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E o resto é história. É apenas pomba. Do Incêndio e Platra, ainda na zona dos xaves. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Não, não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de E o Resto é História, com os dois do costume, Rui Ramos e João Miguel Tavares. Na semana passada nós começamos a falar do centésimo aniversário do 28 de maio de 1926, uma das datas mais marcantes do século XX português, e hoje continuamos essa conversa. Portanto, se acaso o caríssimo ouvinte não tiver escutado o programa da semana passada, talvez valha a pena começar por aí, porque este é um episódio de continuação, ainda que se lhe apetecer ouvir depois, também pode.

Nós vamos tentar ser-

Somos muito liberais

...auto-suficientes neste episódio.

Auto-suficientes, exatamente. É como aquelas séries mesmo muito boas que pode-se começar a ouvir em qualquer momento, depois volta-se e é sempre um prazer. Há oito dias nós explicamos tudo o que se passou até ao 28 de maio e hoje falaremos tudo o que se passou depois do 28 de maio. E bem a propósito disso, o ouvinte Nuno Marques Mendes enviou-nos algumas perguntas bastante pertinentes sobre o tema, que já agora nós aproveitamos para lançar a conversa. Em primeiro lugar, o Nuno Marques Mendes pergunta sobre Cunha Leal. Nós falámos tangencialmente dele no último programa. E ele refere que Cunha Leal, num dos seus livros, relata conversas com vários protagonistas da Conjura, esse o nome, do 28 de maio de 1926, e conta como o chefe do governo, António Maria da Silva, falámos muito dele aqui, ficou a par das movimentações dois meses antes do golpe. Portanto, o Nuno pergunta, e bem, se foi assim, ou seja, se essa conjura era um segredo assim tão mal guardado. E também pergunta se os escritos de Cunha Leal são uma fonte fiável neste ou noutros assuntos. Rui, por onde é que queres começar? Cunha Leal ainda por cima sabia escrever, não era?

Sabia escrever. Os escritos dele são importantes, mas que devem ser usados com a mesma cautela com que se usa qualquer fonte memorialística. Obviamente, ele está a falar do ponto de vista dele. Não quer dizer que esteja a deturpar, mas está a falar do seu ponto de vista.

Há uns memorialistas mais alegres do que outros.

Sim, também há.

Na tua escala.

Cunha Leal tenta nas suas memórias, que ele começa a publicar no fim da década de 1960, ele vive até 1970, tenta ser interpretativo, isto é, tenta combinar aquilo que viveu com uma interpretação da história. Tenta fazer história e ao mesmo tempo contar o que viu, o que soube, o que viveu.

E ainda estava durante a vigência, isso foi publicado durante a vigência do Estado Novo. Achas que isso influenciou alguma coisa?

Não, ele era completamente à vontade. Aquilo que ele tinha para dizer, dizia. E isso foi uma das características dele durante todo o Estado Novo. Agora, em relação à organização do movimento do 28 de maio, é mesmo assim.

O ouvinte tem razão é isso?

E Cunha Leal. Isto é, António Ferreira e Silva estava a par, mais ou menos toda a gente está à espera, vai seguindo o que é que se está a passar. Em Lisboa praticamente não havia segredos, as pessoas percebiam mais ou menos tudo o que é que o outro andava a fazer. Era impossível haver mistérios em Lisboa. Portanto, sim, a conspiração que deu origem ao 28 de maio esteve quase que aberta a todos. Toda a gente pôde participar, entrar, tentar dar a sua contribuição. E por quê? Porque toda a gente sentia que estava num impasse e que era preciso sair desse impasse. E a única maneira que se estava a ver de sair do impasse era através de um golpe militar, da instalação de um governo apoiado pelas Forças Armadas. Portanto, há quase um consenso à volta do 28 de maio. Nem toda a gente queria a mesma coisa, atenção.

Certo. Toda a gente queria acabar com o que estava.

E ninguém via outra maneira de acabar com o que estava a não ser o movimento militar. Agora, o espetáculo que a partir de 1926 a ditadura militar deu ao país foi de uma grande decepção para muita gente. Não teve nada a ver com estabilidade, pelo contrário.

Mas e há desnegais?

Em pouco mais de um mês houve três governos, num mês houve três governos. Portanto, se havia queixas em relação à instabilidade antes da Primeira República, a instabilidade aumentou. Primeiro, um governo Mendes Cabeçadas, a 31 de maio de 1926. Portanto, era o que tinha dado o golpe em Lisboa e o que recebeu, Mendes Cabeçadas, o almirante, foi o que recebeu os poderes do Presidente da República e do chefe do governo, António Maria da Silva. Portanto, quando Gomes da Costa chegou a Lisboa, já Cabeçadas estava à frente do governo. Gomes da Costa parece aceitar isso inicialmente, mas não está satisfeito e a 17 de junho dá um golpe, um novo golpe, derruba Mendes Cabeçadas.

Golpe militar?

Sim, é outra vez uma espécie de explicar a Mendes Cabeçadas que não tem o apoio das Forças Armadas e que as Forças Armadas estão com Gomes da Costa. Eles geralmente fazem uns telefonemas ou mandam uns recados e percebem logo: "Ah, não, este cartel, estamos com este, acabou-se a história." Portanto, não chega a haver tiros, não chega a haver confrontos, mas é assim. Gomes da Costa, portanto, torna-se o chefe do governo com os poderes de Presidente da República, uma vez que não há Presidente da República ou chefe do governo, de acordo com a Constituição de 1911, fica com os poderes do Presidente da República. Portanto, Gomes da Costa, 17 de junho, fica chefe do governo e não dura nada. A 9 de julho, há outra vez outra movimentação militar e é Gomes da Costa desta vez que é substituído pelo General Carmona, que tinha sido outro líder.

Como é que o homem a cavalo e com uma espada desembainhada consegue durar três semanas num governo?

Aqui há, de facto, uma perceção que seSe estabelece nas Forças Armadas-

Que ele é melhor andar a cavalo.

De que ele não é uma pessoa suficientemente estável para estar à frente de um governo. Isto é alguém que a opinião dele é sempre da última pessoa com quem falou.

Era o que se dizia sobre ele.

Se tinha falado com um homem da extrema esquerda, era da extrema esquerda, se tivesse falado com um da direita, era da direita. Aquilo era uma coisa bastante imprevisível e o general Carmona é uma figura diferente. Pelo meio, ainda quando Gomes da Costa era chefe do governo, em junho de 1926, aparece um ministro das Finanças. Esse ministro das Finanças é um senhor chamado António de Oliveira Salazar, que é professor de Finanças na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, portanto vem de comboio, de Coimbra, convidado para ser ministro das Finanças. Porque é que ele é convidado? Vários dos mais jovens oficiais tinham sido alunos de Salazar em Coimbra. Muitos jovens oficiais eram estudantes universitários ou tinham ido fazer estudos universitários depois de terem integrado o quadro das Forças Armadas, portanto tinham sido alunos de Salazar, indicaram o nome de Salazar. Salazar era um ativista católico. Os católicos tinham uma atitude equidistante em relação aos outros grupos políticos, de acordo, aliás, com os interesses da hierarquia eclesiástica. Não é às vezes extraordinariamente claro onde é que ele está em termos dos grandes confrontos da República, por exemplo, entre monarquia e república, não é claro onde é que ele está, porque a igreja também não quer tomar partido aí, os ativistas católicos não querem, mas ele é reputado como professor e aparece. Ainda tira uma fotografia com Gomes da Costa e com os outros ministros, mas está uns dias e percebe que aquilo é um caos gigantesco, que não há rei nem roque, demite-se e volta a Coimbra rapidamente. É ministro durante uns dias das Finanças, 1926, e volta a Coimbra. Anos depois, ele gostava às vezes de falar destes tempos. E 40 anos depois, na década de 60, tem uma conversa com o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, que é Franco Nogueira. E Franco Nogueira mantém um diário e toma nota da conversa.

Depois foi biógrafo.

Sim, e depois biógrafo de Salazar, mas toma nota da conversa com Salazar. E Salazar começa a lhe explicar o que é que foi o 28 de maio. E é uma coisa curiosa, ele diz: "Não, o 28 de maio era para pôr o Cunha Leal no poder. O objetivo era pôr o Cunha Leal no poder, não era para mim, era para o Cunha Leal." Isto é curioso, porque estabelece essas duas figuras para compreender o que se passou depois do 28 de maio, Salazar de um lado, Cunha Leal do outro. Eles têm mais ou menos a mesma idade. Salazar tinha 37 anos, Cunha Leal tem 38 anos, portanto o Cunha Leal tinha nascido um ano antes. Eram os dois das Beiras, os dois tinham vindo da província, digamos assim. Qual era a diferença entre eles? A diferença entre eles é que em 1926 muito pouca gente devia saber quem era Salazar. No meio católico, no meio universitário, claro que se sabia. Não devia haver ninguém em Portugal interessado em política que não soubesse quem era Cunha Leal. Francisco Pinta Cunha Leal aos 38 anos era mesmo uma das grandes figuras da política portuguesa, uma das maiores figuras.

Pelo seu papel na Noite Sangrenta, mas não só?

Ele tinha se tornado famoso pela Noite Sangrenta, por causa do papel da Noite Sangrenta, mas não era só por causa disso. Ele tinha sido ministro das Finanças, tinha sido primeiro-ministro, tinha sido diretor do "Século", que era o jornal de maior venda em Portugal. Era diretor do Banco Nacional Ultramarino. Ele tinha uma quantia enorme de coisas. Era um grande orador parlamentar, as pessoas acumulavam-se para o ouvir falar. Era um dos grandes oradores dos anos 20 em Portugal. Isto era daqueles que tirava-se os papéis e ele estava uma hora ou duas a falar e a discorrer sobre um tema, as finanças públicas. Estava uma hora a falar sobre finanças. Ele era engenheiro, não era de Direito como Salazar. E mais do que isso, ele era amigo do almirante Mendes Cabeçadas e daí esta impressão de Salazar, o golpe tinha sido feito para dar o poder a Cunha Leal. Porque de facto, Cabeçadas tinha ficado com o poder em Lisboa em maio de 1926 e Mendes Cabeçadas é um correligionário, é um amigo de Cunha Leal. As coisas começam também a correr mal para Cunha Leal logo, uma vez que Mendes Cabeçadas em meados de junho cai. Cunha Leal, aliás, até publica um texto na imprensa a sentir-se em perda, a demitir-se, por exemplo, do Banco Nacional Ultramarino.

Mas ele nunca chegou ao governo.

Não.

Nem sequer-

Não, Mendes Cabeçadas é chefe do governo.

Certo, mas nunca o puxa para o governo.

Não, Cunha Leal publica uma nota a dizer a Mendes Cabeçadas: "O senhor só está sozinho se quiser." Eu estou aqui. Mas Mendes Cabeçadas não tem força para pôr Cunha Leal no governo.

Era preciso força?

Era preciso força e Mendes Cabeçadas não a tinha. Isto é curioso. Cunha Leal, dois ou três meses antes do 28 de maio, tinha feito uma conferência em Braga Precisamente em Braga, a prever o que iria acontecer no caso do estabelecimento de uma ditadura militar. E ele dizia: "As coisas não vão correr bem. Isto é, é preciso, de facto, provavelmente, não há alternativa a uma ditadura militar, mas as coisas não vão correr bem." E ele dava as razões pelos quais. Primeiro, não haveria homogeneidade entre os oficiais generais. Isto é, nem todos pensariam a mesma coisa. Não se iria encontrar um chefe, isto é, um líder que fosse respeitado pelos outros. E depois ele diz: "E também não vão descobrir competências, não vão conseguir atrair talento, não vão descobrir competências." E de facto, para quem olhava para a situação, digamos que em julho de 1926, diria-se que Cunha Leal tinha adivinhado tudo. Isto é, os líderes militares não se tinham entendido, não tinha emergido um líder indiscutível, nem Gomes da Costa, que era talvez a figura, até pelas suas características, a que poderia ter havido mais adesão, nem ele se tinha aguentado. E as competências, por exemplo, o professor António de Oliveira Salazar, que tinha vindo de Coimbra com uma enorme reputação de grande financeiro, tinha chegado e tinha sido embora. Portanto, também não tinham conseguido atrair as competências. Qual era a situação em julho de 1926? Em julho de 1926, menos de dois meses depois do movimento de 28 de maio, o general Carmona fica chefe do Governo, e também com os poderes de Presidente da República, mas Carmona ninguém o vê como um ditador, ninguém o vê como o chefe da ditadura. Carmona é o contrário do Gomes da Costa. Gomes da Costa é um chefe de caserna, é um homem de combate, de guerras. Carmona é um militar de biblioteca, que é o mais típico das Forças Armadas portuguesas desta altura. É um militar literato, burocrata, bom conhecedor de literatura especializada, bom conhecedor dos regulamentos e dos estatutos militares, com muito boas maneiras, muito correto, é uma espécie de um fidalgo, muito aprumado. Tem algum sentido de humor também, mas refinado. Portanto, esta ditadura militar em julho de 1926 não faz lembrar nada, nem muito menos a ditadura fascista de Mussolini, com o ditador Mussolini à frente, com partido, com uma doutrina. Aqui não há nada, nem partido, nem doutrina, nem coisa nenhuma. Nem é parecido com a ditadura militar que existia desde 1923 em Espanha e chefiada pelo general Primo de Rivera. O general Primo de Rivera tinha aparecido como um ditador, tinha um programa, tinha uma orientação. Carmona não tem absolutamente nada disso, não se pronuncia, não diz exatamente o que quer fazer, é alguém que está ali e há pessoas que tentam adivinhar: "Bem, os verdadeiros líderes devem estar por detrás dele." Falava-se no general Sinel de Cordes, que é o ministro das Finanças: " Até deve ser ele o verdadeiro líder." Também não era, embora tivesse mais importância do que o Carmona. Em julho de 1926, aquilo continua a ser um enigma.

Um enorme ponto de interrogação.

Não se percebe o que se passa.

Muito bem, e esse ponto de interrogação fica aqui nesta primeira parte e vamos tentar responder-lhe na segunda. Até já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História", onde nós estamos a analisar o que aconteceu depois do 28 de maio de 1926 e parece que a confusão não está muito menor do que na altura da Primeira República. Como é que essa confusão se solucionou?

No verão de 1926, nós temos, assente nas Forças Armadas, um poder precário, incerto e parece a muita gente vulnerável por causa disso. E a partir daí reativam-se as conspirações. E uma das conspirações mais importantes é dos antigos esquerdistas do PRP, a gente da esquerda democrática. Tinha ficado contente com o derrube de António Maria da Silva e agora vê a situação tão fraca que até tem receio que António Maria da Silva possa regressar. E qual era a única maneira que eles têm de evitar isso? Bem, é eles anteciparem-se a António Maria da Silva. Eles estão convencidos que talvez com um novo movimento militar, possam ir eles para o poder. Eles também têm apoios.

Uma ditadura do PRP?

Uma ditadura não do PRP, mas da esquerda democrática. É outro partido agora. Da esquerda democrática e de alguns dos seus aliados. Há outros dissidentes do PRP que também estão próximos deles. Portanto, é substituir basicamente esta ditadura militar por um outro regime de força, mas baseado nisso. Eles começam a preparar o terreno a partir do verão de 1926. A preparação do terreno é clássica. Começam a dizer que a ditadura militar é monárquica, é católica, é reacionária. Era isso que eles diziam de todos aqueles que não eram da esquerda, eram todos monárquicos. Eles não estão sempre a inventar monárquicos, dizer: "Ah, monárquico." Bastava não ser do PRP para ser acusado de ser monárquico, bastava não ser agora desta ala esquerda do antigo PRP também tem esse hábito de chamar monárquicos e clericais a toda a gente. Ora bem, estas acusações no passado tinham funcionado, porque levantavam as massas dos militantes republicanos que ficavam assustados e tendiam a apoiar aqueles que diziam que iam combater os monárquicos e combater os clericais. Mas desta vez as coisas não resultaram Há uma revolta e eles conseguem organizar uma revolta baseada na Guarda Republicana, sobretudo, e na Marinha e em grupos de civis armados. A revolta começa no Porto no dia 3 de fevereiro de 1927, e depois mais tarde, no dia 7 de fevereiro, também arrebenta em Lisboa. Portanto, uma revolta no Porto e outra revolta no Porto-

E esta com tiros?

Com muitos tiros, há 80 mortos no Porto, 85 em Lisboa. Portanto, combateu-se mesmo a sério. Por exemplo, em Lisboa, ali no Largo do Rato, que é uma zona de combates em que morreu muita gente ali a combater. Agora as coisas correm mal para os revoltosos. Eles estavam habituados a ganhar. Aliás, eles estavam convencidos que iam ganhar. Em fevereiro de 1927, eles estão totalmente convencidos que vão ganhar, vão derrubar a ditadura e vão ficar no poder. Eles julgam que basta dar um pontapé na porta e que a casa cai. E é uma surpresa gigantesca para eles, porque eles não conseguem vencer. E o que acontece?

E por que não conseguem?

Bem, primeiro, nem todos os republicanos estão com eles. Uma grande parte da gente do PRP, dos silvistas, claro, veem-nos como adversários e não se juntam a eles. A direita republicana também não se junta a eles. Portanto, há muitos republicanos, não há aquela congregação das correntes republicanas como tinha acontecido noutra época do passado. E em segundo lugar, eles julgam que vão encontrar pela frente alguns velhos generais hesitantes, sem saber bem o que é que hão de fazer. É o que eles julgam que vão encontrar pela frente. E não é isso que eles encontram pela frente. Aquilo que eles vão encontrar pela frente e que lhes vai dar luta, são jovens oficiais, sobretudo muitos tenentes e capitães, mas muitos tenentes, que são eles que vão mesmo pra rua e defrontam a esquerda republicana em combate na rua. É então que aparecem os chamados tenentes de Maio. Isto é, os jovens oficiais que tinham feito o 28 de Maio verdadeiramente e que em fevereiro de 1927 são eles que defendem a ditadura militar na rua. Eu não quero estar a fazer muitas comparações entre situações históricas muito diferentes, mas este fevereiro de 1927 é uma espécie do 11 de março da ditadura militar. Isto é, é o momento em que os jovens oficiais mais radicais das Forças Armadas tomam o controle da situação ao serem eles os protagonistas principais da resistência contra a tentativa de reversão da situação pela esquerda republicana. Quem são é que estes tenentes de Maio, ou os chamados rapazes da ditadura, como eles também são conhecidos. Os rapazes da ditadura. Eles basicamente são uma geração de jovens oficiais que teve experiência de combate na Primeira Guerra Mundial, quer na Europa, quer em África. Portanto, ao contrário da tradição dos militares portugueses quando se chega ao princípio do século XX, estes oficiais têm experiência de combate. Estiveram nas trincheiras, estiveram em África, em Moçambique. Eles desprezam imenso os militares políticos, isto é, aqueles oficiais do exército que fazem parte dos partidos políticos. Eles têm um desprezo enorme por eles. Têm um grande culto da competência militar, da técnica militar e da experiência de combate, o típico oficial como o general Carmona, curiosamente está à frente da ditadura, mas é o típico oficial por quem eles não têm respeito absolutamente nenhum. Do gênero, sim, é um indivíduo literato, sabe imenso da teoria militar, dos manuais, etc, mas nunca esteve na guerra, nunca esteve em combate como eles estiveram. E além disso, eles têm um profundo desprezo pelo regime parlamentar republicano e têm um grande fascínio pelas experiências ditatoriais na Europa, sobretudo pelo fascismo italiano, que os entusiasma imenso. Aquele nacionalismo revolucionário.

Mas ao serem eles a resistir, também são eles que ficam no comando da situação a partir desse momento?

Sim, são eles que passam a influenciar a situação. A partir de fevereiro de 1927, a ditadura militar dá origem a uma espécie de um regime diferente, que é o regime dos sovietes de tenentes, como se chama em Lisboa. É os sovietes de tenentes. Basicamente, são estes jovens oficiais que se reúnem nos quartéis e reúnem-se nos cafés de Lisboa, por exemplo, no Martim, ali no Terreiro do Paço, o Martim da Arcada. Está cheio de jovens oficiais e esses lugares funcionam como uma espécie de parlamentos de sovietes, de parlamentos destes jovens oficiais. Portanto, o governo decide uma coisa, mas primeiro tem que se saber o que é que no parlamento o Martim da Arcada decide. Portanto, estão lá todos estes jovens oficiais.

Agora não me dizia vão para o Martim da Arcada.

Ou o soviete, o soviete no Martim da Arcada. Eles estão lá todos sentados às mesas, isto às duas, três, quatro da manhã, que os cafés estão abertos até tardíssimo, as pessoas estão lá todas. Só homens, claro, quase só homens. E, portanto, eles discutem, dizem: "O governo da ditadura decidiu fazer isto. O que vocês acham, rapazes?" E eles estão lá, discutem: "Não, nós não estamos com isso." E vai um mensageiro ao governo e diz: "Desculpa, mas eu estive ali no Martim e a rapaziada não está de acordo com isso." E o ministro tem que retirar a decisão. As coisas às vezes chegam a pontos extraordinários. A história é quase surreal Em agosto de 1927, há um momento em que os velhos oficiais que estão no governo decidem uma coisa e os rapazes não estão de acordo. E há uma espécie, quase de um golpe. E um desses rapazes da ditadura, um desses tenentes de maio, que é o tenente Morais Sarmento, decide ir explicar ao governo que aquilo não pode ser. E na madrugada de 15 de agosto de 1927, ele vai ao Palácio das Necessidades, que é onde está reunido o governo, entra no Conselho de Ministros, armado, começa a discutir. Os ministros dizem-lhe: " Ponha-se na rua", etc. Ele puxa da arma, dá vários tiros para o ar, no salão. O General Carmona, que está a presidir ao governo, tenta agarrá-lo. Ele dá um pontapé no General Carmona, esmurra os outros ministros, dá mais uns tiros para o ar. E depois ele diz: "Bem, pelo menos não dê mais tiros." Ele diz: "Então não vou dar mais tiros." E reúne-se com o ministro com que ele não estava de acordo, para ver o que é que se pode fazer. Ele vai se reunir depois com o ministro, a coisa não corre bem, eles ouvem mais uns tiros lá no ar. E ele sai do Palácio das Necessidades e ninguém se atreveu a mandá-lo prender. Isto é uma história impressionante do poder que estes tenentes têm. O tenente Morais Sarmento depois é recambiado para Angola e vai morrer em Angola, numa situação mais ou menos parecida, em que ele também se revolta, puxa das armas, mas nesse caso está perante uma tropa que o vai prender e acaba por disparar sobre ele e matá-lo. Mas o tenente Morais Sarmento é um pouco o ambiente desta gente e a mentalidade desta gente. Há outros dois destes jovens tenentes que talvez os nomes digam alguma coisa aos nossos ouvintes. Henrique Galvão e Humberto Delgado. E não se percebe aquilo que Henrique Galvão e Humberto Delgado vão fazer anos depois, na oposição a Salazar nos anos 50, sem se perceber que eles vieram deste meio. Eles são rapazes da ditadura, eles são tenentes de maio. E é esta gente, é estes rapazes que puxam.

Mas com uma grande coragem física também.

Enorme coragem física, uma grande irreverência, iconoclastia total, não respeitam basicamente ninguém. Toda a gente para eles fica abaixo das expectativas e estão disponíveis a puxar da pistola, a dar um pontapé no presidente do chefe do governo e a dar uma estalada no ministro, se for preciso, e é assim que resolvem a situação. Este é o ambiente que em 1927 estes sovietes de tenentes instalaram em Lisboa. Uma das suas principais bases é o Regimento de Caçadores 5, que é a principal força militar da ditadura em Lisboa, está em Campo de Ourique, é aí que está a principal força, é onde o governo, quando há uma tentativa de revolta militar, é aí que o governo se estabelece e é aí que estão os principais sovietes de tenentes que decidem o que é que se há de fazer, o que é que se não há de fazer.

Mas esse ambiente não era propício a Cunha Leal.

Não era propício a ninguém. A princípio, não era propício a ninguém, porque a ditadura não consegue, de facto, tal como Cunha Leal tinha previsto, resolver os problemas, não resolve problema absolutamente nenhum. Não resolve o problema financeiro. O custo de manter o exército, ainda por cima um exército que frequentemente é chamado a sufocar revoltas, o custo é enorme. As finanças públicas ficam muito mais desequilibradas do que estavam antes de 1926. Os republicanos, os governos do PRP tinham conseguido equilibrar as finanças públicas. A ditadura militar desequilibra, isto é, torna tudo muito pior. A ditadura em 1927 vai tentar recorrer a um empréstimo externo da Sociedade das Nações. Esse empréstimo falha, mas está a tentar endividar-se no exterior para resolver a situação. A Sociedade das Nações tinha essas linhas de crédito e a ditadura tenta apelar, falha, não conseguem fazer, porque não dão garantias. E a Sociedade das Nações exigia um programa de austeridade com vigilância externa.

Uma espécie de FMI.

Era mesmo quase a mesma coisa, basicamente. Eles próprios, depois os ministros da ditadura acham que não têm condições para aplicar isso. E depois há um outro problema que a ditadura cria, não resolve os problemas que havia e cria um novo problema, que é o envolvimento direto do exército na governação. Isso tinha politizado completamente o exército.

Portanto, dividido o exército também.

E o risco de dividir o exército é enorme, porque é assim que as guerras civis começam. Não é com lutas entre civis, é quando o exército se divide. Em 1936, em Espanha, houve uma guerra civil porque o exército se dividiu. E aqui há esse risco do exército se dividir também. As pessoas começam a ter noção da situação de o envolvimento direto do exército na política e na governação pode dividir o exército. Isto quer dizer, em suma, a ditadura militar não tinha resolvido os problemas, crise financeira, instabilidade governativa, e agora tinha acrescentado o risco de uma guerra civil. Isto é, toda a gente tinha percebido finalmente que, ao contrário do que se tinha acreditado em 1926, não bastava fechar o Parlamento, limitar a atividade dos partidos políticos, censurar jornais, como aliás se estava a fazer, para resolver os problemas do país. Não era nada disso. Havia uma ditadura, censura à imprensa, agora já a partir de 27, limitação forte ou mesmo proibição de atividade dos partidos políticos, o Parlamento fechado e os problemas ainda piores do que havia antes. Começou-se a perceber que a ditadura militar, que tinha sido concebida como um instrumento para sair dos problemas, tinha se tornado um problema tão grande que agora a grande questão era como sair da ditadura militar. Era preciso sair da ditadura militar. É essa a grande questão a partir de 1928, sair da ditadura militar. Como é que se sai daqui? Há várias hipóteses. Voltando a 1926-

E a partidos

...aos mesmos partidos, aos mesmos políticos. Muita gente recusava isso. Os tenentes de Maio nem queriam ouvir falar disso. Mas também muitos outros políticos receavam isso, porque receavam o quê? Regressar ao António Maria da Silva, mandar outra vez nisto tudo, ao António Maria da Silvismo. Portanto, não. Fazer o quê? Um regime novo. Mas que regime novo era esse? É que à volta da ditadura militar tinha se reunido toda a gente. Todos os que estavam contra o PRP, tinham se juntado à ditadura, católicos, monárquicos, a direita republicana, socialistas. Que regime é que podia satisfazer todos? Havia quem quisesse um regime autoritário, outros queriam um regime parlamentar. Havia quem quisesse satisfazer a Igreja Católica, outros não queriam. Havia quem quisesse manter a república, outros queriam restaurar a monarquia. Isto é, havia o risco de logo que se definisse uma orientação política, o apoio à ditadura iria se desfazer e dividir. Não era claro como é que se podia sair através de um novo regime. Mesmo assim, as coisas começaram a evoluir um bocadinho. A 25 de março de 1928, a ditadura militar fez as primeiras eleições desde 1925.

Para eleger o quê?

Para eleger o presidente da República. Carmona foi o único candidato, o general Carmona, foi eleito, claro, e deixou a chefia do governo, para a qual nomeou um outro general. Carmona agora é presidente da República, deixa de ser chefe do governo. Não foi o princípio da estabilidade. Entre 1928 e 1932, em quatro anos, houve quatro governos com três diferentes chefes.

Mesmo assim a média melhorou.

Melhorou um bocadinho. O Vicente Freitas, o Ivens Ferraz, Domingos Oliveira, foram generais que foram se sucedendo entre 1928 e 1932. De qualquer maneira, o ambiente ficou um bocadinho mais pacífico para que, tendo eles outra vez convidado o professor de Finanças da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, doutor António de Oliveira Salazar, para vir assumir a pasta das finanças, desta vez ele veio e ficou, em abril de 1928. Já falamos, aliás, aqui desse acontecimento. Ele veio, curiosamente, com a ajuda da esquerda republicana, da esquerda mais esquerda, porque eles tinham feito um grande lobby para fazer falhar o empréstimo da Sociedade das Nações. Tinham muitos contactos através da maçonaria e, portanto, na Suíça conseguiram fazer lobby para dificultar as condições da outorga de crédito à ditadura em Portugal.

E Salazar se concordava com isso?

E o que isso fez? Fez falir o plano do general Sinalto de Cortes, que era o ministro das Finanças, para restabelecer as finanças com base nesse empréstimo. Salazar estava contra esse empréstimo. Portanto, eles, na prática, abriram a porta a Salazar. Foi a oposição de esquerda que abriu a porta a Salazar, uma vez que Salazar vinha com plano completamente diverso, que era a tentativa de equilibrar as contas com cortes de despesas e com aumentos de impostos sem empréstimo externo. É isso que Salazar vem fazer.

Vou te interromper aqui, porque o nosso tempo para quem está a ouvir em direto, chegou ao fim. Nós ainda vamos fazer um lancarote final em relação a este 28 de maio em podcast, mas para quem está a ouvir em direto, eu despeço-me. Até para a semana. Sim, Rui.

Salazar, nesta altura, ainda aparece ligado, curiosamente, a Cunha Leal. Cunha Leal, lembram-se, tinha estado próximo de Mendes Cabeçadas, mas Mendes Cabeçadas não tinha tido força para o meter no governo. Cunha Leal afasta-se um pouco, mas fica ali na órbita da ditadura, com bastante influência, e em julho de 1927, o governo da ditadura nomeou o governador do Banco de Angola.

Era um banco importante?

Que era um banco importante em Angola. Portanto, Cunha Leal fica com uma posição forte, começa a influenciar a política e é Cunha Leal que dá a entender que é ele próprio que faz pressão para que Salazar seja ministro das Finanças em abril de 1928. De facto, Salazar aparece rodeado de correligionários de Cunha Leal no governo. O que é que há aí a ideia? Agora vamos especular, o Cunha Leal não diz isto assim nas suas memórias. Mas é muito provável que ele não pensasse que estava a trabalhar para Salazar, mas estava a pensar que estava a usar Salazar para ele chegar ao poder. Ele está a tentar usar Salazar para Salazar fazer uma espécie de trabalho de faxina, equilibrar as contas e preparar o ambiente para depois Cunha Leal aparecer como grande chefe político que é este modesto, obscuro professor da Universidade de Coimbra.

Desempenhava ali o trabalho técnico.

Desempenhava ali o papel técnico e depois apareceria Cunha Leal. Salazar faz esse trabalho técnico em 1928, 1929, e Cunha Leal no fim de 1929 chega à conclusão que já fez o seu trabalho, está na altura de Salazar ir para casa. E em janeiro de 1930, há uma crise financeira em Angola. O Salazar está muito renitente em fazer uma espécie de pacote de ajuda à província de Angola, à colônia de Angola, e Cunha Leal aproveita isso para criticar Salazar e esperar que isso chegue para fazer cair o governo, derrubar o governo e fazer Salazar sair do poder e vir Cunha Leal. E de fato, o governo cai com a crise de Angola em 31 de janeiro de 1930. Mas o que acontece? O que acontece é que Salazar não cai, Salazar passa para o governo seguinte. Isto é um momento fundamental, este momento de janeiro de 1930. Como é que Salazar consegue derrotar Cunha Leal? Como é que este professor técnico de finanças, vindo de Coimbra, consegue derrotar aquela que é a grande figura, uma das grandes personalidades, um dos grandes chefes políticos da República em 1926? Precisamente por causa disso. É porque ele não é a grande figura que Cunha Leal é. Isto é, Salazar não tem a cotação de Cunha Leal, não é um chefe de partido, não tem aquela reputação enorme, nem expectativas enormes que estão à volta de Cunha Leal.

E isso funciona a favor dele.

Ninguém está prevenido contra ele. Ninguém está com medo, ninguém tem medo de Salazar. Toda a gente tem medo de Cunha Leal. Isto é, se Cunha Leal vai para o governo, acabou-se. Este tipo vai ficar no governo durante 40 anos. Agora, Salazar está ali uns meses e a gente corre com ele quando quiser. Agora, Cunha Leal é que não pode estar no governo, esse é que não pode ir para o governo. E foi isso que permite Salazar. Às vezes ser subestimado em política é uma das grandes vantagens. É talvez uma das maiores vantagens, porque permite a um político fazer o seu caminho sem os outros políticos se congregarem todos contra ele. Era o que acontecia a Cunha Leal. Sempre que Cunha Leal aparecia, todos os outros, fossem adversários uns dos outros, inimigos uns dos outros, juntavam-se todos contra Cunha Leal, porque tinham um imenso receio deste tipo incrivelmente talentoso, incrivelmente capaz, incrivelmente corajoso. Não se pode deixar aproximar-se do poder uma pessoa como este. Agora, Salazar, que nem tem uma grande voz, não é um orador, é um tipo de Coimbra, nunca esteve metido na política partidária.

Não é acidente.

Enfim, um tipo rebuscado, etc. "Não, esse deixa-o lá estar." Portanto, ninguém tem em relação a Salazar, o medo que tem em relação a Cunha Leal e toda a gente pensa que é Cunha Leal, em 1930, que pode fazer aquilo que depois é Salazar que vem a fazer. Há uma outra razão, que é também uma razão fundamental: são os tenentes de Maio. Os tenentes de Maio, muitos deles tinham sido alunos de Salazar em Coimbra. Eles veem Salazar como um homem da nova geração, isto é, alguém novo na política, e não veem Cunha Leal da mesma maneira. Isto é, Cunha Leal tem a mesma idade de Salazar, praticamente, tem um ano mais. Mas Cunha Leal ainda tinha feito muita carreira política na velha República, antes de 1926. Bem, ele tinha tido uma curta carreira política desde 1918 a 1926, oito anos, mas em oito anos tinha chegado a tudo: a deputado, ministro das Finanças, primeiro-ministro, chefe de partido, herói na Noite Sangrenta, tinha sido tudo. Isso tinha uma desvantagem para ele, tinha o conotado com o antigo regime. Um antigo regime de que ele era grande crítico, atenção. Ele era um dos grandes críticos desse velho regime. Mas para estes tenentes de Maio, quando eles olhavam para Cunha Leal, viam que este era um tipo que tinha sido ministro, tinha sido deputado, tinha sido uma grande figura dos partidos antes de 1926.

Apesar de ele ter a mesma idade que Salazar.

Tinha a mesma idade que Salazar, 38, 37.

Mas teve sucesso mais cedo e isso pesou.

E esse sucesso comprometeu-o com o passado. Salazar não tinha tido essa carreira, portanto, podia ser a inexperiência partidária dele a grande vantagem. Ele não tinha estado no governo. Tinha sido eleito deputado, mas tinha estado só um dia ou dois no Parlamento, precisamente no verão de 1921, praticamente não tinha lá estado. Portanto, era alguém completamente novo comparado com Cunha Leal. E estes tenentes de Maio identificam-se com Salazar.

Até porque alguns tinham sido seus alunos.

Conheciam-no, estimavam-no, etc. E portanto, há uma identificação com eles que, em 1930, joga imenso a favor de Salazar. O próprio Salazar diz isso, ele diz: "Eu tenho demasiada força. As questões comigo só se resolvem com sangue", diz ele, em 1930. O ministro das Finanças. Diz: "As questões comigo só se resolvem com sangue." Porque ele tem o apoio destes jovens. Estes jovens são danados. Além disso, claro, em 1928, 29, ele tinha ficado com a reputação de que tinha Conseguido equilibrar as finanças, isso tinha lhe dado também uma grande reputação. Além disso, é um ativista católico e portanto tem a igreja católica também toda um pouquinho por trás dele, o clero, os leigos mais militantes, todos veem-no como um homem dele. Portanto, ele de repente tem uma grande vantagem sobre esta figura extraordinária de Cunha Leal, este homem imensamente talentoso, com imensas capacidades, etc, mas que está nitidamente e inesperadamente em desvantagem em janeiro de 1930 perante Salazar. Portanto, em janeiro de 1930, Salazar fica no governo, é Cunha Leal que acaba por ser preso, isto é, o governo manda prender Cunha Leal e é exilado, e depois passa um tempo exilado. Porque é acusado de estar a conspirar contra o governo e estava um pouquinho a conspirar contra o governo, e não há contemplações. A ditadura é mesmo uma ditadura.

Quanto tempo é que ele fica exilado?

Ele vai ficar um ano ou dois exilado, e depois regresso e depois ainda tem um outro exílio, e outras prisões. Já vamos falar disso, ele depois vai ter uma vida de oposição a Salazar. Salazar, na prática, a partir de 1928 consegue aproveitar esta sua situação para começar a aparecer como alguém que está a resolver os problemas da ditadura. O problema financeiro, ele instaura uma espécie de ditadura dentro da ditadura, a chamada ditadura financeira. Nenhum ministro pode fazer despesa sem permissão do Ministro das Finanças, ele torna-se verdadeiramente o dirigente do governo. E a partir daí começa a falar como dando orientações políticas já gerais, apesar de ainda ser apenas Ministro das Finanças até 1932. E como Ministro das Finanças, ele começa a resolver aquele problema da ditadura, que é este civil começa a tornar-se verdadeiramente o dirigente e a permitir ao general Carmona, como presidente da República, afastar-se da governação e as Forças Armadas também começarem a afastar-se da governação. E assim chegamos a 1932, quando a ditadura militar se converte em ditadura nacional, porque a chefia do governo é entregue a Salazar. E passa a haver este regime apoiado pelas Forças Armadas, mas em que as Forças Armadas não governam, são representadas pelo Presidente da República. Ao mesmo tempo, Salazar tem este cuidado muito grande de tentar manter as várias correntes políticas que se tinham juntado à ditadura, tentá-las manter próximas. Por exemplo, uma das coisas que ele faz é enunciar imediatamente, ainda como Ministro das Finanças, que o objetivo dele é baixar a febre política, é uma expressão que ele usa. É deixar os portugueses viver habitualmente. Então o que ele faz? Primeira coisa que ele faz, ele é católico e ele diz aos católicos: "Não me peçam nada." Disse isso em público. "Não me peçam nada." Não estejam à espera que eu favoreça a Igreja ou faça o que quer que seja a favor da Igreja Católica. É mantida a lei da separação da Igreja do Estado até 1940, até à concordata. Portanto, o catolicismo não volta a ser religião do Estado. Primeira coisa que ele diz. Portanto, com isto, mantém muitos republicanos que obviamente ficariam furiosos se ele tivesse feito lobby a favor de restabelecer o estatuto que a Igreja tinha antes de 1910, e que provavelmente teriam rompido com a ditadura, ele não faz isso. Aos monárquicos, ele faz outra coisa. Dos monárquicos, ele tem a cooperação de Dom Manuel II, o rei que está exilado em Inglaterra, que tem uma consideração enorme de Salazar. O rei não está interessado numa restauração violenta, porque isso o tornaria o chefe de um partido, e ele não quer ser chefe de um partido. Dom Manuel II quer continuar a ser rei de Portugal, não está interessado numa restauração, num golpe restauracionista. Está interessado numa situação conservadora que crie um ambiente em que, de repente, a restauração da monarquia seja aceite por toda a gente, seja consensual. E portanto ele vai apoiar o Ministro das Finanças, Salazar, e vai conter os seus adeptos mais entusiasmados com a ideia de uma restauração. Em 1932, inesperadamente, Dom Manuel morre. E morre sem um herdeiro. E Salazar aproveita isso para dizer: "A questão do regime acabou em Portugal. O rei morreu, não há um herdeiro, a questão do regime acabou." E a partir daí ele vai ter este convite aos monárquicos para se integrarem naquela república ditatorial e conservadora, mas que mantém a forma republicana do governo, a bandeira, o hino. E portanto, digamos que Salazar consegue com estas várias operações tentar manter junto da sua ditadura, e uma ditadura cada vez mais pessoal, as várias correntes políticas que tinham apoiado a ditadura militar em 1926, incluindo a direita republicana, que se reconhece na forma republicana do governo, e reconhece-se também na ambiguidade que Salazar, a partir de 1933, dá ao regime, em que ao mesmo tempo é uma república autoritária e corporativa, e ao mesmo tempo mantém uma Assembleia Nacional e um presidente da República eleitos por sufrágio dos cidadãos. Isto é, mantém uma dimensão liberal, é uma ditadura, sem dúvida, mas mantém aqui uma espécie de dimensão, a possibilidade de uma evolução liberal que muita gente fica à espera. Aliás, ficam quase à espera até quase ao fim, que aquilo evolui, que liberaliza e que nunca, absolutamente, chega. Portanto, na prática, Salazar resolve estes vários problemas e vai manter aquilo que, na prática, é uma ditadura militar, uma ditadura apoiada nas Forças Armadas, sem partidos, sem liberdades públicas, mas que mantém estas expectativas todas. Cunha Leal, o que acontece a Cunha Leal? Cunha Leal vai ficar na oposição durante 40 anos Ele morre em 1970, no mesmo ano em que morre o Salazar, morrem os dois no mesmo ano. Cunhal Leal vai sempre ter uma atitude pública de oposição à ditadura, mas vai se, às vezes, distanciar da restante oposição, porque ele tem uma noção diferente de como é que se poderia sair da ditadura. Ele quer sair da ditadura através de uma reconciliação, de uma conciliação. Ele acha que é preciso, entre a oposição e a ditadura, haver uma espécie de compromisso. Ele pensa, por exemplo, que isso pode começar a acontecer se a ditadura consentir na eleição de um pequeno grupo parlamentar oposicionista, que passe a representar dentro do regime as oposições. Em 1945, é a sua grande expectativa nas eleições, que o governo deixe eleger um pequeno grupo parlamentar, três, quatro, cinco deputados, que passem a representar a oposição e isso permita uma evolução para um regime plural, obviamente.

Nunca foi tentada com o Rei?

Não. Ele várias vezes tenta, aparece, mas ele tem uma grande rejeição por parte do regime, claro, mas tem uma rejeição ainda maior por parte da oposição. Até quase 1970, teme Cunhal Leal. Aliás, há uma carta que um correligionário lhe escreve, nos anos 50, e diz: "Continuamos na mesma 30 anos depois. Sempre que aparece o seu nome, toda gente se junta contra si." Toda gente tem medo de Cunhal Leal, do talento de Cunhal Leal, da força de Cunhal Leal. Ele publica livros, publica artigos na imprensa, entrevistas. Salazar tende a deixá-lo publicar, porque como ele não promove a ideia do regime ser derrubado pela força, portanto, Salazar consente-o. Ele envia sempre os seus livros a Salazar. Salazar agradece-lhe sempre os livros. E tem uma coisa curiosa, há uma conversa com um ministro, princípios dos anos 60, em que, se a memória não me falha, Salazar diz a esse ministro: "O Cunhal Leal mandou-lhe o livro?" E ele: "Sim, mandou-me o livro." "E você já lhe agradeceu?" E ele: "Eu agradecer? Ele desfaz-nos completamente, chama-nos de ditadores, chama-nos isto, chama-nos aquilo. Alguma vez eu ia agradecer?" "Agradeça." Portanto, é este gênero de atitude com Cunhal Leal, obviamente sempre incrivelmente crítico, quer da situação de ditadura, quer depois da política colonial nos anos 60, sempre extraordinariamente crítico. Mais arrebatados e mais violentos do que Cunhal Leal foram os Tenentes de Maio. Os Tenentes de Maio estão com Salazar no fim dos anos 20, princípio dos anos 30. Nos anos 30, eles continuam entusiasmados com aquela expectativa, com aquelas experiências de ditaduras fascistas e acham que Salazar não está a estabelecer uma ditadura fascista em Portugal e desiludem-se imenso com Salazar. E depois de 1945, quando a moda na Europa Ocidental volta a ser as democracias, eles passam a estar entusiasmados com as democracias. E na década de 1950, Henrique Galvão e Humberto Delgado tornam-se grandes adversários de Salazar, eles que tinham aliás sido protegidos até por Salazar durante bastante tempo, mas curiosamente eles mantêm a sua oposição sempre em nome do 28 de Maio. Eles nunca renunciam ao 28 de Maio. O 28 de Maio de 1926 para eles não foi o começo do Estado Novo, foi outra coisa e o Estado Novo tinha sido uma traição ao 28 de Maio. E isso está tão integrado nas Forças Armadas, na cultura das Forças Armadas, que quando o Coronel Vasco Gonçalves toma posse como primeiro-ministro a 18 de julho de 1974, Vasco Gonçalves, homem do MFA, próximo do PCP, ele vai dizer uma coisa espantosa, ele vai dizer que não se fez o 25 de Abril, e agora vou citá-lo: "Para voltar ao triste passado de antes de 1926." O 25 de Abril tinha sido feito em cima do 28 de Maio, não é para voltar atrás. E isso, claro, tem a ver com aquilo que as pessoas sabem, ou julgavam saber, da história da Primeira República e reflete-se, por exemplo, na lei dos partidos, na lei eleitoral, no cuidado com a Igreja Católica, em não voltar a antes de 1926. E é muito importante, o 28 de Maio de 1926 é, de facto, um movimento que corta a história portuguesa. Nem o Estado Novo, nem a democracia depois de 1974 querem regressar a antes de 1926. É uma coisa muito interessante. E, pelo contrário, muitos daqueles que vêm fazer a oposição mais forte a Salazar nos anos 50 e 60, como Henrique Galvão e Humberto Delgado, não renegam a sua associação ao 28 de Maio. Pelo contrário, dizem: "Nós, como representantes do 28 de Maio, é que temos mais autoridade para contestar o Estado Novo e a ditadura salazarista."

Muito bem. Assim termina mais esta edição de "E o Resto é História", com estes dois episódios dedicados aos 100 anos do 28 de Maio de 1926 e nós voltamos para a semana. E o resto é história.

É apenas fumaça do incêndio que lá vem ainda na zona dos Chiados. Aqui, poucos minutos depois do início do movimento das forças armadas. Quer transformar este país numa ditadura.

Não, não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.