isso é bom demais para ser verdade". E então também tinha ali um bocado o que é que será, o que é que hei de fazer. E aquilo surgiu talvez como a primeira profissão que eu pensei: "Se calhar posso fazer isto". E a prova é que havia ali uma grande confusão, é que eu quando chego ao 12.º e faço aqueles testes psicotécnicos, creio que no nono e 12.º, já não me recordo bem, e de repente aquilo era uma confusão. Parecia que dava para tudo, mas ao mesmo tempo não dava para nada.
Tens vários talentos.
Quando eu termino a faculdade, já licenciado em relações internacionais.
Relações internacionais, é verdade.
Gostei muito de estar em Ciências Sociais, mas percebi que aquilo não era a minha vida. Gostei muito do curso, da escola e dos colegas, mas percebi que não era a minha vida. Mando duas cartas que dizia bem a minha esquizofrenia. Mandei uma para uma agência de publicidade, que me chamou no dia a seguir, e uma outra para o Teatro Nacional.
Estás a ter em conta tudo.
Porque era a confusão que havia na minha cabeça. Eu, por um lado, gostava de teatro, gostava da palavra, do texto, etc. E achei que era uma boa instituição onde podia trabalhar mais perto da cultura, mas, por outro lado, havia aquele bichinho pela publicidade. E foi a agência de publicidade que acabou por me chamar no dia seguinte e entrei numa agência de publicidade. Ainda estive lá alguns anos, mas assim que pude e percebi que era uma possibilidade, mudei-me para os livros e não me arrependi.
Exatamente. Este mundo, hoje em dia, Paulo, está a mudar muito, com guerras, extremas-direitas, populismos, fundamentalismos, tudo a crescer. A literatura pode ajudar ou a cultura pode nos salvar aqui? É essencial.
É, porque é essencial para nós vermos o outro. A questão da empatia está em tudo, nas peças literárias, como é evidente. Todos nós moldamos e criamos imagens, seja de um território, seja de uma realidade, de uma religião, de uma língua, de um país, de uma cultura, a partir daquilo que lemos. Para não entrarmos em temas mais tristes e deste momento que estamos a viver, que temos que estar todos muito atentos e que devemos preservar aquilo que temos. Quando fui à Colômbia a primeira vez, e é um país onde já fui muitas vezes, inclusive o "Utopia" já foi para a Colômbia. Também por essa paixão à Colômbia.
Medellín?
Em Bogotá e Medellín. Mas na verdade, a primeira vez que eu aterrei em Bogotá, eu estava à espera de encontrar o realismo mágico do García Márquez. E claro, quando nós chegamos, é uma urbe absoluta, com 10, 15 milhões de pessoas, não tem nada a ver com aquilo que nós víamos nos livros. Quer dizer, a ideia que eu formo de um território é a partir da literatura, é o que eu conhecia da literatura. E como é evidente, os livros, a ficção, a literatura, está ao serviço de uma certa imagem, de uma certa forma de olhar o mundo. Se as pessoas lerem mais poesia, rapidamente vão separar o joio do trigo, também a nível político.
Também é muito importante conhecer o outro. Não é só ler as notícias do Bangladesh, é se calar conhecer romancistas locais. É tão importante isso, conhecer por dentro.
Vamos perceber.
O imaginário deles, quanto mais não seja, conhecer melhor.
Vamos ver o outro.
Isso é importante.
E a literatura dá-nos isso.
Próximos do mundo.
Claro. Por isso é que é importante ler mulheres escritoras, é importante ler escritores estrangeiros, é importante perceber essas realidades, porque vão nos dar o outro ponto de vista. Isso é sempre interessante para o compreendermos e para o aceitarmos mais. Para o aceitarmos, ponto final. Para o aceitarmos, que é o mais importante.
É o mais importante e começa aí.
Exatamente, é aí que começa. E essa empatia vem pelos livros. Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas disso, que se calhar podemos mandar uma biblioteca essencial a um certo grupo parlamentar.
Sim. Não vamos dizer o nome. Vamos avançar. Tu consegues ler coisas, Paulo, sem ser profissionalmente?
Sim.
Às vezes também acontece de decidir: "Adorei esta coisa, ainda bem, porque eu vou convidar este homem ou esta mulher."
E obriga-me, obviamente, pela profissão que tenho, a conhecer nomeadamente os novos autores e estar atento ao que vai saindo. Não tenho hipótese, mas tenho muita leitura. Aliás, posso dizer que metade do que leio não é para fins profissionais. Eu gosto muito de ler ciência e nem sempre posso levar tanta gente de ciência quanto gostaria aos festivais literários. Gosto muito de certos períodos da história e nem sempre aquilo se vai coadunar com a programação que estou a planear. Gosto muito de miscelâneas, de histórias meio absurdas, biografias.
Até já entraste nisso duas vezes.
Exatamente. Gosto muito de biografias, mas muitas vezes as biografias que eu estou a ler é de um período completamente distante.
Os ingleses têm muito essa relação com a biografia. Nós ainda não temos muito. Mas começa agora a haver com a Vemma Quetzal, com esta coleção Contraponto, com esta coleção Das Vidas, está a fazer um grande trabalho nesse campo.
Já temos bastante. Quando não é feito de raiz, as principais traduções estão cá. Depois algumas não estão, porque o Kafka tem uma biografia com cinco volumes, claro que é impossível alguém trazer alguma vez essa obra.
Não é Strachwitz que está cá.
É muito difícil.
Claro, quando se fazem as contas. Tu continuas a ler um livro por semana e ainda consegues manter essa-
Um bocadinho mais, até, às vezes. Agora, neste período, nos últimos dois meses, mentiria se dissesse que consegui, mas regresso a um bocadinho mais.
E já abandonaste livros sem terminar?
À vontade.
A sério? Eu sempre abandonei. É como os filmes. É muito raro levantar-me e ir embora.
Se for uma leitura profissional, se calhar tenho que levá-la até ao fim.
Pois, é isso.
Pronto, ok. Aí, se calhar, porque falo com o autor, porque tenho que planear a mesa, porque tenho que pensar com quem é que eu vou cruzar aquele escritor e obrigo-me a ler o livro até ao fim. Mas se for uma leitura por mim.
Por prazer.
Sem qualquer espécie.
De prurido.
Sim, sem qualquer prurido.
Quantas pessoas é que têm The Book Company? Vocês são quantos? 10, 12?
Em volta de 10, sim.
Continua o mesmo desde que fundaste. Vais fazer, quê? Há quase 20 anos que existe.
Sim, faz 20 anos. Com o BookTellers em 2006. Para o ano faz 20 anos.
20 anos, incrível.
Com a empresa faz um bocadinho menos, porque nós já tínhamos a marca antes. Mas cerca de 20 anos.
Mais de 100 grandes eventos, a gestão de 300 contratos internacionais. É possível isto?
Sim, porque nós fomos agentes durante algum tempo.
Sim, agentes literários.
Só um escritor, que já falámos antes de entrar em direto, que estamos ambos muito, o Afonso Cruz. Foi uma centena, não só o Afonso. O Afonso, quando começámos o trabalho com ele enquanto agentes.
E muito trabalho tiveste com ele, com certeza.
Mas prazeroso.
Ele faz tudo.
É maravilhoso trabalhar com o Afonso.
É um dom.
E só o Afonso foi cerca de uma centena de contratos.
Meu Deus!
Só o Afonso.
Estes mestrados em edição, tu continuas professor destes mestrados?
Neste momento, estou sobretudo na Lusófona, no Charro de Aveiro, na Católica.
Aveiro já não, mas é Lusófona, sim. Disciplina de Marketing do Livro. Mas é engraçado estes mestrados, tu dizes, mesmo os grandes grupos literários e as pequenas editoras também, deviam aprender mais sobre o assunto. Achas que vês alguns erros de palmatória na maneira de conduzir eventos?
Eu acho que as pessoas estão cada vez mais profissionais e neste momento o conhecimento está bastante disseminado E acho que é notável o que acontece no setor editorial hoje em dia. Acho que houve uma grande evolução, nomeadamente na marketização do livro nos últimos 20 anos e não estamos atrás de qualquer outro mercado maduro. Claro que depois tem uma questão, que é escala, é dimensão. Nós somos um país com as características que temos. E à nível de escala, à nível de dimensão, obviamente, isso depois reflete-se, mas não me parece que estejamos fora do que de melhor se faz lá fora.
Tu tens uma coisa parecida comigo neste aspecto do e-book e do e-reader. Eu sou muito amante do objeto livro, gosto muito e nada me tira o lápis e escrever e poder fazer o que eu quiser. Mas de facto ofereeceram-me há uns anos um e-reader e eu de férias, aí dá jeito, porque levo, não incomoda ninguém na cama ao lado, aquilo tem luzinha própria. Dá mesmo jeito. Tem tradutor automático se eu quiser. Isso dá jeito. A única altura, senão, porque eu levava um saco de roupas e pasta de dentes e outro saco com livros.
E depois pagas excesso de bagagem.
Exato. Agora, de facto, aí ajudou muito. Mas de resto continuas a ter livros, e objeto livro.
O meu privilégio é sempre o objeto físico, o que não quer dizer, nomeadamente por questões profissionais, que não tenha e não o faça e que sem problemas.
Claro que sim.
E sem qualquer problema.
Sem problemas de consciência.
Desde que seja um formato adequado. Ou seja, não sou muito de ler no telemóvel. Isso de notícias, etc.
Uns e outros formatos próprios.
Livros mesmo, procuro um formato indicado para ler livros.
Recomenda-me, antes de passar ao duro da questão, uma leitura ficção que tenhas lido, ou não, que tenhas lido recentemente. Lembre-me um ou dois livros que tenhas lido últimamente ou no último ano. Há dois que eu amei.
Olha, eu na verdade fui absolutamente contagiado pelo que estive a ler durante a tarde. E tenho dificuldades em sequer sair daí. Basicamente tive privilégios de organizar o evento. Tive acesso em primeira mão ao último volume da Bíblia do Frederico Lourenço.
O sexto volume.
Exatamente.
O pentateuco.
Exatamente.
Incrível. E que vai ser celebrado na Utopia lá em cima, claro. Com toda a razão.
Com Ricardo Araújo Pereira. E por isso é que tive foi o privilégio de organizar o evento e tive acesso ao livro em primeira mão. E efetivamente as Bíblias do Frederico são objetos, vou tentar dizer isto e não ser mal interpretado. Todos nós já conhecemos mais ou menos o que acontece nos vários livros da Bíblia. O que eu acho maravilhoso, e é uma grande dádiva que nós temos, é o enquadramento, é o que o Frederico faz de nos explicar tudo o que ali está. Portanto, nós na verdade, quando lemos as Bíblias do Frederico, não estamos a ler só a Bíblia, estamos a ler a Bíblia e estamos a ler uma história da literatura, uma história da humanidade, uma história dos costumes, o contexto, da língua. E isso é absolutamente maravilhoso.
Complementa tudo o que é só a parte espiritual, que é muito importante e é a razão de ser.
Obviamente.
Mas há um conjunto de histórias à volta que vêm também com as traduções dele.
Exatamente. Crentes e não crentes podem ler a Bíblia do Frederico e com certeza conhecer mais de uma perspectiva. Lá está o que falávamos o outro. Mais uma vez, a literatura ao serviço de melhor compreendermos o outro. E o Frederico tem de facto ali um trabalho extraordinário, minucioso, de ir ao detalhe com grande labor.
E que vai ser celebrado.
E hoje, como estive com o editor dele hoje.
O José Viegas.
E então foi isso que eu passei o resto da tarde, na verdade, foi ir de volta nele.
Muito bem, Paulo Ferreira. Vamos fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Paulo Ferreira, ele é diretor do Festival Literário Utopia, cuja terceira edição decorre desta sexta, dia 14, até domingo, dia 23, na cidade de Braga, envolvendo mais de uma centena de convidados de renome em conversas, entrevistas, exposições, espetáculos, oficinas, workshops e sessões em escolas. O vosso trabalho, da Book Company, eu acho uma coisa extraordinária, Paulo, muito interessante, que é esta parte do promover um território pela literatura. Portanto, imagina se te dissesse: "Ferreira, inventa um festival literário para aqui". E o que vocês fazem é: vão identificar as características do território, vão falar com as pessoas, conhecer as pessoas que lá habitam, que lá trabalham, programam para elas, envolvem as livrarias locais. É tão giro isso.
Nós não temos formatos. Claro que era muito fácil montar um formato e andar.
Sim, a replicar o modelo igualzinho.
Como se fosse uma tenda de circo.
Mas não, pode mudar tudo.
Mas o que nos parece interessante é fazer marketing territorial, é fazer comunicação do território através da sua cultura. E aí encontrar um espaço para cada um desses territórios. Às vezes é pegar numa lenda, numa figura, num livro que se passa ali, etc., e amplificar o território através da cultura e em pormenor, através do livro, que o mundo do livro acaba por conseguir comunicar com todas as áreas. E isso é aquilo que eu acho que nós fazemos de diferenciador, é não ter um festival que é igual para todos.
Uma receita única.
Não. Isso não existe.
Isso é muito giro. Desde o MoraBesa, em Cabo Verde, até às feiras do livro que tu fazes.
Exatamente. Tem que ser sempre diferenciado.
E Belmonte, é incrível.
Encontramos ali uma mensagem.
Deve ser um trabalho que deve ser giríssimo. As pessoas, as empresas locais, as instituições.
O que eu acho mais interessante é o que é o conselho, é ver quem é que vamos envolver e é fazer de Bluetooth, pôr entidades a conversarem entre si. Isso é que é verdadeiramente interessante, e é isso que nós tentamos fazer em Braga. É pôr, como falávamos ainda há pouco da casa de investimentos e do Paulo Ferreira na área da literacia financeira, e que de repente tu traz para um festival literário. E a verdade é que já vai para a terceira edição e é uma coisa que corre bastante bem e é uma empresa que está a operar em Braga há muitos anos. É olhar para a Entarte, o grupo de dança local e como é que nós podemos fazer disso um espetáculo de literatura. É pegar no Conservatório do Bonfim e convidá-los para interagir connosco e perceber de que forma é que isso pode fazer sentido. Isso é que é verdadeiramente relevante para mim.
Que, portanto, depois nunca fica igual. Como fizeram na Colômbia, tiveram que quê? Não é igual. Em Espanha, quando vão para Espanha.
Nós quando vamos para a Colômbia, levamos connosco as cidades e promovemos as cidades, nomeadamente este ano as cidades convidadas foi Braga e Guimarães. Portanto, levamos connosco as cidades, mas quando chegamos à Colômbia temos que respeitar aquele território e temos que perceber o que é que faz ali sentido. Para dar um exemplo muito simples: nós queríamos muito levar uma autora, porque íamos fazer um ciclo sobre a questão da ecologia e criamos um ciclo chamado Utopia Verde, e parecendo que fazia sentido levar a Joana Berta. Joana Berta não tinha obra publicada, então nós promovemos essa tradução e conseguimos fazer uma publicação, uma tradução de textos da Joana, para quando ela estivesse em Bogotá e Medellín, os leitores a pudessem ler na sua própria língua. Mas isto para dizer que não existe uma forma, mesmo para o próprio title Utopia. A única coisa que é comum é: o livro está no centro, o livro comunica com todos os ramos de saber, o livro comunica com todas as disciplinas artísticas.
E o tema também, o tema também encaixa em tudo o que tu quiseres. Até é como tu dizes, até no estrangeiro, porque a palavra Utopia também tem várias línguas.
Sim, isso também foi pensado justamente que era para podermos fazer isso. Mas a única coisa que é em comum é isto: o livro a comunicar com os ramos de conhecimento e com as expressões artísticas. A partir daí, temos que respeitar o território onde estamos, e fazemo-lo sempre. E essa é a parte gira, de facto, para mim pelo menos, de conceber, de pensar a programação.
Já faz 14 anos do teu "Onde a Vida se Perde", a tua ficção que tu escreveste. 14 anos é muito tempo. Tens alguma coisa no computador, na pasta?
Não, depois entretanto fiz outros dois livros de não ficção, as Miscelâneas.
As Miscelâneas, exatamente, dois volumes já saíram. O último há quatro anos, não vai haver um terceiro volume? Embora o último seja do século XX, pode já vir o século XXI.
Eu não sei se a minha editora está a ouvir-me, eu estou-lhe a dever um livro há dois anos.
Esta é a objetiva. Ah, ok.
E já lhe disse que se está a deixar daqui a dois.
Mas este é um "manaque", é essencial.
Talvez na quinta edição do Utopia eu possa falar do livro que lancei. Mas estou em atraso.
Mas na calha tens uma ficção, uma ficçãozinha também?
Não ficção. É outro livro não ficção.
Isso já é com a histéria com o Fernando Jose Viegas. Não puxou por ti?
Não, e faz bem. E percebi também que preferia continuar na não ficção e não tanto na ficção, para dizer verdade. E é este livro que já está em atraso há dois anos, e vai atrasar mais dois. Aqui me potenciou à minha querida editora, que tudo faz para que eu seja uma pessoa feliz.
Bem, está a conseguir, tu transpiras essa felicidade. Na edição passada, por exemplo, estou aqui a lembrar-me que na primeira edição tiveste chuva a potes, mas mesmo assim, casas cheias, o que é extraordinário.
Sim, mas eu não gosto muito de jogar com a sorte e estou a ver que este ano vai ser a mesma coisa, que vamos ter muita chuva.
Mas tu já estás consolidado. O primeiro era complicado dizer uma coisa que não existia. Agora, Paulo, pelo amor de Deus, agora o sonho de toda a gente está lá ao pulo.
Eu acho que vale a pena sair de casa para ir ouvir um Prémio Nobel, o Mia Couto, o Ricardo, a Cátia Guerreiro, a Lucília d'Oliveira.
O ano passado, o Mia Couto com o Valter Hugo Mãe, por exemplo, aquele diálogo foi memorável. Este diálogo, conversas memoráveis, uma maratona de leitura que fizeram no Teatro Circo uma vez também.
Mas isso foi no âmbito da promoção de Braga mesmo. Não foi do Utopia.
Não foi do Utopia, exatamente. Tu tens um lema.
O Mia ia pela primeira vez lá.
A primeira vez. Tu tens um lema este ano?
Ora bem, nós trabalhamos muito a ideia dos territórios literários.
Foi o "Literatura é Utopia", foi o ano passado, se não me engano.
A assinatura do festival é Toda a Literatura é Utopia. Mas nós tentamos sempre trabalhar a ideia dos territórios literários também, porque tudo isto estávamos a falar até aqui. Ou seja, que é efetivamente sempre promover os territórios através da literatura. E também porque como temos este plano de expansão, que este ano vamos fazer a terceira edição em Braga, já estivemos em julho, em Bogotá e Medellín. Para o ano vamos estar em Lisboa. E esperamos em dois, três anos-
Porto Alegre vai ser a capital europeia, capital portuguesa da cultura, como este ano está a ser Braga.
Exatamente. E nós vamos lá fazer também uma programação literária e com o Festival Utopia, e espero daqui a dois, três anos já termos a falar também da edição espanhola. Outro país, ainda não.
Aliás, há dois anos eu lembro que falaste que isto é uma marca, Utopia, e queremos uma marca global, para não se cingir só aqui. E a tua primeira projeção era para Espanha, mas pelo visto a Colômbia avançou.
Mas depois a Colômbia, como está sempre a falar ao coração, puxou por mim e eu fiz-
Anticiparam-se.
Fiz uma primeira sondagem muito breve. Nós um dos projetos que tivemos no ano passado foi trabalhar a presença de Lisboa na Feira do Livro de Buenos Aires, quando Lisboa foi cidade convidada. E nessa altura tentei um bocadinho Geronimo Pizarro, que é o colombiano mais português, ou o português mais colombiano, não sei.
O Pisuano famoso.
E ele achou que era uma boa ideia.
Está este ano também lá.
Também vai estar. Estamos em abril, maio. Em setembro eu estava a fazer uma viagem a Bogotá, mas confesso-te com a ideia de fazer a primeira edição em 2026. Mas a verdade é que as coisas aceleraram tanto que eu praticamente vim com um caderno de encargos e com o festival viabilizado para fazê-lo em 2025.
Com a agenda já guardada.
E já com data praticamente fechada. E então fizemos ali um forcingzinho e conseguimos fazer a primeira edição da Colômbia já em 2025. O que não quer dizer que Espanha esteja fora de cenário ou até outro território. Estamos a estudar dois territórios, Espanha e outro, para dizer verdade.
Ok. Que ainda não vais revelar.
Ainda estamos muito-
Para a outra Bienal não se antecipar um bocadinho.
Estamos muito no início.
Portanto, conseguiste então internacionalizar, que era um vosso sonho. A Utopia Colômbia vai ter alguma ligação este ano? Vão falar disso ou não?
Ora bem, a ideia é começar a unir pontos entre tudo. Então, obviamente, a edição na Colômbia já falava de Braga, a edição em Braga já vai falar da Colômbia e dos Açores, e quando estivermos nos Açores, estamos a fazer este ecossistema sempre em comunicação. E a próxima edição da Colômbia, obviamente, vai ter que ter Açores e vai ter que ter Braga. E a ideia é, no fundo, ir acumulando territórios e edições, porque a ideia é justamente as várias edições do festival comunicarem entre si. Por isso, este ano trazemos o Jerónimo Pizarro, trazemos o Juan Diego Mejía, que são dois escritores colombianos que vêm para participar na programação. Da mesma forma que já tivemos um conjunto de português em julho, em Bogotá e Medellín. E a próxima edição também vai ter, com certeza, autores portugueses, porque também é uma forma de nós exportarmos a nossa literatura, a nossa cultura.
Portanto, essa ligação e haver essas ligações, essas sinergias.
Portanto, queremos muito fazer isso. É importante dizer uma coisa também com a Colômbia, porque a Colômbia, sendo uma paixão minha pessoal, que é um país que eu gosto muito, desde a primeira vez que lá estive em 2012 e já não sei quantas vezes lá fui, há que explicar também que a Colômbia é, provavelmente, eu ainda não vi ao detalhe, mas é provavelmente o país que mais traduz autores portugueses, que mais edições novas existiram. O quer dizer que praticamente todos os autores que nós temos de notoriedade-
Portanto, não é só o Saramago e o Pessoa.
Não. São dezenas de autores que estão publicados, muito pelo trabalho do Jerónimo Pizarro, que tem traduzido ou incentivado a tradução de vários autores. Portanto, Valter Hugo Mãe, Mia Couto, Afonso Cruz, Bruno Vieira Amaral, Francisco Xavier, Joana Berta. Ou seja, são dezenas os autores, que nos últimos 10, 12 anos, desde que Portugal foi país tema da Feira do Livro de Bogotá em 2013.
Têm sido traduzidos e têm mantido lá este contacto.
Isto também é importante pra quando estamos a planear o festival, poder ter livros nesse território. Daí que, como explicava há pouco, não vi da Joana Berta e nós fizemos uma edição à mesma.
Exatamente. Boa. Braga este ano é capital portuguesa da cultura. Este festival vai ter uma projeção, digamos assim, pra Utopia Açores, porque pro ano é Ponta Delgada, onde tu já és, aliás, curador de literatura. Portanto, daí esta Utopia Açores que vais ter. A autarquia, porque isto é organizado com a autarquia bracarense, continua entusiasmada, porque o presidente mudou há pouco tempo. Agora temos o João Rodrigues, que assumiu o lugar.
Todos os sinais indicam que sim, não tenho qualquer indicação que não seja um projeto.
De facto, isto pôs Braga também no mapa neste aspeto. Braga é uma cidade cheia de vantagens pra este tipo de festival.
Exatamente. Eu sou suspeito, obviamente, mas não posso deixar de defender a minha dama e dizer que sim, o festival está bastante implementado à comunidade.
Por que que começou a ser em Braga?
Ora bem, Braga tinha tudo pra ter um festival.
Por que não em Évora ou não no Castro Marim?
Há mais um conjunto de cidades que poderiam acolher. Ora bem, nós queríamos uma cidade que reunisse um conjunto de características, que tivesse universidade, que tivéssemos ligações.
O aeroporto a 30 ou 40 minutos.
Exatamente. Onde chegasse de autocarro, de comboio, de carro.
A acessibilidade é importante.
A acessibilidade era importante. Haver hotéis, haver restaurantes, haver serviço qualificado na área do turismo. Haver esta abertura ao outro é muito importante também.
E Braga é bom nisso.
E Braga é muito bom nisso, acolhe muito bem. E depois tinha um executivo-
Património mundial.
Tinha um executivo, naquela altura, na pessoa do doutor Ricardo Rio, que foi, de facto, um entusiasta.
Desde a primeira hora.
Desde a primeira hora, de permanente observação e de permanente escrutínio, mas igualmente de disponibilidade para ajudar a dimensionar o festival como nós o queríamos.
Percebeu a aposta que era, a importância que era.
E uma equipa técnica inexcedível. Sempre disponível, muito boa. Na verdade, foi muito fácil fazer. Mas é justo dizer que tudo isto é produto de um conjunto de fatores, de Braga, percebi os seus fatores, mas também o poder político, se quiseres, e depois a parte técnica, que também existe. E depois pessoas disponíveis para colaborar na área da cultura, da área da economia. Ou seja, nós temos um conjunto de patrocinadores locais que desde o primeiro dia que são patrocinadores.
A DST Group, por exemplo, é um dos que apoiam e fazem sempre umas sessões extraordinárias. E de de facto, têm uma presença muito importante em tudo que é galas, exposições.
E onde são eles a ligar-nos e a desafiar.
É muito curioso.
Já chegamos ao ponto em que os outros a serem a ligar a desafiar-nos. "E se fizéssemos isto, e se fizéssemos aquilo?"
Boa. É bom sinal. E depois tem outra coisa fantástica, tem este cenário. Aos fins de semana, o palco principal, todos os fins de semana é neste espaço vida, que pertence aqui ao cenário menor de Braga, que estes serger fontes arquitetos, estes manos, este António e André recuperaram esta-- foi edifício do ano, esta arquitetura religiosa, ganhou um prémio brutal e é de facto um espaço único em Portugal.
É absolutamente maravilhoso.
Inúmero, eu acho.
E é onde nós não mexemos praticamente, fizemos um pequeno jogo de luzes. Às vezes é necessário um ecrã pra uma projeção, alguma apresentação que seja, mas nós não mexemos.
Eu acho que vale a pena ir lá só pra ver este cenário.
É verdade.
E quando as coisas decorrerem ali, vale a pena ir nesta Capela Imaculada. É impressionante.
Não mexemos com nada, só deixamos a capela existir, mais nada, porque é tão bonita que nós sentamos e está o cenário pronto.
Exato. Esta ligação à comunidade local é muito importante, é uma das vossas cruzadas. O que é que fica depois de este acabar? Depois do dia 23, o que é que fica durante o resto do ano a ver com a Utopia, nessa cidade?
Ora bem, nós o que tentamos efetivamente é criar ali uma festa de 10, 12 dias com os vários parceiros e, no fundo, estimular para que haja um contínuo. Mas temos que ser justos, quem faz esse contínuo e quem garante que a área do livro continue a ser trabalhada é o município, efetivamente. Na prática, Utopia é um braço de uma estratégia global que existe, anual, e que é implementada ao longo do ano. Ou seja, nós ali acabamos por dar palco a um conjunto de iniciativas, tentar estimular outras, mas se não existisse um município com esta disponibilidade-
Exatamente, e as ferramentas pra o fazer e a missão pra o fazer.
As coisas perdiam-se. Portanto, é justo dizer que a Utopia continua.
Assegura esta continuidade.
Mas continua muito porque tem uma equipa e um executivo disponível para efetivamente apostar na cultura de forma muito séria e de forma muito permanente. Ou seja, as coisas têm que ter consequências, de facto. Não pode ser só uma festa de 10 dias.
Exato.
Tem que envolver os vários parceiros. E acho que isso tem sido conseguido e o mérito é do município.
Entre os convidados, Paulo, vais ter Abdulrazak Gurnah, Prémio Nobel de Literatura 2021, este tanzaniano de origem iemenita, nasceu em Zanzibar e que tem muito na sua obra a temática dos refugiados. Ele próprio refugiado desde os oito anos, que atravessa a obra toda dele. Muito importante este tema. Vamos ter uma conversa com o Américo João, não é?
Com o Américo João Costa. Mais uma vez, o que estávamos a dizer.
Liga só o que a gente estava a falar, a importância de ouvir.
Quando leio os livros do Abdulrazak Gurnah, nós percebemos a importância do outro. E este tema infelizmente tão em voga, como a questão dos refugiados. Se eu quiser compreender melhor porque é que devemos ter outra atenção e outra postura face aos refugiados, se calhar vale a pena ler os livros do Abdulrazak Gurnah, que vamos perceber isso. E essa ligação com a literatura é efetivamente fundamental.
O Ricardo Araújo Pereira, humorista e cronista, o cardeal poeta Tolentino Mendonça tem uma peça, vais estrear uma peça com a Banziroño?
Sim, esta peça estava no âmbito das encomendas da capital portuguesa de cultura. Nós sugerimos.
Encaixou que nem uma luva.
E o município disse: "Pode ser." Que a estreia seja justamente no Utopia, o que nos deixa muito felizes. Com muita pena o cardeal Tolentino Mendonça não vai poder estar presente na edição, mas vai estrear lá a peça.
A peça dele. Mas a rondando sobre o Camilo Castelo Branco, ainda estamos no bicentenário. E vai haver também uma exposição, esta "Jorge Desanho do meu filho". Esta exposição, este catálogo.
É também uma parte da programação do próprio município, que o município depois aproveita esta altura de festa para-
Para depois encaixar na vossa programação.
Exatamente.
Estou agora aqui a ver em permanência esta exposição do José Veiga, o desenhador.
É a mesma questão também.
De Alma de Braga.
Exatamente.
Também encaixada. Celebramos aqui o centenário deste artista bracarense.
Que é também um bom palco para os artistas locais, onde vamos receber muitos escritores que vêm de fora, muitos jornalistas, pessoas que já fazem este caminho até Braga para estar no Utopia, acaba por ser um bom palco para que os artistas locais possam apresentar o seu trabalho. Portanto, o município também consciente disso, tentou ao máximo equipar estes palcos com iniciativas de quem está o ano todo a viver em Braga.
Falamos da peça do Tolentino Mendonça. Também há uma de Martim Sousa Tavares, que também é uma estreia absoluta.
É um espetáculo do qual eu sei muito pouco, porque o Martim tem sido muito reservado. Eu sei muito pouco. Estou absolutamente confiante.
"Ponto de Fuga", chama-se isso?
Chama-se "Ponto de Fuga", mas é uma obra que o Martim vai estrear lá.
Confias como eu confiaria.
Confio em absoluto. Tenho a certeza que vai ser maravilhoso, mas sei muito pouco sobre ela. Sei duas ou três cenas que ele me contou em contexto informal.
E gostaste do que ouviste?
Gostei muito do que ouvi.
Então pronto, vai ser fantástico.
Mas não sei muito mais que isto. Eu vou ver em primeira mão.
Exatamente. Vais ser surpreendido como todos.
Vou.
Os jantares literários VINX é uma grande novidade e é uma ideia muito gira. Junta o prazer da gastronomia, portanto, à paixão pela literatura. Aqui vais ter quem? O Afonso Cruz, a Rita Redshoes.
São dois dos convidados.
Isto é muito giro.
É novidade deste ano, mas é uma coisa que nós gostávamos de dar continuidade. Mas nós trabalhamos sempre por laboratórios, ou seja, vamos testando alguns formatos e os que funcionam vão continuando. Até agora a aceitação tem sido boa. Confesso, na primeira vez fizemos os quiz literários, era um teste, era um laboratório. Vamos repetir isto? E vai e volta. O ano passado já houve.
É muito divertido.
E tivéssemos nós mais espaços na programação, mais enchia com quiz literários. E como tal, nós vamos inserindo sempre novos formatos numa lógica de laboratório. Tendo em conta a aceitação que os jantares estão a ter, eu acho que o Afonso Cruz já esgotou mesmo, o da Rita está a caminho, provavelmente vamos repetir para o ano.
Exatamente. Depois as histórias contadas existem, claro, e as histórias cantadas. Vocês também têm uma grande atenção com o público infantil. Isso é muito importante e vocês não descuram isso.
Isto é um festival familiar e eu defendo sempre isto e continuamos a defender. Eu não estou à espera que uma pessoa tenha vontade de ver tudo o que existe no Festival Utopia, até porque não fazia mais nada e acabava sem emprego.
Aliás, há coisas que coincidem, o pessoal pode escolher.
Mas o que nós queríamos era que, efetivamente, ao olhar para o programa, as pessoas pensem: "Isto pelo menos eu quero ir ver. Isto também. Um, dois, três, 10 momentos."
Vê a programação, vai à net e depois escolhe aquilo onde gostava mesmo de estar. Atenção porque há coisas que são de inscrição e são diretas.
Exatamente.
Coisas que esgotam, como aconteceu também nas outras vezes.
Exatamente.
Ter atenção a isso.
Mas a questão da programação infantil é muito importante para transformar isto num evento familiar. Nós queremos que efetivamente um casal que vá com os filhos até lá, se calhar o pai fica no espaço infantil com os miúdos e a mãe pode ir assistir uma conferência ou vice-versa. Isto para nós também é importante, que haja esse dinamismo e essa alegria. E a questão da alegria é que é importante, que é efetivamente quando está a decorrer a programação infantil-juvenil, o espaço fica diferente, aqueles claustros ficam diferentes. Porque está se calhar com 70, 80, 100, 120 meninos a andar de um lado para o outro, com pinturas faciais, etc. Isso dá uma alegria ao evento diferente.
É muito giro.
E como tal, nós sempre quisemos criar um evento também aos miúdos.
Até porque eles depois ficam com isso na agenda e para o ano já pedem para ir outra vez.
Porque aqui é muito importante, um, captar os novos públicos, que eles se habituem a ir aos festivais e às feiras livres e acima de tudo, obrigar mais não ser os pais que se calhar até nem iam a um festival literário. Mas como existe uma atividade para os miúdos, eles aparecem lá. E de repente são surpreendidos e olham assim e veem que o Ricardo Araújo Pereira ou Mia Couto ou quem seja está a falar. "Epá, já agora vou entrar naquela".
Ou o Mário Cláudio.
Ou o Mário Cláudio. Já agora vou ver o que isto é. E ficam e se calhar gostam e no ano seguinte voltam.
Engraçado, já a coisa ambiental, por exemplo, foi muito importante os miúdos começarem a reciclar em casa, porque os miúdos trouxeram isto das escolas. Cá está.
E hoje em dia é impossível não o fazer.
Não se pensa, exatamente.
Portanto, a programação infantil tem essa componente de transformar isto num festival familiar, mas obrigar toda a gente a aparecer lá, mais não seja por arrasto dos miúdos que sabem que vai lá estar a Sofia do Aqui há Gato ou quem for e querem lá ir. Isto faz bom, claro.
Muito bem. Então fica aqui este convite, já sabe, quem nos está a ouvir, dia 14, esta sexta, até domingo, 23, em Braga, Festival Utopia. A programação pode vê-la em festival-utopia.pt. Já sabe, escolha ao que pode ir, veja que há coisas que já estão esgotadas. Paulo Ferreira, quero agradecer muito mais uma vez.
Muito poucas.
Muito o quê?
Porque há muito pouca coisa que não seja de entrada livre.
Exatamente, há pouca coisa com bilhete.
Se me permites só recomendar, algumas das sessões é bom surgir ali 30 minutos antes. Basta olhar para o programa e rapidamente as pessoas percebem as sessões que estou a falar.
É melhor ir se eu quer ir.
Há sessões que é melhor estar lá 30 minutos antes.
E não perde nada. E depois há sempre uma sessão também que vendem livros.
E há uma sessão antes onde podem estar a assistir. Há um frame livro.
De quem organiza, portanto, já sabem.
Há vinho ao dispor, porque o nosso patrocinador vai lá estar também sempre com um copo de vinho para quem quiser, um ou dois dedos de conversa.
Mais uma boa razão para ir. Muito bem, visita a cidade dos arcebispos, já sabe, 14 a 23, o Festival Utopia. Paulo, marcamos encontro para o ano que vem. Muito obrigado. Bem-hajes.
Obrigado.