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Hora de falar de ciência na tarde em direto. O oceano da lua Europa, uma das luas do planeta Júpiter, pode ter condições para albergar vida.
Notícia conhecida esta semana. Connosco temos Pedro Machado, astrofísico e investigador do Instituto de Astrofísica e Ciência do Espaço. É também professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Muito boa tarde, Pedro Machado. Por que os cientistas agora apontam para a possibilidade de esta lua de Júpiter, Europa, poder albergar vida?
Olá, boa tarde. Que grande hipótese. Fantástico, não é?
É, não é?
Na verdade, isto já vem de alguns anos para cá. Este estudo vem corroborar um pouco as hipóteses dessa lua, eventualmente, poder albergar vida. Claro que é muito prematuro fazer alguma afirmação, claro que não, mas as condições, sim, estão aí. Europa, que é uma das luas de Júpiter, é um alvo preferencial da astrobiologia. E por quê? Para já, é um mundo oceano. Ou seja, por baixo de uma camada de gelo, como bem disse, Europa, que é uma lua um pouco mais pequena que a nossa lua, mas não muito mais pequena, imagine, tem mais do dobro de toda a quantidade de água que existe no nosso planeta Terra. É um planeta oceano. Além disso, devido às forças de maré que produzem uma fricção interna, que leva ao aquecimento nessa água num estado líquido que está por baixo da camada de gelo, faz com que, segundo os nossos modelos, essa água esteja a uma temperatura de cerca de 20 graus Celsius, quase um spa. Ou seja, compatível com a vida como nós a conhecemos. Além de que existem, de vez em quando, umas fraturas no gelo da superfície, devido também às forças de maré, e é o fenômeno de criovulcanismo. Basicamente, como se fosse um gêiser. E esta água interna é ejetada para o exterior. Já foi estudada, por exemplo, pelo telescópio Hubble e num estudo espectroscópico já mostrou que essa água é rica em componentes orgânicos, em moléculas orgânicas complexas. Aliás, existe uma irmãzinha em Saturno desta lua, que se chama Encélado, em que a sonda Cassini detectou inclusive aminoácidos.
Esses que são essenciais à vida, não é?
Exatamente. Foi detectada a glicina, que é um dos aminoácidos. E há outra questão: qual é a energia que pode utilizar esta outra forma de vida? Porque aqui nós, no fundo, somos, entre aspas, comedores de Sol, através das cadeias tróficas. Mas, mesmo na Terra, já foram descobertas as fontes hidrotermais de profundidade em que a fonte de energia é hidrogênio molecular. Ora, o hidrogênio molecular já foi detectado no caso de Encélado, nas tais injeções destes gêisers que acontecem de vez em quando. Ou seja, este hidrogênio molecular pode ser a fonte de energia que utiliza-se esta fonte de vida. É, obviamente, uma grande dúvida que existe. Só para ter uma ideia, existem duas missões a serem preparadas com o objetivo exatamente de estudar em detalhe estas luas, como o caso da Europa, ou preferencialmente a Europa, que é o caso da sonda Clipper, no caso dos Estados Unidos, da NASA. Mas a Agência Espacial Europeia, a ESA, está a preparar uma missão de grande envergadura, chamada de JUICE, que só para ter uma ideia também, é a missão de maior orçamento da Agência Espacial Europeia até hoje. Portanto, isto que estava a falar, desta dúvida de haver ou não vida, é realmente levado muito a sério.
Claro, portanto, existe essa expectativa que o tal spa, como disse o Pedro Machado, seja um spa para extraterrestres, é isso? Poderá estar mais perto essa possibilidade também. Seria esse o próximo passo, não é? Essas missões de que falava agora.
Pois, as missões, sem dúvida. E também a partir dos grandes telescópios na Terra, que têm a grande vantagem de poderem fazer o que nós chamamos espectroscopia de alta resolução, poderem contribuir para a análise dos átomos e das moléculas que podem existir nestas injeções dos gêisers. Porque podemos detectar moléculas interessantes, para além dos aminoácidos que estávamos a falar há pouco. É, sem dúvida, interessantíssimo.
Pedro Machado, indo aqui para o domínio da ficção científica, quando é que nós podemos ter uma missão tripulada até-
Para usufruir do spa?
Até a Europa?
Eu espero chegarmos lá, mas primeiro temos que tomar conta do nosso planeta para merecermos chegar a outros planetas.
Ou seja, não acabar com este primeiro antes de ir para o outro.
Não, nós temos que merecer, tem que ser legítimo irmos chegar aos outros planetas. Primeiro temos que estar muito bem no nosso planeta e numa segunda fase, ir até à Lua. Isso tem que ser passo a passo. Marte e um dia, eventualmente, chegar à Europa. Por que não? Claro que sim. Com submarinos para ir ver lá as lulas gigantes. Não sei. Mas claro que isto é tudo nas linhas da ficção científica, não é?
Claro.
Agora, a sério, é um alvo preferencial da astrobiologia e que tem um interesse enorme entender como é que se podem desenvolver as cadeias químicas de moléculas que, mesmo que não haja vida, nós chamamos moléculas prebióticas, que são moléculas que existem nos corpos orgânicos e que têm um interesse enorme nós estudarmos isto.
Pedro Machado, agradeço-lhe ter estado conosco aqui na tarde em direto. É astrofísico, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, é também professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ajudou-nos aqui a perceber esta notícia que dá conta que o oceano da lua Europa, uma das luas do planeta Júpiter, pode ter condições para albergar vida. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador Online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.