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Chegou a afirmar que seria sempre segurista, mas apesar da discordância com António Costa sobre a forma como decorreram as eleições que deram a vitória ao ex-secretário-geral do PS, a distância com o também ex-primeiro-ministro foi se esbatendo. Esteve nos governos da geringonça, foi líder da bancada parlamentar e é agora deputado na Assembleia da República, onde preside à Comissão de Trabalho, Segurança Social e Inclusão. E já agora, continua também a cadeira acadêmica no ISCTE. Obrigada, Eurico Brilhante Dias, por ter aceitado o nosso convite para ir direto ao assunto.
Muito obrigado, boa tarde.
A disponibilidade de António José Seguro para ponderar ser candidato às presidenciais deixou-o satisfeito? Acha que pode ser um bom candidato?
Que pode ser um bom candidato, parece-me evidente. Aliás, há pouco, quando fazia um breve resumo do meu CV, disse que eu me considerava sempre segurista. Isso é um aspecto que ainda hoje marca a minha carreira política, ter estado ao lado de António José Seguro num período particularmente difícil e duro do país, em particular, mas também do PS na oposição entre 2011 e 2014. Mas trabalhei no quadro governativo e político também com o secretário-geral António Costa, honrei com gosto. Agora, acho que o António José Seguro, de quem sou amigo e continuarei sempre a ser amigo, é um dos socialistas que tem um percurso político, cívico, que nos permite olhar para ele como alguém que tem um perfil adequado à exigente tarefa de ser presidente da República. E por isso eu acho que ele está entre aqueles que, na nossa área política, podem vir a ser candidatos a presidente da República com o apoio do Partido Socialista, que me parece o aspecto, para mim, mais relevante neste momento.
E já vamos aí, até para recordar o caso de Maria de Belém, que não foi apoiada pelo Partido Socialista. Mas deixe-me só ir um pouco mais atrás, porque em 2014, quando António José Seguro perdeu a liderança do PS para António Costa, o senhor foi crítico da forma como decorreram aquelas eleições, que foram realizadas sob o modelo de primárias. Considera que se António José Seguro for agora candidato do PS para Belém, é-lhe feita justiça de alguma forma?
A política é muito pouco sensível a estes aspectos. Ainda ontem o meu camarada e amigo João Soares dizia que de alguma forma o PS tem uma dívida com António José Seguro. Eu não ponho as questões assim. E o próprio António José Seguro, na entrevista que deu, também não colocou as questões dessa forma. Em 2014, o Partido Socialista viveu um momento de confronto aberto a não militantes, com o caso das primárias. Um processo que foi muito vivo, muito debatido, que preparou também o PS para um ciclo eleitoral que se avizinhava difícil, que levou à constituição, mais tarde, em 2015, de um governo liderado pelo doutor António Costa. E eu acho que nós não devemos estar continuamente a olhar para esse passado. António José Seguro não chegou a secretário-geral de geração espontânea. António José Seguro é um histórico militante do Partido Socialista, para além de líder da JS, foi ministro, foi deputado, foi presidente de comissão, foi o autor de uma alteração muito substantiva ao regimento da Assembleia da República, foi eurodeputado e depois foi secretário-geral. Quem está no Partido Socialista há muitos anos conhece o trabalho de António José Seguro. Agora, isso não significa, evidentemente, que a nossa área política, área política do socialismo democrático, da social-democracia, não tenha outras personalidades que podem também ser candidatas a presidente da República.
Então vamos ao presente.
Os outros nomes como Augusto Santos Silva, Mário Centeno, António Vitorino. Temos um presidente do partido, Carlos César, que foi presidente do Governo Regional dos Açores muitíssimos anos, além de mulheres como a Ana Gomes, em particular, o Francisco Assis, até determinado momento, agora está no Parlamento Europeu, teria sido sempre um candidato a presidente da República. O que é importante é concentrarmos a nossa atenção numa convergência interna no Partido Socialista. Eu concordo com Pedro Nuno Santos na dimensão em que acho que o partido tem que olhar com seriedade para estas eleições presidenciais, coisa que não faz há 20 anos, pelo menos. E por isso, eu acho que o António José Seguro tem esse perfil. Não é o único, é preciso sublinhar, não é o único. Há outras personalidades que podem ser. O nosso trabalho coletivo é em função da disponibilidade manifestada por cada um deles. Vamos ver aqueles que estão a ponderar ou não, tomarmos uma decisão coletiva de apoio a um candidato da nossa área política.
Então explique-me por que ontem Pedro Nuno Santos, que foi o próprio que lançou o nome de António José Seguro numa entrevista à CNN Portugal em outubro, juntamente com outros nomes, veio dizer que cometeu um erro ao falar de nomes e que, portanto, não vai voltar ao tema.
Eu não vou interpretar por que eu acho que é um erro. Acho que essa pergunta tem que ser feita ao secretário-geral. Foi ele que a afirmou como erro. A minha única interpretação é porque falando de uns nomes, não terá falado noutros e, evidentemente, quando se começa a falar de nomes, às vezes pensamos mais nos que não estão na lista do que daqueles que estão na lista.
Mas isso pode querer dizer que o nome de António José Seguro foi mal recebido no seio socialista?
Não parece que tenha sido mal recebido. Não tenho nenhuma indicação dessa natureza. Penso que para nós, coletivamente, não podemos Voltar a cometer o mesmo erro. Ou seja, para nós, coletivamente, aquilo que é importante é o processo. O processo tem que ter manifestações individuais de vontade.
E depois uma decisão coletiva, como já aqui sublinhou. Falou aí vários nomes.
Não o devemos excluir da sua ponderação. Eu entendo essa candidatura.
Essa ideia fica clara, Eurico Brilhante Dias. E falou em outros nomes, incluindo o de Mário Centeno, que ontem deixou a porta entreaberta para a corrida a Belém. Teria aqui boas hipóteses. Pergunto-lhe isto também porque até ouvimos aqui ontem o ex-secretário de Estado Francisco Ramos dizer que Centeno não tem perfil para presidente, que é um fazedor e não é um aglutinador. Não sei se tem o mesmo entendimento.
Eu tenho do Mário Centeno a melhor das opiniões pessoais e políticas. Tem um percurso internacional conhecido, foi um ministro das Finanças com uma elevada eficácia nas suas políticas. Eu devo dizer, já o disse na Rádio Observador, é possivelmente o newcomer da política portuguesa dos últimos 10 anos com mais êxito. O Mário Centeno chega à vida política ativa em 2014, 2015, tomando depois posse como Ministro das Finanças. Tem revelado, desde o ponto de vista político, que tem sensibilidade para um conjunto de aspetos que foram essenciais para que o país ultrapassasse com êxito um conjunto de desafios que tinha. Tem prestígio internacional, em particular foi presidente do Eurogrupo. Portanto, eu não digo que o Mário Centeno não tem o perfil. Agora, eu acho que nós nos estamos a precipitar um pouco, porque aquilo que nós temos que ter hoje é daqueles que querem ser candidatos, uma demonstração de disponibilidade. Para alguns, aquilo que nos têm dito é que estão em ponderação. Então vamos esperar que essa ponderação termine, sabendo que da ponderação podem resultar duas decisões, uma positiva e uma negativa, uma que querem ser candidatos e outra que consideram que não reúnem as condições necessárias. À direita, o doutor Pedro Santana Lopes ontem veio dizer que também pondera. O doutor Marques Mendes continua uma longa ponderação com informações semanais via televisiva ao conjunto dos portugueses. Portanto, eu acho que ainda vamos ter eleições autárquicas pelo meio, em outubro, e que é bom ver que há socialistas que estão disponíveis para ponderar essa candidatura. Agora, apoios efetivos, devemos esperar que o partido reúna em função da informação que tiver naquele momento.
É importante para si que seja um socialista, ou seja, que seja alguém do PS?
Eu acho que deve ser alguém da área do socialismo democrático, da social-democracia. O Partido Socialista cometeu muitos erros no passado recente e já não tão recente, quando não foi capaz de encontrar um candidato presidencial. Recordo que as candidaturas de Mário Soares e Manuel Alegre, Manuel Alegre e Fernando Nobre, mais tarde com Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, e mesmo nas últimas eleições, com a candidatura da Ana Gomes, quando muitos de nós, incluindo eu próprio, expressámos o apoio ao professor Marcelo Rebelo de Sousa. Portanto, nós devemos ter essas condições e garantir condições, primeiro, para que se ultrapasse um momento menos positivo que os portugueses têm na avaliação da Presidência da República, em particular neste segundo mandato do professor Marcelo Rebelo de Sousa. Recordo que era uma avaliação que era mais ou menos semelhante quando o professor Cavaco Silva terminou o seu mandato.
Há sempre algum desgaste também nos segundos mandatos, mas já que fala de dois.
Não é o segundo mandato, é a forma como é exercido o segundo mandato. Se calhar, isso é uma avaliação que também devemos fazer, mas se calhar noutro quadro.
Vamos fazer noutra altura, mas queria só perguntar-lhe, até porque falou aí de vários nomes e até de apoio, muitas vezes a candidatos que possam ser de outra área política. Temos aqui um que está muito à frente nas sondagens, mas que não é de nenhum partido. Concorda com Pedro Nuno Santos que ter um militar em Belém, estou a falar, claro, do almirante Gouveia e Melo, é coisa do antigamente?
Eu percebo as reações que alguns membros do parlamento têm tido, não foi só o Pedro Nuno. A Isabel Moreira também manifestou essa ideia. Nós, que acreditamos numa democracia liberal, essencialmente civilista, aliás, como sabemos, foi uma grande conquista do processo revolucionário português depois do 25 de abril, acreditamos que essa dimensão é importante e que é uma longa batalha. Os militares devem estar nos quartéis. Agora, cada militar, depois da sua vida militar, tem como cidadão o direito a apresentar a sua candidatura. O que acontece é que do almirante Gouveia e Melo, como proposta política, não conhecemos nada. Como ideia política, conhecemos pouco, para não dizer quase nada. E por isso é um bocadinho surpreendente que alguém se apresente aos portugueses como candidato presidencial, quando em bom rigor nós não conhecemos o seu pensamento político. Não sabemos o que pensa sobre os assuntos mais importantes da vida política portuguesa, quando não sabemos como quer interpretar a Constituição da República Portuguesa, sendo que é o garante fundamental dessa interpretação.
E também não é surpreendente as sondagens que tem tido?
Não, vamos lá ver. Estas sondagens são sondagens com muitos candidatos ou presumíveis candidatos que não o vão ser, outros de quem se tem uma determinada expectativa, mas que não se conhecendo o que pensam politicamente A revelação do que pensam pode fazer com que os eleitores tenham outra opinião. Portanto, nós estamos muito longe de ter, substantivamente, sondagens que nos permitam aferir do grau de popularidade e até de aceitação eleitoral dos diferentes candidatos. Isto não significa que o senhor almirante não tenha não só todo o direito, como eu entenda, não vamos dizer a nenhum maior de 35 anos que não pode ser candidato a Presidente da República. Portanto, o almirante Gouveia e Melo tem todo o direito, como cidadão, de ser candidato àquilo que bem entender.
Estamos a chegar ao fim desta entrevista, mas não podemos deixar de lhe perguntar se tem disponibilidade para ser candidato nas eleições autárquicas do próximo ano. Já agora, se tem alguma preferência por uma câmara em específico. Não, eu não perguntei por Presidência da República, perguntei mais pelo eleições autárquicas.
Eu estarei ao lado de todos os candidatos do Partido Socialista no distrito de Leiria e estou mais do que disponível para que na cidade onde vivo, que é Lisboa, de apoiar o Partido Socialista a derrotar aquilo que, na minha opinião, é provavelmente a pior liderança da Câmara de Lisboa desde o 25 de Abril.
Mas não está disponível para ser candidato?
Eu estou disponível para apoiar e, se necessário for, farei parte de uma lista. Estou disponível para como sempre, em qualquer circunstância, para servir o meu partido, mas não antevejo que seja candidato a nenhuma câmara. Isso é uma decisão que deve ser muito ponderada. Agora, estarei no combate autárquico ao lado do Partido Socialista, em diferentes frentes e em particular na cidade onde vivo.
Eurico Brilhante Dias, muito obrigada por ter vindo ao "O Dia do Assunto" e bom resto de semana.
Muito obrigado