Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Um homem está em casa a dormir quando lhe batem à porta de madrugada. Vai ver e é o estafeta com uma encomenda de pizza que ele não pediu. A situação repete-se no dia a seguir, continua durante meses e depois durante anos. E ele nem sequer gosta de pizza. Esta é a estranha premissa de "Como Sobreviver a um Acontecimento". A peça de estreia da Companhia Urso Pardo, em cena no Teatro da Politécnica, em Lisboa, até dia 17. Convidei Miguel Graça, o dramaturgo que escreveu esta peça, e onde também é encenador e ator, e a atriz Madalena Almeida, para nos falar deste projeto. Olá, Miguel. Olá, Madalena. Bem-hajam por terem aceitado este meu convite. Bem-vindos aos dois ao Observador.
Obrigado nós.
Muito obrigada.
Já comecei aqui a meter gaffes, não foi? Do gênero, a vossa peça de estreia. E não é! Vocês têm coisas do Urso Pardo assinadas desde 2014 ou 2013.
Sim.
Por que é que agora é novidade?
Porque oficializámos, em termos institucionais, a companhia. Antigamente éramos uma ideia. Agora somos quatro: eu, o David Esteves, o Pedro Caeiro e a Madalena Almeida. Eu, o Pedro Caeiro e o David Esteves somos muito preguiçosos e muito pouco dados a burocracias. De maneira que chamávamos Urso Pardo, mas nunca quisemos ter o trabalho de divulgar.
E por que o nome, Miguel?
Urso Pardo?
Sim.
Há várias versões.
Ok, vamos à tua. Eu acho que essa, e fica no ouvido. Acho que essa. Por quê? Coisas inalcançáveis, psiquiátricos ou lama.
Vou contar a história que nós contamos mais vezes.
A mais corrente.
A mais corrente, exato. A mais habilidosa, acho eu. Mas que é a mais verdadeira. O que aconteceu foi que eu e o Pedro estávamos a tentar definir, já há muitos anos, qual seria o nome mais indicado para a companhia, e há sempre mil propostas que nunca chegam a lado nenhum. Eu gosto muito de fazer um paralelismo entre o teatro e a música ao vivo, e as bandas, nomeadamente de rock ou desta música mais agressiva. Não é agressiva no sentido do hard rock. É agressiva no sentido do concerto com muita gente, de ser assim um local de comunhão. E de os músicos serem, às vezes, um bocadinho diferentes dos atores, porque os músicos são obrigados a ouvir-se uns aos outros. E eles conseguem também fazer uma coisa que às vezes os atores não conseguem fazer. Nós às vezes vemos concertos de bandas que estão em digressão há muito tempo e vemos o 30º ou 40º concerto e parece que eles estão lá como se fosse a primeira vez, com uma intensidade e com uma verdade muito grande. E é isso que nós tentamos fazer nos nossos espetáculos, essa ideia da banda que se ouve e que tem a intensidade da primeira vez. E nós estávamos em minha casa e estávamos a ouvir uma banda que se chama Grizzly Bear. E o Pedro disse: "Olha, e se fôssemos o Urso Pardo?" Eu disse: "Está bem".
Pedro Caeiro, então, deu o mote para este nome. Essa versão é boa. Não sei se é, vou acreditar. Não, mas é boa, é uma versão boa. Por acaso, essa é a minha pergunta curiosa. Madalena, nos trabalhos que já tens feito, porque este acabou de estrear, todos os dias é diferente? Quando estás em palco com público à frente.
Sim, completamente. Essa é a grande diferença do teatro, e da televisão e do cinema. É sempre uma novidade, principalmente para quem vai ver.
Mas para vocês, concretamente?
Exatamente pelo mesmo motivo, porque as pessoas para quem estamos a falar são sempre diferentes.
E vocês sentem a sala?
Sim.
Há dias melhores, há dias piores. Hoje está tudo muito lá, porque aconteceu alguma coisa. Portugal perdeu no futebol, faz de conta.
Exato.
E sente-se que as pessoas estão mais tristes ou estão mais isoladas ou estão mais longe dali. E outros dias em que as pessoas estão mais empolgadas. A vossa peça agarra muito, por acaso, mas ficam mais agarradas e tu consegues sentir isso?
Sim, acho que sim.
Há uma atmosfera.
O espetáculo que nós fizemos antes deste que vamos estrear agora no dia oito, era um monólogo, era só eu, o Miguel estava a operar. Isso para mim, todos os dias era completamente diferente e eu ainda sentia mais isso, porque estava sozinha. Portanto, acho que todos os espetáculos que fizemos até agora estão sempre muito direcionados para o público.
Estás a falar deste Ariadne, certo?
Sim.
É o terceiro da trilogia. Já estou a falar com eles dois, mas gostava de falar um bocadinho deles, de cada um, apresentá-los. O Miguel é dramaturgo, é ator, é encenador e tradutor, ele é lisboeta. Miguel, onde é que nasceu o teu fascínio pelo teatro? Desde pequenino queria ser ou tua mãe era costureira num...
Não, nada. Venho de um campo diametralmente oposto.
Tu fizeste Letras em cima, foi o teu curso, não é? Letras e Tradutor.
Na verdade, a minha carreira académica começou em Gestão.
Ok.
Portanto, eu era para ser um mau gestor e espero ter-me tornado em...
Um bom dramaturgo e encenador e ator.
Espero que sim.
A Gestão, que engraçado, não tem nada a ver.
Nada.
Mas tinhas este... Qualquer coisa.
Não. Eu fui direcionado, como quase todos os miúdos são, para um determinado campo, porque os nossos pais fazem determinadas coisas. Eu não sabia bem o que havia de fazer quando era novo, só que gostava muito de escrever e gostava muito de ler. Depois de meio ano em gestão, ao fim do primeiro semestre, percebi que aquilo não era para mim e disse: "Bem, vou mudar de curso." Como eu queria ser escritor, achei que devia ir pra literatura.
Então foste pra línguas e literaturas?
Fui pra línguas e literaturas. Mas o gosto pelo teatro foi uma coisa que não me surgiu. Ou seja, eu ia ao teatro como ia a concertos. Era uma coisa que o nosso consumismo cultural não obrigatoriamente direcionado pra uma coisa que nós adoramos ou não, mas é só porque: "Olha, hoje vou ao teatro, amanhã vou ao cinema, amanhã vou não sei onde." Quando era novo, ia muito ao Teatro Nacional, quando havia Teatro Nacional, depois deixou de haver. Mas ia muito à Cornucópia, sobretudo, era a companhia que eu mais acompanhava. Também ia ver algumas coisas dos Artistas Unidos, mas já numa fase posterior. Eu estive três anos a estudar nos Açores.
Daí as crônicas. Ao acaso, ligas as crônicas da tua passagem pelos Açores. Temos de falar em 98, 99 por aí.
Não, não pode ter sido há tanto tempo.
Diz ele, a fazer-se novinho, mas tu és novinho. Vá, continua.
Continuando. O que aconteceu foi que saiu um miniconcurso que na altura havia e eu fui dar aulas de oficina de expressão dramática, assim completamente à toa. Fui a única pessoa a concorrer.
E foste escolhido.
Fui escolhido, não havia mais ninguém. E consegui fazer com essa turma, com uma das turmas do 12º ano, a Salomé do Oscar Wilde, encenei esse espetáculo. E fiquei a achar que me tinha enganado. Que em vez de ter ido pra literatura, devia ter sido um pouquinho mais específico e ter ido pro teatro, mas achava que era um bocado complicado estar a dizer aos meus pais para mudar outra vez de curso.
Incrível.
E depois, entretanto, pedi transferência pra Universidade Nova, onde acabei o meu curso, onde havia uma cadeira de História do Teatro, que eu fui fazer por essa contaminação, digamos assim, boa, que eu tinha tido em Ponta Delgada.
Cadeira que depois deste na EPTC, na Escola Profissional de Teatro de Cascais.
E essa professora de História do Teatro na Universidade Nova, que infelizmente já faleceu, que era a Maria João da Rocha Afonso, convidou-me para ir pra Escola Profissional de Teatro de Cascais, para dar exatamente História do Teatro. Aí conheci o Carlos Avilez e pronto, o resto.
Está tudo explicado. Deste História do Teatro lá, também deste Dramaturgia, Oficina de Escrita. E foste orientador técnico das provas de aptidão dos finalistas dessa escola, desta EPTC. E eras blogger. Ainda és bloguista ou não?
Não.
Mas tinhas este blog, como é que era? Crônicas de uma vida anormal.
Sim, tive o Crônicas de uma Vida Normal e depois tive o Crônicas de uma Vida Normal.
Ok. Muito bem. A mesma pergunta, Madalena. O teu fascínio pelo teatro, por que foste parar ao meio? E devo dizer que estás lindamente e vais lindamente e tens imenso jeito, a tua voz afinada, tu cantas, fazes tudo, gritas naquela peça, é extraordinário. Como é que nasceu esse teu fascínio?
Também não tenho ninguém na minha família, nenhum artista. Quer dizer, são todos artistas.
Sim, porque tu foste logo licenciada em teatro, foste diretamente.
Sim, eu passei pela EPTC e depois fui pra Escola Superior de Teatro e Cinema. Mas antes disso, quando era muito pequena, fui pro balé e era uma péssima bailarina. Muito desengonçada. Mas punha-me sempre a narrar as histórias e então a minha mãe percebeu: "Ah, se calhar ela não dança, mas conta as histórias."
Também queria uma vida de palco pra ti.
Eu acho que foi ela que me encaminhou.
Boa!
Pronto, e depois comecei a fazer cursos de teatro e conhecia uma rapariga que trabalhava na Escola Profissional de Teatro de Cascais. Já a conhecia desde que era muito pequena e ela sempre me disse: "Depois quando chegar a altura, tens que fazer as provas." E eu nem estava muito pra aí virada, queria ser jornalista.
Curioso.
E depois, entretanto, fui fazer as provas e adorei fazer a audição, e pronto, comecei, foi assim.
E trabalhaste com o TEC, claro, Espetáculo de Cascais, com o Teatro Aberto, Palco Treze, Formiga Atômica, Lama Teatro e tinhas participado já em alguns projetos independentes do Miguel Graça, aqui está ele. Uma coisa, e também fizeste coisas em televisão, que é engraçado. Tens trabalhado com produtoras, com a Plural, com a SP, o Circo Paraíso, conta-me como foi. Claro, extraordinário. Até Aqui a Vida Nos Separa, Pôr do Sol, só alguns exemplos. E também cinema.
Sim.
Além do Ramiro, este Mal Viver, do João Canijo, tu tens muito boa voz, na peça cantas num cabaré, é extraordinário. Entre cinema, televisão e teatro, há algum meio que tu prefiras ou é conforme o trabalho que aparece? Algum deles diz-te mais alguma coisa?
O teatro.
É? Tu gostas mais de fazer e te sentes mais à vontade, se calhar.
Sim, gosto muito de fazer televisão, gosto muito de fazer séries, gosto muito de fazer cinema, mas acho que tem a ver com uma questão de tempo e eu acho que a minha parte preferida, claro que eu gosto muito de apresentar os espetáculos, mas a minha parte preferida, quando trabalhamos em teatro, são os ensaios e o processo todo da descoberta das coisas, de estarmos uns com os outros.
Há uma semana dizia o Rui Netto aqui: "Não, eu por mim faria a peça, tudo ensaios. Depois estreava uma vez e acabou, e era a próxima peça." Para ensaiar mais vezes, porque era realmente o que lhe dava mais fascínio, era aquela construção das personagens.
Sim, eu gosto do processo todo dos espetáculos, porque acho que pra mim é uma continuação do processo de ensaios. O espetáculo pode sempre evoluir, as coisas não ficam paradas desde o momento em que se estreia. Mas acho que na televisão e no cinema, infelizmente, ainda não temos cá esse tempo.
E porque é mais imediato, não é? É mais aquilo, aquele ritmo, aquela coisa.
Não há grande tempo pra ensaiar as coisas. Quando trabalhei com o João Canijo, consegui ter esse tempo, mas mesmo assim, são sempre processos muito diferentes e eu gosto muito deste estar no teatro.
Do tempo do teatro, por causa disso também.
E não me incomoda nada repetir. Há muitos atores que se cansam.
Fazer mais takes. E tu não tem problema.
Não, os mais takes, isso já me chateia, mas repetir o espetáculo não me incomoda.
Ah, ok, eu gostei do teatro, de estar várias vezes no ar Agora és uma das protagonistas deste "Madalena". Eu até achava que era por causa de homenagem a ti, mas não. É a Madalena de Sara de Castro.
Era incrível ter um espetáculo de homenagem a mim, com o meu nome.
Exato, eu achei.
Estear no Teatro Nacional com a Carla Galvão, todas a fazerem um espetáculo de homenagem.
Mas não. Então é inspirado na figura da Maria Madalena, não é?
Sim, é um espetáculo sobre o luto e tem a Maria Madalena como o ícone feminino do espetáculo e por isso é que se chama Madalena. Mas todas somos Madalena no espetáculo. Eu sou a única que reage a tempo, mas todas se chamam Madalena.
Quando acontece uma branca ou um engano, tu disfarças logo, és boa nisso?
Eu acho que só me aconteceu uma vez. A sensação é de vou morrer. Vou morrer, vou desmaiar. Era preferível desmaiar, acordar e continuar do que aquilo mesmo.
Exato. Replay.
Exato.
Os teus colegas ajudam-te imenso?
Nós ajudamo-nos. Sim. No Ariado não tinha hipótese. Só se alguém lançasse o texto lá do fundo.
Um contrarregra, um ponto.
Sim.
Já não existe a figura do ponto. Existe, até há muito pouco tempo o Teatro Nacional tinha ponto.
Ok.
E hoje há outro tipo de ponto mais recorrente que é o auricular.
O minico.
O auricular.
Uhum.
E que todos têm quando estão em palco?
Todos. Não.
Mas alguns. Vocês têm?
Nós não temos.
Não, nós não.
Nós não usamos.
Os ricos têm quando estão no palco.
Não, às vezes tem a ver com a dificuldade em decorar. Às vezes tem a ver com a idade, também há uma habituação, que alguns atores depois habituam-se a isso.
Pronto, também. Essa muleta.
E atenção, eu estou a dizer isto, não quer dizer que não façam trabalhos brilhantes e a maior parte das vezes as pessoas nem sequer sabem que eles estão com-
É apenas uma ferramenta. Exatamente. Nós percebemos. E última coisa, Madalena, tu mudas muito conforme tens um dia maldisposto, que tu não estás nem virada para aí, vais lá mesmo o papel contente e alegre. Esta peça é alguém que se quer suicidar, ao princípio. Depois é engraçado, porque eu fiquei com esta ideia da descrição do teu namorado, entre aspas, do Pedro.
Ele é um pessimista, ela diz essas coisas.
Exato, mas ele, antes de a gente ver, traça um retrato teu miserável. E depois apareces tu e tu és uma força naquele espetáculo que é um acordar de outra pessoa totalmente diferente do que a gente estava à espera. E isso é muito curioso.
Sim.
Mas quando estás em coisas disso, não te apetece ir para lá. Consegues dar a volta e pensas em coisas positivas?
Sim, também eu acho que é muito difícil não levar isso para o trabalho. Claro, toda a gente tem maus dias, mas sim, mesmo para os ensaios, para o trabalho.
Entras ali, cortas, deixas para trás as coisas e és outra pessoa e fazes outro trabalho.
Sim.
Consegues fazer essa separação?
Sim. Acho que sim. Gosto de chegar ao teatro e estarmos todos juntos e todos divertidos, mesmo quando os dias não são tão... há algumas exceções. Hoje estávamos cheios de sorrisos.
Isto é contagioso. Tu, Miguel Graça, tiveste uma pós-graduação em tradução e aliás, bem merecida. Acabaste de receber um prémio o ano passado, se não me engano. O prémio tradução do Guia dos Teatros 2020, há dois anos então.
Acho que ganhei dois, não sei.
Ok.
Acho que foram dois prémios de tradução, que é importante.
E a dramaturgia, eu tinha sempre a ideia de que dramaturgio é o que escreve as peças de teatro, e acho que é.
É.
Mas fazer a dramaturgia é uma coisa diferente.
Sim, a dramaturgia é-
Fazes dramaturgia de peças, o famoso Hamlet, foi? Acessão de Shakespeare, ele escreveu. E tu fizeste a dramaturgia. Isso é o quê? É pôr no palco?
Não.
Isso é o encenador.
A dramaturgia é um apoio transversal a todos os elementos de um espetáculo.
Ok.
E que parte da análise do texto, e que pode ser coisas muito diferentes. Ou seja, pode ser, por exemplo, no caso do Hamlet, que é uma peça que se a fizermos na íntegra terá quatro horas ou talvez até um pouco mais. Cabe ao dramaturgista reduzir, falando com o encenador. Portanto, é sempre um ponto de contacto, sobretudo com o encenador, facilitando, por um lado, a vida ao encenador ou chamando a atenção para o caso do texto ter outros significados que não aquele que o encenador está a querer dar, para melhor guiar. Portanto, digamos que é um papel importantíssimo no teatro para os atores, vamos pensar numa lógica de se eu agora fosse contratado, como você, para fazer dramaturgia de um espetáculo. Bom, eu tenho que estudar o texto de uma maneira que, em princípio, os atores não estarão preocupados com alguns temas ou com algumas ideias que estão expressas na peça. E, portanto, o meu papel é ajudar toda a gente, que pode ser também a cenografia, pode ser os figurinos.
Tens essa coisa transversal.
Uma peça de época, por exemplo. Evidente que o figurinista é que deve saber fazer isso, mas se for necessário algum apoio, a dramaturgia também está lá para isso.
Estamos a falar desta questão da dramaturgia, do que é concretamente a dramaturgia. Tu, Miguel Graça, desde 2007 colaboras com o Carlos Avilez no TEC. Passaram por ti muitos trabalhos. Estou-me a lembrar, por exemplo, deste "O Inferno" do Bernardo Santareno, onde fizeste a adaptação e a dramaturgia também desta peça. Aliás, se não me engano, foi premiada, até. William Shakespeare, várias coisas tens aqui. Tom Stoppard, Tennessee Williams, Wallin Klun, Arthur Miller, fizeste lá coisas e adaptaste. Henry Gibson, extraordinário. Jean Genet. Fizeste umas coisas extraordinárias e talvez em novembro, há um ano, este Hamlet que falámos, talvez seja a peça mais famosa do Shakespeare, mas fizeram uma versão extraordinária, vocês, super moderna e diferente, com o João Condessa, se não me engano.
O José Condessa.
O José Condessa que era o protagonista, usando a tradução da Sofia de Meldrainer Anderson e com a tua dramaturgia e a encenação do Carlos Avilez. Foi a 168ª produção do TEC. E há uma coisa, eu tenho aqui uma coisa sobre a Casa de Bonecas, 2021, também fizeste?
Fiz a tradução e a dramaturgia, mas aí com o Lama, com o João de Brito.
Lama Cardoso.
O encenador, exato.
Muito bem. Foi nosso convidado também há duas semanas. Este Hamlet marcou-te? Porque deu um grande brado esta peça. Foi das coisas que mais gostaste de fazer? Porque pela diferença.
É sempre motivo de muito orgulho quando podemos trabalhar, por exemplo, no caso do Shakespeare, já trabalhei não só no Hamlet, mas fiz também a-
As You Like It.
As You Like It, o Macbeth, que eu traduzi também. Eu lembro-me quando comecei, tinha uma ideia de: "Se um dia eu conseguir traduzir um Shakespeare, isso vai ser o grande pináculo."
Da minha carreira.
Quase um certificado a dizer: "Conseguiste."
Exato. O Tony, a prova. Miguel Graça.
Não, em termos pessoais. Nós sentirmos que uma coisa é traduzirmos um autor, digamos, menor. E não é nada menor, mas o primeiro texto que eu traduzi para teatro é de um autor americano que se chama John Patrick Shanley, uma coisa que se chamava Danny e o Profundo Mar Azul.
Estamos a falar em 2009.
Sim, já foi há alguns anos. Mas nessa altura, nós temos sempre a sensação de que o futuro há de trazer coisas grandiosas. É tudo grandioso, se nós quisermos.
Se calhar noutras peças também de outros autores, se calhar não tão grandes, tiveste tanto prazer ou mais.
É evidente. Não é por ser um Shakespeare ou por ser um Ibsen. Claro que é sempre um desafio maior, sobretudo em termos de tradução, mas não sinto que haja espetáculos que me marcaram só porque o autor era extraordinário.
Há muitas peças tuas que já foram levadas à cena, a começar por esta Grécia, que fizeste para o projeto Novos Autores.
Sim, já foi em-
Em 2009 também, Fedra, Os Répteis. Onde é que tu estavas quando te vi pela última vez? Gosto imenso desse título. Também encenaste. Este Íctos, tenho aqui na mão o livro deste Íctos, que escreveste após a Primavera Árabe. Tu trazes muito das coisas todos os dias para escrever? Eu estou curiosíssimo com a maneira de escrever uma peça. Como é que se escreve uma peça? Trazes muito as notícias do dia, ou são histórias que tens na cabeça? Como é que é?
Acho que cada uma tem uma história diferente também.
Uma história diferente no sentido de como é que começou?
Como é que começou. Esta peça que nós estamos agora em cena, o Como Sobreviver a um Acontecimento, começou com uma notícia de jornal. E tenho outra peça que a Madalena também fez, que era o Lugares, que também começou porque eu li uma notícia no jornal.
O Lugar número um.
O Lugar número um, isso. Era uma notícia curta do Mundo Louco do Correio da Manhã. Mas deu uma peça extraordinária, por acaso.
Incrível. Basicamente, a sinopse numa frase.
Raptaram o filho de uma mulher árabe na zona de Mossul. Ela foi ter com o Estado Islâmico para lhe entregarem o filho.
Ah, raptaram, foi mesmo o Estado Islâmico?
O Estado Islâmico raptou-lhe o filho. Ela andou não sei quantos quilómetros a pé para tentar recuperar o filho. E eles disseram-lhe que eles eram boas pessoas, que não-
Fazíamos mal a ninguém.
Não faziam mal a ninguém, que ela aceitasse beber um chá e comer qualquer coisa. Ela aceitou, agradeceu-lhes muito e depois disse: "Bom, agradeço a vossa hospitalidade, mas podem dar-me o meu filho?" E eles disseram: "Sim, o teu filho está aí, acabaste de o comer."
Ok, next. Muito bem. Mossul já não existe. Miguel, o que é que o teatro tem em comparação com outras formas de arte, que outras formas de arte não têm?
Há várias ideias sobre essa questão. Uma delas é uma ideia mais antiga, que o teatro reúne todas as artes. Portanto, as seis grandes artes: a arquitetura, a escultura, a pintura, a música, a dança e a poesia estão todas presentes no teatro, que depois com o performer cria uma relação com o público. Aristóteles já dizia isso, uma emoção. Aristóteles falava do terror e da piedade, mas o que interessa, sobretudo, é a questão emocional. Mas também há quem diga que nós podemos fazer exatamente a contra-contrária, que o teatro é a ausência de todas as artes, porque ele pode viver sem a arquitetura, sem o cenário, sem a pintura, sem a palavra, e que o que conta é, na verdade, só esta relação entre o performer, o ator.
E o público.
E o espetador. Eu não acho que o teatro seja uma arte especial ou diferente de todas as artes que existem, que têm esta questão do performer. Ou seja, um músico cria uma ligação teatral também com os espetadores. O bailado, a mesma coisa.
O escritor, a mesma coisa.
O escritor talvez menos, porque o escritor não está lá e a pessoa está em casa a ler o livro com o seu ritmo, com o seu tempo, etc.
Aqui já há o pormenor de uma coisa que acontece ao vivo e nós estamos a assistir.
Essa é a diferença, se calhar, em relação ao cinema. Ou em relação mesmo à música. Hoje nós temos muito a música digital, que nós podemos ouvir e voltar a ouvir e voltar para trás e não sei o quê. O concerto ao vivo é outro tipo de coisa. E acho que nós, como humanidade, também vivemos muitos anos sem teatro e há muitos sítios do mundo onde o teatro não tem o peso cultural que tem aqui no nosso mundo ocidental. Portanto, acho que o teatro é uma coisa interessante para quem o faz, para quem o vê e gosta, mas não é uma coisa especial no sentido de única.
Madalena, como é que surgiu o convite para fazer esta peça? Já tinhas feito coisas deles e passaste a fazer parte da companhia, portanto, estás lá. Estás na linha da frente.
Exato, acho que foi isso. O Miguel ligou-me um dia e disse-me assim: "Olha, este vai ser o pior pitch da história da humanidade, mas vou fazer uma história sobre um homem que recebe pizzas que não encomenda. Bora?"
E tu: "Mas eu gosto muito de pizza."
E eu não gosto mesmo de pizza, porque eu não como queijo.
Ah, ok.
Não, mas surgiu assim e nós temos trabalhado juntos e acho que qualquer convite que venha da parte, agora mais, porque faço parte da companhia.
Exatamente. Isso é uma aquisição recente, não é? Ao princípio, o Urso Pardo eras tu, o Pedro Caeiro e o David Esteves.
O Urso Pardo começou por ser uma ideia minha e do Pedro Caeiro.
Ok.
Quando nós nos conhecemos, fizemos um espetáculo Que se chamava Répteis, onde entrava mais gente também. E ficamos com essa vontade de nos juntarmos e criarmos uma linguagem que achamos que ainda mantemos em comum.
O Urso nasceu com os Répteis. Achas piada?
O nome não, mas a vontade de fazer uma estrutura, uma coisa nossa. O Urso Pardo também tem a ver com isso, porque o urso pardo hiberna e nós também somos muito de: "Pronto, agora durante um ano não fazemos nada." Fica por aí. Se calhar, o nome também tem a ver com isso. Mais tarde, o David Esteves juntou-se com a nossa unânime vontade, porque acho que é uma pessoa que faz muito parte de nós também.
Também vos conhecia desde o Teatro Cascais, do TEC, e também esteve com o Carlos Avilez.
O David também foi meu aluno, trabalhámos juntos também. E depois a Madalena estava com um pé dentro e um pé fora e foi só uma questão de nós nos juntarmos agora com esta coisa organizada. Portanto, isso foi um convite com algumas semanas recentes.
Exato.
Sim.
Mas era uma coisa que era inevitável que acontecesse.
"Como sobreviver a um acontecimento". Antes disso, como é que sobreviveram a esta pandemia? Pararam completamente durante dois anos?
Sim, os meus projetos de teatro independentes, parei-os todos. Aliás, a própria companhia também, que era para ser oficializada na altura, também não foi.
Teve que esperar.
Por causa da pandemia.
Mas escreveste? Aproveitaste para escrever, por exemplo?
Não.
Não mesmo? Dois anos em standby a pensar o que é que te vai dar.
Tive algumas traduções.
Ok.
Eu lembro que na altura houve uma daquelas parvoíces que aparecem no Facebook, quer dizer, o Shakespeare, quando houve uma peste, ele aproveitou e escreveu o Hamlet, o Otelo, o Rei Lear.
Etc.
Não, é completamente mentira, porque o que o Shakespeare fez quando houve a peste foi que ele escreveu poemas, escreveu Vênus e Adônio, escreveu O Rapto de Heléna, porque obviamente ninguém ia ao teatro.
O Globe estava às moscas.
Exato.
Estava fechado, ninguém podia ir ao teatro. O que o homem ia escrever teatro para quê? E eu não acho que tenha sido, inclusivamente tudo o que aconteceu, não só a nível nacional, mas a nível mundial. Acho que foi um absoluto despropósito artístico, no sentido em que não me deu vontade nenhuma, tudo aquilo que estava a acontecer, não dava vontade nenhuma de criar o que quer que fosse. Estava enervado com outras coisas.
Não a criação teatral.
Não, foram dois anos que eu peguei.
Para esquecer. Madalena, como é que tu sobreviveste a este acontecimento que foi a pandemia durante aqueles dois anos?
Não, eu por acaso foi o contrário. Acho que infelizmente muita gente passou mesmo muito mal com esta pandemia, com muita falta de trabalho. Foi mesmo duro para o nosso setor.
Claro que sim.
Eu tive a sorte de quando nós tivemos o primeiro lockdown, eu estava a fazer uma telenovela, por isso interrompi, mas continuamos na produção.
Na equipa, exatamente.
E depois quando retomámos, retomei logo imediatamente o trabalho e não voltei a parar. No segundo lockdown, estava no norte a fazer o filme do João, portanto ficamos lá todos fechadinhos, mas continuamos a trabalhar.
Muito bem. "Como sobreviver a um acontecimento". Portanto, está até 17 de dezembro, terça a quinta às 19h, sexta às 21h, sábado às 16h e às 19h, no Teatro da Politécnica, com David Esteves, Madalena Almeida, Miguel Graça e Pedro Caeiro. Está certo, não está?
Sábado é às 16h e às 21h.
Não é às 19h?
Não, é às 21h.
Mas eu vi não sei onde que era às 19h, deve ter sido num coisa antigo. De qualquer modo, 21h.
Sim. Às 16h e às 21h.
Eu também achava muito seguido, porque isso é uma hora e meia, portanto, se fosse às 16h, acabava às 17h30.
Era uma maratona.
Sim, caramba.
Era mudar de roupa.
Então sábado às 16h e às 21h. Muito bem. E vocês mudam imenso.
Vocês não, eu.
Tu mudas imenso? Eles não. Ele põe o roupão, tira o roupão, está bem.
Não, mas foi uma exigência que a Madalena fez para fazer parte. Ela disse: "Não, eu só faço parte se tiver um guarda-roupa para cada espetáculo".
Vocês, este espetáculo é financiado pela Fundação GDA, Gestão dos Direitos dos Artistas, e pela Fundação Calouste Gulbenkian. Estas coisas têm sempre que ser subsidiadas, não é? Não dá para viver de mostras, de apresentações de teatro com o público que temos. Então quando as coisas reabriram, ainda durante a pandemia, como muita gente se queixou, casas a meio e não sei o quê, as pessoas separadas.
Sim, mas mesmo que as casas estejam cheias.
Tem mesmo que haver este apoio.
Ou os atores têm uma almofada financeira muito grande e o encenador ou a produtora do espetáculo têm uma almofada também para contratar cenógrafos, figurinistas. Ou então faz-se uma coisa com muito boa vontade, que nós já fizemos também muitas vezes, e com muito gosto, mas que chegamos ao fim sempre com a sensação de que estivemos a trabalhar mais para construir apenas e só a nossa realização artística do que propriamente para sobreviver.
Sim.
E obviamente que a partir de certa altura não podemos só sobreviver, temos que viver efetivamente daquilo que é o nosso trabalho, porque sabemos que é um trabalho de qualidade.
Por causa disso é que decidimos avançar com a criação do Urso Pardo.
Exatamente. Esta história extraordinária do homem que está a dormir e batem-lhe à porta. Eu pensei que aquelas pancadinhas que se ouve, pensava que era as pancadas mole que ele olha: "Deve ser três". Depois não, era o estafeta à porta a pedir para entrar. Achei extraordinário isso. Ele está em casa, batem-lhe à porta e tu ouviste esta notícia onde, Miguel? Foste tu que descobriste?
Não, foi o David Esteves que descobriu a notícia.
Porque havia mesmo um homem que recebia pizzas em casa sem ter encomendado. Não digo durante anos, mas durante algum tempo.
A história original, que já tem dois anos, acho eu, quando nós encontrámos a notícia, o homem já estava há nove anos a receber as pizzas.
Palavra de honra? Sem nunca ser descoberto.
Sem nunca descobrirem quem é que enviava as pizzas.
De vários sítios ou sempre do mesmo?
Sempre de vários sítios.
Claro, o sítio pode ser à Telepizza ou o que for, e dizer: "Não quero mais esta encomenda" e cancelar aquilo.
E era o que ele fazia, só que o problema é que ele queixava-se que depois havia alguém que aparecia novo, um estafeta novo, e que não sabia desse impedimento. Havia aplicações novas.
Isto foi onde? Aconteceu onde?
Bélgica.
Ok.
E aconteceu e se calhar está a acontecer ainda, porque eu não tive notícia de que Que a situação tivesse parado.
Meu Deus! Um dia recebeu 20 pizzas. Esta história do homem é verdade?
É verdade.
Não é possível.
Chegou 20 pizzas de uma vez. E era tudo à cobrança.
Mas isso ele podia dizer: "Não tenho mais dinheiro para isso".
Sim, mas ele nunca comprou nenhuma, ele nunca aceitou nenhuma das entregas. O problema é o baterem-lhe à porta constantemente, às duas, três, quatro, cinco, seis da manhã. Isso foi o gatilho que, mais tarde, o David Esteves partilhou numa rede social qualquer, no WhatsApp, um grupo que eu tinha com ele e com o Pedro. Nós não somos muito de utilizar essas coisas, mas às vezes partilhamos uma história divertida. Começou como uma anedota, uma coisa que dá vontade de rir, mas que depois, a partir do momento em que nós começamos a pensar um bocado na realidade concreta daquela pessoa, deixa de ser uma comédia e passa a ser uma tragédia, passa a ser a impossibilidade da existência.
A insônia que isso dá, o estresse, a ansiedade. Deve ser horrível, não é?
Tudo.
E isto é extrínseco. Sabe o que é que me fez lembrar imenso? O Ballard, aquele arranha-céus, este gênero de distopia urbana, terror urbano. Fez-me lembrar imenso isso, não sei porquê. Portanto, é uma peça vocalmente muito exigente, sobretudo para ti. Tu gritas que te fartas.
Eu só grito uma vez.
Uma vez, está bem.
Eu dou um grito.
Mas os colegas gritam muito.
Os meus colegas enervam-se muito.
E tu cantas imenso e eles não.
Eu canto, exato, é verdade.
Portanto, é engraçado que vocalmente é uma peça muito exigente.
Sim. Tenho um microfone, portanto não há de ser tão .
Está bem.
Mas sim, eu não sou cantora nem nada.
Não, mas olha, faz muito bem de cantora.
O Miguel já no Ariadne era por cantar e consegui livrar-me, desta vez não me livrei. Eu queria que a minha personagem fosse a patinadora aqui deste central, não tive hipótese. Mas acho que já aconteceu fazer parte de outros espetáculos em que tinha que cantar, no Madalena nós cantamos.
Tens muita afinadinha, gosto da tua voz.
Muito obrigada.
Não, sério, faz ali um papel muito bom. Como cantora de cabaré, é extraordinário.
Mas acho que vocalmente é exigente. Venho de dois espetáculos que a nível de presença e de energia eram talvez um pouco mais exigentes, porque era o tempo todo eu, no Ariadne e também na Casa das Bonecas. Aqui fico muito contente de partilhar com os meus colegas esta nocudinha.
Exato.
Sim, portanto, acho que a exigência é exigente, mas dissolve-se nesse sentido em que estamos sempre todos juntos.
Podem partilhar.
Nada que um Omgevox não ajude.
E é engraçado, Miguel, porque nesta peça tu escreves e tocas imensos problemas recentes e lugares comuns, alguns até politicamente incorretos, o que é curioso, e o teatro é um bom palco para essas coisas. Desde o assédio do mecânico às donas dos carros, o assédio dos mecânicos aos polícias, que também assediam as mulheres que protegem, as infidelidades, traição do namoro, os suicidas, a relação com o divino. Achei engraçado num poema dela: "Deus é aquilo que nos une". Eu adorei essas coisas. A reclamação com a Alfândega é recorrente. E coisas com o racismo, o delegado do Ministério Público que é preto, mas não é parvo. Eu adoro isto. A doença mental, tocas imensas questões.
Primeiro, eu detesto esta política do cancelamento que está hoje a existir, acho que é um absurdo completo e a mim não me afeta rigorosamente nada. Ou seja, não me afeta porque eu não deixo que me afete. Enquanto professor, isso é uma das coisas que mais me inquieta, é que eu não posso ser um bom professor senão afrontar, de certa maneira, as ideias comuns que os alunos têm. Tenho que ser, de certa maneira, interessante naquilo que estou a dizer e se eu, de repente, começo a reduzir a linguagem, então esse nível de pensamento vai ficando limitado ou até inexistente. Quanto ao teatro ser um sítio violento, sim, o teatro é um sítio violento. Sempre foi, desde a Grécia Antiga. Ainda hoje nós temos alguns exemplos disso. Certos crimes, como por exemplo, fumar, que não é permitido num local público, num teatro é permitido. A nudez, que não é permitida na rua ou num local público, também, mais uma vez, no teatro pode acontecer, os insultos, etc. Eu acho que certos problemas culturais que nós temos, que roçam, podem ter a ver com o racismo, com a xenofobia, com qualquer tipo de discriminação, devem ser confrontados efetivamente. Deve haver personagens que confrontem os espectadores com aquilo que isso significa efetivamente. Não é por eu higienizar um texto e por colocar o texto todo limpinho que essas coisas deixam de existir. Portanto, acho que a forma de combater e a forma de lidar com o assunto é exatamente o contrário. Não é o cancelamento, é expressá-lo.
Publicamente discutir, debater.
Exato. Agora, não é expressá-lo de uma forma vitoriosa. Obviamente, não vou fazer uma peça racista, isso seria completamente idiota, mas eu posso ter uma personagem racista com palavras racistas, porque isso acho que é uma forma de combater exatamente o racismo.
Muito bem. Vamos fazer uma última pergunta pequenina. Se tu fosses ministra da Cultura?
Não era. Nunca aceitava esse cargo.
Diz-me uma coisa que tu achavas que se podia fazer para trazer mais gente ao teatro ou para ajudar o teatro.
Se calhar não ministra da Cultura, mas então da Educação, e acho que se tem falado muito nisso, de tentar que o teatro e também a música, todas as outras formas artísticas estejam mais presentes na educação.
Na educação. Durante a parte curricular dos minutos na escola.
Mesmo desde o início. Se isso é afastado desde o início da vida das crianças, como é que é possível?
Adquirir esses hábitos mais tarde.
Sim, portanto, começar a fazer parte do programa.
Miguel, diz-me uma medida. Temos que fechar.
Não, eu se fosse ministro da Cultura, demitia-me logo de manhã, por vergonha.
Antes de pôr os pés no trabalho.
Por a Cultura ser sempre a parente pobre de todos os orçamentos.
Não é uma questão de orçamento. As medidas na Cultura, as coisas quase sempre reduzem-se a dinheiro. Mas a questão tem a ver com o respeito, sobretudo pelo tecido cultural e nomeadamente a respeitar os concursos, as datas dos concursos, a abertura de concursos. E esta situação que passamos agora neste último mês com os bienais e com os quadrienais foi vergonhosa. O ministro, ou o ministério, demorou mais de um mês a responder. Isto atrasa tudo e é só isso. Se calhar tratar as pessoas com mais respeito.
Fica aqui este recado. Nós infelizmente não temos tempo para mais, mas quero agradecer-vos muito, Miguel Graça, Madalena Almeida. Bem-hajam pela vossa disponibilidade, em vir ao Observador. Assim que nos ouvem, deixo então este convite: até sábado pode ver no Teatro Politécnico, ali na Rua da Escola Politécnica, junto à Faculdade de Ciências, em Lisboa, a peça Como Sobreviver a um Acontecimento, de Miguel Graça. Amanhã e quinta às 19:00, sexta às 21:00, sábado às 16:00 e às 21:00. Assim é que é, não é? Bem-hajam, Miguel, Madalena e até breve.
Obrigada.
Obrigada.