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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Falamos de ciência, é sempre assim a esta hora, na tarde em direto, de segunda a sexta-feira, e os geólogos têm evidências que mostram que os Himalaias estão a colapsar a este. Connosco temos João Duarte, é investigador do Instituto Dom Luís, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Boa tarde, João Duarte, obrigada pela disponibilidade para estar conosco.

Olá, muito boa tarde.

Agora sim, João. Antes de mais, explique-nos como é possível que estas montanhas estejam a colapsar, porque sei que estão também simultaneamente a crescer. É assim?

Exatamente. Os Himalaias são a maior cadeia de montanhas do mundo, estão a crescer devido à colisão do continente Índia com o continente Eurásia. Mas estas cadeias, ao crescerem muito, o que os cientistas pensavam é que ao tornarem-se demasiado altas, começavam a ter um peso enorme e começavam a colapsar sob o seu próprio peso, um pouco como um castelo de areia. Continuarmos a construir, a uma determinada altura, vai colapsar. Aqui havia um enigma que era por que ele está só a colapsar para este, neste caso, e foi esse o trabalho que nós desenvolvemos.

João, isto era algo que era expectável pelos geólogos? E pergunto também, já agora, como é que chegaram a estas conclusões?

Havia esse enigma e o que nós fizemos foi modelos em laboratório com pequenas maquetes em que usamos materiais como mel, areia, para simular a formação das cadeias de montanhas e das placas tectônicas. E o que percebemos é que o facto de haver zonas de subducção na zona do Pacífico, ou seja, zonas em que duas placas estão a mergulhar uma por baixo da outra, ali na zona do Japão, que dá origem àqueles grandes sismos, essas zonas de placas também estão a arrastar a Eurásia para este. E esse arrastamento da Eurásia para este, faz com que o colapso dos Himalaias seja predominantemente nessa direção, ou seja, no sentido do Oceano Pacífico, e não nos outros sentidos em volta.

E João Duarte, qual é a exatidão de previsão de fenômenos como este, que às vezes demoram, e corrija-me se estou errada, milhares de anos até serem notados, não é assim?

Sim, por um lado, sim, nós usamos estes modelos feitos em laboratório e modelos numéricos feitos em computadores, mas estes movimentos são percetíveis. Os Himalaias crescem a uma velocidade de centímetros por ano e esse crescimento é mensurável. Hoje em dia, através de sistemas como o GPS, nós conseguimos medir e a elevação máxima do Monte Everest já teve que ser atualizada várias vezes nos últimos 20, 30 anos.

Portanto, esse crescimento é por ano?

Esse crescimento é por ano. Para ter uma ideia, é um crescimento que se dá à velocidade que, por exemplo, as unhas das nossas mãos crescem. Pode ter dois, três, quatro, cinco milímetros por ano.

João, e só mesmo para finalizar, queria-lhe só perguntar: há este dado de que os Himalaias continuam a crescer, mas que estão também a colapsar. Isto, por exemplo, para os ecossistemas tem muitos problemas, há muitas consequências?

Não, eu acho que faz parte da dinâmica natural do planeta. Ou seja, a tectônica de placas faz crescer as montanhas, mas depois os processos de erosão e estes processos de colapso fazem parte da evolução natural e produzem depois produtos como os sedimentos e os solos que dão origem àquilo que nós hoje em dia consideramos que seja importante para o desenvolvimento dos ecossistemas. Portanto, não é nada para nos assustar.

João Duarte, agradeço-lhe ter estado conosco com a tarde em direto. É investigador do Instituto Dom Luís da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ajudou-nos aqui a perceber então esta evidência que os geólogos descobriram, mostram que os Himalaias, apesar de estarem a crescer, estão também a colapsar a este. Na segunda-feira voltamos a falar de ciência.