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Edição de terça-feira de "E o Campeão É". Eu sou o João Costa e Silva e para a análise estão comigo o Pedro Henriques, o Augusto Inácio e o Gabriel Alves. Sejam todos muito bem-vindos. Em destaque esta terça-feira a continuação da preparação da Seleção Nacional. Joga esta quinta-feira para a terceira jornada da Liga das Nações com a Dinamarca. Ontem voltou aos treinos com o regresso de Bruno Fernandes, já sem limitações. Francisco Conceição ficou pelo departamento médico depois de algumas queixas físicas que apresentou nesse jogo que terminou com vitória para a Seleção Nacional frente à Noruega. Foi a única ausência para Jorge Jesus, que teve os titulares a trabalhar no ginásio e os restantes no relvado. A equipa das Quinas volta hoje a treinar às 15h30, hora portuguesa, na casa do Malmo, na Suécia. E já sabe que este Dinamarca-Portugal joga-se esta quinta-feira, quando faltarem 15 minutos para as 20h00, e tem relato aqui em direto na Rádio Observador. Por cá, vamos falar da entrevista de Duarte Gomes, antigo diretor técnico nacional de arbitragem, que deu uma entrevista ao jornal A Bola, em que explicou as razões da sua demissão. São várias as considerações que faz ao longo desta entrevista. Garante que a decisão foi tomada com base numa quebra de confiança absolutamente irreparável, confiança que perdeu em Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol, e também em que admite que a relação com Pedro Proença saiu altamente beliscada. Pedro Henriques, começo por ti. Duarte Gomes com esta entrevista tem aqui algumas declarações, umas mais reveladoras do que outras. Fala inclusive dessa amizade de 35 anos com Pedro Proença. Afasta-se assim e encerra todo este processo, ou seja, deixa tudo para o tempo da justiça. Como é que encaras estas declarações?
Bom dia. A amizade comigo são 36 anos, portanto tem um ano de avanço em relação ao Pedro Proença. Começámos a conhecer-nos e somos amigos desde 1990 e tenho uma relação pessoal com ele, não digo diária, mas quase diária. Isto para dizer que todas as declarações, obviamente, que eu farei neste sentido, têm sempre este óbice que, independentemente do aspeto profissional, através do qual nos fomos interligando e vamos interligando, há este aspeto pessoal e sabemos que por vezes isso faz com que tenhamos uma opinião se calhar mais favorável, normalmente em relação à pessoa que conhecemos melhor, quando está inserida num contexto profissional e com outros profissionais. Dito isto, não há nenhuma novidade nesta entrevista. No fundo, esta entrevista aparece com um propósito claro, que é encerrar da parte do Duarte Gomes, uma vez mais, e depois de ter vindo a fazer declarações, entre aspas, avulsas, desde o primeiro momento em que se demitiu, em que foi explicando pouco, mas sempre com esta ideia da quebra de relacionamento institucional e da perda de confiança em relação à instituição/a Luciano Gonçalves, mais concretamente. E agora, à medida que foi-se sabendo, até porque entretanto houve umas mensagens, uns áudios, uma série de coisas que foram sendo colocadas cá fora e obviamente não foram colocadas de forma inocente, não foi ninguém que apanhou, foi alguém que largou, que são coisas diferentes e com intenção. Duarte Gomes faz aqui uma coisa que é encerrar este capítulo da parte dele, sintetizando tudo, concentrando tudo numa entrevista, explicando de novo os fatos, até inclusivamente cronológicos, para que as pessoas percebam que perante indícios que ele teve, e ele tem muito cuidado nesta entrevista, aliás, tentarem pegar na entrevista e dizer assim: "bem, mas lá a ver", alguma das pessoas que aparece ali, que são visados e lesados, não conseguem agarrar nem nada que esteja ali para tentar mover um processo. Houve esse cuidado também de limar, entre a entrevista original e o produto final, de limar aqui alguns aspetos para que não deixe essas pontas soltas, deixando para a Justiça o que é da Justiça. Ele teve indícios, fez as suas diligências internas, não só não ficou satisfeito, como adensou mais as suas dúvidas. Expôs a situação perante o próprio Luciano Gonçalves, perante todo o Conselho de Arbitragem, perante o Pedro Proença como entidade máxima. Sentiu que perdeu em relação a todos eles essa confiança institucional, incluindo, naturalmente, o próprio Pedro Proença, porque aquilo que passou sempre de imagem para ele foi que era uma mão cheia de nadas e de coincidências. E como ele acha que isso não existia e como ele não conseguia coexistir, em termos profissionais, com esta situação, estaria sempre desconfiado em relação às pessoas que compõem a instituição, ele demitiu-se como é sabido. Com isto, ele termina e deduz-se que neste momento será um ponto final daquilo que é uma declaração mais aberta sobre tudo o que passou, para ficar ali tudo escritinho. E significa que ele, muito provavelmente, hoje estamos a 29 de dezembro, que ele provavelmente dentro de dois ou três dias estará a começar um novo ciclo profissional e com isso ele intencionalmente faz com que esta entrevista saia neste momento para que possa iniciar o seu novo ciclo profissional, naturalmente ligado à arbitragem. A ver vamos se é isso ou não. De resto, e para terminar, para passar a palavra aos colegas, há ali situações que nós olhamos para aquilo e é assim, se pelo menos, sob o ponto de vista ético, há ali coisas que serão graves. Se for tudo verdade, se aqueles indícios passarem a fatos concretos, estaremos perante situações claramente de crime. Agora, falta provar isso e é esse o tempo da Justiça. E eu não vou tecer considerações no sentido de quem tem razão ou não, se é verdade ou não é verdade, porque não tenho capacidade também para analisar se estamos perante uma situação que só é eticamente incorreta ou se temos mais do que isso. E é o tempo da Justiça agora.
Gabriel Alves, Duarte Gomes chega a dizer que sempre teve dificuldades para funcionar em zonas pouco transparentes. Daquilo que também eu ouvi agora do Pedro Henriques e dessa visão mais próxima, o que pensas destas declarações de Duarte Gomes? Não deixa realmente pontas soltas nesse sentido?
Eu acho que esta entrevista, e o Pedro acabou de observar as coisas com a sua dinâmica e com a sua precisão, traz de fato algo que se pede: a justiça que trabalhe rapidamente. Ponha tudo a claro, eu diria tudo a clarinho, porque não é benéfico, não é saudável viver debaixo de um manto, de que há nuvens, de que há situações que não são claras, principalmente ao nível da arbitragem, porque a arbitragem sempre ao longo dos anos serviu para justificar resultados, para justificar isto, aquilo e aqueloutro. Mas agora chegou-se a ponto em que se entrou num ponto muito crítico e obviamente com os interesses que hoje envolvem o futebol. Já não é só os interesses do coração, os interesses dos adeptos, da vontade do clube A ganhar, ser campeão. Não, além disso tudo, há os interesses econômico-financeiros, os interesses de estatutos, os interesses de pessoas, e isso é muito complicado. Portanto, que a justiça ponha e que haja regras que sejam. Porque ele diz: "Acho que a nível político a arbitragem", estou a citar Duarte Gomes, "Acho que a nível político a arbitragem está longe de ter a transparência e a forma de comunicação que se idealizou como a melhor". Está aqui tudo encerrado. Portanto, ele não diz mais porque não quer ou porque não pode.
Era aquela questão também que falava o Pedro Henriques, sabendo do cargo que ocupou e da influência que teve.
Exatamente. E a questão é esta: há muita coisa por explicar, há muita coisa que fica atrás deste biombo. E ficando atrás deste biombo, serve para o A dizer isto, o B dizer aquilo, o C dizer aqueloutro, e depois ficar tudo intoxicado. E depois no meio da intoxicação, salve-se quem puder. E anda-se aqui numa questão que não beneficia o futebol português, eu diria, não beneficia o futebol em geral. Cada um com os seus problemas locais, os seus problemas territoriais. Nós temos uns, a França tem outros, a Inglaterra terá outros, a Espanha terá outros, cada um com os seus. Agora, a verdade é que isto tem que parar e, portanto, se calhar, tem que ser mesmo ao nível da Justiça e ao nível político.
Augusto Inácio, eu sei bem que quando falamos aqui de casos de arbitragem, tu és sempre daqueles que pede e em todos os jogos, não é não quero falar disso, mas queres ao máximo que isso não aconteça. Aqui falamos de algo mais profundo e que teve vários acontecimentos que foram também escorridos ao longo das últimas semanas, meses, na comunicação social. Agora temos finalmente esta entrevista de Duarte Gomes. Como é que avalias estas declarações? Já tivemos também aqui o Gabriel Alves e o Pedro Henriques a tocar em vários pontos. O que é que tens a dizer?
Boa tarde a todos. Em relação àquilo, já foi tudo muito bem explicado pelo Pedro Henriques e pelo Gabriel Alves. Deixa-me acrescentar aqui um ou dois pontos. E um deles é a desilusão, nesta entrevista, que ele tem, porque esperava que os clubes tivessem uma reação e o próprio Pedro Proença também tivesse uma reação diferente. Ele esperava mais, esperava que as pessoas se interessassem mais por aquilo que estava a passar. Agora, eu conheço o Duarte Gomes de longa data, mas não posso dizer que sou amigo dele, mas sou um homem que respeita muito o Duarte Gomes, porque parece-me que é um homem sério. Um homem que está num cargo em que ele sempre idealizou estar, que é ajudar a arbitragem, e não é para ser presidente, é para ser um elemento mais como diretor da arbitragem e fazer com que evolua a nossa arbitragem. Largar isso, porque não gostou de ver algumas coisas e de perceber algumas coisas, é de alguém que é honesto, é de alguém que não quer entrar por caminhos que ele não estava a gostar. E depois, há esta coisa. Eu sei que alguém está a mentir, alguém tem que estar a mentir, porque Paulo Lopes diz que nunca se reuniu com Loriano Gonçalves, Loriano Gonçalves nunca se reuniu com Paulo. Não é essa a ideia que o Duarte Gomes transmite, mas alguém está a mentir. Sinceramente, eu olho para tudo isto e digo: "Cá para comigo. Este Duarte Gomes, como se costuma dizer, tem uma possibilidade muito forte e muito grande, porque quer que as coisas sejam limpas." E é essa a ideia que eu fico. E ele diz outra coisa que me tocou profundamente. É ele dizer: "As provas podem não dizer nada, podem inocentar, podem culpabilizar ou não, mas a minha consciência é a maior prova." Isto dito desta forma tão simples ou tão simplista e tão verdadeira no sentido da pureza das coisas, eu diria que isto tem muito para andar. E o Gabriel Alves disse, e bem, isto tem que ter um ponto final o mais rapidamente possível. Já está na Justiça, não adormeçam, vão à profundeza das coisas, porque da maneira como isto está, não melhorou nada. Eram as ideias diferentes quando este Conselho de Arbitragem entrou, com o Duarte Gomes como diretor também da arbitragem. Não era este o caminho que queriam, queriam um caminho de transparência, um caminho verdadeiro, um caminho em que realmente as coisas evoluíssem e que se formassem também melhores hábitos. Não foi esse o caminho. Duarte Gomes saiu. Vamos ver o que a Justiça tem a dizer.
Gabriel.
Só para rematar aqui, tenho uma frase do Duarte Gomes que eu também retirei e vou citar. Acho que é muito pesada e mostra que há muito para dizer e que ele não pode dizer, ou não deve dizer, ou não quer dizer. "A haver tempestade, que aconteça o quanto antes. Só assim haverá possibilidade de recomeço", citei.
Pedro Henriques, vou dar aqui mais 30 segundos. Mediante aquilo que eu ouvi também do Augusto e do Gabriel, há mais alguma coisa que queiras acrescentar?
Neste momento é o tempo da Justiça. Eu tenho da minha posse algum conhecimento de como as coisas estão a processar-se. E neste momento a questão que se coloca é que provavelmente estaremos a falar de situações que vão para além do futebol. E isso é que é a preocupação, que não é só uma preocupação do tráfico de influência ou de alguém que eventualmente fala algo que tem a ver com nomeações, etc. Se calhar estamos a falar de relações interpessoais fora do campo de futebol.
Pedro, desculpa interromper. Aquilo que ele fala também, o tal grupo WhatsApp de dirigentes.
Atenção que um dos grupos de WhatsApp que aparece lá, que tem a ver com os árbitros, e as pessoas ficam muito espantadas. Ou seja, há árbitros que estão no ativo e têm grupos de WhatsApp com árbitros que já estão no ativo? É só percebermos que, por exemplo, um dos nomes que é citado tem a ver com a tal possível ligação do tal Pedro Garcia, que foi árbitro assistente, do Duarte Gomes, do Hélder Malheiro, que são dois dos nomes que aparecem neste processo, e que supostamente, aqui alegadamente, não faço a mínima ideia, teria ou não ligações com o Estrela da Amadora, que já foram desmentidas pelo ex-presidente do Estrela da Amadora. É normal que alguém que conviveu 20 ou 30 anos com estes árbitros, o Duarte já saiu, mas o Hélder ainda continuava, é normal que estivessem em grupos de WhatsApp, mal seria, porque eles tinham que combinar viagens e tudo mais. Só que ficam e se calhar, se houve alguma pessoa que se tornou um dissidente, que estando nesse grupo e se aproveitou desse grupo para passar informação, trocar informação, criar inclusivamente pressão, isso não tem a ver com o grupo, tem a ver com a pessoa propriamente dita, a postura, o comportamento e a atitude. As situações estão no tal segredo de justiça, mas não é estar no segredo de justiça, que é uma palavra muito bonita pra malta se furtar a dizer coisas. Neste momento está em campo a PJ, mas está mesmo. Tem as mensagens, tem os áudios, conseguem fazer a prova de que aquilo é verdadeiro, ou que foi truncado ou inventado. E essa é uma realidade. E se houver exatamente essas mensagens, por exemplo, estas situações que se fala, e termino com isto. Se realmente o Luceno Gonçalves teve ou não teve relação extra futebol com o Paulo Lobo, que já foi desmentido com o Paulo Lobo. É natural que eles digam isso, mas se tiverem razão, as mensagens vão provar isso, porque os telemóveis existem, não há volta a dar, a polícia consegue ir lá e buscar isso. Se houve mensagens ou áudios, estará lá. E como disse aqui o Augusto Inácio, é verdade, se calhar alguém neste processo não estará a dizer a verdade ou estará a mentir e a polícia vai conseguir realmente confirmar isso. Mas repito, estamos aqui com uma problemática que passa para além do futebol.
Exato, é tempo da Justiça. Vamos às notas de campeão. Começo por ti, Gabriel Alves.
Olha, é uma nota de futebol que é linda. O gol do Olise ontem que dá a vitória da França à Bélgica.
Aos 88.
Maravilha de gol. A jogada toda, aqueles 70 metros que ele corre e depois aquela entrada à zona de tiro, à zona de remate, a forma como ele faz aquele pontapé, aquele toque para dentro da baliza. Olha, dá gozo. Isto é que é o bonito do futebol. 20 pro Olise, 20 pro futebol quando ele é futebol. É isto que é a paixão do povo e que não pode ser manchada por outras guerras, por outras tricas, por outros assuntos que naturalmente são candentes, obviamente, mas que fazem nódoas, fazem feridas e matam o futebol.
Augusto Inácio.
Pois, o Gabriel Alves antecipou-se, eu é que sou o defesa e ele antecipou-se.
Olha, ficaste a ver jogar.
Fiquei a ver jogar. Mas valeu a pena, porque o Olise realmente faz um gol extraordinário daqueles que a gente pode não estar a ver um bom jogo de futebol, mas ver aquele gol já valeu a pena. Grande gol, Olise a nota 18, mas queria dar nota zero. Uma nota zero vai para o Trialto, para o atleta australiano Matt Hauser, que o Vasco Vilaça já tinha dito que naquela super final em Ponte Vedra tinha sido empurrado. E este Matt Hauser, australiano, que ganhou a prova, disse simplesmente isto: "É preciso ser um pouco cão para ganhar". Não, caro amigo, não é. É preciso ganhar com mérito. E tu não tiveste mérito, tu ganhaste na batota. Por isso, senhor Matt Hauser, nota zero, que não é assim que se ganha.
Fechamos contigo, Pedro Henriques. As tuas notas.
A minha nota vai especificamente para o Duarte Gomes, porque eu acho que a sua honestidade intelectual, para mim, é intocável. São só alegações, são só indícios, não há certezas de nada, e eu também não as tenho, mas sei que o Duarte Gomes, nos últimos três meses, prescindiu e rescindiu de inclusivamente aquilo que para todos nós é importante, que é ter um ordenado fixo ao final do mês. Prescindiu e rescindiu de se calhar de fazer aquilo que ele mais gosta, porque para ele, deitar a cabeça na almofada e dormir tranquilo é muito mais relevante e importante. E portanto, para a sua honestidade como ser humano, que é que eu conheço, e também para a sua honestidade como profissional, nota 20. Não é pela entrevista, nem por aquilo que vai acontecer, é pelo fato de pessoas como ele gostarem de dormir com a cabeça na almofada sossegados e tranquilos com a sua própria consciência. Estou no clube dele.
Pedro Henriques, Gabriel Alves e Augusto Inácio nesta edição terça-feira de "O Campeão É". Amanhã há mais, depois da 13h10.