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E o Vence Touré na tarde política da Rádio Observador, num dia em que vamos falar do 25 de Abril, também daquilo que se passa no PS, assim como um caso que envolve o governador do Banco de Portugal e também de habitação e de automóveis. Vamos ver se temos tempo para tudo isto. Judite de França, Alexandre Borges, António Costa, bem-vindos a este "E o Vence Touré", que pode também acompanhar em vídeo através das redes sociais e também no site do Observador. Começo por ti, Judite, porque o 25 de Abril já lá vai, mas ainda muito se fala dele.

Foi só neste fim de semana. Portanto, os ecos ainda perduram. E eu acho que foi uma sessão solene do 25 de Abril marcante, acho que nos vamos lembrar dela nos próximos anos, sobretudo pelo bom e pelo mau. O presidente da Assembleia da República escolheu falar de transparência, ou melhor, do excesso de transparência. Disse a dada altura que não queria provocar ninguém, mas avançou pra um argumento que gerou polêmica, que os próprios políticos teriam começado a repetir chavões, como é preciso combater os conflitos de interesse ou é preciso acabar com as portas giratórias. E a mensagem, pra resumir, era que o escrutínio excessivo afastava o talento da política. Eu percebo, mas acho que a transparência não é um chavão, é uma conquista. O que também marca esta sessão do 25 de Abril é o virar de costas ao presidente da Assembleia da República de Pedro Delgado Alves, que pode dizer que é protesto, eu acho que é teatro, e desviou a conversa daquilo que era mais importante, que eu acho que merecia resposta, e acho que a resposta ao presidente da Assembleia da República é bem-vinda. Ficamos a falar no gesto, claro. É evidente que Delgado Alves podia perfeitamente ter criticado Aguiar Branco no final da cerimônia e essas declarações teriam impacto, com certeza. O que eu também quero relevar desta cerimônia do 25 de Abril é o discurso de António José Seguro, que achei um bom discurso, que não se coibiu de se pronunciar sobre temas da atualidade e falar de um tema bastante importante, que acabou por ser decidido agora, que é esta questão dos donativos políticos, e ter concretizado que a transparência dos donativos políticos é essencial para garantir uma democracia saudável. Tem várias frases que eu acho que foram boas, não as vou repetir aqui porque quem viu, viu, quem não viu, dito por mim não tem o mesmo interesse.

Não tem o mesmo impacto.

Dito por mim não tem o mesmo interesse, e está escrito em todo lado. Eu acho que houve muitos recados diretos ao fato de termos esta decisão, que fez desaparecer da lei a obrigação de revelar os nomes de quem financia partidos e campanhas. E depois fez algo que é muito interessante, que é ter explicado aos mais jovens, de uma forma muito simples, muito didática, o que é que significou, na prática, o 25 de Abril. E disse coisas como, aqui vou dizer: "Quando deixaram de ser obrigados a combater, quando não têm de pedir autorização ao vosso marido, quando os vossos pais foram à urgência e não lhes pediram pagamento, quando leram ou partilharam uma notícia crítica do poder e ninguém vos bateu à porta, isto foi Abril." E eu acho que foi um bom momento e, portanto, acho que o vencedor aqui é António José Seguro por essa clareza e pelo tom, e por não ter tratado a cerimônia como uma espécie de palco para criar momentos, mas acho que encarou aquela solenidade do 25 de Abril antes como uma responsabilidade de fazer algo, deixar algo pra o dia seguinte.

Alexandre, foi uma cerimônia de certa forma marcante?

Felizmente, sim. As últimas têm sido, e saúda-se. Acho que já ultrapassamos ali um período em que era tudo um pouquinho mais do mesmo, mas desde que chegamos à proximidade dos 50 anos e com o nascimento das novas forças políticas mais extremadas ou com o discurso que obrigou a um reposicionar no terreno das diferentes forças políticas, a data voltou a tornar-se por si só muito mais do que um dia no calendário, muito mais do que um pró-forma. Voltou a ser um momento interessante de debate do que é a democracia portuguesa. Há uma parte que tem a ver com os adereços, que é: vamos ver o que é que acontece pro ano com as flores. Eu tô à espera pelo menos de-

Qual vai ser a cor do próximo.

Qual vai ser a cor, exato. Ou não sei, vão trazer uma borboleta mestra treinada que vai parar em cima de uma flor e não sei. Mas isto vai continuar, vai subir.

Até isso, que são momentos que falamos nos últimos anos. Quem é que tinha cravos, quem não tinha cravos, quem tirou os cravos, em que pose, não sei o quê. Este ano isso tornou-se menos importante do que o resto, e acho que isso foi bom.

Tornou, exato. Isso leva-me ao meu segundo ponto, exato. Mas André Ventura tentou, bem tentou.

Claro.

Pronto.

E eu acho que aquilo é interessante, porque mandaram fazer aquilo em crochê a alguém, portanto, para a atividade manufaturária.

Criou emprego.

Criou um posto de trabalho.

Deu algum trabalho.

Exato, muito bem. E saúda-se.

Imagino que não tenha sido a Rita Matias a fazer crochê.O próprio André Ventura, não sei. O próprio André Ventura. Dizem que é uma actividade muito relaxante.

É para combater a ansiedade?

Sim.

Tipo pintar magnólias, ouvi dizer. É verdade, mas essa foi a primeira virtude do discurso do presidente da Assembleia da República, que foi fazer com que o centro das atenções não fosse André Ventura, que mais uma vez tentou incendiar as coisas a cada passo do seu discurso e de facto passou para um à vontade terceiro plano da questão. Portanto, isso em si mesmo se saúda apenas por uma razão, porque o discurso de André Ventura foi mais do mesmo, foi parágrafo a parágrafo, falar para os seus eleitores, esta para os reformados, esta é para os imigrantes, esta é para os militares. E depois insistir assim numas teclas violentíssimas que às vezes é difícil perceber de quem é que ele está exatamente a falar quando ele diz: "Apunhalados pelas costas, apunhalados pela..." E fica ali a dizer uma série de vezes: "Apunhalados pelas costas." E também tive um momento de paragem que pensei numa história alternativa, no what if, que era: e se André Ventura tivesse ganho as presidenciais? Imaginar o que seria essa semana deste 5 de Abril. Como é que seria, exatamente. Mas dito isto tudo, e eu vi o António, e não só no sábado aqui no "E o Vencedor" especial, a propósito dos discursos. Enfim, saudando muito daquilo que foi o discurso do José Pedro Aguiar Branco, há outra parte em que eu não tenho a certeza de que não haja uma confusão às tantas que eu já não percebo se é deliberada ou não. Por causa dos últimos dias, do que têm sido também as entrevistas de alguns membros destacados do PSD, Pedro Duarte, peço desculpa, o Soares, obrigado. Ao Expresso, sobre os temas em discussão, o fim ou não da revelação do nome dos financiadores, dos doadores dos partidos, também a questão do fim do visto prévio, etc. Eu acho, e já aqui o discutimos outras vezes, que há realmente uma certa obsessão com a transparência. A transparência hoje em dia é tratada como se fosse uma imensa virtude de primeira grandeza.

Em si mesma.

Em si mesma, exato. Virtude é ser honesto, por exemplo. A transparência é uma coisa que se usa, é um comportamento, é um modo, é uma forma que deve vir acoplada como a gente usa a boa educação, uma quantidade de coisas. Agora, não serve nada a transparência se esta pessoa é terrível ou é um patife. "Olha, mas eu sou transparente, eu assumo." Isto não funciona por si só. E já o disse aqui também, algumas vezes que acho que vivemos essa obsessão a um ponto em que acho que não, acho que os políticos não têm que responder a tudo que lhes é perguntado. Nem toda a gente tem que saber com quem é que eles jantaram ontem, quais foram as últimas mensagens que trocaram. Não têm que viver, de facto, na ideia do reality show, senão é isto, um dia destes nós achamos por bem que um primeiro-ministro tenha que viver numa casa filmada 24 horas por dia, porque temos todos o direito de saber tudo o que ele faz a toda hora. Acho que não. Uma coisa muito diferente é saber o que está por trás. E parecendo no discurso do José Pedro Aguiar Branco, talvez involuntariamente, que estamos a falar da mesma coisa, eu acho que estamos a falar de coisas opostas. Uma coisa são os titulares de cargos públicos e são os políticos e são os representantes ou os que se candidatam a um lugar de representante. Outra coisa é esconder ou não quem é que está por trás deles. E é disso que falamos aqui. O argumento, que eu acho absurdo, da Comissão para os Documentos Administrativos.

Da CADA.

Da CADA. Para proteger agora o nome dos doadores, mas mesmo esse argumento é dizer: "Não, isto pode direta ou indiretamente revelar as opiniões ou convicções políticas dos doadores." Eu acho isto absurdo, porque ponto um, hoje em dia, a quantidade de pessoas que revela a sua opinião política é extraordinária.

E há muitos espaços para isso também.

Isso não cria nenhum problema, há imensos espaços para isso. E não significa, ponto dois, que um doador, por doar, tem essa convicção política. Sabemos que o que não falta é gente que doava a múltiplos partidos políticos, sobretudo queria estar de bem com o status quo, com qualquer força que ganhasse. E terceiro ponto, há que pesar os ganhos e os prejuízos disto. E, portanto, eu prefiro perder um pouco aí, se tiver que ser, e ganhar em saber que, por exemplo, este partido político não está a ser financiado por interesses russos, por exemplo, ou outros quaisquer. E que se estiver, toda a gente saiba disso. A questão é esta: toda a gente tem que saber o que está em jogo e que um partido trabalha para os seus eleitores e não para quem o financia. É disto que nós precisamos de saber. Isto não tem nada a ver com a vida privada, por exemplo, dos políticos. É o oposto disso. A busca pelo político bacteriologicamente puro em que andamos parece-me absurda e essa, sim, afasta as pessoas da política.

E pode ser contraproducente.

Contraproducente, exato. Quer dizer, nós não sabemos se uma pessoa não pode ter vindo do privado, porque senão tem interesses lá. Então também não pode ter vindo do público, porque senão é alguém que vive há não sei quantos anos das custas do erário público e não sabe o que é a vida real. Portanto, o que é? Parece que temos que ter uns conventos onde queremos uns monges, uns eunucos da vidaQue são criados puros para irem para a política. Mas realmente não é isso que está em jogo. E depois, e termino, Luís, dizendo isto, que agora estamos a ter o mérito da discussão ser suscitada e ainda bem, parece-me que as coisas não vão ficar como estavam para ficar, mas é absurdo, como ainda agora ouvimos, ouvi André Ventura já a dar a volta ao texto e a querer fazer demagogia com isto, quando a questão foi suscitada pelo Chega, pelo Bloco e pelo PCP, já agora, junto da entidade para as contas e financiamento dos políticos, e quando é particularmente o Chega que tem uma questão de não querer revelar de onde é que vinham 29 mil € dos seus doadores e que tem a ver com um exemplo em concreto que André Ventura usou agora. Eu posso querer saber se as pessoas são casadas, sim, se essa pessoa tiver utilizado o facto de ser casada para ultrapassar o limite legal para o montante máximo do valor que pode utilizar para financiar um partido. No caso de César do Paço, em que ele financiou com 10 mil €, mas a esposa também financiou com mais 10 mil €, por exemplo. António.

Eu, para não repetir o que disse aqui ontem.

Eu ia te perguntar se tinhas algum acrescento agora mais ao longe.

Tenho, porque eu gostei muito, como disse no sábado, no vencedor aqui especial, mas o que faltou que talvez explique estas dúvidas que sucederam à intervenção, até por contraponto a António José Seguro, obviamente, nenhum dos dois seguramente viu o discurso um do outro, portanto aquilo acabou por ter uma leitura cruzada. Eu acho que faltou a José Pedro Aguiar Branco fechar o ciclo da análise com a reforma do sistema político e, nomeadamente, dos partidos. Isto é, o sistema, os políticos, José Pedro Aguiar Branco saiu, entrou, mas é um político no ativo há muitos anos, reconhece que foram os políticos a cavar este modelo sucessivamente de maior escrutínio, de maior populismo. Mas também por quê? Eu acho que é, de facto, aquela coisa de sentimento de culpa, de que sabem como é que são escolhidas as listas, sabem como é que são as concelhias, sabem como são as distritais e, portanto, muitos deles, percebendo o que é a dinâmica de escolha de deputados, por exemplo, que na verdade, na maior parte dos casos e infelizmente, está muito para lá de uma certa hierarquização de voto, mas mesmo de seguidismo de voto e não de qualquer autonomia, foram protegendo o sistema ou tentando proteger o sistema com estes mecanismos. Eu que defendo e que alinho com a visão, digamos assim, de José Pedro Aguiar Branco, acrescento que é preciso trazer, por exemplo, círculos uninominais, que é preciso trazer outro tipo de modelo na escolha dos partidos para a Assembleia da República. É preciso, obviamente, financiamento partidário e absolutamente transparente para garantir precisamente clareza nos objetivos. É preciso que os estatutos dos partidos mudem. E fazer uma coisa sem mexer noutra, eu diria que é um risco, porque eu defendo, tenho a mesma visão. Depois o detalhe está nos detalhes, como é evidente, mas princípio, concordo com este excesso de populismo, mas de facto foi a fórmula que se foi encontrando para proteger o sistema do modelo que o sistema foi montando, que é a malta a comprar sócios, portanto, militantes a pagarem quotas para votarem à pressa no dia anterior. Tudo isto é o sistema partidário que nós temos. E o modelo que nós arranjamos coletivamente e que as pessoas foram exigindo e que os políticos foram respondendo foi: "Então vamos criar escrutínio para contrabalançar um escrutínio que chega ao populismo, mas que não pode ser abandonado sob pena de não se mexer no que está por trás."

E para cumprirmos o nosso caderno de encargos, precisamos agora de acelerar um bocadinho mais nos restantes temas. Alexandre, começava agora por ti. Há críticas de Fernando Medina a Pedro Nuno Santos. Este regresso do antigo líder do PS ao Parlamento está a correr mal a Pedro Nuno Santos? Acabou por lhe correr mal, não é? Com as reações, mas antes de mais, parece-me que estamos assim para quem tem saudades do Succession, grande série da HBO.

Eu acho que correu muito bem, por acaso.

Achas que correu bem?

Sim.

No dia a seguir mal.

Com tanta reação, ele não podia ter pedido melhor. Então chegou e pôs logo o partido a falar mais nele do que no líder, é uma coisa extraordinária.

Isso pôs. Mas não acredito muito naquela do: "Desde que falem de mim."

Não, mas vamos ver.

É que até os próximos disseram mal.

Não te quero interromper o raciocínio.

Não faz mal.

Fernando Medina queria ser candidato, eu percebia, se não foi, sentiu o toque. Portanto, quem reagiu? Reagiu quem sentiu o toque. Quem sentiu que aquilo era para ele.

Foram quase todos.

Foram muitos. Enfim, obviamente que depende da perspectiva com que penso.

É isso.

Qual é o alcance disto?

Pode ser isso.

Mas assim, de repente, ele entra, senta-se, tem duas ou três frases e toda a gente reage, que é uma coisa extraordinária, de facto.

É verdade, só que eu começo a achá-lo mesmo parecido com Santana Lopes. Ele arrisca-se a ficar como o Santana Lopes do PS.

Falta criar um partido, vamos ver.

Exato, dá-lhe tempo.

Estou mesmo a falar a sério.

Pois.

Vamos ver depois de 2028, 2029, depois deste ciclo.

Isso. Tal e qual. Vamos ver o que acontece, até porque ele é muito novo. Mas é aquele tipo de agitador, que é uma mistura de Action Man com ideologia. Que vem com imensa vontade de fazer coisas, mas verdadeiramente há uma certa desproporcionalidade entre oO tom épico das suas palavras e verdadeiramente a circunstância ou aquilo que ele é capaz de fazer. Estamos a falar de alguém que teve o pior resultado do PS em legislativas e que reaparece seis meses depois a tentar agitar as águas, aquele estilo engraçado, realmente, que tem, mas em que até os seus próximos vieram dizer-

Próximos, próximos. Do mesmo partido? Próximos, próximos, não sei se —

Pois, se calhar um derrotado não tem próximos. Pelo menos durante uns tempos.

Duarte Cordeiro era próximo.

Duarte Cordeiro era próximo. O Pedro Vaz era da direção dele.

Pedro Vaz era muito próximo desde os tempos da JS.

É isso. E são pessoas que vêm dizer: "Epá, agora não há caminho pra ele, pelo menos assim num foreseeable future, num futuro visível, não se vê muito bem o que é que ele querá." Porque havia outra opção. Ele poderia ter vindo e ter ficado pela primeira parte da sua intervenção. Quero dizer, todos somos poucos pra combater este governo, como ele disse. Mas aí Mariana Vieira da Silva tem razão. Então se todos somos poucos, por que ele vem dividir logo a seguir? Por que se vem logo distinguir de todos os outros? Por que vem dizer: "Eu não sou um taticista, eu tenho coragem, eu não sou um centrista." Disparou logo pra todo lado. Destacou-se como uma figura especial.

Ele queria fazer isso.

Ele queria.

Se ele não quisesse, não tinha feito.

E portanto, aí alguém tem que lhe dizer, se calhar, o óbvio, que é: então há seis meses ou há um ano, o seu caminho foi perfeitamente chumbado, teve resultados desastrosos. Mas vamos ver a seguir. Agora, é interessante realmente o que se passou a seguir, porque toda mundo falou e nesse sentido acho que é o succession. Ou então faz lembrar aqueles desenhos animados em que tens uma personagem que enquanto está a caminhar ou a fazer qualquer coisa, está toda a gente a vir atrás dele, a tirar facas. E quando ele para e se vira, todos param, usa uma faca pra limar as unhas, isto é o José Luís Carneiro a andar e toda a gente atrás dele. Tiveste agora Fernando Medina a comentar. Tiveste Mariana Vieira da Silva, tiveste Fernando Medina no seu programa na Nau e agora vais ter amanhã, porque acho que o programa de Duarte Cordeiro na Nau, o documentário é à terça, portanto ele ainda não teve tempo, que ele comentou terça, isto só se passou na quarta. Alguma coisa amanhã vai dizer sobre este assunto. Depois também tens este jogo curioso dos palcos que se-

Está animado

...que se tem. E que eu continuo a achar que devia haver uma distinção. Pronto, Judite, já ficamos aqui a saber na semana passada que nenhuma parasita quer ter em seu nome. Nenhum de nós tem objetivos políticos. Portanto, acho que todos podemos comentar, mas devia haver uma distinção, que é o comentador não praticante e o praticante, por exemplo. Eles são comentadores praticantes. Bom, já vamos ainda a um outro caso que o Alexandre quer trazer, vamos ver se temos tempo, mas António, queria agora passar a ti, porque parece que comprar casa está mais difícil, mas comprar carro elétrico nem por isso. Queria juntar aqui estes dois temas.

Sim, podemos tentar fazer-

É uma boa perspetiva essa

...um dois em um. Vamos aos carros primeiro. Percebe-se que no contexto desta guerra e dos seus efeitos, que para lá destas medidas avulsas e imediatas aos mais desfavorecidos, e que são necessárias, não exatamente medidas transversais, e este governo, enfim, não tem seguido, ao contrário de outros, mas que é preciso trazer outro tipo de política mesmo para mudar o perfil de consumo, de hábitos das pessoas. Ora, eu não tenho a certeza se este modelo de subsidiação, "agora toma lá mais 20 milhões pra comprarem mais carros elétricos", ser, de facto, um modelo mais saudável e até o mais justo, porque, na verdade, aquilo é ver quem é que consegue comprar bilhetes pra aquele concerto-

Há um limite

...que se espera durante dois ou três anos. É ver quem está no computador metendo o processo. Não é muito razoável. E acho que, dizem os especialistas, e eu tendo a concordar, que o efeito de eletrificação do setor automóvel, que é obviamente crítico porque consome muita energia e muitos combustíveis fósseis, seria muito mais efetivo e mais rápido com uma rede a sério de carregamentos. Os carregamentos, de facto, são críticos e nós percebemos todos, e quantos de nós já não se questionaram: "Este teu elétrico é que era." Mas depois imaginar que se está ali numa fila e depois não há carregamento, e depois eles ainda demoram. Os novos modelos já vão carregando mais rapidamente, mas demoram sempre 15, 20 minutos pra carregar uma percentagem já elevada, mas depois há poucos. E quando se pensa nas férias, vais daqui pro Algarve ou daqui pro Porto e percebes nas filas das estações-

Ao mesmo tempo Porto Algarve, que ainda são 600 km.

Exato. E é mesmo, na maior parte dos casos, diria, não quero ser injusto nem a marca, mas acho que é mesmo preciso carregar, e não há carro que aguente tanto quilômetro sem carregamento. Portanto, eu percebo a ideia, percebo que é bondosa, mas esta ideia de multiplicar, já falamos aqui há uns meses, recordo-me por causa das janelas. Esta ideia de multiplicar apoios assim avulso não me parece-

E que é loteria, como tu disseste.

É uma loteria. E depois parece aquela coisa de: "Olha, temos aqui um dinheiro, não sei mesmo muito bem o que lhe fazer." Vai o fundamental, o fundamental está a receber dinheiro de todos os lados e pronto, o financiamento serve pra tudo. Dito isto, acho que é bondosa a ideia, acho que o modelo poderia ser outro e portanto não sou muito partidário deste tipo de intervenção. Sou partidário de outro tipo de intervenção que infelizmente está a demorar muito tempo, que é de facto a oferta pública e as decisões, nomeadamente as Câmaras, que têm aqui um papel importante, mas de decisões de política, algumas foram tomadas, outras foram anunciadas e ainda não entraram em vigor. Por exemplo, nós já estamos a falar há muito tempo do IVA a 6% pra construção, mas ela ainda não entrou em vigor. O diploma ainda anda à procura de entrar em vigor pra ser publicado em Diário da República. Há quantos meses nós já discutimos isto? Ou a revisão do regime de arrendamento para que os despejos de quem não paga sejam, obviamenteEficazes, rápidos, salvaguardado obviamente os temas económicos, alguma situação económica extrema que aconteça, mas na verdade, é evidente que deveria haver uma intervenção no sentido de criar mais oferta, de criar mais incentivos à oferta. E o discurso anunciado pelo governo parece-me positivo. A execução está a demorar muito tempo. As eleições autárquicas foram em outubro. Este governo já vai no segundo ano, como o próprio diz, são dois anos de governo. E continuamos a ver os preços das casas obviamente aumentarem, porque obviamente há muita procura e a oferta não há maneira de responder. Portanto, obviamente vai continuar a aumentar, ainda por cima com esta ideia do governo, que também me parece bondosa para responder aos jovens, mas só tem um efeito. É pôr mais jovens a comprar casa para os próprios, nomeadamente para os primeiros, para aquela primeira leva. É muito bom, porque têm essa casa que não teriam de outra forma, mas obviamente isso cria uma pressão na procura que torna mais difícil o efeito que o governo quer para as medidas que tomou. Enfim, são duas coisas em que eu creio que nos cheques a intervenção deveria ser outra, na habitação a intervenção deveria ser efetiva, face nomeadamente ao que foi anunciado.

E vamos ainda a outra questão ligada com a economia, Alexandre. É um caso que envolve o governador do Banco de Portugal, que comprou ações quando não devia e depois teve que as vender. O que este caso nos mostra também?

Sim, da minha parte é muito breve mesmo. Acho que não chega sequer a ser um caso, podia ter sido e não é, foi rápido e acaba por ligar um pouco.

Porque a resposta também foi rápida?

A resposta também foi rápida. Acaba por ligar um pouco ao nosso primeiro tema e acho que também tem utilidade por causa disso. Sim, mas Álvaro Santos Pereira comprou em dezembro, já era governador do Banco de Portugal, comprou ações, ou reforçou.

Reforçou, já tinha.

Exatamente, a sua nota.

Reforçou a sua carteira.

A sua carteira, exatamente. Comprando ações na Galp e na Jerónimo Martins. E portanto, a seguir veio o BCE dizer-lhe que não podia fazer isto e a declaração oficial é que ele já se desfez das ações. Em princípio, terá ganho algum dinheiro com isso, imaginamos, porque as ações valorizaram desde então. Como acabamos de ver, a Galp, por exemplo, apresentou lucros fantásticos logo neste primeiro trimestre.

Mas as ações foram compradas em queda.

Exatamente. Portanto, garantidamente lucrou com isso. Agora, ainda bem que já despachou o assunto, que já o resolveu. Revela a importância da transparência onde ela deve existir.

Sim, porque foi o próprio que comunicou ao BCE essa compra.

Foi o próprio que comunicou, é obrigado a fazê-lo. Comunicou às entidades devidas, as entidades devidas agiram em conformidade. Enfim, mas custa, apesar de tudo, um bocadinho perceber como é que Álvaro Santos Pereira não sabia isto.

É difícil de perceber, sim.

É difícil de perceber. Como é que és governador do Banco de Portugal, além das outras coisas que já fizeste na vida, e não suspeitas que enquanto alguém que intervém diretamente, cuja missão é a estabilidade do sistema financeiro, não pode achar que existe aqui uma incompatibilidade nestas coisas. E além das suas missões explícitas, há ainda o perfil de Álvaro Santos Pereira, que gosta de opinar e, portanto, de ter uma outra atuação política, como ainda teve na semana passada, por exemplo.

É muito ativo, nomeadamente nas redes sociais.

Exatamente, é isso mesmo. E obviamente a palavra de alguém como ele e do governador de um banco central interfere diretamente.

Mas o risco é esse. Eu não quero ser extremamente dramático, mas corroer ou minar alguma da autoridade que inquestionavelmente tem. É evidente que é um erro palmatório. Vamos ver. Só faltava mesmo comprar as ações de bancos. Isso é que seria de facto... O governador participou como deveria fazê-lo.

E, portanto, não imaginava.

Eu vou dizer mais, Jorge. De facto, isto remete para o código de conduta do BCE. Faço aqui um disclaimer, eu sou jornalista de economia e não compro ações. Legalmente, não estou impedido de comprar ações. O código de conduta, é preciso ser muito exigente do ponto de vista da conduta de um jornalista de economia pra concluir que não deve comprar ações no mercado. Não deve, porque se escreve sobre empresas cotadas, não deve comprar ações no mercado. Isso é uma evidência. Não é crime, não é isso que está em causa. Muito menos aqui no caso de Álvaro Santos Pereira, até porque não foi de bancos, foi de empresas. Mas o cuidado e a proteção que tem, porque vamos lá ver, se nós quisermos ser muito exigentes na análise, muito finos, minuciosos. Decisões de política de juros, política monetária, onde Álvaro Santos Pereira tem assento no BCE, no Conselho de Governadores do BCE, afeta o comportamento dos mercados. É daí que decorre este impedimento de conduta, digamos assim, porque decisões de política monetária ou de injetar dinheiro na economia quando há crise ou tirar dinheiro.

Tem impacto no preço do dinheiro que as empresas pedem aos bancos.

E tem impacto no valor de mercado das empresas que estão cotadas. Como é evidente, alguém que está nessa posição a decidir isso, não deve estar ao mesmo tempo a comprar ações e a vender ações, por mais interessante que seja o negócio. Portanto, acho que foi um lapso, obviamente. Enfim, um facilitismo, seguramente não pensou, mas teria sido de evitar e ainda bem que corrigiu rapidamente para que não subsista a conversa e o erro.

Nós temos um minuto e meio para notas aos protagonistas. Judite, começamos por ti, queres dar nota a quem?

Queria dar a António Geseiro e dou-lhe um 15 pelo discurso da cerimônia do 25 de abril.

Alexandre.

Dou à dita transparência, que acho que apesar de tudo vai sair a ganhar do episódio da cerimônia do 25 de abril, um 14.

António.

Olha, eu dou um 15 à Guia Branco, porque, na verdade, já percebemos que esta cerimônia veio mesmo para ficar e a responsabilidade é mesmo da Guia Branco.

E com tudo isto conseguimos cumprir o nosso caderno de encargos para este "O Vencedor É". Amanhã há mais, depois das 08h30, nas manhãs 360.