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Bem-vindo, Álvaro Beleza. Foi mandatário nacional da candidatura de Pedro Nuno Santos nestas legislativas, mas o processo parece não estar ainda concluído. Obrigado pela disponibilidade. O líder do PS disse que não coloca entraves à tomada de posse de um novo governo, mas para garantir a estabilidade desse novo governo, deve comprometer-se em aprovar o primeiro orçamento do Estado ou isso já é ir longe demais?
Boa tarde, obrigado pelo convite. Eu, de fato, pensava que tinha voltado à minha vida normal e mais descansada. Mas o líder do PS disse tudo. Pensou no país antes de pensar no partido, teve nobreza e desprendimento do poder, felicitou o partido vencedor e disse que não seria pelo PS que a AD não seria governo e, portanto, o Partido Socialista passa pra oposição e fará uma oposição construtiva, como sempre fez ao longo da sua história.
E isso é o quê? É não fechar a porta ao olhar para as propostas de um orçamento de Estado?
Sabe que o Partido Socialista é um partido de pontes, não é de muros. Deitou é muros abaixo. Deitou vários. E eu, aliás, estive na queda do Muro de Berlim em 89 em Praga com o doutor Mário Soares, na altura presidente da República, e o Partido Socialista também deitou muros abaixo à esquerda, com os partidos à esquerda do PS. Portanto, o PS é o partido do diálogo com as forças políticas e portanto, nas questões essenciais pro regime, pra República, pra soberania, teve sempre e terá sempre no futuro diálogo com o PSD e tem uma postura de Estado que o Pedro Nuno Santos foi exemplo disso.
E também, já agora, o ministro das Finanças, que ainda agora em Bruxelas-
Vem um bocadinho a sequência daquilo que defendeu Ferro Rodrigues, Santos Silva, Fernando Medina, de que o PS deve defender essa estabilidade.
Exatamente. Mas não haverá uma pressão sobre o PS para que essa estabilidade inclua esse documento tão importante como o orçamento?
Vamos lá ver. Não vamos pôr o carro à frente dos bois. Pra já será formado um governo, tomará posse, e esse é o processo que estamos. A questão do orçamento é pra depois do verão, ainda falta muito tempo, ainda vamos todos a banhos e férias, bem precisa. E espero que depois, nessa altura, o AD e o governo do AD é que terá que tratar e ver à direita com os partidos da direita a execução do orçamento. E obviamente que o Partido Socialista não fecha portas, mas não será a muleta do governo da AD. O Partido Socialista será a oposição a este governo.
Mas o que é que pode pesar mais? É esse receio de ser a muleta do PSD ou o receio de provocar uma crise e depois ser penalizado eleitoralmente em futuras eleições?
O Partido Socialista não provocará crise. Ponto. O PS não será o problema. O PS faz sempre parte da solução e, portanto, tem que haver estabilidade, faz todo sentido que o governo governe e nós não podemos andar de eleições de seis em seis meses. Isso não é pra brincar. Eu acho que o recreio acabou. Isto agora é o tempo de adultos e portanto, temos que pensar, como eu dizia, no país, antes de pensar no partido.
Na noite eleitoral, Pedro Nuno Santos admitiu também que os socialistas iam ser alvo de pressões. De onde é que virão essas pressões? De dentro do PS ou mais do PSD ou até do próprio presidente da República?
O Pedro Nuno Santos revelou ao longo deste processo uma qualidade que é eu acho que ele só cede à pressão da consciência dele. E a consciência dele dita isto: sentido patriótico, defender as suas convicções. É bom pro país, não é pro Partido Socialista, é bom pra Portugal, que o partido da oposição seja o Partido Socialista. E, portanto, o Partido Socialista vai cumprir esse papel.
E é isso que é importante vincar nesta altura pra não dar esse lugar a outro, já percebemos.
Não, não há aqui receio nenhum. O partido está unido e vai estar unido. Nós temos agora é cada um fazer as suas responsabilidades. À AD compete ter um governo e já agora, que seja um bom governo, que governe bem e que vá de encontro ao programa que eles apresentaram, às necessidades do país. Ao Partido Socialista competirá ser a oposição e a alternativa pra um futuro governo.
Deixe-me ir aqui às esquerdas. Hoje o PCP anunciou uma moção de censura. Isto pode marcar já aqui uma divisão no arranque da legislatura?
Os partidos à nossa esquerda. O Partido Socialista tem autonomia, sempre teve. Os partidos à esquerda do PS farão o que entenderem. O Partido Socialista não apresentará a moção de censura, ponto.
Mas o bloco convidou toda a esquerda pra consensualizar uma estratégia na oposição. Que efeitos práticos é que podem sair destas conversas e por que é que o PS deve fazer parte delas ou não fazer parte delas?
O PS conversará com os partidos à sua esquerda, seja quando os convida, seja a convite deles, até porque já governou com eles, já fizemos um acordo de governo no passado com eles e portanto, conversar é natural e vamos conversar. Eu acho que isso é um-
Mas uma estratégia concertada da oposição de toda a esquerda?
O Partido Socialista terá uma estratégia própria. O Partido Socialista é o maior partido da esquerda, não só o Partido Socialista sai destas eleições como o maior partido português. Mantém-se como o maior partido português E obviamente o maior partido da esquerda portuguesa lidera a esquerda e liderar é também conversar. Aliás, isso é como em tudo, não é só na política. Nós não estamos em tempo de chefes, estamos em tempo de liderança participada, de ouvir as pessoas.
Mas é entendível que depois as estratégias sejam diferentes. Neste caso, a do PCP já será diferente da do PS.
Eu não sei qual é a estratégia dos outros. A estratégia do PS é esta, e a voz do PS é a voz do líder do partido. E a estratégia acho que é claríssima. O Partido Socialista, aliás, como eu disse há tempos numa entrevista, mais do que os programas, valem os currículos. É como nós quando contratamos alguém para uma empresa ou quando num concurso entra um médico para um serviço, o que conta é o currículo. Não é só as intenções, o que eu quero fazer. O currículo do Partido Socialista é esse, o Partido Socialista não mudou. O Partido Socialista é o partido da social-democracia em Portugal, é um partido de diálogo, de charneira na vida política portuguesa, lidera a esquerda, obviamente conversa e articula, às vezes em certas situações, para o governo nacional ou autarca com os partidos à esquerda, mas conversa e dialoga, nomeadamente com o PSD, com o CDS ao longo dos anos, com a Iniciativa Liberal também deve fazer, e a bem do país em questões centrais. E já agora, convém falar nelas, porque, por exemplo, defesa e segurança, que é uma coisa que se falou pouco, mas que está aqui à nossa beira. Aliás, eu estou à vontade como presidente da CEDES. Voltei hoje a ser presidente da CEDES, suspendi meu mandato por causa das funções que eu tive no Partido Socialista. A CEDES fez uma sondagem aos portugueses sobre as questões da defesa e temos um observatório que tem posições sobre isso. E a maioria dos portugueses foi favorável à ideia da CEDES de haver um serviço de cidadania obrigatório. Isto não é um serviço militar obrigatório. Os portugueses até foram mais longe. A maioria acha que poderá haver um serviço militar obrigatório, mas não é isso que a CEDES defende. É um serviço de cidadania com jovens aos 18 anos, seja na segurança, na polícia, na GNR, na saúde, na Segurança Social, prestem serviço cívico na proteção civil, como fazem países nórdicos, alguns países. Eu acho que nós temos que olhar para isto, com o que está a passar com a Rússia, é um assunto sério e grave, e nessas matérias tem que haver, obviamente, entendimentos.
Mas com uma legislatura que ninguém espera que chegue até o fim, há condições para esses entendimentos?
Essa coisa da legislatura não chegar até o fim, veremos. Também se dizia quando fez a geringonça, não chegava, e chegou e foi estável. E, portanto, eu acho que também hoje é o tempo de não nos precipitarmos prognósticos só no fim de jogo, como dizia o outro. E cada coisa a seu tempo. Cada um cumprir a sua função com serenidade, com sentido de pensar naquilo que é melhor para os portugueses e aquilo que se está a viver no mundo é tão sério que é evidente que haverá esse sentido de Estado e acho que o Pedro Nuno revelou isso tudo.
O Pedro Nuno se sentiu ou percebeu que o PS precisa de uma cura de oposição?
Não, isso também é outro assunto que eu tenho falado muitas vezes. Não há democracia parlamentar, democracia verdadeira, sem alternância no poder. Não é bom estar o mesmo partido no poder muitos anos, seja onde for. Ou numa câmara municipal ou numa região, por exemplo, como a Madeira, que é sempre o mesmo partido a governar. E, portanto, a alternância é natural. O Partido Socialista governou oito anos. É natural, não é nada de estranho. E eu estava, e alguns socialistas, até ouvi isso do primeiro-ministro António Costa, preocupados com a capacidade do PSD de ser alternativa. Bem, e já agora, o PSD ganhou, mas por unha negra. Agora vamos ver os votos da imigração e a diferença agora é 50 mil votos, mas até pode diminuir. É uma diferença pequena. E é importante que haja uma alternativa da direita democrática, nomeadamente do maior partido do centro-direita português, do PSD. Isso é positivo para a democracia. Temos que encarar isto sem drama, com sentido republicano.
Mas este é um período importante para o PS se renovar, este da oposição. Dura seis meses ou dura quatro anos?
Não, o PS precisa de se renovar, nomeadamente. Hoje tem uma direção jovem, tem uma nova geração à frente do partido, um Liva jovem, mas tem que atrair jovens para a política.
E não está a conseguir fazê-lo. Dentro do eleitorado do PS.
Dentro do eleitorado não está, é visível, mas dentro do Partido Socialista, que há muitos jovens no Partido Socialista, há muitos. Atenção, temos muitos vereadores, muitos dirigentes distritais, há muita gente nova. Mas temos que atrair mais e temos que responder aos anseios dos jovens e nomeadamente os partidos têm que se abrir à sociedade. Eu vou sábado a Viseu falar numa conferência sobre isso. Os partidos têm que se abrir à sociedade. Não é por acaso que eu há 40 anos com o Assis que defendemos círculos uninominais e eleições primárias. Os partidos têm que se abrir e o PS deve fazer a sua parte também aí. E é outra área em que deveria haver entendimentos ao centro para uma reforma eleitoral do país, para que se aproximem os eleitos dos eleitores, para que os jovens venham para a política, sintam que a política não é para os outros.
Houve uma grande participação de jovens, mas têm votado ou votaram nestas eleições maioritariamente à direita. O que é que é preciso fazer para atrair esses jovens para o PS?
É preciso abrir as portas e é preciso que o partido responda aos anseios deles. Nós temos que permitir que os jovens em Portugal tenham salários ao nível dos países europeus mais desenvolvidos Isso é o grande desafio português: crescimento econômico para todos.
Até por essa composição do eleitorado, o PS não corre o risco de ver o PSD dar início a um ciclo de governação longo, isto se houver aqui a replicação da estratégia de Cavaco Silva no governo de 1985?
Isso depende da capacidade, veremos, do governo do PSD. O Partido Socialista não é um fim em si mesmo. Os partidos não são um fim em si mesmo, pelo menos eu não sou assim. O Partido Socialista é um instrumento político ao serviço dos interesses dos portugueses. Eu costumo dizer, se eu fosse sueco, provavelmente não fazia política, porque já é um país que o nível de vida é tão elevado que não senti a necessidade de ir lá fazer alguma coisa pra melhorar a vida das pessoas. O Partido Socialista luta pra que não haja pobreza em Portugal, pra que ninguém fique no chão, pra que o Estado social seja melhorado e que permita que todos tenham acesso à saúde, independente de serem ricos ou pobres, daqui ou acolá, e terem o melhor serviço de saúde ou a melhor escola pública. A ideia da escola pública universal e gratuita e da saúde pública universal e gratuita é um avanço civilizacional muito importante, porque permite que o filho do rico e do pobre tenha o mesmo professor de matemática ou o mesmo cirurgião cardíaco, coisa que outros sistemas de saúde, já agora, nomeadamente bismarckianos, não permitem, porque, por exemplo, quem tiver seguros de saúde melhores, mais bem pagos, poderá ter o hospital melhor e serviço melhor.
Mas para isso tem que haver professores e médicos.
Sim, mas só pra dizer, isto que o PS defende é também um grande contributo, esta saúde universal e gratuita. A educação pública gratuita e universal ajuda o elevador social, mas não chega, é preciso outras coisas. É evidente que o Partido Socialista o que quer é que as coisas corram bem e que o país esteja bem. E por isso eu disse ainda hoje meia a um colega seu: como português, o que nós queremos é que o governo governe bem, que as coisas corram bem, aqui ninguém deseja o pior pra irmos pro poder. E isso também é uma coisa importante. E o Pedro Nuno foi muito feliz nisso. Aqui não há apego ao poder que nem lapas. Ninguém quer estar no poder pelo poder.
Mas a vocação dos partidos e dos grandes partidos é o poder.
Mas não pode ser o poder a todo custo. Tem que ser o poder por causas, por convicções e por ideologia, porque a ideologia é uma coisa positiva, porque no fundo é uma ideia. Ideologia compõe um conjunto de ideias pra resolver determinados problemas. Nós temos um conjunto de ideias, somos à esquerda, defendemos mais o Estado social, a direita é mais do privado e mais liberal. O Partido Socialista é mais liberal nos costumes, e bem quanto a mim, há uma direita que é mais conservadora nos costumes. Portanto, nós temos as nossas convicções, devemos lutar por elas. Agora, procuramos que as pessoas votem em nós e desta vez fizemos o possível pra ganhar. Não deu. Da próxima vez lá estaremos. Mas pra ganharmos, temos que ser honestos, claros e atrair os melhores pra nós.
E Pedro Nuno Santos é o homem certo pra essa próxima vez. É porque apesar disso, o PS registou aqui uma derrota, ou seja, perdeu 500 mil votos e 40 deputados.
O Mário Soares perdeu várias vezes e ganhou depois. Ainda há pouco estava a ver um post do Winston Churchill, talvez o maior estadista do século XX, perdeu tantas vezes e ganhou já velho com 70 e tal anos.
Mas diria que a responsabilidade desta derrota não é de Pedro Nuno Santos?
Não, eu acho que todos temos responsabilidade, ele tem também parte dela.
António Costa e Pedro Nuno assumiram os dois a responsabilidade.
O Álvaro Beleza, o militante mais anônimo, todos temos a nossa responsabilidade. No PS, quando perdemos, perdemos todos. Os líderes, e bem, assumem a sua responsabilidade, o primeiro-ministro ficou lhe bem, foi nobreza dele de assumir isso, o Pedro Nuno também, mas foi de todos. Agora, o Pedro Nuno é jovem, está rodeado de gente nova, tem todas as condições pra fazer esse caminho e ser governo. E estou convencido que um dia será, se o merecer, espero que o mereça. Nós estamos aqui pra ajudar.
Muito obrigado, Álvaro Beleza, pela disponibilidade, por se juntar a nós neste "Direto ao Assunto".