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Está dado o apito inicial para a edição desta quinta-feira de "E o Campeão É?". Dia de rescaldo de mais uma jornada da Liga dos Campeões. Já são conhecidos os últimos apurados para os oitavos de final da competição. Destaque, claro, para esse Real Madrid x Benfica. São nossos convidados para esta edição o Bruno Roseiro, o Augusto Inácio, Gabriel Alves e Pedro Henriques. Boa tarde, sejam bem-vindos, caros campeões. O Benfica ainda fez acreditar, marcou o primeiro no Santiago Bernabéu, por intermédio de Rafa, mas a equipe merengue deu a volta ao resultado e já nos minutos finais, Vinicius Junior sentenciou a eliminatória. O Real venceu por 2 x 1. Bruno Roseiro, boa tarde. Começo por ti. Que avaliação fazes do desempenho do Benfica ontem em Madrid?

Direi genericamente positiva. Há uma entrada melhor do Benfica, também por muito mérito de José Mourinho em termos de preparação do jogo. O Benfica conseguiu jogar com um dos fatores mais importantes, que é a clara impaciência/desconfiança que existe no Bernabéu em relação a esta equipe do Real Madrid. E percebe-se por quê, é um conjunto de grandes jogadores que está muito longe de ser uma equipe. E onde é que o Benfica vai buscar essa vantagem? Por um lado, o fato de haver Richard Rios e não Prestianni possibilitou um maior equilíbrio na zona do meio-campo, que tinha sido um dos problemas do Benfica na primeira volta. Depois, por outro lado, houve muito mais Rafa a explorar os espaços entre linhas do que tinha existido na Luz, e isso também foi algo que o Real Madrid não estava à espera. E depois, uma coisa bastante óbvia, que é jogar contra Asensio, é ir sempre à procura do ouro, ou seja, até sair com uma lesão, que até pode ter sido grave, claramente foi o pior elemento do Real Madrid. O que falhou em toda esta estratégia do Benfica? Por um lado, sofrer depois de marcar o primeiro gol, ou seja, não conseguiu manter a vantagem durante muito tempo. Não marcar quando o Real Madrid sofria, e esse também foi o problema, falhar em termos de finalização nos momentos-chave que poderiam ter virado o jogo. E depois, por fim, acabar por estender a passadeira aos dois maiores perigos. Por um lado, a capacidade técnica de Vinicius nos lances um para um e a explorar a profundidade e, por outro, Valverde, que quando consegue agarrar no jogo do Real Madrid, consegue fazer a diferença. Não é por acaso que o Benfica queria tanto que ele fosse castigado, justamente. Ele está nos dois gols, faz as duas assistências para gol e é claramente, nesta altura, um dos grandes pilares deste conjunto de bons jogadores que é o Real Madrid, longe de ser uma equipe. Ainda assim, aquilo que fica para mim, e que é o mais importante, muitas vezes isto é uma questão de percepção, porque o Benfica só tem mais 11 jogos até o final da temporada e estamos no final de fevereiro, porque são os 11 jogos até o campeonato. Já não tem Taça da Liga, não tem Taça de Portugal, agora ficou sem a Liga dos Campeões. Mas claramente existe uma percepção de um Benfica melhor, como se percebe também pelo próprio apoio dos adeptos, e um Benfica que José Mourinho teve a capacidade de rejuvenescer, mesmo não tendo os resultados esportivos que queria. E agora são 11 jogos para tentar subir o máximo possível em termos de campeonato.

Sendo que o Benfica está nesta altura na terceira posição, atrás de Sporting e Futebol Clube do Porto. Gabriel Alves, boa tarde também, bem-vindo. Sai o Benfica de cabeça erguida do Santiago Bernabéu.

Sim, completamente. Mas ficou por quase e o quase não vence jogos, não vence nada, foi quase. Estou completamente de acordo com tudo que o Bruno disse, acho que é uma análise perfeita.

Aí te que ser o contrário, Gabriel.

Pois. Sim, mas eu estou de acordo com o Bruno Roseiro. Aqui o pilar Valverde, de um conjunto, que ele diz e bem, longe de ser uma equipe, mas que o Valverde gostaria que fosse uma equipe, porque eu acompanho o Real a miuda das vezes e vejo que o Valverde é sempre o jogador que sai mais desgastado do campo e mesmo dentro da própria desavença, que aquilo não é uma equipe, é uma manta de retalhos. O Benfica acaba por ser derrotado em contra-ataque. Esta que é a verdade, são dois lances de contra-ataque. Há ali dois erros. O Vinicius andava sozinho, desaparecido, ele praticamente está sempre ali pro lado esquerdo e tal, vai aparecendo. E evidentemente que o Benfica se esqueceu um pouco dele, por exemplo, naquilo que foi o lance do segundo gol. E no primeiro também é um lance de contra-ataque. É evidente que o Vinicius é mano a mano, é um jogador, obviamente, que não deixa grandes hipóteses ao guarda-redes. Eu diria em 10, marca 9, se é pra não dizer que em 10, marca 10. E é evidente que o Real Madrid também tem os seus diversos jogadores, Tchouameni, o Arda Güler, o Valverde, são tudo futebolistas que estão treinados para aquilo que é o pontapé de meia distância. O futebol, o remate ou a entrada da área, ou já sobre a linha da área e o que foi o que fez o jogador francês na igualdade. De resto, acho que muito bem o Mourinho na primeira, digamos, perspectiva, a questão de fechar, por Rios do lado direito e fechar, matar ali Camavinga Passou a ser aquilo que se pode dizer um elemento a menos. Deixar aquela mobilidade do Pavlída entre aquilo que era interior direito e interior esquerdo, acabou por deixar o corredor para o Rafa, que apareceu muito mais dinâmico, muito melhor e rematador. Marca o gol, há uma grande defesa que é de Pavlída do Courtois, que evita também um gol, e depois há na segunda parte aquela bola que acaba por ser desviada in extremis e vai à barra. São três momentos grandes, mas o Benfica precisa de mais eficácia para aquilo que é o volume do seu jogo. E ficou aqui a sensação de que Mourinho acabou por levar longe demais. Talvez devesse ter feito alguma alteração, trazer criatividade e fantasia em determinado momento do jogo. Mais cedo. Acima de tudo, algo diferente, fantasia, algo diferente que pudesse ali criar alguma estabilidade que a equipa madrilena tinha, ou melhor, o conjunto madrileno. Só para dizer e para terminar, este Real Madrid é muito frágil, vale muito pouco. Passou aos oitavos de final, tem grandes perengones, está tudo muito feliz. Vai jogar com uma equipa maior, este Real Madrid não vai chegar longe. Não vai chegar, não.

Sim, aparentemente.

Na própria La Liga, etc.

Aparentemente, sob o ponto de vista defensivo, o Real Madrid parece que revelou ali algumas debilidades. Eu tenho a impressão que o Augusto Inácio, apesar dos seus 34 anos, se hoje jogasse no Real Madrid, seria um esteio naquela defesa merengue. É, de facto, o ponto mais fraco deste Real, Augusto. Boa tarde, bem-vindo.

Boa tarde a todos.

Que gritos ele daria.

Boa tarde a todos. Olha, deixa-me dizer que o Real Madrid, neste momento, vive do nome que tem, Real Madrid. Tem bons jogadores? Tem, mas o futebol e o jogo de futebol ganha-se com uma equipa, e o Real Madrid não tem essa equipa. Claramente que concordo com tudo que foi dito aqui pelo Bruno Roseira e pelo Gabriel Alves, como é evidente, mas queria acrescentar aqui também só mais uma coisinha a complementar e bem aquilo que foi explicado, que o Courtois também teve uma importância enorme no desenrolar do jogo, porque aquele remate do Richard Rios, que o Courtois faz aquela defesa mesmo em cima do risco da baliza, um camerão daqueles que vai lá ao chão e vai buscar aquela bola, garantiu claramente a possibilidade de o Real Madrid poder ser apurado. Eu acho que o Benfica passou ao lado de um grande momento histórico da sua vida, porque teve possibilidades de eliminar este grande Real Madrid de nome, porque Barnabéu não assustou nada a equipa de Benfica. O Mourinho, e já foi dito aqui também e bem, acho que aquele componente tático do Richard Rios, de dar mais consistência ao meio-campo, porque Rafa não dá essa consistência, era preciso mais um homem ali e Richard Rios deu uma dupla função, que era cobertura no meio-campo e também quando fosse possível, ir à frente e poder rematar, como rematou naquele lance que o Courtois fez aquela grande defesa. Por isso eu acho que o Asensio, eu olho para aquele jogador, enfim, dou as melhoras para que ele recupere bem, que não seja nada de grave, mas olho para aquele jogador e digo assim: eu, treinador desportivo das aves, não queria aquele jogador na minha equipa. Eu não o queria. Porque não é só um jogo, é que o Asensio é mesmo muito fraco. Muito fraco mesmo, ainda por cima joga numa grande equipa como o Real Madrid, mas isso é a minha opinião pessoal. Claramente que o Benfica entrou muito bem no jogo, 15 minutos extraordinários, fantásticos, e lá está a tal coisa. Num jogo deste nível, quando tu estás por cima, tens que marcar. Se não marcas, ou seja, o Benfica marcou, é verdade, mas também sofreu logo a seguir, quatro minutos depois, o gol do empate. Mas naquele melhor período, tu não podes desperdiçar aquelas oportunidades. Depois o Benfica quando quis lá ir, já foi com mais alguma dificuldade e o Real Madrid, como tem grandes jogadores, trocou a bola e explorou sempre pelas incursões do Vinicius Junior, que acabou por ser o homem-chave desta eliminatória.

Só falta ouvirmos o Pedro Henriques sobre este encontro. Pedro, eu vou pegar aqui nesta ideia expressa pelo Gabriel Alves, que talvez o José Mourinho tenha demorado demasiado tempo a fazer trocas, substituições, a dar alicerce de novo a esta partida. Há uma crítica que tenho lido recorrentemente nas redes sociais, a não inclusão de Sudakov. Que opinião tens? Mourinho devia, de facto, ter mexido mais cedo?

Sudakov e Lukebakio.

E Lukebakio. Pois.

Bom dia ou boa tarde. Em primeiro lugar, quero começar por uma questão, quer dizer que estou completamente de acordo com o Bruno, com o Gabriel e com o Inácio e ai de mim que não estivesse, porque eu tenho receio que algum deles se arme em Vinícius e vá ter com o árbitro, com o nosso diretor Pedro Castro, a fazer queixinhas. E eu não quero que nenhum de vocês seja Vinícius. Portanto, posto isto, não leves a mal, não te vou responder à questão e não leves mesmo a mal pelo seguinte: porque a eliminatória, este Benfica-Real Madrid, Real Madrid-Benfica, acabou a semana passada ao minuto 52. E portanto, não houve mais nada. A partir daí acabou. Tudo que vocês disseram está certo, técnico-tática, substituições mais tarde ou mais cedo, Courtois, Sudakov se calhar podia ter entrado mais cedo, tem toda a razão. Mas aquilo que me incomoda realmente são estas questões, que é a perceção, neste caso, todos nós estamos de acordo que racismo não pode entrar, não é no futebol, não pode entrar em lado nenhum, ponto final, parágrafo, mas a justiça é uma coisa muito importante. Eu vivi 27 anos na tropa e tive muitos processos de justiça, porque os oficiais eram nomeados para serem instrutores desses processos. E há uma coisa que nós percebemos na tropa, na sociedade, no nosso clube, onde quer que seja, é que a justiça não pode funcionar atuando em função da perceção e não punindo a realidade. Isto é, a perceção do racismo foi punido, porque até prova em contrário, foi isso que aconteceu, e a realidade do Valverde, que agrediu um jogador e que não podia estar neste jogo. A realidade do Vinícius, que tinha que ver claramente o segundo cartão amarelo e não viu E não estava neste jogo. A realidade do Carreras, de uma simulação do mais grosseiro que há, que devia ter visto cartão amarelo, que era o segundo em termos de competição e que não podia estar neste jogo, não aconteceu. E aquilo que nós vimos foi a realidade a não ser punida pela instância superior e a perceção a ser punida. Portanto, o jogo acabou ao minuto 52 da semana passada, porque de lá para cá tivemos os jornalistas. Com o que os jornalistas se preocuparam ontem? Os jornalistas espanhóis, sobretudo. Onde é que o Mourinho viu o jogo? O que o As lançou no jornal? O Mourinho é uma falta de respeito para com o Real Madrid. Tiveram seis funcionários à espera do Mourinho, em standby, que não saíram de lá. Isto, atenção, não estou a inventar. Não saíram de lá porque havia uma sala preparada para o Mourinho estar e ele não apareceu. Temos aquela criança em lágrimas ontem, após uma carga policial sobre adeptos, de um pai que eu compreendo que queria oferecer uma experiência única. Mas, pai, telefona-me que eu explico que no futebol, a não ser que queiras experiências radicais, mas há experiências menos violentas que ir ao futebol agora, infelizmente, e não pode acontecer isso. E tivemos esta história do Sidney Cabral, se pediu ou não pediu a camisola e os adeptos a pedirem a cabeça do Sidney, porque realmente, perante tudo aquilo que aconteceu com o Vinicius no foco, obviamente, se isso aconteceu, isso é verdade, não pode mesmo nunca acontecer um jogador do Benfica pedir a camisola. Portanto, isso leva-nos para o último ponto de reflexão, e agora extrai-se tudo, que é quando me dizem que os clubes em Portugal, e muitos por esse mundo fora, são profissionais, esqueçam lá isso. Ser profissional é outra coisa. Inclusivamente esta questão. O Presti não pode pôr uma coisa na rede social e a seguir tirar. Se tirou, é porque errou naquilo que pôs. E se colocou, é porque alguém não o ajudou a pensar antes de o fazer.

Sendo que ele escrevia basicamente aquilo que tu aqui estás a dizer, que é estranho que ele seja punido por algo que não se comprovou que fez.

Mas eu, como árbitro no ativo e a representar uma federação, nunca me ouviste dizer isto. Eu faço isso enquanto comentador completamente independente e em entidades completamente particulares, porque se eu, Pedro Henriques, estivesse a trabalhar na federação, na liga ou noutra instituição qualquer, obviamente que eu não iria estar a fazer, mesmo que o pensasse, porque isto também faz a diferença. A gente tem que saber qual é o contexto. E o jogador não o pode fazer enquanto funcionário, jogador do Benfica, mesmo que pense. Se houver alguém que tem que fazer, tem que ser a instituição Benfica por ele. E os jogadores nesse aspeto têm que ser protegidos, mas isso implica haver uma estrutura que pensa em todos os pormenores, inclusivamente este. Porque ser profissional não é ir ao treino duas horas. As pessoas têm que perceber isso de uma vez por todas. É muito mais do que isso. Pronto, termino com isto.

Temos que acelerar que tem aqui já o quarto árbitro a fazer sinal que estamos na reta final deste encontro. Pedro, começo por ti, quem é o teu campeão?

O meu campeão é, neste momento, obviamente que a Champions League é uma grande competição, esperemos que continue. Eu acho que este episódio em si, todo ele, merece uma nota claramente negativa, que se tirem boas lições daqui e agora é a esperança de que os clubes portugueses que ainda estão em competição europeia, Braga, Futebol Clube do Porto e Sporting, possam continuar a somar pontos, que são muito importantes e estamos num bom patamar, até para ter as tais três equipas na Champions League. A Champions League continua a ser uma grande competição, os clubes portugueses também, e por isso vou dar nota negativa ao episódio, mas nota positiva ao futebol, que tanto amo, mas espero que seja um futebol mais justo também.

O Sporting ainda está nesta competição nos oitavos de final da Liga dos Campeões. Augusto Inácio, o teu campeão.

O meu campeão vai 15 para a Atalanta, que perdeu na Alemanha 10 a 0 com o Borussia Dortmund e ontem ganhou por 4 a 1, num jogo extraordinário, fantástico, emocionante e que foi determinado no último segundo ou no último minuto do jogo que deu o apuramento para a Atalanta.

Com uma falha tremenda do guarda-redes do Dortmund.

Exatamente, mas há que contar com esta Atalanta, porque esta Atalanta está a ser o melhor rosto que a Itália tem neste momento em futebol.

Gabriel Alves, o teu campeão.

Só uma nota aqui. Valverde não foi expulso, duas assistências. Vinicius não foi expulso, um golo na segunda mão. Só para dar sequência àquilo que disse o Pedro, e bem. A minha nota é para o fim. A FIFA faz 10 anos agora em 2020, ou melhor, o senhor Infantino como presidente da FIFA, e que tomou a liderança sob o lema "Recolocar o futebol no centro de tudo o que a FIFA faz". Eu pergunto o que a FIFA vai fazer em relação ao árbitro francês François Letexier. É só o que eu pergunto. Nota 18 para o Scheldrup. Tem sido, de facto, um belo jogador de há um tempo a esta parte e ontem voltou a ser.

Sim, belo jogo de Scheldrup, o extremo do Benfica. Bruno Rosário, o teu campeão, para terminarmos.

Uma nota 15 para a Atalanta por uma outra razão. Ou seja, evitou que pela primeira vez este século a Itália não tivesse qualquer representante nos oitavos da Liga dos Campeões. Eu acho que isso é sintomático em relação ao momento do futebol italiano. Uma nota 17 para Courtois. É, de facto, para mim, nesta altura, o melhor guarda-redes da atualidade e a defesa que fez é novamente monstruosa. E uma nota 20, sobretudo pela questão da efeméride. Há cinco anos, todos nós percebemos o quanto Quintana era estimado no mundo do desporto. Cinco anos depois, conseguimos perceber que, de facto, há muita gente que continua a andar e bem no desporto, a tentar respeitar a memória de Quintana e hoje faz cinco anos que ele morreu e não deixa de ser alguém importante na história do desporto.

Uma bela homenagem do editor de desporto do Observador, Bruno Rosário, no fecho desta edição de "E o Campeão É".