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E cá está ele. Boa tarde, Tiago. De que nos falas hoje?

Olá, Nelson. Boa tarde. Nelson, eu hoje trago boas notícias.

Boas notícias? Maravilha. Avança.

Espera, calma, não me deixaste acabar. Dizia eu que hoje trago boas notícias, péssimas notícias e nojentas notícias que nos levam a indagar: porquê? Mas porquê, senhores?

Ok, certo. Nesse caso, dá para começares pelas nojentas notícias que nos levam a indagar: porquê? Mas porquê, senhores? E depois avançares com as péssimas notícias, por forma a terminarmos em grande com as boas notícias.

Nelson, percebo a tua ideia, está bem visto. Querias tudo organizadinho, numa espécie de degradê de desagradabilidade, não era?

Bem dito. Era exatamente isso.

Só que não vai dar, porque estas notícias vêm numa sequência. Digamos que estas notícias compõem uma historinha. Historinha essa que culmina rendeiramente.

Que culmina rendeiramente. Mas o que é isso, Tiago?

Nelson, é uma historinha que culmina de forma a soar deprimente, altas horas de madrugada, de pijama e barba por fazer.

Já estou a ver melhor. Mas é melhor avançares, Tiago, antes de te distraíres e dares spoilers.

Bem alertado, Nelson. Prossigamos, pois, com a boa notícia. E a boa notícia é a seguinte: uma equipa de cientistas chineses criou um hidrogel parecido com o plástico, mas com uma pegada carbónica 97% inferior.

Boa, ou seja, esses cientistas chineses criaram um estupendo substituto para o plástico que polui o nosso planeta, é isso?

E, em teoria, aquela que seria a primeira das 150 invenções revolucionárias destinadas a melhorar as nossas vidas, que os chineses nos ficaram a dever para compensar a invenção da Covid-19. Só que não.

Ok, deixa-me lá adivinhar, porque vem aí a péssima notícia.

Tu chamas-me a atenção para os spoilers e depois tu é que dás spoilers?

Tens razão. Desculpa, entusiasmei-me.

Então, assim não.

Mas também não volei nada demais. Ainda se tivesse dito que no final a culpa era do mordomo.

Mau. E agora? Então agora estragaste o fim da rubrica. Dá para cortarmos esta parte?

Não, não dá, Tiago. Temos mesmo de seguir.

Mas temos que seguir contigo? Não dá para te largar aqui neste local ermo que é o meio da minha rubrica?

Não dá, porque se me abandonasses agora, há aqui botões na mesa para ligar, deixariam de ser pressionados.

Sim, mas e o que é que acontecia?

Nada de especial, no fundo, mas não me podes abandonar aqui no meio do nada.

Mais péssimas notícias, portanto. Mais péssimas notícias a juntar à péssima notícia que eu já trazia e que é a seguinte, Nelson: este hidrogel, substituto do plástico e inventado pelos chineses, é feito à base de, há tantas e tantas matérias-primas na Terra, tanto por onde escolher, mas este hidrogel, de todas essas matérias-primas disponíveis, é feito de sêmen de salmão.

What?

Nelson, é sêmen de salmão. É que o próprio salmão tem tantas outras matérias-primas. Façam isso com escamas de salmão, pá, ou com guelras de salmão, qualquer outra parte do salmão, que o salmão tem tantas partes.

Mas espera lá, se isto era a péssima notícia, confesso receio da nojenta notícia que nos leva a indagar: porquê? Mas porquê, senhores?

Nelson, tudo temas. É o que tenho para te dizer, tudo temas. Porque a nojenta notícia que nos leva a indagar: porquê? Mas porquê, senhores? É a seguinte: de toda a vasta panóplia de objetos passíveis de serem feitos à base deste hidrogel de sêmen de salmão, os cientistas escolheram fazer, Nelson, escolheram fazer uma caneca.

O quê?

Uma caneca, para degustares o teu cházinho de camomila, Nelson, com um ligeiro trago. Salmão. Sinceramente, é nestas alturas que eu perco a fé na humanidade.

Escolheste uma má altura, então agora que a Justiça portuguesa está a prender gente suspeita de corrupção é que tu perdes a fé na humanidade.

Nelson, por amor de Deus, vais-me dizer que isso não tem nada a ver com o timing das eleições, queres ver?

Não tem rigorosamente nada a ver com eleições, Tiago. Estas detenções são grandes vitórias para a Justiça em Portugal.

É, são. São grandes vitórias, Nelson. É para celebrar à séria tudo isto. Então abram uma garrafa de espumoso e façam um brinde com estas canecas à base de sêmen de salmão. Estás a perceber? Um brinde.

De maneira que no fundo é muito. Mas espera lá, mas acaba aqui a rubrica? No final a culpa não era do mordomo?

Não, claro que era, Nelson. Achas que os convivas que celebrariam estas vitórias da Justiça portuguesa sabiam que estavam a brindar com canecas à base de sêmen de salmão, Nelson? Claro que não. O mordomo da festa é que trocou as flutes por estas canecas mal saborosas, que ele também está meio desconfiadão do timing destas detenções. Estás a perceber?

E agora sim.

Agora é que é, Nelson.

De maneira que no fundo, é muito isto.