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Lembram-se do furacão Ophelia? Ophelia com PH. Foi em outubro de 2017 e foram os seus ventos que criaram as condições ideais praquela segunda vaga de incêndios de 2017. Morreu gente em todo o país. Recordam-se da depressão Efraim? Foi há menos tempo, foi em dezembro de 2022 e, nessa altura, todos recordam, isso seguramente ainda, das inundações em Lisboa, Algés debaixo d'água, Enotes problemas, recordes de precipitação a serem batidos. Outra tempestade chamava-se Martinho. Essa foi há menos tempo, foi até há menos de um ano. Eu dessa tenho uma memória pessoal muito próxima. Ela atingiu a sua velocidade máxima de ventos no Cabo da Roca, uma rajada de quase 170 km/h. Na serra de Sintra terão caído mais de 100 mil árvores. Aquilo ainda está bastante devastado hoje em dia. Quer dizer, eu podia continuar por aqui adiante, porque nomes de tempestades não faltam. Sempre que temos um fenômeno climatérico mais extremo, e sequer nem muito mais extremo, damos-lhe um nome. E agora estamos a viver, ou acabamos de viver, a depressão Ingrid. Uma boa parte de Portugal trepou de frio, e nós estamos aqui pra falar um pouco não apenas disso. Eu sou o José Manuel Fernandes e este é o primeiro número de uma série de podcasts que vai começar na Rádio Observador. O nome é "O Resto é Ciência", que eu vou fazer em colaboração com o Jorge Miguel Miranda. Olá, Miguel.

Olá, José Manuel.

O Jorge Miguel Miranda é geofísico, ele foi professor, professor catedrático da Faculdade de Ciências de Lisboa e esteve mais de 10 anos como presidente do IPMA. Portanto, nós vimos muitas vezes, e ainda o continuamos a ver e a ouvir, sempre que a meteorologia nos surpreende, ou sempre que a Terra treme, ou sempre que há fenômenos que precisam de explicação. E aquilo que queremos falar nesta série de podcasts é precisamente sobre este nosso planeta, esta nossa Terra. O planeta é vivo, tem dinâmicas muito próprias, dinâmicas que muitas vezes não sabemos antecipar. Hoje em dia somos mais capazes de o fazer no que toca à meteorologia. Ainda somos completamente incapazes de o fazer, de prever, por exemplo, um grande sismo. E nas próximas semanas falaremos daquilo que nos maravilha, mas também daquilo que nos intriga e daquilo que nos inquieta. E nos inquieta hoje, porque receamos o que nos vai acontecer, mas que nos inquieta também no futuro, porque o futuro do planeta Terra, da Terra do homem, tem muito que se lhe diga. Nesta primeira semana, não podíamos deixar de começar por falar deste hábito de dar nomes às tempestades e como é que começamos a fazê-lo. Miguel, todos sabemos que as nossas piores memórias, provavelmente aquilo que nós não esquecemos sempre, é a memória do tempo, não é? Há sempre aquela ideia de que nunca fez tanto frio, nunca fez tanto calor, nunca fez tanta seca, nunca choveu tanto.

É verdade, José Manuel. E esse assunto tá estudado, que é o que é mais impressionante. Tá estudado por quê? Porque está completamente demonstrado que as pessoas não recordam números. Ninguém recorda o valor máximo da temperatura, ou o valor mínimo da temperatura, ou o valor máximo da precipitação. Isso são os serviços meteorológicos que fazem. As pessoas recordam as emoções que estão ligadas a certos fenômenos extremos. E, por exemplo, não é por acaso que na tua introdução falaste da serra de Sintra e do Cabo da Roca.

Sim, claro, que está perto da minha casa, vivi aquilo de perto.

E, portanto, a memória é sempre daquilo que tem significado pessoal. O que significa que nós, apesar de hoje em dia prevermos bastante melhor, muitíssimo melhor do que aqui há 100 anos, o tempo que vai ocorrer nas semanas para frente, na verdade, a ideia de surpresa e de novidade mantém-se, por vezes até ampliada pela comunicação social, o que é fantástico. A gente imagina que há 100 anos, quem estava no campo a plantar, por exemplo, ou a tratar a terra, e que é tremendamente dependente da meteorologia, tinha menos tensão do que nós temos quando se diz que vem uma vaga de frio, que vai atingir o continente norte a sul e com 30 cm de neve. E qualquer número que se diga, mesmo que seja pouco importante pra um técnico da área, é visto como sendo uma coisa completamente arrepiante. Dois dias depois, tá esquecido. A menos que haja uma memória pessoal que lhe foi associada. Olha, um veículo que foi deixado na rua e onde caiu uma árvore em cima. Ou, por exemplo, uma inundação à porta de casa que não se conseguiu entrar.

Pois. E, por exemplo, eu estava a pensar nisso, porque uma das coisas que nós temos recorrentemente são dois fenômenos recentes, que é o seguinte: por um lado, eu lembro que as primeiras vezes que fui aos Estados Unidos, dava-se uma importância brutal à previsão meteorológica. Até àquele famoso filme do Dia da Marmota, em que o tempo volta atrás e, portanto, há estrelas de televisão, que são as estrelas do boletim meteorológico. Eu um dia perguntei a amigos meus que viviam nos Estados Unidos por que era isso. Ele disse: "Sabes, é que aqui isto pode mudar de um dia pro outro". E eu agora fico com a sensação de que nós, que achávamos graça ver o boletim meteorológico, como se chamava quando a previsão era menos acertada Houve um período em que isto de facto era mais ou menos estável, chovia no verão, não chovia. E agora temos a ideia que todos os dias temos que saber que tempo é que faz no dia seguinte.

Porque nós privilegiamos sempre o recente em relação ao passado. Na verdade, o nosso passado é amalgamado numa ideia que é a nossa média e é aquilo que os meteorologistas chamam a normal. E depois o recente, o que aconteceu ontem, o que está a acontecer hoje, para nós tem uma importância completamente desmedida. Nos Estados Unidos é verdade que a previsão meteorológica é muito seguida, e até há canais que só transmitem previsão. Mas atenção, em Portugal também, na Irlanda também, nos países que estão muito dependentes do oceano, que são países que têm mais variabilidade, e portanto na costa oeste dos Estados Unidos é exatamente a mesma situação, ou na costa leste, por uma razão diferente, tem a ver exatamente com os ciclones tropicais e extratropicais. Isto tudo é seguido com uma grande importância, porque impacta realmente a vida das pessoas.

Mas, por exemplo, nós temos agora esta tempestade Ingrid. Na altura em que estamos a gravar, ainda não sabemos exatamente toda a dimensão que ela possa ter. Mas, de repente, nas notícias: nevão histórico. E a sustentabilidade do nevão histórico era: vai nevar no Alentejo, vai nevar, se calhar, na serra do Algarve. Mais uma vez, como tu disseste agora, a nossa memória depois tem outras coisas. Eu lembro-me de uma vez ter ido passar o Carnaval à Beira Interior. Carnaval, portanto, um pouco mais lá para diante, nem sequer foi janeiro. E ter começado a apanhar neve na estrada. Na altura, fim dos anos 80, não havia telemóveis, não havia estas aplicações, não havia nada, não havia autoestradas, ia-se para a Beira Interior passando pelo Alto Alentejo, e ali por volta de Nisa, por essa zona, já estava tudo coberto de neve. Quem fala em nevão histórico, porque chega ao Alentejo, é porque de facto não tem ideia do que são nevões históricos, é isso?

Não, nevou no Algarve há oito anos. Faz exatamente oito anos agora que nevou no Algarve. A serra do Monchique tem um ponto que o mais alto é a Foia. Hoje em dia não é tão conhecido como no passado. Vocês não se lembram, mas quando as comunicações não tinham telemóveis, tinham foi os hertzianos.

Era a emissora da Foia.

A emissora da Foia. A Foia era um ponto crítico.

Hoje a Foia só para voltar a Portugal na bicicleta, é que agora há uma subida à Foia.

Mas antigamente era onde havia os instrumentos geofísicos todos e as comunicações. E uma parte significativa do inverno era muito difícil ir à Foia fazer a manutenção dos equipamentos. Já ninguém se lembra disto, porque hoje em dia se viaja mais facilmente, há o 4x4, há toda essa panóplia de instrumentos e já não precisamos tanto desses pontos mais altos. Mas, na verdade, haver neve nestas regiões sempre ocorreu. De uma forma rara, não é uma coisa vulgar, tem normalmente uma duração curta, ou seja, ela funde muito rapidamente. E já agora, é interessante perceber se ela também é importante, porque a água que provém da neve é muito importante para a agricultura, porque ela funde de uma forma lenta e portanto, em vez de escorrer à superfície, alimenta diretamente as raízes das plantas. E há muitos países, em particular do Norte da Europa, que dependem claramente da neve. A redução da neve, que é um facto indesmentível, a neve está a reduzir-se. E essa redução da neve, um dos grandes problemas que põe tem a ver com a água doce que ela disponibiliza. Portanto, não é provavelmente apenas a temperatura. Há a parte, obviamente, dos resorts de esqui, que abaixo de uma certa altitude já têm dificuldade em manter-se, mas tem a ver essencialmente com uma espécie de armazenar água no estado sólido, que depois fica disponível lentamente no estado líquido.

Pois, isso é o tema das alterações climáticas, que temos vindo a falar muitas vezes. Mas continuando no tema, nesta questão da memória, há outra questão que também me faz sempre alguma confusão, que é a ideia de que estamos sempre a viver os fenómenos mais extremos. Por exemplo, em Portugal, não sei até que ponto é que isso está totalmente comprovado, porque as medições não eram tão exatas como são hoje, mas o fenómeno extremo do século XX terá sido o ciclone de 41.

Sim, ainda é o mais importante.

Ainda é o mais importante, mas o ciclone de 41, recentementes, praticamente já não está ninguém vivo, com memória do ciclone, muito pouca gente, quem estará vivo era criança. Uma das coisas que me faz impressão é que há poucos estudos sobre o ciclone de 41.

É verdade. Digamos, do ponto de vista da Geografia, há estudos realizados pelas equipes de Geografia, penso eu até de Coimbra.

Sim, há um estudo em Coimbra e há um estudo em Sesimbra.

Pois, acredito.

Mas de resto, climatologia, não vi nada, não se encontrou nada.

Não é realmente muito estudado, porque há uma questão que é preciso ser bem compreendida. A maioria destes fenómenos extremos, quando nós aquecemos um bocadinho mais o planeta, não é óbvio que aumente em todos. Aliás, por vezes até há situações contraditórias. O caso mais típico são os ciclones tropicais. Quando a água do mar está mais quente, e a água está mais quente, claro que há mais energia disponível. Mas, por outro lado, a estratificação da atmosfera também varia. E, na verdade, um desses efeitos jogam em sentidos contrários. É por isso que se fores ver a literatura científica sobre o assunto, apanhas as duas situações. Não só começar-se a tentar ver, não, não há uma frequência maior, porque não há uma frequência maior. A única coisa que se está a observar é talvez uma clusterização maior, sei lá, ciclones seguidos uns a seguir aos outros, que estão a afetar significativamente a Flórida. E verifica-se que talvez o desenvolvimento seja mais rápido, mas como a nossa capacidade de observação não é igual agora e no passado, é complicado dizermos até que isso está realmente a ser observado.

Quer dizer, mas por exemplo, um fenómeno como aquele que aconteceu o ano passado em Espanha, a Dana.

É um fenómeno conhecido, histórico.

Mas com aquela dimensão.

Mesmo com aquela dimensão, tem a ver apenas com a interação entre a montanha e Valência, a cidade.

E não também com a temperatura do Mediterrâneo naquela altura? Falou-se muito disso.

Fala-se muito da temperatura do Mediterrâneo. É verdade que com o Mediterrâneo mais quente, tem mais energia disponível.

Tem mais Vapor de água na atmosfera.

Nós temos mais vapor de água na atmosfera. Agora, deduzir-se imediatamente que os modelos climáticos não estão a apontar necessariamente nesse sentido. E é preciso perceber esta mesma coisa: são modelos, e os modelos não captam a realidade toda. Nós vivemos a nossa vida, eu sou setentão, ele é sessentão.

Olha, não há grande diferença.

Já não falta muito pra chegar à minha categoria. Nós vivemos a nossa vida na ideia de que a ciência era capaz de compreender tudo. E a ciência compreenderia tudo como? Com equações, com física, com química. Depois a biologia já tinha equações um pouco mais complicadas, mas ainda tinha equações. E pensamos assim: se soubermos as equações que regem o sistema natural, nós somos capazes de prever tudo. E essa era a ideia de que existe um deus físico-matemático que desenhou o universo dessa maneira. Depois começaram a aparecer dúvidas sobre o assunto. Apareceu o von Neumann que diz: "Não, calma lá, que a predictabilidade não é infinita, é o tal bater das asas".

Batendo asas.

Bater das asas na América do Sul, que faz um furacão em Nova York. E a dizer assim: "Não, uma pequena variação pode se propagar pra uma grande variação". E depois começou a aparecer a ideia: "Não, está bem, mas nós fomos capazes de fazer muitas previsões, nós somos capazes de aumentar a nossa capacidade de conhecer o futuro". E então foram comprados supercomputadores por todo lado pra tentar fazer muitas previsões e ver a variação de umas pras outras. E entretanto, apareceu a inteligência artificial a dizer: "Não, nós não precisamos de equações pra nada, nós queremos nos agarrar aos dados e a partir dos dados vamos saber tudo".

Explicar lá melhor isso.

Não é bem o deus estar nas equações, é o deus estar nos dados.

Mas os dados têm que ser relacionados uns com os outros, eles não são só com equações.

A inteligência artificial tem um sistema bastante opaco, em que de uma forma, a partir dos dados do dia I, calcula o que devia ser no dia I mais um, sabendo o que se observou no dia mais um, corrige o seu modelo preditivo.

Faz isso com base mais na memória de eventos anteriores parecidos.

É só a memória de eventos anteriores, é alimentado por arquivo, como a gente chama, alimentado por arquivo. O que se passa é que nós não temos dados de todos os sítios em todos os tempos. Temos de alguns sítios nalguns tempos e, portanto, não temos acesso a toda a variabilidade do sistema natural. Eu não sei se o deus está nas equações, se o deus se esconde por trás dos dados, mas sei uma coisa: é que nós estamos a prever cada vez melhor, mas o facto de prevermos cada vez melhor está a reduzir os impactos, obviamente que está, mas não está a reduzir o impacto psicológico. Parece que o impacto psicológico se mantém exatamente ao mesmo nível, como nós de certa forma tivéssemos necessidade de drama. E nós às vezes temos necessidade de drama.

Quando falas de impacto psicológico, estamos a falar, porventura também, desta diferença que é: nós hoje vivemos quase todos em cidades.

Claro.

Portanto, deixamos de ter uma relação até com o próprio tempo, própria de quem vive no meio rural. Isto não é um fenômeno português, é um fenômeno universal. Ainda há alguns países em África que têm sobretudo muitas regiões rurais, mas a maior parte da população já vive em cidades, em todo lado. Viver em cidades não devia ser o contrário. Nas cidades nós estamos protegidos destas variações.

Mas parece que quanto mais protegidos estamos, mais protegidos queremos estar. Repare, falaste há pouco da questão dos nomes das tempestades. Os nomes das tempestades são fixados a priori. E qual é a dificuldade de fixar o nome? Olha, é como os modelos dos automóveis. Sabe que os construtores de automóveis têm grandes dificuldades pra ter o nome que tenha o mesmo significado e seja compreendido no Japão, na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália. E as tempestades é a mesma coisa. Aqui no Atlântico, os países que partilham esta parte do Atlântico Nordeste é Portugal, Espanha, França, agora também Andorra, Irlanda e Inglaterra. E estes países têm que fixar um conjunto de nomes que todos os habitantes percebam. Por isso é que aparecem as Ingrids, porque Ingrid, aparentemente, todos os países são capazes de perceber o nome Ingrid.

Mas Ofélia já foi assim um pouco, Ofélia com PH.

Ofélia.

Nós tínhamos a Ofélia do Pessoa.

E é uma personagem da mitologia também.

Da mitologia.

Na verdade, são nomes que são compreendidos por toda a gente. E eles começaram a ser utilizados exatamente pra se poder transmitir a informação de um país pra outro e ser compreensível o que estava a acontecer. Porque nós também às vezes temos necessidade de antropomorfizar os problemas. Uma coisa é a gente dizer: "Uma baixa de pressão cavada com 980 milibares aproxima-se da península Ibérica". Desculpem, o impacto disto ao pé da Ingrid está a chegar e chega amanhã, é bastante diferente. E as pessoas preferem a Ingrid. E esse sistema começou inicialmente como uma linguagem entre serviços meteorológicos, tornou-se completamente popular.

Bem, nós acabamos aqui a primeira parte do programa. Vamos regressar dentro de alguns minutos. Estamos de regresso, estamos aqui a falar de nomes de tempestades. Mas, seja lá como for, olhando para a sua frequência, estavas a falar há pouco de frequência e não saber se há mais ou menos frequência. Mas a ideia com que, apesar de tudo, se fica, fazendo buscas por nomes, é que a frequência é muito grande. Pelo menos os nomes são muito distribuídos com grande, não diria parcimônia, com grande generosidade.

Sim, se nós virmos os últimos anos Eu, por exemplo, como te disse, estive no IPMA desde 2012 até 2023. E devo dizer que se considerarmos só esse período, há um aumento evidente de frequência de ciclones tropicais e extratropicais que atingem os Açores e o continente. Claro que há. Mas será que isto é verdade na escala do século? E quando tu falas da tempestade de 41, se isto é à escala do século, isto não é totalmente verdade. Nós temos também variabilidade e a variabilidade é importante. E, portanto, o que nós estamos a assistir é que sabemos que do ponto de vista da termodinâmica básica, tem que haver mais água na atmosfera, porque a Terra está um pouquinho mais quente, vai cada vez haver até mais água na atmosfera. Aparentemente, olhando para os últimos anos e talvez as últimas duas décadas, parece que a água está mais mal distribuída. Mas repara, ainda aqui há meia dúzia de anos, estávamos hoje a falar da seca. Participámos, aliás, ambos em reuniões públicas em que se dizia que não valia a pena ter barragens no Algarve porque não chovia. As barragens do Algarve tiveram nos dois dias passados, as primeiras grandes descargas. Portanto, tanta água que foi preciso descarregar as barragens. E isso mostra uma coisa que-

Mas isso também tem a ver com variabilidade, não é?

Tem a ver com a variabilidade.

Mas aconteceu várias vezes. Por exemplo, eu tenho ideia, há umas cheias em Lisboa há 20 anos que acontecem logo a seguir a um período longuíssimo de seca.

E vamos ter outro período de seca, provavelmente também no Sul, e se tivermos inteligência suficiente para ter água armazenada que chegue pra atividade econômica, somos um povo inteligente que sabe guardar a água do tempo em que chove pra água do tempo em que é precisa. Se cairmos naquela tentação de ver o presente como sendo o passado e pensarmos que o presente é que é a realidade desde sempre, não chove ou chove muito, então não conseguimos sair daqui, porque realmente há esta contradição que começámos a falar ao princípio, entre a memória humana da meteorologia e a memória numérica da meteorologia. E a memória humana é frágil e leva a comportamentos errados.

Pois, nós falámos aqui há uns tempos, quando foi alguns desses extremos climáticos, penso que numas recentes secas na Europa, apareceram aquelas pedras que assinalavam as secas históricas de séculos anteriores, que não apareciam há décadas. Portanto, o que quer dizer é que há uns extremos climáticos no nosso passado, que nós não conhecemos, nós não temos sequer noção deles. Já não falo daquilo que se passa nos rios, porque os rios foram regularizados, deixou de haver o rio Tejo debaixo da água, enfim, o Baixo Mondego ainda fica debaixo da água, a baixa do Porto e de Gaia estava sempre inundada todos os anos e deixou de estar, porque há albufeiras, barragens a montante. Mas se excluirmos isso, a quantidade de precipitação e a sua variabilidade não é muito diferente. Os máximos de variabilidade em rios do sul da península é absolutamente brutal.

Isso é a história da bacia do Mediterrâneo. A bacia do Mediterrâneo é isso. Deu-nos coisas fantásticas. A nossa civilização é a civilização da bacia do Mediterrâneo, do Tigre e da Mesopotâmia. Mas também teve grandes variações. Nós sabemos bem que o celeiro de Roma era no norte de África.

O celeiro de Roma era na atual Tunísia, Cartago, não é?

Na atual Tunísia, em Cartago. E, portanto, tudo isto tem mudado. As mudanças são mudanças planetárias. Agora temos uma mudança diferente, porque estamos sempre a caminhar no mesmo sentido. Mas, na verdade, a variabilidade está conosco praticamente todos os dias.

Mas, por exemplo, já agora estamos ultimamente na atualidade, muito próxima, que é até a variabilidade de uma região como a Groenlândia, em que houve uma colonização por noruegueses, islandeses, eles teriam vindo da Islândia, e depois o desaparecimento misterioso, e depois o regresso novamente. O que é que nós conseguimos saber? Agora já sabemos bastantes coisas sobre a variação do clima dessas zonas, e foi maior do que nós imaginamos hoje, não é?

Essa zona é uma zona-- deixa-me começar por outro ponto, até porque tu és biólogo e, portanto, isto vai ter mais ao teu coração.

Sou biólogo e compreendi.

Sim, mas tens uma cultura biológica. A Península Ibérica é considerada um chamado santuário da biodiversidade. E isso tem uma razão de ser. É que apesar de todas as mudanças climáticas de grande escala que ocorreram nesta região da Terra, nós ficamos sempre naquele ponto que não estamos nem tanto a norte, nem tanto a sul.

Não gelou tudo, nem secou tudo.

Exatamente, mas nós aqui conseguimos preservar. E o que significa que as regiões do Ártico são regiões que têm grandes oscilações. Lembra, por exemplo, dos fogos florestais. Todos os anos ardem milhões de hectares no Ártico e ninguém dá uma grande importância a isso, devido ao fato da população ter lá uma densidade muito baixa. Mas, na verdade, é uma zona que é muito sensível a pequenas alterações. A Terra aumentou quase um grau e meio neste momento, mas o Ártico aumentou o dobro ou o triplo. Portanto, é muito diferente. Nós tivemos agora temperaturas no inverno, na Islândia, que eu não desisto de cabeça, chegaram quase a 20 graus. Portanto, estamos a falar de um mundo que é um mundo diferente. Agora, a Groenlândia também já teve um passado verde. Pode ter sido limitado, mas teve um passado verde.

Há quem diga que foi, há uma história curiosa sobre isso, que aquilo chama-se Greenland, portanto, terra verde, não porque fosse verde, mas por marketing Porque o Érico Vermelho que foi para lá precisava de levar pessoas e então não ia falar para ninguém para a terra de gelo, para a terra branca, então disse que aquilo era verde. Enfim, mas essa é uma lenda, porque aquilo nunca terá sido muito verde.

Aquilo nunca pode ter sido muito verde. Eu sei que tem havido um grande recuo do permafrost e, portanto, há muito trabalho a ser feito nesse domínio, aliás, é um problema.

Permafrost, para quem não sabe exatamente, é a terra gelada.

É a terra gelada, é o solo que está por baixo do gelo. É muito importante para os investigadores em biologia, porque recuperam organismos vivos e princípios ativos que neste momento já não estão disponíveis noutro local.

Mas para a paleoclimatologia também, porque consegue-se perceber qual era.

E é assim para os vírus, porque tem sempre o receio que haja um vírus que esteja alojado na região que se torna a seguir descoberta.

Aliás, há uma história curiosa, não tem nada a ver com isto, mas quando se tentou descobrir o que é que tinha causado a gripe pneumónica, que depois acabou por se descobrir nuns frascos que estavam numa espécie de arquivo militar em Washington. Mas o sítio onde se foi buscar foi a uma terra gelada do Alasca, onde tinham morrido pessoas com a pneumónica e onde se acreditava que não se tinha degradado tudo. Precisamente por isso, e com um receio brutal que se libertasse, descongelasse aqueles restos humanos que ali estavam, voltasse o vírus. O vírus estava por aí com outras variantes. Mas tudo isto para dizer que ainda há outra coisa do permafrost, que é aquilo que pode assustar muita gente e que tem a ver com as alterações climáticas. É que o permafrost ao derreter liberta não CO₂, mas CO₄, portanto, metano. E o metano tem um efeito de estufa ainda não sei quantas vezes superior.

Muito maior, mas também tem uma vida mais curta. Um tempo de residência. Já agora, voltando à nossa questão dos ciclones tropicais, e uma vez que estamos a falar para os nossos ouvintes, sabes porque é que se chama ciclone?

Não. Não sei.

Era bom saberes. Porque um movimento é ciclónico quando tem o mesmo sentido da rotação da Terra, e anticiclónico quando tem o movimento contrário à rotação da Terra. A Terra roda ao contrário das pontas do relógio. O que é crítico nos ciclones é que a Terra roda muito depressa, não sei se as pessoas têm ideia disso. Se nós estivéssemos no Equador, nós fazemos 40 mil km num dia, em 24 horas. Portanto, qualquer conta barata mostra que se nós não arrastássemos com a atmosfera, andávamos a mais de 1000 km/h, 1500 km/h, que é uma velocidade estonteante.

É superior à velocidade do som.

Exatamente. É muito mais que a velocidade do som. Isto dito assim pode parecer estranho, mas não é. Se pensar bem, é razoavelmente simples de perceber. Por isso é que há os ciclones e depois eles se propagam com esta velocidade.

Há pouco dizias que nós, na tua memória recente de passagem pelo IPMA, uma coisa que podes dizer é que o número de ciclones tropicais a chegar, pelo menos aos Açores, aumentou muito. Como é que nós podemos interpretar isso?

De todos os ciclones tropicais que atingiram os Açores, eu diria que aquele que foi mais complexo foi o Lorenzo, porque o Lorenzo tinha uma dimensão espacial muito grande. Toda a gente está farta, seguramente, de ver aqueles filmes catástrofe dos mega ciclones, e pergunta-se muitas vezes qual é o maior ciclone que se pode fazer. Nessas alturas, até é muito lugar a ouvir-se dizer que aquela escala de Saffir-Simpson, que leva a categoria cinco. "Vamos ter que criar a categoria seis, porque estamos a falar de coisas muito maiores que 250 km/h de velocidade de vento." Até agora não parece ser necessário, pelo menos até agora. Mas o que parece, isso é intuição, é que eles estão a se desenvolver muito depressa, ou seja, é o chamado ciclogénese explosiva, em 24 horas passam de categoria um a categoria cinco.

Quando diz isso, aquilo que eu estive a ler sobre o ciclone de 41, é que também é uma ciclogénese explosiva.

Mas não é um fenómeno novo.

Portanto, não é novo.

Não é novo. A dimensão espacial é grande, mas atenção que a nossa capacidade de avaliar objetivamente a dimensão espacial está limitada aos satélites, portanto, aos anos 70 do século passado. Antes disso, não temos capacidade de dimensionar completamente estes sistemas. E a questão aqui não está em ser dramático, mas em ser sereno. Nós temos grande capacidade de prever, vamos utilizar isso para condicionar os nossos comportamentos e vamos tentar tirar isto do dramatismo diário, porque temos tantos problemas para nos ocupar a cabeça, que seguramente este é um dos menores.

Por exemplo, uma das coisas que eu não sei o que é que o Dr. Mateus disse, que agora entrou muito na moda se falar em comboio de tempestades. Enfim, é umas coisas desse género, que vamos passar aí, vem aí um comboio de tempestades e, portanto, vamos ter não sei quantas.

Mas isso existiu sempre, praticamente. Isso é o que se chamava a situação sinótica de inverno. Nós temos o verão, que é o típico ciclone dos Açores, o tempo é limpo, a pressão é elevada.

O tempo é limpo, exceto na Serra de Sintra.

Menos na Serra de Sintra. E no Cabo de Roca.

E no Cabo do Roca.

E depois temos o inverno, e o inverno tem sempre estes sistemas que vêm do Atlântico. É quando os aviões no aeroporto começam a aterrar ao contrário, de norte para sul, em vez de sul para norte. Aquela terrível nortada que tanto dificulta a vida dos praieiros deste país, a partir das 17h, já não é tão importante no inverno. Em contrapartida, temos um tempo muito mais variável, temos precipitação e temos umidades elevadas. Mas a nossa riqueza, de certa forma, tem a ver com esta variabilidade, tem a ver com o facto de nós podermos ter água e calor. É por isso que se plantam espécies tropicais no sul do país.

Sim, exactamente.

Temos exactamente calor e água. Isso é uma riqueza sem quantidade de valor.

Mas ao mesmo tempo também produzimos no centro do país muita massa verde, que depois seca no verão e é ótima para incêndios.

Esse é o outro lado do problema, é a produtividade vegetal, que é realmente muito elevada. Por vezes, quando se fazem comparações entre os riscos de incêndio florestal que ocorrem, por exemplo, em Portugal e ocorrem noutras regiões da Europa média, não se está a entrar em conta com isso. A nossa produtividade vegetal é realmente muito elevada. E sendo muito elevada, é um benefício e é um problema. Ela será um benefício, se formos capazes de industrializar. Será um problema, se não formos capazes de fazer.

Não temos sido. Voltando agora às tempestades e estas tempestades que tivemos mais recentemente. Como é que nós nos devemos preparar para situações destas? Porque, de facto, aquilo que também é recente foi passarmos a ter os alertas. Alertas amarelos, laranjas, vermelhos e alertas nos nossos telemóveis. Isso é eficaz?

Isso é muito eficaz e é muito recente. É uma questão que é interessante as pessoas perceberem. A uniformização dos alertas meteorológicos ocorre há meia dúzia de anos. Antes dessa meia dúzia de anos, cada país tinha o seu sistema, três classes, quatro classes, o que fosse. Eu quero não falhar na data, mas diria 2015, 2016, que há um acordo na Europa para haver um único sistema de cores. E haver, tal como toda a gente conhece hoje, o verde, o amarelo, o laranja e o vermelho. Tornaram-se muito importantes, essencialmente, por causa do turismo. Inicialmente, a grande questão que estava aqui era que o turismo trouxe tão importante, que nós tivemos que mudar uma parte da nossa forma de conhecer o sistema natural. Lembra-se, por exemplo, do tsunami de Sumatra. Foi, para os países do Norte da Europa, o maior desastre da história desses países.

Sim, pelo número de pessoas que morreram lá.

Sim, mas eles não faziam a mínima ideia o que era um vulcão e um tsunami. E portanto, quando as pessoas mudam muito de local na Terra para fazer turismo, têm que começar a conhecer os vários ambientes que existem. E esta vantagem das cores é que uma pessoa que está num país que está noutro, compreende perfeitamente a cor que está a ser feita. A partir do momento em que as telecomunicações e os smartphones permitem disponibilizar isso de forma aberta, começaram a ser divulgados. E depois, há uma fase inicial em que alguns países, em particular aqueles de cultura mais liberal, tentam que isso não seja feito por serviços oficiais, porque achavam que era uma área de negócio, mas depois estabeleceu-se uma ideia que isso não era uma área de negócio, era um direito dos cidadãos e, portanto, deviam ser os serviços sociais a emitir esses avisos. Hoje em dia, isso circula de uma forma unificada e eu penso que eles são compreendidos por toda a gente. A gente sabe o que é que é o amarelo, o vermelho. Por isso é que quando há um aviso amarelo e na comunicação social é descrito um cenário que parece o apocalipse, sabe-se que não pode ser verdade, porque o apocalipse é pior que o vermelho. Eu diria que ainda não temos cor para o apocalipse.

Mas, por exemplo, uma situação que se está a viver também por estes dias, mas que é uma situação normal de inverno, que é a agitação marítima.

Sim, aí é diferente.

A agitação marítima, para quem vive ao pé da costa, devia ser uma coisa a que devíamos estar habituados. No entanto, há sempre várias coisas que acontecem. Há pescadores amadores, pescadores desportivos. Há mirones que vão ver as ondas bonitas e depois também podem ser arrastados e às vezes há mesmo desastres que têm a ver com profissionais.

Por que isso acontece? É preciso ver que esta nossa relação com a costa, tão íntima, é recente também, é século XX. Até ao século XIX, as populações afastavam-se da costa. Nós agora é que cada vez mais queremos estar em cima da primeira linha, exatamente porque estamos habituados a estar protegidos. Pela engenharia, pelo cimento e pelos sistemas de saneamento. Contudo, o mar, como diria o poeta, engana muito. Esta ideia de que nós vamos conseguir ir dentro d'água e voltar com facilidade, quando nós temos velocidades significativas de corrente, quando temos agueiros ou quando temos, por exemplo, ondulação como vai estar agora, amanhã. Amanhã, quer dizer, no sábado, é o dia deste ciclo do Ingrid, é o dia mais complicado do ponto de vista da agitação do mar, porque vamos ter 10 metros de altura significativa norte a sul. Isto não é muito vulgar e nalgumas regiões vai ser, para o tempo de vida das pessoas, quase novidade.

Há probabilidade de haver danos graves na costa.

Há. O período das ondas não parece ser muito grande, o que eu vi nas previsões era cerca de uma dezena de segundos, ainda não é muito para ser muito assustador, porque a energia tem muito a ver com a altura da onda e o período. Mas existem condições para haver alguns prejuízos significativos. Não diria destruições tipo Lorenzo, mas é preciso realmente todo o cuidado, mas eu penso que a Autoridade Marítima Nacional está a fazer o que é necessário para isso.

Sim, mas, por exemplo, nós habituámo-nos, como tu disseste há pouco, a viver perto da costa. Ontem recebi um Um texto de alguém que vivia na zona de Aveiro a dizer: "A população do Furadouro está aflita". Mas nós sabemos que há uma parte da costa portuguesa que está a recuar. Não é um fenómeno simples, porque uma parte da costa portuguesa recua porque houve alguma alteração do nível do mar. O nível do mar começou a subir, mas começou a subir há muito tempo, mas muito pequeno. Mas, sobretudo, há menos areias, porque as areias depositam-se menos. Se formos ver os mapas históricos, havia alturas em que a costa era muito mais para dentro. Na lagoa de Óbidos, os barcos entravam por ali adentro e iam até à base do Castelo de Óbidos, coisa que hoje em dia não é possível. Em Aveiro, a barra não estava fechada, mas agora está tudo a voltar para trás outra vez. Para achar que a natureza é viva. E não é só a natureza viva, a natureza biológica, é a natureza.

Primeiro, a natureza biológica também influencia. Segunda questão, quando nós fazemos obras por termos interesse económico nisso, por portos, proteção de praias, claro, criamos problemas a montante ou a jusante. A circulação de sedimentos na costa portuguesa tem sofrido alguma alteração, mas eu diria que o mais importante são os obstáculos que se criaram e que ainda não encontraram uma resolução tecnológica, não quer dizer que não se venha a encontrar, suficiente para não criar tantas instabilidades.

Estás a falar, quando dizes os sedimentos, são trazidos pelos rios e que deixaram de ser, ou aqueles que circulam e que ficam nos pontões, ou não ficam?

Os rios é uma coisa mais complicada, porque o que fizeram as barragens foi diminuir a velocidade de transporte. E portanto, como a velocidade é mais baixa, há menos erosão. Mas haver menos erosão também tem as suas vantagens, a gente não pode ver só um lado do problema. E as barragens não se encheram de areia, portanto, a areia continua a circular.

Tem alguma, mas tem lá um pouquinho de areia.

Tem lá, mas há umas descargas que são feitas regularmente para compensar. E há muitos detritos das zonas urbanas que também somam. Nós não podemos dizer que temos falta de sedimentos e depois temos tudo assoreado. Há aqui uma contradição. A questão toda é que nós queremos viver com o mínimo de riscos e para viver com o mínimo de riscos, queremos preservar aquilo que conhecemos. Tentamos fazer um snapshot, agora queremos que daqui para frente seja igual a este snapshot. Aliás, é o que fazemos quando pomos areia nas praias. Nós estamos a tentar ajudar o sistema.

Muitas vezes é um dos grandes disparates que se faz.

É complicado. Eu tenho discutido muito com os colegas que trabalham nessa área e eles comparam pôr areia nas praias com a pintura de um edifício. Quando a gente pinta um edifício, sabe que ele dura quatro ou cinco anos a pintura. E quando se põe areia nas praias, sabe que ela se dura também poucos anos. Depois acaba por o sistema recuperar outro tipo de equilíbrio. E é, portanto, um jogo entre o valor económico da praia, o valor económico do turismo.

E o custo económico da deposição de areia.

É ótimo quando não somos nós a pagar, por exemplo. Quando somos nós a pagar é um pouco mais difícil. Mas voltando à questão da ondulação e do mar, nós sabemos, e é isso que é preciso perceber-se, que o que se prevê nos modelos de agitação é aquilo que se chama altura significativa. Quando se diz ondulação de três metros, não quer dizer que todas as ondas tenham três metros. Muitas terão, mas pode haver ali um bocadinho que vai ter seis. O senhor que descobriu isto foi o senhor Walter Munk, que descobriu a distribuição das ondas do mar e que é um dos homens mais premiados da oceanografia americana e que aliás recebeu a medalha mais importante das mãos do Ronald Reagan, nos tempos em que o partido conservador respeitava e compreendia a ciência.

O partido republicano, no caso.

O partido republicano, desculpa. Mas o Ronald Reagan era um conservador no sentido positivo do termo. Mas isto é um comentário à parte. A verdade é que nós hoje sabemos como é que é a distribuição e, mais uma vez, nós sabemos tudo. Por que é que ao saber tudo, temos na mesma medo? É porque o medo não se alimenta só do conhecimento. O medo alimenta-se de preconceitos, de traumas anteriores, alimenta-se de dificuldades, da nossa incapacidade de viver com o mundo, com risco, com impossibilidade de previsão total. E a nossa ideia de que se nós formos capazes de prever tudo, nós estaremos mais felizes. E sabes com certeza que isso não é verdade.

Sim, sei com certeza que não é verdade. É um bom tema para repregarmos num dos próximos programas. Por hoje acabamos.