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Depois de uma tarde em que Cristiano Ronaldo não treinou com a Seleção Nacional, agora, há minutos, foi divulgado um comunicado pelo próprio jogador nas redes sociais. Cristiano Ronaldo comunica nas redes sociais que após a conferência de imprensa do selecionador nacional e no seguimento de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomou a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional. Esta frase é escrita por Cristiano Ronaldo nas redes sociais e é disto que vamos falar na Rádio Observador ao longo dos próximos minutos. Abrimos aqui uma emissão especial para analisar este caso envolvendo a Federação Portuguesa de Futebol, o capitão da Seleção Nacional e também essa conferência de imprensa de Jorge Jesus que, de acordo com Cristiano Ronaldo, foi também um dos motivos para este abandono do estágio da Seleção Nacional que decorre na Dinamarca, em Copenhaga. Cristiano acrescenta nesta publicação, divulgada há minutos: "A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei." Acrescenta ainda, CR7: "Agora é tempo de desejar boa sorte a Portugal e a todos os meus companheiros de equipa, sem exceção." Na Rádio Observador, vamos analisar estas palavras de Cristiano Ronaldo e também o futuro da Seleção Nacional, desta equipa portuguesa. Conosco temos já Gabriel Alves, Augusto Inácio, Filipe Coelho e João Pinto, comentadores da Rádio Observador. Eu vou começar pelo Gabriel Alves. Gabriel, acompanhas futebol há muito tempo. A Federação Portuguesa de Futebol, a Seleção Nacional, já teve imensos casos, uns mais mediáticos que outros, outros mais problemáticos que outros, mas aqui estamos a falar de Cristiano Ronaldo. Estamos, tudo indica, a falar do final de ciclo do maior jogador de sempre da Seleção Nacional.

Boa noite. Atenção que ele diz que no seguimento de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional. Ele não disse abandonei a Seleção Nacional, deixei o estágio da Seleção Nacional. E acrescenta, como tu já disseste, Miguel: "A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei." Portanto, é preciso ter aqui bem a medida das palavras, porque isto é um comunicado de rede social, mas com palavras muito pensadas, muito pesadas e obviamente feitas dentro daquilo que é um determinado sentido. Resta saber o que é que vem a seguir. Eu há pouco, na minha intervenção das 19h, disse e mantenho e reafirmo que Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tem que vir dizer o que se passa. Porque, na verdade, aquilo que Cristiano diz aqui é que está em desacordo com aquilo que foi dito por Jorge Jesus no decorrer da sua conferência de imprensa durante a tarde. Portanto, não há uma conjugação de factos, digamos, em termos das palavras daquilo que o treinador já disse e aquilo que o Ronaldo fez, prometendo para, a seguir, contar a verdadeira verdade. Bom, na verdade, tudo isto temos que ouvir de um lado, temos que ouvir do outro, mas é importante que haja o presidente da instituição, naturalmente, a surgir com tudo aquilo que envolve todo este processo. Porque a verdade é esta: Cristiano Ronaldo não é uma figura qualquer do futebol português, ao nível daquilo que é o futebol global, aquilo que é o futebol planetário. Pondo de parte aquilo que é a sua qualidade neste momento, melhor ou pior, de rendimento, mais rendimento, menos rendimento, vamos por esse lado. Há uma coisa que é um facto: Cristiano Ronaldo é uma figura do futebol mundial, é um embaixador de Portugal à partida, à base do futebol. E o futebol tem muita força em termos planetários, cada vez mais. Portanto, Proença tem que vir a terreiro, porque há muita coisa aqui a envolver. A parte desportiva, a parte comercial, a parte negocial de muita coisa que a Federação tem dos seus processos. A UEFA, a FIFA. Ronaldo é uma figura da UEFA e da FIFA, está tudo de olhos postos e da comunicação social ao nível do globo, porque tudo o que é jornais hoje, tudo já fala disto. Portanto, já disparou. Daí que é importante aquilo que vai acontecer nas próximas horas. Eu acho que o Ronaldo fez aquilo que eu pensei que iria fazer. Ele não vai falar nada. Ele agora vai ficar à espera que haja quem fale.

Mas os atos estão a falar por Cristiano Ronaldo. E eu acho que é importante recapitular toda esta situação. Portugal jogou com a Noruega no passado domingo. Cristiano Ronaldo não foi titular. Antes do jogo, Jorge Jesus disse que Cristiano Ronaldo iria muito provavelmente jogar os últimos 30 minutos. Não jogou. Esteve a aquecer, não jogou e saiu do relvado sem agradecer aos adeptos No final do jogo, Jorge Jesus, confrontado com essa situação, disse que iria falar com Cristiano Ronaldo, confirmou que tinha dito ao próprio jogador que iria jogar 30 minutos, mas que acabou por mudar de ideias porque o jogo acabou por dar outras coisas e acabou por não se justificar a entrada de Cristiano Ronaldo. Depois disso, Cristiano Ronaldo não treinou no dia seguinte ao jogo, não treinou ontem e hoje Jorge Jesus falou. Na conferência de imprensa, naturalmente muito focada sobre este assunto, em que Cristiano Ronaldo ontem já tinha abandonado o estádio onde se realizou o treino e seguiu para o hotel, naturalmente a conferência de imprensa de hoje foi muito concentrada sobre este assunto. E aí Jorge Jesus quis, de certa forma, limpar a imagem de problema, aliás, afastou de todo a existência de um problema, disse que não existia caso e garantiu o seguinte.

E o Cris fez trabalho de ginásio, fez um pouco mobilização no campo e depois foi fazer um trabalho de reforço pro hotel. Portanto, foi isso. Não recusou, como hoje vai treinar, se vocês forem ver ele hoje vai treinar. Hoje, porque hoje é o quarto dia, portanto, vai treinar.

Aos jornalistas, Jesus disse: "Se forem ver, Ronaldo vai treinar". Os jornalistas foram ver, como podem ver os primeiros 15 minutos de todos os treinos da seleção, e aí não viram Cristiano Ronaldo. Viram, sim, Jorge Jesus ser informado de que Cristiano Ronaldo não estava já no estádio e que tinha abandonado o estádio rumo ao hotel. Entretanto, muita especulação nestas horas e aí surgiu este comunicado de Cristiano Ronaldo. Augusto Inácio, tu foste jogador da seleção nacional. Na tua carreira no mundo do desporto, foste depois também treinador e dirigente. Conheces todos estes papéis dentro das estruturas dos clubes de futebol, sendo que aqui estamos a falar de uma federação. Há naturalmente aqui um problema e há muitas pontas soltas e muita coisa por explicar neste caso, que culmina com esta saída de Cristiano Ronaldo do estágio.

Boa noite a todos. É verdade. Eu acho que só ouvimos uma parte, que foi a do Jorge Jesus a explicar as coisas. Falta a parte também do Cristiano Ronaldo, que hoje já deu um amirezinho a dizer que vai contar toda a verdade, e falta a parte do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, que também teve uma reunião com o Jorge Jesus e com o Cristiano Ronaldo. Por isso, eu acho que a pior coisa que pode acontecer a um jogador é quando o treinador fala com esse jogador e depois não se cumpre a palavra. O que é que está nas palavras de Jorge Jesus para o Cristiano Ronaldo? E aqui há uma diferença muito grande entre aquilo que foi dito do plano que jogue os jogos em casa, País de Gales e Noruega, no Dragão, no próximo domingo, e dos jogos fora, não jogas. Mas entretanto, houve qualquer coisa no meio do caminho que disse Jorge Jesus a Cristiano Ronaldo: "Eu vou precisar de ti, se calhar, para os últimos 30 minutos." Uma coisa é dizer assim: "Vamos ver o que é que o jogo vai dar, se precisar de ti, eu digo para uns 20, 30 minutos", e a resposta do Cristiano Ronaldo: "Mister, conte comigo para aquilo que quiser", que foi aquilo que o Cristiano Ronaldo tinha dito quando foi na conferência de imprensa entre o Jorge Jesus e o Cristiano Ronaldo, em que as coisas estavam num ambiente de grande casamento. Diria que depois disso tudo, uma coisa é dizeres isso, outra coisa é prometeres e depois não jogares. O jogador que está a ouvir aquilo e os próprios colegas do jogador: "Espera aí, este tipo está a dizer uma coisa, mas ele afinal pode cumprir ou pode não cumprir". Se foi como o Jorge Jesus disse, o Jorge Jesus então tem razão, porque disse: "Se eu precisar de ti, 25 ou 30 minutos, vou ver o que é que o jogo vai dar e depois eu decido". E se o jogador disse: "Ok, mister, pode contar comigo", tudo OK, aí não há problema nenhum. Só que isto é a versão do Jorge Jesus. A versão do Cristiano Ronaldo, que me parecia, depois de Jorge Jesus ter dito na conferência de imprensa de hoje, que ontem à noite, depois do jantar, já tinha falado com ele. Depois da reunião hoje de manhã com o Pedro Proença, que as coisas estavam completamente sanadas, tal e qual como foi a conferência de imprensa do Rúben Dias e do Jorge Jesus. Após a conferência de imprensa de Jorge Jesus, o Cristiano Ronaldo ter tomado essa posição drástica, diria eu, é porque houve qualquer coisa que o Cristiano Ronaldo não estava de acordo e decidiu abandonar o estágio da seleção. Como disse o Gabriel Alves, e bem, abandonou o estágio da seleção. Só que eu, é uma ideia meramente pessoal e uma opinião meramente pessoal, eu acho que já não há retorno possível do Cristiano Ronaldo voltar à seleção nacional.

Estás a dizer que depois deste incidente, não vamos voltar a ver Cristiano Ronaldo com a camisola da seleção?

Na minha opinião, não. Mas isto no futebol, tu sabes que tudo pode acontecer. Mas atenção, o Cristiano Ronaldo, na minha opinião, não tem já essas condições para poder voltar depois da decisão dele. Mas também vamos ver a posição do Jorge Jesus. Calma aí, o Jorge Jesus está ok, está em alta, ganhou dois jogos.

E a posição de Pedro Proença?

E a posição de Pedro Proença em relação a tudo isto que está a passar. Há uma coisa aqui que falta ainda esclarecer. Até 2030, e já no consulado do doutor Fernando Gomes, estes patrocínios foram todos assinados até 2030 com Cristiano Ronaldo. Se o Cristiano Ronaldo sair mesmo da seleção nacional Como é que esses patrocínios vão estar dentro daquilo até 2030? Vamos ver.

Desculpe, isso é uma coisa que existe neste momento? Nós podemos estar a falar disso como uma realidade? Há acordos de que Cristiano Ronaldo vai ser jogador da seleção nacional até 2030?

Não. Tem a ver com a imagem e com aquilo que o Cristiano Ronaldo empresta à seleção. Eu não estava a ver o Cristiano Ronaldo a jogar, se calhar, no Europeu de 2027. Mas eu estou a dizer que os patrocínios foram feitos com a imagem do Cristiano Ronaldo.

Mas isso nada está relacionado com a prestação ou a existência sequer de Cristiano Ronaldo dentro da equipe.

Sim, mas imagina tu que o Cristiano Ronaldo agora diz que nunca mais vai voltar à seleção nacional.

Compreendo.

Aí vamos ver como é que estão feitos. Não sei como é que estão feitos os contratos. Eu só estou a colocar a hipótese de, não estou a dizer que é, nem que não deixa de ser. A hipótese de, porque a marca Cristiano Ronaldo, atenção, se ele sair mesmo da seleção nacional, as receitas de patrocínio para a seleção nacional baixam para mais 50%. É só para terem uma ideia.

Eu estou de acordo com o Inácio, porque o problema não é ele estar a jogar ou deixar de jogar. É a imagem. É ele ser o embaixador. Ele pode dizer: "Eu não quero ser embaixador da seleção de Portugal".

Exatamente.

João Pinto, já vamos dar seguimento a esta questão da imagem e dos patrocínios, e por que razão será isso importante sequer para o plantel em si, para aquilo que são as competições em que a seleção portuguesa está envolvida. Olhando para o dia de hoje ou para esta semana, para estes últimos dias, como é que avalias este desfecho nesta vida de Cristiano Ronaldo na seleção nacional?

Olá, boa noite a todos. Eu vejo como algo extraordinariamente previsível, fácil de entender e numa tendência muito acentuada. Portanto, percebemos o que era Cristiano Ronaldo com Carlos Queiroz, o que era Cristiano Ronaldo com Fernando Santos, o que era Cristiano Ronaldo com Roberto Martínez. Aqui já dá para traçar uma linha de uma certa tendência. Quando as coisas lhe correm bem, está tudo bem, quando correm mal, está tudo mal. E a corda tem sempre partido para o lado dos selecionadores. E depois observamos uma outra linha ainda mais tendenciosa, ainda mais difícil de contrariar, que é a linha do tempo. Quando Cristiano Ronaldo faz 37 anos, a gente questiona, quando faz 41, aí já é normal e a caminho dos 42, mais normal será. Aqui a dificuldade toda está em arranjar uma boa maneira de dar más notícias. Não existe uma boa maneira de dar más notícias. Alguém foi avisando Cristiano Ronaldo que o relógio não parava, alguém o foi avisando que ele deveria sair pelo seu próprio pé. Cristiano Ronaldo sempre olhou para o espelho e viu o melhor do mundo, porque estava lá o melhor do mundo. Portanto, aquilo que estamos a fazer hoje, se calhar, devíamos era festejar. Estamos a assistir ao nascimento de uma lenda, uma lenda que hoje sai dos relvados, passa só para as cadernetas e para os memoriais. E se calhar, com isto da inteligência artificial acabar com todos, daqui a 10 anos já não vai haver tempo para ninguém o passar. Portanto, salve ao Cristiano Ronaldo, um grande abraço, muito obrigado e que pena que tenho que ele não possa sair com uma festa digna do nome que tem, porque assim não é bonito. Mas o Cristiano Ronaldo também tem uma cota parte de culpa na maneira como isto tudo aconteceu, porque a festa podia ter sido preparada há mais tempo, as coisas podiam ter sido feitas de outra maneira, como alguém disse, como por exemplo, com o Lionel Messi aconteceu. Também podia ter acontecido assim com o Cristiano. Não foi o caminho, protelou-se as coisas, se calhar também um bocado por causa desses interesses comerciais que estavam a dizer há pouco o Augusto e o Gabriel. Portanto, agora resta encolher os ombros e dizer que foi à portuguesa.

Filipe Coelho, bem-vindo também a esta emissão especial. Cristiano Ronaldo, é uma vasta carreira, é difícil recuar a tempos em que Cristiano Ronaldo não vestia a camisola da seleção nacional, temos que ir até 2003. Chega a capitão da seleção nacional por volta de 2008 e portanto, temos uma liderança já com quase 20 anos do Ronaldo nesta seleção. Olhando para a forma como isto está a acontecer e também para o impacto que isto pode ter para a estrutura da Federação Portuguesa de Futebol, que comentário merece da tua parte esta forma como se está a desenrolar a situação em torno da Federação Portuguesa de Futebol e da seleção ao longo destes últimos dias?

Boa noite a todos. Parece-me que mais do que qualquer outra coisa, é um dia que acaba por ser triste para a seleção nacional, é uma despedida completamente inglória. Eu percebo o que o João Pinto diz na questão de haver alguma previsibilidade quanto a este desfecho, mas creio que ninguém diria que isto pudesse acontecer há uma semana, na antecâmara do primeiro jogo contra a Bélgica, em Alvalade, quando Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus surgiram lado a lado, quase como uma conferência de imprensa, um hino à amizade, uma sintonia, um conhecimento totais entre ambos. Dava margem para pensar que havia aqui algum entendimento quanto à gestão de que Cristiano Ronaldo seria alvo de então para a frente. Parece que nada disso aconteceu. E eu creio que hoje, curiosamente, até mais do que no dia do jogo contra a Noruega, parece-me que as coisas escalaram hoje muito em função da conferência de imprensa de JJ, que me parece uma conferência de imprensa muito sólida, muito honesta, mas com bastante firmeza. E foi a seleção nacional a marcar posição, com aquelas frases muito características de Jorge Jesus, inclusivamente dizendo: "Não vou mudar". E a forma como JJ quase que anunciou o plano de Ronaldo para os próximos dias, dizendo que ia treinar, mas a seguir já dizendo que Gonçalo Ramos ia ser o titular amanhã frente à Dinamarca, parece-me que isso foi no fundo aquilo-

Foi esse o clique? A questão de confirmar Gonçalo Ramos como titular já amanhã numa conferência de imprensa?

Parece-me que sim, tendo em conta que as notícias de hoje de manhã é que já tinha havido conversas entre ambos na noite de ontem, que hoje de manhã, na presença de Pedro Proença, as coisas estavam mais ou menos estabilizadas, havia mais ou menos um entendimento sobre o que aconteceria daqui para a frente e de repente JJ chega à conferência de imprensa e como que puxa dos galões, como que puxa da firmeza e talvez Ronaldo não tenha gostado daquele tom. Aliás, ele próprio, no comunicado que faz, cita a conferência de imprensa quase como uma fronteira. Parece-me a mim. Agora, este caso de Ronaldo é especial porque não estamos simplesmente a falar de um jogador de futebol, da bandeira da seleção, mas do próprio capitão. E há aqui um peso muito específico da atitude que ele tem perante a questão da frustração de um jogador não gostar de jogar, eventualmente da promessa que JJ lhe tenha feito. E eu creio que é talvez a única questão em que Jorge Jesus não tenha estado à altura, porque é sempre muito complicado, antes de um jogo, por mais que possamos ter substituições pré-feitas na cabeça, anunciar que um jogador vai jogar 20 ou 30 minutos. Ainda por mais, um jogador com o ego de Cristiano Ronaldo também pode ter mexido com isso, mas em suma, eu diria que Ronaldo não se soube ajustar a esta nova era em que há um selecionador que se molda menos do que o antecessor. E aqui parece-me que há uma diferença gritante em relação àquilo que acontecia com Roberto Martínez, que foi sempre tentando enquadrar ao máximo Ronaldo, mesmo quando nós todos percebíamos que dentro do campo já não era o jogador a que estávamos de todo habituados.

Há um comunicado divulgado agora mesmo também pela Federação Portuguesa de Futebol. Comunicado da FPF: "A Federação Portuguesa de Futebol informa que o internacional português Cristiano Ronaldo deixou o estágio da Seleção Nacional que decorre em Copenhaga. A preparação dos encontros frente à Dinamarca e à Noruega, este último a disputar no Estádio do Dragão, prosseguirá nos termos previstos com os restantes 24 jogadores convocados. Toda a comitiva mantém o foco absoluto nos próximos compromissos da Seleção Nacional e na concretização dos objetivos definidos". São três frases. São estas três frases que estão no comunicado da FPF e que confirmam que Cristiano Ronaldo deixa este estágio, algo que já tinha sido dito por Cristiano Ronaldo. Ora, temos estes dados em cima da mesa, comunicação da Federação Portuguesa de Futebol, a conferência de imprensa de Jorge Jesus e o comunicado de Cristiano Ronaldo. Esse comunicado de Cristiano Ronaldo nas redes sociais começa precisamente com: "Após a conferência de imprensa do selecionador nacional e no seguimento de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional". Ora, Gabriel Lopes, falar aqui sobre Jorge Jesus, porque Cristiano Ronaldo coloca, de facto, esta decisão como tomada depois da conferência de imprensa do selecionador nacional, naturalmente também depois de falar com o presidente da Federação, mas coloca a justificação na conferência de imprensa. Faz sentido Ronaldo ficar incomodado quando ainda há dias disse que estava disponível para jogar, estar na bancada, estar no banco. Jorge Jesus também falou sobre isso e disse que falou com o Ronaldo e que ele se mostrou disponível para isso. Faz sentido este incômodo e se, de facto, aqui Jorge Jesus está a tomar uma posição de que não está na Federação para fazer o que outros atrás dele fizeram, que é desempenhar a função de funcionário.

Não sei o que é que entretanto houve na conversa entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo. Nós não sabemos, não estivemos, não somos testemunhas. Há também aqui um facto que Jorge Jesus disse que Pedro Proença não tinha necessidade de estar, porque já estava tudo resolvido. Mas a verdade é que parece que não, porque Pedro Proença chegou, esteve também conjuntamente com eles e depois temos este desenlace. Portanto, há aqui qualquer coisa, Miguel. Falta saber o que é que o Cristiano vai dizer. Porque nada por em causa, Jorge Jesus foi claro, disse aquilo que tinha a dizer. Temos que ouvir das outras partes para saber naturalmente aquilo que há, de facto, em cima da mesa. Quanto a Jorge Jesus não se fazer como fazia Roberto Martínez. Naturalmente, o Jorge Jesus tem o seu perfil, tem o seu caráter, tem a sua forma de testar, da sua previsão. É algo consabido. Obviamente que o próprio Cristiano Ronaldo tem conhecimento disso. Ele foi treinador dele durante um ano na Arábia Saudita. Além do mais, acompanhou certamente a carreira de Jorge Jesus naquilo que são os diversos universos por onde naturalmente esteve e obviamente foi sempre muito igual a si próprio, embora enfim, na evolução dos tempos, adaptando-se, mas sempre sem perder aquilo que é o seu ADN. E daí que Cristiano Ronaldo também não desconheça quem é Jorge Jesus. Agora, resta saber o que é que há por detrás do resto, que é isso que eu não sei. Porque também chegar e dizer: "O Roberto Martínez aceitava tudo". Mas aceitava tudo por quê? Por isso é que eu quero ouvir o presidente. Eu, como português, quero ouvir o presidente da Federação Portuguesa de Futebol.

E achas que ele vai falar?

Vai ter que falar. Porque a Federação Portuguesa de Futebol é uma instituição de utilidade pública e isto naturalmente interessa aos portugueses. Nós estamos a ser prejudicados, porque isto não é bom para o futebol português. Vamos lá ver, o Cristiano Ronaldo não é jogador do clube A, B ou C. Ele é jogador da Arábia Saudita, de um clube da zona, daquele país. Ele é jogador capitão da Seleção Nacional e é dentro disso, sendo a figura que é Obviamente, Portugal neste momento está no pico da informação. O que se passa? O presidente da Federação Portuguesa de Futebol tem que vir a lume, porque a própria FIFA e a própria UEFA também olham para isto, porque Ronaldo, dentro da FIFA e da UEFA, tem grande dimensão. Quanto ao resto dos aspectos desportivos, muito bem, o Filipe falou, o João Pinto também tocou. Agora, é preciso saber o porquê disto, assim, nesta altura, neste momento, entre conferências de imprensa. O que se combinou com a entrada de Jesus, com a entrada de Ronaldo com Jesus, e o que está a acontecer que não bate, chamado a dizer em português, a bota com a perdigota, porque há aqui qualquer coisa que se passa. Quanto àquilo que é a parte negocial da federação, não podemos esquecer, não é o Ronaldo ter que jogar e andar com as marcas. Não! É o Ronaldo fazer parte daquilo que é seleção nacional de futebol e pode fazer parte daquilo que é a seleção nacional em muitas dimensões, não tem que ser na relação.

João Pinto, de facto, há pouco já tocavas nisto, que é o nascimento de uma lenda, porque Cristiano Ronaldo pode estar aqui a concretizar uma saída efetiva da seleção nacional, mas naturalmente podemos pensar que isto poderia se ter resolvido de uma forma completamente diferente e já tocavas nisso há pouco. Olhando para esse cenário que poderia ser diferente, quem achas que está a gerir mal a situação, se é que alguém está a gerir mal? Pedro Proença, Jorge Jesus, toda a federação?

Entronco um bocado com aquilo que já se disse aqui do ponto de vista de quando é que se dá a má notícia. Quando acabam as grandes competições, são sempre momentos de balanço e acho que no fim da última grande competição podia-se ter feito esse balanço, podia-se ter dito: "Cristiano, olha, foi um prazer, foi uma maravilha, mas se calhar acabamos aqui". E depois quer-se protelar estas coisas, quer-se sempre adiar, porque há um projeto e há aqui uma ideia e pode-se fazer ainda aquilo, ele ainda aguenta mais um bocadinho, também não se vai dizer que não. E nunca se percebe muito bem se é por respeito ao homem ou jogador, se é a questão financeira e comercial que se vai adiando, se é pura e simplesmente ninguém diz. É como aqueles casais em que a relação já está mal, mas nunca ninguém diz e a dada altura já ninguém se lembra do nome um do outro. Há culpas divididas por todos, mas também há aqui uma questão de respeito e de honrar aquilo que o Cristiano foi fazendo pela seleção e muito fez. Acho que é sempre aqui uma mistela, uma sopa difícil. Agora perceber qual dos ingredientes é que tem culpa. E nem sequer é fundamental. Isto é um bocado viver a espuma dos dias, é viver este turbilhão que é assistir-se à saída do melhor jogador do mundo da seleção portuguesa depois de tantos anos, 2003, disseste tu. Bem, em 2003 eu nem me lembro o que é que estava a fazer. Porque realmente são muitos anos. É óbvio que nunca ia ser fácil, ia sempre ser um divórcio difícil, vai abrir muitos jornais, mas era inevitável. É como diz o Gabriel, agora haverá muitas outras bandeiras, muitos outros estandartes que Cristiano Ronaldo pode pegar e pode fazer por Portugal, a começar no estandarte do desporto, do exemplo, da tenacidade, da força, da resiliência que ele sempre mostrou e é um homem novo. Para isso, ele é um homem novo, está aí para as curvas e tem muito para dar a este país e aos outros, em muitas coisas. É sempre difícil para ele. Acho que ainda não vai pendurar as botas, mas pouco falta. E depois vem o resto e há muita coisa no resto.

Augusto Inácio, neste sentido também achas que alguma destas três principais figuras, Ronaldo, Pedro Proença, Jorge Jesus, poderiam ter agido de maneira diferente para evitar uma situação de rutura como a que estamos a assistir? É óbvio que estamos a pegar em muitas pontas soltas, mas, na verdade, as pontas que já temos mostram uma situação de atrito.

Olha, deixa-me dizer que segundo o que disse o Jorge Jesus, tinha falado com o Cristiano Ronaldo e tinha dito que jogava os jogos em casa e que não jogava os jogos fora, como eu disse ainda há pouco. E as coisas não aconteceram. Não foi por causa do Jorge Jesus ter dito que jogava o Gonçalo Ramos amanhã, que o Cristiano Ronaldo teve esta atitude, porque o Cristiano Ronaldo então já sabia que não ia jogar esse jogo, que ia jogar depois o jogo na Noruega, no Dragão. Por isso, não me parece que seja esse o ponto de rutura. O que me parece a mim, sinceramente, que só ouvimos uma versão e não ouvimos a do Cristiano Ronaldo, nem do presidente da federação, sinceramente, para se ter uma atitude destas, é porque algo de muito grave se passou, que nós não sabemos. Mas eu levo para o lado, e se calhar estou aqui a especular, de que o Cristiano Ronaldo sentiu-se traído por alguma coisa que o Jorge Jesus lhe disse e tomou esta decisão após a conferência de imprensa de Jorge Jesus.

Mas se ouviste essa conferência de imprensa, o que achas que pode ter sido essa justificação ou algo que tenha sido uma traição ao jogador?

Eu acho que o Jorge Jesus prometeu-lhe uma coisa que não cumpriu e a partir daí o Cristiano Ronaldo não ficou já com a confiança que tinha no treinador. Provavelmente, para o Cristiano Ronaldo, o Jorge Jesus lhe disse muitas mentiras. Estou eu a dizer e a especular, porque não ouvi ainda a versão do Cristiano Ronaldo. O que eu sei é que não há nenhum jogador, por muito idolatrado que seja, que tenha uma atitude destas sem ter umas bases sustentadas numa tomada de posição destas, que sabe que vai ter repercussão a nível mundial, não é só a nível de Portugal, porque o Cristiano Ronaldo é um jogador do mundo. Por isso, se me dissessem para mim O Cristiano Ronaldo podia ter evitado. Não é hoje, não é isto, não é o que estamos a falar hoje e que é o tema que estamos a falar. Eu acho que o Cristiano Ronaldo já devia ter saído da seleção nacional já há algum tempo, para sair realmente de uma forma grandiosa como ele merece ou merecia ter saído dessa forma. Como disse o João Pinto, ao protelar isto mais ano, mais um ano, mais um ano e vão dando. É evidente que vai chegar o momento que, como se costuma dizer, não saias a bem, saias a mal. Mas o Cristiano Ronaldo sempre disse: "Eu saio quando eu entender que devo sair". Ora, se o Cristiano Ronaldo não saiu antes, é porque entendeu que não devia ter saído. Só que, se calhar, o rendimento que ele tinha há uns tempos atrás não é o mesmo e os treinadores começam a olhar para ele de uma forma-

Nesse sentido, e temos que pegar no rendimento, porque as concentrações da seleção nacional começam com uma convocatória. E se não existe capacidade física, técnica, disponibilidade a todos os níveis para estar ao nível dos outros jogadores, não deveria começar por aí.

Sim, mas Miguel, se o Cristiano Ronaldo diz que quando sentir que não tem força, que não marca gols e que não dá nada à seleção, ele não pega nas botas, pega nas malas e vai embora, é o mesmo que tu me podes perguntar: então por que o selecionador o convocou?

Exato.

Se o selecionador o convocou, é porque acredita também que ele ainda pode dar alguma coisa à seleção nacional. Nessa perspetiva, como o Cristiano Ronaldo, diz o Jorge Jesus, e com alguma razão, tem o estatuto, entendeu que devia ter falado com o jogador que tem esse estatuto e, neste caso, o Cristiano Ronaldo, como ele disse, também falou com o Bruno Fernandes. E há outra coisa aqui, deixa eu pôr aqui um parêntese. Eu não entendo como é que um selecionador nacional português, chamado Jorge Jesus, não sabia que o Bruno Fernandes tinha uma lesão já desde o Manchester United. Segundo palavras de Jorge Jesus é que disse que não sabia.

Jorge Jesus disse que só soube numa conversa que teve com o jogador.

Depois do jogo.

Depois do jogo.

Do País de Gales. Depois do jogo País de Gales, que ele disse que o Bruno Fernandes não esteve ao seu nível e que o Bruno Fernandes é que disse que tinha um problema já desde o Manchester United. Eu não entendo como é que se coloca um jogador a jogar sem o selecionador não ter os dados todos de avaliação em relação a todos os jogadores que estão ali ao seu serviço. Não entendo e não compreendo, mas foi só o parêntese que não estamos aqui a falar agora do Bruno Fernandes. Vamos falar do Cristiano Ronaldo. Eu acho, sinceramente, e olhando para trás, mete dó, mete pena, mete raiva, mete tudo aquilo que tu possas pensar, como é que o Cristiano Ronaldo pode sair da seleção desta forma que não deveria ter saído. Ele devia ter saído com o país todo em pé, ovação, todos os imigrantes, todo o mundo, todas as nações, a aplaudir a despedida do Cristiano Ronaldo. E estamos a ver o Cristiano Ronaldo a sair fininho, como se costuma dizer, e de certeza absoluta que não vai-lhe ser reconhecido, pelo menos como merecia, por causa disto. Eu tenho a sensação e tenho a firme opinião, vale o que vale o ponto, e eu estou lá que eu esteja enganado. O Cristiano Ronaldo não vai voltar mais à seleção nacional para já enquanto jogador. No futuro, vamos ver como é que ele pode aparecer na seleção nacional, se é que ele está a pensar em voltar à seleção nacional numa outra situação, numa outra conjectura qualquer. Mas não há aquela ligação umbilical, que se possa dizer, daquilo que é o amor à pátria, o amor à seleção, com o ambiente que está agora. Acho que o Cristiano Ronaldo vai de avião, vai não sei para onde, não volta mais e vamos ver quando é que ele vai voltar numa outra função.

Filipe Coelho, andamos para trás e para frente neste assunto de ontem. A tensão, à noite conversa, leva à situação resolvida. Proença viajou e chegou a Copenhague supostamente com a situação já resolvida. Hoje Jesus falou em caso resolvido e que Cristiano Ronaldo ia treinar, depois não treinou e estamos agora perante estes dois comunicados, o de Ronaldo que confirma o abandono do estágio e da Federação Portuguesa de Futebol, que diz exatamente a mesma coisa. Também vês aqui uma situação de não retorno para Ronaldo na seleção nacional?

Vejo como muito complicado esse cenário de retorno, porque há aqui uma evidente rutura com o selecionador nacional, um selecionador nacional que acabou de chegar, de uma escolha quase pessoal de Pedro Proença. Portanto, vejo, de fato, um cenário muito complicado nessa perspectiva. Enfim, até o próprio ambiente, se quisermos, de uma eventual festa de despedida, parece-me que fica aqui muito condicionado por esta rutura. De resto, deixamos a referir que nos últimos dois, três dias houve aqui algumas informações contraditórias, no sentido em que até se chegou a dizer que Cristiano Ronaldo, após o Mundial, estava a manifestar alguma disponibilidade para terminar o seu ciclo na seleção nacional e que foi o próprio Pedro Proença e Jorge Jesus que fizeram alguma força para que Ronaldo iniciasse pelo menos este ciclo da Liga das Nações, não exatamente até o Europeu, mas pelo menos este ano até à Liga das Nações, e portanto fizeram força para que ele ficasse. Essa é de fato uma questão em aberto e até por isso, neste caso, estou completamente de acordo com o Gabriel Alves, é muito importante ouvir Pedro Proença. Eu admito que isso não aconteça antes do jogo de amanhã, mas parece-me que tem toda a lógica que Proença fale antes do último jogo, enfim, a quarta jornada contra a Noruega no Dragão, tanto mais não seja porque Portugal vai jogar em casa. Portanto, também é preciso perceber e tentar, no fundo, amenizar aqui um pouco o ambiente em torno da seleção e tornar as explicações mais claras. Portanto, parece-me que há de fato aqui uma obrigação para com Pedro Proença. Em relação ao Ronaldo, e para terminar, eu acho que o ciclo do Ronaldo talvez devesse ter fechado no Mundial 2022. Houve inclusivamente aquele episódio com Fernando Santos, uma situação que também causou algum desgaste dentro do próprio seio da seleção nacional, e eu creio que aí devia ter sido, de facto, o passo ao lado do Cristiano Ronaldo, que acabou por protelar muito a sua saída. Enfim, chegamos a cenário que me parece absolutamente inglório e bastante triste para a carreira do próprio Cristiano Ronaldo.

Miguel.

Sim, Gabriel.

Só aqui uma nota da forma como tudo isto está a acontecer

A dimensão que isto está a tomar, porque eu estou aqui a conversar com os nossos observadores e estou a ler a imprensa internacional. Eu acho que, inclusivamente, ao nível do Estado português, o primeiro-ministro e o presidente da República estão atentos a isto, porque Ronaldo é uma figura nacional. Ronaldo tem bilhões de adeptos e é uma bandeira de Portugal. Portanto, eles estão atentos. Eu não estou a dizer que vão intervir, mas estão atentos, porque a forma como tudo isto está a acontecer não é benéfica ao país.

Chega ao nível das figuras de Estado, mas como dizes, não achas que vão emitir nada sobre isto?

Não, estão atentos. Eu disse que estão atentos, mais nada. Nem podia deixar de ser. Porque não é só aqui os portugueses. Eu lembro-me que Emmanuel Macron, num campeonato realizado na França, foi ao relvado abraçar o Mbappé, que é outra figura de outro país. Ao mesmo nível.

Mas Filipe Coelho, aqui na análise que estávamos a fazer, queria ouvir-te também sobre esta possível alternativa que teríamos a esta situação, porque no fim deste dia, estamos todos a olhar para este caso, de certa forma, como isto seria evitável ou poderia ter sido de outra forma. Concordas com isso? Poderia efetivamente ter sido de outra forma? E quem é que teria de ser responsável por essa outra forma que poderíamos ter? Se Pedro Proença, Jorge Jesus ou Cristiano Ronaldo?

Sim, eu creio que importa esclarecer, de facto, se após o último campeonato do mundo houve ou não a possibilidade, ou se houve ou não a porta aberta a Cristiano Ronaldo a deixar a seleção nacional por entender que seria o seu fim de ciclo e se foi Proença e Jesus que quiseram que ele continuasse. Enfim, isso foi uma informação que foi pelo menos veiculada em alguns órgãos. E eu creio que aí, desde logo, Proença terá alguma hipótese de explicar esse tópico. De resto, parece-me uma situação evitável a todos os níveis e com gente tão experiente, com gente com tantos anos de futebol, é certo que os egos também correspondem a esses anos de experiência, mas eu creio que sim. Creio que, como disse, Ronaldo poderia perfeitamente ter saído após o Mundial 2022. Creio que era o momento-chave. Houve a questão com o Gonçalo Ramos e a titularidade de Ramos contra a Suíça, que não foi bem encarada por Ronaldo, com as consequências que todos conhecem em relação ao Fernando Santos, como é público, e creio que aí teria sido o momento ideal. Ronaldo prolongou o seu ciclo na seleção e depois, sobretudo, parece-me que isto é uma ideia muito clara. Ronaldo nunca se soube, no fundo, ajustar ou adaptar ao passar dos anos, de certa forma, à perda de rendimento, à perda de algum estatuto que teria forçosamente de ocorrer no seio da seleção nacional. E são inúmeros os exemplos nos últimos anos. O jogo contra a Geórgia no Europeu 2024, com Portugal apurado, mas que o Ronaldo quis jogar ainda assim. Enfim, há uma série de episódios que eu creio que, nesse aspecto, sempre fui muito crítico e saluei sempre em relação ao Roberto Martínez, que me parece que foi tentando sempre apaparicar, no fundo, mais esse interesse pessoal específico do Ronaldo do que propriamente olhar para o interesse coletivo e preparar inclusivamente a seleção para o futuro, coisa que não aconteceu. Jorge Jesus, à sua maneira, tentou aqui uma gestão um pouco diferente. Parece que não obteve, no fundo, o acordo de Cristiano Ronaldo e daí toda esta situação que eu creio que é de lamentar, porque Ronaldo é, foi, é e será por muitos e longos anos o melhor jogador da história do futebol português.

João Pinto, não é o primeiro caso de atrito numa saída de Ronaldo. O momento de saída do Real Madrid já foi um pouco conturbado, mas um pouco mais discreto, de certa forma, apesar de até terem surgido algumas escutas desse período.

Valeu 100 milhões.

Exatamente.

100 milhões, parecendo que não, sempre dá para limpar as lágrimas.

Exatamente. Mas depois a saída da Juventus acabou por ser natural naquela fase. A saída do Manchester United muito conturbada, que levou depois Ronaldo para o Al-Nasr. E agora este momento que pode indicar já essa saída definitiva da seleção, que é disso que estamos também aqui a falar. Portanto, é difícil entender por que razão Cristiano Ronaldo não consegue sair ou, dado aquilo que conhecemos do jogador e que temos acompanhado ao longo de todos estes anos, de certa forma, até se compreende que as saídas estejam a acontecer todas com este desgaste.

Pronto, eu não sei muito bem se isto entra no âmbito do desporto ou da psicologia.

Eu pergunto-te enquanto adepto.

Eu vou tentar dizer o melhor que posso. Vou tentar fazer o melhor que posso, mas a ideia que dá é que o Cristiano era o menino da Madeira, todos sabemos a história dele, de franzino, de um rapaz que vem de onde vem, com todo aquele enquadramento. E à maneira dele e ao longo da vida dele, ele sempre teve que olhar para o espelho e dizer: "Não, e tu ainda consegues, tu ainda vais mais longe, tu consegues fazer mais, tu és melhor do que aquilo que foste até agora, és melhor do que os outros, és melhor do que aquilo que dizem". E o espelho continua a projetar a mesma imagem, ele continua a ter a mesma vontade, a mesma capacidade. É muito difícil tu tirares o homem da fórmula que lhe deu sucesso. É extraordinariamente complicado. Ele sempre se moveu a ego, o petróleo dele sempre foi a vontade própria, o acordar cedo, o comer frango com massa a vida toda. Portanto, é muito difícil alguém falar com o Cristiano Ronaldo e dizer: "Meu caro, eu sei, mas já não dá mais." Até porque todo o séquito que o segue, toda a gente que anda à volta dele, vive de lhe dizer: "Cristiano, tu és o maior, Cristiano, meu grande mano, tu é que sabes". Porque o rendimento também interessa. Portanto, o que estamos aqui a falar, no fundo, é que o tempo não é misericordioso, é muito difícil de aceitar, mas os dias passam para ele como passam para os outros. E agora o que ele vai ter que saber é gozar a vida. Para já, ainda tem mais um anito ou qualquer coisa assim parecida para fazer no Al-Nassr, portanto ainda vai ter tempo para se despedir dos relvados.

Para chegar aos 1000 gols.

Como?

Para chegar aos 1000 gols.

Exatamente. Ainda tem os 1000 gols para ir atrás.

Não é 1000 gols, é 1007, como diz o Pedro Henriques.

Vá que seja. Acho que a razão de ser, tirando aqui um curso de psicologia amadora, tem muito a ver com isto. Um grande abraço para ele, que também não deve estar a ser fácil ali no avião privado dele, com 1000 almofadas e 70 pessoas ao lado dele a dizer que ele é o maior.

Augusto, tu tocaste isto logo na parte inicial, do impacto que isto tem também para a federação. Às vezes pode ser difícil perceber essa dimensão, mas de facto é uma realidade completamente diferente a federação trabalhar com Cristiano Ronaldo ou trabalhar sem Cristiano Ronaldo. E estamos aqui a falar não da parte desportiva em si, mas da marca e de tudo aquilo que é o aspecto financeiro.

Pois, o mundo Cristiano Ronaldo é isto mesmo, é desportivo e comercial.

Inácio, lembra-te que o José Jesus, na conferência de imprensa inicial, falou da questão de Hong Kong, em que foi lá com a equipa da Arábia. Para o primeiro jogo, o Ronaldo não jogou, não estava ninguém no estádio. No segundo dia estava, no segundo jogo estava, estava 55 mil. Portanto, eu acho que está aí...

Não, mas a pergunta do Miguel vem ao encontro disso. O Cristiano Ronaldo é tudo isto, ele é tudo num. Ele é desportivo, ele é marketing, ele é financeiro, ele é publicidade, ele é de camisolas, ele é tudo. Ele dá tanto à federação.

Instagrams, likes, TikToks.

Isso também. Mas eu fiquei hoje admirado com uma notícia, que eu acho que é verdade, porque toda a gente está a falar no mesmo. Os prémios do último mundial, aos jogadores e a todos aqueles da staff, ainda não foram pagos. Ainda não foram pagos. Não vai se iniciar uma nova competição, que é a Liga das Nações, e o atrasado do mundial ainda não está pago.

Mas pode ter a ver com os recibos que foram metidos antes do verão, pois entretanto mete-se as férias. Também pode ter a ver com isso.

É para entrar na deflatração.

O que dá a sensação é que se por acaso Portugal, ou a federação, neste caso, está a passar por um momento de menor fulgor financeiro, se o Cristiano Ronaldo bater mesmo com a porta e se abandonar completamente a seleção nacional, a federação ainda vai ter muito mais problemas em relação ao futuro, porque aquela máquina alimenta-se muito bem. Aquela máquina tem realmente um orçamento brutal, em que é preciso, eu diria, sem o Cristiano Ronaldo, se calhar contar todos os cêntimos para poder pôr a máquina no ativo como ela está a ser. Agora, diria que isto é uma bomba atómica que rebentou de um momento para o outro. Eu não digo que é do nada, mas digo de uma coisa que parecia, como tantas vezes no futebol isto acontece, que as coisas podiam estar mais ou menos resolvidas. O que é certo é que a bolha rebentou.

Isso ajuda a justificar uma das perguntas que te estava a fazer há pouco. Se isto, perante a forma como aconteceu, estar a ser abordado como uma bomba atómica, como dizes, então por que razão não foi preparado de melhor forma este momento da saída, tendo em conta contratos que podem estar assinados, perspetivas financeiras com ou sem Ronaldo, tudo isto?

Sim, mas repare uma coisa. Quando se fez aqueles contratos de sponsorização até 2030, como eu disse, e é público, eu não estou a dar nenhuma novidade, não era a pensar que o Cristiano Ronaldo ia durar até 2030, ir ao mundial de Marrocos, Espanha, Portugal, na organização. Não é isso. É a figura do Cristiano Ronaldo dentro daquilo que é a federação, o que ele pode trazer à federação quando deixar de jogar futebol. Aquilo que me parece é que o Cristiano Ronaldo não acompanhou o final de carreira com a idade. Ou seja, ele até poderia jogar até aos 45 anos, desde que marcasse aqueles gols todos, tivesse aquela mobilidade toda, que não tem, porque infelizmente o ser humano é assim mesmo, tem o seu desgaste, senão ainda hoje ainda jogava a defesa esquerdo não sei onde. Mas não pode, porque a idade não deixa. Agora, o momento, e é aqui que eu às vezes fico assim um bocado a pensar: será que foi mesmo assim? Se o Cristiano Ronaldo estava com a ideia na cabeça de abandonar o mundial em 2022, e que foi o Jorge Jesus, e salve erro, o presidente da federação, que o incentivaram porque podia jogar na Liga das Nações, pelo menos, mas não foi o Cristiano Ronaldo que disse: "Eu saio quando eu entender que devo sair, eu é que sei o momento certo da minha decisão de sair" e está à espera que alguém chegue ao pé dele e diga: "Fica aqui mais um bocadinho para fazeres mais uns guinhos e adiar a tua ideia de abandonar a seleção". Eu não estou a ver as coisas assim dessa forma, porque o Cristiano Ronaldo sempre vincou isso de maneira como uma bandeira, que eu saio no momento em que eu entender que devo sair. Parece-me a mim que este não era o momento dele se ir, que não estava na cabeça. Isto foi mais uma revolta dele e uma decisão que antecipou, se calhar, aquilo que mais tarde, não sei quantos meses mais, ele ia anunciar a decisão de não jogar mais pela nossa seleção, que era o final de carreira dele na seleção nacional. Por isso mesmo é que eu digo que, de uma perspectiva boa de futuro, em relação ao Cristiano Ronaldo na seleção nacional, sem ser como jogador, e que continuaria a ser o astro, o maior da seleção nacional, se calhar à frente de presidentes, de jogadores, de treinadores, numa outra função, mesmo que seja embaixador, seja o que for, mas a figura estava ali. A figura estava com a seleção e nessa perspectiva, Portugal continuava a ser olhado da forma o Cristiano Ronaldo está na Federação Portuguesa de Futebol. E isso temo que não possa acontecer no futuro.

E há mais. Eu acho que pegando no Jorge Jesus, muito rapidamente, Neymar é uma coisa, Cristiano Ronaldo não tem nada a ver com o Neymar. E se Jorge Jesus, Neymar ficou de lado, Carlo Ancelotti também mandou o Neymar embora, mas soube mandar o Neymar embora. São coisas completamente diferentes. Um soube estar, o outro não.

Soube mandar Neymar embora, Carlo Ancelotti? Ainda fez sentido ir a este mundial?

Sim, se ele soube. Mostrou no mundial que já não pode contar com ele mais pro futuro. Se ele não tivesse ido lá e não criou nenhuma crise.

Mas foi Ancelotti que geriu melhor a situação ou foi Neymar que aceitou melhor a situação?

Eu acho que o Neymar percebeu, porque Ancelotti mostrou ao povo brasileiro que o Neymar finito. Estou a falar italiano porque o Ancelotti é italiano.

E o que estás a dizer é que Jorge Jesus, neste caso, andou com demasiados coleguinhas nos últimos dias em toda esta situação.

Está a falar muito, independentemente de coisas, o Jorge Jesus está a falar muito, muito mesmo. Tem que falar menos e tem que ter algum cuidado, porque ele agora não é o treinador da equipa A, do clube A, do clube B, do clube C. Não, ele é selecionador nacional de um país. E aquilo que ele disse de Luís Enrique em relação ao Vitinha e o que disse de Roberto Martínez em relação aos lances de bola parada, não lhe ficou bem. E olha que ele vai ter repercussão disso e não leva muito tempo.

Então, mas Gabriel, a malta sabia quem é que estava a contratar ou não?

Ó João, mas qualquer questão é que ele um dia destes vai, porque quis falar dos colegas de profissão e depois dar uma nota de quase incompetência a Luís Enrique. É só ser bicampeão europeu por um clube, é campeão europeu por outro. E mais todos os títulos que tem, que o Jesus não chegou lá.

Sim, é verdade, não é novo. Não é novidade nenhuma.

Ó João, temos que saber estar sentados.

Vamos à realidade da situação da seleção agora. Felipe Coelho, há jogo amanhã com a Dinamarca. Parece que já ninguém se lembra muito bem disso, mas há jogo amanhã, a contar para a terceira jornada da Liga das Nações. Isto tem impacto para a equipa? Achas que pode ter impacto para o plantel?

É impossível que não tenha algum impacto. Os jogadores, apesar de viverem numa pequena bolha, acabam por ter contato com esta realidade. Portanto, acredito que sim, até porque Ronaldo foi o líder, melhor ou pior, desta seleção durante muitos anos. É para a esmagadora maioria daqueles jogadores, o ídolo de infância, no fundo. Portanto, é uma referência que eles têm. Temos inúmeras declarações de jogadores a referir isso mesmo. Portanto, eu acredito que terá sempre impacto no ambiente que se possa viver. Outra coisa é no relvado e Portugal contra a Noruega, sem Ronaldo, já deu mostras de que pode ser uma equipa perfeitamente competitiva. É a sua obrigação, aliás, tendo em conta o plantel de que dispõe. E, portanto, eu creio que nesse aspeto estamos salvaguardados. Mesmo olhando especificamente a posição de Cristiano Ronaldo, é certo que não há tanta abundância como há noutras posições, mas Gonçalo Ramos deu uma excelente resposta frente à Noruega, é um jogador que oferece muito em termos de mobilidade, de marcações curtas, é um jogador que consegue empurrar as defesas contrárias para trás. Está com bons registos goleadores a nível de seleção, mais até do que nos clubes, curiosamente. É um jogador que tem conseguido estar próximo do gol. Fábio Silva é um jogador diferente, um jogador, se quisermos até, que pode jogar mais de trás para a frente, não ser propriamente um nove fixo, mas eu creio que Portugal, a nível desportivo, olhando apenas e só para dentro das quatro linhas, pode estar descansado. É verdade que não temos nenhum super talento como o de Ronaldo no seu auge, é indiscutível, mas é uma equipa, obviamente, com muitas soluções e que amanhã, mesmo num estádio complicado, mesmo contra uma seleção de bons valores, tem condições para vencer como venceu na Noruega.

Augusto Inácio, que impacto achas que isto tem também para este jogo já de amanhã?

Olha, o Jorge Jesus está a começar agora o seu trabalho na seleção nacional. E não nos vamos iludir. Eu não fico iludido porque Portugal tem seis pontos, ganhou na Noruega e ganhou a País de Gales e parece que está tudo num caminho perfeito. Calma aí. Portugal ganhou com alguma sorte, entre aspas, com a Noruega, teve ali momentos de grandes dificuldades. Ganhou com mérito, é verdade, ninguém vamos tirar esse mérito Com o País de Gales foi uma exibição sofrível, deu para ganhar e não vamos supor agora que isto sai o Cristiano Ronaldo e vamos ganhar à Dinamarca e vamos ganhar à Noruega com facilidade em casa no Dragão. Calma, há muito para crescer. Agora a pergunta que se coloca é: que ambiente vai ter a seleção nacional para o jogo de amanhã com a Dinamarca? Entre os jogadores, eu acredito, aliás, pelo menos dois, três jogadores não se davam bem com o Cristiano Ronaldo. Atenção, para esses, até é um alívio o Cristiano Ronaldo não estar ali.

Mas isso é normal num balneário.

Sim, ninguém está a dizer o contrário. O que estou a dizer é que isto não é um mar de rosas, toda a gente se dá bem, tudo aos beijinhos e está tudo em prol do objetivo comum. Calma aí, eu estou a falar entre eles. Alguns, claro, ficam contentes com a saída do Cristiano Ronaldo, outros ficam tristes com a saída do Cristiano Ronaldo. Mas isso depois é o Jorge Jesus que tem que dizer aos jogadores aquilo que pretende, incentivá-los e moralizá-los, porque Portugal tem capacidade para ganhar a Dinamarca, mas tem que jogar como uma equipa solidária e eu acho que é isso que vai acontecer amanhã, é os jogadores esfarraparem-se todos, pelo menos a lutarem bravamente pela vitória. Isso eu acredito que vai acontecer. Agora, se há outras capacidades, porque é verdade que o Gonçalo Ramos marcou aquele gol, que a execução é muito boa, mas praticamente é um gol oferecido, embora tivesse outro, depois fosse anulado, teve um trabalho sujo daquele que é sem bola, pressionar o adversário, é verdade, mas depois vamos ver o envolvimento de tudo isto para que realmente a equipa seja mais competitiva, mais forte e eu diria inclusivamente mais robusta, porque parece-me que Portugal tem muitas deficiências e muitas lacunas neste momento para preencher.

Augusto Inácio, Gabriel Alves, João Pinto e Filipe Coelho, obrigado por esta participação.

Olha, deixa-me só dar aqui uma nota, Miguel.

Para fechar, Gabriel.

Muito rápida. No As, um dos jornais mais vendidos, entre outros, mas mais vendidos em Espanha, talvez ele e a Marca. Assim termina um artigo sobre o Cristiano Ronaldo: "Uma verdadeira lenda. Cristiano Ronaldo disputou 234 jogos e marcou 146 gols pela Seleção Nacional, desde a sua estreia em 20 de agosto de 2003, com 18 anos, seis meses e 15 dias, frente ao Cazaquistão, sob o comando de Scolari. CR7 deixa Portugal com 11 gols em Taças do Mundo e três títulos: Campeão da Europa 2016, vitória na Liga das Nações em 2019 e 2025". Portanto, vê como corre a lenda lá fora.

Termina assim esta emissão especial. Estivemos a analisar este dia atribulado na Seleção Nacional, com Cristiano Ronaldo e a Federação Portuguesa de Futebol a fazerem um comunicado. Cristiano Ronaldo fez primeiro nas redes sociais da Federação, depois na página oficial, em que confirmam que Cristiano Ronaldo deixou o estágio da Seleção Nacional e já não conta para os próximos jogos desta paragem, neste caso, jogo amanhã frente à Dinamarca, em Copenhaga, e jogo no próximo domingo no Estádio do Dragão, frente à Noruega.