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Nas manhãs 360 do Observador, é hora de direto ao assunto e a nossa convidada de hoje é Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa. Toma hoje posse para um novo mandato. Isabel Capeloa Gil, muito bom dia, obrigado pela disponibilidade.

Muito obrigada pelo convite, para estar ao vivo na Rádio Observador.

Esta é uma entrevista que vai ser conduzida, a partir de agora, pela Judite França e pelo Paulo Ferreira.

Bom dia, mais uma vez. Isabel Capeloa Gil, o que é que está na cabeça de uma reitora que começa agora um mandato de quatro anos num dos períodos de maior incerteza de que temos memória?

O que está na mente da reitora é que há duas questões centrais. A primeira é que é necessário executar aquilo com que nos comprometemos e executá-lo num ambiente em que a incerteza em termos daquilo que será o futuro em termos económicos, sociais e também de coesão societal são muito grandes. Mas também devo dizer que a função da universidade é ser aspiracional e dar à sociedade algo que se orienta para além daquilo que é o presente. E se nós vivemos um presente com muitas incertezas, temos que ter um projeto, um caminho para aquilo que podemos ser no futuro. Eu acho que as instituições de ensino superior, e é assim que sempre olhei para a Católica e o trabalho que a universidade tem vindo a fazer situa-se muito neste campo, é justamente de contribuirmos no presente para dar maior coesão, estruturar a sociedade, capacitar na formação de profissionais e de pessoas, mas termos sempre uma dimensão futurante. É claro que tudo isto é sempre feito com incerteza. A incerteza, hoje em dia, dado o fundo.

O contexto que vivemos.

É maior.

É muito maior. Por exemplo, em termos logísticos, conseguimos antecipar como é que vai ser uma universidade daqui a quatro anos. Provavelmente, a logística vai se manter, mas vamos ter mais ensino à distância, por exemplo, ou não?

Eu acho que o que aconteceu com a pandemia foi um grande acelerador da transformação das universidades. Não que fosse algo radicalmente diferente, que nunca tenha estado na mente das pessoas que estavam à frente das instituições. Ou seja, estarmos a funcionar em Zoom ou com plataformas module virtuais, o Teams e tudo isso, não foi uma absoluta novidade. Agora, a escala em que se fez é que foi brutalmente acelerada.

E provavelmente sem retorno, talvez.

Sem retorno, eu devo dizer que sim. Não quer dizer que nós mudemos para um modelo online, porque há claramente uma perceção muito grande, e isso foi talvez o dado que não era tão antecipado. Foi o facto da parte da geração dos millennials, que nós nos habituamos a pensar os nativos digitais, que nascem com os gadgets, que têm uma relação intuitiva com as tecnologias, para eles esta mudança seria expectável, natural e ao que desejam. E a resposta que nós temos tido dos alunos é que não é isto, necessariamente, no modelo absoluto e total que eles querem. Portanto, há uma necessidade de mantermos a ligação presencial, de mantermos a visão da universidade como comunidade de estudantes e professores que se relacionam de uma forma dialógica, permanente, em presença. Acho que lá que o digital se vai manter.

E já estão a preparar essa dicotomia ensino à distância, ensino presencial? Já têm um modelo fechado para fazer esse equilíbrio?

Nós estamos a testar um modelo. O que estamos a fazer neste momento é um modelo híbrido, devido às restrições e às indicações sanitárias, tivemos que aliviar a presença dos estudantes no campus. Portanto, nós iniciamos em modelo presencial, mas fazendo com que os estudantes possam estar em turnos no campus da universidade, porque as instalações não são elásticas.

Não esticam.

Exatamente. E nós temos que conseguir manter este distanciamento social entre os estudantes com sucesso. Portanto, para isso acontecer, tivemos que equipar os campi da universidade com câmaras de tracking, microfones profissionais, para que os alunos que durante a sua semana ou numa determinada disciplina têm que assistir às aulas das suas residências, que o possam fazer de uma forma cada vez mais imersiva, porque acho que isso é que é importante. Ou seja, que eles possam estar fora do campus da universidade, mas que sintam que podem participar e intervir no modelo educativo como se estivessem em presença. É claro que nunca é igual, e isso nós temos que ter consciência.

Não é a mesma coisa, certamente. Há uma área de ensino também, que a Católica tem e muitas outras universidades, que são os cursos, as formações para executivos, não a formação tradicional superior. E muitos deles são estrangeiros também. E imaginamos que seja uma parte importante da receita de uma universidade como a Católica. Esta área caiu muito nos últimos meses e como é que vai recuperar? Quais são as vossas perspectivas a este nível?

Olha, eu devo dizer duas coisas. Em primeiro lugar, obviamente, que a formação de executivos teve uma quebra, como em todas, é global.

Para zeros, quase, talvez?

Diga

Para zero. Arrisco não?

Não, porque aquilo que aconteceu com os executivos, tal como aconteceu com o modelo na formação de grau, é que a formação teve que se reinventar, passar para plataformas online. Agora, há uma dimensão da formação de executivos que tem a ver com a rede que se cria, com o networking, entre os formandos, quem está a fazer essa formação, os formadores, que se perde em parte com a dimensão online. Portanto, isso por um lado. Por outro lado, esta foi uma oportunidade também de internacionalizar mais, porque nós conseguimos aceder a outros públicos que estão fora do país. E que não viriam necessariamente às formações presenciais. Estamos num momento de adequação. E tentar repensar verdadeiramente aquilo que é o modelo da formação de executivos. Deixe-me só dizer uma coisa relativamente à resposta anterior. Uma das coisas que nós estamos a fazer, fizemos, foi a criação do Católica Digital Hub, que tem como objetivo justamente desenvolver modelos de educação em contexto digital.

E assim também tentar manter a receita. Diga-me como é que estão neste momento a lidar com a pandemia do ponto de vista das regras. Há universidades que estão a encontrar formas de garantir esse cumprimento, pensando que nem todos os alunos vão seguir as regras de forma sistemática. Isso tem sido um problema na Universidade Católica?

Não tem sido muito. Estava a falar do enforcement. Como é que nós conseguimos aplicar as regras? Os campus estão certificados pela APCER com o COVID Safe, implementamos as normas da DGS, criamos um manual de boas práticas que foi distribuído aos estudantes. Em todas as salas temos gel, álcool, os estudantes têm que utilizar máscara dentro das instalações e no campus em geral, ao ar livre também. Isso é sistematicamente repetido pelos professores, pelos colaboradores. Eu costumo dizer que funciona um bocadinho, quase às vezes, como guarda prisional, quando entro no campus e vejo um estudante ao ar livre, que está sem máscara, vou lá e digo. Mas eles põem.

Por regra, esse reparo é bem recebido?

É, em geral, sempre. Agora, nós não temos coimas, não fazemos vigilância dos estudantes 24 horas quando estão nas instalações. Portanto, acentuamos muito a questão da responsabilidade individual de cada um, porque só assim é que vamos poder ter sucesso. Uma coisa são as normas que nós implementamos, outra coisa é responsabilidade individual. Também vamos desenvolver e vamos aplicar agora testes de anticorpos para podermos monitorizar.

Esses testes vão ser feitos a toda a comunidade?

Vão ser feitos parcelarmente.

Por amostragem, consegue nos dar uma ideia? São 11 mil alunos que a Católica tem?

Cursos com frequentes de grau. São 18 mil no total, estão em cursos com frequentes de grau, são 11 mil. 11.200.

E consegue indicar em que porcentagem é que vão ser testados?

Aquilo que vamos fazer é começar, quando houver casos suspeitos, testar as turmas e os professores que estiveram envolvidos. Em vez de fazermos um rastreio sistemático da população, e já vimos que nós não, aliás, pelo exemplo que já é feito por outras universidades portuguesas, fazer para uma amostragem geral, que é óbvio que a comunidade não tem imunidade, e portanto, aquilo que nos interessa fazer é testar cada. Vamos testando por amostra à medida que forem surgindo casos, para fazer a despistagem para as pessoas saberem se estão com imunidade ou se precisam de fazer o teste.

Desde os 15 casos identificados nos alunos do programa Erasmus, foram detectados mais casos na Católica?

Há casos pontuais. Eu devo dizer que há, por exemplo, para além desses 15 estudantes, temos um professor que também foi diagnosticado, dois alunos da faculdade de direito, mas são casos muito pontuais.

Como é que procedem nesses casos?

O que fazemos nesta situação, primeiro, comunicamos à Direção-Geral de Saúde, que depois faz a despistagem dos contactos dos estudantes ou das pessoas envolvidas. O que fazemos internamente é que a turma e todos os contactos do estudante imediatamente passam para quarentena. Durante os 15 dias seguintes a esse diagnóstico, os alunos passam a receber a lecionação via streaming em casa. Fazemos a desinfeção das instalações, relativamente aos outros, isolamos e retomamos a atividade. O primeiro passo é comunicar às autoridades para que possam fazer necessariamente o acompanhamento dos contactos da pessoa infectada. Aliás, os colaboradores, docentes, estudantes, têm todos essa informação muito clara que caso haja um diagnóstico positivo, tem que imediatamente informar a instituição.

Isabel Capelo e Silva.

Muitas vezes isso acontece fora, no caso destes dois estudantes também, foram infecções fora das instalações da universidade, mas por precaução, fazemos esta quarentena profilática obrigatória de desinfeção.

E em relação ao programa Erasmus, que é uma marca da universidade na Europa, será que o coronavírus o matou de alguma maneira?

Peço desculpa, eu não percebi.

Se o coronavírus matou o programa Erasmus.

Não acho que tenha acontecido. E a prova disso é que os estudantes continuam a vir e nós queremos que eles continuem a vir. E que venham com segurança.

Mas vêm na mesma quantidade, percentagem, por exemplo?

Vieram menos. Nós tivemos uma quebra de cerca de 25% nos alunos que vinham da Europa e também nos nossos estudantes que iam fazer as suas mobilidades fora. Mas aquilo que é importante é assegurar a confiança dos estudantes para os países onde vão fazer a sua mobilidade e termos os mecanismos na universidade que lhes permita dar essa confiança e, portanto, também das autoridades públicas de saúde. Portugal é um país que tem todos os mecanismos adequados para lidar com situações como as que estão a acontecer de contágio. Há uma coisa que eu gostava de dizer relativamente aos Erasmus. É certo que nós estamos a ter muitos casos com estudantes internacionais, mas isso, por favor, não nos pode levar a ostracizar.

Estigmatizar.

Os responsáveis pelas contaminações nos campus, eventualmente, são só exclusivamente fazer um esforço de scapegoating. São os bodes expiatórios e são os estudantes internacionais que estão a infectar os estudantes nacionais nas universidades. O vírus não escolhe nem fronteiras, nem nacionalidades, nem diferencia entre estudantes Erasmus e estudantes portugueses. O que aconteceu foi que eles foram infectados em espaços ou em locais onde, porventura, havia um aglomerado grande de estudantes que não eram nacionais. Não se trata de uma estigmatização e eu acho que é muito importante acentuar que não podemos, nem queremos, nem estamos a estigmatizar os estudantes Erasmus e os estudantes internacionais que nos visitam.

Estamos mesmo a terminar o nosso tempo, Isabel Capeloa Gil. Queria lhe perguntar, no final do seu mandato como reitora do anterior, ficou marcado pela creditação do novo curso de Medicina. A promessa é que esteja já a funcionar no próximo ano letivo. Vai ser possível cumprir esta data? E peço-lhe uma resposta breve, porque de facto o nosso tempo está a terminar.

Vai. É o mais breve que eu posso ser.

Mais breve do que isto era impossível.

Exatamente.

Portanto, estará a funcionar em pleno já no próximo ano letivo.

Exatamente. Setembro de 2021.

Muito bem. Isabel Capeloa Gil toma hoje posse para um novo mandato como reitora da Universidade Católica Portuguesa. Foi nossa convidada no "Direto ao Assunto" de hoje. Isabel Capeloa Gil, muito obrigado pela disponibilidade e bom dia.

Muito obrigada pelo convite. Obrigada. Bom dia.

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