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E o resto é história. É apenas pomba. Do incêndio em Poá ainda na zona dos teatros. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Há uns meses, eu estava a ouvir uma entrevista ao grande jornalista Fareed Zakaria e foi-lhe perguntado qual a pessoa mais interessante com quem ele tinha falado em toda a sua vida. Sendo que, convém recordar, o Fareed Zakaria falou com quase toda a gente importante nos últimos 35 anos. E Zakaria respondeu: Lee Kuan Yew. E eu desconfio que há uma vasta maioria dos nossos ouvintes que terá neste momento perguntado: quem? E eu repito: Lee Kuan Yew. E quem é Lee Kuan Yew? Nascido em 1923 e falecido em 2015, não foi assim há tanto tempo, com a muito respeitável idade de 91 anos, Lee Kuan Yew é o pai da cidade de Estado de Cingapura. O nosso ouvinte Vasco Esteves sabe muito bem quem é esta personagem e enviou-nos a seguinte pergunta: "Reparei há uns anos que o símbolo do People's Action Party, o principal partido de Cingapura, é muito semelhante ao símbolo do British Union of Fascists, de Oswald Mosley. Será apenas coincidência?", pergunta ele. "A sua semelhança é tão grande que diria que não. Quais foram as inspirações políticas do People's Action Party e de Lee Kuan Yew? O fascismo europeu está entre elas? Aproveito para perguntar em que é que Lee Kuan Yew se distingue de outros estadistas que governaram os países da mesma região após as suas independências, como por exemplo, Suharto, na Indonésia, e também que estadistas foram mais tarde influenciados por ele, como, por exemplo, Deng Xiaoping". Bom, aqui está uma longa pergunta e uma pergunta sofisticada, Rui, e que realmente oferece-nos uma excelente oportunidade para falar da incrível história de Cingapura e do não menos incrível Lee Kuan Yew. É uma história que não é assim tão antiga. Cingapura existe como Estado independente desde 1965, mas de facto Lee Kuan Yew conseguiu erguer do nada um dos países mais ricos do mundo num lugar em que, como alguém dizia com imensa graça, a única matéria-prima eram os mosquitos. Como é que aconteceu esse milagre e que papel teve Lee Kuan Yew na sua concretização?
O milagre tem alguma explicação racional e às vezes a maneira dramática como o próprio Lee Kuan Yew descreveu a história de Cingapura sob o seu governo, precisa ser vista com alguma perspectiva.
Ele tem uma autobiografia gigante escrita pelo próprio.
Sim, e tem um livro que é do terceiro para o primeiro mundo, para descrever o trajeto.
Porque ele é um intelectual.
O trajeto de Cingapura. Mas vamos começar por uma descrição da atual República de Cingapura. A República de Cingapura é uma ilha com mais uma centena de pequenas ilhas adjacentes, e tem 744 km². Isto é mais ou menos duas vezes o conceito de Sintra, aqui em Portugal. É tão pequena, só para dar uma ideia, que a sua Força Aérea está estabelecida em bases no exterior. Tem bases na Austrália, nos Estados Unidos e na França.
A sério? Nos Estados Unidos? Cingapura tem bases nos Estados Unidos?
Sim, para treinar os aviões, porque lá não pode. O avião levanta voo e sai imediatamente do espaço aéreo de Cingapura, e como é um avião militar, não pode andar no espaço aéreo da Malásia ou da Indonésia, que são os vizinhos. Portanto, 744 km², mas seis milhões de habitantes e desses seis milhões, 75 a 77% são chineses. E este é o primeiro ponto, aliás, que temos talvez de perceber. Cingapura não fica perto da China, ainda fica longe da China, na extremidade da península da Malásia.
Como é que ali foram parar tantos chineses?
E para compreender Cingapura, temos de falar da diáspora chinesa na Ásia. Houve sempre mercadores chineses no resto da Ásia, especialmente no Sudeste Asiático, nos atuais países como o Vietname, a Tailândia, a Malásia, a Indonésia. Mas em meados do século XIX, além desta rede de comerciantes e de negociantes chineses, há uma grande migração de trabalhadores chineses, atraídos pelas necessidades de mão de obra nos territórios que então, em meados do século XIX, começaram a cair sob administração europeia, onde se começaram a desenvolver exploração de minas, de plantações, e portanto, há muitos trabalhadores chineses que vêm para esses territórios, que formam grandes comunidades chinesas na Malásia, na Indonésia, na Tailândia, noutras regiões. Muitos deles, obviamente, mantêm as suas tradições, têm associações próprias, escolas próprias, até às vezes movimentos políticos próprios nestes territórios. Hoje estima-se que haja cerca de 40 milhões de chineses fora da China nesta região. Portanto, é muita gente. Cingapura vem daí. Na Idade Média, Cingapura terá sido uma cidade comercial com muitas relações com a Índia E com a China, e provavelmente terão coabitado lá indianos, chineses, malaios também. É uma cidade cosmopolita. Muito importante que é o dos estreitos, quer dizer, Malaca, Cingapura estão nos estreitos pelo qual passa o comércio entre o Extremo Oriente e o Ocidente, a parte mais o Médio Oriente e o Ocidente.
Nesse sentido, são apenas mosquitos, mas mosquitos muito bem situados.
É muito bem situada, a cidade está muito bem situada. Depois decai, há uma decadência grande, enfim, não vou estar aqui a contar a história, e Cingapura é reavivada no século XIX. No princípio do século XIX, a partir de 1819, pelo Império Britânico. Há um alto funcionário britânico, Stamford Raffles, que é muito conhecido em Cingapura, que faz um acordo com o sultão local. O sultão que dominava a zona era vassalo dos holandeses, os holandeses dominam a atual Indonésia, que eram então, no século XIX, as Índias Orientais holandesas, e este funcionário britânico consegue uma concessão desse sultão para instalar um interposto da Companhia das Índias Orientais Britânica, que domina a Índia, um interposto na ilha de Cingapura. Os holandeses ao princípio não gostam nada desta fixação dos britânicos ali, mas depois acabam por reconhecer e aceitar um tratado de 1824, acabam por aceitar a presença britânica. E Cingapura vai fazer parte daquilo que os britânicos vão chamar os estabelecimentos dos estreitos. Isto é uma série de posições que os britânicos vão ocupar na península da Malásia, precisamente pela sua situação estratégica nas relações entre a Índia e a China e o Japão, isto é, entre a Índia e o Extremo Oriente. E portanto, estes territórios na península da Malásia vão sendo ocupados ao longo do século XIX. Ao princípio, eles fazem parte da Índia britânica, portanto, estão sujeitos ao governo da Índia britânica, e é só depois de 1867 que se torna uma colônia separada, a colônia dos estabelecimentos dos estreitos, é assim que é conhecida. Ora bem, em 1819, o que é que havia em Cingapura, na ilha de Cingapura? Provavelmente haveria talvez menos de mil habitantes.
Mil?
Menos de mil habitantes.
Isso é muito vazio.
Umas centenas. Quase todos malaios, aquilo fica na Malásia, haverá uns quantos chineses, mas poucos. E isso transforma-se totalmente sob a administração britânica. Em 1860, isto é, 40 anos depois, já há 80 mil habitantes.
Isso é 80 vezes mais.
Metade dos quais chineses. Por quê? Porque, entretanto, o porto de Cingapura está se a desenvolver como um porto de exportação das plantações de borracha da Malásia, torna-se o principal porto de exportação, e começa a atrair, isto é, as plantações de borracha atraem muita mão de obra chinesa e indiana, e Cingapura também. E há muitos imigrantes chineses, há muitos imigrantes indianos, e o que faz com que hoje a população tenha, além dos 75, 77% chineses, tenha 9% de indianos e depois 13% de malaios. No princípio do século XX, acrescenta-se a este porto comercial uma base naval britânica. Os britânicos não tinham nenhuma grande base naval no Oriente, em grande medida porque não viam lá rivalidade. As rivalidades deles eram no Atlântico, portanto tinham as grandes bases navais, mas depois começaram a se perceber com a emergência do Japão, que provavelmente poderiam ter ali competição também, e então procuram uma grande base naval para o Oriente e decidem que é em Cingapura. Fazem uma grande base naval, uma das maiores bases navais do mundo, tem 54 km², ocupa quase 10% da superfície da ilha, tem a maior doca seca do mundo e em 1941 tinha 60 mil homens do exército da Marinha Britânica em Cingapura. É uma das grandes bases navais britânicas. Vai ser conquistada pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942. Os japoneses, aliás, vão depois efetuar um enorme massacre de chineses em Cingapura, 30 a 40 mil, 50 mil mortes, dependendo de quem conta a estabilidade, porque obviamente o Japão está em guerra na China com os chineses e vê a população chinesa de Cingapura como potencialmente hostil e faz uma espécie de massacre preventivo pra intimidar essa população. O exército japonês quando entra em Cingapura em fevereiro de 1942, mata imensos chineses que lá estão.
Mas os britânicos ainda resistiram?
Os britânicos renderam-se em 1942, 60 mil homens, foi a maior rendição militar britânica de todos os tempos. O Churchill ficou em estado de choque com isto, porque não era suposto Cingapura cair. Cingapura era uma grande fortaleza. Enfim, isso é outra história que podemos contar, como é que eles perderam Cingapura. Ora bem, e o que é que acontece nestes territórios, nestas colônias holandesas, francesas, inglesas, onde além das populações, vamos chamar de nativas, há estes imigrantes chineses e também muitos imigrantes indianos. É que eles não tiveram vida fácil quando estas colônias começaram a tornar independentes. Por quê? Porque os movimentos independentistas, na maior parte destas colônias, afirmaram-se em nome das nações nativas. Na Malásia era malaios, na Indonésia era javaneses, no Vietnã, vietnamitas e por aí fora. E os chineses, a minoria chinesa era, por um lado, vista como Um obstáculo, uma limitação à homogeneidade da nação, por outras vezes era vista mesmo como associada à colonização. Como se fossem colonos também. Havia os europeus e depois havia também os chineses. É verdade, eram trabalhadores humildes, etc, mas tinham vindo com os europeus para trabalhar naqueles territórios e portanto eram vistos com suspeita. E além disso, depois de Mao Tsé-Tung ter conquistado a China continental em 1949, depois da proclamação da República Popular da China, estas comunidades chinesas também começaram a ser associadas ao comunismo, porque a China é comunista agora, portanto eles também devem ser comunistas porque têm relações na China. E por exemplo, é assim que na Indonésia, em 1965, os chineses são vítimas de um grande massacre cometido por javaneses muçulmanos, sob instigação, aliás, do exército. É um massacre que é contra os comunistas, mas acaba por ser também um massacre contra a comunidade chinesa, sobretudo nas ilhas de Sumatra e Kalimantan, e que faz cerca de um milhão de mortos. Não se sabe, entre meio milhão e um milhão de mortos. São meses de massacres. Repito, a ideia era os comunistas, mas de repente, porque o exército indonésio acusa o Partido Comunista Indonésio de ter tentado um golpe de Estado. Mas a verdade é que há uma identificação clara por uma parte da população entre comunista e chinês. E portanto é contra os chineses e aquilo acaba por ter até mais uma dimensão racial do que propriamente ideológica, isto é, de limpeza étnica da população chinesa.
Mas eles em Cingapura não eram uma minoria.
Em Cingapura eles não são uma minoria. Em Cingapura, são uma minoria na Malásia, onde o cálculo talvez seja um quinto, um quarto da população da Malásia é originária da China. Em Cingapura, eles não apenas não são uma minoria, a maioria da população é chinesa, mas o destino de Cingapura depois de 1945 não é claro. Cingapura em 1946, quando os britânicos regressam depois da Segunda Guerra Mundial, eles separam Cingapura da Malásia, portanto torna-se uma colônia à parte dos Estreitos, dos Estabelecimentos dos Estreitos, que então começam a chamar Malásia.
Portanto, a independência da Malásia é anterior à independência de Cingapura.
Sim, em 1946 eles tornam-se uma colônia. O governo britânico dá-lhes um governo autônomo como parte da Commonwealth em 1959. Cingapura passa a ter um governo autônomo, exceto em matérias de defesa e de relações externas, mas de resto é um governo próprio, com eleições locais, etc. Mas em 1963, quatro anos depois, eles vão se unir à Malásia. E essa união vai durar dois anos. Em 1965 separam-se outra vez. E por que estas flutuações? Isto é, colônia, um governo autônomo, união com a Malásia, separação da Malásia. Por quê? Por um lado, porque a elite política chinesa em Cingapura tem a noção de que está numa pequena ilha, sem recursos naturais, sem carvão, sem petróleo, com uma população variada, uma grande maioria chinesa, mas também muitos malaios e muitos indianos, e de uma certa maneira fazia sentido unir-se à Malásia. A ideia do movimento que quer a independência de Cingapura é para unir-se à Malásia. Porque tem as mesmas características. As grandes dúvidas, curiosamente, ao contrário do que costuma ser nestas circunstâncias, isto é, o país grande quer ficar com o pequeno, as grandes dúvidas vêm do país grande, da Malásia.
Que não quer ficar com Cingapura.
A Malásia tem dúvidas sobre a vantagem de Cingapura. Por quê? Porque não quer mais chineses na Malásia. A elite política malaia quer assegurar a supremacia malaia na Malásia e portanto não quer aqueles milhões de chineses subitamente entrar na Malásia, muito ativos, muito dinâmicos e que eles temem que venham a dominar o governo da Malásia. E que além disso, claro, como são chineses, podem ter relações com a China continental e portanto também podem ser comunistas, etc. Portanto, curiosamente, é o Parlamento Malaio que em 9 de agosto de 1965 decide expulsar Cingapura. É isso que acontece. É expulsar, dizer a Cingapura: "Vocês estão fora, não gostamos de vocês e não os queremos cá, vão-se embora."
Isso parece mesmo muito interessante. O resto vai ter que ficar pra segunda parte, porque entretanto chegamos ao final da primeira. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "O Resto é História". Nós estamos a falar da história de Cingapura e de Lee Kuan Yew. Ainda não chegamos propriamente ao pai, ao chamado pai de Cingapura.
Já vamos lá chegar.
Mas estamos mesmo a chegar, porque estamos em 1965 e acaba de acontecer esta coisa muito rara na história das relações políticas internacionais, que é o país grande diz ao pequenito: "Não estamos interessados, vai-te embora."
Não queremos. E em 1965, Cingapura é atirada para o mar, digamos, reduzida à sua ilha. Nesta altura, Cingapura tem dois milhões de habitantes Uma grande parte destes habitantes são imigrantes, são trabalhadores temporários, chineses, malaios, indianos, são gente que não é dali, que está ali a trabalhar. Não estão lá há gerações. Não, chegaram, são os primeiros a lá estar, portanto não é seguro até que eles lá fiquem. Até há a ideia de que a população que nós temos vai-se embora, que não tem nada para fazer nesta ilha. Cingapura, nesta altura, é mais pequena do que é agora, só tem 580 km², porque entretanto recuperou 200 km² ao mar. Portanto, é mais pequena. Repito, não tem os recursos naturais da Malásia, não tem petróleo, não tem borracha, não tem alumínio, não tem óleo de palma. O que é que tem? Apesar de tudo, não é só mosquitos. Tem um porto importante, ainda tem uma base naval britânica e depois tem a atividade associada com um grande porto de exportação, isto é, tem casas bancárias, tem outros serviços. O que é que isso faz? Faz com que em 1965, Cingapura já é mais rica do que a Malásia. Isto é, o PIB per capita já é 1,6 vezes o da Malásia, portanto não é uma zona pobre. Parece uma zona inviável sem a Malásia, que é uma coisa diferente, não é propriamente uma zona pobre. Sim, mas o seu progresso é impressionante, não é? Não, a gente vai falar do que é que vai acontecer. Mas repara, mesmo nessa altura já é o terceiro país mais rico da Ásia depois do Japão. Em 65. Em 65, depois do Japão e de Hong Kong. Portanto, a base não é a de um char, de uma ilha pantanosa, cheia de mosquitos, abandonada de todos. Não. E até é uma base intelectual também. E a base institucional, tem banks e tem toda a atividade portuária e comercial, e ainda tem a base britânica em 1965. Mas reparem, nesta altura, o PIB per capita de Cingapura é igual ao do Brasil, da Colômbia ou da Costa Rica. Agora, claro, é uma economia pequenina, por exemplo, a economia da Malásia é três vezes maior do que a de Cingapura. É menos pobre do que os vizinhos, mas não é claro em 1965 como é que vai continuar a ser menos pobre e como é que se pode tornar ainda mais rica. Isso não é nada claro. Além de que uma população muito dividida também é uma população dada a conflitos e a problemas graves. Maioria chinesa, mas tem minorias importantes malaias e indianas. Não se sabe como é que vai conviver. Há depois motins. Já tinha havido nos anos 50 motins raciais em Cingapura. Havia alguma violência. Portanto, as coisas não estão garantidas. E depois, aliás, seis anos depois, em 1971, os britânicos fecharam a sua base naval em Cingapura, perderam a base naval britânica, que era uma fonte de rendimento também e de receitas. É aqui que entra em cena, finalmente, o Lee Kuan Yew. Lee Kuan Yew é descendente de chineses, mas de chineses muito ocidentalizados. Eles em casa já falam inglês, ele só vai aprender chinês já adulto, portanto o inglês é a primeira língua dele. Ele vai estudar em Inglaterra nos anos 40, em 1946, e depois vai se tornar o líder desse Partido da Ação Popular, que vai vencer as eleições em 1959 em Cingapura, e Lee Kuan Yew vai ser primeiro-ministro da Malásia até 1990, durante 31 anos, e depois ainda vai ser ministro sênior, uma espécie de conselheiro especial do governo, até 2011. Portanto, até 2011 ele influi na política de Cingapura. Ele só vai morrer em 2015, aos 91 anos. O que é que singularizava este Lee Kuan Yew? Aliás, o nome dele era Harry Lee Kuan Yew. Ele era conhecido como Harry, mas depois quando regressou a Cingapura da Inglaterra, no princípio da década de 50, e se envolveu aliás no movimento para a independência dos britânicos, deixou cair o Harry e passou a usar só Lee Kuan Yew, embora os amigos dele ainda o conhecessem como Harry. A sua educação é totalmente britânica. Ele estuda aliás na Universidade de Cambridge. Ele é advogado em Inglaterra, em 1950. Faz as provas para acesso à advocacia. É em Londres que ele vai integrar-se na luta pela independência da Malásia, no chamado Fórum Malaio, no fim dos anos 40. E este líder extraordinariamente ocidentalizado é uma figura típica das independências do chamado Terceiro Mundo depois da Segunda Guerra Mundial, na África e na Ásia. Os líderes independentistas são gente muito parecida com Lee Kuan Yew. Gente que estudou nos países europeus, gente que está integrada no sistema colonial, cuja família já está extraordinariamente ocidentalizada. Portanto, aqui não vamos encontrar nada que singularize muito Lee Kuan Yew. Até o Gandhi, na Índia, também tinha sido advogado na Inglaterra, também tinha estudado e tinha sido advogado. São estes assimilados que vão protagonizar a luta pela independência, porque é uma luta que é, sobretudo no caso da Inglaterra, de França, que é feita no quadro um pouco também dos debates das metrópoles e que usa conceitos como nação, como democracia, e são estes assimilados que são capazes de usar esses conceitos e que são aqueles que mais facilmente protagonizam estas lutas. Não é por aí que Lee Kuan Yew se singulariza. Também não é pelo tipo de política que ele, a partir de 1965, vai desenvolver em Cingapura e que alguns classificam como autoritária. A Constituição de Cingapura de 1965 estabelece um regime parlamentar pluripartidário, segundo o modelo britânico. Em vez do rei ou da rainha, há um presidente da república eleito, mas que desempenha mais ou menos as funções do monarca britânico. E depois há um primeiro-ministro nomeado pelo presidente, mas que tem que ter a confiança do Parlamento. Esse Parlamento, aí é a diferença do modelo britânico, só tem uma câmara e é eleito de cinco em cinco anos. Isto é um modelo parlamentar britânico. Agora, este modelo parlamentar britânico funciona sob a hegemonia de um único partido, que é o partido de Lee Kuan Yew, o Partido da Ação Popular, que ganhou todas as eleições em Cingapura até hoje, sempre com mais de 60% dos votos. O pior resultado que eles alguma vez tiveram foi 60% dos votos.
É uma democracia, mas ganha sempre o mesmo.
Mas ganha sempre o mesmo, é um pouco como o México no tempo do Partido Revolucionário Institucional, o Japão no tempo do Partido Democrático Liberal, ainda hoje. É uma democracia, há vários partidos, mas em Cingapura o domínio é tremendo, porque o Partido da Ação Popular controla o Estado, exerce um grande controle sobre o espaço público, nomeadamente a imprensa, quase toda nas mãos de empresas ligadas ao partido, e também controla os sindicatos. A Central Sindical também é afiliada no Partido da Ação Popular de Lee Kuan Yew.
O nosso ouvinte fazia aquela ligação em termos de bandeiras, de símbolos com o Mosley.
Eu já vou. Deixa-me só dizer isto. Entre 1965 e 1981, o PAP, o Partido da Ação Popular, é o único partido representado no Parlamento, e hoje ainda tem 87% dos lugares. Nunca houve na história de Cingapura mais do que quatro, cinco, seis deputados da oposição, quando havia, só a partir de 1981. Isto é distintivo, é específico? Já vimos que não. O México funciona da mesma maneira, o Japão funcionou da mesma maneira durante uma grande parte do tempo, e quase todos os novos países independentes da Ásia e da África, com exceção da Índia, caíram em regimes de partido único, até em ditaduras de partido único, depois de terem começado com regimes parlamentares pluripartidários, todos eles evoluíram para regimes de partido único, e sempre com a mesma desculpa, que é a ideia de que nós precisamos desenvolver rapidamente, e para desenvolver rapidamente não nos podemos distrair com debates e começar a haver parlamentos onde há gente a levantar obstáculos. Temos de ter um partido único onde está toda a gente de boa vontade e é assim que acontece em África, é assim que acontece na Ásia. Em Cingapura nunca foi abolido o princípio do pluripartidarismo, mas estabeleceu-se uma hegemonia partidária que, repito, é muito parecida com aquilo que se passa, ou similar àquilo que se passa no resto.
A diferença é a eficácia com que essa cultura política conseguiu desenvolver o país.
A diferença é outra, a diferença é que Lee Kuan Yew estabeleceu esta hegemonia partidária, mas não seguiu as receitas que as outras ditaduras de partido único e hegemonias partidárias seguiram. As receitas que os outros seguiram para desenvolver os países foi o estatismo tipo soviético. Toda a gente achou nos anos 50, 60 e 70 que a melhor maneira de desenvolver um país era como a União Soviética tinha feito. Isto é, estatizar tudo, a terra, as indústrias, pôr tudo sob controle de uma série de sábios num comando central que planearam a economia e fariam desenvolver o país. Isso era, para muita gente, a melhor maneira de desenvolver o país. E curiosamente, Lee Kuan Yew, as suas origens estão na esquerda. Ele começa por ser um social-democrata. Ele na Inglaterra, entre 1947 e 1950, apoia o Partido Trabalhista. Depois ele vem ser advogado dos sindicatos. E é verdade, como ele reconhece, o símbolo do partido é adotado da British Union of Fascists, mas de resto, a linha do partido é o Partido Trabalhista inicialmente.
Mas é por quê? Só porque apreciou o design?
Sim, deve ter apanhado, é uma espécie de um relâmpago.
Mas acha que é só isso, não tem nenhuma identificação ideológica.
A British Union of Fascists é uma cisão do Partido Trabalhista e Oswald Mosley vem do Partido Trabalhista e tem muitas ideias sociais-democratas. O fascismo, aliás, nessa altura, está muito misturado.
Nunca falamos do Mosley aqui.
Não, em 1946, quando Lee Kuan Yew vai para a Inglaterra, a influência da British Union of Fascists e de Mosley é nula, porque o fascismo tinha sido derrotado na Europa. Pelo contrário, a grande influência é o Partido Trabalhista que está no poder em Inglaterra. Essa é que é a grande influência nele, inicialmente.
Mas tu podias classificar Lee Kuan Yew como Como alguém de direita ou achas que até isso é complexo?
Ele vai evoluir para aí, porque a partir de 1961 vai expulsar a corrente de esquerda do Partido da Ação Popular, vai situar o partido no centro-direita com políticas liberais, embora se mantenha na Internacional Socialista até 1976, que é um partido da Internacional Socialista com o Partido Socialista Português e os outros, e sai pelo seu próprio pé. Eles que dizem: "Não, já não queremos estar aqui". E depois segue uma política que é a política que ele percebe, ao contrário dos outros que estão a nacionalizar tudo, a expropriar, a criar uma grande instabilidade em relação aos direitos de propriedade, a criar inflação, aumentar impostos, ele percebe que isso são receitas de desastre. E ele segue outras, que é uma política de tentar atrair investimento internacional e para isso precisa de respeitar a propriedade privada, manter um regime de impostos baixos, embora por vezes use empresas do Estado. Há muitas empresas do Estado em Cingapura, que ele usa para desenvolver determinados setores. Faz um grande investimento em educação.
Ainda hoje.
Tudo é em inglês, a educação é toda em inglês, na melhoria das condições sanitárias, mas tentando manter um Estado social mínimo, com as despesas mínimas, tudo aquilo que o setor privado pode fazer, o setor privado faz. É uma tentativa de manter ali um equilíbrio que torne para grandes empresas internacionais, quando olham para Cingapura, dizem: "Nós aqui podemos investir, porque aqui não vai haver uma loucura expropriadora, nem nacionalizadora como está a haver nos outros países". E depois, com esta base, Lee Kuan Yew pode aproveitar a Guerra Fria, a competição entre a União Soviética e os Estados Unidos, e a disponibilidade dos Estados Unidos para se comportarem como uma fonte de investimentos e um mercado para países aliados. Isto é, para suscitar o seu desenvolvimento. Aquilo que Lee Kuan Yew depois vai fazer é desenvolver uma indústria bastante sofisticada, eletrônica, semicondutores, refinação de petróleo, exportar para estes mercados dos Estados Unidos e de países como o Japão, países aliados, países ocidentais. Investe também no grande porto. O grande porto de Cingapura hoje é o segundo mais movimentado do mundo, depois de Xangai. E depois desenvolve um grande centro financeiro que serve toda a Ásia. Hoje, três dos 100 maiores bancos do mundo são bancos de Cingapura. É um grande centro financeiro também. E é assim que Cingapura, na década de 1960, se torna um dos chamados tigres da Ásia, como a Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong. O Japão talvez fosse também um tigre, mas já era uma economia muito desenvolvida. Isto são tudo regiões que não eram especialmente ricas, também não eram especialmente pobres, mas não eram especialmente ricas, e que vão ser as economias que mais crescem no mundo na segunda metade do século XX. Cingapura tem uma taxa de crescimento do PIB de mais de 7% ao ano durante mais de 30 anos. É uma coisa absolutamente espantosa.
Não há inimigo que o papo ganhe.
Cingapura é o país que mais cresceu no mundo entre 1960 e 2000. A economia que mais cresceu no mundo na segunda metade do século XX.
Mas as eleições são tidas como justas, não é?
Sim, mas num espaço extraordinariamente limitado. Isto é, nos anos 60 e nos anos 70, havia muitos limites do gênero, mandar prender oposicionistas, etc. Havia ali um lado autoritário bastante grande. Lee Kuan Yew, apesar da relação com o Ocidente, o inglês é a língua oficial, vai integrar o bloco dos não alinhados. Ele faz uma espécie de jogo de várias maneiras. Está integrado nos blocos dos não alinhados, mas, por exemplo, reconhece Israel e é o único país dali daquela zona, porque a Malásia é muçulmana e a Indonésia é muçulmana, não reconhecem Israel. Cingapura reconhece Israel e coopera militarmente com Israel. Israel é uma grande fornecedora de armas a Cingapura. Apesar da maioria chinesa, só na década de 90 é que ele vai estabelecer relações com a China continental. Durante muito tempo tem relações sobretudo com Taiwan.
E aquela pergunta sobre a inspiração de Deng Xiaoping, ter servido como inspiração Deng Xiaoping, achas que isso é real?
É provável que sim, terá impressionado Deng Xiaoping, porque é, ao fim e ao cabo, um país chinês, é um país de maioria chinesa, tal como Hong Kong ou Taiwan, que têm histórias também que terão impressionado Deng Xiaoping da mesma maneira, no sentido de serem territórios chineses que tiveram uns crescimentos econômicos tremendos e que permite antecipar que na China também há gente com o mesmo ímpeto de trabalho. Lee Kuan Yew tem sempre o cuidado de evitar a identificação de Cingapura com a maioria chinesa. Ele enfatiza muito a dimensão multicultural de Cingapura, isto é, as três comunidades chinesa, malai e indiana, e até mesmo a nível dos órgãos de poder, há um cuidado para, por exemplo, o presidente da República não ser sempre da mesma etnia, haver às vezes um malaio, outras vezes é um indiano, depois um chinês. Para os vários grupos se manterem identificados com o Estado e não sentirem que o Estado é só de um deles.
É também uma das justificações para o autoritarismo, não é?
Sim, que é a melhor maneira de harmonizar. Ele tem uma grande preocupação com a harmonia das várias comunidades. Ele diz que Cingapura não se aplica bem à ideia de nação, porque há várias comunidades, e essas comunidades não podem estar sujeitas a um tipo de competição política que enfatizasse as diferenças entre eles. Sim, este multiculturalismo serve como um argumento para o autoritarismo, a ideia de que se manter o equilíbrio entre as várias comunidades, a melhor maneira é ter alguém como Lee Kuan Yew lá no topo a equilibrar os vários grupos.
Eu se calhar vou te interromper, lamento, é uma espécie de cliffhanger. Desculpem lá. O que vai singularizar mais é... E nós interrompemos aqui para quem está ouvindo em FM, mas se quiserem saber o que é Está disponível no podcast. Peço desculpa, mas o nosso tempo chegou mesmo até ao fim. Para quem nos está a ouvir em direto, até para a semana.
Então vamos desvendar aquele mistério que foi criado pelo corte.
O que é então, o mais singularizar é?
A associação que Lee Kuan Yew faz entre o desenvolvimento económico e educação cívica. Esta associação ou educação cívica ou ética, se quiserem. Uma educação cívica que é muito inspirada pelos ensinamentos de Confúcio, com uma origem nitidamente chinesa, e numa rejeição daquilo que ele chamou o individualismo liberal ocidental. Isto é, para Lee Kuan Yew, a comunidade nacional de Cingapura está acima das várias outras comunidades, porque as pessoas têm que ter atenção a Cingapura, e depois a sociedade tem que estar acima do eu, isto é, do indivíduo. E de alguma maneira pode-se dizer no que é que ele converte Cingapura a partir de meados da década de 1960. É uma espécie de colégio interno. Há uma grande atenção aos pequenos detalhes, à maneira como as pessoas se vestem na rua ou não cuspir no chão.
A proibição de mascar pastilhas elásticas.
E para isso tudo há castigos, e há castigos físicos. Ele acredita muito nos castigos físicos. Ele esteve num colégio interno em que foi vergastado muitas vezes e diz: "Isso só me fez bem". E portanto acho que isso aplica-se a toda a população e as vergastadas é uma pena que existe até hoje em Cingapura. E se a pessoa fala, encosta no chão, uma coisa qualquer, não sei exatamente, mas é provável. Não dá, mas uma coisa qualquer é capaz de render uma multa.
Além das famosas leis da droga. A questão da droga.
Sim, e a aplicação da pena de morte.
Pena de morte, que é uma coisa brutal.
Portanto, ele usa o castigo físico como no colégio que frequentara para domar, quer dizer, adestrar a população, criar ali uma população. Depois nas suas entrevistas, ele explica isso de várias maneiras, que aquela era uma população que não tinha até nada em comum, que não estava habituada a viver e que se portava mal. Há uma em que ele até explica que eles basicamente não sabiam usar uma casa de banho, etc. E que isso teve de ser tudo à força. Para ele conseguir em poucos anos habituar a população, porque ele diz que teve de usar métodos um bocado violentos, mas sobretudo que teve de ir para além daquele individualismo liberal do Ocidente, isto é, das garantias dos indivíduos, que também estão na Constituição de Cingapura de 1965, mas que ele acha que não pode ser o ponto de partida. O ponto de partida tem de ser esta integração civilizacional de uma sociedade funcional, tem de ser esse, e depois então os indivíduos podem, digamos...
Mas ao mesmo tempo, à procura de construir uma elite meritocrática.
Sim, a ideia de meritocracia, isto é, independentemente da origem dos indivíduos, é o mérito que os liga às posições que vão ter. Agora, mesmo estas ideias todas não são muito originais em termos do terceiro mundo. Quando nós olhamos para aqueles ditadores do terceiro mundo, o Mobutu e coisas que fizeram daqueles países onde foram ditadores, desastre gigantesco, mas também tinham estas ideias tremendas, isto é, o Mobutu de vez em quando nos anos 60 também acordava um dia e dizia: "A partir de agora toda a gente tem de andar calçada. Agora todos os congoleses, os zairenses, têm que fazer isto ou aquilo." E também punha o exército na rua a fazer estas coisas. Portanto, aquilo que verdadeiramente define Lee Kuan Yew é os resultados. Aquilo com estas coisas todas, que nós já vimos nenhuma delas propriamente muito original, depois consegue pôr tudo isto a funcionar de uma maneira absolutamente espantosa. De repente, ele em 1990, quando deixa de ser primeiro-ministro, tem o Estado mais desenvolvido do mundo, com a mais baixa taxa de mortalidade infantil do mundo, a maior esperança de vida do mundo. Isto quando o governo só financia 32 % dos custos de saúde. A maior esperança de vida do mundo. Os estudantes com os melhores resultados nos testes internacionais, no PISA, sempre os primeiros. E depois o país menos corrupto do mundo, que é uma das coisas que impressiona mais em Cingapura. É o país com menos corrupção do mundo, mas curiosamente também o país do mundo onde os políticos são mais bem pagos, porque ele achava que os políticos tinham de ter os mesmos rendimentos que tinham os gestores das maiores empresas a funcionar em Cingapura para atrair o talento, para ter talento na política, que não devia haver problemas com isso. E aliás, era uma das formas também de poupar o país à corrupção. Portanto, em relação à Malásia, a diferença de PIB per capita, que era de 1,6 vezes a favor de Cingapura, hoje é seis vezes. Hoje Cingapura tem seis vezes o PIB da Malásia. Em relação ao Brasil, em 1965, ele tem um PIB igual ao do Brasil, PIB per capita igual ao do Brasil.
O PIB, claro, é enorme.
Ele tem um PIB per capita igual ao do Brasil, hoje é 10 vezes o PIB do Brasil. Cingapura é hoje o país mais rico do mundo, em PIB per capita ajustado ao poder de compra. É o país mais rico do mundo. E isso deu a Lee Kuan Yew aquele resumir o caminho percorrido no título de um livro do terceiro mundo Para o primeiro. Portanto, onde é que vem aquilo que parece ser um milagre? Bem, eu acho que vem da conjugação de muitos fatores. Isto é, o segredo não está neste ou naquele ingrediente. Os ingredientes são mais ou menos os mesmos de outros países. É a combinação dos ingredientes e provavelmente a sabedoria com que esses ingredientes foram combinados. É quase como a culinária. Os cozinheiros cozinham com os mesmos ingredientes e uns fazem um excelente cozinhado e outros fazem um cozinhado muito mau. Lee Kuan Yew consegue conjugar muita coisa. É provavelmente um homem notável, muito capaz, muito clarividente, exprime-se como uma espécie de sábio. Não é por acaso que ele impressiona o Fareed Zakaria, basta ver vídeos dele a falar, e há muitos na internet. Impressiona qualquer pessoa, parece que se está perante um sábio da antiguidade a falar.
Mas ele é realmente um intelectual, não é? Uma pessoa muito lida, muito estudada.
Muito lida, muito capaz, com argumentos muito sofisticados. Mesmo na política, tem uma sabedoria que escapa à maior parte dos outros líderes autoritários do seu tempo. Por exemplo, entre 1984 e 1990, ele começa a preparar a transição. Ele diz: "Nós não podemos acabar todos velhinhos no poder. Isto vai a correr mal se isso acontecer. Vamos sair todos." Em 1990 ainda não tem 70 anos quando sai do poder. Prepara uma nova geração, é verdade, dentro do Partido da Ação Popular, mas prepara uma nova geração para suceder àquela geração da independência de 1965. E depois tem condições que nós não podemos subestimar. Nós estamos a falar de uma cidade-estado. Não é um país com 100 milhões de habitantes, com tamanho gigantesco, com imensas regiões muito diferentes umas das outras, com imensos problemas. É uma cidade que tinha imensos problemas em 1965, mas o trabalho dele é de um grande presidente da Câmara Municipal, com uma grande proximidade às pessoas e isso facilita muito o trabalho de um político que não é daqueles que está à frente de um Estado gigantesco. E depois tinha bases importantes. O antigo centro comercial britânico e o porto britânico, as tradições das famílias chinesas, o capital que já havia ali de qualificações, aquilo era um porto militar e um porto comercial extraordinariamente sofisticado e não é propriamente uma zona rural perdida numa montanha. É uma zona que está em contacto com redes comerciais e financeiras complexas, está ali todo um conhecimento muito grande ali. Mas noutras regiões tudo isso foi destruído, ele ali construiu sobre isso. Apesar de tudo, eu diria que há ali coisas que não é fácil repetir em qualquer outro lugar do mundo. Agora, posto isto, nós vimos outros países onde tinham imensas condições a serem entregues a líderes políticos que conseguiram destruir tudo. Lee Kuan Yew, mesmo com as reservas que possam ser feitas ao seu tipo de governo e à sua conceção da relação entre a população e o governo, a verdade é que ele criou condições que são as melhores possíveis para toda a gente que vive em Singapura, e que o tornou, nos últimos anos, já até depois de morrer, uma espécie de figura de culto e de pessoa que muita gente tenta estudar para perceber qual foi a receita, qual foi o truque, qual foi a magia. A magia provavelmente foi ser prudente, saber no mundo onde é que está, perceber as consequências de determinadas ações, e depois ter condições também para a sua sabedoria funcionar.
O Zakaria dizia que aquilo que mais me impressionava é que nunca tinha visto outra figura que fosse simultaneamente ter tantas capacidades políticas e tantas capacidades intelectuais. E conseguia ter ali uma junção que ele entendia que era extremamente rara.
Sim, não é frequente. Às vezes as pessoas que têm habilidade política não têm a clarividência e a visão intelectual, e as pessoas que têm a clarividência e a visão intelectual às vezes não têm nenhuma habilidade política. Lee Kuan Yew é alguém que tem, juntou as duas capacidades e soube aproveitar aquilo que já havia ali, o potencial que havia em Singapura para fazer uma história incrível, fantástica de um país que inicialmente não promete.
Podia ter corrido mal.
Podia hoje ser um porto abandonado, até, porque a Malásia em determinada altura também começou a construir portos, que era para competir com Singapura e deslocar Singapura. Podia ter acontecido isso, ter se tornado ali um território mais ou menos marginal, e não foi isso que aconteceu. E isso deve-se nitidamente à população de Singapura, obviamente, que trabalhou, que investiu, que poupou, que se empenhou, mas também a um líder como Lee Kuan Yew, que conseguiu, por um lado, aproveitar da melhor maneira, por outro lado, também ser a consciência desse esforço, isto é, constantemente transmitir à essa população o que é que a população estava a fazer, dar-lhe uma visão e um caminho, dizer: "Nós estamos neste caminho." Isso é também um lado extraordinariamente importante. Eu agora diria, em relação ao Fareed Zakaria, diria que há este terceiro lado, que é o lado do profeta, do intelectual com capacidade política, mas que ao mesmo tempo tem esta capacidade de falar para as pessoas e dar às pessoas a sensação de que está num caminho, há este caminho que estamos.
Exatamente. Falta muito disso. Bom, e assim termina esta edição de "O Resto é História". Nós voltamos para a semana.
E o resto é história. É apenas fumaça do incêndio que lá ainda na zona dos Chiados. Quer transformar este país numa ditadura. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.