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Bem-vindos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, faz parte da Academia das Ciências, tem um longo percurso na universidade e também no Instituto Português de Meteorologia e Atmosfera. É assim que se diz, não é?

Mar e Atmosfera.

Mar e Atmosfera, IPMA, mas a gente conhece mais da meteorologia. Isto é um programa que fala de ciência, naturalmente. Na semana passada estivemos aqui a falar do Kilimanjaro, estivemos num sítio um pouco mais exótico para as nossas paragens. Subimos até o topo da montanha mais alta de África e hoje vamos um pouco mais longe. Vamos conhecer uma ilha de que se fala às vezes, mas muito poucas vezes, porque é a irmã pequena de Timor, por assim dizer. A Ilha das Flores faz parte da Indonésia, mas foi uma ilha onde os portugueses estiveram alguns séculos e que tem importância, já veremos porquê, até porque nas ilhas aprende-se muito. As ilhas são um ambiente onde nos permite uma espécie de microcosmos em muitos aspetos. Basta recordar que, por exemplo, para a definição do que é a teoria da evolução, para a clarificação das ideias de Charles Darwin, a sua visita às Ilhas Galápagos foi muito importante, porque ele verificou aí um conjunto de intuições. Verificou-as e percebeu que elas podiam ser verdadeiras, precisamente porque de ilha para ilha havia espécies que eram diferentes. Ora bem, nós vamos estar também numa ilha que tem muitos aspetos diferentes e ensina-nos coisas na área da geologia, da geofísica e também na área da biologia. Mas antes disso, Miguel, que ilha é esta?

Todos os portugueses, quando se fala da Ilha das Flores, pensam sempre nos Açores. Os Açores têm, como sabem, nove ilhas, duas delas estão do lado americano e uma dessas duas ilhas é a Ilha das Flores, uma ilha lindíssima.

Quando diz do lado americano, é preciso explicar na placa americana.

Hoje em dia não se sabe. Mas existe ainda a outra Ilha das Flores, e a outra Ilha das Flores é localizada perto de Timor. Na verdade, foi chamada de Flores, tal como a primeira, porque quando os navegadores lá chegaram, estava coberta de vegetação alaranjada, muito luxuriante.

Presumo que nas Flores era mais azulada.

Exatamente, também. É uma cor que associamos às flores.

Assim como Madeira estava coberta de florestas e por isso se chamou Madeira.

Exatamente, porque tudo tem uma certa lógica. E Curaçao, já agora, teve com um coração e não com o coração. Mas a Ilha das Flores foi ocupada pelos portugueses ainda hoje, se lá forem, ela é bastante longe como destino turístico, mas podem encontrar um forte português do século XVII, em ruína, mas ainda razoavelmente visitável. E existem ainda nas povoações vizinhas, canhões localizados nas praças que podem ser observados e que são uma espécie de herança portuguesa. Mas mais, eu não diria importante, mais característico disso.

O que aconteceu aos portugueses?

Exatamente. Mais característico que isto é que ainda hoje é a única ilha cristã do universo muçulmano que é a Indonésia.

Indonésia. Então é uma ilha que fica na Indonésia e nós sabemos como a religião aí é importante. Se não fosse a religião, o cristianismo e o catolicismo em particular, porventura Timor teria aceito a integração na Indonésia. Só que isto aconteceu um pouco antes.

Isto aconteceu um pouco antes. Os portugueses estabelecem um entreposto, é mais correto dizer assim, ao pé de Larantuca, na Ilha das Flores, e é essencialmente um entreposto que está direcionado para o comércio do sândalo. O sândalo é uma madeira preciosa, que tem um aroma muito intenso, que se pode manter durante décadas ou séculos.

Sim, a partir da madeira de sândalo consegue-se tirar material para fazer perfumes, para fazer outras coisas. Por exemplo, na Índia é uma madeira considerada protegida, não se pode tocar no sândalo. Não é uma árvore muito grande.

É uma árvore pequena, mas ela tinha um valor econômico muito grande na Europa e mesmo na Ásia. Os portugueses estabeleceram toda uma cadeia logística para o transporte do sândalo. Quando chegam à ilha, a ilha não tem propriamente uma estrutura política unificada, são pequenos chefes locais, mas os portugueses estabelecem uma relação de cooperação com um rajá, que era o rajá da zona de Larantuca, que ele sim começa a estabelecer um pequeno reino.

Isso é típico. Os portugueses, nessa época, não tinham capacidade, não tínhamos gente suficiente para ocupar, mas tínhamos capacidade para construir pequenos entrepostos e estabelecer relações.

Não tínhamos gente nem interesse, porque a nossa estratégia era uma estratégia de cadeia logística e hoje em dia quem esteja a fazer dessa estratégia é um grande sucesso.

Ainda hoje estamos a discutir os pontos do Afonso de Albuquerque, se são ou não são fundamentais, isso leva a uma leva de aportagens. Estamos a falar de Malaca, de Ormuz e de Áden.

O criminoso volta sempre ao local do crime. O que é interessante é que o rajá de Larantuca é batizado, os dominicanos estabelecem um ponto grande de apoio e estabelecem uma missão. E claro, depois temos aquela situação habitual nesta região, que é alternadamente portuguesa e holandesa, conforme nós éramos atacados pelos holandeses ou conseguíamos retomar as posições anteriores.

Isso acontece sobretudo durante o período da ocupação filipina, não é?

Exatamente.

Aconteceu o mesmo no Brasil.

Para quem é da tua idade, que eu sei que já não serão muitos os ouvintes, que o primeiro rajá se chamava Olá.Que era nos tempos do-

Na cidade havia os lados Rajá e os lados Olá.

Exatamente. Mas Rajá quer dizer rei, não é? É apenas rei de uma região. Essa tradição do batismo ocorre em 1650, já depois do fim da época dos Filipos, e durante o reinado de Dom Pedro II, isso estabelece uma relação com Portugal que dura ainda há muito tempo.

Durou cerca de dois séculos, não é?

Exatamente, cerca de dois séculos. Mas é curioso, ou é importante, que a religião ficou realmente na população e ainda hoje a Semana Santa é celebrada com regularidade.

Eu tive um colega, quando trabalhei no Público, que tinha uma paixão pelas Flores e foi lá fazer uma reportagem.

Eu também fui às Flores, mas pelas razões que vamos falar mais a seguir. É preciso ver que em todas as aldeias rurais das Flores há uma cruz em cada povoado, há uma pequena capela, que pode ser de bambu ou pode ser de alvenaria. E em Larantuca, que é a cidade mais marcada pela herança portuguesa, existem igrejas com nomes que qualquer um de nós poderia reconhecer. Já agora, é interessante para quem está muito virado para esta comunidade global em que hoje em dia estamos todos englobados, que o último tema pastoral foi exatamente com o nome Ecologia Integral, seguiu um dos últimos documentos do Papa Francisco, e que foi discutido na paróquia de Larantuca.

Mas vamos àquele que te levou lá. Semana passada estivemos no alto do Kilimanjaro, porque foste lá ajudar a medir a altura do Kilimanjaro, e agora foste à Ilha das Flores, porque aconteceu lá um fenômeno que surpreendeu muita gente.

Exatamente. Há um tsunami, o tsunami é em dezembro de 1992. O sismo não é um sismo com uma magnitude muito grande, é um sismo 7.7.

Para ter uma ideia, tens em mente algum sismo de recorde?

Sim, é inferior ao sismo de 1969, por exemplo, que é de 8.0. Estamos a falar de um sismo de magnitude moderada a alta.

O sismo de 69 foi o sismo que os mais velhos se recordarão, chocalhou-nos um bocadinho. Ainda caíram uns chinés, e pouco mais.

Exatamente, mas pouco mais. Mas está a 300 km de distância. Aqui o que se passa é que o sismo é muito perto da Ilha das Flores. O tempo que demorou a onda de tsunami a chegar desde a zona de deformação inicial até à costa, foi apenas cinco minutos. Em cinco minutos há uma onda que invade a ilha. A onda tem uma altura que é 3.2 metros. Para terem uma ideia, nós no 755 tivemos cinco metros, portanto, isso é uma coisa muito mais baixa que o 755.

No grande remate de Lisboa.

Em 1969 tivemos um metro, tenho daqui uma comparação.

Já agora, tivemos um metro em 69 com um sismo de oito. Mas tivemos um metro na chegada aqui à terra, não é no ponto inicial.

Não, no ponto foi muito menos que isso. Foi dezenas de centímetros. Mas quando se chega à costa, há aquilo que se chama shoaling, que é o mar encapela-se, devido à redução rápida da profundidade.

Que é o que já falámos quando falámos da evolução da costa.

Exatamente. O que se passa é que o hospital de Maumere, que é a capital real, não é Larantuca, é completamente destruído. A onda lambe toda a ilha e há um local da ilha na ponta nordeste em que se chega à altura fantástica de 26 metros de altura de tsunami. Em frente à Ilha das Flores, existe uma pequenina ilha, um cone vulcânico, que é conhecido pelo nome de Ilha de Babi. Babi quer dizer porco, porco selvagem, provavelmente. É um pequeno cone vulcânico que tem 2 km de diâmetro e cerca de 350 metros de altura. Não é uma coisa muito grande, é mais baixo que a serra de Sintra, por exemplo, mas o que acontece é que a onda, na zona que está entre as duas ilhas, mais que duplicou a sua altura por interferência entre a onda direta e a onda refletida da ilha, uma interferência construtiva, de tal forma que na Ilha de Babi, todos os habitantes entraram entre as árvores e quando chega lá a primeira missão para tentar medir qual é que tinha sido o impacto do tsunami, as árvores estavam cheias de cadáveres.

As árvores estavam cheias de cadáveres.

Estavam cheias de cadáveres. Este impacto brutal do tsunami de Flores.

Mas a Ilha Babi foi atingida em segundo. Mas a onda maior foi na Ilha de Babi ou na onda refletida?

Foi na Ilha de Babi e na ilha refletida, foi dos dois lados. O que é que aconteceu? Na altura, não se percebia porque é que tinha havido tanto impacto. Há uma missão internacional que chega lá três dias depois, estamos a falar de uma enorme rapidez de resposta, em que alguns dos investigadores mais importantes do mundo, como o professor Imamura, o Philippe Lyell, dos Estados Unidos, Alcósta Chinolakis, que é americano-grego, vão e deparam com um espetáculo que só não teve o impacto mediático, por exemplo, do tsunami de Sumatra, porque não havia televisões como há hoje, nem telemóveis.

Sim, apesar de todo o número de mortos não ser tão grande.

É diferente, mas o impacto visual de chegares a uma ilha, que é uma ilha pequena, 2 km, tu vês quase a ilha toda e vês as árvores cheias de cadáveres pendurados, é um impacto psicológico brutal.

Há imagens, fotografias?

Há imagens, fotografias desta equipa da verificação. Este foi o mais mortífero sismo e tsunami das ilhas de Sonda e conta-se pelo menos 2500 mortos numa ilha pequena. Ou desaparecidos, mas desaparecidos são mortos para este caso, e cerca de 90 mil pessoas ficaram sem abrigo. A ilha de Babi é completamente destruída, a Ilha das Flores é parcialmente destruída e começou-se a perceber o que teria acontecido para chegarmos a este efeito. A situação é tão complexa, porque é uma ação física complexa.

Nós tínhamos a noção, porque já tínhamos tido muitos maremotos importantes, muitos tsunamis. Antigamente era mais comum usar a palavra maremoto, agora usa-se a palavra tsunami, que é uma palavra com origem japonesa.

E é mundial.

Os japoneses estão muito habituados, até na arte japonesa, àqueles famosos quadros das grandes ondas. E tivemos recentemente o tsunami que atingiu Fukushima, que fica famoso, ao tsunami de Sumatra. Houve o tsunami aqui de Lisboa, e houve ainda outros que fizeram a volta ao mundo, como por exemplo, o gerado pela explosão de Krakatoa, que também é aí perto, também é na zona da Indonésia. Krakatoa era um vulcão que literalmente explodiu.

Havemos de falar sobre Krakatoa, a leste de Java.

A leste de Java. Krakatoa é uma história fabulosa.

Que é uma história fabulosa também. Neste caso, a questão era mais de se perceber porque é que certos sismos dão origem a tsunamis maiores do que aqueles que era pensado que poderia acontecer. Aquilo que na altura se chamou na literatura da geofísica de tsunami earthquakes, os sismos que geram tsunamis. E quando é feito este reconhecimento do terreno, verifica-se que há aqui vários efeitos que somam. Um deles tem a ver com o mecanismo de geração do sismo. Há mecanismos que mais eficientemente geram os tsunamis e há outros mecanismos que são menos eficientes.

Vamos lá ver. O que acontece quando acontece um sismo numa zona de mar, do fundo do mar, o que temos é: há deslocações da crosta.

Há uma deformação.

Há uma deformação da crosta e essa deformação da crosta pode ser maior ou menor, não tem uma relação direta com a dimensão do sismo.

Não, ela tem uma relação direta com o sismo no sentido de que a teoria elástica dos corpos reproduz muito bem a deformação do fundo do mar, que não tem que ser uma rutura, é apenas uma deformação elástica, que depois é recuperada elasticamente. O que se passa é que a velocidade com que ocorre essa deformação também intervém na forma como a energia é transmitida da terra sólida para a terra líquida.

Sim, e há uma coisa que também pode influenciar, não sei se se confirmou ou não neste caso, que é haver escorregamentos.

E depois somam-se os escorregamentos. Teoricamente, dizem que os 26 metros, a ideia é que terá havido um escorregamento local.

Escorregamentos, isto é, uma parte de uma montanha submarina que vai por aí abaixo.

Exatamente. Já agora, um pequeno detalhe. Toda a gente conhece, penso eu, aquele desenho do japonês que tem a grande onda alta, até há puzzles que se vendem.

Mas tem dois brinquinhos.

Para quem tem paciência para os constituir, é só chamar a atenção que aquilo não é um tsunami. É tudo menos um tsunami, porque a onda de tsunami não rebenta. As ondas que rebentam, que são críticas, são ondas de vento, em que a parte superior da onda anda mais rapidamente que a parte inferior. Nos tsunamis, não, estamos a falar de uma onda que afeta toda a coluna até o fundo, por isso é que ela depois tem este encapelamento litoral tão grande, e ela é mais vista como um muro d'água. As descrições mais realistas, e quem vê, que hoje em dia é muito fácil de ver, o tsunami de Tohoku, vê o muro d'água a avançar.

Tohoku é o de Sumatra?

Não, o de Japão.

Japão.

Vê o muro d'água a avançar, aquilo é um muro d'água.

Que entra pela terra adentro, de forma que não é apenas um subir e descer, é a mesma coisa que a água vem por aí adentro.

Não se vê a parte de trás da onda. A onda é tão longa, ela é mesmo longa, que não se vê a parte de trás. E é por isso que não se pode fazer surf, por exemplo, numa onda de tsunami. A partir deste acontecimento, até porque havia a expectativa de já ter havido no passado situações similares, foi decidido que todos os modelos numéricos que se queriam utilizar para reproduzir os tsunamis tinham que ser capazes de reproduzir o que tinha acontecido na Ilha das Flores. E quando vai este grupo, de que eu tive a sorte de fazer parte, com outros portugueses, à Ilha das Flores, foi exatamente para observar in situ a relação entre a ilha de Babi e a ilha principal, e ver as condições morfológicas que conduziram a esta interferência construtiva. Lembras-te que houve aqui uma pergunta, que eu respondi na altura de forma muito confusa, sobre explicar o que é a interferometria. Isto é uma interferência típica. Temos uma onda, que interfere com uma reflexão dela própria, mas de tal forma que os máximos desta onda vão estar em cima dos máximos da reflexão e os mínimos em cima dos mínimos e, portanto, a amplitude é duplicada. Isto foi uma reflexão construtiva total, porque há duplicação da amplitude.

A probabilidade de repetição deste tipo de tsunamis é rara.

É rara, mas ali não, porque isto tem apenas a ver com a essência e com a profundidade.

Havendo ilhas perto, e não têm que ser muito grandes.

Não.

Por exemplo, só para ter aqui uma ideia, penso que as Berlengas seriam suficientes.

Não, eu penso que não. Não tem a ver.

Não tem dois quilômetros.

E nós temos aqui um mar que é muito profundo. E portanto, o que é interessante é que nos Estados Unidos foram construídos modelos físicos, digamos, modelos que materialmente reproduzem a situação da Ilha das Flores. Outros não fizeram modelos físicos, mas apenas modelos numéricos, mas hoje em dia não há nenhum modelo que para passar na fiscalização internacional, não seja capaz de reproduzir o tsunami das Flores.

Bem, mas já voltamos a ele. Temos que à hora interromper um pouco. Já voltamos dentro de uns minutos, é só um bocadinho.E continuaremos na fascinante Ilha das Flores da Indonésia. Estamos de regresso. Estamos a falar do tsunami da Ilha das Flores, de 1992. Este tsunami ajudou a acordar a comunidade internacional para o problema dos tsunamis. Nós já tínhamos tido muitos tsunamis e muitas destruições. Sabíamos, por exemplo, o que se tinha passado em Lisboa, se bem que na altura desse mais importância à destruição do terramoto. Por que este tsunami teve tanta importância pra acordar a comunidade internacional?

Porque apesar de não ter sido, e não foi, o tsunami que teve uma primeira grande cobertura midiática, isso não é verdade. Na verdade, a primeira grande cobertura midiática é Sumatra.

É, Sumatra deu tudo, deu filmes.

Deu tudo e é feito numa altura em que começava a vencer o Natal, tem uma projeção internacional enorme, mas este acontecimento teve duas coisas importantes. Primeiro, foi muito perto de um outro tsunami, que foi o tsunami da Nicarágua, que também foi altamente mortífero, com a ideia de que nós tínhamos que estudar o fenômeno diretamente. Repara, quando acontece o tsunami de Sumatra, eles começam a discutir, mesmo em Portugal, a questão dos sistemas de alerta. Muita comunidade, mesmo científica, ou pelo menos tecnológica, não são bem cientistas, são mais tecnólogos, tinha a ideia que isso não servia pra nada, porque as pessoas sentiam o sismo, e que sentiam o sismo, seguramente que o sismo era o alerta precoce do tsunami. E nós temos duas situações que são extremas e que mostram como este raciocínio está errado. Isto foi discutido publicamente em Portugal. Não vou dizer porque organizações. Primeiro, é esta situação, cinco minutos entre o sismo e o tsunami. Isto é uma situação completamente extrema e o sistema de alerta precoce não pode sequer funcionar, nem um, nem outro. Segundo, Sumatra, em que tens um tsunami tão longe do sismo, que o sismo não se sente e a onda chega. A onda de tsunami chega do outro lado do Índico.

Exatamente, tivesse no Sri Lanka, muita gente ia morrer no Sri Lanka, com um fenômeno, que já agora podias também ajudar a explicar, por que o mar recua antes de vir pra cima de nós?

Isso é um misto de duas coisas.

Foi o que aconteceu, por exemplo, no Sri Lanka, o mar recuou, as pessoas aproximaram-se do mar, não tinham tido nenhum tipo de alerta precoce, de repente...

Quando acontece a deformação do solo na ocorrência de um sismo, há sempre uma parte do solo que fica levantada e outra que fica mais baixo.

Uma parte levanta e outra afundou.

Uma que levanta e outra afunda. Quando a parte que afunda está mais perto de terra do que a parte que sobe, nós recebemos primeiro a descida e depois é que recebemos a subida. Isto junta-se a outro efeito, há situações na Terra em que a fonte está tão perto do território, que o território subside. Na verdade, a própria massa sólida baixa antes de vir a onda. E isso, que aconteceu, por exemplo, na América do Sul, já mais que uma vez, porque os tais antes que nós falamos de uma das últimas vezes, ainda aumenta muito o impacto do tsunami nas construções, porque nós baixamos a terra e a seguir vem o mar por cima. Agora, o que foi também importante aqui, foi que é só nesta altura que se começa a perceber que é preciso modelos, modelos que funcionem bem, que sejam capazes de reproduzir a fenomenologia que ocorre junto das costas. Não sei se viram, mas do que eu disse, a comissão tinha japoneses, americanos, gregos, portanto, são tudo zonas muito atraídas a tsunamis.

O oceano Pacífico é a zona mais atraída.

Exatamente. Este já é o princípio do movimento, que a seguir ganha outra importância com o Sumatra e depois então com a questão da central nuclear, ainda ganha mais importância. E estamos a falar de um mundo que se globalizou rapidamente, em que começa a haver informação disponível pra toda a gente de uma forma muito simples, e em que a UNESCO, na altura, tomou alguma liderança no sentido de tentar unificar as situações, porque a maioria da capacidade tecnológica do mundo não estava nas zonas mais sensíveis pra tsunami, estava no hemisfério norte, longe do mar, muitas vezes, e a ideia foi utilizar o conhecimento que existe nuns países para tentar proteger os outros.

Mas nós estamos a falar da Ilha das Flores por causa de um tsunami, de um sismo e de um tsunami, mas sobretudo do tsunami. Simplesmente, a Ilha das Flores, como eu referi logo no início, as ilhas são microcosmos, e como microcosmos permitem uma riqueza em muitos aspectos diferentes. E a Ilha das Flores tem, pelo menos, um grande mistério, que é o mistério do Homem das Flores. O que é o Homem das Flores? O Homem das Flores é um hominídeo, não é um Homo sapiens, é o Homo floresiensis, nem é o Homo erectus, é o Homo floresiensis, assim foi designado. Foi descoberto há pouco mais de 20 anos, 2003, numa grande caverna. E que tinha uma característica: era muito pequenino, mas totalmente pequenino. Estamos a falar de um hominídeo com apenas um metro, um metro e cinco centímetros, com uma caixa craniana do tamanho de um chimpanzé, portanto, uma cabeça pequenina, também. Uma espécie de homem errado, digamos assimparecido em termos de tamanho e cuja posição, a origem, a posição na evolução, ainda hoje não está completamente consolidada. Há já uma ideia sobre isso, vamos falar um pouco melhor disso. Mas tudo isto acontece num ambiente também que é muito particular, que é as ilhas. Porque há muitas outras singularidades nesta Ilha das Flores.

Sim, porque a costa da Ilha das Flores, a costa ocidental, ainda é dos locais da Terra que tem o dragão de Komodo. E além de ter o dragão de Komodo, tem o rato gigante das Flores.

O dragão de Komodo é o maior lagarto da Terra. Estamos a falar de um lagarto que pode ter dois a três metros de comprimento, um lagarto, não é um crocodilo, que pode pesar mais de 150 quilos. Estamos a falar de uma coisa séria.

E agora soma-lhe o rato gigante das Flores, que tem cerca de 45 centímetros de comprimento, mais um rabo de 70. Imagina o medo que isto não faria às pessoas que têm medo de ratos.

Eu tenho uma experiência, não minha, mas próxima de quem tem medo de ratos, mesmo daqueles que são minúsculos.

Isto aqui é um rato de dois quilos e meio.

É um rato como um coelho.

É um rato como um coelho.

A gente às vezes diz para as ratazanas que parece um coelho. Não, este tem a dimensão mesmo de um coelho, não parece, tem a dimensão de um coelho, só que é um coelho com um rabo enorme.

Claro. Agora repara, tem a tal gruta de Liang Bua, que é cada vez mais famosa, porque têm sido lá descobertas agora novas coisas que vamos já falar. E isto, para quem estuda a evolução da vida na Terra, é uma situação fantástica, porque percebe-se que houve ali um tipo diferente de hominídeo, que ele esteve razoavelmente isolado do exterior, senão não seria possível. E para além do dragão, que ainda hoje existe, e do rato, que ainda hoje existe, chegou-se à conclusão que também havia cegonhas gigantes, que tinham um metro e oitenta de altura.

Portanto, cegonhas tinham quase o dobro do tamanho do nosso Homo floresiensis.

O nosso pequeno homem.

O nosso hobbit.

E elefantes anões que completavam este fantástico ecossistema. Agora, para todos os que leram os livros do Tolkien e conhecem minimamente o Frodo e os seus amigos, imaginem o que é que é uma ilha povoada por hominídeos com um metro e dez de altura, que tinham, como disse o José Manuel, um crânio mais pequeno e uma dentição mais pequena, mas tinham braços maiores e tinham pés maiores.

Exatamente como o Frodo.

Exatamente como o Frodo. E que estavam cercados por cegonhas de 1,80 m, que de acordo com os últimos artigos publicados, eram capazes de voar. E por elefantes minúsculos como aqueles que ainda hoje existem e são os últimos na ilha de Bornéu. A que se junta o dragão de Komodo e o rato gigante, para se perceber que estamos a falar de um ambiente que parece hoje totalmente irrealista.

Parece irrealista. O que nós sabemos é que as ilhas, quando se estuda a evolução, e eu falei ao princípio do caso das Ilhas Galápagos, o que acontece é que as ilhas são ambientes relativamente pequenos, onde os seres vivos que lá estão ou chegaram lá por meios variados ou ficaram lá quando aquelas ilhas se separaram de corpos maiores, há várias hipóteses possíveis, mas depois evoluíram de forma isolada. E é uma das coisas mais fascinantes do estudo, por exemplo, da evolução das espécies, é a chamada especiação nas ilhas. Nós percebemos que vamos de ilha em ilha, como o Darwin foi nos Galápagos, e podemos encontrar ou espécies ligeiramente diferentes de aves ou, no caso dos Galápagos, eram tartarugas, umas com os pescoços compridos, outras com os pescoços curtos, todas elas refletindo ambientes ligeiramente diferentes. Eu já estive nos Galápagos e as ilhas são muito diferentes umas das outras e as tartarugas também. E aqui o que temos é o reflexo de um fenômeno que também acontece nas ilhas, que é, por um lado, o chamado nanismo insular. Nanismo é evolução para corpos muito pequenos, como é o caso do próprio homem floresiensis, do homem das Flores, como do elefante anão, como para corpos gigantes, como é o caso da cegonha ou o caso do dragão, o dragão de Komodo, ou ainda do rato gigante.

E junta-se ainda outra coisa: é que do ponto de vista geológico, nós não temos capacidade de explicar como é que no passado houve alguma ligação daquela ilha com as outras.

O que significa que não temos a certeza sequer como é que lá chegou aquele homem. A ideia é que eles sabem que ele esteve lá há 700 mil anos.

Até há 60 mil.

Até há 60 mil, portanto, esteve 650 mil anos. Ainda é bastante.

Não sabes como é que ele chega lá.

Não se sabe duas coisas: se ele chega lá, como chegaram muitos Homo sapiens, neste caso, às ilhas espalhadas do Pacífico, se chegou num barco, se chegou numa coisa do gênero, ou se, pelo contrário, evoluiu lá a partir do Homo erectus ou de um hominídeo mais antigo.

Mas alguém teve que chegar lá numa embarcação. E é também por causa disso, que este é seguramente um dos hominídeos mais controversos de sempre.

Há ali um outro nas Filipinas, deve ser parecido.

Também é bastante controverso. Este é muito controverso, de tal forma que ao princípio até foi atribuída a primeira descoberta a um problema médico, a um problema de nanismo, e que apenas só a descoberta de muitos mais esqueletos é que permitiu estabelecer que realmente não era o que se pensava.

Porque não se trata de um Homo sapiens. Porque nós temos nos Homo sapiens, pigmeus.Seres humanos com aquilo que consideramos não ser suficientemente diferente para ser uma espécie diferente, mas que são bastante mais pequenos. E aqui não estamos a falar disso.

A cegonha gigante conhece outros ambientes, mas completamente extinta há muito tempo e também está extinta na Ilha das Flores há umas dezenas de milhar.

E isso sem culpa dos homens. Porque há outras espécies de aves gigantes em que o homem meteu mão.

Aí aparentemente não pode haver porque o homem era mais fraco que a cegonha. Mas devo dizer que há um achado muito recente, publicado agora na Royal Society, de mais 21 ossos de asas dessas cegonhas gigantes e é a partir desse achado que se concluiu a sua capacidade de voar, coisa que durante muito tempo foi considerado que seria difícil, porque os pássaros muito grandes voam relativamente mal. Outra descoberta também muito recente da Ilha das Flores, também da mesma gruta e também interessante, teve com as galinhas. A galinha é um pássaro domesticado e nessa mesma gruta foram descobertas galinhas com 3200 anos. E não se percebe bem como é que chegaram lá as galinhas.

Isto é, se estavam ou não domesticadas, queres tu dizer. Há 700 anos não haveria lá nada.

Não havia lá nada. Portanto, como é que chegaram lá as galinhas cujos ossos agora são recolhidos? Esperemos que não tenha sido um piquenique descontrolado mais recente, mas eu acredito que os arqueólogos sabem datar com grande qualidade as suas amostras.

Este aspeto do gigantismo e do nanismo das ilhas pode ter a ver com aspetos adaptativos. Por exemplo, espécies que são vítimas de predadores podem ficar maiores se não tiverem que ser pequenas para se esconderem. Isso pode ter acontecido, por exemplo, com essas aves, ou mesmo com o rato. Espécies que precisam de mais alimento podem tornar-se mais pequenas porque estamos a falar de um ambiente com recursos limitados. Portanto, isto não acontece por acaso, não é uma singularidade, porque nós temos, por exemplo, aqui no Mediterrâneo, várias ilhas onde também tiveram elefantes anões. Temos a Sicília, temos a Sardenha, temos a Creta, temos Chipre. Em todas essas ilhas do Mediterrâneo houve elefantes anões.

Ou não temos Homo floresiensis.

Não temos é Homo floresiensis. Pelo menos tínhamos descoberto.

Que se saiba. Agora, a Ilha das Flores já há muito tempo não é portuguesa.

Isso também é uma história muito engraçada. Ou melhor, trágica.

É uma história trágica. Ela é vendida. É vendida em 1851 pelo seu governador José Joaquim Lopes Lima, que a vendeu a título pessoal, sem a autorização da Coroa. Portanto, vendeu, estava crivado de dívidas, e vendeu à Companhia das Índias Ocidentais.

O argumento dele é que aquilo não eram dívidas pessoais, eram dívidas do governo de Timor e das Flores. Mas enfim, o rei parece que não acreditou nisso.

Exatamente, o rei não acreditou. Ele, aliás, é demitido, é exonerado pouco tempo depois, por causa deste facto, mas na verdade, a ilha estava vendida e foi preciso, do ponto de vista diplomático, cobrir a situação. Ou seja, é feito um tratado entre Portugal e a Holanda da altura, em 1859, e esse tratado fixou a troca de territórios na zona de Timor entre a Holanda e Portugal, que viria a dar o que seria a configuração atual da descolonização.

Que é uma coisa um pouco estranha, porque nós não compreendemos bem porque é que Timor, Timor-Leste, como nós lhe chamamos, Timor-Leste é Timor-Leste, e depois havia um bocadinho uma espécie de enclave no meio de Timor Ocidental. Havia ainda um outro enclave, mas isso tem a ver precisamente com esse tratado de 1859, numa altura em que Portugal, muito provavelmente, não tinha forma de repagar aos holandeses o dinheiro que eles tinham pago ao tal senhor governador Lopes.

O Banco Mundial ainda não tinha sido fundado, não tínhamos entrado para a Comissão Europeia, não podíamos ir pedir dinheiro a ninguém.

Andávamos a pedir dinheiro a muita gente, mas o século XIX não foi um século de grande folga económica e financeira em Portugal.

E portanto, nós temos aqui uma situação que eu penso que muitos portugueses desconhecem, ou desconheciam, antes de nos ouvir, e que era uma ilha que tem o mesmo nome que outra, mas é muito longe dela, que ficou famosa por causa de um tsunami que teve um impacto enorme sobre a população e sobre a construção. Muita da construção era em palafitas, por exemplo, e o tsunami destruiu-as completamente, em que os habitantes fogem do tsunami subindo para árvores. São ilhas, não têm nenhum local para subir, que chega cinco minutos depois do grande abanão de 7.7 e que foi na altura também o maior sismo da região de Sonda, e que tem uma história ecológica tão extrema de um ambiente que só lembra, na verdade, o Frodo e os seus amigos. Esta, de certa forma, é que é a verdadeira tragédia da Ilha das Flores, que se confunde em nome com uma obra do nome parecido do grande Eça de Queiroz.

Eça de Queiroz, exatamente. E isso abre-nos um caminho, porque nós temos muito fascínio por ilhas. Havemos de voltar às ilhas em próximos programas. Há muitas ilhas que guardam mistérios ainda hoje difíceis de explicar. Todos os anos há novas teorias, por exemplo, sobre o que aconteceu à civilização de Rapa NuiPortanto, a Ilha da Páscoa e como construíram aquelas estátuas e elas, entretanto.

Como elas chegaram ali.

Como elas chegaram ali, de quem era aquela civilização, por que aquela civilização desapareceu. Mas neste caso, há esse lado que tu também viste lá, pudeste ver as cruzes espalhadas pelas aldeias, ter notícia das celebrações da Semana Santa, que é, apesar de tudo, os portugueses venderam aquilo, mas mantiveram lá uma influência, que é uma influência talvez a mais perene das influências culturais, que é a influência religiosa.

Religiosa e que, de certa forma, para quem pensa qual será o nosso futuro geopolítico e se nós existiremos como povo ou não daqui a um século ou daqui a dois séculos, é importante perceber que são sempre as questões mais humanísticas, quer sejam religiosas, quer sejam culturais, quer sejam artísticas, que são mais perenes no tempo. A tecnologia e a ciência podem começar do zero em qualquer altura. É importantíssimo, é o que nos pode dar riqueza, ou seja, qualidade de vida, mas elas são sempre transportáveis, são modificáveis, são começadas do zero. Enquanto que tudo o que é cultura, humanidade e religião, que é uma espécie de súmula, na minha opinião simplificada, das duas coisas, é aquilo que mais fica no tempo. E enquanto isso ficar no tempo, nós estaremos cá.

Sim, para tudo, para o melhor e para o pior. Estamos hoje a viver períodos que, de alguma forma, nos deviam fazer recordar isto, quer quando vemos que a tecnologia pode facilmente ser adotada por outros e que nos ultrapassam rapidamente, como está a acontecer com os países do Oriente, e noutros casos, como foi por causa precisamente de traços culturais muito enraizados, que países conquistaram a sua identidade e se mantêm independentes. E ali mesmo ao lado, temos o caso de Timor.

Ontem tivemos os dois a sorte-

Onde nós olhamos para Timor, eu já estive em Timor, não há nada que distinga um timorense do Leste de um timorense do Ocidente. Eles são exatamente iguais e falam mais ou menos a mesma língua, mas não querem estar juntos.

Não querem estar juntos. E ontem nós tivemos a sorte, os dois, de estar numa exposição de um amigo comum, que é um grande escultor português e pintor. Não sei se pode-se dizer pintor, mas acho que é uma desculpa.

É desenhador, é mais à arte gráfica.

Que é o José Pedro Croft. E é importante perceber que é absolutamente necessário perceber que as tradições culturais, artísticas e humanísticas têm que ser defendidas, porque elas são a única coisa que nos pode levar daqui para o futuro.

Excelente forma de acabar este programa. Encontramo-nos dentro de uma semana novamente.