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Então não aquece a voz, Tiago? Isto é uma obscura.
Não, pois hoje não, estou muito atento. Não.
Olá, Tiago.
Estás a falar com um profissionalão.
Exatamente.
Não, nada disso, tal uma vez. Bom dia a todos. Como estão? Tudo bem?
Tudo ótimo.
Bom dia, tudo ótimo.
Boa. Foi por pouco hoje, sabem? Foi por muito pouco que hoje não tínhamos rubrica.
Então, o que aconteceu? Algum problema, Tiago?
Não, Paulo. Foi efeito Taulard.
Efeito Taulard. Taulard foi o navio porta-contentores inglês que naufragou no rio Tejo.
Sim, mesmo em frente ao Terreiro do Paço, onde encalhou em fevereiro de 80.
80, onde isso já vai, exatamente.
80, sim, já foi há uns anos, não é?
Já foi.
E de onde só foi retirado, houve inúmeras tentativas que não deram efeito, só em dezembro de 83, quando já praticamente fazia parte de Lisboa, da paisagem de Lisboa.
Exatamente, e constato que estou na presença de verdadeiros especialistas em acidentes marítimos, e não apenas meros curiosos de naufrágios fluviais. Fogo em saber.
Como é evidente. Nem podia ser de outra forma, até porque o Taulard, digam o que disserem, é o nosso Titanic.
Sem dúvida. Há muita propaganda em torno do Titanic, porque o Titanic afundou para lá no estrangeiro e porque era o maior navio do mundo e tinha orquestra e iam para lá a Kate Winslet e o Leonardo DiCaprio. Mas em termos de misticismo, o Taulard não fica a dever nada ao Titanic.
De todo. Aliás, a história naval portuguesa tem no Taulard um ponto alto.
Então, não tem? A história naval do nosso país fica indelevelmente marcada por dois momentos cruciais. O primeiro é a chegada da nau São Gabriel, comandada por Vasco da Gama à Índia. Depois de uma viagem que levou a descer a costa oeste da África, ao longo do Atlântico Sul, a dobrar o Cabo da Boa Esperança, subindo posteriormente pela costa oriental do continente africano, para cerca de um ano após a saída de Lisboa chegar a Calecute. O outro momento crucial é quando o Taulard choca com o navio sueco Barranduna, mesmo nome sueco, e se afunda no Tejo, onde acaba por permanecer quase quatro anos.
Ora, lá está. Exatamente. Taulard, quatro anos no Tejo. Nossa São Gabriel, um escasso ano para chegar à Índia. Portanto, bastante superior o Taulard.
Ora aí está. Quatro é muito superior a um, de facto, sem dúvida. Principalmente em termos até de apoio popular, porque reparem, quem é que se manifestou relativamente à nau São Gabriel?
Foram os velhos do Restelo, claro.
Precisamente. E manifestaram-se de forma extremamente negativa, com azedume, até. Enfim, talvez estivessem aborrecidos com o escândalo que é ainda haver gente com mais de 80 anos que não recebeu a segunda dose da vacina da Covid. Também pode ter sido por isso. Mas a verdade é que quem contemplou a nau São Gabriel a zarpar do Tejo, fê-lo com-- ai, ai, mas o que é isto?
É quinta.
É quinta.
Chama-se quinta-feira.
Está pior do que as quartas. Vou repetir, para ficar claro. A verdade é que quem contemplou a nau São Gabriel a zarpar do Tejo, fê-lo com profundo desdém. Ao passo que o Taulard, afundado no Tejo, era motivo de efusivas romarias ao fim de semana, que juntavam os filhos, o pai e a mãe. Para rimar com desdém, mas ficou um bocado longe.
É, perdeu-se um bocadinho, sim. Mas olha, até porque naquela altura havia muito poucos centros comerciais e, mais do que isso, não havia confinamento.
Nem havia Fernando Medina.
Pois não.
E, portanto, as famílias ainda conseguiam deslocar-se de carro em Lisboa. Não tinha de ser de trotinete elétrica. Que digam o que disserem, não é a forma mais prática de levar gêmeos de quatro anos a dar uma voltinha.
Certo.
Pode ser divertido, mas não é muito prático.
Certo. Mas aqui chegados, Tiago, acredito até que é impossível inventar mais alguma coisa para dizer sobre o Taulard.
Já estava a ficar difícil.
Já estávamos aqui basicamente empatados. Queres explicar por que afinal é esse efeito Taulard que quase ia impossibilitando a existência desta rubrica?
Com certeza, Paulo. Ora, o efeito Taulard é precisamente o fenômeno de ficar embasbacado a contemplar porta-contentores encalhados, que foi o que me aconteceu ontem com aquele navio gigante que encalhou no canal do Suez, impedindo todo tipo de circulação naquele estreito.
É verdade, e o que é mais impressionante é que esta paragem forçada da circulação dos navios provocou uma subida do preço de petróleo de quase 6%, apesar de ninguém andar a notar.
É incrível, 6% é impressionante, sem dúvida. E deixa-me a pensar no seguinte, reparem nisto: tu queres ver que esta paragem forçada da circulação dos portugueses agora na Páscoa também vai redundar num crescimento de quase 6%? Queres ver que tudo isto, afinal, é um genial plano de Costa e Marcelo para crescermos 6% devido a esta paragem forçada? É que é bem capaz de ser isto, ouviram? Analisem, por favor, no explicador da amanhã, se não é este o plano.
Nunca fiando.
Bem, nós vamos falar com a Carla sobre isso do explicador.
Tentem pôr isto amanhã no alinhamento.
Vou considerar.
Obrigado, Carla.
Tiago Dores, de maneira que no fundo é muito isto, segunda a sexta, sempre antes das 10 na Rádio Observador e pode dizer-se à hora que quiser em podcast