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E neste último Direto ao Assunto da tarde política do Observador, recebemos no nosso estúdio móvel montado no Centro de Congressos de Aveiro, Francisco José Viegas. Um nome, várias vidas: jornalista, escritor, editor, autor e apresentador de programas de televisão e de rádio, secretário de Estado da Cultura do governo liderado por Pedro Passos Coelho. Francisco José Viegas, bem-vindo. Qual destas vidas lhe dá mais prazer? Qual destas vidas lhe assenta melhor?
Boa tarde! Quase todas, mas confesso que como autor e como editor me sinto nesta fase da vida. Mencionou o fato de serem várias vidas e eu acho que isso acontece com quase todos nós. Temos várias vidas, vamos escolhendo conforme o tempo, conforme a altura em que estamos. Não há grande segredo para isso.
É, entre outras coisas, como já vimos, um homem de cultura. Hoje participa nesta conferência organizada pela Câmara de Aveiro e pelo Observador sobre cultura e democracia. Muito se tem falado sobre as ameaças à democracia, o crescimento de movimentos extremistas, a falta de tolerância. Sei que também é um homem de fé. A cultura é a salvação?
A cultura é aquilo que faz a nossa humanidade. Quando nós hoje falamos da crise das humanidades, falamos da crise da cultura. E quando nós falamos da necessidade de reabilitar as humanidades, o ensino das humanidades, o estudo das humanidades, estamos a falar também dessa necessidade da cultura. Eu penso que estamos numa espécie de tempo de desumanização. Vamos perdendo um pouco as âncoras que nos faziam ser de determinada maneira há uns anos. Mas isso pode ser um problema geracional. Podemos estar a atravessar um tempo estranho. Eu acho que estamos necessariamente a atravessar um tempo estranho, não sabemos onde é que paira um pouco a nossa inteligência. Hoje falamos muito em inteligência artificial, que é um dos temas que nos devia preocupar. Acho, aliás, estranho, por exemplo, que não existam ainda equipes de trabalho que englobem Ministério da Justiça, Ministério da Educação, da Cultura, dos Negócios Estrangeiros, da Administração Interna, etc, que coordenem este trabalho e que digam o que é que vai acontecer, o que é que pode acontecer, na forma como lidamos com estas novas realidades, com a inteligência artificial.
É preciso haver regulação?
Eu não diria regulação. Quer dizer, antes de haver regulação, nós precisamos saber exatamente em que é que consiste, o que é que vai acontecer. O que é que vai acontecer em termos de legislação laboral, por exemplo, de que forma é que a robotização, que vai ameaçar necessariamente uma certa estabilidade dos nossos postos de trabalho, etc. Provavelmente daqui a 10 anos, muitas das coisas que nós fazemos vão deixar de ser feitas por nós. E, portanto, nós precisamos nos preparar. Não devemos estar unicamente à espera das diretivas europeias, que é aquilo que geralmente acontece, para ver como vamos fazer. Aliás, é muito curioso, porque Portugal tem uma série de empresárias, porque são mulheres mesmo, que estão a liderar esse processo em várias empresas, em várias grandes companhias americanas, de investigadores de inteligência artificial, e nós devíamos chamá-los para trabalhar com Portugal nesta matéria. Temos que estar preparados. Hoje em dia, o combate é um combate de titãs entre a China, os Estados Unidos, a Rússia à distância, o que for a União Europeia do outro lado. Mas nós precisamos ter as nossas próprias armas e precisamos ter as nossas vias para sair disto. Por exemplo, este mês assinalou-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Foi uma coisa pífia, como nós sabemos, quer dizer, é uma coisa que se faz por uma espécie de cerimônia, não significa nada. Mas graças à inteligência artificial, nós não sabemos ainda se daqui a 10 anos ainda temos o português conforme o temos hoje, conforme nós o falamos hoje, porque os algoritmos vão obrigar-nos necessariamente a adaptar-nos ao português do Brasil, que vai ser dominante. Não há maneira de escapar a isso. Mas depois eu fico muito admirado com uma certa leviandade e pulcritude dos nossos responsáveis, quando se percebe que 10% do mercado português do livro é já em inglês, não em português. Portanto, estas realidades deviam ocupar-nos mais. E não ocupam.
A promoção da cultura está sempre sob o chapéu do Estado. Já aqui dissemos que foi secretário de Estado. Hoje a cultura tem um ministério. São orgânicas que condicionam, de alguma forma, a política cultural, ou é absolutamente indiferente ser secretaria de Estado ou ser ministério? É uma polêmica sempre que aparece.
Eu vou desfazer um bocadinho essa questão que me atormentou, na verdade, durante anos.
Quando foi secretário de Estado.
Quando fui secretário de Estado. Eu fui secretário de Estado da Cultura porque eu pedi a Pedro Passos Coelho para ser secretário de Estado da Cultura, porque isso me permitia a mim trabalhar diretamente com o primeiro-ministro. E foi o que aconteceu. Ou seja, eu despachava diretamente com Pedro Passos Coelho E, portanto, fico assim desfeito. Essa aparente despromoção que me permitiu todas as terças-feiras ter uma reunião com o primeiro-ministro para tratar daquilo que era fundamental.
Portanto, deixe-me pegar nessas reuniões para lhe perguntar se uma das coisas que lhe pedia era mais orçamento para a cultura.
Sim, eram circunstâncias excecionais. É preciso perceber que nós vivíamos circunstâncias excecionais.
Estávamos no Estado da troica, para quem não se recorda.
E as condições em que se desenvolveu o trabalho nessa altura eram também excecionais e ainda não foram explicadas.
Mas de uma forma geral investe-se pouco na cultura?
Investe-se pouco na cultura porque não se sabe em que é que a cultura investe ela própria. Este é um problema grave. Por exemplo, antigamente, há muito tempo, quando os orçamentos chegavam à ajuda, uma parte substancial estava consumida em obras, o que era normal, porque tratava-se do património. O que é certo é que o investimento em património, que era o investimento que devia ser participado por todos, tem a ver com a economia. Por que o Ministério da Economia não participa mais ativamente?
Sempre pelo turismo, não é?
Exatamente. E portanto, graças aos investimentos que foram feitos no património, nos museus, etc., nos palácios, nos monumentos nacionais, graças a isso nós desenvolvemos o turismo. A cultura nunca teve uma contrapartida por parte dos outros setores do governo.
Mas com isto liga sempre aquela velha história da subsidiodependência.
Essa expressão subsidiodependência é muito amarga. A questão é que, por um lado, o Estado tem que apoiar, tem de apoiar, tem de ter uma política pública de incentivos à criatividade, à leitura, etc. Mas, por outro lado, há uma dimensão que nos é muito prejudicial, que é a dimensão do próprio mercado.
É um mercado curto.
É um mercado muito curto. Quantos espetadores vão ver um filme? 10 mil? 20 mil? Provavelmente não. Qual é a tiragem de um livro em Portugal? 2 mil? 3 mil? Essa dimensão do mercado exige uma compensação.
O facto de não termos escala exige uma compensação.
Imagino que continue, Francisco José Viegas, a acompanhar de forma bastante próxima a vida político-partidária portuguesa. Que palavras é que melhor descrevem o momento que nós vivemos numa frase? Apelo à sua capacidade de síntese.
É muito curioso, porque eu acho que estamos numa fase de grande expectativa. As pessoas estão à espera do que vai acontecer. Algumas estão a ser muito surpreendidas por Luís Montenegro, que é um homem calado, um homem silencioso, e isso é uma vantagem muito grande. Tem sido para ele uma vantagem. Uma vantagem política, uma vantagem comunicacional. Vamos ver se isso se traduz, como o próprio Luís Montenegro gosta de dizer, na vida real das pessoas.
Para fechar, esquecemos de referir uma das vidas e vestes de Francisco José Viegas, de calções e chuteiras ou fato de treino e sapatilhas, uma só cor, azul e branco. A longa vida de Jorge Nuno Pinto da Costa à frente dos destinos do Porto terminou. André Villas-Boas é o senhor que segue. Que sentimentos lhe despertam este momento marcante na história do clube pelo qual se apaixonou?
Espero que as pessoas não pensem que estou a ser demasiado cruel quando digo que vivo esta situação com certo alívio e, portanto, com a esperança de que seja possível limpar a casa, arrumar a casa, partir para um novo futebol clube do Porto, com uma nova gestão, com provavelmente novos princípios, com outro sentido da gestão e da relação com os adeptos e com os outros clubes também.
Francisco José Viegas, obrigado pela sua disponibilidade para ter estado conosco nesta tarde política. Estivemos em Aveiro, ou estamos ainda em Aveiro. Já a seguir, Vanessa, vamos às notícias.