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Grande Egito, mas maior Argentina. Messi e companhia avançam para os quartos de final deste mundial de futebol depois de uma remontada histórica. O Egito esteve a vencer por 2 x 0, mas a Albiceleste fixou o 3 x 2 final aos 93 minutos. Já a Suíça precisou dos pênaltis para eliminar a Colômbia e também segue em frente para os quartos de final, que começam amanhã às 9 p.m. com esse interessantíssimo França Marrocos. Eu sou o Nelson Ferreira. Para comentar a atualidade desportiva, tenho hoje comigo a Mariana Fernandes, o Augusto Inácio, o Gabriel Alves e o Pedro Henriques. Mariana Fernandes, foi uma vitória justa esta vitória à ferros da Argentina?

É sempre difícil dizer se foi justa ou não. Olhando pro jogo, tal como já tinha acontecido no jogo anterior, na ronda anterior com Cabo Verde, a Argentina não faz um jogo extraordinário na sua globalidade e é por isso que sofre dois gols. Aliás, sofre três gols, porque um deles é anulado. Bem anulado. Vamos já aqui escapar um bocadinho à polêmica. Eu acho que não há polêmica nenhuma, ou melhor, acho que a única polêmica que pode existir é, na verdade, naquele terceiro gol, se há falta ou não do Mac Allister, mas acho que todas as declarações do selecionador e até dos jogadores do Egito são manifestamente exageradas naquilo que disseram. Não me parece que o gol anulado ao Egito tenha sido mal anulado. Sobre o jogo em si, a Argentina é uma equipe que demonstra uma capacidade que muitas outras equipes não têm, que é a capacidade de nunca desistir. Ou seja, mesmo quando as coisas parecem estar absolutamente perdidas, como aconteceu com a Alemanha contra o Paraguai, como aconteceu com os Países Baixos e com Marrocos, mesmo que só tenha acabado também nas grandes penalidades, como acabou por acontecer com Espanha e como a dada altura estava a acontecer com Portugal contra a Croácia, existe aqui uma capacidade de achar que tudo vai correr bem e de correr atrás dessa felicidade, que é difícil encontrar em outras equipes.

Esse é o efeito Maradona no céu, não é?

É o efeito Maradona no céu e é o efeito do Lionel Messi em campo. Não só ele, obviamente, e ontem não foi ele que marcou os gols todos. O Cutiro volta a marcar um gol, depois já ter marcado a Cabo Verde, Enzo Fernández marca um ótimo gol de cabeça. Portanto, é óbvio que não é só o Lionel Messi que ali está, e é óbvio que é um coletivo que ali está. Só que é um coletivo que consegue superar algumas fragilidades em campo, digamos assim, algumas fragilidades até técnicas, jogadores que estão claramente em muitas dificuldades físicas, e isso nota-se na Argentina à medida que o tempo vai passando. A partir dos 60 minutos, nota-se o cansaço, nota-se que os jogadores ficam pesados, mas que acaba por conseguir superar isso com essa ideia e uma palavra que nós não usamos da mesma maneira em português, mas que eu acho que é bonita em espanhol, que é a ideia da ilusão, essa ilusão de que vai mesmo lá chegar, e o lá chegar é ser bicampeão mundial, não é lá chegar às semifinais ou à final. O objetivo desta equipe, o objetivo do Messi, do Scaloni e dos outros todos é ser bicampeão mundial. E esta equipe acredita sempre que isso vai acontecer, mesmo quando está a perder 2 x 0 com o Egito nos oitavos de final, a 10 minutos do fim. E essa capacidade de superação que eu, honestamente, não vejo em mais nenhuma seleção, porque se calhar também ainda não foram colocadas na provação que a Argentina já foi, mas que eu não vejo em mais nenhuma seleção, acaba por ser o que faz a diferença. E eu ontem, não sou professor nem doutor nenhum e não faço qualquer tipo dessas previsões, mas eu juro que ontem estava a ver o jogo e estando 2 x 0, eu estava a olhar pro jogo com alguma tranquilidade, sabendo que eles iam dar a volta.

Eu tinha essa pergunta também para o Gabriel, que era: mesmo com o 2 x 0 do Egito, Gabriel, pareceu sempre que a Argentina poderia dar a volta ou estava mais perto, estava a carregar mais em cima do Egito e o Egito tinha saídas incríveis e muito boas em contra-ataque e resultaram até em três gols, diria, porque um deles depois foi anulado, mas o segundo é muito parecido com esse que foi anulado. É essa força anímica o segredo, Gabriel, desta Argentina de Messi?

Boa tarde a todos. Eu acho que esta Argentina se classifica assim: resiliência, Messi, unidade de espírito, equipe, bandeira, pátria. Acho que é este o slogan argentino, por aquilo que se vê. De resto, é uma equipe que tem um futebol diverso daquele que vai sendo visto. Não joga pelas alas. Muito futebol interior e naturalmente jogam 10 mais um, e o mais um é o Messi, que transporta a equipe, surge quando é necessário. E quando surge, quando é necessário, aplica a sua lei. O Egito foi uma equipe extremamente interessante, eu direi magnífica mesmo. Uma nota máxima para estes egípcios, com futebol, querer, alma e acima de tudo, algo que eu acho que é importante ter naquilo que é o futebol e as equipes: futuro. Esta equipe tem muito futuro. Quanto ao mais, foi um jogo onde o fascínio Messi, naturalmente, esteve presente e pra quem gosta de futebol, esteve agarrado aos ecrãs. Quanto a ser bicampeão do mundo, portanto, ou ganhar dois Campeonatos do Mundo seguidos, estamos cá para ver, mas é um desafio a todos nós que somos espectadores.

Augusto Inácio, Zico, Hassan, Ibrahim deram nas vistas, até ofuscaram de alguma forma a estrela Salah. Ainda assim, é Marrocos a única resistente africana deste mundial. O Egito sai, mas deixa uma ótima imagem neste jogo de ontem.

Boa tarde a todos. Eu tenho uma grande relação, depois da passagem que eu tive lá no Zamalek do Egito Eu tenho, ao longo deste tempo todo, sempre aproximação, os jornalistas a fazerem perguntas de tudo e mais alguma coisa. E tenho aqui o telefone cheio de perguntas também de jornalistas egípcios. Ainda não respondi porque estava à espera de entrar no programa para poder responder. E eu tenho um carinho muito grande por aquela gente. Eu sei como é que aquela gente joga quando está em causa o país. Ou seja, jogar pela seleção, para eles, é qualquer coisa de extraordinário e que ultrapassa, se calhar, aquilo que é uma mera chamada à seleção nacional. É realmente um ponto de honra que eles têm de realmente envergar aquela camisola e honrar o país. E eles transmitem muito isso. E ontem transmitiram também. Realmente, o Egito surpreendeu-me, não esperava tanta qualidade no seu futebol, mas não me surpreendeu pela entrega, pela entreajuda, pelo querer, pela determinação. Isso não, porque eles são assim, mas a qualidade do seu futebol realmente surpreendeu-me porque eu esperava bem menos. Por isso o Egito sai de cabeça erguida, é verdade, e com algumas razões de queixa, segundo os responsáveis egípcios. Eu não vou entrar nisso, vou deixar isso para o Pedro Henriques, que ele é que sabe melhor do que eu algumas das situações que se passou ali, mas sai com honra e sai realmente com uma capacidade de, no futuro, poderem fazer mais e melhor e poderem engrandecer o futebol egípcio.

E a Argentina teve grandes batalhas com africanos, Cabo Verde e Egito. Pedro Henriques, o Egito sai frustrado deste mundial, o selecionador estava fulo, revoltado com a arbitragem, há esse gol anulado ao Egito. Têm razão nestas críticas os egípcios?

Bom dia a todos. Quando um selecionador ou uma equipa mete tudo no mesmo saco, isto é, os erros que acontecem e os erros que não acontecem, está tudo dito. Quando um selecionador do Egito faz o sinal de racismo só porque agarrando no eventual insulto que lhe possam ter feito, e agora parece que tudo é racismo e, portanto, está tudo dito. Fez aquele gesto. Ficamos até um bocadinho apreensivos, porque o árbitro, se calhar, não assinou o protocolo. Portanto, está tudo dito na perspectiva de quando tu redirecionas tudo o que é a tua frustração para eventuais erros de arbitragem. E quando esquecem, vejam só, por acaso não tenho aqui as seleções de todos os tempos. Aliás, tenho, mas não vou estar a ler, porque tinha que estar aqui a desqualificar as bandeiras. Acho que as seleções africanas, sete ou oito, são eliminadas, vejam quando, nos últimos minutos. Portanto, isto tem muito a ver com um aspeto, uma palavra que eu gosto muito, que é a palavra atitude. Portanto, aquilo que nós dizemos e olhamos para um jogo e percebemos que isto mais tarde ou mais cedo vai acontecer, tem a ver exatamente com a atitude. E o Gabriel Alves meteu aqui agora um slogan ou frase, que no fundo acaba por justificar muito aquilo que ontem aconteceu. Mais do que, se calhar, com a Argentina, mais do que, se calhar, o técnico ou tático, o 4-3-3, foi a atitude, aquilo que o Gabriel Alves disse, atitude, pátria, bandeira, essas coisas todas. Aliás, de repente vem à cabeça Portugal e também tenho slogans para Portugal parecidos com o do Gabriel Alves, que é praia, irmãs e namoradas no Instagram, selecionador a dizer que está tudo bem e Gonçalo Ramos no banco. Portanto, isto para dizer que estes torneios ganham-se porque as equipas ou seleções têm jogadores de qualidade ou de mais qualidade uns em relação aos outros, mas também ganha-se ou podem-se ganhar exatamente nisto, que é a postura, a atitude. E nós não vimos nenhum jogo de Portugal. Eu sei que estás-me a falar do Egito, eu estou a responder em Portugal. Nós não vimos nenhum jogo que Portugal fez com esta atitude, com esta postura e com esta garra. Aliás, as pessoas que vinham falar comigo, no dia a seguir, diziam: "Até ganhámos 5 a 0, até não sei o quê, ou empatámos, mas ganhámos à Croácia. Mas falta ali aquela coisa do agarrar no cinto, falta ali qualquer coisa". E é isto que às vezes faz a diferença. E basta ver como é que terminou a Argentina, o Messi e todos eles superemocionados. Não é só a oportunidade da volta, é aquilo que representou para eles. Eles sentiram que deram tudo, poderiam ter sido eliminados, que deram tudo e puseram tudo dentro do campo. E depois a história acabou feliz para eles, porque eles perceberam exatamente isso. Eles estavam com o sentimento, aquilo já não era fisiologia do exercício, nem VO2 máximo, era postura, atitude, coração, alma. E é isto que muitas vezes faz a diferença quando temos um campeonato tão competitivo e com seleções. E eu acho que, e termino com isto, se há alguma coisa que saiu de bom deste alargamento que a FIFA fez em relação ao mundial, foi termos passado de cinco para 10 seleções africanas e dessas 10 seleções africanas, passamos para 10, mas é falta de qualidade. Não, dessas 10, nove passaram às oitavas de final. E isso é muito relevante e importante. E o campeonato está muito competitivo e por isso nós vemos estes jogos tão difíceis, como foi no caso de ontem, como foi o jogo com Cabo Verde e como foram tantos outros jogos em que seleções aparentemente favoritas, mesmo que ganhem, ganharam com dificuldade. Sinais dos tempos.

Vamos avançar já para os campeões do dia, mas muito rapidamente queria ainda, Mariana Fernandes, que me ajudasse aqui. Como se pronuncia o nome desta nova contratação do Benfica? Quem é ele e o que podemos esperar deste polaco com nome de artista plástico?

É, não é? Bem, pronunciar, eu não falo polaco, mas eu diria que é uma coisa por volta do Jakub Kaminski. Acho que já tivemos jogadores piores no Benfica, desde o Scheldrup, passando ao Akturkoglu. Acho que Kaminski é até uma coisa bastante fácil de se pronunciar. É um avançado polaco de 24 anos, internacional pela Polónia, já em várias ocasiões. Aliás, ele esteve no último mundial em 2022, no Qatar. É um jogador para a esquerda, ou seja, parece-me que é para competir diretamente com o Scheldrup, isso partindo do princípio que o Scheldrup vai ficar no Benfica este verão, para competir diretamente com o Scheldrup pela ala esquerda do ataque, ainda que ele também jogue a direita, ainda que ele também jogue nas costas da referência ofensiva, mas é um jogador que tem-

Pode como matar a saída para este ano? Não é tanto o mesmo terreno.

Eu acho que não é tanto o mesmo terreno, também não é tanto o mesmo jogador. O Kaminski não é um jogador de um para um, não é um jogador de drible, é um jogador que tem uma capacidade muito acima da média para com a bola nos pés conseguir quebrar linhas e fazer estragos na defesa contrária. Ele foi o quarto jogador, creio eu, que mais correu com a bola nos pés na Bundesliga na temporada passada, acho que ele estava no Colônia. Portanto, isso mostra que é um jogador que gosta de ter a bola e que normalmente é muito difícil tirar-lhe a bola também. É um ativo muito positivo que eu acho que o Benfica consegue aqui resgatar. A minha questão é o valor do negócio. O Jakub Kaminski custou pouco mais de 5 milhões de euros ao Colônia neste verão. Ele tinha estado emprestado pelo Wolfsburg ao Colônia nesta temporada. O Colônia exerceu a opção de compra por 5 milhões. Sai por 17, sendo que o Colônia fica com 10% de uma mais-valia e com uma cláusula que é rara no futebol, em que essa mais-valia sobe para 25% se Kaminski ainda for vendido neste verão. Ou seja, se o Benfica ainda o vender até o final do verão. Portanto, são uns contornos estranhos e mesmo sem esta cláusula, eu acho que 17 milhões por um jogador que acabou de valer cinco, parece-me demasiado.

Mas já li também na imprensa dizer que o Benfica, por este valor, fez uma boa jogada de mercado. A ver vamos. Mariana, o teu campeão de hoje.

O meu campeão tem de ser Lionel Messi, ou pelo menos esta equipa da Argentina, por tudo aquilo que eu disse há pouco. E atenção, não estou mesmo a desvalorizar o facto da Argentina estar ou ser uma equipa diferente daqui era há quatro anos, não é uma equipa tão dominadora, não tem a capacidade que tinha há quatro anos, tem jogadores que estão claramente em déficit, tem jogadores que se estão a aproximar demasiado do final das carreiras para conseguirem dar aquilo que o Lionel Scaloni precisa deles. Acho que existem erros também do Scaloni na forma como aborda os jogos. Começa a ser um bocadinho já insustentável o facto do Giuliano Simeone não ter praticamente minutos neste campeonato do mundo e não ser opção quando tantas vezes poderia ser opção para o ataque. Portanto, há muitas coisas más, mas existe uma coisa que eu não vejo mesmo em qualquer outra equipa, que é esta vontade absolutamente inenarrável e incontrolável de ganhar.

Gabriel Alves, alertaste-me aqui para um belo artigo da Marca. Os espanhóis parecem intrigados com o enigma de Vitinha e João Neves e esta espécie de apagamento da dupla na seleção. Mas sei que ontem, nem só na relva do Mundial pudemos ver lendas em ação, não é?

É verdade. E eu diria deste artigo, e dou uma nota 20 à Marca e ao Miguel Rangel Garcia. Vale a pena ler, observadores, que é um enigma de Vitinha e João Neves, do domínio na Europa com o PSG ao fracasso no Campeonato do Mundo, onde explica com números e detalhe os motivos do mau desempenho da equipa, colocando o contexto coletivo como problema. E remata o artigo: o PSG cria o contexto, Portugal exige soluções mais individuais. É um artigo sobre futebol, vale a pena ler. Depois, a minha nota de distinção, 20 já dei ali, aqui a distinção para Messi e Djokovic. São duas lendas, nasceram em 87. Um ontem esteve em Atlanta, o outro esteve em Wimbledon. Em Atlanta, aquele que lá esteve brindou o mundo com um show de bola fascinante. O outro em Wimbledon. Cinco horas e 15, uma partida de génio, de tênis fabulosa. Também o fascínio do desporto é aqui. A magia do desporto. E Djokovic sorriu e brincou com Messi e brindou assim quem me dera jogar 90 minutos. Duas lendas. Frank Lampard, canta lá o "The Last Waltz".

Augusto Inácio, vamos ao teu campeão desta quarta-feira.

Independentemente daquilo que já se falou da Argentina, eu já uns tempos atrás tinha dito que os argentinos é aquela raça, aquela atitude de dizer: "Nós morremos em campo pelo resultado." E ontem mais uma vez se provou isso. Podem perder, mas morrem em campo. Por isso, por essa atitude, que é sempre fascinante, nota 20 para a Argentina. Mas queria dar aqui nota 17 para a Suíça. Murat Yakin, treinador da Suíça, ontem fez qualquer coisa que a Colômbia nunca apareceu. Nunca pudesse aparecer, nem individualmente, nem coletivamente, bloqueou completamente as intenções colombianas e acabou por ser feliz, e nos penáltis acabou por passarem à fase seguinte. Por isso, dou nota 17 para a Suíça e também dou nota 18 para o Egito. Sai de cabeça erguida, um povo que eu gosto também, tenho carinho por eles, mas acima de tudo demonstraram em campo que realmente estão a crescer e têm muita qualidade.

Pedro Henriques.

A minha nota vai para uma excelente notícia, que é quando fizermos o próximo campeão, já não temos o mesmo selecionador nacional. O contrato dele de trabalho termina 48 horas depois de ele fazer o último jogo pelo banco, significa que é logo à noite. Portanto, último capítulo da saga do Ruca. Ruca vai dar banho ao cão. Nota 20.

Está feita a edição de hoje de "E o Campeão É...".