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Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra desenvolveu uma tecnologia inovadora que permite substituir a administração forçada de medicamentos a animais envolvidos em experiências científicas. Esta investigação portuguesa acaba de ser premiada a nível europeu pelo organismo que junta várias entidades de proteção animal, também de saúde e de defesa do ambiente, do qual a Comissão Europeia faz também parte.
O projeto foi realizado ao longo dos últimos três anos no Instituto de Investigação Clínica e Biomédica de Coimbra, isto com a colaboração da Escola Superior de Tecnologia de Saúde de Coimbra. E contamos hoje, aqui na Rádio Observador, com Sofia Viana, a investigadora responsável por este projeto. Antes de mais, muito boa tarde, Sofia. Vamos lá então perceber que solução encontraram para evitar esses chamados métodos invasivos.
Olá, muito boa tarde, prazer, muito obrigada pelo convite. De uma forma muito resumida, nós aqui no instituto temos muitas competências na área da farmacologia experimental. Todos os processos necessários até que um medicamento chegue a uma fase humana, a introdução em humanos, envolvem regulamentarmente, exigem as experiências em animais. Como devem imaginar, a via oral é sempre uma via que, sempre que possível, é a via privilegiada, também nos humanos é a via oral que preferimos para consumirmos algum tipo de medicamento. Para nós, humanos, tomar um comprimido ou uma colher de xarope é uma tarefa que é fácil, que compreendemos e executamos voluntariamente, como devem todos compreender, replicar essa facilidade no animal, trabalhamos em particular com roedores, não é uma tarefa fácil.
É algo que envolve sempre, Sofia, muito estresse. Esta questão da eliminação dos testes com animais, é uma questão bastante abrangente, bastante antiga, e existe essa pressão para eliminar esse tipo de métodos, que muitas vezes são muito cruéis. Mas em alguns casos não é possível fazê-lo ainda. E este vosso método, no fundo, vem aqui ajudar a reduzir esse estresse associado a tudo isto. E de que forma exatamente, Sofia? Qual é o método exato a que chegaram, a fórmula exata a que chegaram?
Bom, eu vou explicar muito resumidamente o que é que existia até à data. A forma que nós temos mais precisa e que é usada mundialmente para administrar fármacos por via oral a roedores, acontece através da introdução de uma cânula, um tubo, pela boca do animal. Obviamente, para nós conseguirmos fazer isso, temos que conter o animal, e conseguimos depositar no estômago uma quantidade precisa do fármaco teste. Isto é o gold standard, é assim que se manipula e que se faz experimentação quando administramos fármacos por via oral. E claro que, como devem imaginar, mesmo com cientistas bastante experienciados neste tipo de tarefas, é algo que ainda estresse nos animais, como bem diz. A tecnologia que nós desenvolvemos passa pela criação, para perceberem melhor, de pequenas gomas. Imagina uma pastilha que nós pomos para a garganta, por exemplo, para terem noção um pouquinho das matrizes que estamos a falar, que tem características quer organolépticas, isto é, quer de sabor, quer de cheiro, quer de textura, que os animais, uma vez habituados a essas matrizes, nós conseguimos mascarar os medicamentos lá dentro e evitamos a introdução de um tubo e ao invés disso, os animais estão a ingerir voluntariamente essas gomas com o fármaco teste que estamos a estudar.
E entretanto, com esta inovação, com este passo em frente, há depois também a necessidade de perceber de que forma é que poderá ser ou não acolhido pela comunidade científica. Têm também a esperança que estas inovações depois sejam acolhidas da melhor forma e que venham também a ter lugar um pouco por todo o mundo?
Sim, claro, é a nossa expectativa.
Mas é uma expectativa realista? Era também isso que queria, de alguma forma, perguntar.
Este prêmio foi particularmente interessante para nós e pode ter um impacto, nomeadamente nesse aspecto. As pessoas só recorrem àquilo que conhecem, como é óbvio, portanto, o prêmio permitiu também a divulgação da tecnologia numa rede que tem uma expressão particularmente significativa. E inclusivamente fomos contactados após o prêmio, por institutos na Alemanha, na Suécia, que pretendem introduzir a tecnologia no seio das suas experimentações. Parece-nos, sim, que é uma expectativa realista e vamos fazer tudo para o conseguir, no fundo, para alimentar uma consciência coletiva de que apesar de existirem, em muitas fases de todo este processo de investigação, já existirem alternativas e que as usamos sempre que possível, conseguirmos abolir por completo a experimentação animal é algo que ainda não é uma realidade. E portanto, não sendo realidade, é expectativa, quer da sociedade, quer nossa, investigadores, de fazermos experimentação animal, fomentando ao máximo o bem-estar. E isto tem dois objetivos principais. O primeiro, porque a sociedade civil assim nos exige, de forma muito justa, mas em segundo lugar, do ponto de vista de impacto na ciência, fazer experimentação animal, minimizando viejas de estresse e de todo o impacto fisiológico que o estresse traz para esses seres vivos, obviamente, tem um impacto negativo depois nos resultados que geramos.
Ou seja, é mais viável um resultado através do vosso método.
Sim. Todos os métodos que minimizam o estresse nos animais, do ponto de vista fisiológico, permitem nos criar condições de padronização e em que o que avaliamos, aquilo que vamos medir, é, de facto, muito mais perto da realidade.
Sofia Viana, em que animais é que já testaram este vosso método? E já agora, quais são os próximos passos nesta investigação, que não está fechada, não é?
Não, de todo. Nós já testámos isto, quer em morguenhos, quer em rato, duas das espécies mais usadas em experimentação animal. E os próximos passos passam por validar em vários modelos de doença humana. Nós temos a consciência que para que isto seja usado na sua plenitude, precisamos de perceber se os animais, uma vez com o fenótipo de doença, quer seja doenças centrais, quer seja gastrointestinais, doenças que replicam o que acontece nos humanos, nós precisamos de perceber se a tecnologia funciona nesse contexto e para isso temos já organizado um conjunto de experiências, através de um programa de trabalho de uma aluna nossa de doutoramento, a Inês Preguiça, que irá realizar essas experiências nos próximos três anos. E essa é uma primeira fase. A segunda fase que temos também em vista, num futuro próximo, é conseguirmos promover uma validade externa. O que isso quer dizer? A tecnologia funciona muito bem no nosso laboratório. A tecnologia está, neste momento, a ser validada numa spin-off fora do nosso laboratório, com outros investigadores, mas o objetivo é que isto seja reprodutível a uma escala o mais abrangente possível e seguramente que faremos todos os esforços para pôr a funcionar também lá fora, que é o nosso anseio.
Muito bem, vamos continuar a acompanhar o vosso trabalho. Sofia Viana, muito obrigada por ter estado conosco. É a investigadora responsável por este projeto desenvolvido na Universidade de Coimbra e conseguiu encontrar esta fórmula de administrar medicamentos em animais em laboratório, sem ter de recorrer a métodos mais invasivos, mais stressantes. Um projeto que foi premiado a nível europeu. Sofia, muito obrigada. Até à próxima.
Obrigada eu, Maria José.
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