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27 de máxima. Foi detectada a presença de fosfina na atmosfera de Vênus, o planeta mais próximo da Terra, e a uma altitude onde já se desconfiava que pudesse existir vida. Na Terra, a maior parte da fosfina é produzida por organismos anaeróbicos, isto é, por seres vivos que não precisam de oxigênio para crescer. O entusiasmo da comunidade científica é grande, já que este pode ser um dos sinais da possível existência de vida além da Terra.

Nós, definitivamente, não somos organismos anaeróbicos. Precisamos de oxigênio, e muito, para sobreviver. Junta-se agora, esta tarde, em direto, Pedro Machado. É professor e investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e também da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Muito boa tarde. Mais uma vez, bem-vindo aqui à tarde em direto. Pedro Machado, esta descoberta pode ajudar a dar mais argumentos àquelas suspeitas de que há vida em Vênus?

Olá, boa tarde. As suspeitas eu diria que eram quase filosóficas e também pelo fato de que, ao nível da altitude das nuvens em Vênus, entre os 55 e os 70 km, mais ou menos, a temperatura é à volta dos 25, 20 e tal graus, e a pressão é de uma atmosfera como na Terra, à superfície. Enquanto que, Vênus à superfície, hoje, é como se fosse uma incineradora. São mais de 400 graus, 460 °C, e uma pressão de mais de 90 atmosferas. É quase como se estivéssemos a 1 km de profundidade no mar. Portanto, incompatível com a vida como nós a conhecemos. E é verdade que nos anos 60, 70, até o Carl Sagan já tinha falado na hipótese de que no passado longínquo de Vênus pode ter havido realmente água. Nós temos indícios de haver água na superfície de Vênus e as temperaturas muito mais baixas do que são hoje. Ou seja, antes de descontrolar o efeito estufa, não está descartada a hipótese de ter havido vida em Vênus. E como a vida, quando existe, é muito resiliente, como nós podemos assistir na Terra. E isso era a hipótese do Carl Sagan, que poderia ter permanecido vida numa forma flutuante, vamos dizer, vida microscópica, bacteriana, ao nível das nuvens. E essa era a hipótese, mas eu diria uma hipótese acadêmica. Agora, esta descoberta que vemos hoje é que é incrível e inesperada.

E Pedro Machado, vamos recuar aqui um bocadinho. O que é a fosfina, exatamente?

A fosfina é um composto de fósforo, P, com três átomos de hidrogênio, PH₃, e que não gosta muito de se ligar a coisas que tenham oxigênio. Quando há oxigênio, a coisa corre muito mal. Se existirem, realmente, estes, entre aspas, aliens, estes ETs venusianos, é um tipo de vida com quem nós não podemos ir dançar, porque vai correr muito mal.

Ouvimos até dizer que cheira um pouco mal, não é?

Cheira supermal. E além disso, é tóxico, é um veneno. O PH₃, a fosfina, em tudo que tenha metabolismo de oxigênio, como a nossa vida aeróbica, é incompatível. A fosfina é encontrada na Terra, no nosso planeta, mas sempre em ambientes que são anaeróbicos, ou seja, que não têm ligação com oxigênio. Como, por exemplo, no trato intestinal de alguns mamíferos, de peixes, etc. No lodo, nos pântanos, sempre onde não existe esse oxigênio.

Nós avisamos que o odor não era agradável. Pedro Machado, como é que se descobre isto? Como é que isso se consegue descobrir a esta distância?

Olha que tem o dedo de uma portuguesa inteligentíssima, que é a doutora Clara Sousa Silva, que está no MIT, nos Estados Unidos da América, e que já há muito tempo estuda a fosfina. E que estuda a fosfina porque, na ideia dela, a fosfina na Terra, que é encontrada, está sempre ligada à vida, portanto, tem sempre uma origem biológica. Então ela pensou que era um ótimo marcador para pesquisar vida em outros planetas. Mas repare que nunca lhe passou pela cabeça que fosse em Vênus, aqui ao lado, no nosso quintal. A ideia dela era para pesquisar vida, ter um marcador que se encontrarmos num planeta rochoso, fosfina, portanto, a assinatura espectral desta molécula, então deve haver vida neste ou é muito provável que haja vida neste exoplaneta. A ideia era para pesquisar vida nas atmosferas de planetas que orbitam outras estrelas que não o Sol. Ora, grande surpresa quando ela ouviu falar que tinham encontrado algumas riscas espectrais que poderiam indiciar a presença de fosfina em Vênus. E claro que ela está ligada a esta descoberta. Portanto, cá está. Temos também uma mão portuguesa, eu diria as duas mãos, nesta grande descoberta.

Exatamente. E Pedro Machado, o que é que se segue agora? Isto entusiasma e depois?

Entusiasma muito. O próximo passo é: nós temos que fazer mais observações, porque eles fizeram observações essencialmente no submilimétrico, portanto, basicamente em radioastronomia, utilizando o grande radiotelescópio que está no deserto da Atacama, no Chile, chamado Alma. E conseguiram uma cross validation, ou seja, uma validação cruzada da detecção que já tinham obtido com um telescópio no Havaí E agora é preciso ir procurar noutras zonas em que a fosfina também tem assinaturas espectrais no infravermelho profundo, entre os sete micrômetros e os 10 micrômetros, e também entre os três e os cinco micrômetros. Basicamente, o que eu quero dizer com isto? É infravermelho, portanto, é radiação térmica profunda. E é muito difícil fazer observações a partir da Terra, porque o nosso céu é muito brilhante no infravermelho. Então vamos ter que tentar fazer observações, por um lado, com espectroscopia de alta resolução, e para isso não pode ser a partir do Hubble, por exemplo, ou a partir de outros telescópios espaciais. Portanto, para conseguirmos fazer estas detecções a partir de telescópios no solo, tem que ser alto nas montanhas, como por exemplo, no Observatório de Mauna Kea, que está a 4200 metros, com o telescópio de infravermelho da NASA chamado IRTF, que está a uma altitude em que já está muito acima da maior componente da atmosfera terrestre. Ou então a partir de um telescópio num avião, que é uma hipótese com o telescópio a bordo de um avião chamado Sofia, que é o telescópio da NASA, e essa é uma boa opção, claro.

Pedro Machado, agradeço-lhe ter estado conosco. É professor e investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Ajudou-nos aqui a perceber a importância desta descoberta. Foi detetada a presença de fosfina na atmosfera de Vênus, o planeta mais próximo da Terra, e uma altitude onde já se pensava que poderia existir vida. O Pedro Machado ajudou-nos a perceber tudo isto. Amanhã falaremos de ciência novamente na tarde, em direto. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador Online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.