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é história. É apenas fumaça. Do incêndio de Coimbra ainda na zona do Chiado. Aqui porque decorre o socorrimento das pessoas Quer transformar este país numa ditadura. Atento! Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. As leis de Nuremberga foram introduzidas na Alemanha Nazi a 15 de setembro de 1935. Fez recentemente 90 anos e com elas o racismo passou a ser a política oficial do Estado alemão. Para além de estabelecerem a suástica como a bandeira oficial da Alemanha Nazi, as leis de Nuremberga dividiam-se essencialmente em duas: a lei da cidadania do Reich, que estabelecia que apenas as pessoas de sangue alemão poderiam ser cidadãs plenas do país, e a lei para a proteção do sangue e da honra alemã, que proibia o casamento e as relações sexuais entre judeus e alemães arianos, e até o emprego de mulheres alemãs com menos de 45 anos em casas de judeus. Mais tarde, outros decretos seriam publicados, expandindo estas leis de Nuremberga também a negros e a ciganos, que foram considerados também eles inimigos do Estado racial, e também detalhando de forma obsessiva o que era exatamente um judeu ou um mischling, um mestiço sem sangue puro ariano. Rui, de onde é que vieram estas leis de Nuremberga e qual é que era a lógica por detrás delas? E já agora, que efeitos práticos tiveram na Alemanha a partir de 1935?
Aqui talvez valha a pena distinguir. Não houve contra outras minorias o mesmo sistema de leis que houve contra os judeus.
Ok, eu falei dos ciganos, dos negros, mas não é a mesma coisa.
Não é o mesmo regime. Aliás, vou falar disso já adiante. Porque o regime nacional-socialista identificava os judeus não apenas como uma minoria que deveria ter menos direitos, mas como uma ameaça, verdadeiramente, ao Estado alemão. Para os nazis, os judeus na Alemanha não eram alemães que por acaso seguiam a religião judaica. Teria sido uma possibilidade os definir desta maneira, mas não, era uma raça, era um grupo biológico. De maneira que, de acordo com as leis de Nuremberga, era judeu mesmo quem não seguisse a religião judaica e estivesse completamente integrado na sociedade alemã. Isto é, bastava que tivesse um antepassado judeu para ser judeu. Alguém que era completamente alemão, estava completamente integrado na sociedade alemã, não praticava a religião judaica, às vezes até nem sabia que o seu avô ou bisavô tinha sido judeu, de acordo com estas leis era classificado judeu, porque a definição era biológica, não era uma definição cultural, nem étnica, era biológica mesmo.
Já agora, uma curiosidade: era possível o contrário? Sabes se era possível o contrário? Imagina que eras um alemão de italiano e de repente convertias-te ao judaísmo. Isso não fazia de ti judeu?
Também fazia judeu, curiosamente. A pessoa não escapava ao judaísmo de uma maneira ou de outra, mas havia dúvidas a esse respeito. Isto era uma questão de ciência no Terceiro Reich. Havia cientistas a tentar perceber isso. Por exemplo, havia a história de umas tribos no Cáucaso, que parecia que eram judeus, mas que tinham sido convertidas ao judaísmo, mas inicialmente não era, e portanto havia dúvidas sobre se eles eram judeus ou não, verdadeiramente. Essa definição era puramente biológica e a religião não interessava, isto é, mesmo que a pessoa seguisse a religião, mas se não tivesse antepassados judeus, talvez não fosse judeu. Era muito vago, mas já vamos referir isso mais adiante. O ponto fundamental aqui para percebermos é que o antissemitismo nazi é muito diferente da discriminação contra os judeus que, por exemplo, existiu na Idade Média, em muitos estados ou reinos.
Incluindo em Portugal.
Exato. Portugal, Espanha. Essa discriminação contra os judeus que existiu, por exemplo, em Portugal, era uma discriminação religiosa, isto é, se o judeu se convertesse ao cristianismo, deixava de ser judeu. Isso era a ideia.
Chamados cristãos-novos.
Sim, e depois podia ser suspeito, porque podia continuar a judaizar, como se dizia.
Em segredo.
Mas se não continuasse, não era judeu. Passava a ser um cristão novo, não era judeu. O antissemitismo nazi, isto é que é o ponto importante aqui para percebermos as leis de Nuremberga, não deriva de preconceito religioso, mas de um preconceito científico. Porque o antissemitismo nazi deriva da visão de alguns cientistas, e eles eram reconhecidos como cientistas, pelo menos que nós agora estejamos disponíveis para os reconhecer como tal, mas na altura eram cientistas, e cientistas reputadíssimos, professores de universidades, gente muito prestigiada. Estes cientistas no século XIX tinham desenvolvido a teoria e tinham consolidado a teoria de que a humanidade estava dividida em raças. Essas raças eram grupos definidos biologicamente, portanto, não apenas por cultura, nem por outros traços adquiridos. As raças eram Constituídos geneticamente. Entre as raças, haveria raças superiores e raças inferiores. As raças superiores eram aquelas que mais teriam contribuído para o progresso tecnológico, que no século 19 definia a ideia de avanço, e para aquilo que se chamava na altura a civilização mundial, que basicamente correspondia à civilização tal como era concebida na Europa do próprio século 19. Isto é, achavam que aquela era a grande civilização e, portanto, as populações que mais teriam contribuído para esse tipo de civilização eram as raças superiores. A partir daí, podia-se tirar duas conclusões e aí as coisas divergiam. Nem toda mundo tinha a mesma opinião, mesmo aceitando uma hierarquia de raças. Havia quem achasse que o que se deveria derivar da hierarquia de raças é que as raças superiores tinham a obrigação de elevar as raças inferiores até o seu nível. Isto era, por exemplo, o princípio da colonização europeia em África, civilizar África, levar aquelas populações, segundo os europeus, que ainda estão a viver num estado primitivo, para um estado civilizado. Esta é uma ideia, a missão civilizadora da Europa. Mas havia também quem tirasse uma conclusão completamente diferente, e aqui é que se integram os nazistas: as raças inferiores não seriam nunca capazes de melhoramento e a defesa da civilização não consistia em iniciá-las num estado avançado de vida coletiva, mas sim em defender as raças superiores contra a contaminação pelas raças inferiores. Esta é uma outra conclusão que se tira da ideia de que a humanidade está dividida em raças e que há uma hierarquia entre as raças. Há quem tirasse uma conclusão que era: as raças superiores têm uma obrigação de ajudar as raças inferiores a elevarem-se e a subirem à civilização, e outros que: "Não, o objetivo deve ser preservar as raças superiores da contaminação por raças inferiores."
Ok, mas explica-me uma coisa: como é que se justifica que os judeus, a civilização do livro, com níveis de educação muitas vezes altíssimos, gente que pelas suas próprias capacidades intelectuais tendiam a subir na vida, a ficarem riquíssimos, de que forma é que isso pode ser uma raça inferior? Porque uma coisa são indígenas a viverem em cubatas, mas não era o caso dos judeus.
Por que os nazistas viam os judeus como uma raça inferior? Mas, ao mesmo tempo, e paradoxalmente, eles próprios lhes atribuíam enormes capacidades de infiltração e de dominação. Isto é, eles achavam que os judeus tinham um projeto de dominar o mundo. Era isso que, na propaganda nazista, se atribuía aos judeus, um projeto de dominar o mundo, um pouco como aquele dos Protocolos dos Sábios de Sião, que já aqui falamos, uma fraude literária concebida na Rússia czarista no fim do século 19, princípio do século 20, e que se tornou muito popular, seria aparentemente o documento de uma série de sábios judeus com os seus planos para vir dominar o mundo. É por isso que os judeus são muito diferentes dos outros casos, dos ciganos, dos negros, para os nazistas. Isto é, por exemplo, os ciganos para os nazistas, aquilo que caracteriza os ciganos como um problema para o Estado racial nazista é o fato de eles terem uma tendência para a criminalidade e para o nomadismo. Há documentos nazistas, portanto, a partir do momento em que isso fosse controlado, eles deixavam de ser um problema. Isto é, a partir do momento em que eles fossem obrigados a tornar-se mais sedentários e que a polícia os controlasse, deixariam de ser um problema. Aliás, como têm notado alguns historiadores do Terceiro Reich, as políticas nazistas para os ciganos não são muito diferentes das políticas de todos os outros Estados à volta da Alemanha. Onde havia ciganos, as políticas são mais ou menos as mesmas. Nós estamos a falar na Alemanha, não havia uma população africana, havia mestiços, resultado de relações entre alemães e populações africanas locais nas colônias alemãs, ainda antes da Primeira Guerra Mundial, e o resultado também de militares, sobretudo franceses, originários da África, que tinham estado também na ocupação de determinadas zonas na Alemanha e tinha resultado alguns mestiços. Os números são ridículos, são umas centenas. São uns 500 ou uma coisa qualquer assim. Aquilo é visto como uma questão de: "Sim, é mau para a Alemanha haver estes mestiços", mas de fato aquilo não justificava quaisquer problemas. Aliás, há casos curiosos, por exemplo, de escritores negros americanos, há um caso de um que visita a Alemanha nos anos 30 frequentemente, porque gosta imenso da Alemanha, e dizia: "Eu não sinto discriminação nenhuma na Alemanha." Aliás, ele diz: "Eu sinto menos discriminação na Alemanha nazista do que no sul dos Estados Unidos." E depois estranha muito. Ele próprio diz: "E é estranhíssimo eles andarem a perseguir os judeus que são brancos como eles e que aparentemente nem os consigo distinguir entre eles, mas eles andam a persegui-los e eu passo ali completamente à vontade, estou nos hotéis, ando e toda gente me trata com respeito e bem." Portanto, são casos diferentes. Mas voltando aos judeus Porque verdadeiramente a doutrina nazista, tal como todas as ideologias, não tem consistência. Isto é, por detrás daquela visão biológica dos judeus, há de fato uma visão sociológica, há uma sociologia por detrás da biologia. Já falamos aqui disso. Os nazistas basicamente atribuem aos judeus as características que também atribuíam ao capitalismo. Isto é, o motivo do lucro, o desenraizamento, isto é, uma população sem nação, que circula. O cosmopolitismo, é uma população que não tem ligação especial a uma terra, a uma sociedade, é um povo de gente que anda no meio dos outros povos. E portanto, basicamente, para os nazistas, os judeus são a raça, como eles diriam, que sustentava o projeto de globalização capitalista, que iria tornar todas as outras raças escravas de um sistema de produção centrado nos Estados Unidos. Esta é a ideia, é a visão de Hitler, quer dizer, a ideia de que os judeus são os agentes do capitalismo. São eles que estão por detrás da globalização capitalista, que é tornar todas as outras nações, basicamente nações de escravos a trabalhar para este sistema, que está centrado nos Estados Unidos, de exploração dos vários países, das suas matérias-primas, da sua mão de obra. Portanto, a eliminação dos judeus é uma questão ideológica fundamental, é o equivalente da eliminação da aristocracia e da burguesia pelos comunistas na sociedade soviética. É a maneira de eliminar o capitalismo, este capitalismo global. Portanto, ao discriminar e excluir os judeus, os nazistas estão a realizar a revolução nacional socialista, tal como os comunistas estão ao nacionalizar empresas ou as terras. É a mesma ideia, é uma ideia revolucionária. Portanto, é uma raça que eles podem definir biologicamente, mas que ao mesmo tempo atribuem uma função de transformação de nações como a nação ariana, no sentido a se tornarem descaracterizadas e vulneráveis à exploração capitalista mundial, no sentido em que esta exploração capitalista mundial centrada nos Estados Unidos é uma conspiração que tem os judeus como seus principais agentes.
Mas essa tua explicação parece remeter mais para uma raça inimiga e não necessariamente pra uma raça inferior. Essa expressão inferior seria exatamente por aqui.
A expressão inferior significava aqui, neste caso, por um lado, eles são um fator de dissolução da população ariana que constitui a nação alemã. Mas, por outro lado, eles são também algo que nesta dissolução introduzem uma degeneração, uma degradação. Portanto, a inferioridade aqui é também uma inferioridade moral, isto é, ética, de degradação para uma forma de vida inferior.
A ideia é quase do vírus, não é?
Sim, deste vírus. Quer dizer, não são propriamente inferiores, como populações de regiões tecnologicamente menos avançadas do mundo, são inferiores no sentido que aquilo que eles trazem é uma forma inferior de vida, isto é, rebaixar a vida para os outros.
É subtil, sim.
Isto é, neste aspecto grosseiro e medonho disto, há aqui uma espécie de subtileza e também de confusão, atenção. Isto não é completamente consistente. Portanto, o antissemitismo nazista não é uma zanga pessoal de Hitler contra os judeus, isto é, no sentido em que um dia um judeu o tivesse maltratado e ele tivesse ficado com raiva. Não tem nada a ver com isso. Não é também, e isso também é muito importante, não é também um problema social. Isto é, não é um problema social ou cultural na Alemanha. Os judeus em 1930, na Alemanha, são menos de 1% da população. Há 500 mil judeus, ou pessoas que são classificadas como judeus, segundo as leis nazistas, na Alemanha. É verdade, muita desta população está concentrada nas cidades, mais de um terço vive em Berlim, por exemplo. Portanto, quem vivesse em Berlim poderia parecer que havia imensos judeus, apenas porque eles estavam muito concentrados nesta cidade e estavam também muito concentrados em certas profissões, sobretudo profissões liberais: médicos, advogados, jornalistas. Entre estes judeus, também havia uma quantidade de judeus estrangeiros, recentemente chegados à Alemanha, vindos da Rússia, mas a maioria destes judeus está profundamente integrada. Muitos deles tinham deixado de praticar a religião judaica, tinham se convertido ao cristianismo, tinham casado com cristãos. Por exemplo, dos 500 mil judeus, 50 mil eram cristãos, portanto, 10% eram cristãos. Outros 50 mil eram filhos de um só parente judeu, portanto, já eram filhos de casamentos mistos. Portanto, os judeus não eram, de maneira nenhuma, na Alemanha, uma minoria nacional que contestasse os valores dominantes da sociedade alemã. Portanto, os judeus na Alemanha não eram nada como os judeus na Polônia, por exemplo. Na Polônia, os judeus, além de serem muito mais, são 10% da população, são uns milhões, são uma minoria nacional E não apenas religiosa, que vivem em guetos, vivem separados da população polaca, são profundamente religiosos e falam uma língua diferente, falam iídiche, que é aliás uma forma até de alemão antigo medieval. A mesma coisa, por exemplo, na Roménia, onde são menos, mas também têm estas características de uma população separada. Na Alemanha não é assim, na Alemanha os judeus estão profundamente integrados. Aliás, há relatórios dos serviços secretos alemães a notarem que é só depois de 1935 que os alemães estão a começar, dizem eles próprios, os serviços nazistas, que os alemães estão a começar a olhar para os judeus como outra raça. Isto é, até aí, a maior parte dos alemães olhava para os judeus como um alemão que por acaso tinha a religião judaica. Portanto, o que estamos aqui a falar é que este antissemitismo não é o resultado do facto de haver uma grande minoria nacional com costumes completamente diferentes, a contestar os valores dominantes na sociedade alemã e que não se quer integrar. Não.
É uma ideologia.
É uma ideologia imposta de cima pelo Estado na Alemanha.
Muito bem. Chegamos ao final da nossa primeira parte. Voltamos já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar das leis de Nuremberga, que foram instituídas em 1935, faz agora 90 anos. Rui, tu estavas a explicar que Hitler não tinha nada contra os judeus. Socialmente era mesmo uma ideologia.
Era uma ideologia.
E uma ideologia pretensamente científica.
Pretensamente científica e cujo objetivo é uma revolução social na Alemanha. Portanto, as leis de Nuremberga de 1935 não são o resultado de um preconceito xenófobo, como a população alemã poderia ter perante uma outra população estrangeira na Alemanha. Também não são o resultado de problemas sociais ou culturais levantados por uma grande minoria nacional que não se quisesse integrar. Esta minoria de judeus, muito pequenina, menos de 1% da população, estava integrada, queria-se integrar e estava-se a integrar. Mas as leis de Nuremberga são o resultado de uma ideologia, de uma visão supostamente científica do mundo.
Mas também tiveram que servir para alguma coisa. Tiveram que servir para alguma coisa para o Hitler, de ir desencantar isto. Quer dizer, sempre existiu o preconceito.
Não, a ideia é a base de uma revolução racial, isto é, o ataque a uma minoria tão pequena e que levantava tão poucos problemas em termos sociais como é a minoria de judeus na Alemanha, é a forma de os nazis procederem a uma revolução na Alemanha. Isto é a revolução social deles. Como disse, é o equivalente dos comunistas na União Soviética expropriarem os proprietários de terras e proprietários de fábricas. Os nazis na Alemanha deixam os proprietários de terras e de fábricas com as suas propriedades, e esta é a sua revolução, porque aquilo que eles querem instaurar é um Estado com uma homogeneidade racial. Essa homogeneidade racial, eles estão convictos que é o princípio da solução de todos os problemas sociais. Quando eles criarem na Alemanha uma sociedade em que as pessoas têm noção de que são todas iguais dentro do Estado racial, isso dissolve os problemas sociais que se estavam a viver na Alemanha nos anos 20 e nos anos 30.
Ou seja, não era uma espécie de lei paralela que estava ali porque eles também não gostavam dos judeus, era um pilar absolutamente central daquilo que era o regime nazista.
Isto são as leis constitutivas do regime nazista. Quer dizer, estas leis de Nuremberga são a definição do regime nazista e ao mesmo tempo da tal visão científica, porque elas estão apoiadas numa quantidade de trabalho feito por professores universitários em congressos científicos que há na Alemanha.
Era uma suposta ciência.
Aliás, quando a Igreja Católica protesta ou dá uns sinais, os nazistas usam isso para provar como a Igreja Católica é obscurantista e anticientífica, não está a seguir a ciência. Portanto, isto é científico, são os estudantes universitários que querem que sejam aplicadas estas leis científicas na Alemanha para a saúde da sociedade alemã. Obviamente, estamos a falar dos judeus, eles também tinham outras discriminações contra aqueles que tinham deficiências, contra aqueles que sofriam de alcoolismo, de dependência de drogas, que se dedicavam à marginalidade, à prostituição. Tudo isso fazia parte desta higiene racial. Portanto, há uma higiene racial. O inimigo principal são os judeus, mas depois há todas as outras categorias de população que também são sujeitas a discriminação e a métodos como a esterilização, por exemplo. 360 mil pessoas são esterilizadas nos anos 30 na Alemanha por terem estas características, terem deficiências, serem alcoólicos, terem problemas de saúde. Portanto, é a tentativa de eliminar todos os fatores que afetam a saúde da raça. Portanto, é este conceito de uma higiene social, com critérios que depois não conseguem ser resolvidos pelos tais cientistas. Por exemplo, o que é um judeu? Um judeu é alguém que tem um avô judeu, já passa a ser mestiço e, portanto, já é um judeu. Mas depois há aqueles judeus que combateram pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Hindenburg, por exemplo, que ainda é o presidente do Reich até 1934, acha que quaisquer leis contra os judeus devem excluir os veteranos Os judeus que foram soldados na Primeira Guerra Mundial, diz ele. Esses aí não podem ser tratados como judeus, que era uma coisa bizarra.
Sim, em termos científicos já não era bem científico.
Mas depois havia os judeus nazistas, alguns, gente que tinha um antepassado judeu, aliás, que descobriu então perante as leis o que se faz com ele. Para resolver esses fatos, decide-se que, em última instância, é o Führer que decide quem é e quem não é judeu. Portanto, o Führer tem a possibilidade de emitir um documento assinado pelo Hitler a dizer que alguém não é judeu, embora todas as provas sejam que satisfaz os critérios pra poder ser classificado judeu, mas o Führer diz que ele não é judeu. Passa um documento a dizer que o indivíduo não é judeu, apesar de ter um antepassado.
E por que em 1935 essas leis surgem? Porque o regime já tinha algum tempo, não muito.
Tinha dois anos, quase a fazer três anos. É desde janeiro de 1933 que Hitler é o chanceler do Reich. Sim, Hitler em 1935 precisava demonstrar serviço. Há um contexto mais restrito destas leis. Ele estava no poder desde janeiro de 1933, estabeleceu uma ditadura de partido único na Alemanha a partir de abril, maio de 1933. Ele tinha chegado ao poder nomeado pelo presidente Hindenburg e com apoio parlamentar, é só depois que ele estabelece a sua ditadura. Mas em junho de 1934, ele tinha eliminado a ala mais radical do Partido Nazi, representada pela direção das SA, Sturmabteilung, que é as secções de assalto, a milícia armada do Partido Nazi, a sua liderança é uma liderança muito radical, esquerdista, como é dito, queriam uma revolução social na Alemanha imediatamente, acusa Hitler de estar a pactuar com a sociedade conservadora alemã. Hitler acaba por eliminá-los, e quando eu digo eliminar é matá-los mesmo. E se cria a ideia de que Hitler, afinal, está em uma situação de compromisso com a sociedade conservadora alemã e sobretudo com as elites militares. Portanto, Hitler está a começar a precisar demonstrar que é revolucionário, que ainda é um revolucionário, não é um indivíduo que se vendeu ao sistema. Afinal, vendeu-se ao sistema. E ele precisa demonstrar isso porque há uma agitação nas bases do Partido Nazi, que explicam vagas de violência contra os judeus, protagonizadas por militantes nazistas no verão de 1935, e que têm também a ver com uma certa frustração contra o regime. Afinal, o desemprego continuava, afinal, a inflação continuava, isto é, aquilo que os nazistas diziam que deviam resolver, não estavam resolvendo. Portanto, há grupos das SA e das SS, que é a outra milícia do Partido Nazi, a fazer boicotes de lojas, a atacar sinagogas, a atacar cemitérios, a atacar judeus. Hitler sente que ele tem de assumir a liderança disso. Tem de assumir a ideia de que é o Estado que vai protagonizar a luta contra os judeus, e não grupos isolados espontaneamente.
O que o senhor está dizendo é que os nazistas já perseguiam os judeus, mas ainda não tinham legislação.
Havia leis já, por exemplo, a proibir que os judeus fizessem isto ou fizessem aquilo, mas ainda não havia esta questão de saber se os judeus eram ou não eram cidadãos do Reich, e ainda não se tinha entrado na vida privada dos cidadãos. O que é muito característico desta legislação é o seu aspecto que nós poderíamos dizer totalitário. Isto entra na vida privada, proíbe casamentos. As leis de Nuremberg proíbem casamentos entre alemães arianos e judeus.
Certo, mas proíbem também relações sexuais.
Proíbem também relações sexuais. As relações sexuais passam a ser punidas pela lei. Se um indivíduo alemão ariano tem relações sexuais com uma mulher judia, isso pode fazê-lo incorrer numa pena, e a mesma coisa para um judeu. Aliás, entre 1936 e 1939, há uma média de cerca de 400 homens judeus que são condenados por ano por relações sexuais com arianas. Denunciados, presos e condenados como tal. Isto entra na vida privada dos alemães e prova, para Hitler, primeiro, o regime nazi é revolucionário, é coerente com a ideologia com que chegou ao poder. Dois, e isto é um outro aspecto desta legislação. Os nazistas dizem: "Bem, a partir do momento em que há estas leis, em que o Estado assume a discriminação contra os judeus, não é preciso os particulares, os militantes nazistas, praticarem atos, isto é, serem eles a assumir a luta contra os judeus." Portanto, estas leis de Nuremberg, perversamente São também publicitadas, sobretudo no exterior da Alemanha, como leis de estabilização, de paz. Portanto, agora os judeus estão discriminados, já não fazem parte da sociedade alemã, estão fora e vão deixar de ser objeto também das violências de que até agora foram vítimas na Alemanha. Portanto, é a ideia de que são leis de pacificação da sociedade alemã. Separar os judeus do resto da sociedade alemã criava um mundo à parte para os judeus e onde eles ficariam em paz.
Essas leis de Nuremberg, só para esclarecer os nossos ouvintes, evidentemente que não apresentavam nenhuma forma de desejo à extinção dos judeus.
Não, são uma forma de os separar, são leis de separação.
Mas não de os matar.
Não, não há extermínio aqui, não há nada.
É só para esclarecer isso que nós já falamos, que o Holocausto em si foi secreto.
É secreto e é uma ideia que surge e que é desenvolvida já durante a Segunda Guerra Mundial, 1941, falámos aqui da Conferência de Wannsee, onde começa a ser o extermínio físico da população, começa a ser encarado pelos nazistas como a solução para o problema judaico. Aqui já há apelos à violência física, mas ainda não há esse plano, embora, obviamente, esse plano de extermínio, de alguma maneira, decorre desta discriminação. Uma coisa não apareceu de repente no zero. Isto é muito importante. Os nazistas propagandeiam estas leis de Nuremberg como uma pacificação. Isto é importante porque eles estavam muito preocupados com a reação, sobretudo dos Estados Unidos e dos boicotes econômicos que os Estados Unidos, onde eles acham que a comunidade judaica tem uma força muito grande, poderiam exercer contra a Alemanha. Portanto, estão interessados em dizer: "Não, os judeus estão a ser discriminados, mas é para bem deles. Assim ficam separados, já não são atacados." Além disso, a partir de 1935, os nazistas têm um projeto também um bocado especial, que é os Jogos Olímpicos de 1936. E Hitler quer que os Jogos Olímpicos corram bem, porque é a grande mostra do Estado nazi para o resto do mundo dizer: "Vejam como nós somos ótimos, organizamos estes brilhantes Jogos Olímpicos". Começam os Jogos Olímpicos, como depois a União Soviética também vai usar os Jogos Olímpicos e também, de alguma maneira, as potências ocidentais durante a Guerra Fria. Isto é, como mostras, vejam como nós somos capazes de organizar isto, vejam como tudo corre bem. Hitler e os nazistas estão interessados neste fim do ano de 1935 numa acalmação na Alemanha para 1936. Aliás, eles quando percebem que até os Estados Unidos poderiam não participar nos jogos se a equipe alemã excluísse os judeus, as autoridades desportivas alemãs tentam recrutar atletas judeus para a equipe da Alemanha Nacional Socialista para ver se poupam ao boicote. Depois têm um problema, como já tinham excluído os judeus da maior parte dos ginásios e instalações desportivas, não havia ninguém com o nível suficiente e portanto têm de ir ao exterior, têm de ir fora da Alemanha, onde há alguns atletas de origem alemã judeus que ainda têm meios para prática, que tiveram possibilidade de praticar as suas respetivas disciplinas a um nível de competição, para os tentarem meter na equipe alemã. A inconsistência disto é extraordinária, atenção. Eu ao mesmo tempo que estou a dizer que há aqui uma ideologia, não estou a dizer que há uma coerência, nem uma consistência. Ou antes, às vezes quando há coerência é no sentido péssimo, de levar a uma discriminação, uma violência maior. Tinhas me perguntado também como é que isto se refletia na vida dos judeus. E para isso nós temos um documento extraordinário, que é um diário, o diário de Victor Klemperer. Victor Klemperer nasceu em 1881, tinha 54 anos em 1935, era um professor de Literatura Francesa na Universidade de Dresden. Ele tinha um primo famoso, que era o Otto Klemperer, um grande maestro. O Otto Klemperer já estava fora da Alemanha, já tinha saído da Alemanha. O Victor Klemperer é filho de um rabino judeu e ele acompanha no seu diário tudo isto. Entre 1933 e 1935, ele vê o boicote das lojas dos judeus, a pressão sobre as empresas para despedir funcionários judeus, mas nota também uma coisa: tudo isto vai e vem. De repente, há uma fase em que as empresas são pressionadas para despedir os empregados judeus e depois deixam de ser pressionadas. Portanto, é descontinuado. Depois volta mais tarde. Como o Victor Klemperer escreve em 1933, ele diz: "A questão racial ainda não é clara." Isto é, não é claro para onde é que a Alemanha nazista está a ir. E por exemplo, quando a ala radical do Partido Nazista, em 1934, é eliminada por Hitler, ele fica todo animado, ele julga: "Bem, então afinal eles não vão ser até radicais como se esperava e talvez não incomodem e não persigam os judeus como se poderia esperar." Portanto, para ele, em 1935, as leis de Nuremberg são esta clarificação e a ideia que ele, de facto, não tem lugar nesta Alemanha nazista. Em 1935, ele é dispensado da universidade, aliás, com uma reforma mensal, ainda tem uma reforma equivalente a metade do salário que tinha enquanto professor. Klemperer sofre, sobretudo, mais até do que as leis, o ativismo antissemita, por exemplo, dos estudantes. Os estudantes na Universidade de Dresden são a principal base de agitação nazista, os estudantes universitários. Há um manifesto dos estudantes que o Klemperer nota no seu diário, que é uma coisa extraordinária. Eles reclamam, os estudantes universitários, a juventude alemã, reclamam que os livros de autores judeus alemães escritos em alemão deviam ser publicados indicando que é uma tradução. Isto é, um livro de um autor alemão, desde que fosse judeu, deveria ser publicado com a indicação que era uma tradução. Por quê? Porque um judeu não podia exprimir-se em alemão, porque na sua cabeça ele pensava em hebreu e, portanto, aquilo era uma tradução. Devia ser indicado como uma tradução do hebreu, mesmo que tivesse sido escrito por um autor que era alemão e que escrevia em alemão. Isto é uma reivindicação destes estudantes que, mais uma vez, seguem a ciência. Eles estão a seguir a ciência. Mas é curioso, ao mesmo tempo que isto está a acontecer, Victor Klemperer está a notar que há amigos dele que aderem ao Partido Nazista e que continuam a convidá-lo, continuam a falar com ele. E portanto, há, por exemplo, uma colega dele que se torna representante do Partido Nazista no departamento e que lhe vem dizer: "Isto não vai impedir que eu não continue a usar as suas orientações e o seu acompanhar nos meus trabalhos." Ele diz: "Está bem." Mas é claro, depois no diário: "Como é que é possível? Incrível como é que isto está a acontecer." E há também muitos judeus, nota ele, que estão a tentar adaptar-se a isto, a dizer: "Bem, pronto, isto é a nossa vida, vamos discriminados, mas vamos tentar continuar a adaptar-nos." Há algo que Victor Klemperer está sempre a notar no seu diário. E é que ele sente que todas estas leis, todo este edifício jurídico não vai dispensar os nazistas da violência. Ele em 1935, em 1936, em 1937, ele está constantemente a dizer: "Eu sinto que está aqui um ambiente de violência, que está se a criar um ambiente de violência. Isto não vai ser apenas uma questão jurídica, uma questão de leis, de discriminação legal. Isto é, há um ambiente de violência." E nós sabemos que sim, a partir do fim de 1937, há instruções, sabemos isso, enfim, os historiadores estudaram, há instruções, por exemplo, à polícia em Berlim para começar a atormentar os judeus e, por exemplo, a chamar os judeus à esquadra. "Venha à esquadra, por motivo nenhum. Venha à esquadra aqui prestar declarações sobre o quê, o que é que andou a fazer, o que é que tem isto, mais aquilo." Para, por exemplo, aplicar de uma maneira muito severa os regulamentos de higiene nas lojas dos judeus. "Tem muito pó em cima do balcão, não está suficientemente limpo." Portanto, começa a haver uma tendência para fazer pressão cada vez maior sobre os judeus. E é neste ambiente que no fim de 1938, em novembro de 1938, em França, não na Alemanha, um jovem judeu polaco dispara contra um funcionário da embaixada alemã em Paris. E esse funcionário acaba por morrer. E as autoridades nazistas na Alemanha aproveitam esse facto para lançarem, e são as próprias autoridades que o fazem, uma perseguição, um ataque aos judeus, um pogrom, como se chamava na Europa Oriental, na Rússia, um pogrom, isto é, um ataque aos judeus. Há ataques a sinagogas, com destruição de sinagogas, há ataques a cemitérios de judeus e há ataques a lojas. De cerca de 9 mil lojas dos judeus na Alemanha, cerca de 7.500 são destruídas, portanto, a maior parte é destruída. É a chamada Noite de Cristal, por causa dos vidros das montras que são partidos e, portanto, há vidro por todo lado nas cidades, parece haver vidro por todo lado nas cidades alemãs. E há uma prisão em massa de homens adultos judeus. Cerca de 30 mil homens são presos apenas por serem judeus. São presos, levados para campos de concentração. Estes campos de concentração são campos de concentração na Alemanha, são Dachau, Buchenwald, mas ainda não são campos de extermínio, nem trabalhos forçados, são apenas instalações prisionais, e portanto são metidos aí. E é também lançado um imposto especial sobre os judeus equivalente a um quinto daquilo que é estimado ser o seu patrimônio. As pessoas têm que pagar o equivalente a 20% do seu patrimônio, penso que é em quatro prestações, não é tudo de uma vez. Um imposto especial sobre os judeus. E nos anos seguintes, sobretudo em 1938 e 39, há uma série de leis e decretos a proibir os judeus de ter automóveis, de ter máquinas de escrever, de ter telefones, de frequentar bibliotecas públicas, cinemas, teatros, piscinas e até parques, não podem entrar nos parques públicos, e até ter animais de estimação, cães e gatos. Basicamente, os judeus passam de uma população que desde 1935 não é alemã, e com quem os alemães não podem socializar normalmente, para uma população sem quaisquer direitos, exceto um. É o único direito que os judeus têm e que os arianos não têm: o aborto. O aborto está proibido para as mulheres arianas, mas é legal para as mulheres judias. As mulheres judias podem abortar livremente na Alemanha. Isto é um universo que desta maneira não tem paralelo no resto da Europa, mesmo no resto da Europa onde há discriminação jurídica contra os judeus, e também há, por exemplo, na Polônia e na Romênia. Na Polônia, os judeus também são proibidos de ser funcionários públicos, podem frequentar a universidade, mas há um número limite de lugares para estudantes judeus nas universidades. Na Romênia também há qualquer coisa equivalente, mas não há, por exemplo, estas leis a proibir casamentos ou a proibir relações sexuais, nem todas estas limitações brutais contra a população judaica.
É uma forma de empurrar com a barriga.
Na Alemanha também há todas estas leis, porque na Alemanha o que se está a tentar fazer é excluir da sociedade alemã uma população, indivíduos, melhor, não é uma população, são indivíduos que estão integrados na sociedade alemã. Na Polônia e na Romênia não é preciso, eles estão de fora, eles estão já excluídos, digamos assim, porque nunca se integraram ao mesmo nível da Alemanha. A Hungria também é um outro caso em que os judeus também estão bastante integrados, mas também são uma população maior, têm números maiores. Mas uma população pequena, completamente integrada, é o caso da Alemanha. Portanto, estas leis nazistas também fazem sentido quando nós percebemos que eles estão a tentar excluir pessoas que se sentem completamente alemãs. Sim, o objetivo é, de fato, pô-los fora. É isso que eles estão a conseguir, os nazistas. Meio milhão de judeus em 1933, em 1939 são cerca de 160 mil. A redução é enorme, mais ou menos quase 400 mil judeus saíram da Alemanha em direção a vários países, outros países europeus, em direção aos Estados Unidos, sobretudo, muitos para os Estados Unidos, muitos também para o mandato da Palestina, cerca de 60 mil vão para o mandato da Palestina.
Essa saída é facilitada?
A saída foi facilitada até um determinado tempo, mas não era tão facilitada como isso. Não era tão fácil como isso. Isso, por exemplo, explica por que Victor Klemperer continua na Alemanha. Ele fica na Alemanha. Por quê? Por que ele não sai? Ainda por cima quando tem muitos parentes e até amigos judeus a sair e a dizer a ele: "Sai, vai-te embora, isto vai acabar mal." Toda a gente começou a perceber nos anos 30, mesmo ainda sem ter ideia do que iria ser o extermínio de 1941, que aquilo ia acabar com uma violência extrema. Aliás, o próprio Victor Klemperer tem ideia disso, tem a sensação de que isso vai acabar num ato de violência grande. Mas por que ele não vai embora? Primeiro, porque a maior parte dos países do mundo não facilitam a imigração. Nós estamos numa época, os anos 30, uma época de depressão, de desemprego e, portanto, ninguém quer centenas de milhares de pessoas a chegar, como seria o caso da Alemanha. Depois, porque o Victor Klemperer é um professor de Literatura Francesa numa universidade alemã. Ele diz constantemente no diário: "Mas o que eu vou fazer? Para onde é que eu vou?" Primeiro, arranjam-lhe vários sítios. "Vai para o Peru, vai para a Argentina", os sítios mais variados, mas o que ele vai fazer lá? Repare, isto é um professor universitário que está habituado a uma certa vida, vai fazer o quê para o Peru?
Certo, domínio das línguas também.
E depois, há um caso ainda maior que ele está constantemente a lembrar no seu diário. Ele não se sente judeu. Apesar de ser filho de um rabino, já tinha sido batizado como protestante. Portanto, ele é um protestante, ele é um cristão protestante. Ele sente-se profundamente alemão. Ele serviu na Primeira Guerra Mundial no exército alemão, é um veterano da guerra. Ele diz no diário: "Eu não sou apenas um alemão, eu sou um nacionalista alemão". Ele acredita na Alemanha, ele é profundamente alemão. Ele tinha casado com uma alemã protestante. Ele diz: "Eu não me imagino viver em outro país que não o meu. Eu sou alemão, vivo na Alemanha. E por que eu hei de ser judeu?" Aliás, ele tem um momento em que diz: "Bem, o Goebbels, o ministro da propaganda alemã, parece mais um judeu do que eu. Por que eu hei de ser um judeu?"
E foi aguardando, é isso, sem sair?
E vai aguardando, e também porque tem uma esperança ao longo dos anos 30 que o regime nazista não possa durar. Ele está sempre à espera que a Alemanha nazista entre em bancarrota Que o exército derrube os nazis, que a França ou a Inglaterra finalmente façam frente a Hitler e provoquem a derrocada do regime nazi na Alemanha. Ele está sempre à espera de um queridinho.
E quando a guerra começou, ainda estava na Alemanha?
Ele ainda está na Alemanha em 1939 e as coisas pioram muito para ele em 1940, quando os judeus e ele são forçados a abandonar as suas casas e a mudar-se para casas de judeus. Reparem, nós estamos a falar dos judeus na Alemanha, não estamos a falar das comunidades judaicas da Polônia, da Rússia, que depois vão cair a partir de 1940, aliás, 1939, no caso da metade da Polônia, e depois o resto da Polônia e a Rússia a partir de 1941, quando a Alemanha nazi ataca a União Soviética, e fica com as maiores comunidades judaicas do mundo à sua mercê. Mas nós aqui estamos a falar apenas destes 160 mil, 150 mil judeus que ainda estão na Alemanha. Estes judeus alemães, é só desses que estamos a falar agora. Eles são obrigados a sair das suas casas e ir para casas de judeus. E em setembro de 1941, a Alemanha nazi já está em guerra com a Rússia Soviética, são obrigados a usar a estrela amarela. É só em setembro de 1941.
Só em 46 anos depois das leis de Nuremberg.
É que são obrigados a usar a estrela amarela e é uma humilhação enorme para Victor Klemperer. Ele durante dias não é capaz de sair de casa. Usar uma estrela amarela para ele é uma coisa terrível. E é também a partir de 1941, 42, que estes judeus alemães começam a ser deportados. A maior parte destes judeus alemães são já apenas os mais velhos, 50% têm mais de 50 anos, e os mais pobres, aqueles que tinham dinheiro e os mais jovens saíram da Alemanha nos anos 30. Victor Klemperer é professor universitário, mas não tem muito dinheiro, esse também é outro problema dele. E já é uma pessoa com 50 e tal anos, quase com 60 anos em 1941, e portanto também não se sente à vontade para sair, como fizeram vários parentes dele, sobrinhos, irmãos, que se foram embora e que estão no exterior a dizer: "Vem-te embora", mas ele diz: "Eu não quero sair". E ainda por cima tem a mulher que é alemã e que tem problemas de saúde, e ele acha que ela ainda se daria pior no exílio.
E ele acabou por morrer?
Não. A partir de 1941, estes judeus alemães começam também a ser deportados para os territórios ocupados da Polônia, onde estão os campos de trabalho forçado e os campos de extermínio. E como é que ele sobrevive, Victor Klemperer? Por três razões. Primeiro, porque está casado com uma ariana e estes são chamados judeus privilegiados. O privilegiado é uma categoria oficial. São aqueles judeus que têm direito a um tratamento especial. Isto é, os nazis não querem provocar uma reação enorme de todas as famílias alemãs que têm parentes judeus e que se fossem atingidos esses parentes judeus, pudessem começar a protestar e a reagir violentamente. Victor Klemperer tem esta proteção de estar casado com uma ariana, tem uma segunda proteção que faz dele alguém protegido, que é ter sido um veterano da guerra. Ele é um veterano da Primeira Guerra Mundial, portanto também tem direito a um tratamento especial por isso, mas sobretudo o que lhe acontece é ter sorte. A história é incrível. No dia 13 de fevereiro de 1943, na manhã de 13 de fevereiro de 1943, ele finalmente recebe ordem para se apresentar em Dresden, para se apresentar no dia seguinte num centro de deportação para ser enviado para o leste. Isto é, para a Polônia, basicamente, para os centros de extermínio. Recebe essa ordem na manhã do dia 13 de fevereiro de 1943. O que é que acontece em Dresden nessa noite? Um enorme ataque aéreo aliado, é a grande destruição, bombardeamento enorme de Dresden. Dresden é completamente destruída nessa noite pelos bombardeiros aliados. Victor Klemperer e a mulher sobrevivem ao bombardeamento e nesse momento Klemperer percebe que há uma maneira de se salvar. Ele tira a estrela amarela, destrói os seus documentos de identificação, todos os documentos em que ele era identificado como judeu, ele destrói-os e mistura-se na massa de refugiados onde ele pode dizer quando a polícia o aborda: "Onde é que estão os seus documentos?" "Não tenho, porque foi tudo destruído, ardeu tudo." E isso aparentemente é uma razão, em Dresden, naquela situação, a polícia acredita em algo. E portanto ele sai depois de Dresden, instala-se no sul da Baviera, na Alemanha, onde consegue ficar à espera dos americanos. Os americanos chegam depois em abril de 1945. Mas no diário há uma coisa curiosa, há uma nota até quase comovedora. Tem esta nota, ele diz: "Eu não estou à espera que cheguem os americanos. Eu estou à espera que regressem os alemães. Isto é, os meus compatriotas, aqueles que me tratavam como alemão, aqueles com quem eu estava identificado e que durante estes 12 anos de regime nazi desapareceram, foram-se embora, e eu estou à espera que eles voltem." É desses alemães que ele em 1945 estava ainda à espera, porque ele era um patriota alemão, e estava à espera de uma sociedade em que ele se sentia completamente integrado até 1933, ele estava à espera que essa sociedade voltasse para ele se reintegrar. E portanto sobrevive à guerra desta maneira.
Bem, e a verdade é que essa sociedade acabou por voltar.
Acabou por voltar.
Muito bem, e assim termina esta edição de "O Resto é História". Até para a semana.