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E o resto é história.
É a terra a fumar.
Do Incêndio e palavra ainda na zona do Chiado. Falo por gosto, é que arde. Vinho vermelho, troco de cor, fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um Resta História com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Há 70 anos, no final da tarde do dia 1 de dezembro de 1955, no centro da cidade de Montgomery, no estado americano de Alabama, Rosa Lewis Parks entrou no autocarro, pagou o bilhete e sentou-se. Algumas estações adiante, o autocarro começou a ficar cheio e o condutor ordenou às pessoas negras que estavam sentadas nas filas do meio para se levantarem, já que havia passageiros brancos em pé. Rosa Parks recusou levantar-se. A polícia foi chamada ao local e ela foi presa. Não era a primeira vez que este tipo de prisões acontecia nos autocarros de Montgomery, mas desta vez foi diferente. O caso Rosa Parks foi transformado num exemplo chocante de injustiça das políticas de segregação nos Estados Unidos da América. E também foi diferente em boa medida, porque nessa mesma cidade de Montgomery vivia e pregava um jovem pastor batista de 26 anos chamado Martin Luther King, que a partir da detenção de Rosa Parks, organizou um boicote aos autocarros de Montgomery, maioritariamente usados pela população negra. O boicote durou mais de um ano, até o Supremo Tribunal considerar a segregação nos autocarros inconstitucional. Uma enorme vitória para a população afro-americana e o início da luta pelos direitos civis, liderada por Martin Luther King. Razão pela qual Rosa Parks é hoje considerada a mãe do movimento dos direitos civis na América. Rui, os americanos têm este enorme talento para transformar pequenas histórias verdadeiramente em lendas, e a partir das quais eles vão construindo a sua própria identidade, a própria identidade dos Estados Unidos. Qual é que é a real importância do episódio de Rosa Parks e onde é que nesta história acaba a verdade e começa o mito?
Esta história é mesmo fascinante porque nos permite compreender isso. Isto é, como é que a partir de um incidente, de um acontecimento, se constrói uma lenda, uma narrativa, uma imagem que depois predomina, que é transformada em versão da história, que é consagrada em monumentos, em símbolos, de uma maneira que nós podemos considerar quase, às vezes, um bocadinho arbitrária, apenas no sentido em que as coisas podiam ter seguido rumos diferentes, mas seguiram este. E o fascinante disso é que nós podemos acompanhar isto e ainda há pessoas vivas que se lembram que a história podia ter sido diferente. Esse é o interessante. É óbvio que a ação de pessoas como Rosa Parks, ação individual, pessoas corajosas como ela era, foi muito importante, mas claro, nunca teria sido suficiente se não fizesse parte de outras duas coisas, que às vezes não entram na história, não são as primeiras que nos são apresentadas na história, que é: há um movimento organizado, um movimento que planeia e organiza estes acontecimentos, e há uma mudança política e cultural que está a acontecer nos Estados Unidos nos anos 50 e 60, que permite também que isto aconteça. Portanto, há o acontecimento que é aquilo que vai ser num filme, filmado, as pessoas, mas há muito mais coisas a acontecer e que fazem parte daquilo que nós chamamos também história. A Rosa Parks não é pura e simplesmente uma cidadã qualquer, uma pessoa privada que de repente tivesse tomado espontaneamente aquela atitude num autocarro onde estava a ser interpelada por estar a ocupar lugares onde os brancos tinham prioridade. Ela é mais do que isso. Ela é uma militante da National Association for the Advancement of Colored People, que é a Associação Nacional para o Progresso ou para o Avanço das Pessoas de Cor, que é uma associação que tinha sido criada em 1909, precisamente para lutar pelos direitos civis dos negros, da população afro-americana. Rosa Parks é militante dessa associação. Aliás, é a secretária de delegação dessa National Association em Montgomery. Portanto, é uma funcionária, é alguém muito importante nessa organização.
E também já não é uma jovem, ela tinha 42 anos.
Tinha 42 anos, era uma senhora casada, e em 1955 ela tinha acabado de completar um curso sobre relações raciais e ação não violenta. Portanto, curso de ativistas, digamos assim, num centro cultural da cidade de New Market, no Tennessee, que era um centro cultural que tinha sido fundado por simpatizantes dos sindicatos e também deste movimento de direitos civis. Portanto, Rosa Parks já tinha uma experiência de militância bastante longa. Ela já tinha participado em muitas campanhas, por exemplo, campanhas para recenseamento. Havia dificuldades para o recenseamento dos afro-americanos como eleitores. Uma das coisas que esta National Association fazia era promover a inscrição dos negros nos cadernos eleitorais, e era uma coisa que tinha Com que tinham de enfrentar muitos dispositivos legais que dificultavam isso. E claro, a pressão, às vezes, de funcionários que se recusavam a fazê-los. E Rosa Parks tinha conseguido, por exemplo, em 1945, ao fim de dois anos de esforços, registrar-se como eleitora em Montgomery. E tinha sido um esforço organizado pela própria associação. Outra batalha da associação era a segregação nos autocarros, nos transportes públicos. Qual era a estratégia aqui da National Association for the Advancement of Colored People: era basicamente pôr ativistas a violar ou o costume ou a lei, para provocar processos em tribunal, onde eles pudessem depois, nos tribunais, os advogados da National Association, contestar essas leis e esses costumes e provocar casos judiciais que depois eles pudessem fazer subir aos tribunais federais e daí ao Supremo Tribunal. Por quê? Porque é que é esta tática de ir a tribunal contestar aquilo que eram estatutos, costumes, leis dos estados do Sul dos Estados Unidos, para depois os levar a instâncias judiciais superiores.
E em última análise, ao Supremo Tribunal.
Em última análise, depois ao Supremo Tribunal. Bem, isso tinha a ver com o fato de, já uma vez falamos aqui disso, a propósito de Martin Luther King, que a segregação racial não é geral nos Estados Unidos. A segregação racial é um fenômeno que existe nos estados do Sul dos Estados Unidos, e quando estamos a falar dos estados do Sul, é os estados da antiga Confederação da Guerra Civil de 1861, 1865. São os 11 estados do Sul. Isso quer dizer que há 39 estados dos Estados Unidos onde não há segregação racial. Três quartos dos Estados Unidos não têm segregação racial legal. E a segregação não é geral e não é antiga, esse também é o outro ponto. Isto é, isto não é um costume ancestral. A maior parte destes costumes e leis de segregação racial são do fim do século XIX, princípio do século XX. Alguns têm apenas umas dezenas de anos. São tudo leis que tinham sido estabelecidas no Sul dos Estados Unidos depois da abolição da escravidão e depois do fim da Guerra Civil, em meados da década de 60. O Alabama é um dos estados com segregação, é o estado de Rosa Parks, mas é o estado também do "Não Matem a Cutvia" da Harper Lee, passa-se no Alabama. Quem leu o "Não Matem a Cutvia" tem uma ideia do ambiente que se vivia no estado do Alabama e segundo uma postura, que é uma postura de 1900, do ano de 1900, na cidade de Montgomery. A ideia é: as 10 filas da frente nos autocarros estão reservadas aos brancos e as 10 últimas filas dos autocarros estão reservadas aos negros. Aí não há dúvidas, só se podem sentar os brancos, e nas últimas filas também só se podem sentar os negros, não se podem sentar os brancos, só se podem sentar os brancos. O problema é as filas do meio, as 16 filas do meio. Essas 16 filas do meio são partilhadas conforme a procura. Isto é, os brancos começam a se sentar da frente pra trás e os negros de trás para a frente. Mas quando eles se encontram, os negros têm que dar lugar aos brancos, de tal maneira que os brancos podem ocupar, se forem em número suficiente, todas as filas do meio e os negros então terão de viajar em pé, se quiserem viajar no autocarro em pé, e se o condutor os deixar em pé. Nos bancos do meio, os brancos têm prioridade. E repara, de acordo com a postura, não era permitido a brancos e negros se sentarem lado a lado. Não podiam, estava proibido de sentarem-se lado a lado. Quer dizer, haver um lugar ao lado do negro, o branco não se podia sentar ou vice-versa. Rosa Parks, aliás, como tu disseste, está precisamente sentada no meio, e é esse meio. Aparecem passageiros brancos que começam a ocupar os lugares e o condutor manda Rosa Parks levantar-se e ela recusa-se a levantar-se. Isto era o tipo de postura, esta era uma postura, mas havia leis e havia costumes que faziam parte do conjunto de legislação que era chamada as leis de Jim Crow. Quer dizer, as leis de segregação racial, e repito, são tudo leis que nos anos 50, têm 30, 40, 50 anos. Não são coisas que venham da origem dos Estados Unidos ou do tempo da colonização. Aliás, são leis que só fazem sentido depois da abolição da escravatura. Até à abolição da escravatura, não há dúvida nenhuma que o lugar dos escravos é, enfim, ou em casa dos patrões ou nas plantações onde trabalham. É depois de eles serem libertos que estas leis de segregação começam a fazer sentido. Ora bem, mas como estas leis são recentes, chocam com dispositivos legais gerais da união em que está baseado os Estados Unidos da América. Aliás, nos anos 60, já depois da abolição da escravidão, tinha havido uma série de atos e de emendas à Constituição a prever isto, para impedir essas coisas de acontecer. Tinha havido um Civil Rights Act de 1866, tinha havido uma emenda à Constituição dos Estados Unidos de 1868, que era a 14ª Emenda, que precisamente preveniam, cujo objetivo era dar a todas as pessoas a mesma proteção sobre as leis. Isto é, impedir Que houvesse discriminação legal, que a discriminação legal afetasse os cidadãos dos Estados Unidos. Isso, aliás, tinham sido iniciativas do Partido Republicano, Lincoln. E onde, por exemplo, nas instituições federais, na maior parte das instituições federais, há integração racial, não há segregação. Por exemplo, Rosa Parks, durante a Segunda Guerra Mundial, tinha trabalhado na base aérea de Maxwell, que ficava no Alabama, ao pé de Montgomery, e havia autocarros que transportavam o pessoal da base para a base e nesses autocarros os brancos e os negros podiam se sentar à vontade lá dentro dos autocarros. Ela estava habituada com os colegas da base a sentar-se de qualquer maneira. E depois quando chegava a Montgomery e ia aos autocarros da cidade, nos autocarros da cidade havia segregação. Mas o que eu queria dizer? Isto permitia ao movimento pelos direitos cívicos, se conseguisse levar estes casos para os tribunais federais e depois para o Supremo Tribunal, aí os juízes poderem invocar a estrutura jurídica geral dos Estados Unidos e irem contra a base na qual assentava a segregação racial, que era a autonomia dos estados. Os Estados Unidos são compostos de estados e estes estados tinham grandes margens de autonomia legal para fazerem leis, posturas e costumes locais, mas que não violassem a Constituição.
Mas sendo que ao mesmo tempo havia um paradoxo, que era o local onde existiam as leis de segregação, eram também os estados onde existia a maior população afro-americana.
Exatamente, onde estava a maior parte da população afro-americana e um dos governos era do Partido Democrata, isto é, da esquerda dos Estados Unidos, que era a grande força segregadora da segregação racial, era a esquerda que promovia a segregação racial no Sul e usava precisamente a autonomia dos estados para legislar em cada um destes estados esta discriminação contra a população negra, que podia ser uma discriminação direta, como era o caso, por exemplo, desta segregação nos autocarros, mas podia ser também uma discriminação indireta. Por exemplo, a maneira como se impedia os negros de votar não era dizer: "Os negros não podem votar". Era, por exemplo, dizer: "Só podem ser registados como eleitores aqueles que sabem ler e escrever". Ora, esta população de antigos escravos, que vivia ainda no campo, que eram camponeses, basicamente, é uma população rural de camponeses, a maior parte deles não tem instrução. Portanto, ao dizer: "Só podem votar aqueles que sabem ler e escrever", era uma maneira de os impedir. Eram as chamadas leis de Jim Crow, que tinham uma dimensão legal, mas que tinham depois também, atenção, e é preciso não esquecer isso, uma dimensão social. Isto é, havia depois movimentos violentos que apoiavam esta discriminação, como por exemplo, a Ku Klux Klan, esta organização que praticava intimidação sobre aqueles que na população negra manifestassem vontade de contestar esta discriminação.
Além de uma brutal cultura de linchamento.
Que era uma maneira de intimidar esta população. Vamos repetir isto. Quer dizer, quem no Sul contestava esta situação podia recorrer às instâncias judiciais e até também ao apoio político que havia fora do Sul dos Estados Unidos, nos estados do Norte, mas tinha pela frente autoridades que defendiam a segregação nos estados do Sul e estes grupos violentos que a impunham à população negra.
Muito bem. Chegamos ao final da primeira parte, voltamos já a seguir. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar do dia em que Rosa Parks se recusou levantar do seu assento num autocarro e de como isso acabou por espoletar uma revolução pelos direitos dos negros nos Estados Unidos da América, mas que verdadeiramente, como estamos aqui a explicar, era uma revolução que não começou ali, já vinha atrás e que tinha toda uma habilidade legislativa, jurídica, que tinha uma intenção muito precisa sobre onde é que queria chegar.
E tinha obtido vitórias recentes. Em maio de 1954, no ano anterior a este acontecimento com Rosa Parks, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tinha declarado a segregação no ensino inconstitucional. Contrariando, aliás, uma decisão anterior do mesmo Supremo Tribunal de 1896, que tinha aceitado a segregação racial no ensino, desde que a qualidade das escolas para negros e para brancos fosse igual. E aquilo que o Supremo Tribunal em 1954 decide é que a separação só por si já cria uma desigualdade.
E cria, de fato.
E de fato criava uma desigualdade. Isto tinha sido uma vitória importante deste movimento de que uma das organizações mais importantes era esta National Association for the Advancement of Colored People, de que Rosa Parks era uma militante. Agora, organizações como a National Association tinham interesse em criar estes casos judiciais para os levar para os tribunais federais e depois Esperar chegar ao Supremo Tribunal e conseguir declarar as leis de segregação racial inconstitucionais, mas tinham também um outro objetivo, que era acompanhar esse processo pela mobilização da população afro-americana, isto é, levá-la a tornar-se politicamente ativa, a manifestar-se, a protestar contra a situação de discriminação em que estava.
E aí o gesto de Rosa Parks é fundamental.
O gesto de Rosa Parks é fundamental porque Rosa Parks disse que o seu ato naquele dia preciso, naquele momento, não tinha sido planeado, ela não tinha ido pra ali com aquela intenção, disse ela depois nas suas memórias.
E é possível.
É possível, talvez seja assim.
Não conseguia adivinhar necessariamente as reações.
Sim, mas de facto, como aquilo fazia parte de uma estratégia e de uma organização que estava a preparar-se para aquilo, podia não ter sido planeado naquele momento, mas fazia parte de um plano que ela tinha na cabeça, digamos assim. E se não fosse naquele momento, teria sido no dia seguinte ou no dia anterior.
Até porque o próprio motorista era conhecido por uma certa hostilidade.
Sim, e ela própria já tinha tido contactos nada agradáveis com aquele motorista. E o ato dela, isto é, de se recusar a submeter-se à ordem do motorista para se levantar e para dar o lugar a um passageiro branco, faz de facto parte de uma estratégia. Uma estratégia apoiada numa organização. Reparem, enquanto estou a dizer isto, atenção, sim, ele tinha o apoio da organização, mas era preciso muita coragem pra fazer isso. Porque a pessoa sabia que ia ser afrontada, que ia ser presa, como ela foi, por violar a lei, porque ela estava a violar um estatuto, uma postura municipal, uma lei, ela é presa e leva uma multa, mas poderia ter também sido agredida por passageiros brancos que tivessem reagido violentamente à sua irreverência e à sua contestação. Agora, Rosa Parks não foi a primeira ativista a fazer isso.
Isso é muito curioso.
A primeira foi uma jovem, Claudette Colvin, de 15 anos, que tinha sido presa a 2 de março de 1955 por se recusar a dar o lugar a um passageiro branco no autocarro.
Portanto, meio ano antes.
Foi a primeira, mas não foi a única. A segunda foi Aurelia Browder, a 19 de abril de 1955. A terceira foi Mary Louise Smith, 21 de outubro de 1955. Portanto, há uma sucessão e todas elas eram ativistas da National Association, ativistas dos direitos cívicos, tinham um perfil semelhante. Todas elas eram jovens afro-americanas que tinham completado estudos ou estavam a estudar e que se tinham politizado nas igrejas batistas, nas universidades. Eram militantes, e todas elas tinham feito aquilo com o objetivo: pra provocar um caso judicial.
Sim, portanto, a grande pergunta é: por que Rosa Parks e não as outras três antes? Desde logo a primeira, a Claudette.
A organização, sabemos hoje, o objetivo tinha sido usar Claudette Colvin. Foi esse o objetivo. Isto devia ter começado em março de 1955. Eles iam arranjar um caso judicial ali e depois iam lançar um boicote aos transportes públicos. E a organização tinha uma rapariga de 15 anos que se tinha recusado a levantar e portanto iam usá-la. Só que descobrem uma coisa, a meio do processo, é que ela está grávida. Aos 15 anos, é solteira e está grávida. E os membros da National Association acham que isso pode descredibilizar todo o movimento. A imprensa vai dizer: "Vejam isto, vão usar uma rapariga de maus costumes, que está grávida".
Precisavam de uma senhora mais respeitável, entre aspas.
Rosa Parks é mais velha, tem 42 anos, é casada, uma senhora respeitável, é membro de uma igreja metodista, é uma figura sênior no movimento, mas também tinha uma outra característica que Claudette Colvin, que ainda é viva, atenção, Claudette Colvin é uma negra e Rosa Parks é uma mestiça.
Ok.
Rosa Parks é neta, portanto o avô de Rosa Parks é filho de uma escrava negra e do dono branco da plantação. Portanto, Rosa Parks é descendente de escravos e descendente de senhor de escravos. O que isso quer dizer, como Claudette notou quando ela lamentou o facto de ter sido Rosa Parks a ser usada em vez dela. A mãe de Claudette teria dito a Claudette: "Olha que ela tem uma vantagem, que é mais clara do que tu e tem o cabelo liso", etc. O que isso interessava? E Claudette diz isso sem rancor. Porque ela diz: "Isso interessava porque era uma afro-americana que podia impressionar melhor o público branco". Porque o público branco ao ver Rosa Parks, via uma pessoa Que era um pouquinho mais escura do que eles, mas era praticamente uma senhora de 40 anos, branca, e que estava a ser tratada daquela maneira. Aquilo seria mais interessante pro movimento em termos de estratégia de comunicação do que propriamente apresentar uma rapariga muito mais jovem, com uma pele mais escura e, ainda por cima, grávida. Quer dizer, com uma vida sexual que na altura, em meados dos anos 50, seria vista como um pouco heterodoxa. Isso revela também como este movimento dos direitos civis é um movimento muito planejado.
E muito atento.
Muito contido, que tem dois públicos-alvo: tem o público que é a população afro-americana, que eles querem mobilizar, querem levar pra rua, querem pôr ativismo, mas também tem este público branco que eles querem impressionar com esta ideia de: estão a ver pessoas quase iguais a vocês e que estão a ser tratadas desta maneira, como se não fossem cidadãos, como pessoas de segunda classe. Interessava-lhes gente que pudesse ser o mais próximo possível daquilo que esse público branco dos estados do Norte e mesmo dos estados do Sul pudessem ver, olhar pra Rosa Parks e dizer: "Mas como é que esta senhora foi tratada desta maneira? Uma senhora respeitável, ainda por cima, um pouquinho mais escura, mas como é possível tratarem pessoas desta maneira ali no Sul? Isto é uma coisa que tem de acabar, uma coisa horrível." Há esta estratégia. É a partir do caso Rosa Parks que a National Association inicia o grande boicote, que já estava a preparar. Desde março, com Claudette Colvin, que eles estão a preparar o boicote, mas estão à espera de arranjar a pessoa certa para poder lançar. Agarram em Rosa Parks. O boicote aos transportes públicos de Montgomery começa dois dias depois da prisão de Rosa Parks. Capta muito mais a atenção do que algo que já estava a decorrer. É que, entretanto, já se tinha iniciado, com base no processo judicial de Claudette Colvin, um processo que estava a chegar aos tribunais federais e a passar pro Supremo Tribunal sobre a constitucionalidade da postura municipal acerca da segregação racial nos autocarros. Esse processo judicial já está em curso, mas a atenção foca-se toda no boicote da população negra de Montgomery aos autocarros. A população negra deixa de andar de autocarro. Isto é uma arma muito potente, porque três quartos dos passageiros dos transportes públicos de Montgomery eram negros. Os brancos andam com os seus automóveis e a população negra, que tem menos meios, usa os transportes públicos, e agora deixou de usar os transportes públicos.
E deixou mesmo.
E deixou mesmo.
O boicote foi impressionante.
É impressionante. Tem o apoio das igrejas batistas, que fazem, por exemplo, coletas para comprar sapatos às pessoas, porque coitados, eles têm depois de andar a pé, a fazer as suas-
Caminhadas gigantes.
Gigantes a pé, e começa-se a comprar sapatos para as pessoas. As igrejas são muito importantes neste movimento e a liderança do boicote passa para outra pessoa. Não é Rosa Parks, é Martin Luther King. E Martin Luther King também é escolhido por razões especiais. Há outros líderes, há outros pastores protestantes das igrejas batistas que também estão envolvidos neste movimento, mas os líderes da National Association acham que eles são todos demasiado velhos, demasiado conservadores, demasiado contidos e demasiado moderados. Eles precisam de alguém novo e alguém que seja muito mais ousado e preferem Martin Luther King, com os seus 20 e poucos anos.
E com as suas capacidades oratórias inacreditáveis.
E com uma capacidade espantosa de falar. É ele que passa a falar. E isso acontece logo em prejuízo de Rosa Parks. No dia seguinte à sua prisão, ela vai a uma reunião na igreja, uma das igrejas principais de Montgomery, que é a Mount Zion. Há uma grande assembleia de ativistas. Ela, quando entra, é reconhecida e recebe muitas palmas e pensa: "Bem, chegou talvez a minha vez de falar também, de fazer aqui um discurso." E diz: "Será que eu posso falar?" E eles dizem: "Não, já falou o suficiente, fica aí sentadinha." O palco é todo pra Martin Luther King. E ela vai depois notar isso. No resto do movimento, o movimento pelos direitos cívicos, ela não é esquecida, mas é completamente secundarizada. Em 1963, quando é organizada a grande marcha sobre Washington das organizações pelos direitos da população afro-americana, Rosa Parks esteve na marcha, mas não falou, quem falou foi Martin Luther King, e nem sequer foi convidada para a delegação que depois se reuniu com o governo americano em Washington. Aquilo passou tudo para Martin Luther King, ele é que é a figura.
E quanto tempo é que demorou o boicote aos autocarros?
O boicote demorou 381 dias, mais de um ano.
É impressionante.
Durante esse tempo, há pressões violentas sobre os que protestavam em Montgomery, no estado do Alabama. A casa de Martin Luther King sofre um atentado à bomba. Há quatro igrejas que também são atacadas por bombas, por defensores da segregação. Nessa altura, Martin Luther King Tenta impor aquela sua visão da não violência, dos protestos não violentos. Ele faz um discurso extraordinariamente famoso, que diz que temos de amar os nossos irmãos brancos independentemente do que eles nos façam. Ele estava perante uma população que estava a ser atacada por membros da Ku Klux Klan e dizia: "Se vocês têm armas, levem as armas para casa e deixem-nas lá. Nós não vamos responder. Temos de os amar, mesmo eles atacando-nos, nós vamos continuar a amá-los." É um discurso que ele faz.
Cristão.
Cristão. Martin Luther King é acusado judicialmente por uma lei de 1921 que prevê conspirações para prejudicar empresas. Ele foi acusado de organizar uma conspiração para prejudicar a empresa pública de autocarros. E é condenado, é preso durante duas semanas. O que é que isto faz? Faz com que toda a gente nos Estados Unidos comece a prestar atenção ao que se está a passar no estado do Alabama, que não é um estado importante, é um estado da região do sul dos Estados Unidos, que nesta altura é uma região pobre.
Era até mesmo Montgomery.
E uma única coisa que destaca é precisamente o problema da segregação racial. Mas é este movimento em Montgomery, este boicote, que chama a atenção dos noticiários, toda a gente começa a reparar. O movimento pelos direitos cívicos da população negra tinha começado muito antes, como disse, a National Association for the Advancement of Colored People é de 1909. Há muito tempo que eles têm advogados, que levam casos para os tribunais, etc. Mas é a partir de 1955, 56 que aquilo se torna um grande acontecimento nos Estados Unidos. E finalmente, é um tribunal federal no Alabama que em junho de 1956 decide, dois contra um, é três juízes, dois contra um, que a segregação nos autocarros era inconstitucional por violar uma cláusula da 14ª emenda à Constituição dos Estados Unidos de 1868, que dizia que nenhum Estado pode negar a nenhuma pessoa, sob a sua jurisdição, a igual proteção das leis. Considerou-se que a segregação nos autocarros em Montgomery era o Estado do Alabama a negar a uma parte da população a proteção das leis. O acórdão desse tribunal federal no Alabama é confirmado pelo Supremo Tribunal em novembro de 1956 e é então que o boicote termina. Mas reparem, o que determinou a decisão do Supremo Tribunal não é Rosa Parks, mas é o caso iniciado por Claudette Colvin, Alice Broader e Mary Louise Smith. Foram elas que lançaram o processo, no entanto, seria Rosa Parks a ficar na história. Era a figura mais conveniente, como nós aqui explicamos. E é como diz Claudette Colvin numa entrevista recente: "Por que não ficou também na história?" Ela diz: "Não, a história só tem lugar para uma grande figura, tinha um grande ícone, teve que ser ela." Agora, atenção, isto não foi nada fácil e não acabou a história aqui. O caso não determinou o fim da segregação racial no estado do Alabama. Em março de 1957, meses depois, o governo da cidade de Montgomery faz uma postura a proibir pessoas de cores diferentes de praticar desportos juntos ou até de jogar às cartas. A pessoa podia ser branca e estar a jogar às cartas com um negro, provavelmente o negro é que seria preso. Rosa Parks teve de sair de Montgomery. A pressão, as ameaças foram enormes. Claudette Colvin também teve de sair, teve de ir para Nova Iorque. E segundo várias fontes de pessoas que viveram em Montgomery no fim dos anos 50 e no fim dos anos 60, a população negra ainda continua a ser suficientemente intimidada para voltar a sentar-se nos assentos de trás dos autocarros. Até 1963, 64, 65.
Para evitar confrontos.
Para evitar confrontos, para evitar choques. Agora, claro, este é o momento em que acontecem duas coisas importantes. Por um lado, esta população negra americana está a deixar de ser aquela população de camponeses pobres que tinha sido até então, está-se a deslocar para as cidades do norte, está a ser capaz de ter uma pressão sobre a esfera pública que não tinha até então. E, por outro lado, há uma mudança política, isto é, os governos centrais, o governo federal, as presidências, sobretudo de Kennedy e de Lyndon Johnson, do Partido Democrata, que dependiam do Partido Democrata do Sul para eleger presidentes, finalmente estão dispostos para romper com o Partido Democrata do Sul, que é o partido da segregação racial, a parte da esquerda americana, mesmo com o risco de perder as presidenciais, como vai acontecer. E finalmente, dar a possibilidade de avançarem com aquilo que vão ser o Civic Rights Act de 1964, que proíbe a segregação racial no sul.
E a Rosa Parks também morreu velhinha.
Rosa Parks morreu em 2005, aos 91 anos. A sua urna esteve no Capitólio. O presidente dos Estados Unidos, que era então George Bush, foi lá pôr-lhe uma coroa de flores. E este é o pormenor talvez mais interessante: é que secretário de Estado, é um dos lugares mais importantes do governo americano. A secretária de Estado de George Bush, em 2005, é Condoleezza Rice. Condoleezza Rice é uma mulher negra, que nesta altura disse: "Se não fosse Rosa Parks, eu não estaria hoje neste lugar como secretária de Estado."
Exatamente.
Uma bela homenagem.
É assim que se constroem estas lendas com fundo de verdade, como é este caso. E assim termina esta edição de "E o Resto é História" e nós voltamos para a semana. Até lá.
E o resto é história.
Quer transformar este país numa ditadura.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.