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Margarida, o que é que vamos fazer a estas coisas todas que andamos a acumular em vida?
Se vivesses no antigo Egito, saberias. Levavas tudo contigo para a vida eterna após a morte.
Eu acho que prefiro viajar com menos peso. "Do Avesso", um podcast sobre moda com Margarida Brito Pais e Maria Ramos Silva.
Os egípcios foram das civilizações que melhor souberam cultivar o luxo, estimando objetos materiais que ainda hoje prezamos, como grandes casas, o ouro, as roupas e, claro, tudo isto era um privilégio exclusivo do faraó, da sua mulher e de uma elite muito particular.
Bem sei. Consta que até inventaram os frascos de vidro para proteger os perfumes. Mais luxuoso que isto, é difícil.
E se eles soubessem o preço a que estão os perfumes.
Nada baratos. Mas a que é que cheira o mercado do luxo hoje? Há muitas coisas que se mantêm atuais, que têm a ver com raridade, escassez, mas não é extraordinário como o conceito de luxo evoluiu ao longo dos séculos?
Que o digam as especiarias na Idade Média, uma simples refeição podia ser distintivo de classe e poder económico.
Sim, com o Iluminismo, um pouco mais pra frente, o mercado livre ampliou as oportunidades para o luxo. Um economista desta era, um senhor muito conhecido, o David Hume, escreveu mesmo "Of Luxury". Mas atenção, porque distinguia entre o luxo bom e o luxo mau. O bom, claro, tinha a ver com conhecimento, elevação artística, ou seja, mais livros, quadros, progresso intelectual, não tanto bens materiais.
Mas como sempre, acessível apenas a uma minoria.
Sim, a uma elite, sempre.
No século XIX, o verdadeiro luxo era fazer um grand tour, viajar no Expresso do Oriente, ter peças incríveis de arte e mobiliário. Pratas e porcelanas, roupas, joias maravilhosas e, já agora, teres um pintor de renome a fazer o teu retrato, em vez das selfies que andamos a fazer.
Como se fosse o "Belle Époque". Por falar em selfies, tu sabias que no século XV, estando agora de novo mais para trás, um espelho veneziano podia custar tanto como um navio?
Quando Luís XIV, da França, quis criar a Galeria dos Espelhos em Versalhes, usou a sua fortuna para subornar um punhado de artistas venezianos que fugiram com as suas famílias para a França, a fim de darem forma a este sonho espelhado do rei. A coisa não correu muito bem porque Veneza decidiu retaliar e enviou um assassino para França. Imagina que dois desses trabalhadores acabaram mortos. O segredo, no entanto, acabou por ser revelado.
Muito mudou, de facto. Imagina que no final do século XIX, agora vou trazer-te de novo um pouco mais para o diante, o luxo podia ser uma toalha de mesa cor-de-rosa, em vez de branca. O grande hoteleiro César Ritz achava que era uma forma de conquistar as suas clientes femininas.
E também criou o room service 24 horas por dia. Outro luxo. E os cartões a ser reservados para marcar as mesas dos clientes regulares.
De certa forma, parece que algumas tendências voltaram ou, como se costuma dizer, a revolução é dar uma voltinha para regressarmos à casa de partida. A hospitalidade e o conceito boutique no atendimento é um dos grandes luxos contemporâneos. E as grandes viagens de comboio ou em rotas como as do Belmond são apenas uma das grandes tendências dos últimos anos, e 2026 não é exceção. E também há quem defenda que o maior luxo em 2026 é também estar offline.
Desligar das redes sociais. Ou pelo menos não postar muito nas redes sociais. Também há quem não poste, mas ande por lá a ver tudo. Mas essa é, de facto, uma das grandes tendências da geração mais nova, que na verdade, também tem muito mais consciência dos vícios da internet do que uma geração mais-
Anterior. Millennials, por exemplo. O que leva também a um renascimento da importância das experiências físicas, até quando falamos de compras, que é um dos fortes pilares do luxo. Aliás, aquela coisa de ter que tocar a campainha, de te abrirem a porta da loja, de te servirem um café, uma água, de teres um número limitado de pessoas dentro da loja, para garantir que todos os clientes têm a atenção que merecem. Tudo isso eleva o ato de comprar a uma experiência de luxo.
Completamente diferente do que entrares e estares à espera.
Precisamente, até li um artigo muito interessante na Economist há muito pouco tempo, que dizia que tu de facto podes vender um relógio de luxo, mas não consegues replicar, não podes vender um dia a experiência de teres um dia, por exemplo, no corte central de Roland-Garros.
Completamente. As experiências valem hoje em dia muito mais do que as coisas materiais. O que é verdade é que o começo do século XX tornou o luxo mais democrático. Com a revolução industrial, que alargou o poder de compra e a globalização fez o resto do trabalho, criando novos mercados. Este contexto acaba por ser a base para o século que nós vivemos hoje.
Sim, Paris era então a capital do luxo e do conhecimento, e desde o final do século XIX que foi assistindo ao lançamento das grandes casas de moda. Muitos deles são nomes esquecidos de alta costura, como a Madeleine Vionnet, a Madame Grès, a Jeanne Lanvin, mas temos também uma série de marcas que vão surgindo século adentro e que se mantêm referências no setor, como a Chanel, a Balenciaga, a Hermès, Yves Saint Laurent ou Christian Dior, claro.
Sim, esta semana, com a semana da alta costura de Paris, até tivemos um belo extra desse passado da Dior.
Precisamente.
Quando vimos a Paulette Boncour a assistir à estreia de Jonathan Anderson na alta costura da marca.
Sim, na verdade, é uma senhora já com uma idade muito avançada. Ela trabalhou no ateliê de Christian Dior em 47, imaginem. E ali estava com a sua carteirinha Dior pendurada no pescoço para conseguir descer as escadas.
Acho que vai virar tendência.
Vai ser absolutamente tendência. Quem também estava na fila da frente era John Galliano. Ele que dirigiu a casa entre 96 e 2011, imprimiu o devido dramatismo e teatralidade.
Sim, que luxo ter Galliano ali. Sendo que o Jonathan Anderson contou que no seu debut, o primeiro de todos, não foi deste desfile, foi da coleção anterior para a casa Pediu para o Galliano ir ver a coleção antes e ele levou um pequeno buquê de flores e um saco da Tesco cheio de doces e coisas boas para a equipa, umas guloseimas. E esse buquê acabou por influenciar depois toda a coleção. E aqui isto mostra como de facto a humanidade e a autenticidade também estão ligadas ao luxo.
E fazem a diferença. São estes pequenos gestos na grande e luxuosa narrativa que acabam, de facto, por imprimir alguma diferença. Eu penso também, por exemplo, no teto florido do desfile da Dior. Ou até a presença dos pais do diretor criativo, Jonathan Anderson, também apareceram por lá.
Falaram com a Suzy Menkes.
Ele é parecidíssimo com a mãe, aliás, são muito parecidos, era difícil quase passarem despercebidos. Falaram com a Suzy Menkes. E também penso, por exemplo, no Jack Muse, que fechou a semana masculina em Paris e como nomeou como primeira embaixadora da marca a sua avó. Mais aqui uma nota familiar.
Que é uma senhora fantástica, extraordinária. E também há um vídeo ótimo do Daniel Roseberry a ajudar a mãe a escolher o look para assistir ao desfile que ia acontecer no dia a seguir, poucos dias depois.
A seguir à Parana.
Exatamente. Desfile esse que foi, para mim, até agora, absolutamente memorável. Gostei muito, porque tens ali peças que levaram centenas de horas a ser realizadas e com uma construção que implica uma mestria que vai além da costura, porque há ali muita coisa que não é só uma questão de corte e costa, é muito mais do que isso. Já a Chanel apostou na delicadeza dos tecidos, com muita pedraria, plumas e com uma reinterpretação, que para mim foi a mais interessante, dos famosos conjuntos Chanel em tecidos mais delicados e semitransparentes. Agora, para mim, uma das grandes questões do futuro do luxo, que fica bem claro nas primeiras filas dos desfiles, é que região do universo é que afinal domina este mercado.
Sim, as grandes casas de luxo continuam muito sediadas na Europa, como sabemos, mas o mercado de luxo cresce cada vez mais noutros pontos do globo, como tu também sugerias. E prova disso é a quantidade de caras asiáticas que se veem nos desfiles e campanhas. Estrelas, muitas vezes, nós nem sabemos quem são, mas dominam por completo as campanhas, as filas da frente.
O que é muito interessante, porque era o continente que antes era mais procurado para produzir, se tornou um dos maiores consumidores de luxo, mas mais do que isso, as marcas quiseram evitar que certos nomes de alguns países estivessem nas suas etiquetas, nesta altura em que eles também passam a consumidores.
Exato, porque de alguma forma ficou muito ligado às cópias. E logo também à má qualidade, à falta de condições de trabalho. É uma perceção muito alimentada pelo mass market, claro, mas que naturalmente afetou muito o luxo, que tem cada vez mais de estar distante deste tipo de produção.
Sabes que os analistas, aqui em 2026, dizem que esse é um dos maiores desafios do luxo. É reconstruir a confiança do consumidor. Até porque os preços aumentaram bastante neste mercado e os clientes querem garantias de que estão a pagar por qualidade, mas também exclusividade, boas condições de trabalho, processos artesanais.
Sim, isto não são detalhes.
Com milhares de anos, muitos destes processos, como os bordados, a cestaria, o trabalho do couro, nas suas mais diversas formas. Pintura manual de tecidos, etc. Tens uma série de coisas que são valorizadas.
Sim, é um grande. É aqui que as redes sociais entram como um pilar fundamental para mostrar esse lado da marca. Os vídeos que mostram as peças a serem feitas são uma parte fundamental do conteúdo online das marcas de luxo. Já não é possível ignorar esta parte.
E muitas vezes até essas marcas que surgem, esses vídeos de savoir-faire, são peças de desfile que acabam por nem ser disponibilizadas nos sites das marcas, mas que o que é facto é que imprimem essa ideia de artesania e de valor justo.
E sim, de facto, os consumidores eu penso que estão, como dizias, cada vez mais atentos a este tipo de coisas e a exigência e escrutínio é também maior. Veja-se o caso recente de marcas como Prada, Dolce & Gabbana, Versace, Missoni, Ferragamo. O ponto aqui já nem é se a produção é feita na Ásia a baixo custo e se depois fazem os acabamentos a Itália para fazerem render o Made in Italy, como muitas vezes também acontece, em alguns casos. Mas supostamente multiplicavam-se oficinas em solo italiano onde trabalhavam em condições desumanas, operários chineses, paquistaneses, portanto a fabricar por tuta e meia peças que depois chegam ao mercado não sei quantas vezes mais caras e, lá está, como tu dizias, com qualidade duvidosa.
Por isso é que as marcas têm de ir cada vez mais a fundo na questão e ter mais controle na sua cadeia de produção. Isso implica ter programas de formação dentro de portas. Por exemplo, a Dior criou uma nova divisão industrial aqui no final de 2024 para centralizar a supervisão de fornecedores e oficinas. E depois tens marcas como a Van Cleef & Arpels, a Bvlgari, que estão a abrir as suas escolas de joalharia também ao público.
Para as pessoas verem.
Para mostrar como de facto ensina estas competências de forma interna e também para inspirar uma nova geração a querer seguir este ofício.
Olha, eu gostava de saber é quando é que podemos enterrar de vez a expressão quiet luxury. Não só porque eu não gosto muito, até porque não tem sido nada praticada. Aliás, o luxo, ou suposto luxo, mostra-se cada vez mais ruidoso, quando tinha sobretudo a ver com discrição, círculos restritos e sobretudo não dá para eu ostentar.
Sim, isso também lembra um tempo em que se herdava roupa e acessórios, pelo menos entre quem podia, uma vez que as peças tinham bastante qualidade e eram feitas para durar de geração em geração. Por outro lado, o novo dinheiro traz uma afluência que permite aceder a peças que antes só estavam ao alcance de poucos.
Sim, olha, curiosamente, a alternativa atual muito em voga é procurar luxo em segunda mão. Pelo menos quando falamos de bens materiais. Se não há nada No armário dos avós ou dos bisavós, pode ser que haja numa feira com boas oportunidades, em plataformas de revenda premium ou leilões para algo mais selecto, quem sabe, talvez se encontre alguma coisa interessante.
Sim, são ótimas opções e o que é facto é que o mercado de segunda mão está a ganhar uma relevância tal como mercado alternativo para os bens de luxo. Até as próprias marcas estão a começar a levar esta forma de venda para dentro de portas, também de forma a controlarem os preços. A narrativa associada à marca, que também é muito importante, serem eles que vendem, serem eles que controlam. Isto tem benefícios para a própria imagem da marca. Isto era uma coisa impensável há uns anos atrás. Mas, de facto, este canal pode ser um novo canal de entrada, como eram antigamente os perfumes, para um novo consumidor.
É verdade.
Transmite esta ideia de herança e durabilidade, de circularidade, e pode até funcionar para incentivar consumidores antigos a irem renovando os seus artigos mais desgastados.
Está sempre ali no ciclo da marca. Não sais dali.
Existem já marcas a fazer isso, a incentivar os seus clientes a revenderem-lhes, as suas carteiras mais antigas, por exemplo, e recebem vales para adquirir novos modelos.
É extraordinário. Sim, aquilo não sai dali. Olha, existem até peças que ganham valor com o tempo, como sabemos. Por exemplo, o preço médio de venda da coleção Alhambra da Van Cleef & Arpels subiu 20% entre 2021 e 2025, imagina, no The RealReal. E já no eBay, os preços globais de revenda de uma carteira com marca Adidas Miu Miu subiu 43% entre janeiro e maio de 2025. Extraordinário.
E olha, enquanto estavas aqui a falar disto, recebi uma notificação de baixa de preço.
Eu ouvi qualquer coisa aqui no teu telefone.
E não posso distrair-me nas compras.
Não, tu vai antes que isso voe. Até para a semana, Marília.
Até para a semana.