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E o resto é história.
É apenas fumaça. Do incêndio em Coimbra, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Olá, sejam bem-vindos a este episódio 191 de "E o Resto é História", com os dois que já conhece de cor, o historiador Rui Ramos e eu, João Miguel Tavares. Hoje vamos todos para a prisão. Simbolicamente, vamos para a prisão como no Monopoly. Mais precisamente para a prisão de Guantánamo. Prisão de Guantánamo foi um nome que ouvimos vezes sem conta após os atentados de 11 de setembro de 2001. A prisão americana de alta segurança, onde iam sendo colocados, num limbo legal, aliás, bastante problemático, os suspeitos de terrorismo capturados pelo exército americano. As notícias da época informavam-nos que Guantánamo ficava em Cuba, mas sem mais explicações, como se fosse normal os Estados Unidos terem uma base naval e uma prisão de alta segurança na ilha de Cuba. Ora, chegou a altura perfeita, Rui, de tu nos contares essa história, porque foi a 23 de fevereiro de 1903, fez há pouco 120 anos, que Cuba alugou perpetuamente a baía de Guantánamo aos Estados Unidos da América. É claro que desde que Fidel Castro subiu ao poder, essa parte da ilha começou a ser regularmente reclamada pelo governo cubano, mas nem os americanos saíram da base, nem os cubanos tentaram entrar à força, o que é curioso, porque nem sequer aconteceu isso durante a crise dos mísseis de Cuba, de que aliás já falámos neste programa. Ora, o aluguer do espaço, note-se, fica muito em conta, é um ótimo negócio para os Estados Unidos. Guantánamo tem cerca de 116 km², ainda é grandito, e os Estados Unidos enviam anualmente um cheque de $ 4.085. Eu fiz o câmbio, € 3.825 ao governo cubano. Esse cheque, depois o governo cubano recusa-se a levantá-lo desde 1959. Estive a fazer as contas, atenção, que o montante congelado vai ali em € 245 mil. Até ao momento. Não dá para muito. Rui, como é que os Estados Unidos da América ficaram na posse de 116 km² da ilha de Cuba pelo preço de aluguer de um bom apartamento em Lisboa? E como é que os americanos têm conseguido permanecer numa ilha comunista ao longo de todos estes anos?
E com a renda congelada, à tua parentemente.
Com as rendas congeladas. E o senhorio não levanta a renda.
E o senhorio não vai levantar o cheque.
Excelente negócio.
Como é que os Estados Unidos ficaram na posse deste terreno, desta base em Guantánamo? Primeiro, basicamente expulsando a Espanha da ilha de Cuba. Em 1898, no fim do século XIX, Cuba ainda era uma colônia espanhola, era a única grande possessão do império espanhol que restava. O império espanhol tinha se perdido na América. O império espanhol tinha se perdido no princípio do século XIX. Tinha ficado a ilha de Cuba. Era uma colônia importante. A ilha é grande. Uma indústria de açúcar que tinha sido bastante próspera no século XIX, tinha cerca de 1,5 milhão de habitantes, em 1890. Se nós pensarmos que Espanha tinha, nesta altura, fim do século XIX, cerca de 17,5 milhões de habitantes, isso quer dizer que Cuba tinha mais ou menos o equivalente a 10% da população de Espanha, a ilha de Cuba. Era um território muito importante. E a questão: por que ainda era uma colônia no fim do século XIX? Duas razões. A primeira-
E tu dizes isso porque já não havia muitas colônias na América.
Esta era a última grande colônia na América. Todas as colônias espanholas se tinham tornado... O Canadá era um domínio, já não era uma colônia, um domínio britânico.
Caso o Canadá, olha, aqui que tu falas, isso Canadá também é uma boa pergunta. Nunca falámos aqui do Canadá, mas também é um belo tema.
Ainda não falámos, ainda vamos falar um dia destes. Mas por que Cuba ainda é uma colônia? Bem, duas razões. A primeira razão, pensar que 60% da população de que falei aqui no fim do século XIX, ou é negra ou mulata, isto é, descendente de escravos. Nos meados do século XIX, a ilha tinha meio milhão de escravos empregados nas plantações de açúcar. E em grande medida, os crioulos, e crioulos aqui têm o sentido de descendentes de europeus, é o sentido que tem na América espanhola, um crioulo é um descendente de um europeu nascido na América. Os descendentes de europeus nascidos na ilha de Cuba-
E que depois formavam as elites locais.
É, a elite local. Durante muito tempo não foram tentados por movimentos de independência como aqueles que ocorreram no continente, na América, em grande medida porque tinham o exemplo, que era o exemplo da parte francesa da ilha que é chamado Haiti ou até República de São Domingos. Essa parte, no fim do século XIX, a colônia francesa que hoje em dia tem o nome de Haiti, há uma revolta, também uma revolta mais ou menos independentista de senhores de plantações, que dá origem depois a uma revolta de escravos e os escravos acabam por tomar conta do Haiti no fim do século XIX, princípio do século XX. E isso talvez tenha sido um precedente que tenha levado estes senhores de plantações, estes crioulos cubanos, que seriam os protagonistas Prováveis de um movimento independentista a terem cautela numa ilha que também é uma ilha de escravos, basicamente, uma grande parte da população é de escravos. Isto é, a não iniciarem o processo de ruptura de ordem que pudesse levar a uma agitação entre os escravos e uma revolta de escravos. E, portanto, a ilha aguentou-se durante muito tempo. Essa é uma das razões. A outra razão é porque a Espanha está muito empenhada em manter Cuba.
Sim, é economicamente muito relevante.
E é importante também, é o último resto do império. E reparem, ao contrário das outras potências europeias, a Espanha não está envolvida na corrida à África. Ao contrário da França, da Inglaterra, de Portugal, da Bélgica, neste fim do século XIX, a Espanha não está na corrida colonial em África. Tem a ilha de Cuba. Aliás, a ilha de Cuba vale mais do que qualquer colônia europeia em África nesta altura, muito mais, não tem comparação. A ilha de Cuba tem um rendimento-- todas as possessões portuguesas, no fim do século XIX, juntas não têm uma fração do rendimento da ilha de Cuba.
Aí, claro, já não estás a contar com o Brasil, que já era independente.
Não, só no fim do século XIX, as possessões portuguesas. Na segunda metade do século XIX, há movimentos independentistas em Cuba, protagonizados por esta população crioula, e a Espanha reage fortemente. Só pra dar uma ideia, nos anos 1870, a Espanha chega a ter um exército de 200 mil homens em Cuba, pra uma população de um milhão e meio, uma coisa enorme. Um exército enorme de ocupação pra se garantir contra a separação. A maior parte destes movimentos independentistas tem uma base nos próprios Estados Unidos. Cuba fica muito perto dos Estados Unidos. Os Estados Unidos sempre tiveram grandes preconceitos contra a presença europeia nas Américas, desde 1822. Tem aquela doutrina Monroe de não admitir a intervenção de potências europeias nas Américas. A ilha de Cuba é algo que os incomoda. Incomoda-os depois também quando a escravatura se continua em Cuba depois de ter acabado nos Estados Unidos. Incomoda-os depois a maneira como a Espanha tenta manter a ordem, criando campos de concentração. Parece que aparentemente terá sido um dos primeiros campos de concentração no mundo, terão sido em Cuba, criados pelas autoridades espanholas para os rebeldes, os independentistas. E a imprensa americana, no fim do século XIX, está constantemente cheia de notícias sobre as barbaridades espanholas em Cuba e o insulto que é pra toda a América haver uma colônia europeia em Cuba.
Também a ascensão da imprensa sensacionalista nos Estados Unidos da América.
Exatamente, e faz grandes campanhas à volta de Cuba. E em 1898, no meio de uma destas campanhas, da imprensa zangada com aquilo que os espanhóis estão a fazer em Cuba, os Estados Unidos arranjam um pretexto pra uma guerra com a Espanha. Clamando que um barco americano tinha sido atacado no porto de Havana.
Mas estás a dizer que é um pretexto porque o barco não foi atacado?
Alguma coisa aconteceu ao barco, o barco explodiu. Não, foi grave, mas as origens disso nunca se percebeu bem como. Os Estados Unidos exigem que a Espanha retire de Cuba. A Espanha não retira, tenta fazer frente aos Estados Unidos com as suas forças navais. Essas forças navais espanholas são destruídas, quer nas Caraíbas, quer no Pacífico, em batalhas navais em que a armada americana destrói completamente as forças navais espanholas.
Porque no final do século XIX já estavam desequilibradas as forças entre Espanha e Estados Unidos da América.
Já nem tinha comparação, era um pigmeu contra um gigante, uma coisa patética. E ao fim de quatro meses, a guerra durou quatro meses, entre abril e agosto de 1898, acaba com os Estados Unidos a ocupar Cuba, Porto Rico, as Filipinas e a ilha de Guam.
Não era mundial, mas é uma guerra no Atlântico, no Pacífico.
O que acontece aqui é que os Estados Unidos ficam com o império espanhol todo, ocupam todas as colônias espanholas, menos o Sarau Ocidental e a Guiné, mas ocupam tudo. E isto, curiosamente, corresponde a um padrão, já. Os Estados Unidos, na prática, já eram os herdeiros do império espanhol por várias maneiras: ou violentamente, ou através de compras. Em 1821, tinham comprado a Flórida à Espanha. Já havia um padrão aqui de os Estados Unidos ficarem. E aliás, mesmo antigas colônias espanholas que se tinham tornado independentes, uma parte também anexam. Como no caso o México, que perde imensos territórios para os Estados Unidos. Os Estados Unidos estão a expandir-se pra sul e em termos marítimos, à custa daquilo que era o império espanhol nas Américas e no Pacífico, no caso das Filipinas. O que é que acontece em 1898? Os Estados Unidos ocupam e depois conseguem que a Espanha lhes venda Porto Rico, Guam e as ilhas das Filipinas.
As Filipinas foram vendidas aos Estados Unidos pela Espanha.
Sim, Cuba passa a ser um protetorado dos Estados Unidos. E são os Estados Unidos, em 1902, que como potência protetora da ilha de Cuba, concedem a independência a Cuba. São os Estados Unidos que dão a independência a Cuba. E a Constituição cubana reconhece aos Estados Unidos, Cuba já como Estado independente, reconhece aos Estados Unidos o direito de supervisionar as finanças do Estado. Os Estados Unidos têm direito de supervisionar as finanças do Estado cubano e as suas relações externas. Continua um regime de protetorado, basicamente. Um tratado que os Estados Unidos fazem com Cuba dá também aos Estados Unidos o direito de alugar perpetuamente terra na ilha de Cuba para uma base naval, com o objetivo de defender a independência de Cuba. Guantánamo inicialmente começa como uma base americana para defender Cuba contra eventuais agressões externas.
Ou seja, a base de Guantánamo, basicamente é contemporânea da independência de Cuba.
Exatamente. Aliás, a ligação entre os Estados Unidos e Cuba continua intensa. Em 1906, o governo cubano entra em colapso, há problemas políticos em Cuba, e os Estados Unidos ocupam outra vez a ilha, militarmente, instauram o governo militar até 1909. Volta a ser governada, basicamente pelos Estados Unidos. A origem da base é esta: Guantánamo é um sinal do envolvimento dos Estados Unidos no processo de independência de Cuba, e da presença que os Estados Unidos garantiram depois em Cuba para as suas forças navais, que supostamente iriam ser utilizadas eventualmente para defender Cuba contra agressões externas.
Ok, mas depois aparece na década de 50 Fidel Castro, e a verdade é que os Estados Unidos continuam em Guantánamo. Como é que isso se explica com um regime hostil durante tantos anos?
Sim, o ditador, o Fidel Castro, embora alinhado com a União Soviética, basicamente não quer arriscar um confronto direto com os Estados Unidos. Ele contesta os Estados Unidos, tem uma retórica antiamericana, mas não quer arriscar um confronto direto com os Estados Unidos a propósito de Guantánamo. Isto é uma tentativa de ocupar Guantánamo. O que ele faz? Contesta, e os Estados Unidos também não cedem. Têm o tratado, têm o direito de lá estar, há um direito internacional de lá estar, e portanto continuam. O que é que Fidel faz? Fidel não aceita os pagamentos e faz uma espécie de muro de Berlim nos trópicos, que inicialmente é com cactos, um muro espinhoso, e depois com uma terra de ninguém cheia de minas, 55 mil minas. Minas cubanas e minas americanas. Os americanos acho que aparentemente tiraram as minas deles, mas ainda há. A base é grande, tinha não apenas instalações de manutenção de navios, depósitos de combustível, essas coisas todas, reparações, e depois empregava bastante gente, bastante cubanos.
Cubanos, não? Mas na década de 50 isso acabou, não é?
Não, os cubanos que já eram empregados na base de Guantánamo continuaram a ser empregados na base de Guantánamo. O que os Estados Unidos não puderam fazer foi empregar novos trabalhadores. Acho que é até recente, uma data recente que os últimos dois trabalhadores cubanos se reformaram e a partir daí, agora já não há trabalhadores cubanos. Mas é uma base grande, tem cerca de 8500 marinheiros americanos e mais uns milhares de trabalhadores filipinos e jamaicanos lá. E incluindo essa prisão onde durante bastante tempo, até hoje aliás, foram prisioneiros, combatentes inimigos, capturados no Afeganistão, no Iraque, que foram levados e internados lá. Eles estão numa situação que não são nem prisioneiros de guerra, nem detidos pela justiça americana. Também não são prisioneiros de guerra, também não são abrangidos pela Convenção de Genebra. São combatentes inimigos que estão ali detidos, e isto foi feito pra evitar os processos judiciais nos Estados Unidos, uma vez que os tribunais americanos não têm jurisdição sobre Cuba. Criaram ali a possibilidade de manter uma série de inimigos identificados como prisioneiros, mas num estado jurídico extraordinariamente ambíguo.
Muito bem. O nosso tempo desta primeira parte já não é muito, mas ainda temos tempo pra lançar uma segunda pergunta. E esta é uma história comovente e trágica, de enorme coragem, de dedicação a uma causa e, sobretudo, de disposição para morrer por ela. Há 80 anos, no dia 22 de fevereiro de 1943, a jovem alemã Sophie Scholl foi executada em Munique pelo regime nazista. Ela tinha apenas 21 anos e hoje é uma heroína na Alemanha, a prova de que mesmo durante a tenebrosa vigência do nacional-socialismo e em plena Segunda Guerra Mundial, houve Quem tentasse resistir a Hitler a partir de dentro, a partir da Alemanha. Sophie Scholl, na aparência, não fez muito. Ela limitou-se a distribuir panfletos antiguerra na Universidade de Munique, em nome de um grupo não violento que se autointitulava Rosa Branca. A 18 de fevereiro de 1943, ela foi capturada em flagrante a distribuir os panfletos na universidade. Foi condenada por alta traição quatro dias depois, a 22 de fevereiro, juntamente com seu irmão, e ambos foram mortos por guilhotina nesse mesmo dia. Rui, quem foi Sophie Scholl e por que estamos a falar dela 80 anos após a sua morte? Como é que, na verdade, ela se tornou um símbolo da praticamente inexistente resistência ao nazismo? Em si, essa falta de resistência também é um, não diria mistério, mas que merece explicação.
Merece que falemos disso. Sophie Scholl era uma estudante de filosofia na Universidade de Munique, no sul da Alemanha, onde o seu irmão, Hans Scholl, que também foi executado com ela, era estudante de medicina. Imagino que alguns dos nossos ouvintes conheçam a história pelo filme "Sophie Scholl - Os Últimos Dias", é um filme de 2005, realizado por Marc Rotmund. Como é que aparece esta chamada Rosa Branca? Começa pelo irmão, Hans Scholl. Hans e um pequeno grupo de amigos, vou te dizer os nomes, porque não são muitos: Alexander Schmorell, Willi Graf, Jürgen Wittenstein. Eles também são estudantes, são colegas de Hans Scholl na Universidade de Munique. Eles iniciam, em junho de 1942, atividades clandestinas de oposição pacífica à ditadura nazi. É este grupo inicial que se junta à irmã de Hans, Sophie Scholl. Mais tarde vão se juntar também um outro estudante, o Christoph Probst, que vai ser executado com Sophie Scholl e com o Hans Scholl, e um professor de música da Universidade de Munique, mais velho, portanto, Kurt Huber. Basicamente, o que eles fazem é distribuir pelo correio e em cabines telefônicas panfletos. Redigem um total de seis panfletos a criticar a ditadura nazi. Eles terão conseguido reproduzir cerca de 20 mil cópias que distribuíam. E os panfletos contra a ditadura nazi eram assinados por esta entidade Rosa Branca. Que de fato eram apenas eles.
Meia dúzia de panfletos e meia dúzia de ativistas, de estudantes.
Meia dúzia de estudantes universitários com algum apoio. Havia depois outras pessoas que também os ajudaram, outros estudantes, aliás, que também os ajudaram. E uma das coisas que eles denunciam, penso que no segundo panfleto, se não estou em erro, é, por exemplo, o massacre de judeus na Polônia. Isto em 1942, eles falam de 300 mil judeus que teriam sido massacrados na Polônia. De fato, os números eram muito maiores do que eles imaginavam, do que eles tinham calculado. Esta é a atividade deles entre o verão de 1942 e o princípio de 1943.
E como é que seis estudantes universitários que se limitaram a fazer seis panfletos chegaram até os dias de hoje e ao mesmo tempo são símbolo da resistência? E isto parece tão pouco, o fato de ser tão pouco é em si muito significativo.
Foi muito e vamos ver porquê. Vamos começar por duas questões prévias, isto é, o que é que estes cinco miúdos, vamos chamá-los de miúdos, tinham 21 anos, 22, 23, era a idade deles. O que eles esperavam alcançar? E de onde é que vinham estas convicções que os levaram a atuar?
Eles sabiam que aquilo era perigoso.
Increrivelmente perigoso. Em plena guerra, eles arriscavam-se, aliás, como lhes aconteceu, a ser acusados de traição. E a traição era a pena de morte. Aquilo era uma atividade de traição, não era apenas de oposição ao regime, era traição, isto é, em plena guerra, eles estão a criticar o governo alemão e a maneira como Hitler estava a conduzir a guerra, além de criticar e de atacar o regime da ditadura em si. Mas de onde é que vinham estas convicções e este ativismo? Hans Scholl e Sophie Scholl tinham, nos anos 30, como muitas das pessoas da idade deles, participado em organizações de juventude do próprio movimento nazi. Hans Scholl tinha sido da Juventude Hitleriana, Sophie Scholl também. Por quê? Em grande medida, porque estas organizações de juventude nazistas tentaram ser uma continuação dos movimentos de juventude alemães desde o fim do século XIX, que é uma espécie de escutismo, quer dizer, marchas, acampamentos nas florestas, etc. Tem um grande impacto na Alemanha esse tipo de atividade. Os nazistas aparecem e captam uma parte desta juventude, portanto, envolvem também os irmãos Scholl, naturalmente. Claro que os nazistas acrescentam a isto uma dimensão que também, de alguma maneira, apela à juventude: contestação da burguesia e do sistema burguês, o ideal de uma solidariedade nacional a unir todo o povo, coisas que também apelavam a estes jovens. Mas Hans e Sophie Scholl rapidamente se desligam dos nazistas e tornam-se críticos da ditadura. E perceber por quê, porque isto não era frequente, não era comum na Alemanha nos anos 30, sobretudo com gente da idade deles, uma vez que o nazismo tem um grande apoio, sobretudo entre a juventude, entre os mais novos. A grande base do movimento nazi é a gente mais nova, os que estão nos liceus, os que estão nas universidades. Esses jovens são muito atraídos pelo movimento nazi. E como é que estes jovens se destacam disso? Há várias fontes possíveis para essa dissidência. Há o pai deles, o pai Scholl, que é um cristão-democrata Que tinha sido presidente da câmara de uma cidadezinha onde aliás Sophie nasceu, Forchtenberg, no estado de Baden-Württemberg. O pai Scholl era um crítico do nazismo. Aliás, em 1941 foi preso por criticar o regime, por alguns meses. Podia-se pensar: bem, isto pode ter sido uma das origens das atitudes deles, mas não, porque os irmãos Scholl sobreviventes lembravam-se de eles terem aderido a estes movimentos nazistas e o pai ser extraordinariamente crítico nos anos 30 disso. Mas isso não tinha impedido os filhos de aderir. E uma das coisas que o nazismo faz nos anos 30 na Alemanha é esta separação de gerações. Isto é uma geração mais nova de nazificada aderente do nazismo e os mais velhos, um pouquinho mais relutantes, quando não críticos, até por terem sido politizados antes do advento do nazismo, como era o caso do pai Scholl, que fazia parte do partido do centro, que era o Partido Democrata Cristão. Aliás, ele depois de 1945 volta também a essa filiação. Portanto, a atitude de dissidência e de crítica do pai não serve para explicar a dissidência e crítica dos filhos. Há depois um outro fator que por vezes é usado ou invocado para explicar a atitude crítica deles, que é o fato de Hans e os seus amigos estudantes de medicina na Universidade de Munique terem servido como auxiliares médicos durante a guerra. Eles estavam a estudar medicina, mas de vez em quando passavam uns meses nas frentes de guerra como auxiliares médicos e eles tinham servido na Frente Leste entre 1941 e 1942. E tinham visto coisas horríveis, dos maus tratos às populações locais, tinham ouvido histórias do que estava a passar-se com os judeus na Polônia, na Ucrânia e na Bielorrússia, ocupados pelos nazistas a partir do verão de 1941. Tinham ouvido essas histórias. E isso é algo que obviamente os marca no sentido em que eles até invocam esses fatos depois na sua campanha contra o regime nazista. Mas a verdade é que havia muito mais gente do que eles que sabia destas histórias. Alguns até que tinham participado ou tinham testemunhado diretamente o que estava a acontecer e isso não os tinha voltado contra o regime. Portanto, sendo um fator importante, não é a explicação completa para esta atitude de dissidência ousada. Isto é, podia explicar o fato de eles se terem tornado críticos do regime, estranhos, mas passarem daí a uma atividade incrivelmente perigosa, era preciso mais qualquer coisa.
E o que é essa mais qualquer coisa?
E essa mais qualquer coisa é provavelmente a religiosidade deles. Nós estamos a falar de uns miúdos que são profundamente crentes, são cristãos luteranos, um deles é cristão ortodoxo, a maioria protestantes, a maioria dos cristãos na Alemanha são protestantes. E vivem isso profundamente. Essa religiosidade eles vivem profundamente. Sophie Scholl, por exemplo, era uma cristã luterana, mas estava a ler, até dá ao seu namorado, que está na frente de guerra, o Cardeal Newman, que é uma das grandes autoridades do catolicismo britânico no século 19, um dos católicos mais famosos do século 19, até porque era um protestante que se tinha convertido ao catolicismo e chegou a cardeal. E a questão que Newman levanta muito como católico num país protestante, no caso dele, a Inglaterra, é a questão da consciência, de obedecermos à nossa consciência, da consciência como uma via para a relação com Deus e a necessidade de testemunhar perante essa consciência, de dar testemunho dessa consciência.
Significa que ganhava uma dimensão político e moral misturada.
Exatamente, as duas coisas. Por um lado, esta necessidade de tomar consciência do que está a acontecer e de alguma maneira adequar a maneira como olhamos para o mundo de acordo com os valores cristãos. Olhar como um cristão. Isso por um lado. E o outro lado, dar testemunho disso. E dar testemunho é precisamente fazer algo.
E se for preciso dar a vida por isso.
Nós às vezes esquecemos, o mártir quer dizer testemunho, testemunhar. O martírio é um testemunho. É testemunhar, é dar um testemunho de fé, é provar "eu estou aqui". E isso é algo que se percebe na correspondência e naqueles que tiveram conversas com Sophie Scholl, que era algo que era um motivo de reflexão dela. Dar esse testemunho, fazer alguma coisa. Ela sentia-se na obrigação moral perante a sua consciência de fazer alguma coisa. Portanto, a atitude deles não é apenas política, não é daqueles que por terem outras preferências ou serem liberais ou sociais-democratas, alguma coisa qualquer, estarem contra o regime nazista, é de cristãos que acham que têm de testemunhar contra aquilo que eles veem como uma barbaridade, como um horror. Portanto, a atitude deles é muito religiosa, é muito moral e isso leva-os também a outra coisa, que é Desprezarem um bocadinho os métodos de organização dos grupos exclusivamente políticos. Isto é, os grupos exclusivamente políticos fazem uma certa economia do esforço para não correrem grandes riscos. Acho que uma parte da pulsão que os leva a esta propaganda é precisamente o correr o risco. Isto é, eles estão dispostos a sacrificar-se. Faz parte daquilo que eles pretendem fazer, correrem esse risco, sacrificarem-se. Aliás, é assim que se explica como é que eles são presos. Eles tinham conseguido distribuir os panfletos discretamente, mas em 18 de fevereiro de 1943, na Universidade de Munique, eles vão distribuir panfletos e a Sophie atira os panfletos do alto da galeria para o átrio principal da entrada da universidade. Ela atira os panfletos, é identificada por um porteiro, que chama imediatamente a polícia, eles são presos. E por que ela faz isso? Parece um impulso, mas corresponde basicamente à ideia de um sacrifício, de testemunhar, de dar um testemunho. Só para ter a ideia de tão importante como isto é, a Sophie Scholl, embora seja uma cristã luterana, está interessada nitidamente no catolicismo e neste autor católico, que é o cardeal Newman. Um amigo deles, que é o Christoph Probst, está também nesse processo. E uma das coisas que o Christoph Probst faz, também é um estudante de medicina, é o autor, aliás, de um sétimo panfleto. Pouco antes de ser executado, ele pede para ser batizado católico. É a última vontade dele. Aquilo é tão importante para ele que quer morrer como católico. Naquele momento, a coisa que lhe ocorre é pedir para ser católico. Eles são miúdos e a Sophie Scholl aparentemente até era uma rapariga mais ou menos pequenina e ainda devia parecer mais novinha do que era, do que os 21 anos, de tal maneira que a polícia inicialmente não acredita que a Rosa Branca sejam eles. Eles julgam que a Rosa Branca é uma grande organização clandestina que está a espalhar os panfletos e não acreditam que são meia dúzia de miúdos.
Isso significa que a Rosa Branca preocupava a polícia.
Sim, porque eles julgavam que era uma resistência, uma organização de resistência, talvez sustentada pelos aliados ou uma coisa qualquer assim dentro da Alemanha, e depois não acreditam que são aqueles miúdos que têm ali à frente uns amigos, um pequenininho grupo de amigos que conseguiu fazer isso. Agora, o que é que eles pretendem? Eles estão a dirigir-se a uma sociedade em que provavelmente os entusiastas pelo nazismo talvez não sejam maioria. Há um jornalista alemão exilado, que é o Sebastian Haffner, que está exilado na Grã-Bretanha e que publica em 1940, um livro sobre a Alemanha. E o Sebastian Haffner calcula, diz: "Provavelmente não mais do que 20% da população alemã está com o regime mesmo, está entusiasmado pelo regime." E diz: "A maior parte deles são os jovens. Os jovens são a grande base de apoio do regime." Deve ter um quinto da população.
Exato, quatro quintos não está entusiasmado. Como é que se explica que apesar de toda a resistência tenha sido tão pequena, ao ponto de nós estarmos a falar que Sophie Scholl, que lançou panfletos na Universidade de Munique, tornou-se uma mártir, porque houve pouca gente a fazer alguma coisa.
O Sebastian Haffner explica isso. Ele diz: "A maior parte da população está paralisada." E está paralisada por razões. A primeira razão para não fazer nada é a enorme violência da repressão. Aliás, como a condenação à morte dos irmãos Scholl e dos seus amigos por uma coisa mínima, que é distribuir uns panfletos.
E a velocidade, quatro dias depois estavam guilhotinados.
Eles são julgados, condenados e executados no mesmo dia. Basicamente, são linchados. É isso que eles são. São linchados pelo regime. A violência é extrema. Isso já é uma razão para as pessoas terem uma grande cautela em relação ao que dizem, ao que fazem, etc. Depois, há outra coisa que o Sebastian Haffner acha que é muito importante, que é o sucesso dos nazistas. Entre 1933 e 1939, nenhuma das grandes potências da Europa tinha impedido Hitler de rearmar a Alemanha, de recuperar territórios. Mesmo aqueles que não estavam entusiasmados com o regime e que eram críticos do regime tinham que se render à sua eficácia. Aqui está, acabou com o tratado de Versailles, restabeleceu a potência da Alemanha, o que querem mais? Havia esta impressão. E depois, claro, entre 1939 e 1942, as grandes vitórias militares, nenhuma potência parece capaz, a Inglaterra, a França, a Rússia Soviética, nada parece capaz de impedir as Forças Armadas alemãs de obterem grandes vitórias. E há esse encantamento com o regime que nem internamente, nem externamente, ninguém parece ser capaz de os impedir. É verdade que em janeiro, fevereiro de 1943, nós estamos aqui numa conjuntura já diferente. Há a derrota de Stalingrado, há a derrota no norte da África também, que é também muito importante, ainda não falámos disso, mas vamos falar este ano. E a Alemanha de Hitler, neste momento, já não parece capaz de ganhar a guerra. Mas aqui entra uma terceira coisa, que o Sebastian Haffner em 1940 ainda não podia dar como um facto, mas já estava de alguma maneira a prever, que é a sensação de muitos alemães de que a derrota de Hitler seria a destruição total da Alemanha e que para defender a Alemanha é preciso defender É preciso defender o regime, na prática. Isto é, de que os aliados seriam implacáveis contra a Alemanha, portanto, que da parte quer da ditadura de Stalin, quer da parte dos aliados, haveria retaliações contra a Alemanha e, portanto, haveria razão para resistir.
Nós já falamos disso aqui a propósito da resistência em Berlim, mesmo até ao fim.
Não há alternativa à luta. Mas reparem, essas três razões que eu dei são todas razões muito racionais. E é essa racionalidade que leva quer à colaboração com o regime, quer à passividade, a não fazer nada. É essa a atitude da maioria. E o que é necessário para romper isto? É necessário mesmo uma grande convicção moral. Isto é uma grande pulsão moral para alguém ir para além daquilo que é racional, para se opor ao regime. E é isso que estes miúdos têm, que os irmãos Scholl e os seus amigos têm. É esta grande convicção moral e aquilo que eles esperam suscitar, e suscitar também com o exemplo da sua audácia, do seu sacrifício, é o despertar a consciência moral da Alemanha e torná-la prioritária em relação a todas as razões que levam uns a aceitar e outros a colaborar com o nazismo. E é isso que Sophie diz no julgamento, quando lhe explicam por que faz isso: "Alguém tem de fazer alguma coisa". E é isso que terá dito a uma companheira de cela, uma outra prisioneira, isto é a minha paráfrase: "Como é que podemos esperar que o bem triunfe se ninguém está disposto a morrer por isso?" E ela está disposta a morrer por isso. Aliás, há um dos outros membros da Rosa Branca que é executado mais tarde, que é o Alexander Schmorell, que era um cristão ortodoxo. As suas últimas palavras são: "Cumpri a minha missão na Terra, nada mais tenho a fazer aqui". É muito profunda a convicção religiosa deles, que os leva a este ato de confronto absolutamente desproporcionado com o regime, com uma ditadura que eles obviamente não conseguem abalar, a não ser moralmente. É isso que eles querem fazer, é dizer: "Aqui está alguém que recusa este regime, recusa as razões da ditadura".
Esse Schmorell, aliás, foi declarado santo.
É santo da Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia. É uma igreja ortodoxa russa fora da Rússia, que ficou instituída pelos emigrados e exilados russos depois de 1917.
Uma figura.
É, ele tornou-se um santo, foi reconhecido como santo. Ele era descendente de alemães, mas tinha nascido na Rússia e falava russo, era a sua primeira língua, mas estava na Alemanha, portanto era alemão, mas tinha nascido na Rússia.
E a história da Scholl soube-se logo?
Sim, logo em 1943, a Royal Air Force, a Força Aérea Britânica distribui um dos panfletos por via aérea. Distribuiu milhões de panfletos que eles atribuíram aos estudantes de Munique, portanto esta história torna-se conhecida. E depois da guerra, o que lhes acontece? Eles tornam-se um símbolo de que a Alemanha de Hitler, mesmo durante a ditadura nazi, não era a única Alemanha. Depois de 1949, na República Federal da Alemanha, no pós-guerra, o grande símbolo dessa resistência alemã contra o nazismo era o conde de Stauffenberg.
O que pôs a bomba.
Os militares autores do atentado de 20 de julho de 1944. E curiosamente, durante muito tempo, o Stauffenberg é esse grande herói. E na década de 90 do século XX, é quando os irmãos Scholl, e sobretudo Sophie Scholl, tomam esse lugar, talvez até por causa do lado aristocrático e nacionalista do conde Stauffenberg. No equivalente daquele concurso dos grandes alemães que aconteceu em 2003, os irmãos Scholl ficaram em quarto lugar. Adenauer, Lutero, Marx e os Scholl. Agora, houve sempre uma dificuldade em aceitar esta dimensão religiosa da dissidência de Sophie e Hans Scholl. E este é um grande problema para tempos cosmopolitas, democratas e secularistas, que a mais tenaz e audaciosa resistência contra o nazismo na Alemanha seja ou de militares aristocratas nacionalistas, como ao Stauffenberg, ou de estudantes cristãos como eram os Scholl. Mas de facto era preciso alguma coisa de muito forte para enfrentar o regime.
Muito bem. E é assim que termina esta edição de "O Resto é História". Nós voltamos pra semana. Até lá.