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E o resto é história.

É apenas pomba.

Do incêndio e plavra ainda na zona do Chiado. Que faz um filho, fá-lo por gosto. É pio mãe, pio vermelho, trovo do corpo, fogo do amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a mais este "E o Resto é História", mais um episódio com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Todos nós sabemos que a posição oficial portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial foi de neutralidade e depois de a guerra terminar, Salazar gabar-se-ia muitas vezes dessa sua decisão. Mas será que todo o território que esteve sob administração portuguesa, que estava sob administração portuguesa na altura, realmente se manteve à margem da guerra na primeira metade da década de 1940? A resposta é não. Timor foi invadido pelas tropas japonesas em fevereiro de 1942 e embora Macau, ao contrário de Timor e de Hong Kong, tenha conseguido permanecer neutral e portanto sem sofrer uma invasão japonesa, a verdade é que a vida no território de Macau durante a Segunda Guerra Mundial tornou-se radicalmente diferente com a população a mais que duplicar com a chegada de refugiados, já que aquela de repente era Macau, era a única zona do sul da China que tinha ficado a salvo do império japonês. Bom, ao longo dos anos, a ouvinte Inês Amorim, está com sorte a Inês Amorim, nós já tínhamos falado nela há dois programas.

Mas também tem enviado muitos e-mails.

Ela tem e ótimas perguntas, como é que tem Inês? Ela tem nos enviado vários e-mails a pedir pra falarmos de Macau durante a Segunda Guerra. E na verdade ela já estava a perder a esperança. Ela aliás começou a mandar outras perguntas.

Mas nunca se deve perder a esperança.

Ela começou a mandar novas perguntas. "Bom, estes não querem falar de Macau." Bom, e nós fomos assim, quando ela estava prestes a perder a esperança. Eis que temos hoje um programa dedicado precisamente a esse tema.

Vale a pena confiar.

Vale a pena confiar.

Vale a pena ter fé.

Vale a pena ter fé, nunca perder a fé. Bom, e o programa é sobre o que aconteceu nas possessões portuguesas do Oriente, portanto Macau, Timor, também no estado da Índia, entre 1941 e 1945. E portanto, se Portugal era neutral, Rui, como é que se explica que o exército japonês tenha invadido Timor, mas por outro lado não tenha invadido Macau? Há aqui uma história pra contar.

Há uma história pra contar. Vou dar já a razão. O exército japonês invade o Timor português, porque Timor tinha sido invadido pelo exército australiano e holandês antes.

Fomos primeiro invadidos pelos aliados.

Fomos primeiro invadidos pelos aliados e depois invadidos mesmo. Portanto, vamos recordar a situação no fim do ano 1941, princípio do ano 1942. Em dezembro de 1941, a Marinha Japonesa atacou a base americana de Pearl Harbor no dia 7 de dezembro. Os Estados Unidos declararam guerra ao Japão e o mesmo fez a Grã-Bretanha e os países da Commonwealth, nomeadamente a Austrália e a Nova Zelândia. E a partir daí o Japão vai desenvolver um esforço de guerra em três frentes. Por um lado, tenta aniquilar a Marinha americana no Pacífico e sobretudo a força de porta-aviões americano. Falamos já aqui disso, a Batalha de Midway, etc. Por outro lado, tenta conquistar e subverter, através do apoio a movimentos nacionalistas, os territórios que no Extremo Oriente estão sob a tutela das potências ocidentais. E quais são esses territórios? São as Filipinas, que é uma espécie de protetorado americano, é Hong Kong, que é uma colônia britânica, Cingapura, outra colônia britânica, a Malásia, que é outra colônia britânica, a Birmânia, a Índia, tudo colônias britânicas, e as Índias holandesas, a atual Indonésia, que é uma colônia da Holanda. Portanto, o Japão tenta ocupar ou subverter, sublevar estas zonas todas, não apenas com o objetivo de impedir os seus inimigos de as usarem como base pra fazerem guerra ao Japão, mas também na busca de recursos. O Japão está desesperado por recursos. Aliás, é uma das razões pelas quais começa a guerra com os Estados Unidos em dezembro de 1941. O Japão precisa de petróleo, desesperadamente. Os Estados Unidos eram um dos seus fornecedores de petróleo. A partir do princípio do ano de 1941, declaram uma espécie de boicote ao Japão. O Japão fica desesperado e percebe que tem de ir arranjar petróleo em outro lado e um dos sítios onde vai arranjar petróleo é as Índias Holandesas. As Índias Holandesas são, neste momento, o quarto maior produtor de petróleo do mundo. Depois dos Estados Unidos, que são o maior, a Pérsia e a Romênia. Reparem isto, ainda não temos aqui as Arábias, ainda não estão aqui neste quadro. Portanto, este é um dos objetivos estratégicos do Japão, ocupar as Índias holandesas, a atual Indonésia, para ficar com os poços de petróleo e também com a borracha, também são grandes produtores de borracha. Além destas frentes, ainda há a frente na China, obviamente, desde 1931 e depois desde 1937, que o Japão está a tentar conquistar a China. Aliás, essa é uma das razões para o conflito com os Estados Unidos. Os Estados Unidos não querem que o Japão conquiste a China. O Japão percebe isso e percebe que a única maneira de poder conquistar a China é se essa conquista estiver integrada na formação de um grande império japonês no Extremo Oriente, que inclua Filipinas, a atual Indonésia A Malásia, a atual Malásia e eventualmente até a Índia britânica.

E vai por aí fora também a grande velocidade. É uma espécie de blitzkrieg, mas no Japão.

É verdade.

E com um território muito mais vasto.

Muito mais vasto e por mar, portanto, aérea e marítima. O Japão tem nesta altura uma vantagem enorme, é quem tem a marinha mais forte no Extremo Oriente. Depois do ataque a Pearl Harbor, tinha destruído a principal força naval americana no Pacífico e a 10 de dezembro conseguiu destruir também a principal força naval britânica no Extremo Oriente, numa batalha naval a 10 de dezembro.

Nunca falámos nisso. Se calhar também é uma boa história.

É uma batalha que tem diferentes nomes, talvez a Batalha do Mar da Malásia, uma coisa qualquer assim. Eles destroem os principais barcos de guerra britânicos, que aliás avançaram contra os japoneses sem perceber a importância do apoio aéreo, que é uma coisa que já se devia ter percebido. A armada britânica está a tentar entrar em confronto direto com a armada japonesa e os japoneses obviamente mandam os aviões e metem-nos todos ao fundo, nem chega a haver contacto entre as duas marinhas. A guerra naval no Pacífico vai ser uma guerra aeronaval e de porta-aviões, e os japoneses neste momento têm essa grande vantagem de terem a força de porta-aviões nesta zona e depois a outra força militar, permite-lhes deslocar homens, equipamento entre as várias regiões e portanto o seu avanço é extraordinariamente rápido. Eles atacam Hong Kong, a principal grande colónia britânica na China a 8 de dezembro, logo no dia a seguir a Pearl Harbor, atacam Hong Kong, conseguem ocupá-la a 25 de dezembro, durante o mês de dezembro ocupam Hong Kong.

Deixaram Macau quietinha, não é?

Deixaram Macau. Já vamos falar de Macau. As Filipinas são invadidas a 8 de dezembro de 1941, caem a 9 de abril de 1942. O exército americano é derrotado nas Filipinas. E depois as Índias Holandesas são invadidas a 17 de dezembro de 1941, caem a 9 de março. Portanto, entre 1941 e 1942, basicamente o Japão consegue conquistar Hong Kong, as Filipinas, as Índias Holandesas, Cingapura, que era a grande base militar britânica no Extremo Oriente, cai também.

Numa semana.

Sim, 8 de fevereiro, 15 de fevereiro, é a maior rendição da história britânica. Nunca tantos soldados britânicos se renderam como a 15 de fevereiro de 1942 aos japoneses. Mesmo nas Índias Holandesas é espantoso. Os japoneses conseguem fazer 100 mil prisioneiros. Eles aprisionam uma quantidade enorme de holandeses, britânicos, americanos.

Ninguém estava preparado para aquilo.

Ninguém está preparado, ninguém tem os meios também para resistir, porque todas estas guarnições são de repente guarnições que sem o apoio aeronaval estão isoladas perante o Japão, que tem esse apoio.

E essa superioridade aérea total na zona.

Tem superioridade aérea, tem superioridade de abastecimentos, de repente acabam as munições destas guarnições isoladas europeias, enquanto os japoneses continuam a ser abastecidos. Pelo meio, o Japão encontrou territórios dos países neutrais, que não são muitos. Quais são estes países? É Portugal, portanto Macau e Timor, e um país que está fora da guerra que é a França. A França em 1940 assinou o armistício com a Alemanha e portanto a Indochina francesa também faz parte deste universo de países que neste momento estão neutrais. A Holanda é curiosa, a Holanda está também ocupada pela Alemanha, o exército holandês rendeu-se, mas o governo holandês não se rendeu. O governo holandês foi para o exílio, para a Grã-Bretanha, e continuou a guerra. Aliás, é uma proposta que em maio de 1940 também é feita ao governo francês, que o exército francês render-se na França, mas o governo francês sair da França e continuar a guerra. O governo francês não aceita essa proposta, mas o governo holandês faz isso. A Holanda, embora esteja ocupada pela Alemanha entre 1940 e 1945, continua na guerra. A marinha holandesa, as forças holandesas na atual Indonésia continuaram na guerra. Aliás, é curioso, eles declaram guerra ao Japão e o Japão não lhes declara guerra a eles, pura e simplesmente invade. Nestes territórios, a Indochina francesa, Macau e Timor, a política japonesa é completamente diferente, é respeitar as autoridades estabelecidas pelos governos português e francês, pelo menos até certo ponto.

Pois, não é em toda a vontadinha.

Não é, mas até certo ponto mantêm os governadores, mantêm as forças militares franceses e portugueses lá têm, aparentemente respeitam isso e fazem essa declaração logo dizendo que o Japão é um país que respeita todos os acordos internacionais e que está apenas a defender-se. Também se sente que foi hostilizado pelos Estados Unidos, está a defender-se, mas respeita os acordos.

E também Portugal não era ameaça para ninguém, não é?

Sim, as posições portuguesas no Extremo Oriente ou na Ásia não são verdadeiramente bases que façam tremer as outras potências que existem na região. O Estado da Índia, Goa da mão de Dio, Timor e Macau Eram os restos do antigo império marítimo do século XVI. Desde havia muito que a sua importância econômica era reduzida. Goa ainda foi interessante até o século XVIII, mas verdadeiramente aquilo eram marcos simbólicos de uma grandeza passada. Ninguém queria renunciar. Nenhum governo português podia renunciar àquilo. Custavam quase todos mais do que rendiam, portanto, Portugal tinha de pagar para lá estar. Os portugueses da Europa tinham de pagar para lá estar.

Mas não tinha meios para investir, como habitualmente.

Não havia também meios para fazer grandes investimentos nestes territórios e até se estava aberto a investimentos estrangeiros, que era também um caso para problemas diplomáticos. Aliás, Portugal até tinha já perdido, a partir do século XVIII, a influência que, por exemplo, a partir de Goa, através do padroado do Oriente, tinha sobre o clero católico na Ásia. Até o século XVII, XVIII, todos os padres católicos na Ásia estavam sujeitos às autoridades portuguesas, porque o rei de Portugal era o patrono do catolicismo no Oriente. Obviamente, o Papa nunca gostou nada disto e a partir do século XVIII começaram a aparecer missionários franceses e italianos, que já não tinham nada a ver com Portugal e apoiados pelo Vaticano. Por quê? Porque o Vaticano achava que Portugal não tinha meios para defender e proteger os missionários católicos e, portanto, ignorou-os. Em meados do século XX, o Estado português da Índia, Macau e Timor são pequenos enclaves em unidades políticas maiores, que é no caso do Estado da Índia, a Índia britânica, no caso de Timor, as Índias Orientais holandesas e no caso de Macau, a China. São pequenos enclaves. E o seu destino seria o destino desses territórios. O que acontecesse nesses territórios ia acontecer nesse enclave e Portugal não podia fazer absolutamente nada a propósito disso. Timor então ficava extraordinariamente longe. Aliás, tinha sido levantado grandes problemas de comunicação e de administração por causa da distância, pela independência tradicional dos régulos em Timor. Timor tinha sido, sobretudo, uma colônia religiosa. Eram os missionários católicos que tinham feito, de fato, o Timor Ocidental. A autoridade portuguesa tinha sido muito reduzida até o século XX. Tinha-se tentado estabelecer no princípio do século XX, isso tinha suscitado logo revoltas das populações locais. Essas revoltas tinham sido reprimidas, mas de fato, como diz o governador de Timor no seu relatório de 1947, já depois de todos os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, ele diz que quando chegou a Timor em 1940, o que viu foi que basicamente Timor era um sítio por onde eram deportados os criminosos. Era uma zona de deportação, eram deportados para lá, sobretudo criminosos políticos. Gente que se tinha oposto aos governos na metrópole, que eram metidos no barco e enviados para Timor, que ficava extraordinariamente longe. De fato, por exemplo, Timor estava a começar a ficar sob o controle econômico de potências externas, por exemplo, o Japão. O Japão, através de joint ventures, a partir de 1937, começa a adquirir grandes interesses em Timor. Isso suscita o alarme da Austrália e da Grã-Bretanha, que protestam. Mas curiosamente, o governo português estava a dar aos japoneses interesses em Timor para os afastar de Macau, para os desinteressar de Macau e eles irem para Timor. Por quê?

E Macau naquela altura, das colônias portuguesas do extremo Oriente, já era a mais interessante para Portugal?

Era bastante interessante. Tem muito mais recursos, era muito mais interessante que Timor do ponto de vista-

Mas também do que o Estado da Índia?

Talvez não. O Estado da Índia sempre teve uma importância interessante.

Mítica.

Porque era uma coisa que estava associada a um simbolismo especial. Macau também tinha esse lado mítico. Timor vai adquirir depois também, em parte por estes acontecimentos. Mas claro, o Japão estava a conquistar a China quase sistematicamente, portanto estava a começar a rodear Macau e era preciso interessar os japoneses em outras coisas. O Estado da Índia, durante a Segunda Guerra Mundial, não tem muitas notícias especiais, ou nada que se compare com o que acontece em Macau e em Timor. Curiosamente, aí uma coisa curiosa, é usado pelos Estados Unidos e pelo Japão para trocar pessoal diplomático em 1942. É Lourenço Marques e Goa. Os Estados Unidos e o Japão, quando entram em guerra, chegam a um entendimento mesmo durante a guerra, que é o que se faz com o pessoal diplomático japonês que está nos Estados Unidos e com o pessoal diplomático americano e outros cidadãos americanos que estão no Japão. E então concordam em que vão trocá-los num porto neutral. E esse porto neutral é Lourenço Marques, Moçambique, e também em Goa. Portanto, é aí que os barcos japoneses e os barcos americanos, ou os barcos contratados pelos japoneses e pelos americanos, vão deixar o embaixador japonês e o embaixador americano para depois regressarem aos países. A possibilidade de defesa de Macau e Timor perante ataques é extraordinariamente reduzida. Basta dizer, em 1940, em Macau, Portugal tem cerca de 800 militares europeus Isto é o exército japonês. Mesmo com recrutamento local, não era muito. E em Timor há 59 militares europeus, o resto são praças locais. Timor, por exemplo, não chega a receber nenhum reforço de armamento entre 1940 e 1945, portanto, não tem meios.

Nós chegamos ao final da nossa primeira parte, mas temos mais história para contar sobre estas colónias portuguesas no Extremo Oriente durante a Segunda Guerra Mundial. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta. "E o Resto é História". Nós estamos a falar das colónias portuguesas no Extremo Oriente e o impacto que elas tiveram durante a Segunda Guerra Mundial, em que Portugal era evidentemente um país neutral, mas isso não impediu que Timor fosse invadido. Macau, não.

Macau, não.

Mas sofreu o impacto da guerra.

Vamos começar por Macau. Os japoneses respeitam a autoridade portuguesa em Macau, mas em 1943 começam a suspeitar que Macau poderia estar a ser usado pelos aliados e impõem uma espécie de conselheiros japoneses ao governador português, que é o Gabriel Teixeira. O governador é visto como pró-aliado e o ajudante de campo do governador é visto como pró-alemão, portanto aquilo está equilibrado. Mas isso também é um jogo que estes países neutrais fazem para ter pontos de contacto com os vários beligerantes.

Quando ainda não se sabe quem vai ganhar.

Na prática, a partir de 1943, é o cônsul japonês em Macau e o comandante das forças japonesas que estão nas imediações, na China, que governam Macau. Têm uma enorme influência no governo de Macau por duas vias: não apenas pela ameaça militar, pela possibilidade de entrarem em Macau, mas sobretudo, e mais importante, pela gestão dos abastecimentos. Macau depende do arroz e do combustível importado da China e isso é controlado pelos japoneses, que de vez em quando fecham a torneira para fazer pressão sobre o governo português em Macau. Os japoneses não chegam a fazer em Macau o que fizeram, por exemplo, na Indochina francesa. Na Indochina francesa, eles respeitam as autoridades francesas, mas introduzem tropas na Indochina francesa logo em setembro de 1940, no norte da Indochina francesa, a pretexto de combaterem os nacionalistas chineses que estariam a ser abastecidos através da Indochina francesa e portanto eles querem impedir isso e chegam a acordo com as autoridades francesas para introduzirem cerca de 40 mil soldados japoneses no norte da Indochina, mas depois vão aumentando a presença militar. No ano seguinte já são 140 mil. Começam a ocupar a Indochina francesa toda, sempre respeitando a autoridade francesa, mas começando a instalar um exército francês na Indochina e vão respeitar a autoridade francesa até março de 1945. O que é que acontece? A França é libertada, o general de Gaulle torna-se o chefe do governo francês, começa a guerra ao lado dos aliados e o Japão decide tratar as autoridades francesas na Indochina como representando um país hostil e portanto ocupa completamente e toma o poder na Indochina francesa. Em Macau não faz isso. O território chinês em frente de Macau é ocupado pelos japoneses. E o que acontece em Macau? Macau enche centenas de milhares de refugiados que já vinham desde 1937, porque a conquista japonesa da China tinha subido num novo patamar em 1937. Há muitos chineses refugiados em Macau, depois há muitos ingleses, há muitos americanos, uma quantidade enorme de nacionalidades que lá estão, vindos da China e de Hong Kong. Há muita gente que vem de Hong Kong. E duplicam ou triplicam, não sabemos bem exatamente, a população de Macau, de 200 mil para 600 mil ou para 700 mil. E há fontes que dizem que é 1 milhão, nesse caso teria quintuplicado. Isso provoca grandes dificuldades de abastecimentos, quer de arroz, quer de combustível, falta. Há fome, há histórias de canibalismo, quase como se fosse uma cidade cercada, como se Macau fosse uma cidade cercada, como se fosse Leningrado, na Rússia. Há doenças também, epidemias, claro, tanta gente acumulada. Para acumular a gente, enchem-se os hotéis, enchem-se instalações desportivas, tudo é cheio de refugiados. E depois há uma atmosfera que, dizem os testemunhos daqueles que lá estiveram na época e que escreveram sobre isso, é uma atmosfera incrível. Uma atmosfera do gênero "Casablanca", do filme "Casablanca". Está cheio de espiões, agentes duplos, propaganda de ambos os lados, assassinatos.

Podíamos ter tido um "Casablanca" em Macau, é isso?

Contrabando e jogo. O jogo já era legal desde o século XIX em Macau, mas de repente torna-se uma grande atividade.

Aliás, a Segunda Guerra Mundial ajudou essa cultura de casino, não é isso?

Sim, um dos principais protagonistas dessa indústria dos casinos, Stanley Ho, é um refugiado de Hong Kong que chega a Macau nesta altura, em 1941, 42. Ele vem, vê o potencial do território e depois, nos anos 50 e 60, lança aquela indústria dos hotéis, casinos. Mas é uma descoberta que ele faz por causa da guerra, porque ele vem de Hong Kong para ali, refugiado, e depois de repente percebe. A guerra Ele chega a Macau. Não é levada pelos japoneses, é levada pelos americanos. Em 16 de janeiro de 1945, a aviação americana bombardeia Macau. Por quê?

O que o povo maquense fizeram?

Os americanos suspeitam que os depósitos de combustível em Macau estejam sendo usados pela marinha japonesa e que também haja barcos japoneses lá usando os portos de Macau como porto de abrigo. Tenta destruir os depósitos de combustível e as instalações portuárias. Isso causa mortes, não só destruições, mas causa mortes. Salvo erro, dois soldados portugueses morrem nesta altura. O governo português protesta contra esta agressão, justificada, um país neutral. Os Estados Unidos pedem imensa desculpa. A 20 de janeiro, o governo americano pede imensa desculpa, mas os raides aéreos continuam. Há um novo ataque em 25 de fevereiro, um novo ataque a 12 de abril, mas curiosamente o governo americano pede sempre desculpa e diz que vai indenizar. E de fato, fazem. Em 1950, os Estados Unidos pagam 20 milhões de dólares de compensação pelos estragos causados em Macau.

Pagaram a conta.

Portanto, pagam a conta dos estragos.

Com cinco anos de atraso, mas pagaram a conta.

De vez em quando eles dizem que são os aviadores americanos que não conseguem distinguir bem, de repente enganam, não sabem que é Macau e pensam que é outra área onde estão os japoneses, não conseguem perceber. Provavelmente há ali uma tentativa de atingir os japoneses.

E em Timor?

Em Timor é completamente diferente. O Japão tenta atingir a Austrália a partir das Índias Orientais holandesas, a atual Indonésia. De alguma maneira, a Grã-Bretanha e a Austrália já estavam a antecipar isto mesmo antes do ataque à esquadra americana em Pearl Harbor. Eles já estão a perceber que o Japão vai efetuar ali uma operação militar no Extremo Oriente e começam a precaver-se. E no princípio de novembro de 1941, o governo britânico contacta o governo português pra dizer que tem a impressão que o Japão pode efetuar ali umas operações militares e pode atacar também o Timor português. E então propõe-se, o governo britânico, ajudar o governo português a defender Timor no caso de um ataque japonês. Isto é antes de Pearl Harbor. Estamos no princípio, um mês antes, isto é no princípio de novembro. E o governo português diz que agradece imenso essa solicitude britânica, mas que entende que se mantém neutral e que tem garantias do Japão que respeitará sempre a neutralidade portuguesa, mas que no caso do Japão não respeitar, entende que ter tropas em Timor para defender o território e que só aceitará auxílio britânico depois do ataque japonês, mas nunca antes do ataque japonês. Isto era esperto porque era pra evitar o ataque japonês, imaginando que obviamente se houvesse tropas britânicas e australianas em Timor, isso seria uma provocação que daria causa ao Japão para entrar. Essa é a posição do governo português. O governo português também diz que não lhe parece provável que haja um ataque do Japão, porque isso queria dizer que o Japão teria de conquistar Cingapura, as Filipinas e as Índias holandesas pra chegar à Austrália. Isso era impossível, como é que o Japão podia conquistar isso tudo? Não era provável que isso acontecesse. E depois também o Salazar é esperto nesta coisa, diz: "Bem, e se por acaso o Japão conquistar isso tudo, também não precisa de Timor pra nada, porque já tem bases por todo lado, portanto não atacará Timor". Aparentemente, o governo britânico parece aceitar estas razões e o governo português começa a preparar então a defesa de Timor e encomenda uma expedição militar de tropa de Moçambique pra ir pra Timor reforçar Timor. Só embarcam em janeiro de 1941, porque há ali uma série de problemas, demora pra chegar. O que acontece? Acontece que há o ataque japonês a Pearl Harbor e os britânicos e os australianos não estão à espera que os japoneses cheguem à Austrália. E em 17 de dezembro de 1941, uma força australiana, britânica e holandesa desembarca e ocupa Dili, em Timor-Leste.

Sem nenhuma resistência portuguesa.

Claro, o governador português protesta imenso, exige a retirada, e o governo português também protesta, e parecem chegar a um acordo, que é o acordo em janeiro de 42, que é: os australianos retirariam de Timor quando houvesse mais tropas portuguesas em Timor. Fica-se à espera da tal expedição que saiu de Moçambique e que devia lá chegar. Aquela expedição que sai a 26 de janeiro de 1942 para Timor, que é para as tropas australianas, britânicas e holandesas saírem de Timor, ficarem lá só tropas portuguesas e resolvia-se o problema desta maneira.

E chegaram lá?

Não chegaram, porque os japoneses chegaram primeiro. A 19 de fevereiro de 1942, o Japão invade Invade Timor a pretexto de que há ali um exército Anglo-australiano, como eles dizem, e eles precisam de anular essa ameaça às tropas, às forças militares japonesas.

E houve combates?

Há combates. O que acontece em Timor? É o pesadelo que Salazar sempre tinha tido em relação às ilhas atlânticas portuguesas, à Madeira e aos Açores. Uma operação americano-britânica de ocupação dos Açores ou da Madeira, que justificasse uma ofensiva alemã sobre o Portugal continental, em cooperação ou não com a Espanha. Isto era o pesadelo de Salazar na Segunda Guerra Mundial. Que os americanos e os britânicos decidissem ocupar os Açores ou a Madeira, e a partir daí dessem uma razão à Alemanha para tentar ocupar, em colaboração com a Espanha, o Portugal continental. E é por isso que em 1940, 41, 42, o governo português reforça militarmente as ilhas atlânticas, os Açores e a Madeira, são mandadas expedições para os Açores e a Madeira. A ideia é dissuadir uma invasão dos aliados, mas também é fazer entender aos alemães que estamos a defender as ilhas, portanto, não precisam de começar já a preparar uma invasão de Portugal, porque nós vamos defender as ilhas. É claro que as condições mudam em 1943, depois da invasão aliada do norte de África, no fim de 1942, a invasão aliada da Itália em 1943, e depois as coisas começam a correr mal para os alemães também na Rússia. Portanto, o governo português pode finalmente ceder as bases dos Açores aos aliados sem recear uma retaliação alemã no continente. Mas isso é a situação em 43. No fim de 1941, 1942, a entrada dos australianos, britânicos e holandeses no Timor português criou as condições para Portugal entrar na guerra. De repente, uma parte do território português tornar-se uma zona de combate. É isso que fazem os japoneses. Eles desembarcam em Dili a 20 de fevereiro, cerca de 1500 homens. Eles já tinham também desembarcado no Timor holandês. Acabam por derrotar a força australiana, a maior parte da força australiana e britânica rende-se logo a 23 de fevereiro de 1942. Mas como Portugal é neutral, os japoneses mantêm o governador português, o Manuel Ferreira de Carvalho, que aliás, depois vai escrever um enorme relatório de 700 páginas em 1947, extraordinariamente interessante, e dão garantias logo ao governo português. No dia 19 de fevereiro, na manhã de 19 de fevereiro de 1942, a embaixada japonesa em Lisboa entrega imediatamente ao governo português uma comunicação do governo imperial a dizer que o governo imperial garante a integridade territorial do Timor português.

Ok.

E promete que retirará imediatamente do Timor português logo que os australianos forem expulsos. E claro, o governo português protesta, diz que as tropas australianas no Timor português eram muito pequeninas e isoladas, e portanto, não havia justificação nenhuma para o ataque japonês, e que estavam nas vésperas de ser substituídas por tropas portuguesas, portanto, iam retirar. Se os japoneses tivessem esperado mais uns dias, as tropas portuguesas tinham chegado, os australianos e os britânicos tinham saído. Mas obviamente, os japoneses devem ter lido isso tudo com imenso interesse, devem ter arquivado, mas a verdade é que ficaram lá, por quê? Porque estes australianos e os holandeses decidem resistir aos japoneses no Timor português. No Timor holandês, não há praticamente já resistência, mas no Timor português, por causa da geografia, do caráter mais remoto e até menos desenvolvido, digamos, do Timor português, é possível operações de guerrilha nas montanhas do Timor português. E é isso que fazem.

Os australianos ficaram a fazer guerrilhas?

Os australianos e os holandeses fazem guerrilhas nas montanhas do Timor português. Reparem, inicialmente, os japoneses só ocuparam Dili, não ocuparam mais o resto. E os japoneses vão reagir com uma campanha violentíssima, de que vai resultar a morte de dezenas de milhares de timorenses.

Dezenas de milhares?

De 40 a 70 mil timorenses.

Isso é imensa gente.

Porque são acusados pelos japoneses de ajudar os australianos ou são apanhados no meio dos combates. E geralmente os japoneses acabam por tratar toda uma população suspeita da mesma maneira, isto é, com execuções em massa para criar medo, porque eles acham que a população está a ajudar os australianos. Acham também que há muitos portugueses a ajudar os australianos e queixam-se para Lisboa e dizem que: "Nós continuamos aqui porque os portugueses estão a ajudar os australianos." Curiosamente, muitos dos portugueses que lá estão são opositores ao Estado Novo que foram para lá deportados, e portanto, seguem uma política completamente diferente do governo de Lisboa e provavelmente muitos estavam, de facto, a ajudar os australianos e os britânicos. A partir de um determinado momento, por exemplo, os japoneses vão impedir a comunicação direta do governador português com Lisboa. Dizem que todos os telegramas têm que passar pela embaixada japonesa. E a partir daí, Salazar diz: "Então não comunicamos mais com o governador português. Não podendo comunicar diretamente, não comunicamos com o governador português através da embaixada japonesa."

Mas de 42 a 45, o homem ficou a branco?

Ficou a branco. Mandou alguns telegramas para Lisboa através da embaixada japonesa A que o governo português nunca respondeu porque não quis. Porquê? Reparem, como eles explicam, não podia corresponder-se com o governo português sob os olhos japoneses, que liam tudo. Portanto, ou correspondiam-se diretamente ou não havia resposta. Os australianos ainda vão reforçar as suas tropas em Timor em setembro de 1942, mas pouco a pouco a estratégia aliada no Extremo Oriente vai ser delineada de maneira que Timor torna-se uma zona absolutamente secundária desta estratégia. Isto é a ocupação, sobretudo das Filipinas, e portanto Timor não é muito relevante e os australianos acabam por evacuar Timor no princípio de 1943, levando aliás muitos civis portugueses. Dezenas de civis portugueses são evacuados também pelos australianos e aliás a maior parte das notícias que depois chegam a Portugal das atrocidades japonesas em Timor vem destes refugiados que viram coisas horríveis que os japoneses fizeram em Timor. Os japoneses vão tentar levantar também timorenses contra os portugueses, isto é, fomentar insurreições também. Aliás, Salazar dá conta disso num discurso de novembro de 1943. Os japoneses nas Índias holandesas fazem o mesmo, mas aí com mais sucesso. Aí vão mesmo conseguir estabelecer um governo nacionalista nas Índias holandesas, na atual Indonésia, que em 1945, quando chegam os holandeses outra vez, vai resistir aos holandeses e depois vai haver a guerra da independência da Indonésia. Em Timor os japoneses não têm tanto sucesso, porque eles tratam tão mal a população, que tal como na Indochina francesa, a população volta-se contra os japoneses.

E eles chegam quando? No final da guerra?

A 5 de setembro de 1945, o comandante japonês no Timor português coloca as suas forças sob a autoridade do governador português. Portanto, o Japão vai render-se e ele coloca as forças sob a autoridade. E é depois a 11 de setembro que chega ao Timor holandês uma força australiana, que depois entra em Dili a 23 de setembro e aceita então a rendição dos japoneses. E é também em setembro que chega finalmente a tal expedição que tinha sido desviada para Macau, que não tinha podido entrar em Timor, estava em guerra. E então chega a tal expedição, 2000 soldados portugueses.

Com três anos de atraso.

Com três anos de atraso. São recebidos euforicamente, são muito bem recebidos lá pelos timorenses. O governador português no seu relatório chama muito a atenção para os timorenses que resistiram aos japoneses e que ficaram ao lado de Portugal, nomeadamente um dos chefes da população local, que é o Dom Aleixo Corte-Real, que morre em combate com os japoneses em 1943 e que vai receber a Ordem da Torre Espada, a título póstumo. E portanto, há um culto a partir daí de todos estes timorenses que resistiram aos japoneses com a bandeira portuguesa e que portanto reforçam esta identificação de Timor com Portugal. Quer dizer, é algo que começa a ser construído com muita força aí durante a Segunda Guerra Mundial pela resistência contra o Japão.

Muito bem. E assim termina esta edição de "O Resto é História". Até para a semana.