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Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco Luís Testa, deputado do Partido Socialista, que tem liderado a bancada parlamentar na questão da habitação, numa semana em que se falou muito da crise da habitação. Bem-vindo a esta Vixi Suave.
Obrigado pelo convite.
Nós vamos falar sobre o tema da habitação, claro, mas falemos primeiro sobre o Orçamento do Estado, que foi aprovado esta quarta-feira na generalidade. Apesar da abstenção do Partido Socialista, José Luís Carneiro foi duramente criticado por vários elementos da AD. Consegue compreender a estratégia do governo? Estará a tentar provocar o Partido Socialista?
Antes de mais, obrigado pelo convite. Compreendo essa estratégia por parte dos elementos da AD, embora a classifique de um bocadinho vergonhosa, porque quem está numa posição como está o governo, numa condição de ter uma maioria relativa, de alguma forma tem que ter um comportamento, no mínimo, urbano perante os interlocutores de cada momento. E não foi isso que nós testemunhámos. Nós testemunhámos um ataque sem quartel, às vezes a roçar até um bocadinho o ataque à pessoa, ao homem. Houve deputados do PSD que fizeram qualificativos sobre o líder do Partido Socialista e parece-me, pelo menos, um comportamento pouco inteligente por parte do PSD e dos seus responsáveis.
Estará a tentar testar a paciência do Partido Socialista para provocar uma crise política?
Eu acho que há dois cenários possíveis. Um deles é de que o governo percebe que no fundo não tem jeito para isto e, portanto, antecipar um momento eleitoral será sempre uma melhor circunstância para se colocar perante os cidadãos. Ou seja, quanto mais isto for prolongado, mais negativa será a avaliação por parte dos portugueses. Outra possibilidade é a incompetência pura e dura. Ou seja, não têm perfil nem comportamento para estar num Estado de direito democrático, em que os partidos devem conversar sobre temas relevantes e profundos da atualidade, sobre questões estratégicas e sobre opções macro, no sentido de haver políticas que possam prosseguir para além do quadro de uma legislatura. Parece-me sinceramente que o governo se distancia todos os dias desse quadro mental que era útil ao país.
E perante esse diagnóstico que está a fazer, recupero uma discussão que existiu há um par de semanas, quando o porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, tentou comprometer o Partido Socialista com a viabilização do orçamento do próximo ano, sob o pretexto da revisão constitucional durar 24 meses ou algo do gênero. Atendendo à crispação que existe, ao diagnóstico que fez, ao comportamento que atribui à AD, acredita que é provável que o Partido Socialista faça outra abstenção exigente no próximo Orçamento do Estado?
Antes de mais, para nós percebermos uma coisa essencial: o Partido Socialista não tem um acordo com o PSD nem com o governo. O Partido Socialista enunciou quatro condições basilares relativamente aos quais, havendo resposta positiva por parte do governo, por parte do primeiro-ministro, nós concedíamos a possibilidade de aprovarmos na generalidade este orçamento. Ou seja, nós não nos comprometemos nem para este orçamento do ponto de vista do estabelecimento de um acordo, porque ele nem sequer foi proposto por parte do PSD nem por parte do governo, assim como não nos comprometemos para futuro. Ou seja, nós temos que ter a capacidade e autonomia estratégica para avaliar daqui a alguns meses se o quadro em que está o país exige, por um lado, ou a aprovação do orçamento ou o seu contrário. Ou seja, a nossa avaliação depende da necessidade do país e da utilidade da existência de um orçamento para os portugueses.
Deixe-me fazer a pergunta ao contrário. Antes de avançarmos, temos muitos temas para falar nesta entrevista. O grau de tolerância do Partido Socialista para com este comportamento do governo e das bancadas da AD não é seguramente infinito. Se a AD continuar a provocar e a tratar o líder do Partido Socialista, José Luís Carneiro, nestes termos, haverá um momento em que será suficiente para que o Partido Socialista não se queira mais comprometer com esses orçamentos.
Obviamente que todos nós temos um grau limite de paciência, não é? E portanto, isso existe para o Partido Socialista, como para todo e qualquer ser humano, mas aqui não se trata bem disso. Nós temos uma reação de estranheza relativamente a este comportamento, mas também ao mesmo tempo de compreensão. É por quem não tem nada para propor. Aliás, basta folhear o orçamento e as propostas programáticas do orçamento e percebe-se que o orçamento é um balancete da conta corrente do Estado.
Certo, mas se não fosse um balancete, o PS conseguiria abster-se. É porque essa também acabou por ser uma forma de conseguir a viabilização do documento.
Rita, vamos ser claros. É verdade que para a viabilização do orçamento do ponto de vista contabilístico, é mais fácil o orçamento ser um balancete, mas nós nunca dissemos que o orçamento deveria ser expurgado das questões estratégicas e de visão que Que devemos ter para o país, muitas delas em conjunto.
Mas no atual contexto político, concede que seria mais difícil o governo fazer passar um orçamento destes, neste quadro.
Certo, é verdade. Por uma razão simples, mas aí temos que recuar um bocadinho naquilo que é a enunciação da proposta política para o governo. O governo subsume toda a sua proposta política estratégica a questões que nós entendemos que têm colisão provocatória com marcas ideológicas que são insanáveis. Ou seja, nós achamos que o sistema de pensões em Portugal é um sistema equilibrado, que está bem capitalizado e que deve continuar com a sua gestão pública. Nós não podemos admitir que perante este cenário, o governo sequer alcance a possibilidade de o privatizar. Obviamente, se isso tivesse vertido no orçamento, isso seria uma marca vermelha para nós e nós não poderíamos viabilizar este orçamento.
Mas não é excesso. Se o orçamento fosse mais vincado ideologicamente...
Não, Rita, peço desculpa, mas nós podemos ter projetos com alcance de país que não têm propriamente uma marca ideológica que distinga o PS do PSD. Ou seja, por exemplo, o que é que nós queremos para a ferrovia? Que é uma questão que está em discussão, por maioria de razão, nos dias de hoje. Nós queremos subsumir a discussão da ferrovia em Portugal, única e exclusivamente à alta velocidade, ou nós queremos construir uma rede de transporte ferroviário para o país? Por exemplo, isso podia ter espelho orçamental. Não tem. Isso acho que é uma coisa que não distingue muito o PS do PSD. Ou seja, pode haver questões de balanço para um país.
Mas isso, se calhar, implicava uma negociação prévia.
Claro.
Era importante que isso acontecesse e o PS estaria disponível para isso.
Rita, nós nunca deixamos de estar dispostos para negociar questões concretas, umas que têm alcance do ponto de vista orçamental, outras não, e que fossem benéficas para o país. Nós firmamos relativamente, por exemplo, ao novo aeroporto de Lisboa, um acordo de princípios com o PSD, que está a ser rigorosamente cumprido por parte do Partido Socialista.
Deixe-me vir aqui também à questão de que o PS já sabe que vai apresentar um conjunto de propostas de alteração a este orçamento do Estado. Se a AD não acomodar nenhuma dessas propostas, o sentido de voto do Partido Socialista será o mesmo na votação final?
Ora bem. O mecanismo da especialidade é um mecanismo altamente complexo. Nós não estamos à espera que seja a AD ou só a AD a acomodar as nossas propostas. Nós temos a obrigação de apresentar propostas com base num princípio, que para nós é básico, e que já foi enunciado, que o saldo orçamental sairá da especialidade como entrou. Mas nós temos a obrigação de refletir também, na especialidade, aquilo que seriam alguns exemplos de alternativa de política orçamental que nós temos enquanto partido.
E que podem ser viabilizados por outra maioria, incluindo o Chega. Isto é um convite ao Chega?
Não, peço desculpa. E que podem ser viabilizados ou não, por outros partidos ou não. Isso é irrelevante. Agora, nós não desistimos da nossa obrigação, aliás, até do mandato que nos foi conferido, porque o mandato que nos é conferido não é só em termos de nós refletirmos sobre os documentos que nos são propostos pelo governo.
Mas o PS está a contar com as chamadas coligações negativas.
Não. É justo o contrário.
Que possam ter algumas das suas propostas de alteração viabilizadas por essa via.
É justo o contrário, Rita. Nós estamos a contar que perante a apresentação de algumas propostas que eu encontro muita utilidade do ponto de vista da sua aprovação, a AD também reflita sobre as mesmas e encontre espaço para as poder aprovar.
Mas isso pode também não acontecer. E a questão era se o PS mantém a abstenção na votação final.
Vamos lá ver.
Nesse cenário.
Nós, no final da especialidade, voltaremos a apreciar o orçamento no seu cômputo, mas há quatro pilares que para nós seriam essenciais.
São as condições do cara à partida.
Para o aprovarmos na especialidade. E se esses pilares não forem prejudicados na especialidade, três deles têm implicação orçamental. Um é mais lateral, mas há três deles que têm implicação orçamental. Ou seja, se esses três pilares não forem prejudicados na especialidade, eu não vejo que haja razão, ainda que haja propostas nossas que não sejam aprovadas, para nós desistirmos daquilo que é o nosso compromisso com o país.
Entre essas propostas de alteração, estará exatamente aquilo que foi chumbado, que é o IVA zero no cabaz alimentar dos produtos essenciais e a redução do IVA dos combustíveis? A ideia é ser exatamente a mesma coisa?
A formulação orçamental de propostas obedece a uma mecânica ligeiramente diferente e, portanto, nós estamos neste momento em fase de compilação daquilo que são as matrizes que nós apresentaremos como propostas, mas grosso modo, existe um compromisso relativamente a essas matérias do IVA do cabaz alimentar e dos impostos sobre os combustíveis, que são eles, para além do IVA, o imposto especial sobre produtos petrolíferos, que terá uma resposta na nossa proposta, que enunciará Grosso modo, aquilo que foi defendido pelo Partido Socialista.
O PS tem dito que o orçamento sairá como entrou, em termos de saldo orçamental. Como é que pode garantir isso? Já assumiram que terão medidas compensatórias, mas como é que garantem que essas medidas compensatórias serão também viabilizadas se forem viabilizadas propostas que prejudiquem as contas públicas?
Lá está. Volto a dizer, é muito difícil nós estarmos aqui a analisar medida a medida, porque nós quando mexemos numa medida do ponto de vista da alteração do orçamento na especialidade, podemos com a sua aprovação estar a implicar noutra medida de sinal contrário. Ou seja, se apresentamos uma medida de aumento de despesa, podemos estar ao mesmo tempo a implicar uma medida de diminuição de receita ou de aumento de receita.
Mas repare um exemplo muito simples: IVA zero no cabaz alimentar. É aprovado com, por exemplo, o apoio do Chega, que também tem propostas no mesmo sentido, ou pelo menos teve em setembro passado. Mas depois há uma proposta para compensar essa perda de receita que o PS aprova, mas o Chega aí já não acompanha. Como é que isso se gera? Como é que o PS garante?
Rita, pode não haver essa proposta por uma razão muito simples: porque a projeção que nós temos do aumento da receita do IVA, nomeadamente, pode albergar que haja uma diminuição da receita, em particular no cabaz alimentar. Ou seja, no momento em que nós vivemos, em que a inflação está num percurso muito assinalável, existe sempre, automaticamente, um aumento também ao nível da receita do IVA. E esse aumento da receita do IVA está qualificado, do ponto de vista orçamental, como extraordinário e temporário, e, portanto, é exatamente essa analogia que nós queremos para a diminuição do IVA dos bens alimentares essenciais. Ou seja, nós não apresentamos uma proposta para reduzir o IVA do cabaz alimentar para todo o exercício do ano 2027. Não.
É temporário. Mas tem um impacto.
Pois tem.
Está a dizer que vai contar com receita extraordinária que ainda não sabe se irá existir.
E esse impacto pode ser muito semelhante ao impacto positivo nas contas do Estado, que é acrescentado pelo aumento da receita fiscal, muito por via também da inflação. Ou seja, aquilo que nós enunciamos é que a receita extraordinária que provém do momento de crise que o país atravessa deve ser devolvida aos portugueses sob determinadas formas, nomeadamente sobre a questão da redução do IVA do cabaz alimentar.
Luís Testa, uma última questão antes de passarmos para a questão da habitação. Pode garantir, em nome do Partido Socialista, que a 29 de outubro, às 12h17, o Partido Socialista vai mesmo abster-se no Orçamento do Estado?
Nem eu nem o Miguel conhecemos o percurso que medeia o dia de hoje com o dia 29 de outubro.
Portanto, não está assegurada a viabilização do orçamento.
Nunca está, porque nós não conhecemos o percurso. E portanto, aquilo que lhe posso dizer é que se estiverem garantidos os princípios revelados pelo Partido Socialista relativamente à aprovação na generalidade, quando chegarmos à aprovação final global, também não será uma questão.
O debate sobre a crise da habitação marcou as últimas semanas, com os partidos mais à direita a criticar a incapacidade do PS em fazer um mea-culpa. Consegue dizer-nos que o PS cometeu erros na política de habitação?
Ora bem, antes de mais, o problema da habitação não é um problema novo, nem sequer é um problema que se iniciou nos últimos governos do Partido Socialista. Já era um problema que vinha sendo sentido por muita gente e sobretudo pelos mais jovens. O problema da habitação hoje assume uma outra relevância em virtude de nós sentirmos na sociedade que o custo de vida está muito acima da média razoável do país. E portanto, a partir do momento em que viver custa tão caro, a habitação também, por si só, fica mais em evidência como um custo muito elevado. E é por isso que nós, a partir do início do último ano, passámos a perceber que era absolutamente necessário fazer qualquer coisa.
Até enquanto o custo de vida não aumentou, o PS não se apercebeu que estava o problema.
Não, claro que percebeu. E é por isso que nós, atenção, nós apercebemo-nos durante os nossos governos que era um problema. E foi por isso que foi lançado, durante o governo do Partido Socialista, o maior programa de habitação pública desde o 25 de Abril. E portanto, nós não temos pejo nenhum em dizer que Que as respostas podem ter sido insuficientes face àquilo que se vive hoje, mas nós sentimos desde logo que era necessário fazer alguma coisa. Foi por isso que desde logo foram mobilizados 281 municípios para construir cartas locais de habitação e estratégias locais de habitação, que foram vertidas num programa nacional que resultou no financiamento do PRR, naquilo que é, do ponto de vista da construção de habitação pública, o maior impacto de sempre. A questão não é essa. A questão é que nós precisamos de construir habitação e muito mais habitação e ao mesmo tempo termos mecanismos legais que, com aquilo que temos hoje em dia, permitam que o mercado funcione do ponto de vista da transmissão de confiança a quem é proprietário de imóveis e ao mesmo tempo-
Deixou cair uma dessas questões da confiança, que é uma das propostas do PS para o arrendamento, numa das cartas enviadas por José Luís Carneiro, ou na carta aberta de José Luís Carneiro, sobre a garantia pública de segurança, é proposto que o senhorio receba as rendas em atraso, que cobre os danos na habitação através de um mecanismo gerido pelo IHRU. Acredita que envolver o Estado neste processo vai dar mais confiança aos proprietários? Sobretudo com as queixas que existem sobre o IHRU, com a inação e a incapacidade de resposta.
Nós temos que separar aqui duas questões. Porque uma coisa é o IHRU, e podemos falar sobre o IHRU, sobre este IHRU, que tem como espelho essencial o seu presidente, e outra é a proposta do Partido Socialista. O Partido Socialista, aquilo que enuncia, é que nós devemos ter relativamente ao mercado de arrendamento, pelo menos a mesma perspectiva que o governo teve relativamente ao mercado da transação. Porque se o governo assume que o Estado pode participar enquanto garante público na transação, nós não conseguimos perceber por que o Estado não pode participar como garante público no mercado de arrendamento. E eu chamo a atenção para esta questão. Porque nós percebemos que o essencial desta alteração que o PSD quer fazer e o governo quer fazer, afasta muita gente do mercado de arrendamento. Porque se for pedir a um conjunto muito assinalável de pessoas que antes de assinarem o contrato têm que dispor de X rendas antecipadas e uma caução ilimitada, há muita gente que não tem condições, mesmo muita gente que não tem condições para prestar antecipadamente.
Mas isso pode ser um ponto alterado na especialidade sem a necessidade de mandar o diploma abaixo.
Sim, mas a questão é a seguinte: então e o que é que fica do diploma? É porque o diploma do governo é mesmo só isto. É que nós parece que estamos a falar de um conjunto muito alargado de propostas muito vastas que vão alterar o mercado de arrendamento. Não. Aquilo que está em causa, essencialmente, são as questões, desde logo que o Chega subscreveu e agora diz que quer que sejam alteradas. E, portanto, nós não compreendemos por que o Chega subscreveu aquelas propostas.
O Chega subscreveu na condição de serem alteradas.
Mas alteradas para quê?
Isso é uma coisa que está por esclarecer.
A questão é a seguinte: se nós dissermos que a proposta do governo fica, mas são reduzidas as rendas antecipadas para termos um contrato de arrendamento. Eliminamos um dos pontos, porque aquilo que nós já temos é a necessidade de haver rendas antecipadas, é com um limite e um alcance diferente. Então eliminamos a caução sem limite que o governo propõe. Mas isso é o que já está, é que há a possibilidade de haver uma caução, mas há um limite para a caução. Bem, então eliminamos a possibilidade de não haver limite ao montante que na renovação do contrato é aumentado o contrato de arrendamento. Mas isso é o que já está. Ou seja, as alterações sobre as quais o Chega quer fazer a sua própria alteração é retornar àquilo que o governo diz: "bem, mas isso é o que já está". Eu agora gostava de também voltar um bocadinho atrás, porque a lei que está em vigor, como diz o governo, não é a lei do Partido Socialista. A lei que está em vigor é a chamada Lei Cristas, que foi posteriormente alterada pelos governos do Partido Socialista e que entretanto já sofreu alterações por parte deste governo. E é uma coisa que eu revelo aqui. Todas as alterações que foram feitas por parte deste governo resultaram em mais aumentos no mercado da habitação e, portanto, eu não percebo como é que não é compreensível que no mercado brutalmente superaquecido, não é também admitido por parte do governo, cada vez que mexe do ponto de vista legislativo para apoiar mais a procura, está a superaquecer ainda mais o mercado que já está aquecido.
O PS contesta também o valor de 2.300 € definidos pelo governo para a renda moderada. Qual é que é o teto que defendem?
Não é o PS que contesta. Eu acho que ninguém que admita com razoabilidade uma renda moderada encontra no valor de 2.300 um valor aceitável. Porque 2.300 € é o valor Com que a maioria esmagadora dos encargos familiares não vive.
É praticamente o dobro do salário médio que se pratica em Portugal.
Não vive nos dias de hoje. E a mim parece-me que nós admitimos que o valor de uma renda moderada tem que ser compaginável também com o valor do salário médio. Isto nos termos da atribuição do apoio, porque aquilo que está a acontecer é que a admissão simbólica deste valor como renda moderada, aquilo que fez foi empurrar todos os preços do mercado habitacional para o valor dos 2300 €. Basta consultar os sites da especialidade. É possível fazer o tracking de há uns meses atrás, de há um ano atrás, e percebermos que imóveis que tinham um valor de 1800, 1600 €, rapidamente começaram a bater na renda dos 2300. Aliás, nos sites da especialidade é interessante perceber a quantidade de imóveis que têm como renda, à partida, os 2300 €. Deve ser o número mágico que existe nesses sites, que é aquele pelo qual todos os proprietários metem o seu imóvel à renda.
Deixe-me pintar também sobre um ponto que ainda agora referiu, que é o facto de o PS contestar o facto de a futura lei não prever o limite ao aumento da renda quando é celebrado um novo contrato. Qual é que é o limite defendido pelo PS?
Nós temos uma premissa de que esse limite deve ser, desde logo, compaginado com a projeção da inflação. E também há uma coisa que deve ser admitida relativamente à enunciação desta regra, até para futuro, não é para passado, uma vez que se pretende alterar a legislação, que é compaginar isso com a projeção dos períodos de renovação. Aquilo que me parece é que o aumento da renda entre períodos contratuais deve ser compaginado com uma equação em que admita, por um lado, o valor projetado da inflação e o período médio que resulta da renovação dos contratos.
Ia perguntar sobre parte das medidas que o governo tem adotado para a habitação e pelas quais reclama melhores resultados, que é as isenções para jovens do IMT, do imposto de selo, garantia jovem 100%. O PS acusa o governo ter sobreaquecido o mercado com estas políticas de incentivo. Isto quer dizer que o PS, se estivesse no poder, revogava estas medidas?
O PS, se estivesse no governo, não teria apresentado estas medidas sem perceber que não existem mais casas no mercado.
Certo, se há mais oferta, mas agora que elas estão tomadas.
Não, é que isto é mesmo muito importante, porque aquilo que nós colocámos nas mãos dos portugueses que utilizaram essa ferramenta, foi a disponibilidade de ir disputar em regime de concorrência aberta as mesmas casas existentes no mercado. E já agora, eu gostava de enunciar aqui uma questão muito importante: a garantia pública dada a 100% para a obtenção do financiamento para comprar uma casa ultrapassa um dos vetores. Isto é mesmo quem não conhece o mercado. Ultrapassa um dos vetores, que é o vetor de não ser considerada a sua, ou a minha, ou a nossa taxa de esforço para o cumprimento da obrigação prestacional ao banco. Mas ela continua a existir, ou seja, nós mês a mês vamos continuar a ser-
Vai haver jovens gravemente endividados por causa desta tecnologia.
Espero que não, mas há um vetor que essa alteração legal não ultrapassa. E sabe qual é? É o da avaliação dos imóveis. Eu não sei se já contrataram um empréstimo à habitação. Quando nós propomos, abrimos o dossiê no banco e chamamos o avaliador. O avaliador chega lá à nossa casa, bem, o proprietário deste imóvel está a lhe pedir 250 mil €, mas de acordo com a nossa avaliação, ele só vale 160 mil. E nós até podemos, de acordo com a garantia pública, emprestar a totalidade, mas nós não vamos para além da nossa avaliação. E isto é também a denúncia daquilo que é a proposta do governo. É só meia proposta.
Mas esta lógica seria aplicável se a medida ainda não estivesse em vigor. O que nós estamos a perguntar é: agora que está em vigor e que já há muitos jovens que beneficiaram disto, mesmo com efeitos negativos para o mercado, haverá muitos jovens satisfeitos por terem conseguido comprar casa, a minha questão é se revoga.
Aquilo que me está a dizer é que revogar para futuro, atenção, porque às vezes as coisas são mal interpretadas e mal lidas. Aquilo para futuro, eu acho que o Estado tem melhores soluções para promover quer a aquisição, quer-
Poderia substituir por outras medidas.
Por outras medidas. Quer a aquisição, quer no mercado de arrendamento e portanto encontraria melhor utilidade para esse esforço financeiro do Estado, que verdadeiramente neste momento não é nenhum. Porque aquilo que o Estado está a dizer à banca é que se constitui como garante e que só atuará do ponto de vista econômico-financeiro se algum dia houver incumprimentos. E portanto, existe Para se colocar como garante, existe melhor solução para o Estado e para o mercado existem melhores alternativas.
Só para lhe perguntar se quando saiu do primeiro dia de debate do orçamento, também passou como alguns deputados do PS nas manifestações à frente da Assembleia da República.
Sim. Repare, sim e por várias razões. Há muita gente que estava naquelas manifestações que pensa como eu. E há muita gente que não pensa como eu, mas a minha função enquanto eleito não é estar única e exclusivamente junto das pessoas que pensam como eu.
Falando de uma pessoa que não pensa exatamente como o Luís Testa, esta manhã Francisca Assis criticou aqui no Observador os deputados do partido que se foram, e cito: "Misturar com os manifestantes" e que, cito mais uma vez: "Isso são práticas de outro tempo e não do PS." O PS corre o risco de dar uma imagem de radicalização?
Antes pelo contrário.
Portanto, Francisca Assis está-
Francisca Assis está errado. Está claramente errado. O Partido Socialista sempre esteve muitas vezes ao lado dos manifestantes. E há uma coisa que eu quero dizer ao Francisca Assis: naquela manifestação em concreto, em frente à Assembleia da República, havia muitas pessoas como o Francisca Assis. Porventura com menos capacidade para comprar casa, mas havia muitas pessoas como o Francisca Assis.
Uma última questão antes de avançarmos para o segundo segmento do nosso programa. Pedro Nuno Santos foi um dos deputados do Partido Socialista que esteve em frente à Assembleia a manifestar-se ou junto dos manifestantes. É conhecido o posicionamento mais próximo da esquerda de Pedro Nuno Santos. Tem sido muito vocal na última parte de semanas. Teme que Pedro Nuno Santos possa sair do Partido Socialista e formar um partido mais à esquerda?
Se temo? Eu conheço o Pedro Nuno Santos há mais de 30 anos. O Pedro Nuno Santos é do Partido Socialista e não temo isso. E acho que o Pedro Nuno Santos, como tantos camaradas meus, ainda tem um grande contributo a prestar ao PS.
Luís Testa, antes mesmo de avançarmos para o segundo segmento do nosso programa, uma última questão. O presidente do Partido Socialista, Carlos César, defendeu que o partido deve avançar para uma solução de bloco central caso o Chega fique em primeiro em futuras eleições. Concorda?
O Chega não vai ficar em primeiro nas próximas eleições.
Portanto, não admite sequer essa possibilidade.
Conheço bem os portugueses e acho que aquilo que acontecerá nas próximas eleições legislativas será uma vitória do Partido Socialista. Admito que sem maioria absoluta e, portanto, haverá outros partidos que têm que manifestar o seu posicionamento face à vitória do Partido Socialista e dizer aquilo que pretendem para o futuro do país.
Muito bem. Vamos então avançar com o segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. Só pode escolher uma de duas opções. Vem aí a trilha . Esta é só a primeira ainda .
Uma pausa para Luís Testa esfregar os olhos e franzir-se todo.
É preciso os ouvintes verem a hesitação do Luís Testa.
Não seria assim tão mau Pedro Nuno Santos a liderar uma maioria absoluta do Partido Socialista?
Não é que a minha dúvida não é essa, é se eu gostaria de ser ministro .
Vamos aceitar essa resposta para não dar mais problemas ao Luís Testa .
Quem preferia ter ao seu lado como presidente da República na próxima edição das festas do povo de Campo Maior, que se demorarem tanto como as últimas, já ultrapassam o atual mandato. André Ventura ou Paulo Portas?
Paulo Portas.
Ao lado de quem é que gostaria de assistir a um jogo entre o Clube Desportivo Portalegrense e o Benfica? José Luís Carneiro ou Duarte Cordeiro?
Com o José Luís Carneiro, por uma razão simples: porque ele é do Benfica como eu , mas eu nesse jogo em particular ia torcer pelo Portalegrense.
E o professor tinha precisado de alguém para ficar com o Luís.
Exatamente . E o Duarte Cordeiro é do Sporting.
Aqui demos uma saída fácil. Quem é que convidava para degustar umas boas migas? Luís Montenegro ou Pedro Passos Coelho?
O Pedro Passos Coelho, não vejo no Luís Montenegro capacidade para degustar migas, principalmente por causa do unto. É preciso ter capacidade para deglutir o unto da carne de porco frita.
Muito bem, Luís Testa, como é habitual no nosso programa, o convidado serve a sobremesa, no caso, uma música. Que música é que nos traz e por quê?
"Wish You Were Here" dos Pink Floyd é uma música que me tem acompanhado ao longo da minha vida, tem significados múltiplos. Eu ontem pensei que podia sugerir o "People Have the Power" da Patti Smith, mas disseram-me que era uma música estranhamente utilizada pela direita em Lisboa e que não consigo compreender. E, portanto, para me distanciar desse equívoco, "Wish You Were Here" dos Pink Floyd, que é uma música fantástica do ponto de vista do poema, da melodia e da interpretação. Eu acho que é uma música obrigatória para qualquer pessoa da minha idade.
Luís Testa, muito obrigado por ter vindo a esta "Vixi Suas". Os nossos ouvintes já sabem, podem ler esta entrevista na íntegra no site do Observador. Até à próxima.
So, so you think you can tell. Heaven from hell. Blue skies from pain. Can you tell a green field. From a cold steel rail? A smile from a veil? Do you think you can tell? Did they get you to trade. Your heroes for ghosts? Hot ashes for trees? Hot air for a cool breeze? Cold comfort for change? Did you exchange. A walk-on part in the war. For a lead role in a cage? How I wish, how I wish you were here. We're just two lost souls swimming in a fishbowl. Year after year. Running over the same old ground. And have we found the same old fears? Wish you were here.