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E o resto é história. É a pedra escorregadia. Do incêntico Abra ainda na zona dos teatros. Que faz um filho, fá-lo por gosto. É vinho vermelho que eu me decoro, pouco de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Atento! Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais um episódio de E o Resto é História, com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Esta tem sido uma das expressões mais ouvidas nos últimos tempos devido à guerra com o Irão: Estreito de Ormuz. Um pedaço do Oceano Índico que separa o Golfo Pérsico do Golfo de Omã, com apenas 40 a 60 km de largura, mas cujas rotas navegáveis são corredores muito estreitos que não têm mais do que 3 km de largo, o que evidentemente torna o Estreito de Ormuz numa zona perfeita para bloquear o acesso ao Golfo Pérsico e às suas riquezas, que hoje, como sabemos, são maioritariamente o petróleo e o gás natural, mas que antigamente eram as especiarias, as sedas, as pedras preciosas, como os navegadores portugueses rapidamente perceberam. É por isso que a história do Estreito de Ormuz é também um pequeno pedaço da história de Portugal. Durante cerca de um século, entre o início do século XVI e o início do século XVII, a ilha de Ormuz foi controlada pelos portugueses e aí foi construído o Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, cujas ruínas ainda hoje lá estão e imagino que possam ser visitadas. No entender do governador da Índia de então, Afonso de Albuquerque, Ormuz era a terceira das peças-chaves do Império Português na Ásia, depois de Goa e de Malaca. E sobre ela escreveu João de Barros: "Embora a ilha não produza nada por si mesma, por meio do comércio possui todas as coisas estimadas do mundo". Rui, este teu antepassado historiador, o João de Barros, chegou mesmo a dizer, muito poeticamente, que o mundo era um anel e que Ormuz era uma pedra preciosa engastada nele. E qual é que é a história desta pedra preciosa que hoje continua a dar tantas dores de cabeça e cujo controle ou a falta dele, tem um efeito direto nas bombas de gasolina do mundo inteiro e por isso também nas nossas carteiras?
Bem, como tudo que diz respeito ao Médio Oriente, é uma história muito antiga e muito importante mesmo antes do petróleo. Mas não vale a pena recuar demasiado. Começamos no fim do século XV, quando os portugueses estabeleceram uma carreira marítima da Europa pra Índia. A ilha de Ormuz, na costa sul do Irão, fazia então parte de um reino ou um emirato islâmico que desde o século XI controlava ambos os lados do estreito e compreendia a costa também de Omã, na Península Arábica. Era um emir ou um sultão, os nomes são reis, os portugueses chamavam de rei. Era um sultão árabe que pagava tributo aos xás da Pérsia. A importância de Ormuz nesta época, fim do século XV, não está no petróleo. O petróleo só veio a ser explorado no século XX, mas no fato de ser um interposto comercial, por onde passava uma grande parte ou quase todo o comércio entre o Mediterrâneo, a Pérsia e a Índia. Havia uma outra rota, que era a rota do Mar Vermelho e do Cairo, e esta era a outra, era a rota do Golfo Pérsico. Ormuz, nesta época, no fim do século XV, teria talvez uns 50 mil habitantes. Portanto, era uma povoação e muito importante. Estava cheia de mercadores, mercadores vindos das mais variadas partes. Isto é, havia mercadores árabes, havia mercadores persas, havia mercadores indianos, mas havia também mercadores italianos, venezianos, que também estavam lá estabelecidos. Como era típico destas cidades comerciais, todos eles estavam arrumados em bairros de acordo com as nacionalidades. Havia um bairro árabe, um bairro persa, um bairro para os indianos, etc. Era uma cidade muito cheia de gente e muito provavelmente onde, de repente, aquelas ordens morais estabelecidas em casa se diluíam um bocado ali no meio daquela gente toda.
Era muita devassidão.
Os missionários europeus que visitaram já no século XVI, portanto, os missionários europeus como São Francisco Xavier, um jesuíta, consideraram Ormuz uma Babel, portanto, muitas línguas a serem faladas, mas também muita gente dada àquilo que os missionários descreveram como vícios e abominações. Deixo para a imaginação.
Era próprio das cidades costeiras.
E sobretudo estas cidades cosmopolitas, com muita gente, muita gente de passagem, e portanto, onde as pessoas podiam permitir comportar-se de uma maneira diferente daquela que se comportavam em casa. Ormuz não era desconhecido na Europa, mesmo no fim do século XV, conhecia-se, sabia-se que existia lá, até porque tinham lá os italianos que vinham de lá notícias. Um sítio de grande riqueza, para dar a ideia. E de facto era, era um dos interpostos comerciais mais ricos do mundo de então e rapidamente se tornou um objetivo dos portugueses na Índia. Os portugueses estavam na Índia desde... Tinham chegado em 1498 com Vasco da Gama, chegado à Calicute. Nos anos seguintes, há uma sucessão de armadas portuguesas que chegam anualmente à Índia. E o objetivo Aquilo que eles vão fazer não é apenas, como nós aprendemos na escola, dominar o comércio das especiarias entre a Índia e a Europa, através da rota do Cabo, mas é também dominar o comércio entre as várias regiões da Ásia, que é financeiramente extremamente importante. E portanto, eles também tentam dominar esse comércio. O comércio local. Sim, aquilo que nós podemos chamar o comércio local ou o comércio que não é pra Europa. Não é bem comércio local, porque é um comércio que vai, por exemplo, de Ormuz, uma parte do comércio da Índia passa por Ormuz e vai para o Irã e vai também para a Síria e para o Mediterrâneo. Não é simplesmente um comércio local. E como é que se pode fazer isso? Como é que os portugueses podiam fazer isto? Isto é, tentar dominar o comércio no Oceano Índico, basicamente. No fim do século XV, princípio do século XVI, quando os portugueses chegam ao Índico, o Oriente, esta zona que rodeia o Índico, está a ser dominada por grandes impérios terrestres, que são os Mogóis, na Índia, já falámos aqui deles há uns tempos, os Safávidas no Irão, os Mamelucos no Egito e os Otomanos na Síria e no que é hoje o Iraque. Aliás, os Otomanos depois vão acabar por conquistar também o Egito em 1517. Estes são aqueles os impérios da pólvora, isto é, que usam artilharia e armas de fogo para se imporem. Mas esses impérios, com exceção dos Mamelucos, não tinham marinhas, não tinham armadas. E mesmo os Mamelucos do Egito, que tinham a capital no Cairo, tinham uma armada, mas essa armada é destruída, no caso do Índico, em 1509 por Dom Francisco de Almeida, na Batalha de Dio. Basicamente, os portugueses quando chegam lá vão encontrar esses grandes impérios a constituir-se em terra, mas que não têm projeção marítima. O comércio no Índico é feito por privados, por comerciantes privados, e portanto, os portugueses não têm o risco de enfrentar grandes potências navais no Índico. E acontecia ainda outra coisa: os estreitos que davam acesso ao Índico, por exemplo, Ormuz, no Golfo Pérsico, Áden, no Mar Vermelho e depois Malaca, que dá o nome ao estreito que dá acesso ao Oceano Pacífico, do Índico para o Pacífico. Estes estreitos estão, e aqui vou seguir a descrição que é feita pelo Sanjay Subramanian no seu livro "The Portuguese Empire in Asia", estes estreitos estão controlados por pequenos estados independentes. Ormuz, Áden, Malaca, são pequenos estados independentes, são estados que vivem das alfândegas, mas também não têm grandes armadas, não são a Holanda, por exemplo, na Europa. Era possível aos portugueses, atacando ou tentando controlar estes pequenos estados nos estreitos, no princípio do século XVI, apoderarem-se das entradas e das saídas, que são as entradas e as saídas do Oceano Índico. E sem ter que enfrentar exércitos poderosos. Sem enfrentar grandes armadas. Também não havia gente pra isso. Grandes armadas, como por exemplo, teriam de enfrentar se por acaso tivessem a entrar pelo Mediterrâneo. E no Mediterrâneo tinha a armada otomana, espanhola, das repúblicas italianas, a francesa, quer dizer, grandes armadas. Ali no Índico não há isso. Por que eles têm de recorrer à força e não se limitam simplesmente a ser competitivos em termos comerciais? Em grande medida porque o comércio não é feito de uma maneira pacífica, como nós imaginamos hoje. Isto é, a maior parte dos comerciantes são também piratas e os barcos que se dedicam ao comércio estão armados para se poder dedicar também à pirataria, isto é, quando têm a possibilidade de capturar um barco ao lado, capturam. Era necessário recorrer à força e os portugueses recorrem à força como localmente estes comerciantes também recorriam quando achavam necessário. Eu estou a descrever aqui uma visão comercial da entrada portuguesa no Oceano Índico, mas como o Luiz Felipe Tomás tem chamado a atenção para o caso do rei Dom Manuel, Dom Manuel não concebia aquilo como uma empresa comercial, mas como a tentativa de estabelecer bases para uma política imperial que visava a eventual libertação de Jerusalém, que era o grande objetivo do rei. O rei, no princípio do século XVI, não queria ser apenas um mercieiro, um rei das especiarias. Queria ter a glória de conseguir fazer aquilo que os cruzados na Idade Média não tinham conseguido fazer, que era libertar definitivamente Jerusalém. É isso que ele quer e portanto ele pensa que está a estabelecer ali na Índia as bases necessárias para poder atacar Jerusalém, não através do Mediterrâneo, como tinham feito os cruzados Nos séculos XII, XIII, mas através do Mar Vermelho e entrar por ali para Jerusalém. Era uma cruzada, basicamente, a maneira como Dom Manuel imaginava a presença portuguesa no Índico. Nem todos os seus conselheiros concebiam assim. Aliás, havia uma forte facção que achava que era apenas uma empresa comercial e só interessaria se desse rendimento, se não era pra detonar, o rei não tinha essas ideias.
E Afonso de Albuquerque, onde é que estava nisso?
Afonso de Albuquerque está mais próximo do rei. Ele é enviado pra Índia como comandante das armadas da Pérsia e da Arábia, que era o nome que aquilo tinha em 1506, precisamente pra tentar impor a visão do rei contra a visão de outros, como por exemplo, Dom Francisco de Almeida, que não partilha as ideias do rei. Ele depois vai se tornar governador da Índia mais tarde e vai começar a fazer aquilo que é uma espécie de execução deste plano de dominar o Índico. Em 1507, ele com cinco naus e umas centenas de homens, conquista Mascate no atual Omã, na Península Arábica. Mascate é uma dependência do reino de Ormuz, do sultão de Ormuz. E a partir de Mascate, depois ele vai atacar Ormuz. Ele ataca Ormuz, isto não é bem uma conquista. Ele chega lá e tenta impor só ao rei de Ormuz um tratado, isto é, exige que o rei de Ormuz passe a pagar um tributo ao rei de Portugal. O rei de Ormuz já pagava um tributo ao Xá da Pérsia, aparecia agora mais uns tipos ali a dizerem pra pagar também, ok, paga-se a estes. Mas também construir uma fortaleza. E aqui provavelmente Afonso de Albuquerque está até a exorbitar um bocadinho das instruções que tinha. Já está a fazer um pouco mais do que isso. A fortaleza vai ser depois completada em 1515, é a tal fortaleza portuguesa estabelecida em Ormuz. O resultado destas expedições, a começar por Afonso de Albuquerque, é o estabelecimento de uma rede de feitorias e de fortalezas portuguesas. Feitorias são entrepostos de comércio e fortalezas portuguesas no Índico, Ormuz em 1507, depois Goa em 1510, Malaca também é conquistada em 1511, controlam o Oceano Índico, os portugueses dominam a rota do Cabo, os estreitos de Ormuz e de Malaca e só falham em Áden, na entrada do Mar Vermelho, tentam conquistar em 1513, não conseguem. Aquilo continua a ser um reino independente e depois mais tarde vai ser conquistado pelos otomanos. Só pra dar uma ideia da importância de Ormuz em 1525, das seis grandes naus, das naus maiores, os barcos maiores que os portugueses têm no Índico, três estão em Ormuz. Agora só por curiosidade, o total da frota real, da frota do rei de Portugal em 1525 no Índico, são seis naus, barcos muito grandes, 11 galeões, cinco galeras, quatro galiotas e depois outros 47 barcos mais pequenos. Os barcos mais pequenos eram muito importantes pras guerras na costa e nos estuários dos rios e nos rios. Eram quase tão importantes como os grandes barcos. Agora os grandes barcos não tinham praticamente nada que lhes fizesse frente no Índico. Estes grandes barcos, que eram plataformas de artilharia, o resto da navegação no Índico não havia... no Oriente só os grandes juncos chineses é que tinham capacidade pra enfrentar uma nau portuguesa. E aliás, enfrentaram-nos e por isso é que os portugueses não puderam aproximar-se demasiado da China durante algum tempo. Agora, isso não foi apenas uma empresa portuguesa, não foi os portugueses que chegaram lá e sozinhos fizeram. Por exemplo, o rei de Ormuz, que é um árabe, está extremamente interessado nas conquistas dos portugueses. Ele torna-se imediatamente um vassalo a um aliado dos portugueses. Em 1521, ele vai usar forças portuguesas para conquistar o Bahrain no Golfo Pérsico. O rei de Ormuz era sunita, o Bahrain era xiita e é com o apoio dos portugueses que ele conquista o Bahrain. E os portugueses têm uma relação com o rei de Ormuz que dividem com ele metade do rendimento da alfândega de Ormuz, respeitam os muçulmanos em Ormuz, as mesquitas em Ormuz continuam todas livres. E de fato, sem estas alianças com poderes locais, como o rei de Ormuz, teria sido impossível aos portugueses terem conseguido este domínio tão rapidamente no princípio do século XVI no Índico. É sempre em aliança com poderes locais que veem nos portugueses a oportunidade de repente terem forças pra enfrentar os seus rivais.
Muito bem, chegamos ao final desta primeira parte. Nós voltamos já a seguir. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História." Nós estamos a falar do Estreito de Ormuz e de como ele, durante cerca de 100 anos, foi de português. Português, se calhar, é um bocado exagerado. Foi dominado pelos portugueses.
Sim, foi muito português. Eu falei das armadas, mas as armadas não são o único alicerce do poder português no Índico. Tem também um grande impacto a arquitetura militar portuguesa. As fortalezas que os portugueses constroem são fortalezas de pedra, não são fortalezas de adobe, como era costume local, são fortalezas de pedra.
O que é o adobe?
É uma espécie de terra praticamente batida com cal, e depois fazem uma coisa mais ou menos resistente, mas não resistentemente resistente e não como a pedra. As fortalezas de pedra são fortalezas de pedra com artilharia, o que lhe permite resistir a cercos durante bastante tempo, e também são uma das bases deste poder português. Frequentemente estas fortalezas são cercadas e muito poucas caíram durante o século XVI. Os locais não têm meios de conquistar estas fortalezas dotadas de artilharia e em pedra, não são tão fáceis de demolir como muros de adobe. O português no Golfo, mesmo no Golfo Pérsico é grande, as suas bases aí são Mascate, no atual sultanato de Omã, são Mascate, Ormuz e também um porto no atual Iraque, que os portugueses chamavam Basora, Basra. É um domínio bastante impressionante.
Mas com muito pouca gente, não é?
Com alguma gente. O objetivo não é interromper a circulação, isto é, não é interromper o comércio, mas é sujeitá-lo às alfândegas e às autorizações portuguesas. Isto é, os comerciantes locais para navegarem no Índico precisam ter uma autorização, um cartaz, como se chamava, um cartaz português, pagar um imposto para poderem circular. Como diz o Fernand Braudel, que também escreveu sobre este aspecto do domínio português no seu livro "O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico no tempo de Filipe II", os portugueses fizeram o império pagar o império, para não terem lá déficit. Mas os portugueses mantêm os regimes fiscais existentes. Por exemplo, em Ormuz, as especiarias pagam de imposto 16% sobre o valor, como pagavam antes. No caso de Ormuz, eles mantêm a circulação de especiarias, que são especiarias que vão, sobretudo, pro Médio Oriente e não fazem concorrência às especiarias portuguesas no mercado europeu. Uma parte deste comércio está já na mão de portugueses, isto é, de portugueses que se estabeleceram lá, um décimo do comércio em 1541 é português, são portugueses que pagam os impostos nas alfândegas, são eles que fazem o comércio, o resto são persas, árabes, indianos. Em 1600, os residentes de Ormuz, os portugueses residentes de Ormuz, quer dizer, aqueles que se estabeleceram lá e que são, como se dizia na época, casados lá, são cerca de 200. Para darmos uma ideia, em Goa são cerca de 800.
É pouca gente, não é?
Estes números podem ser enganadores, porque nós estamos a falar de portugueses e às vezes não se percebe. Nós estamos a falar das famílias deles, de todos aqueles que são portugueses. Há portugueses europeus, há portugueses que já são nativos da Índia, há muitos outros que são descendentes de portugueses, há outros que são identificados como portugueses porque são católicos, são cristãos, mas provavelmente são gente local. Estes números podem não dar uma ideia exata da dimensão da presença portuguesa. Reparem, esses residentes não estão a contar com os portugueses europeus que lá estão, por exemplo, os soldados, os administradores portugueses que lá estão. Isto são aqueles que pura e simplesmente foram viver para lá e estão a viver lá. A posição de Ormuz é muito rendosa, aquilo é um ponto muito rico. Nós sabemos que o capitão de Ormuz, que é a autoridade que representa o rei de Portugal em Ormuz, nós sabemos que ele podia ganhar em três anos, em presentes, prebendas, isto é uma forma talvez próxima da corrupção. Podia ganhar 10 vezes o seu salário oficial. Ele ganhava cerca de dois contos, dois milhões de reais, que eram pagos oficialmente, mas ele podia ganhar 10 vezes o seu salário oficial através destes outros rendimentos. E isso queria dizer que ele tinha um rendimento igual ao do vice-rei da Índia, ao rendimento oficial do vice-rei da Índia. É verdade que depois o vice-rei da Índia também multiplicava.
Vinha fazer o mesmo.
E sabemos também outra coisa, em 1614, o rei de Portugal, que nesta altura é o rei de Espanha também, começou a vender estes lugares. Os lugares de capitães na Índia eram vendidos.
Vendidos a pessoas interessadas.
Vendidos a particulares que diziam: "Sim, senhor, eu quero ser capitão em Ormuz, pago." Isto era uma maneira do rei obter logo à cabeça o rendimento e depois o rendimento que o capitão conseguisse, uma parte era para ele. E nós sabemos, em 1614, a capitania de Ormuz era a mais cara de todo o estado da Índia. Era a que tinha maior rendimento, era a mais valiosa e era aquela em que quem comprou a capitania de Ormuz teve de pagar.
Era o rossio no monopólio do oriente.
Não, era uma posição extraordinariamente valiosa, mesmo para estes capitães e obviamente para os mercadores e companhia que lá se instalavam. Nesta campanha para dominar o Índico, os portugueses têm dois grandes inimigos, que são os dois grandes impérios da pólvora, que acabam por se consolidar no princípio do século XVI. São os otomanos, que em 1517 conquistam o Egito mameluco e também começam a chegar ao Iraque, a partir da Síria começam a chegar ao Iraque, e os safávidas da Pérsia, que nós chamávamos Pérsia, e era o Irão. O que é que acontecia? Bem, como já disse, nem os otomanos, nem os safávidas tinham armadas capazes de enfrentar os portugueses. Os otomanos de vez em quando ainda conseguiam arranjar uns barcos, ainda faziam lá umas coisas, mas os safávidas, não. E além disso, otomanos E safávidas, isto para facilitar hoje, basicamente otomanos turcos, safávidas iranianos, estão em guerra entre si no século XVI. Até por motivos teológicos e culturais, os otomanos são turcos e são sunitas, e os safávidas são persas e iranianos e xiitas. Portanto, sobretudo a partir da década de 1530, entram em guerra entre si no atual Iraque. Há um confronto dos dois impérios, que se encontram e entram em guerra. É uma guerra que vai durar dezenas de anos e os portugueses obviamente vão beneficiar disso. Os portugueses, logo em 1507, em Ormuz, encontraram os delegados dos safávidas. O rei de Ormuz era vassalo dos safávidas. De repente chegam os portugueses, eles chegam lá e dizem: "O que vocês estão aqui a fazer?" E eles dizem: "Não, nós agora somos os que mandamos." "Ah, mandam? Então têm que pagar tributo ao xá do Irão, também têm que pagar tributo como pagavam o rei de Ormuz, agora pagam vocês." E os portugueses dizem: "Não, nós somos completamente diferentes." Eu aqui vou seguir um artigo muito interessante do João Theles e Cunha, publicado na Encyclopedia Iranica, de 2009. E as relações são muito interessantes, porque os portugueses dos muçulmanos só conheciam os sunitas, quer na Península Ibérica, quer em Marrocos. Eram esses que eles conheciam. E é aqui, em Ormuz, que vão encontrar os xiitas. Eles ao princípio não percebem o que são os xiitas e pensam até que não são muçulmanos, que são uma religião diferente, que não são seguidores do profeta, mas de Ali. Eles não identificam bem e pensam que são uma religião diferente. Os safávidas, por outro lado, pensam que os portugueses são apenas piratas. "Chegaram aqui um bando de piratas e que estão aqui." Mas depois começam-se a aperceber do poder naval dos portugueses e do interesse que podiam ter como aliados contra os otomanos. E aí se estabelece uma relação, que é uma relação também consolidada pelo Papa. O Papa escreve ao Xá do Irão para se aliar aos portugueses contra os otomanos. Os próprios venezianos, nessa altura, também têm umas guerras com os otomanos, também tentam que o Xá do Irão perceba que os portugueses podem ser interessantes para combater os otomanos. E curiosamente, no princípio do século XVI, há uma espécie de confluência de interesses messiânicos. Porque o Dom Manuel, como eu já disse, gostava de libertar Jerusalém, mas o Xá do Irão, o Xá Ismael I, também gostava de libertar Meca, de apoderar-se da cidade santa na península arábica, Meca. E em 1515, o Afonso de Albuquerque propõe ao Xá uma aliança, aliás, nessa altura ainda não é contra os otomanos, ainda é contra os mamelucos, porque os otomanos só conquistam o Egito em 1517. Em 1515, dois anos antes, ainda são os mamelucos, em que os portugueses e os xiitas iranianos se aliariam para conquistar os lugares santos e depois fariam uma partilha. Os portugueses ficariam com Jerusalém e os iranianos ficavam com Meca e assim é que ficava dividido.
Mas esse plano nunca foi para a frente.
Não, nunca foi para a frente. De facto, eram também planos de uma grande megalomania, porque não havia recursos portugueses para conquistar Jerusalém. Para os safávidas, Ormuz torna-se ainda mais importante em meados do século XVI, quando os otomanos conquistam Bassorá e Ormuz torna-se, de repente, o único grande porto que o Irão tem para o comércio. Agora os safávidas vão sempre insistir com os portugueses para os portugueses lhes pagarem tributo por Ormuz. Isto é, eles estão lá, estão aliados ao rei de Ormuz, o rei de Ormuz pagava e eles também têm que pagar.
E os portugueses continuaram a dizer que não.
E os portugueses sempre a dizer que não e portanto, há ali muitos conflitos e até o princípio do século XVII, quando os safávidas finalmente perdem a paciência. Por outro lado Têm uma coisa que não tinham até então, que é de repente têm aliados contra os portugueses. E esses aliados são os outros europeus que estão a chegar ao Índico a partir do fim do século XVI e sobretudo depois no princípio do século XVII, são os holandeses e os ingleses. E são os ingleses que vão estabelecer uma aliança com os Safávidas em 1615 e é essa aliança que vai permitir aos Safávidas recuperar Ormuz. Ormuz não era fácil de defender. Ormuz é uma ilha que dependia completamente do abastecimento externo, até em água doce. Portanto, a água doce tinha de ser transportada para lá. Depois também o regime de monções no Índico dificultava as comunicações entre a Índia e o Golfo Pérsico. Portanto, de repente Ormuz estava a ser atacada e da Índia não se podia mandar reforços se se estava numa época de monções, não era possível uma armada atravessar o Índico e portanto os portugueses vão perder a fortaleza de Ormuz em 1622, ao fim de 115 anos de domínio, pela aliança, isto é, porque uma armada inglesa apoia os iranianos na conquista de Ormuz. Mas os portugueses não vão desistir. Eles ainda têm muitas bases nesta altura na região, têm Mascate e a costa do Omã. E entretanto também fizeram uma aliança com um paxá árabe de Bassorá, no Iraque, que tinha sido vassalo dos otomanos, mas entretanto tinha-se tornado independente e procurou a aliança portuguesa pra se manter independente. Portanto, os portugueses continuam a ter uma importância, mesmo depois de perderem Ormuz, têm uma importância muito grande no Golfo Pérsico e é a partir dessas bases que tentam, aliás, reconquistar Ormuz. Em 1625, há uma armada portuguesa que faz um cerco a Ormuz para reconquistar Ormuz, três anos depois de ter sido perdida. E é então que em 11 de fevereiro de 1625 acontece aquela que alguns historiadores descrevem como a maior batalha naval no Golfo Pérsico, entre uma esquadra portuguesa e uma esquadra de ingleses e holandeses aliados aos persas. Há oito grandes navios de cada lado, é uma batalha de artilharia, dois dias de artilharia. O resultado é uma espécie de empate. Ninguém consegue afundar um barco do adversário. Há cerca de 130 mortos do lado português, 74 do lado inglês e holandês. E o empate de alguma maneira serviu mais ou menos pros dois lados. Quer dizer, foi por um lado uma demonstração de força portuguesa, o que fez o xá do Irão acabar por fazer um tratado com os portugueses e autorizar os portugueses a ter bases comerciais no Irão. Isto é, ele percebeu: "Tenho Ormuz, mas não estou livre destes portugueses, eles ainda continuam por aqui." Mas por outro lado, o empate também mostrou que os portugueses já não eram capazes, como no século XVI, de impedir a circulação de outras potências navais, e essas outras potências navais eram a Holanda e a Inglaterra.
E aos poucos as bases foram caindo.
Muito pouco, gradualmente. Não é uma coisa de repente, até porque os ingleses, a partir de determinada altura sentem-se tão ameaçados também pelos holandeses, que fazem uma aliança com os portugueses em 1635, há um pacto com os portugueses. E são os holandeses, sobretudo, que se dedicam a desalojar os portugueses e aquilo que eles conseguem com um impacto maior é em 1641, quando conquistam Malaca. Portanto, de repente, Portugal perdeu o controle dos estreitos, como tinha tido no século XVI. Isto é, os holandeses fazem basicamente o que os portugueses tinham feito no século XVI, 100 anos antes. A história de Ormuz depois dos portugueses, o que é que aconteceu a Ormuz? Bem, a história de Ormuz não é nada feliz depois dos portugueses, isto é, a sua história mais feliz é quando os portugueses lá estão. Por quê? Porque o xá do Irão ou da Pérsia, vamos chamar ele do Irão, que é como eles chamam, Pérsia é como nós lhes chamávamos. O xá do Irão, que é o xá Abbas I, sacrificou Ormuz a um outro porto, que é um porto na costa, que é o porto Bandar Abbas, que quer dizer o porto de Abbas, quer dizer, o porto dele. Que é um porto que ele acha que pode controlar melhor do que a ilha de Ormuz e que se vai tornar o principal porto comercial. Aliás, hoje Bandar Abbas é a principal base da Marinha iraniana. Ormuz hoje é uma ilha completamente abandonada e a única coisa que lá existe de relevo é as ruínas do forte português. Mas continuando a história de Ormuz. Ormuz ainda se vai tornar, aliás, com Bandar Abbas também, parte outra vez do sultanato de Omã, que acaba por, no fim já do século XVIII, tomar de arrendamento ao xá do Irão estas, que já não são Safávidas, aliás, esta Ormuz e Bandar Abbas. E aqui é contar só um bocadinho da história do sultanato de Omã. Este sultanato de Omã, na península arábica, com capital em Mascate, tinha sido um aliado a um vassalo dos portugueses até 1656. E depois, em meados do século XVII, com a dinastia dos Yarubides, torna-se independente, expulsa os portugueses. E depois é muito curioso, aquilo que eles fazem, os novos sultões de Omã, é copiar os portugueses, é tentar substituir basicamente os portugueses. Isto é, eles tentam também tornar-se um poder naval Que os Safávidas, por exemplo, não eram. Este sultanato de Omã tenta tornar-se um poder naval e tenta ocupar. Enquanto os holandeses e ingleses já nesta época deixam os portugueses em paz, aliás, já não têm a importância que os portugueses têm nas bases, este sultanato local de Omã percebe que são eles que tentam expulsar os portugueses do Índico e ocupar as suas posições, tornando-se um pequenino poder naval no Índico. Eles atacam especialmente os portugueses em África, onde conquistam Mombasa e Zanzibar em 1698. Depois na Índia, tentam conquistar também a Índia, aí não conseguem conquistar Goa. Mas em Goa, por exemplo, as autoridades portuguesas pensam em determinada altura, em 1716, numa aliança com o Xá do Irão contra o sultão de Omã, porque o sultão de Omã também entretanto tinha-se tornado uma espécie de ameaça para o próprio Irão. Ou seja, a tendência na região era para constituir impérios marítimos como os portugueses tinham feito no fim do século XV e princípio do século XVI. E quando eles deixaram de fazer, os locais, como os sultões de Omã, começaram a fazer, usando também recursos militares, isto é, tentando desalojar os adversários, tentando ocupar. E depois, claro, nós temos aquela lenda negra que diz que o mal nestas regiões foi introduzido pelos europeus e que antes dos europeus eram todos amigos uns dos outros, davam-se todos muito bem, eram todos amiguinhos.
E não é verdade.
Isso tudo é uma grande mentira que nós nos contamos a nós próprios para imaginarmos que depois de não termos conseguido ter imposto o bem no mundo, éramos aqueles que impuseram o mal. Mas é curioso ver o que é que o sultanato de Omã faz quando expulsa os portugueses de África. O que é que eles fazem? A partir de 1698, Zanzibar, sob o governo de Omã, torna-se um dos maiores centros de tráfico de escravos da África Oriental para o Médio Oriente. Vai continuar assim até meados do século XIX. Em 1850 ainda se calculam que passam por Zanzibar cerca de 50 mil escravos por ano. É um comércio de escravos tremendo, que só foram os ingleses, já na segunda metade do século XIX, que põem termo a este comércio de escravos. Isto é importante para desmistificar a lenda negra do caráter único do imperialismo europeu. Não, o imperialismo europeu era parecido com o imperialismo local. O sultanato de Omã fazia exatamente aquilo que os portugueses fazem a partir da segunda metade do século XVII, aquilo que os portugueses tinham feito no século XVI e os holandeses e depois os ingleses no princípio do século XVII. E depois os comércios a que se dedicam, o sultanato de Omã é uma potência esclavagista no Índico. Aquilo que mais caracteriza a presença portuguesa no Índico, ou que a torna uma história singular, é de facto a capacidade de projeção à distância de um pequeno reino europeu, que se torna uma potência dominante no Índico durante quase um século, o que é de facto uma história verdadeiramente espantosa.
Sim, muito bem. E assim termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.
E o resto é história. É apenas fumaça do incêndio que lá ainda na zona do Chiado. Aqui podemos ver os bombeiros a sair dentro das casas incendiadas. Quer transformar este país numa ditadura. Amianta, amianta.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.