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E o resto é história.
É a terra a fumar.
Do incêndio e de lava ainda na zona dos teatros. Falo por gosto. Falo por gosto. Ai, vinho vermelho, que ao meu corpo fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entendem? Entendem? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo a mais este episódio de "E o Resto é História" com Rui Ramos e João Miguel Tavares. No dia 26 de abril de 1986, fez há pouco 40 anos, o reator número 4 da central nuclear de Chernobyl, situado na Ucrânia, mas que na altura era União Soviética, explodiu, dando origem àquele que é considerado o maior acidente nuclear da história até os dias de hoje, tanto pelo seu impacto ambiental como também pelo seu impacto em vidas humanas. Grandes quantidades de material radioativo espalharam-se pela Europa. Houve várias dezenas de mortes trágicas entre trabalhadores e bombeiros, houve evacuações em massa e houve uma vasta área contaminada que, na verdade, dura até hoje. Houve também muita ocultação num primeiro momento, até Moscovo perceber que já não era possível ocultar mais, tal a dimensão do desastre e da nuvem radioativa. Terão morrido cerca de 50 pessoas em consequência direta do acidente, mas talvez 4 mil de forma indireta, devido à radiação e também às doenças cancerígenas que ela provoca. No distante ano de 2023, quem manda perguntas para historia@observador.pt já sabe, nunca perca a esperança de um dia vir a ser atendido. Portanto, esta pergunta é de 2023. O ouvinte Bruno Filipe tinha nos enviado esta questão sobre Chernobyl. E hoje chegou finalmente o dia de lhe responder. E a pergunta do Bruno é muito curtinha: "Gostava de vos ouvir falar sobre o desastre de Chernobyl e a forma como isso poderá ter ajudado ao fim da União Soviética." Bom, a pergunta é curtinha, mas tem realmente tudo o que é essencial, Rui, porque eu penso que não és físico atômico, segundo ouvi dizer, não é?
Não, ainda não.
Ainda não és, estás ainda nos primeiros anos. E, portanto, não estamos à espera que analises, não te assustes, os motivos técnicos da explosão ou a qualidade do sarcófago, que ainda hoje envolve o reator número 4. Portanto, aquilo que nos interessa mesmo é a questão política. Que importância é que teve o desastre de Chernobyl na desagregação do Império Soviético? É que fala-se muito nisso, não é? Mas eu gostava de saber a tua opinião sobre se o impacto foi real ou se achas que essa é uma tese exagerada.
Este é um daqueles casos em que o impacto do acontecimento se deve totalmente ao contexto. Nós sabemos que uma andorinha não faz a primavera e podemos ter quase certeza que um desastre nuclear só por si não derrubaria uma ditadura com cerca de 70 anos na altura. E podemos até imaginar que se o desastre de Chernobyl tivesse acontecido, digamos, no tempo de Stalin, portanto antes de 1953, ou mesmo no tempo do sucessor de Stalin, Khrushchev, na transição dos anos 50 para os anos 60, muito provavelmente a União Soviética teria resistido, até porque no tempo de Stalin, provavelmente nunca ninguém teria sabido que tinha havido um desastre nuclear. Mas enfim, já vamos falar disso. Bem, eu acho que em 1986 há outros dois fatores em jogo que potenciam os efeitos políticos do desastre nuclear. Um desses fatores é uma sucessão de fracassos tecnológicos, econômicos, que de certa maneira tinham convencido as elites da ditadura comunista que precisavam de fazer grandes mudanças para sobreviver. E o outro fator era, dava-se o caso de existir já na União Soviética um líder novo que estava determinado em fazer essas mudanças. Portanto, esses dois fatores, digamos, que são aqueles-
Mikhail Gorbatchov.
Mikhail Gorbatchov. São os dois fatores que vão dar ao desastre da central nuclear de Chernobyl um alcance político que talvez noutro contexto que não este, não teria tido.
Bom, mas então admites, de qualquer forma, que naquele contexto foi muito importante.
Naquele contexto tem. E vamos tentar explicar qual. Bem, mas vamos começar pelo primeiro fator só para recriar o contexto. Estamos em 1986, se recuarmos seis anos antes pra 1980, muito pouca gente em 1980 diria que a União Soviética não estava para durar. Havia muita gente que ainda se lembrava do Sputnik, do fato de os soviéticos terem colocado um satélite em órbita antes dos americanos, em 1957. Parecia que eles tinham capacidade tecnológica para de vez em quando estar um passo à frente dos Estados Unidos. É verdade que depois tinham sido os Estados Unidos a levar um homem à Lua, mas ainda muita gente se lembrava desse choque da tecnologia soviética do fim dos anos 50. Tinha havido uma guerra no Médio Oriente, a guerra de outubro de 1973, sobretudo entre o Egito e Israel. E durante essa guerra, a tecnologia militar soviética tinha parecido capaz de fazer frente à tecnologia americana. Sobretudo, tinha havido o caso das baterias de mísseis antiaéreos que o Egito tinha usado contra Israel e que em três dias tinham abatido 50 aviões israelitas, uma coisa impressionante. Portanto, tinha se ficado com a ideia, em 1973: "Bem, a tecnologia militar soviética, de fato, é capaz de-"
É capaz de derrubar os aviões que eram americanos. Os aviões de fábrica americana em Israel.
Aviões israelitas de fábrica americana e francês. A União Soviética também parecia em expansão. Em 1979, tinha invadido o AfeganistãoReparem, numa época em que o Ocidente, os Estados Unidos e a Europa Ocidental, está a passar pelas crises do petróleo de 1973 e depois de 1980, com alta inflação, alto desemprego, falava-se muito da crise do capitalismo. Em 1980, parecia que a União Soviética estava a expandir-se, que tinha tecnologia, que todas as coisas estavam a correr bem e que, pelo contrário, eram os países ocidentais é que estavam em grandes dificuldades. As coisas mudaram, eu diria, quase radicalmente entre 1980 e 1986. Nós sabemos que uma semana é muito tempo em política e seis anos, então, é imenso tempo, às vezes, em História.
Mas houve algum choque tecnológico nessa época?
Já falámos aqui uma vez dele, já o mencionámos. No dia 9 de junho de 1982, às 14h, no Vale de Becaça, no Líbano, há uma batalha aérea entre as Forças Aéreas de Israel, com caças americanos, e da Síria, com caças soviéticos. E foi um enorme desastre para as armas soviéticas. Inverteu completamente tudo aquilo que se tinha visto em 73, em 10 anos as coisas inverteram-se. Os israelitas, em duas horas, destruíram todas as baterias de mísseis, 39 baterias de mísseis foram todas eliminadas pela Força Aérea israelita e ainda abateram 86 caças sírios de fabricação soviética, não perdendo um único avião. Isto é, houve aviões israelitas que abateram cinco ou seis caças.
86 a zero. No ar?
No ar. Eu diria que esta batalha de 9 de junho de 1982, no Vale de Becaça, é um dos momentos decisivos da História do século XX, porque tornou-se claro que a União Soviética tinha ficado muito para trás dos Estados Unidos em termos de tecnologia, sobretudo tecnologia eletrónica, que foi a decisiva já nesta batalha de computadores, etc. O mesmo se estava a verificar no Afeganistão, a União Soviética tinha invadido o Afeganistão em 1979 e parecia que era um passeio para os soviéticos, iam ocupar o Afeganistão. O que acontece é que os Estados Unidos também começaram a fornecer à resistência afegã mísseis antiaéreos, que basicamente conseguiram limitar muito o uso da aviação e sobretudo dos helicópteros pelas forças soviéticas no Afeganistão e impediu-as de controlar o país. Mais, uma má notícia nunca vem só. Em 1983, o presidente Ronald Reagan, presidente americano, lançou o projeto da Iniciativa de Defesa Estratégica, que depois se chamou a Guerra das Estrelas, que visava basicamente construir uma defesa contra ataques de mísseis. Na prática, eliminar a capacidade que a União Soviética tinha de equilibrar os Estados Unidos com o seu armamento nuclear e os seus mísseis intercontinentais.
Que era em maior número também.
Basicamente, a União Soviética deixava ter uma arma de equilíbrio com os Estados Unidos e deixaria de ser uma superpotência com este programa. Este programa nunca foi levado a cabo, mas em 1983, muita gente o considerou uma ficção, mas muita gente também, pelo que tinha visto nos anos imediatamente anteriores, pensou: "Bem, os americanos vão conseguir fazer isto". Isso também abalou imenso as elites soviéticas, porque em meados da década de 80 estava a ficar claro que a União Soviética estava a perder a Guerra Fria. E muitos líderes soviéticos perceberam que essa derrota tinha raízes num sistema econômico estatista, completamente dominado pelo Estado, que não conseguia tirar partido dos recursos, quer os recursos humanos, quer recursos materiais, como o sistema de economia de mercado dos Estados Unidos, que era muito mais eficaz a tirar partido dos recursos. Por exemplo, um caso impressionante, que é a Ucrânia. Hoje, a Ucrânia, mesmo em guerra, é um dos celeiros do mundo, exporta cereais. Há 40 anos, a União Soviética, para alimentar a sua população, tinha de importar cereais dos Estados Unidos. Isso é uma coisa impressionante, quer dizer, as mesmas terras. A economia soviética não conseguia tirar o mesmo partido que uma economia de mercado consegue tirar dos mesmos recursos. Além disso, para pagar essas importações de cereais, os soviéticos tinham de exportar e exportavam energia, petróleo e coisas assim. E o que acontecia também em meados dos anos 80 é que os preços do petróleo estavam a cair. Os soviéticos estavam também a ficar com cada vez menos recursos para pagar as importações que tinham de fazer. As coisas estavam a correr muito mal para os soviéticos. Havia a ideia de que as coisas estão mal e ainda vão ficar pior. Há um momento, por exemplo, que está registado e que é clássico, que é agosto de 1985, o chefe do departamento de propaganda do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, um senhor chamado Alexander Yakovlev, que tinha sido embaixador no Canadá e numa reunião ele é extremamente violento. Ele diz: "A União Soviética está cada vez mais fracaE no ano 2000 vamos ser uma potência de segunda categoria. E isto era uma coisa que a elite soviética tinha percebido em meados da década de 80. Isto é, cada vez mais fracos, destinados a tornar-se uma potência de segunda categoria no prazo de 20 e poucos anos.
E é por isso que Mikhail Gorbatchov chega ao poder.
E essa é uma das razões que em março de 1985, depois de uma sucessão de líderes idosos, que morriam uns atrás dos outros. Isso aí era uma coisa contingente, mas que deu também um sinal do estado da União Soviética no princípio da década de 80. Isto é, eles só tinham líderes muito velhos, era a gerontocracia soviética, e estavam a morrer uns atrás dos outros. Brezhnev, Andropov, Chernenko, eles elegiam um primeiro líder e não só morriam, mas o tempo em que tinham estado no poder, dois anos, um ano, estavam geralmente doentes ou em coma. Quer dizer, isso dava uma ideia do impasse soviético. E de repente, há, em março de 1985, uma escolha inesperada, os líderes soviéticos escolhem um jovem, ou relativamente jovem, Mikhail Gorbatchov, 54 anos.
Obrigado, Rui. Eu vou fazer 53 este ano, ainda bem que-
Se fizesses parte da elite soviética, serias um jovem.
Muito bem.
A nossa idade é sempre relativa e depende muito de onde é que estamos. Se estivesses na União Soviética em 1980, serias um adolescente, quase.
Obrigado. Fico em Portugal. Em 2026.
Não, acho que é melhor. Nós já falamos de Gorbatchov. Gorbatchov não quer acabar com o sistema comunista, mas queria recomeçar, queria fazer uma espécie de recomeço. Ele citava muito Lenin, ele é um leninista. Ele acha que é necessário, para o sistema durar, introduzir algum pluralismo, algum debate, alguma iniciativa privada também. E ele começa a criticar a elite estabelecida, o seu imobilismo, o seu secretismo. E contra essas tendências, ele avança com duas palavras russas que depois se tornaram muito famosas no Ocidente, basicamente era das poucas palavras russas que as pessoas fora da Rússia sabiam: perestroika, reforma, reestruturação, e glasnost, abertura, transparência. Gorbatchov entra em funções em março de 1985 e passado cerca de um ano, ele está a ficar cada vez mais ansioso com a dimensão dos problemas e a lentidão das respostas. E ele vai deixando em vários discursos avisos cada vez mais alarmistas para o que está a passar. Por exemplo, a 10 de março de 1986, ele diz: "O país está cheio de problemas e de desordem". A 12, dois dias depois, diz: "Se não cumprirmos o novo plano, tudo estará perdido". E a 20 de março, no Politburo, que era o órgão máximo de decisão na União Soviética, ele perde completamente a cabeça quando ele está a tentar dizer que é preciso deixar que alguma iniciativa privada funcionasse na agricultura, aparece logo lá um colega mais comunista do que ele a dizer: "Isso é péssima ideia, iniciativa privada". E Gorbatchov aparentemente perde a cabeça e diz a esse colega: "Mas o que você está a dizer? Não há nada pra comprar nas lojas e continuamos com medo que os indivíduos trabalhem por conta própria". Quer dizer, as lojas estão vazias. É neste contexto que eu creio que nós podemos perceber como é que o desastre de Chernobyl é interpretado não apenas como um acidente isolado, mas como um sinal da degradação da infraestrutura soviética e da necessidade de grandes mudanças.
Muito bem, nós vamos contar esta história na segunda parte. Até já. Olá, seja bem-vindo de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar dos 40 anos do acidente de Chernobyl e era para Chernobyl que nós estávamos a ir para o acidente propriamente dito.
Sim, e descrevemos o contexto em que este desastre de Chernobyl é interpretado não como um acidente isolado, um azar, mas como um sinal de degradação da infraestrutura soviética, por erros de conceção, isto é, de construção, por desleixo nos procedimentos, por falta de meios de investimento, por atraso tecnológico. Reparem que este não é um acidente como, por exemplo, o de Fukushima, da central nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011, que é um incidente também muito grave, mas é na sequência de um terramoto, de um tsunami. Aqui não, aqui estamos a falar de um acidente que resulta daquilo que era um teste que estava a ser feito, um teste de rotina. Era pra controlar, não sou técnico, mas aparentemente tratava-se de um teste feito pra controlar o comportamento do reator no caso de uma falha de refrigeração, é isso que eles estavam a testar e aí causa um desastre enorme, uma explosão. E depois também um outro aspecto deste acidente, é que o programa nuclear soviético era um dos casos em que o Estado soviético concentrava ali imensos recursos. Se faltavam recursos e se estava atrasado naquilo que era para os soviéticos um setor de ponta da sua investigação, estava à ideia do que estaria a acontecer nos outros setores. Um segundo ponto, a central nuclear, que ficava no que é hoje a Ucrânia, na altura era a República Socialista da Ucrânia, como parte da União Soviética, estava sob a alçada das autoridades centrais em Moscovo, não sob a alçada das autoridades locais na Ucrânia. E a primeira reação dessas autoridades, das autoridades que tutelam a central nuclear, éTentar esconder, tentar minimizar o que se está a passar, em conformidade com o sistema soviético, que é um sistema soviético em que tudo era segredo. Isto é, tudo é segredo de Estado, porque nada pode correr mal na pátria do socialismo, que é onde está o futuro da humanidade e, portanto, nada aí corre mal e quando alguma coisa corre mal, não corre, isto é, não aconteceu. Inicialmente, a notícia é apenas que se trata de um pequeno incêndio, entretanto extinto, tinha havido um fogacho. A cidade próxima, que é a cidade de Pripyat, não foi logo evacuada. Só no dia seguinte à tarde é que começam evacuações, primeiro apenas num raio de 10 km. Só 10 dias depois é que a área da evacuação é alargada para 30 km em redor do reator. Muito devagar. Há quem fale de 4 mil mortos, há quem diga que terão sido mais, porque às vezes também é difícil- Estimar as razões do que é causar morte ...relacionar mortes indiretas do acidente. Repare-se, no caso de Fukushima, no Japão, não há notícias, pelo menos de mortes por radiação, ao contrário de Chernobyl. Agora, este não era o primeiro acidente nuclear na União Soviética. O primeiro, um dos primeiros, um dos maiores, que tinha tido um grau seis na escala internacional de acidentes nucleares. Chernobyl é um grau sete, é o máximo de todos. É o grau mais elevado. É o grau mais elevado. O segundo grau seis também aconteceu na União Soviética, foi no reator de Mayak, nos Montes Urais, próximo da cidade Kyshtym, a 29 de setembro de 1957. Tratou-se da explosão de um tanque de lixo nuclear. É o segundo maior acidente nuclear da história depois do de Chernobyl, aliás, terceiro talvez, depois de Fukushima. No caso da União Soviética, é o segundo maior. O acidente é o resultado de defeitos na construção da central nuclear, por pressa, por desleixo. É uma central nuclear que tinha sido construída entre 1945 e 1948, tudo à pressa, tudo muito improvisado. Por exemplo, a estação nuclear vazava as águas contaminadas diretamente para os rios locais, não havia cuidado absolutamente nenhum. E o que é que aconteceu com este grande acidente da central nuclear de Mayak, nos Montes Urais, em 1957? Ninguém soube no mundo. Isto foi completamente abafado. A população local não foi informada. As evacuações só começaram 10 dias depois e as pessoas não foram informadas da razão pela qual estavam a ser evacuadas. Aparece a polícia, mete-as no que for e manda-as embora. E depois o governo soviético anunciou apenas que tinha criado uma nova reserva natural naquela zona. Aquilo era uma nova reserva natural e essas pessoas não podiam ter acesso àquela reserva natural. E só a imprensa ocidental começou a desconfiar que alguma coisa tinha acontecido ali e pensou-se que tinha sido o teste de uma arma nuclear, isto é, que os soviéticos tinham feito o teste de uma arma nuclear ali. Foi o que se pensou em 1958, 1959. Só em 1976, quase 20 anos depois, é que um dissidente soviético, que entretanto tinha fugido para o Ocidente, revelou a verdadeira história, isto é, que tinha havido um acidente nuclear e muito pouca gente acreditou. Toda a gente julgou: "Isso é propaganda anticomunista contra a União Soviética". Só em 1989, mais de 30 anos depois, é que as autoridades soviéticas finalmente confirmaram que tinham tido um acidente gigantesco em 1957. E sabe se provocou vítimas? De certeza que provocou imensas vítimas, não se sabe. Foi tudo apagado, foi tudo minorado, que nunca existiu. A ditadura soviética viveu sempre neste sistema de secretismo, de mentira, tudo era segredo de Estado, mesmo as coisas mais comezinhas. O que espantava muito os funcionários soviéticos quando às vezes liam a imprensa ocidental e não percebiam porque é que o governo dos Estados Unidos deixava publicar as estatísticas do desemprego. Isso na União Soviética era segredo. Há um espião soviético que depois fugiu para o Ocidente, salvo erro é o Oleg Gordievsky, que dizia que muitas vezes os espiões soviéticos no Ocidente limitavam-se pura e simplesmente a ler os jornais e a tirar as informações que estavam nos jornais e a mandar pra Moscovo, onde eram recebidas como grandes golpes de espionagem. Porque em Moscovo, como tudo era segredo, perceber que havia um déficit no orçamento, que havia problemas ali ou acolá, eles julgavam que tinha sido o espião incrivelmente infiltrado a tirar essa informação, porque na União Soviética nada daquilo nunca teria sido publicado. Bastava ler o New York Times. E bastava ler o New York Times ou o Washington Post ou uma coisa qualquer para saber. A 26 e 27 de abril de 1986, a primeira tendência do governo soviético é manter tudo secreto, esconder tudo. E é a Suécia, no dia 28 de abril, são as autoridades suecas que detetaramNíveis de radiação subitamente elevados e desconfiaram que alguma coisa tinha acontecido na União Soviética e o governo sueco contactou o governo soviético e disse: "O que se passa aí? Nós estamos a detectar isto." "Não se passa nada, não aconteceu absolutamente nada aqui." E o governo sueco diz: "Bem, há questão nisso? Então vamos fazer uma denúncia internacional a dizer que alguma coisa aconteceu e que vocês estão a esconder." E é por causa desta pressão do governo sueco que finalmente o governo soviético decide dizer qualquer coisa, porque está-se a perceber, isto está a ter uma dimensão muito maior. Na União Soviética, o acidente é finalmente noticiado na televisão, na noite de 28, já depois da pressão do governo sueco, dois dias depois. Mas mesmo assim, por exemplo, a agência de notícias soviética, a TASS, começou logo a comparar com um desastre numa central nuclear que tinha acontecido nos Estados Unidos sete anos antes, em 1979, o acidente de Three Mile Island, insinuando que esse desastre americano tinha sido muito pior, etc. Não era nada, o desastre americano tem um nível cinco, o desastre de Chernobyl tem um nível sete, é um desastre muitíssimo pior. E o contraste não podia ser maior, não apenas ao nível do acidente, mas ao nível da sua publicidade. Nos Estados Unidos, as notícias tinham sido imediatas, tinha sido discutido ali na União Soviética. Tudo tinha sido escondido, nada tinha sido publicado. Aliás, nas suas memórias, publicadas em 1996, o Mikhail Gorbatchev nota que houve dois níveis de secretismo. O primeiro nível de secretismo estava ao nível do Politburo, do órgão executivo do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, em que Gorbatchev teve que fazer pressão para haver notícias, porque havia muitos dos seus colegas no Politburo, da direção soviética, que não queriam que nada fosse admitido, mesmo depois da pressão do governo sueco. Disseram: "Não, vamos continuar a negar, a dizer que não aconteceu nada." Etc. Ele teve que fazer pressão para publicar, ao nível central, mas também havia um outro nível de secretismo a nível local, e que Gorbatchev cita esse nível de secretismo até para dizer que ele próprio, nos dias 26 e 27, não se tinha apercebido da dimensão do desastre. Isto é, a mentira no sistema comunista não era só elaborada em cima, mas era elaborada também embaixo. Por quê? Diz Gorbatchev: "Porque havia a todos os níveis", e vou citá-lo, "um medo de mostrar iniciativa, um terror da autoridade superior, um desejo de escapar a responsabilidades, que fazia com que o que estava mal não fosse reportado, que ninguém corrigisse as deficiências". A ideia era sempre: vamos fingir que não aconteceu nada, mesmo a níveis inferiores de tomadas de decisões, vamos fingir que não aconteceu nada para não sermos punidos de cima.
Exatamente, porque o nível de repressão era tão elevado que convidava também ao silêncio.
Sim, e segundo Gorbatchev, era este regime de secretismo que explicava, em primeiro lugar, por que o acidente tinha acontecido. Isto é, por que ninguém tinha reportado e tratado os problemas que se sabia existirem naquela central nuclear. E depois, explicar também por que havia a tal falta de notícias, uma falta de notícias que teve consequências gravíssimas. Porque ao esconder-se a dimensão do acidente, sujeitou centenas de milhares de pessoas a riscos de radiação. Por exemplo, as celebrações do dia 1º de maio, que davam-se na União Soviética, sempre grandes desfiles, concentrações, correram todas naquela região. Todas, quer dizer, com centenas de milhares de pessoas nas áreas afetadas pela radiação, sendo sujeitas à radiação. O próprio Gorbatchev denuncia isto nas suas memórias, mas o seu biógrafo, o William Taubman, no livro que escreveu sobre Gorbatchev, diz que o próprio Gorbatchev é ambíguo, também teve um comportamento ambíguo. Ele esteve duas semanas em silêncio, só falou sobre o desastre de Chernobyl na televisão a 14 de maio, esteve duas semanas sem falar, e nunca visitou a área afetada. E isto por quê? O William Taubman acho que não explica bem isto, mas da leitura do livro percebe-se. É que Chernobyl foi para Gorbatchev um pau de dois bicos. Por um lado, o acidente deu-lhe mais um argumento para atacar o culto do secretismo do sistema comunista e para justificar a política de glasnost, de abertura, de transparência, até em relação a um dos pilares da atitude comunista soviética, que era o programa nuclear. Deu-lhe um argumento para dizer: "Estão a ver como as coisas estão tão mal que está a acontecer isto". Mas, por outro lado, o acidente de Chernobyl teve um outro efeito sobre Gorbatchev. Deu-lhe a ideia que ele estava a perder o controle dos acontecimentos. Isto é, que o sistema estava a desmoronar-se muito mais rapidamente do que ele o podia reformar. Por quê? Porque os dissidentes, isto é, os críticos do sistema comunista que existiam ainda, sobretudo em Moscovo e Petrogrado, e que com Gorbatchev tinham começado a ter mais alguma tolerância do poder comunista, agarraram imediatamente no acidente, eles própriosPara criticar a ditadura comunista, para exigir ainda mais mudanças, enquanto o próprio Gorbatchev, ao dedicar tantos recursos à necessidade depois de acorrer ao acidente, ele próprio estava a ficar sem recursos para fazer outras mudanças. Aquilo tirou-lhe espaço, tirou-lhe tempo, tirou-lhe energia, tirou-lhe meios para fazer as reformas que queria, o ter depois de lidar com uma situação tão crítica como a de Chernobyl. Enfim, também tinha outras, como a guerra no Afeganistão. Portanto, Chernobyl funcionou como uma espécie de descrédito final da ditadura comunista, quer para os que estavam contra o regime, porque tinha acontecido, mas também para os que, como Gorbatchev, ainda queriam fazer reformas, porque julgavam que com as reformas seria possível salvar o sistema comunista, e que perceberam naquele momento, perante aquele desastre, que as coisas tinham-se degradado a um ponto tal, estavam tão corrompidas, até mesmo no programa nuclear. O programa nuclear era a joia da coroa soviética. Se mesmo aí havia falta de recursos, havia incapacidade de liderança, havia meios obsoletos, etc. Se mesmo aí estava mal, o que se diria do resto da economia, do resto do sistema.
Tu estás a dizer que achas que Chernobyl prova que a União Soviética era irreformável.
Não, Chernobyl convence aqueles que ainda queriam reformar a União Soviética. Repara, a União Soviética tinha aqueles inimigos para os quais aquilo estava mal desde o princípio e nenhum sucesso soviético podia provar o contrário. Gorbatchev estava no caso daqueles que achavam que o sistema ainda podia ser salvo se fizessem reformas. Aquilo que o impressiona naquele momento é a ideia de que aquilo já não tem remédio. A 3 de Julho de 1986, há uma discussão no Politiburo acerca do acidente e Gorbatchev está outra vez de cabeça perdida. Ele diz: "Ninguém estava preparado, todos fizeram asneiras. Toda a gente errou. Tudo aquilo que podia correr mal, correu, todas as más decisões foram tomadas". E entretanto ele tinha descoberto uma outra coisa. Ele tinha descoberto que tinham ocorrido 105 acidentes nas centrais nucleares só nos últimos cinco anos. 105 acidentes. Aquilo estava completamente degradado. Era um sistema que era o mais avançado que a União Soviética tinha, tinha chegado a um ponto de degradação enorme e ainda por cima tinha descoberto que nada daquilo tinha sido reportado. Isto é, tudo tinha sido escondido, a técnica tinha sido para esconder. Portanto, Chernobyl acontece, diz Gorbatchev, porque o sistema comunista está dominado, como ele diz, pelo servilismo, pela adulação, pelas cliques, pela perseguição de quem ousa pensar de outra maneira, pelas mentiras, pelas ligações pessoais, pelos clãs. Há um sistema de corrupção que impede qualquer coisa de andar. Ou seja, depois de Chernobyl, os descrentes do comunismo tornaram-se mais ousados, disseram: "Bem, isto acabou". E os últimos crentes, e Gorbatchev era um crente no comunismo, ao contrário, às vezes, do que se diz, ele acreditava naquilo, que ainda acreditava na possibilidade de reformas, que ainda acreditava que o comunismo podia ser liberalizado, democratizado e assim ser viabilizado. Até mesmo eles perderam a fé completamente. Como ele diz a um assessor dele no dia 23 de junho de 1986, Gorbatchev diz: "Estamos presos num lodaçal. Isto é um mar de lama, nós não conseguimos sair daqui já". E a partir daí, tudo o que vai acontecer na União Soviética é interpretado como um sinal do fim. Até no ano seguinte, o voo de um pequeno avião que faz um jovem alemão, Mathias Rust, que em maio de 1987 aterra na Praça Vermelha em Moscovo, mostrando que as defesas aéreas soviéticas pura e simplesmente não funcionavam. E aí Gorbatchev tem um ataque de fúria no Politiburo, tremendo. Ele diz: "Vocês já perceberam, foi a polícia de trânsito de Moscovo que deu pela violação do espaço aéreo soviético." Era o fim, basicamente. A partir de Chernobyl, o último crente, quase, que era Gorbatchev, perdeu a fé naquilo. Percebeu que, como ele diz, estavam num lodaçal de onde já não era possível sair.
Muito bem. E assim termina esta edição de "O Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.
E o resto é história.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.