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De maneira que no fundo é muito isto com o cello-humorista Tiago Dores. Boa tarde, Tiago. De que nos vais falar hoje? Cello-humorista Tiago Dores.

Boa tarde, Vicente. Boa tarde, Judite.

Olá, boa tarde.

Olá Judite e Vicente. Então como é que correu esse Natal? Vamos lá saber.

Queres um resumo? Eu posso dar um resumo.

Um resumo muito resumidinho.

Correu bem.

Hiperglicemia.

Eu ia pedir uma palavra, não estava à espera desta.

Pensei que ias dizer diabetes.

Também boa, muito descritiva.

Mas olha, correu bem.

Estou a ver que sim, que correu mesmo muito bem o vosso Natal.

Mas há de haver algum indicador. Como é que estás a ver que correu muito bem o nosso Natal?

Então, Vicente, por ti vislumbro aquele volumezinho abdominal extra.

Bem vislumbrado.

Precisamente isso que tu estavas a dizer. Compatível com a ingestão compulsiva de rabanadas.

Ora nem mais.

Que também houve cá por casa. Já em relação à Judite, constato o envergar de um novo e muito quentinho par de farfalhudas peúgas.

Sim.

Portanto, tudo realmente indica que ambos tiveram uma época festiva muito proveitosa.

Sim. E então e o teu Natal, também correu bem?

Posso dizer que correu até muito bem e mais: constatei na primeira pessoa que, afinal, o circo de Natal é o exato oposto desta minha rubrica.

O oposto da tua rubrica? Porquê? Como assim?

Porque este Natal fui com a minha família toda ao circo e não é que, contra todas as minhas expectativas, confesso, não só o espetáculo não foi deprimente, como foi até muito giro. Foi muito giro o circo de Natal.

Espera. E em que medida é que isso é o oposto da tua rubrica?

Mas como assim, Judite? Mas não fica evidente?

Não.

Repara, em relação ao circo, eu ia com a expectativa que fosse deprimente e revelou-se até muito giro. Ao passo que nesta minha rubrica cria-se a expectativa de poderá ser muito gira, culpa de Vicente Figueira, mas depois vai-se a ver e é deprimente.

Faço aqui meu auto-culpa e peço desde já desculpa por te fraudar expectativas. Está bem visto.

A culpa é tua, sim senhor.

Nada a acrescentar para além disto.

Não é?

Então, Tiago, houve algum número no circo que tivesses gostado particularmente?

Sim, por acaso devo dizer que sim, Vicente. Apreciei bastante aquele número, que é já um clássico, que é o chamado número António Costa.

Há um número chamado António Costa?

Sim.

E ainda por cima é um clássico. É estranho, porque eu não sou fã de circo.

Eu pensava que tu eras grande fã de circo.

Não sou, mas tenho conhecimentos, objectivamente.

E nunca ouviste falar nisto?

Nunca ouvi falar nisto.

Não, já ouviste, de certeza. Provavelmente não ouviste foi chamado pelo nome técnico: número António Costa. Mas é aquele número clássico de magia em que há uma senhora que se tapa por brevíssimos segundos com um pano e quando se destapa já está com uma vestimenta diferente. É o número António Costa, uma vez que a artista muda de roupa quase tantas vezes quantas o famoso artista vira a casaca. Ora manda abaixo o muro e junta-se aos comunistas. Ora volta a construir o muro e afinal o PSD de Rui Rio é que é muito bom. Ora volta a demolir o muro e viva o Bloco e ao PCP. O público fica sempre ali agarrado.

É, ali no trapézio também, sempre.

Exatamente.

Mas no meio de tudo isso, acabaste por não revelar que presente recebeste neste Natal, que é aquilo que verdadeiramente nos importa.

Não.

Como foi materialmente o teu Natal, Tiago Dores?

Pois não, não revelei, nem vou revelar. Mas, em contrapartida, Vicente e Judite, e de forma até bastante disruptiva, em termos de tradições natalícias, vou desde já revelar que presente não desejo receber no próximo Natal.

Ok.

É ou não é disruptivo isto?

É capaz de ser útil, mas vais mandar uma carta ao Pai Natal especificamente a dizer que não queres determinado presente, é isso?

Nem mais. Vou enviar um subscrito ao Pai Natal já no início do ano, para não ficar para uma altura do ano mais movimentada a dizer: "Pai Natal, atenção. Não desejo receber, caso já esteja a ser comercializada por alturas do próximo Natal, claro, uma daquelas televisões que um japonês inventou, que permite, ao lambermos o ecrã, perceber o sabor daquilo que estamos a ver". Portanto, Pai Natal, esquece, não quero. Obrigado, até à próxima. Foi um gosto.

Uma televisão que permite provar aquilo que estamos a ver. Sim, caro ouvinte, isto é verdade.

É verdade.

Homei Miyashita é o nome do professor japonês que criou um protótipo de ecrã de televisão que permite ao utilizador ver e ouvir conteúdos, além de transmitir também a sensação do sabor.

Sabor, exatamente. Nem mais, Vicente. Obrigado, senhor Homei Miyashita, mas não desejo. E aproveito para confirmar que quero ser já o primeiro na fila para não receber este novo televisor.

Mas tu não achas isto uma invenção espetacular?

Negativo, Judite. Não há aqui qualquer vestígio de espetacularidade. Para já, por que eu havia de querer passar a ver televisão como se estivesse a olhar através do vidro de um carro em que se transporta diariamente uma pequena matilha, todo lambuzadão e sempre cheio de babas e fica tudo colado e marcado no vidro. É meio nojento. E depois, porque eu já sei a que sabem as coisas que aparecem na televisão. Eu não preciso ir lá lamber o ecrã, muito obrigado. Eu sei a que sabem as coisas que aparecem na televisão.

Sabes o sabor de tudo o que aparece na televisão? Parece-me exagerado.

Tudo. Sei o sabor de tudo o que aparece na televisão.

Então vamos a um teste.

Ai é? Queres desafio, Judite? Vamos a isso então.

Ok.

Vamos lá ver se eu não sei o sabor de tudo o que aparece na televisão.

Então vamos a isso. Já que mencionaste o Primeiro-Ministro, a que sabe o discurso de Natal de António Costa na televisão?

Fácil, Judite, muito fácil. Estava à espera de um challenge, como deve ser, mas não. Muito fácil. A que é que sobe o discurso de Natal de António Costa na televisão? Vocês lembram-se do sabor das petazetas?

Claro que sim.

A experiência toda como um todo.

Exatamente, o estalinho, tudo.

É o estalinho das petazetas. Então o discurso do Primeiro-Ministro António Costa teve um sabor muito parecido com o das petazetas. Soube a petazonas. Perceberam? Petazetas, petazonas. Sem precisar de lambuzar LCDs.

E não é peta.

Soube a petazonas. A mim soube, pelo menos.

Não é peta nenhuma. De maneira que no fundo, é muito isto, Tiago Dores.