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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos as principais questões no mundo da geopolítica mundial. Nesta edição contamos com a análise do professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Bernardo Valente. Seja muito bem-vindo, Bernardo Valente. Obrigado por ter aceitado este nosso convite.
Boa noite.
Boa noite. Vamos começar por falar da situação na Ucrânia. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky defendeu que a Europa deve participar nas discussões sobre a segurança do continente e deixou também um agradecimento aos aliados pela ajuda a Kiev, sobretudo para este inverno que se prevê muito frio na Ucrânia. Bernardo Valente, a Europa tem aqui uma oportunidade para aumentar o papel que tem neste conflito?
É uma oportunidade, sem dúvida, se bem que não deixa de ser difícil a Europa conseguir ainda aumentar mais o seu papel. Por quê? Porque se olharmos para aquilo que tem sido o papel desempenhado pela União Europeia, principalmente a Europa, se quisermos em termos mais latos, juntando, claro, os britânicos naquilo que tem sido o desenvolvimento da defesa ucraniana ao longo dos últimos dois anos, em que a partir do mandato Trump se começou a perceber que o eixo transatlântico se calhar já não era assim tão transatlântico, já não podia contar tanto com o lado norte-americano e que por isso precisava desenvolver a chamada autonomia estratégica na Europa, o que se tem vindo a fazer é precisamente apoiar a Ucrânia, até sendo contraproducente perante aquilo que eram os grandes pilares da política europeia para os próximos anos, no caso de não existir um conflito às portas da Europa. Se formos olhar até, por exemplo, agora para a presidência da Irlanda, da União Europeia, em seis meses comprometeu-se a reduzir o orçamento em vários mil milhões. A verdade é que essa redução do orçamento em vários mil milhões, para ser levada a cabo, implica que vamos ter que cortar bastante no Estado social. Por quê? Porque o apoio à Ucrânia não é negociável, ou seja, o apoio à Ucrânia é para manter enquanto o conflito também ele se mantiver e enquanto Vladimir Putin e o Kremlin não desistirem das suas ambições expansionistas. Para além disso, vemos cada vez mais as indústrias da defesa a trabalharem com várias sinergias entre a Ucrânia, agora até Portugal, curiosamente, e foram assinados novos acordos e memorandos para a possibilidade de estabelecerem-se sinergias na política industrial de defesa entre Portugal e a Ucrânia, até Kehr, empresa portuguesa, tem desempenhado também um papel fundamental nisso e que entretanto se deslocou não só para o Fenino, mas também para a Dinamarca, precisamente nesta onda de apoio transversal europeu à causa ucraniana. Por isso, há aqui dois fatores em que a Europa tem sido absolutamente determinante no apoio à Ucrânia e também fundamental para conter aquilo que tem sido um avanço muito pinríco da Rússia ao longo dos últimos anos de conflito na linha de fronteira, na linha de confronto. O primeiro é a nível orçamental, o que temos colocado na mesa. Portanto, perante o recuo dos Estados Unidos, a Europa tomou também nas suas mãos, nas suas rédeas, esta questão de continuar a fornecer orçamento à Ucrânia para que conseguisse pelo menos administrar os seus territórios, inclusive os territórios que administra à distância, que foram contestados pela Rússia desde o início do conflito e, para além disso, fornecer o armamento necessário para fazer face, por exemplo, à falta dos Patriots, que fala muito de capacidade antiaérea, de defesa antiaérea, que permitisse manter o esforço de guerra e que permitisse, aliás, até à Ucrânia, a certo ponto, começar a atacar as refinarias em profundidade do território ucraniano, que certamente tornará também penoso o inverno para os russos e assim não fica apenas o ónus no lado ucraniano de ter que suportar este inverno bastante rigoroso que se aproxima. Por último, também é importante dizer que a Europa tem tido um papel, mesmo que por vezes pareça que tem pouca autonomia, mesmo que por vezes pareça que tem várias vozes e que não estão coordenadas ou concertadas, mas também tem tido um papel nas sanções à Rússia, que enfraqueceram bastante a economia russa e que permitiram que, mesmo que o PIB russo continue a crescer, e essa ideia que é vendida parece-me até ser verdadeira, mas continua a crescer apenas e só devido à política de defesa, à indústria de defesa e os outros setores têm saído bastante minados de dentro da economia russa. Por isso é que exigirá, depois deste conflito, um grande esforço por parte do Kremlin e por parte da Rússia, quem ficar com a herança de Putin, para reformular a sua própria economia, porque a economia russa está muito virada para aí. Portanto, estes são os três elementos essenciais, diria eu, do papel europeu. E se realmente a Europa desempenhou este papel, não só nesses três elementos, mas em muitos outros, e que também se privou de muito do ponto de vista do seu Estado social e permitiu até que partidos menos orgânicos entrassem nos ecossistemas partidários de vários países no coração da Europa, também muito devido à guerra da Ucrânia, a Europa também merece, claro, ter uma palavra a dizer, sabendo que nós também, europeus, devemos muito aos ucranianos pela defesa que tem sido feita das fronteiras europeias.
Bernardo Valente, o ministro da Defesa da Finlândia defendeu hoje que a Europa deve assumir responsabilidade partilhada na defesa da Ucrânia, isto defende o ministro finlandês, em prol da segurança. Isto não pode ser visto como uma possível entrada no conflito por parte da Europa?
É uma excelente pergunta, porque a doutrina diverge bastante agora. O que temos são no fundo duas doutrinas, que é uma doutrina inicial, e que pode ser esta doutrina por parte do primeiro-ministro finlandês, em que explica realmente que a guerra já está em curso Não há muito que possamos fazer para conter o avanço russo, principalmente o avanço russo a partir dos lone wolves, a partir de alguns grupos que já estão implementados, já estão infiltrados no terreno europeu há muito tempo e são esses grupos que têm levado a cabo uma série de ações que fragilizam os Estados democráticos da Europa, que fragilizam as próprias infraestruturas, não só de transportes, como vimos agora com as ameaças de bomba ao longo da última semana, mas também as estruturas de governo que abalam e criam algum medo na população. Principalmente nos últimos meses temos visto bastante dessas ações junto a aeroportos, algumas através de drones, outras através de ameaças de bomba. E esta ideia de que, tanto através dessas ações como através dos ciberataques, a Rússia já está dentro da Europa e por isso a Europa precisa de reagir, vem tocar neste ponto que os representantes finlandeses também têm trazido à mesa, que é a ideia de que se estamos numa guerra, mesmo que seja uma guerra não declarada, a Europa tem que assumir a sua parte nesse conflito com a Rússia e perceber que se, por exemplo, a Finlândia e a Suécia, que são grandes interessados, que a Europa tome essa parte, que assuma essa parte de responsabilidade, porque quebraram a sua doutrina do não alinhamento ao juntarem-se à NATO, ao juntarem-se às instituições ocidentais de defesa, é importante que a Europa também consiga tomar esse passo e um passo musculado. Não quer dizer que ataque diretamente a Rússia, longe disso, mas que preserve a integridade das suas fronteiras e preservar a integridade das suas fronteiras implica aumentar a capacidade de dissuasão. E só se aumenta a capacidade de dissuasão com o aumento de armamento, ou seja, fazendo perceber ao inimigo, ao opositor, neste caso, à Federação Russa, que a Federação Russa não consegue entrar numa guerra direta com a Europa porque a Europa tem mais meios do que a Federação Russa neste momento e mais vitalidade económica. Esta é a primeira doutrina. A segunda doutrina, e que também existe bastante na Europa, e é verdade que são fações mais anti-Ucrânia ou mais pró-Kremlin que defendem esta perspectiva, que é uma perspectiva muito semelhante àquela que Vladimir Putin usou para justificar o início da operação militar especial, como chamou a esta intervenção do território ucraniano. E a ideia é que a Rússia só responde à União Europeia e só responde às instituições ocidentais porque as instituições ocidentais também têm um desejo maximalista de expansão. E esse desejo maximalista de expansão teve o seu maior retrato, ou o seu maior sintoma, com as últimas expansões da União Europeia para aquelas que eram as repúblicas do antigo espaço soviético. E isso enfureceu Vladimir Putin e há alguns europeus ainda das fações e dos partidos mais pró-Kremlin que defendem que existe também uma expansão ou uma tentativa de expansão continuada da União Europeia e das organizações internacionais para aquele que foi o espaço em tempos do Pacto de Varsóvia. No meu caso, esta segunda teoria colhe pouco apreço, mas a verdade é que cada vez há mais partidos, tanto da extrema-esquerda como da extrema-direita, a apoiarem esta mentalidade da União Europeia como um órgão maximalista que procura entrar no espaço russo. Isto para dizer que entre estas duas teorias, seja qual for a verdade, no entanto, temos um conflito há quase cinco anos às portas da Europa. E um conflito há cinco anos às portas da Europa significa que a defesa das fronteiras europeias tem sido assumida quase apenas e só por vidas ucranianas. E isso é extremamente injusto para a própria Ucrânia, quando a Europa, no fundo, sempre empurrou, a União Europeia sempre empurrou com a barriga, usando assim uma expressão mais feia, sempre empurrou com a barriga a possibilidade da Ucrânia se juntar à União Europeia. Mas felizmente, esta ideia de ter um Trump muito volátil e agora até eventualmente enfraquecido pelas midterms, permitiu a Zelensky e aos líderes europeus aproximarem-se, o que é sempre um ponto positivo para ambos os lados.
Vamos avançar, falar também sobre a situação do Oriente. Temos também aqui de acelerar um pouco. Temos apenas quatro minutos, ainda dois temas em cima da mesa. O primeiro, e sugiro, Bernardo Valente, dividirmos de forma igual o tempo, dois minutos para cada tema. O primeiro é o Irão, que estará disposto a discutir o programa nuclear para alcançar um acordo, uma informação avançada pela Bloomberg. O que é que nos diz esta posição, Bernardo Valente, em dois minutos para ainda falarmos sobre Israel.
Sendo muito rápido, o Irão percebe que, por um lado, os Estados Unidos, neste momento, ou a administração Trump, como estava a falar e é ponto perfeito, a administração Trump está mais fragilizada agora que nunca. O próprio secretário da Defesa, que agora é secretário da Guerra, Pete Hegseth, pode sofrer um impeachment nos próximos meses e que foi o grande obreiro desta intervenção. E o Irão agora percebe que começa a negociar na mó de cima, ou seja, os Estados Unidos, não só o eleitorado, mas a própria administração Trump, o que quer é que os Estados Unidos saiam o mais depressa daquele conflito. O Irão aceita negociar o programa nuclear, tal igual como já aceitou antes com o DCPOA, com o acordo feito por Obama na altura, mas as suspeitas ficarão sempre lá. Ou seja, pode negociar de forma oficial, não quer dizer que de forma oficiosa, não tente encontrar os seus meios subversivos e sub-reptícios para continuar a enriquecer o seu urânio. Por isso devemos ter sempre alguma cautela quando o governo iraniano, ou neste caso este regime teocrata iraniano, aceita negociar, porque de facto pode reduzir do ponto de vista oficial nas estruturas nucleares que conhecemos, oficiais, esse enriquecimento do urânio, não quer dizer que o faça depois nas sombras e sabemos que a Agência Atômica Internacional tem sempre muita dificuldade nas vistorias que faz a essas estruturas do Irão. Por isso não me parece uma mudança de paradigma e também é importante saber que Aceitou-se que a Arábia Saudita estabelecesse também um programa nuclear e foram os Estados Unidos que tiveram esta iniciativa. E o Irão nunca permitirá ter uma Arábia Saudita nuclear ou pelo menos nuclear acima do nível iraniano, bem como a mesma coisa também é verdade para o Estado de Israel.
O último tema em cima da mesa, Bernardo Valente, envolve Israel, ainda o cenário de pós-eleições. Tony Blair esteve reunido com Eisenkot, após também ter tido encontros com Benjamin Netanyahu e com Isaac Herzog. Que cenário é que temos neste momento em Israel após as eleições? Temos dois minutos até ao fecho deste gabinete de guerra.
Então dois minutos também para explicar as duas coligações que surgiram. Surgiu a primeira coligação inicialmente Netanyahu, que é no fundo a mesma coligação que mantém do mandato anterior com os ultraortodoxos, com os partidos que vêm dos estudos kahanistas, e esses partidos acabaram por formar uma coligação que é aquela coligação com o triado Smotrich-Ben Gvir e liderada por Netanyahu, e tiveram aqui agora uma oposição de outro bloco, um bloco centro-direita, se quisermos, que é liderado por Eisenkot, um antigo militar e que inclusive até perdeu o seu filho também militar já no conflito em Gaza. Esta coligação de Eisenkot tem nomes bastante versáteis e credíveis dentro da política israelita mais ao centro. E a grande questão, e uma vez que tiveram quase um empate técnico, é verdade que a coligação Netanyahu teve mais votos, mas nenhum conseguiu a maioria, e portanto Herzog, o presidente, não conseguiu indigitar nenhum dos dois blocos. Por isso, neste momento, o que se está a discutir, e é isso que Tony Blair vai discutir também com Eisenkot, é a possibilidade de retirar Netanyahu do poder, mas para retirar Netanyahu do poder e a coligação de Netanyahu, Eisenkot tem que aceitar fazer uma coisa que sempre disse que não faria e que já começou a fazer, curiosamente, e os próprios líderes dentro da sua coligação, uma espécie de líderes intermédios, também sempre disseram que não fariam, que é uma coligação com os partidos árabes. Já aceitaram fazer uma coligação com o partido árabe, agora falta o outro partido árabe para terem a maioria e para Herzog poder indigitar Eisenkot. Isto trará muitos problemas para Netanyahu, tanto do ponto de vista nacional como do ponto de vista internacional.
É um tema para continuarmos a acompanhar daqui para frente. Chegamos ao final do nosso tempo. Muito obrigado, Bernardo Valente, é professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Esteve na análise neste programa. Fica por aqui o gabinete de guerra e vai ficar daqui a instantes disponível em podcast.