Este artigo faz parte da série “Na Primeira Pessoa”, um conjunto de textos escritos por uma jornalista a partir de conversas com pessoas que partilham momentos da sua doença mental.
Contei tudo o que se tinha passado desde a minha infância. Contei a minha vida desde que me lembrava, as mágoas que tinha dentro de mim. Chorei, chorei, chorei muito. E deixaram-me chorar. Às vezes começava a falar e não conseguia, as palavras não saíam, era como se estivesse engasgada. Sentia-me um balão prestes a rebentar.
Naquele dia, numa clínica no Porto, durante mais de uma hora e meia, contei a duas psicólogas tudo o que tinha para contar. Nunca mais me esqueço: foi a 21 de junho de 2021, pouco antes do São João. Tinha 57 anos.
Tinha um burnout e precisava de ajuda. Foi ali, naquele dia, naquele momento, que soube mesmo o que, de facto, se passava comigo. O que sentia passou a ter um nome. Tinha muita necessidade de apoio e foi importante dar esse passo que mudou completamente a minha vida. Já não sou uma pessoa comandada por outras, que faz o que elas querem. Nas consultas, a psicóloga que passou a acompanhar-me dizia-me: “a Alice tem de ser a pessoa que é”. Tinha de ser eu, não tinha de fazer as coisas para agradar aos outros. Eu sou eu, tenho de ser eu, e foi muito importante ouvir isso. Dizia-me também para me olhar ao espelho e dizer “eu sou bonita e vou pôr-me bonita”. Voltei a sentir-se uma mulher bonita.
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Contar o que se passava comigo ajudou-me imenso. Chorei na primeira, na segunda, na terceira vez que fui à clínica. Durante muitos anos, não cuidava de mim, não tinha tempo, a vida era sempre a correr. Era outra Alice, não queria ver ninguém, não queria falar com ninguém. A psicóloga ouvia-me, dizia-me para procurar o que gostava de fazer. Saía de lá bem e feliz, com vontade de voltar. Precisava de estar bem comigo para estar bem com os outros. Tinha tanta coisa abafada em mim. Como podia estar bem com os filhos e com o marido, e com as outras pessoas, se eu não estivesse bem?
A coisa vinha de trás, claro. Fiz a quarta classe e comecei a trabalhar no restaurante dos meus pais. Aos oito anos já descascava batatas e cebolas, lavava a louça. Não tive uma infância de brincar com as meninas e com os amigos, era sempre trabalho, muito trabalho. E é precisamente na infância que fica muita coisa, que as memórias ficam.
Sempre trabalhei na restauração e hotelaria com os meus pais e irmãos, éramos sete filhos. Era um tempo em que os homens é que mandavam e o lugar das mulheres era na cozinha. A professora primária dizia ao meu pai que eu que era boa aluna. Eu gostava de ter continuado a estudar, de aprender outras coisas. Mas o meu pai não deixou. “Os homens é que têm inteligência e as mulheres servem para trabalhar.” E isso sempre me revoltou.
O restaurante e o hotel dos meus pais, em Vila Nova de Famalicão, estavam sempre cheios. Trabalhávamos muitas horas seguidas, sempre a limpar e a esfregar. Púnhamos os joelhos num caixote de madeira, que tinha um pano para não magoar muito, e esfregávamos o chão com um balde com água. Limpava-se assim. Os anos iam passando, eu nunca tinha voz, ficava com as coisas dentro de mim. Parece que estava apertada, não sei explicar, é como querer falar e parece que nos cosem a boca para não poder dizer o que se sente. Por vezes, as lágrimas corriam-me pela cara, eu tinha vergonha, ia para o quarto onde a gente mudava de roupa e tentava isolar-me. Era uma luta cá dentro. O tempo foi passando e todas essas coisas foram mexendo.
Casei-me, tive filhos. Mas muitas vezes não os via. Eu continuava a trabalhar na restauração, no negócio da família. Andava sempre ansiosa para terminar o trabalho e deitar-me um bocadinho com tudo fechado, no escuro. Foram anos cansada, revoltada, farta, exausta. Sempre triste, ansiosa. Às vezes parecia que o coração ia saltar pela boca. Era a sensação de estar num colete de forças.
“A minha vida não vai ser isto”
A partir de uma certa altura, não me lembro quando, comecei a estar mais atenta aos sintomas. As minhas mãos tremiam, as minhas pernas tremiam, todo o meu corpo tremia. A ansiedade a disparar, o sistema nervoso em colapso. Era muita carga em cima de mim, um cansaço extremo. Estava esgotada. Só via trabalho à minha frente, sempre naquele ritmo
Aquilo não era vida. Em setembro de 2003, tinha 39 anos, decidi ir ao psiquiatra. Chorei, chorei, chorei, e ele disse-me que eu estava muito cansada e receitou-me medicação, que me sugava toda a energia e me dava muito sono. Passava horas e horas a dormir. Acho que pouco adiantou, para ser sincera. Poucos meses depois, no início de 2004, continuava demasiado exausta, esgotada, meti baixa e deixei de trabalhar. Já não conseguia. Disse ao meu marido que não estava bem e fiquei quatro meses em casa.
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Acordava, comia, tinha muito sono, aquela sensação de não querer fazer nada. Chegava ao ponto, a certa altura, de não me preocupar com os filhos. Se comiam ou não comiam, se iam ou não iam para a escola. Eles eram adolescentes, tinham 14 e 17 anos, precisavam da mãe, mas eu não conseguia. Comia pouco, engordei por causa da medicação, e só dormia. Não tinha tempo para pensar.
A minha filha, ao ver a mãe triste, tentava tirar-me da cama. E eu sempre com aquele sono, com aquela tristeza, tão cansada. Aquilo não era normal, não era eu que estava ali. Quando voltei ao trabalho, decidi que não podia continuar calada, sem voz. Eu tinha a minha maneira de ver as coisas, devia dizer o que pensava sobre as rotinas e como o trabalho podia ser feito. Quando regressei, disse: “Não, a minha vida não vai ser isto, também tenho a minha opinião”.
Antes da pandemia, em 2019, deixei novamente de trabalhar durante três meses. Tinha de parar, estava exausta. Nesse tempo, já não passava os dias na cama, fazia caminhadas, ia ver o rio, a água a cair, a paisagem. Fazia passeios de carro por estradas secundárias, sem ninguém a falar. E voltei a pensar: “Parou! Chega, isto não é vida.”
Porque é que me deixei estar? Porque é que me deixei ficar? É fácil falar, mas é difícil sentir e fazer. Quando é na própria pele, não é a mesma coisa, é tudo diferente. Chega-se a um ponto em que nos olhamos ao espelho e vemos um monstro, não se é bonita, ninguém gosta de nós. Sentia-me feia e diminuída, qualquer coisa era má: o cabelo, a altura, o peso. Não tinha vontade de me arranjar, de me preparar.
A única coisa em que a gente sente é que é boa naquilo que faz é no trabalho. Quando as coisas chegam aos clientes e têm sucesso e as pessoas gostam. Sou chefe de cozinha, criei pratos, já fui à televisão apresentar um que fiz em homenagem à minha mãe, os Rolinhos à tia Laurinda.
Sempre trabalhei na cozinha, tenho gosto naquilo que faço. Mas uma coisa é gostar, outra coisa é fazer com gosto e não ser valorizada. A única coisa que estava bem era a minha mão-de-obra e os meus braços trabalharem bem.
“Falar com aquelas psicólogas mudou a minha vida”
Por tudo o que passei, a coisa mais importante que fiz foi ter ido à Clínica da Mente, no Porto, depois de ter visto uma placa de publicidade. Falar com aquelas psicólogas mudou a minha vida. Eu tinha 57 anos, já andava neste sofrimento há tempo demais. No princípio, o meu marido ia comigo às consultas e ficava no carro à minha espera. Depois passei a ir sozinha de carro. Ia e vinha a conduzir, fosse de manhã, fosse à tarde, saía de lá tão bem e feliz.
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Ter confiança e autoestima é muito importante. Até pode parecer pouca coisa, mas o simples facto de me arranjar, sair de casa e ir ao café, tomar o pequeno-almoço e conversar, ouvir “ó minha querida, está tudo bem? A família como está?” faz tão bem. Quando nos rimos para os outros e os outros se riem para nós, ganhamos o dia.
Ainda tomo um comprimido todos os dias, um calmante. Cheguei a tomar três. Tem de ser, preciso disso. Há cerca de um ano que não vou à clínica, mas irei sempre que precisar. Ao longo destes anos, fui sempre acompanhada pela minha médica de família que me aconselhou a procurar ajuda especializada e me dizia que estaria ali sempre que se eu precisasse de alguma coisa.
Sou a Alice, faço Pilates, vou ao ginásio, faço caminhadas. Gosto da natureza, gosto de ir molhar os pés ao rio e ao mar. Não vale a pena desperdiçar nada agora. O passado já lá vai, há coisas de que a gente ainda se lembra, mágoas que ficam, mas agora tenho outra maneira de ver a vida. Sou chefe de cozinha no restaurante e hotel da família, em Famalicão, e tenho todo esse espaço para gerir. Também sei um bocado de História, gosto de saber mais, de estar informada, seja cinema ou outra coisa qualquer. Tenho 62 anos, tenho de aproveitar a vida.
Hoje estamos aqui, amanhã não sabemos, e não quero desperdiçar aquilo que não aproveitei no passado. Agora tento aproveitar a minha vida familiar, com o marido, os filhos, os netos. Uma coisa que me deixa muita mágoa é não ter tido muito tempo para os meus filhos. Mas a minha vida deu uma volta.
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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