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As armas e os bailes.

E o resto é história.

É a terra a fumar. Do incêndio e palavra ainda na zona dos Chiados. Enfaz-me filho, fá-lo por gosto. É que eu morro, filho vermelho, troco de cor, fogo de amor.

Quer transformar este país numa ditadura. Entendem? Entendem?

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Olá, seja bem-vindo a este episódio 283 do "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Pelo menos dois ouvintes, o José Pedro e a Ângela Santos, tiveram a sorte de visitar a ilha de Chipre e vieram de lá com recordações e com perguntas para "O Resto é História", dado o contexto único da ilha e a sua divisão entre cipriotas gregos e cipriotas turcos. A Ângela pergunta mesmo como é que a história antiga e recente deste país tão fascinante escapa aos olhos do mundo. É uma boa pergunta e todos nós sabemos, Rui, que tu és um mestre na arte de abrir os olhos do mundo.

E os ouvidos do mundo também.

E os ouvidos e tudo. E, portanto, esta é uma ótima oportunidade para falarmos das singularidades de Chipre. Ainda por cima, faz este ano, em julho, 50 anos do golpe de Estado na ilha, apoiado pela junta militar que então controlava a Grécia, e a subsequente invasão de Chipre pela Turquia. O resultado desse confronto foi a queda da ditadura dos coronéis na Grécia, e essa foi a outra grande transição democrática de 1974, além, claro, da portuguesa. E realmente parecia mal que deixássemos acabar o ano 2024 sem falar tudo isto. Rui, por onde é que tu queres começar? Por Chipre ou pela ditadura dos coronéis na Grécia?

Vamos começar por Chipre, porque é aí que começa o processo que leva à queda da ditadura dos coronéis da Grécia e é também porque os nossos ouvintes querem ouvir falar de Chipre.

Querem ouvir falar de Chipre e nós que respeitamos muito os nossos ouvintes.

Nós também queremos falar da transição democrática na Grécia, mas queremos falar de Chipre.

Sim, muitas vezes, Chipre.

Chipre é uma ilha no Mediterrâneo Oriental, fica perto do que hoje é a Turquia. A Turquia fica a 75 km a norte. O Líbano fica a cerca de 100 km a leste de Chipre. Chipre tem cerca de 9 mil km².

Isso significa, desculpa, que a Grécia fica bastante mais longe.

A Grécia fica bastante mais longe. Chipre tem cerca de 9 mil km², é um pouquinho mais pequeno do que o distrito de Beja. Tem grandes montanhas, um dos picos chega a quase 2 mil metros de altitude, portanto, uma paisagem típica do Mediterrâneo. E na Idade Média, Chipre fazia parte do Império Bizantino, isto é, do Império Romano do Oriente, com capital em Constantinopla, portanto, era uma ilha de cultura grega e cristã ortodoxa. E tem, portanto, uma população que fala grego, faz parte da Igreja Ortodoxa. No tempo das Cruzadas, no fim do século XII, instala-se em Chipre uma dinastia e uma aristocracia de origem francesa, portanto uma dinastia e uma aristocracia de religião católica, latina. Não muda a população, a população continua a falar grego.

Mas instala-se sob alguma guerra? Ou é conquistada mesmo?

É conquistada pelo Ricardo Coração Leão.

Ah, o famoso. O do Robin dos Bosques.

O do Robin dos Bosques, exatamente.

O que regressa no final do Robin dos Bosques.

O que regressa no final dessa história. E esta dinastia, esta aristocracia francesa, identifica o poder político na ilha com uma classe exterior à sociedade grega e ortodoxa. Portanto, o reino de Chipre é governado por esta dinastia e esta situação vai se manter até cerca do fim do século XV, em 1473, esta dinastia francesa chega ao fim, extingue-se, e a ilha é adquirida pela República de Veneza. Portanto, mais uma vez mantém a situação da ilha estar... agora começa a ser mesmo governada de fora, digamos assim. Portanto, primeiro pela República de Veneza e depois no século seguinte, século XVI, no fim do século XVI, aliás, é quase um século depois, é o Império Otomano que substitui a República de Veneza como poder soberano em Chipre. Portanto, Chipre é conquistada pelos otomanos, por exército otomano. E sob os otomanos acontece outra coisa que é importante pra história de Chipre, que é o começo da entrada em Chipre, em números avultados, de imigrantes vindos da Ásia Menor, imigrantes de língua turca e de religião muçulmana. Apadrinhados, claro, pelas autoridades otomanas.

Ok.

Mesmo assim, os gregos ortodoxos continuam a ser a maioria Os turcos, quando chegamos ao século XIX, não deverão ser mais do que 20%, portanto, um quinto da população, ou melhor, os muçulmanos não deverão ser mais do que um quinto da população.

E a religião cristã continua a ser praticada mesmo debaixo do Império Otomano.

Sim, os otomanos têm esse sistema de constituir estas comunidades submetidas, identificá-las como comunidades religiosas e identificar as autoridades religiosas como as autoridades políticas para contato com o Império Otomano. Neste caso, é o arcebispo ortodoxo de Chipre que se torna o contato com o Império Otomano, a representar esta população cristã que não tem os mesmos direitos dos muçulmanos, está submetida ao poder otomano, um poder muçulmano, mas tem uma espécie de autonomia e governa-se a si própria. Isto é curioso, a ilha de Chipre faz lembrar um pouco a situação, e permitam-me fazer este paralelo, da ilha da Irlanda sob o domínio britânico. Sobretudo a partir do século XVII. A Coroa Britânica é uma potência protestante, a maioria da população da ilha da Irlanda é católica e por causa do domínio do reino da Inglaterra, neste caso, começa a entrar na Irlanda uma população vinda da Grã-Bretanha protestante, quer escocesa, quer inglesa, e começa a se estabelecer na ilha. Portanto, aqui temos uma situação em que o poder otomano, o poder muçulmano, está a introduzir uma população muçulmana numa ilha cristã ortodoxa, uma espécie de um paralelo com a Irlanda sob domínio britânico. Aliás, já tivemos aqui um programa sobre a Irlanda. No século XIX, as coisas mudam, o Império Otomano revela-se incapaz de continuar a competir com as potências europeias. Está a ser sobretudo assediado pela Rússia e para isso procura proteção noutras potências europeias, que é a Inglaterra. A Inglaterra começa a proteger o Império Otomano. A Rússia verdadeiramente quer conquistar Constantinopla, os czares querem afirmar-se como os herdeiros dos imperadores de Bizâncio. Essa é a ideia da imperial Rússia, e ao mesmo tempo patronos das igrejas ortodoxas. Este sonho imperial da Rússia é contrariado pela Inglaterra, também pela França, em parte, as potências ocidentais não querem ver a Rússia dominar o Mediterrâneo e por isso protegem o Império Otomano, mas protegem o Império Otomano exigindo determinadas contrapartidas. E uma das contrapartidas que a Inglaterra exige e consegue é a concessão da ilha de Chipre, isto é, o Império Otomano faz uma concessão da ilha de Chipre ao Império Britânico em 1878. Em troca da proteção, o sultão de Constantinopla diz: "Muito bem, os ingleses passarão a administrar Chipre." Nominalmente continua a ser uma possessão otomana, mas já sob administração britânica.

E os britânicos, claro, tinham interesse, era a marinha mais poderosa do mundo e, portanto, havia também interesse estratégico na zona.

Era um interesse geoestratégico, os ingleses estão muito interessados no controle do Mediterrâneo. Para isso têm Gibraltar, na península ibérica, têm a ilha de Malta e agora têm Chipre também como grandes bases navais. O que lhes interessa ali é o domínio do Egito e a partir da segunda metade do século XIX, o controle do canal do Suez, que permite o acesso ao Império Britânico da Índia. Portanto, isto para os britânicos é muito importante, Chipre como uma base naval. Mas repito, os britânicos estão em Chipre fingindo que o sultão ainda é o soberano e que eles estão ali apenas a administrar Chipre. A situação muda com a Primeira Guerra Mundial, quando os otomanos se aliam à Alemanha, e aliam-se à Alemanha porque a Rússia está aliada à Inglaterra e à França, e a Rússia é um dos seus principais inimigos, portanto eles aliam-se à Alemanha, mas isso faz com que a Grã-Bretanha declare Chipre uma colônia britânica. Deixam de manter a ficção de que é uma possessão otomana e passa a ser uma colônia britânica. Portanto, em Chipre, sobretudo, os britânicos têm bases navais, que ainda têm hoje, ainda têm duas grandes possessões navais e aéreas hoje em dia em Chipre. Mas esta administração britânica começa a entrar em choque com as aspirações da população grega ortodoxa de Chipre. Essa população tem uma aspiração, que é Vir a fazer parte da Grécia.

Não a independência.

Não a independência, mas vir a fazer parte da Grécia. Quer vir a fazer parte da Grécia, quer a união com a Grécia. Isto tem uma outra história, que tem uma história que começa na Grécia. A Grécia torna-se independente do Império Otomano nos Balcãs, na década de 1820, falamos aqui disso, mas os líderes da revolução grega nunca viram a Grécia apenas como um país dos Balcãs. Viram-no sempre como um país que devia corresponder a todas as áreas de influência grega ou helênica no Mediterrâneo Oriental. E isso incluía as ilhas como Creta, como Chipre e as outras ilhas do mar Egeu, mas incluía também as cidades onde os gregos estavam em maioria nas costas da Ásia Menor. Na Ásia Menor, Esmirna, etc., eram grandes cidades gregas e os líderes da independência grega sempre acharam que essa parte também devia pertencer à Grécia. Isto é, a Grécia devia corresponder ao mundo de língua grega e de religião ortodoxa. Era isso que eles queriam. Não era apenas Atenas e a zona do-

Só que a Grécia não tinha poder para isso.

Isto era a grande ideia, como eles diziam, a grande ideia para a Grécia. E a Grécia vai tentar isso, sobretudo na Primeira Guerra Mundial, quando o Império Otomano faz parte dos derrotados da Primeira Guerra Mundial, ao lado da Áustria e da Alemanha. A Grécia julga que tem ali uma oportunidade para conquistar uma parte da Ásia Menor, a Ásia Menor que fala grego e que tem a religião ortodoxa, e aí defronta-se com uma reação dentro do Império Otomano de militares que já têm uma visão, que não é a visão otomana, mas é a visão turca. São nacionalistas turcos. Estão a tentar afirmar a Turquia na Ásia Menor e também em Constantinopla, que eles querem manter, Istambul. No princípio da década de 20, defendem a Ásia Menor contra a incursão militar dos gregos. Os gregos falham e estes nacionalistas turcos a outra coisa que fazem é atacar as populações cristãs de língua grega e não apenas, também as populações cristãs de língua armênia, atacam-nas, massacram-nas e no caso dos gregos, são expulsos da Ásia Menor.

O que tu estás a dizer, só para explicar, é que há um conflito militar entre a Grécia e a Turquia depois da Primeira Guerra Mundial?

Depois da Primeira Guerra Mundial, na década de 20, a Grécia tenta reclamar estas áreas daquilo que hoje é a Turquia, na altura é o Império Otomano a desfazer-se, como parte da Grécia e os militares turcos reagem e defendem e aquilo que fazem é expulsar a população cristã grega. São centenas de milhares de pessoas que são expulsas da Ásia Menor e que vão para a Grécia. Eles, de fato, não regressam, já estão há séculos fora daquilo. E numa região que eles pensam que também é a Grécia. Para eles, aquilo também era a Grécia do ponto de vista da cultura helênica e da tradição ortodoxa.

O que tu estás a dizer é que houve uma permanência consecutiva grega mesmo naquilo que é hoje o território continental da Turquia, não é?

Desde a antiguidade. Aquilo é hoje o território da Turquia, aquilo era a Grécia. Nós temos que ter presente que a Grécia não era apenas Atenas, Esparta, a Grécia eram todas as cidades gregas que havia na Ásia Menor e todas as zonas de influência grega no Médio Oriente, no Líbano, no Egito, Alexandria era uma cidade grega. A Grécia era isso tudo. E na antiguidade, durante o Império Romano, toda aquela parte do Império Romano falava grego e os independentistas gregos, na década de 1820, têm como objetivo não fazer a Grécia que existe hoje, mas restaurar esse Império Romano do Oriente, que era um império grego. É esse império grego que eles têm o objetivo.

Mas essa limpeza, digamos assim, de gregos ortodoxos, ocorreu apenas na década de 20 do século 20.

Ocorre depois da Grécia ter tentado reclamar esses territórios e os turcos terem entendido que aquelas populações gregas, enquanto lá estivessem, iriam ser sempre um chamariz para os gregos reclamarem aqueles territórios. Aliás, há uma espécie de troca de população, porque também há muitos muçulmanos que são expulsos da Grécia nesta altura, nos anos 20. Há uma troca de populações, limpezas étnicas dos dois lados, ou étnicas religiosas, dos dois lados, para rearrumar as populações. E isto vai ser também a história de Chipre, como vamos ver. Em Chipre, este movimento de união com a Grécia A chamada Enosis, a união com a Grécia, continua sob o domínio britânico, torna-se até violento, no sentido de haver choques entre as populações cristãs e as populações muçulmanas em Chipre. Nesta altura, sob domínio britânico em Chipre, as populações muçulmanas tendem a apoiar os britânicos, porque temem que se os britânicos forem embora, haja uma união com a Grécia. Portanto, eles tendem a apoiar os britânicos e eles temem que aconteça em Chipre o mesmo que tinha acontecido na ilha de Creta. Na ilha de Creta também tinha uma população cristã e uma população muçulmana, e quando a ilha de Creta é anexada pela Grécia em 1908, a população muçulmana é expulsa ou é compelida a fugir. Há uma diferença entre Creta e Chipre. Em Creta, a população muçulmana é de língua grega, e em Chipre é de língua turca. Em Creta, provavelmente a população muçulmana é uma população local grega convertida ao Islã. Enquanto em Chipre é uma população que veio da Ásia Menor e que se instalou lá desde o século XVII.

E que nessa altura já havia uma separação geográfica entre essas duas populações?

Não, ainda não há. Portanto, entre 1955 e 1959, depois da Segunda Guerra Mundial, entre os cristãos cipriotas de língua grega, lançam um movimento violento para expulsar os britânicos e obterem a união com a Grécia. É um movimento de guerrilha contra os britânicos, que sofrem cerca de 400 mortos entre 1955 e 1959. É o movimento EOKA, que é o nome deste movimento, desta força de guerrilha. E em 1960 os britânicos dizem: "Já chega, não vamos continuar a tentar governar isto, vamos embora. Vamos apenas manter as bases." Eles mantêm as bases, até hoje ainda mantêm bases soberanas, é território britânico.

Um pouco como Gibraltar.

Sim, um bocadinho como isso. E em 1960 tenta-se estabelecer um acordo para fazer conviver no mesmo Estado independente de Chipre, portanto não há união com a Grécia, é um Estado independente, haver uma coexistência entre a população cristã e a população muçulmana. Faz lembrar um bocadinho os arranjos do Líbano, entre a população cristã e a muçulmana no Líbano também nesta época. Isto é uma república, haveria um presidente eleito pelos gregos. O primeiro vai ser o arcebispo Macário, precisamente, o que resulta da tradição otomana do chefe religioso ser ao mesmo tempo o chefe político. Portanto, a comunidade grega elege o arcebispo Macário. E depois haveria um vice-presidente eleito pelos turcos. Reparem isto, cada uma destas comunidades separadamente, uma elege o presidente e a outra elege o vice-presidente. Portanto, os turcos não votam para presidente e os gregos não votam para vice-presidente. E o vice-presidente pode nomear três dos 10 ministros. O governo tem 10 ministros, sete são nomeados pelo presidente, três pelo vice-presidente.

E essas diferenças claro, representavam as diferenças populacionais.

Esta Constituição trata gregos e turcos como se eles fossem dois países, dois países juntos, mas dois países à parte. Aliás, mesmo para a eleição do Parlamento. Os gregos têm uma quantidade de deputados que eles elegem e os turcos têm uma quantidade de deputados que eles elegem à parte.

Isso tem tudo para correr mal.

Tem tudo para correr mal, exatamente.

Olha, mas vai correr mal na segunda parte, porque entretanto chegamos ao final do nosso tempo. Até já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar de Chipre e também vamos falar da ditadura dos coronéis da Grécia um pouco mais à frente, mas tínhamos prometido no final da primeira parte que chegou o tempo em que as coisas iam mesmo começar a correr mal.

E uma das razões, um dos fatores para as coisas correrem mal, é a educação.

Então. Eram pessoas mal-educadas.

Hoje Chipre, ao contrário, Chipre tem um dos níveis de instrução dos mais altos do mundo. E isto foi um problema, porque as duas comunidades, os cristãos ortodoxos e os muçulmanos de língua turca, investiram imenso na educação, na escolarização. E para quê? Para constituírem comunidades ainda mais diferenciadas uma da outra. Isto é, escolarizar todos os miúdos cristãos para aprenderem grego, para se tornarem gregos, e escolarizar todos os muçulmanos do outro lado para os fazerem falantes de turco. O que isso fez? Podia ter acontecido outra coisa, que era os cipriotas terem dito: "Nós, uma parte somos cristãos e outros somos muçulmanos, mas somos todos cipriotas." E em vez disso o que aconteceu é que não são apenas cristãos e muçulmanos, são gregos e turcos. Isto é, foram nacionalizados por estes sistemas educativos separados, cada um investiu nas escolas que queria e os níveis de distorção levaram os níveis de nacionalismo e de diferenciação desta população. Isto explica depois recorrentes choques entre gregos e turcos, vamos chamar-lhes gregos e turcos. Por exemplo, em 1963, 1964, há uma crise quando o vice-presidente turco declara até mesmo o fim da República de Chipre, diz: "Isto acabou, já não vale a pena continuarmos a fingir que há aqui qualquer coisa". E o que acontece nos anos 60 com estes choques é que as populações começam mesmo a separar-se fisicamente. Por exemplo, a população turca começa a separar-se da população grega, a constituir enclaves. É assim mesmo que eles são chamados, enclaves, áreas onde só há turcos já, onde só se fala turco e onde estão os muçulmanos. E aí os cipriotas muçulmanos começam a pedir a independência da parte norte da ilha, porque a maior parte dos enclaves turcos estão na parte norte, portanto eles começam a dizer: "Vamos dividir". Portanto, duas reclamações diferentes. Enquanto os gregos ortodoxos pedem a união com a Grécia, a Enosis, os muçulmanos turcos pedem a partilha, a divisão.

E querem a independência, não se querem juntar à Turquia.

Eles durante algum tempo, nos anos 40 e 50, fizeram isso também, exigiram juntar-se à Turquia, que toda a ilha de Chipre fosse parte da Turquia. Agora abandonam isso e pedem apenas a independência, o Taksim, que é a divisão. Estes enclaves turcos são controlados pela polícia grega, portanto tornam-se zonas de pobreza, estão mais ou menos cercados pelos gregos, o que gera imensos protestos da Turquia, campanhas na Turquia a dizer como os turcos estão a ser maltratados, a população de língua turca está a ser maltratada em Chipre. E a situação é tão má que a partir de 1964 há uma força militar da ONU em Chipre para manter a paz entre as duas comunidades, uma força que ainda lá continua ao fim de 60 anos. Entretanto, na Grécia, e agora passemos de Chipre pra Grécia, a situação não é muito melhor. A Grécia passou por uma guerra civil no fim da Segunda Guerra Mundial. Acabou a Segunda Guerra Mundial, começou uma guerra civil onde morreram ainda mais gregos do que na Segunda Guerra Mundial, uma guerra civil entre comunistas apoiados pela União Soviética e pela Jugoslávia de Tito, e nacionalistas apoiados pelo Reino Unido, pela Inglaterra. O Stalin deixa mais ou menos cair os comunistas, os nacionalistas acabam por vencer a guerra civil grega e instaura-se uma democracia na Grécia, mas a democracia nunca recuperou da guerra civil depois da Segunda Guerra Mundial. Por exemplo, o Partido Comunista Grego continua ilegal nos anos 60, nos anos 70 ainda é ilegal. E em meados da década de 1960 surge um político na Grécia, que é um político famoso, o Andreas Papandreou, que tinha vindo dos Estados Unidos, onde ele tinha sido professor, muito influenciado pela esquerda americana. Ele é filho de um outro político grego, mas um político liberal. Andreas Papandreou quer ser um político socialista e propõe-se executar na Grécia uma espécie de um programa socialista, isto é, legalizar os comunistas, afastar a Grécia dos Estados Unidos, declarando a Grécia neutral. A Grécia nesta altura já faz parte da NATO. Ele vai apresentar constantemente a Grécia como colônia dos Estados Unidos, atacar o rei, a Grécia é uma monarquia constitucional, atacar o exército, porque o exército é o exército dos vencedores da guerra civil. E esta campanha do Andreas Papandreou, numa Grécia que aliás está nesta altura a começar, como todas as sociedades da Europa do Sul, a mudar, a urbanizar-se, a industrializar-se na década de 1960, está numa mudança. Papandreou diz: "Vamos mudar isto tudo". O que faz é criar, em meados da década de 60 na Grécia, enormes conflitos políticos e um certo caos. O Parlamento não funciona, não há governo durante imenso tempo, ele tem um grande impacto. E o que acontece? Acontece que o exército vai reagir contra Papandreou, à possibilidade de Papandreou tomar o poder, tornar-se governo, o exército não quer admitir isso, e em 21 de abril de 1967, um mês antes das eleições em que Papandreou podia ganhar as eleições, o exército dá um golpe. Portanto, é um ambiente muito latino-americano. A América Latina, o Brasil, 1964, é um ambiente muito latino-americano. E estabelece esta ditadura militar, o regime dos coronéis, porque são coronéis que estão à frente da ditadura militar, com relações complicadas com os Estados Unidos. Os Estados Unidos é o grande financiador e patrono do exército grego, mas às vezes não está muito contente com a violência da ditadura militar grega.

Isso também é como na América Latina.

Exatamente como na América Latina. Tal como em todas as ditaduras militares, nada ficou estável. O rei Constantino II da Grécia tenta ainda em 1967 uma espécie de contragolpe contra os coronéis, é obrigado a sair da Grécia, a exilar-se. E depois, no princípio da década de 70, é mesmo deposto pela ditadura militar grega, que declara uma república, a Grécia aliás já tinha sido uma república nos anos 30, volta a ser uma república. Mas em 1972, a junta militar grega começa a sentir dificuldades, inflação, as coisas não estão a correr bem.

E também a crise do petróleo, não é não?

Em 73. E o seu líder, que era o coronel Papadópulos, que é o presidente da junta, anuncia uma transição democrática. Diz: "Vamos voltar à democracia". O que isto faz é duas coisas: primeiro, os estudantes de extrema-esquerda, em vez de dizerem: "Ótimo, vamos então pra transição democrática", dizem: "Não, vamos atacar ainda mais a ditadura militar". Os confrontos aumentam ainda mais, há mortes na Universidade de Atenas, há grandes choques entre a polícia e os estudantes, a situação ainda se torna mais repressiva e mais caótica. E há também uma parte dos coronéis, sobretudo aquele coronel que até era o verdadeiro cérebro da ditadura militar, que é o coronel Dimitrios Ioannidis, que acha péssima esta ideia de acabar com a ditadura militar. E no princípio de 1974, há um novo golpe dentro da ditadura militar para depor Papadópulos e Ioannidis torna-se o-- enfim, ele nunca vem pra frente, fica sempre atrás, mas nitidamente a partir daí é ele que comanda. Portanto, o objetivo desses coronéis é manter a ditadura militar na Grécia. Tal como vai acontecer na Argentina em 1982, oito anos depois, era necessário justificar a manutenção da ditadura militar com um projeto grandioso, com um sucesso qualquer que levasse os gregos a dizer: "Ainda bem que temos os coronéis a mandar na Grécia." E a ideia que surge verdadeiramente é a da união com Chipre, isto é, de provocar a união com Chipre.

Estás a apresentar isso como uma espécie de golpe de marketing.

Sim, e foi um golpe de marketing. Tal como a junta argentina em 1982 tentou reclamar as ilhas Falkland, as Malvinas, como uma tentativa de dizer: "Isto é uma ditadura militar, mas nós reclamamos território argentino." A ditadura grega em 1974 também tem a mesma ideia, que é dizer: "Graças a nós, Chipre voltou a fazer parte da Grécia." E aquilo que faz a junta militar grega é colaborar num golpe da Guarda Nacional de Chipre, que é o exército de Chipre.

Colaborar, barra promover, não é?

Sim, colaborar. Em Chipre também há um movimento enorme de provocar a união com a Grécia. É um movimento muito importante em Chipre. E portanto, o que eles fazem em 15 de julho de 1974 é derrubar o governo do Arcebispo Makarios.

Que ainda lá andava.

Que ainda lá estava e ainda vai lá estar depois, atenção, isto ainda não acabou. A ideia era derrubar o governo, instaurar um outro governo e esse governo mais tarde, eles não chegam a fazer isso, proclamar a união com a Grécia, a Enosis. O que é que acontece? Eles tinham tudo isto previsto, outras coisas aconteceram, há o golpe, o Arcebispo Makarios primeiro corre a notícia que ele tinha morrido durante o golpe, mas ele de fato tinha fugido, acaba por ir para a Inglaterra, donde faz um comunicado a não reconhecer o golpe e a denunciar o golpe imediatamente como uma manobra inspirada, dirigida pela junta militar na Grécia. E o que a junta militar na Grécia não tinha contado era com a reação da Turquia. A Turquia também tem uma política de grandeza, portanto a Turquia também não quer ser só a Turquia, tal como a Grécia não quer ser só a Grécia hoje. A Turquia secularizou-se com Kemal Atatürk a partir dos anos 20, mas o regime turco continua a manter uma ideia de um dia poder restaurar a grandeza otomana. E uma parte dessa grandeza otomana era reivindicar Chipre, mais uma vez, como parte da grande Turquia e ao mesmo tempo proteger os muçulmanos cipriotas de língua turca em Chipre, que eles consideram que estão a ser maltratados pelos gregos. Além disso, a situação política na Turquia nesta altura também é tão complicada como na Grécia. Há um governo de uma facção de esquerda antiocidental do Partido Republicano kemalista, que está no poder, mas está sob pressão dos militares. Os militares turcos tinham feito vários golpes de Estado em 1960, vão fazer outro em 1980. Em 1971 não tinham feito um golpe de Estado, mas tinham feito um ultimato ao governo. Portanto, há uma grande pressão desses militares kemalistas, de Kemal Atatürk, sobre o governo e o governo turco acha que é a altura de fazermos alguma coisa perante este golpe na ilha e a 20 de julho de 1974 envia forças militares, supostamente para proteger a população muçulmana de língua turca em Chipre, mas o que vai acontecer nas semanas seguintes é que o exército turco ocupa um terço de Chipre, há combates com as forças cipriotas gregas. Em agosto, há um cessar-fogo, que cria uma linha de divisão patrulhada pelas Nações Unidas entre o norte de Chipre, onde está o exército turco, e o sul, que continua sob o controle do governo cipriota grego. E o que há aqui outra vez é uma rearrumação de populações. Há cerca de 150 mil gregos, isto é um quarto da população total, que foge da parte norte ocupada pela Turquia para sul da ilha de Chipre. Um terço dos gregos são deslocados no verão de 1974 e cerca de 50 mil turcos, metade da população de língua turca, foge para o norte. Há uma separação total entre as duas comunidades, muçulmanos turcos a norte, cristãos ortodoxos gregos a sul.

E uma linha divisória que não correspondia necessariamente aos enclaves da altura.

Não, o exército turco ocupa um terço da ilha.

Ou seja, muito mais do que os enclaves.

Aliás, havia enclaves a norte e havia enclaves a sul. A maior parte dos enclaves muçulmanos estavam ao norte, mas também havia muitos a sul. Metade da população muçulmana vivia no sul, estava em enclaves no sul, não estava no norte. Eles fugiram para norte, que é a zona ocupada pelo exército turco.

E lá se foi o golpe de marketing dos coronéis.

Totalmente. Isto é um desprestígio completo para a junta militar na Grécia, que logo a 23, 24 de julho, três dias depois da invasão turca Cede o poder a um antigo primeiro-ministro conservador, que é o Constantinos Karamanlís. Isto na política grega é fantástico. Basicamente, eles têm todos o mesmo nome, e que são famílias. A direita é governada pelos Karamanlís e a esquerda pelos Papandréo, desde já não se sabe quando até hoje. Estas famílias, estes clãs dominam completamente a política grega. O Constantinos Karamanlís vai se tornar o chefe de governo em julho de 1974 e vai iniciar a segunda transição democrática do ano de 1974 na Europa, que é a transição democrática grega. Ele vai restabelecer a atividade dos partidos políticos, vai fazer eleições e vai iniciar o processo que leva depois à integração da Grécia na Comunidade Económica Europeia em 1981. Em 1981, digamos que é o culminar do processo de transição democrática na Grécia, porque é a alternância pacífica no poder. Andreas Papandréo, o famoso agitador dos anos 60, entretanto tinha fundado o PASOK, um partido socialista, inicialmente oposto à NATO, oposto à Comunidade Económica Europeia, mas em 1981 ele já está mais moderado e ele vem ganhar as eleições de 1981. E portanto, há a alternância pacífica na Grécia.

Que é essa a prova de uma verdadeira democracia.

É, a possibilidade da alternância na Grécia, mas claro, a transição democrática na Grécia é feita pela direita conservadora com o Constantinos Karamanlís, que faz a transição democrática e cria até as condições para o Papandréo com o PASOK virem para o poder em 1981.

E Chipre?

E Chipre, em dezembro de 1974, o arcebispo Makários regressa como presidente a Chipre, ele vai morrer três anos depois, mas é o presidente, e começam os esforços para a reunificação. Isto é, começam negociações, pressões internacionais para uma reunificação que não vão dar em nada. Em 1983, com o patrocínio da Turquia, a parte norte da ilha declara-se independente, declara a República Turca do Norte de Chipre, é o nome oficial. É um Estado que só a Turquia reconhece.

Até aos dias de hoje?

Até aos dias de hoje, só há um Estado que reconhece a República Turca do Norte de Chipre, que é a Turquia. A República Turca do Norte de Chipre está sujeita a um embargo econômico pela União Europeia e pelas Nações Unidas. Por exemplo, não há ligações aéreas com a parte norte. Quem quer voar para a parte norte de Chipre, só através da Turquia é que há ligações.

Mas há contactos entre a parte sul e a parte norte.

Há contactos a partir dos anos 90, começou a haver contactos, mas muito limitados. Continua a haver uma linha de demarcação patrulhada pelas Nações Unidas, que é uma zona de ninguém, até uma espécie de uma terra de ninguém. Novecentos mil pessoas vivem no sul, na República de Chipre, e 200 a 300 mil vivem no norte, nesta República Turca, metade deles já vindos da Turquia. Isto é, desde os anos 74, os governos turcos promoveram a ida de imigrantes da Turquia para a parte norte, para reforçar a população de língua turca no norte.

E diferentes níveis de desenvolvimento nos dois lados.

Também, claro, um norte que está sujeito a um embargo econômico não tem o desenvolvimento que o turismo e o setor financeiro deram no sul.

Mas entretanto, Chipre entrou para a União Europeia.

A República de Chipre entrou para a União Europeia em 2004. Entrou a República de Chipre e para a União Europeia a República de Chipre representa toda a ilha de Chipre. O que isto quer dizer é o quê? Que há uma parte do território da União Europeia que está ocupado pela Turquia, está militarmente ocupado pela Turquia. Essa é a situação do ponto de vista da União Europeia. Há um território de um país, de um Estado membro da União Europeia, que tem uma parte do território ocupada por uma potência de fora da União Europeia.

Isso lembra-me qualquer coisa, Rui.

Para muitas pessoas, isto pode ser um precedente para a Ucrânia, que tem uma parte do território ocupada pela Rússia, que também aspira entrar na União Europeia. Por vezes já dizem: "Não pode enquanto houver um conflito com a Rússia." Bem, a ilha de Chipre, a República de Chipre, melhor dizendo, para ser mais correto, a República de Chipre entrou na União Europeia mantendo-se uma parte do seu território ocupado pela Turquia.

Portanto, a nossa ouvinte Ângela Santos tinha toda a razão. É mesmo uma pequena ilha com uma grande história. Bom, e nós voltaremos para a semana. Não prometemos que tenhamos ilhas, mas grandes histórias vamos ter certamente. Até lá.

E o resto é história. É apenas fumaça. Do incêndio de Pedrogão Grande ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.