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E o "Investidor É" na Rádio Observador, também em vídeo no YouTube, hoje com a Judite França, o Nuno Gonçalo Poças e o Alexandre Borges. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje temos o otimismo do Banco de Portugal, os alertas do Ronaldo das Finanças e ainda o próprio Ronaldo e a carta, o comunicado que ontem conhecemos em cima das 20h e ainda vamos ter tempo para ir às escolas com alunos a serem mandados pra casa por falta de professores. Mas vamos começar com otimismo. Judite França, sinto que é importante começarmos com otimismo. O Banco de Portugal está otimista. Tu também estás otimista, Judite?

Acabas de transviar a minha tese toda.

Sim, mas é pra isso que estou cá.

É pra isso. Cá estás. Porque o mais curioso das declarações que hoje foram feitas por Álvaro Santos Pereira, que de facto está otimista.

Está otimista em relação à economia de crescimento.

À previsão de crescimento. O Álvaro Santos Pereira acabou por comentar o artigo de Mário Centeno, que foi hoje publicado no jornal Público, pra dizer que sim, que está preocupado com a despesa pública e referiu como é óbvio, mas desde que mantenhamos o excedente, não vamos ter problema. E esta é a frase com que Álvaro Santos Pereira basicamente chuta pra canto as declarações, o artigo de Mário Centeno. E era esse artigo do Mário Centeno que eu acho que merece uma leitura, porque o título é: "Monteiro destrona Sócrates".

É um artigo que hoje Mário Centeno publicou no Público.

No Público. E a tese é esta: com este governo, a despesa pública cresce 2,3 pontos por ano acima da economia, com Sócrates era 1,8 e, portanto, Centeno quer provar que temos um novo campeão de despesismo. Basicamente é esta a tese. E depois escreve bastante sobre a questão. Como se o recado não tivesse chegado, ainda diz isto, não sei se passou despercebido, porque a dada altura diz que quem governa não terá estudado, e passo a citar, "pra além do 10 anêmico, como quem espera uma repescagem." Está a falar de Miranda Sarmento, seu colega no ISEG. É uma canelada, chamar lhe um 10 anêmico é uma coisa um bocado desagradável.

Estive a ver, formou-se com 14.

Miranda Sarmento?

14. Sim. Centeno com 16. Pronto.

Ok.

E de mestrado, tiveram quantos?

Não havia. Ai, havia. Separado.

Mas imagino que se fosse 10 anêmico, já não daria pra mestrado.

Já não daria pra mestrado. No nosso tempo não dava.

Exato. Não dava.

Não dava, não.

Tinhas que ter 14, não era?

Tinhas que ter 14, no mínimo.

Era, tal e qual.

Mas por acaso espantou-me. Eu pensei que estas pessoas todas tivessem tipo 18, 19. Um ministro das Finanças, eu esperava uma coisa estratosférica, mas tudo bem.

Eu estou contigo nisso, acompanho-te nessa. Também tinha esta expectativa.

Sobretudo nas Finanças. Há outras profissões em que tu pensas: pronto, estava lá na tuna, mas ninguém está a ver o Miranda Sarmento. De pandeireta.

Mulher, gordo, não. Olha que bela imagem aí agora. E o Centeno aos pulos.

Como porta-estandarte.

Exato. Desculpa, Judite, estavas a falar de números da economia.

Estava a falar de economia, de uma tabela que Mário Centeno publicou com sete governos de Cavaco a Montenegro. Há várias coisas interessantes aqui. Aguentem-me só um bocadinho, porque, por exemplo, Cavaco acaba em 1993, quando governou até 95.

Exato.

Sócrates acaba em 2009, quando governou até 2011, e assim desapareceram o PEC 4 e o pedido de resgate. Costa acaba em 2019, mas governou até 2024 e assim desaparece a pandemia. O que sobra de Costa, aliás, é a melhor nota na tabela.

Estranhamente coincide com o período de Mário Centeno.

Os quatro anos em que Mário Centeno foi ministro das Finanças, não é à toa que se chama o Ronaldo das Finanças. É também um pouco pela sua empáfia. Depois, há a questão do calendário, porque Sócrates começa em 2006, Passos em 2012, Costa em 2016, sempre no primeiro ano completo de governo. Montenegro, não. Começa em 2024 com um orçamento que nem era o dele, ainda era o de António Costa. E esse é o problema, é pegar nos números e fazer uma conclusão enviesada, porque o problema está nos anos e no agregado que se escolhe. Eu não vou chatear-vos com algumas coisas que escrevi e que estive a fazer contas.

O Ricardo é que manda, mas eu acho que este tema tem que sair.

Também me divirtia fazer isto.

Judite, não te acanhes.

Mas eu acho que é um pouco maçador. O que eu acho é que, de facto, Centeno parte de premissas que não estão bem contabilizadas, nomeadamente a questão da despesa, isso dar-nos-ia pra uma conversa longa, mas Centeno parte de um excedente de 1,2% do PIB em 2023, que é o das administrações públicas, ou seja, do Estado. E depois diz que temos um déficit crescente, quase 2% do PIB, mas esse é só da administração central Enfim, não se pode comparar e não se pode pôr de fora a Segurança Social, por exemplo. Há uma série de coisas que, na previsão de Mário Centeno, dá um número demasiado elevado. Não é que a despesa pública não esteja a crescer. Está a crescer. A questão é que também não se pode ignorar que há excedente e, segundo o Banco de Portugal, haverá excedente até para o ano. Portanto, eu acho que Álvaro Santos Pereira fez bem em fazer o contrário de Mário Centeno, o que também não é muito de estranhar, tendo em conta que não são propriamente BFFs. Fica aqui a ideia de que o termo de comparação dele, sobretudo, é enviesado e eu acho que isso notou-se que aquela tabela foi feita à medida para provar que Montenegro é pior do que Sócrates.

E vamos falar de Cristiano Ronaldo na segunda parte, mas Alexandre, achas que estamos aqui perante um caso de ronaldismo que está a afetar Mário Centeno também? Porque os anos dele são obviamente bons.

Os anos dele são obviamente bons, é verdade.

São os melhores.

Provavelmente na segunda parte, como diz, iremos ao Mário Centeno do futebol.

Este suspiro foi do Nuno.

Até deixou escapar a minha piadinha. Eu estava com esperança que ele risse. Eu disse: "Na segunda parte vamos ao Mário Centeno do futebol", mas ele não.

Não, porque eu já tinha suspirado.

Exato, já não adiantou. Foi esse o timing. Mas voltarei, de facto, a essa imagem do ronaldismo, que já tive a oportunidade de te dizer aqui no verão.

Não sei se os senhores que mandam no DSM querem incluir o ronaldismo.

Exato, nas doenças, que para mim, neste momento, se reflete numa coisa que é o sebastianismo invertido.

Isso é mais bonito ainda.

Tu estavas de férias, Judite. Eu lembro-me disto, lembro-me que foi no dia em que estávamos aqui só homens. Não sei porque calhou. E portanto, discutimos imenso esta questão. Sim, naturalmente, a empáfia é bem vista como paralelo entre os dois.

Devo registar que já dissemos duas vezes empáfia neste programa.

Sim, estava agora a citar a Judite. Justamente. Há várias coisas aqui que me parecem interessantes. Desde logo, começando pelo boletim de outubro do Banco de Portugal, que revê em alta o crescimento da economia e vem concordar com o governo, sendo que o governo já tinha discordado dele próprio, já tinha baixado a sua expectativa de crescimento para este ano por causa da guerra, da inflação, das tempestades, e portanto, vem agora de novo para os 2,3%. Essa é uma boa notícia e há que tirar o chapéu, independentemente de tudo, a Miranda Sarmento e a Luís Montenegro. Quer dizer, num ano em que, contra todas as apostas, vamos ver se se confirma, mas em princípio, com o aproximar do final do ano, as perspetivas estão cada vez mais apuradas. As organizações internacionais todas, Comissão Europeia, etc, também viam o crescimento de Portugal sempre abaixo dos 2%. Crescer neste ano, em que Portugal é assolado pelas maiores tempestades de sempre no início do ano e em que estamos neste cenário internacional de dificuldades, não só não ter déficit como a dado momento se antecipava que pudesse acontecer já neste ano, 0,1, o próprio governo a seguir às tempestades admitiu isto. Mas outra vez, com o crescimento desta ordem, a média europeia ou da zona euro é tipo 1%. Portanto, tirar o chapéu. Sim, senhor. Não se sabe bem como, mas continuamos a conseguir estes brilharetes. Agora, Centeno, para já decide escrever a sua longa crônica no dia em que sai o boletim, ele que está sempre em guerra com o seu sucessor no Banco de Portugal. Pode ser um acaso, vamos admitir que sim. Ponto dois, que não é certamente um acaso, é a questão de Mário Centeno querer continuar, obviamente, na ordem do dia com o seu livro chamado "Contas Certas", as entrevistas que tem dado, as suas aparições, e aqui novamente a reforçar esta ideia de que, caso ninguém venha dizer isto por ele, ele quer que o tempo o recorde como alguém único, em esse sentido, muito Cristiano Ronaldo. Constantemente quer voltar à ideia de que ele conseguiu algo histórico naqueles anos, que foi este superávit e que fez uma coisa nunca antes vista. E a linguagem é toda bastante chamativa. Esta coisa logo de facto dizer: "Montenegro destrona Sócrates", diz: "Governo nunca antes visto". Lá está: "os governantes que não estiveram para além do dez, anêmico, uma insanidade contra os manuais de economia", é outra das linhas. "Foram-se as almofadas que custaram quase 50 anos a construir." E mais uma série de coisas. E depois há a história dos números, desta tabela que a Judite citava, os números em que o próprio se baseia e como ele mesmo diz, ele é que fez, que de facto tem isto tudo o que se lhe diga, são números à la carte, o que até nos deixa um bocadinho preocupados de pensar como é que Centeno fazia em geral as tabelas de Excel no tempo em que era ministro das Finanças, porque aparentemente é isto, ele escolhe os dados que quer e bem entende. E muitas vezes até, por exemplo, Aníbal Cavaco Silva aparece, como disse a Judite, de 85 a 93, não aparecem por qualquer razão os dois últimos anos, fica no mistério, mas estão os dois primeiros anos em que foi minoritário, que nunca diz. Por exemplo, António Guterres vem identificado como minoritário. Os governantes, no caso PS, quando é minoritário, está como minoritário, que era tipo: "Tínhamos aqui dificuldades". Enfim, há tudo isto e eu, para não tomar aqui o tempo todo também ao Nuno, vou procurar avançar. Dito isso tudo, e achando que de facto Mário Centeno quer que continuemos todos a dar-lhe imensa atenção, não deixa de dizer uma coisa que mais ninguém está a dizer, de facto, tirando talvez a Iniciativa Liberal, que é a questão do crescimento contínuo e desmesurado da despesa em Portugal. E esse problema, fora todo o espalhafato e todo o exagero que Centeno lhe coloca, deveria preocupar-nos a todos, porque se nós não conseguimos reformar minimamente a despesa em Portugal nos anos bons, como é que vamos fazer nos maus? Se para o ano acaba o excedente de que estamos aqui a falar e de que o próprio governador atual aponta-

Não, para o ano, mais excedente.

Para o ano mais excedente, eles diz que ainda há. Mas esse excedente é conseguido, e já algumas vezes falou nisto, mas muito poucas, tem sido conseguido à custa da Segurança Social. Números desses que vão descer os números da Segurança Social, se dão um excedente de mais de 5 bilhões de euros. E são esses, particularmente, que têm entrado para esta contabilidade.

Mas aqui também pode haver o efeito mecânico do crescimento da economia.

Sim, que apesar de tudo, tem contribuído para algum alavancar disto. Mas veremos o futuro. Eu gostava só de terminar dizendo isto, porque Chega, PS, Governo, estão todos longe disto. O Estado, em março, bateu o recorde de número de funcionários públicos em Portugal, 767 mil, mais 1,1% em termos homólogos. Os valores também, agora vamos entrar em negociações com a função pública, em média, o funcionário público ganha, tudo somado, subsídios, etc, mais 5,2% também em Portugal. Estamos em valores máximos, ninguém sabe muito bem para quê, porque os serviços públicos em Portugal não estão propriamente na melhor forma. Portanto, alguém, nomeadamente o ministro com a tutela da reforma do Estado, devia estar preocupado com isto e ninguém vê. Nesse sentido, pontos para Mário Centeno.

Nuno.

Vocês hoje estão todos muito eloquentes, eu até passava isto.

Não vamos perder a oportunidade de ouvir você.

Claro que não. Eu, na verdade, não tenho muita paciência para esta conversa de divas contabilistas, porque na verdade, isto é contabilidade. E contabilidade para mim é uma cruz que o deve e o haver. Mário Centeno tem este problema, que é, no fundo, fica sempre com a sensação de que ele é um contabilista, mas com ambição a ser político. Só que depois de sinto política, não fica lá nada. Não há ali nada, há tabela de Excel, sim, senhor, há ali uma análise contabilística da coisa. Se quiser, talvez um propósito político, uma alfinetada aqui, uma alfinetada ali, eu é que sou o maior e não sei o quê, e olhem para mim que eu sou tão bom. E é por isso que é uma diva contabilista. Mas eu vou tentar também fazer aqui a minha espécie de contabilidade, talvez com um pouquinho mais de política, que é: nos últimos 10 anos, nós habituamo-nos a viver mais ou menos no mecanismo, e o orçamento de Estado, que deve ser apresentado agora em breve-

Amanhã

...amanhã, vai ser mais ou menos uma coisa do mesmo gênero, que é um documento com uma previsão de receitas e despesas, e sem um programa político por trás. Portanto, não há ali um projeto, não há uma ideia daquilo que se quer fazer disto. No fundo, é uma gestão de deve e haver, portanto, é uma cruz com deve e haver de um lado e do outro. E com Mário Centeno as coisas foram mais ou menos assim também. E essa é uma grande tristeza nisto, que as coisas, de facto, vão sendo tapadas por causa desse crescimento econômico, por causa dos aumentos das contribuições para a Segurança Social, crescimento econômico esse que assenta também ele muito no aumento populacional. Portanto, se olharmos para o PIB per capita, depois as coisas de repente já não são assim tão boas. E esse é um problema, tal como é um problema que o Estado, de facto, esteja a bater recordes de funcionários públicos e toda a gente perceba que o Estado não está a funcionar em lado nenhum, em coisa nenhuma. E há falta disto, e daquilo, e do outro. Cada vez são mais e o serviço prestado é cada vez menos. Portanto, eu gostava mais que se respondesse a essas coisas, em vez de estarmos agora a ouvir o Mário Centeno todas as semanas a explicar-nos contabilidade.

Temos que ir às notas.

Ponham-lhe uma pala na cabeça e uma caixa registadora.

Eu concordo contigo, só que o problema é que as contas nunca são só contas. Essa questão da despesa, é tudo que tem a ver com a reforma do Estado.

Notas, temos que ir às notas.

É tudo que tem a ver com não quereres realmente ter uma política associada e mudar alguma coisa.

Mas é que Mário Centeno também não.

Era o que o Passos faria. É a forma do próprio Passos trabalhar.

Mas Mário Centeno também não.

Notas? Tens notas?

Eu não. Ele deu-me o livro. Apesar de tudo, tenho um 11 para Mário Centeno.

Eu vou lhe dar um 10 anêmico.

E um abraço a todos os contabilistas. Não temos nada contra os contabilistas.

Não, eu conheço imensos contabilistas, eu tenho contabilistas.

Até tenho amigos que são.

Eu até tenho um amigo que é.

Eu tenho pessoas que muito prezo, que são contabilistas. Um grande abraço para todos os contabilistas. E temos de ir ao grande tema do momento, é incontornável, Nuno Salpoças, o crescimento econômico. Não, desse já falamos.

Quem é que quer saber do crescimento econômico?

Crise da habitação, também já falamos. Ronaldo?

Exatamente. O Cris.

Leste o comunicado? Ou só viste-

Não, eu tenho acompanhado isto ao minuto, estamos a brincar.

Eu imagino que sim.

Eu, sim, assuntos importantes e que me interessam, é a mim ou ao primeiro-ministro. Doente. Este tema, de facto, extravasa o futebol. Isto passou a ser um tema até em entrevistas de emprego lá no escritório. Porque eu agora gosto de saber a opinião das pessoas e quero saber o que elas fariam na mesma posição.

É assim um caso prático.

Sim, uma espécie de caso prático.

Mas em qual das duas posições? A de Ronaldo ou a de Jesus?

Não, interessa-me saber o que as pessoas acham em geral. Aliás, em entrevistas de emprego e fora disso, eu pergunto isto agora a toda a gente. De que lado é que as pessoas estão, como é que elas interpretam o fenômeno, a telenovela, quem é que acham que tem razão, à medida que as coisas vão acontecendo, etc. Eu tenho a mesma ideia Não é de agora, mas eu achava que era um pouco mais consensual, mas acho que com isto talvez tenha ficado bastante mais consensual. Tinha aqui três ou quatro notas que pra mim são importantes relativamente a isto. E se quiserem até isto para a gestão de recursos humanos, para a política, para uma série de coisas, de atividades na nossa vida pessoal e coletiva. Toda esta novela é muito interessante porque nos mostra várias coisas. Primeiro, sobre o futebol em concreto, porque também queria fazer aqui essa nota. Isto é uma coisa que já me chateia há muito tempo. Eu sou de uma época em que o futebol era só um esporte e que servia para jogar e ganhar e nos entreter e estava tudo bem.

E para comer umas bifanas.

Para comer umas bifanas e para a malta se juntar no fim de semana e tal, ver o jogo com a família às 15h e não para tentar um acesso a um estádio que entretanto já é uma coisa meio cotizada e privatizada, onde se pagam muitas dezenas ou centenas de euros para ver um espetáculo, porque se quer ver não o jogador, mas aquela marca que está ali com uma camisola vestida. Eu acho isto profundamente maçador. Portanto, nisto, se quiserem, é a minha veia de qualquer coisa, se calhar um bocado purista ou ingênua.

Não está sozinho.

E também sou de uma época em que os futebolistas eram só jogadores da bola e não eram produtos. Não eram produtos de marketing, não eram marcas. O meu preferido é sempre o Romário. Gostava daquela época em que os jogadores de futebol diziam: "Eu não bebo, eu não fumo, eu não drogo, a minha parada é mulher". Ou que saíam e diziam: "Mas o senhor foi tomar o café da manhã com o presidente do outro clube." E ele: "Café da manhã? Eu não acordo às 10 da manhã nem para nada, quanto mais para ir falar com alguém". Eu gostava dessa coisa. Chateia-me muito esta coisa do jogador máquina e do jogador marca. Tenho muitas saudades disso, mas leva-me aqui a outro ponto, que é ao fato de nós, neste momento, estarmos a assistir à exposição de uma evidência, que é o fato de a Federação Portuguesa de Futebol, que é a entidade que tutela esta coisa das seleções nacionais, entre outras coisas, não existir. Não há uma autoridade institucional naquilo. A sensação que eu estou a ficar disto é, em primeiro lugar, que o próprio Cristiano Ronaldo também é, ele em si próprio, vítima deste tempo e da forma como instituições ou organismos como a Federação Portuguesa de Futebol olham para o esporte, que é através desta visão economicista e de olhar para um ser humano, apesar de tudo, e ver nele muitas vendas de camisolas e dinheirinho e aquelas coisas todas. E, ao mesmo tempo, que o selecionador nacional seja ele, no fundo, quem tem de responder e dar a cara por isto tudo, como se ele próprio não fosse uma escolha de dirigentes e de pessoas que têm esse tipo de responsabilidade. O papel de um treinador de futebol é treinar a equipe. O papel institucional normalmente é das instituições. E o Jorge Jesus, por muito que eu goste dele, e gosto, não é ainda uma instituição, tal como o Ronaldo. Não me interessa discutir o resto, embora podemos ficar aqui agora o resto da tarde, noite a falar sobre tudo isto. Custa-me imenso não dizer que só não tenho imensa pena, tenho já só alguma, porque isto é uma coisa que nós temos vindo a assistir já há seis, sete anos, qualquer coisa assim. Mas vejo com alguma tristeza que as estrelas decaem com esta velocidade e com esta vertigem e que, na verdade, tal como noutras áreas da nossa vida, aos pequeninos que estiverem a ver, eis como alguém que se rodeia de "yes man" e de gente financeiramente dependente de um ego pode cair de tão alto.

E queres deixar alguma pista para a resposta certa na entrevista de emprego ou não?

Não, porque ainda estou em processo. Mas depois tinha aqui uma nota que eu acho que é interessante, que é: apesar de tudo, aquilo que eu tenho visto, tanto nos comentários como nas sondagens que foram lançadas, e o vox populi como vai chegando, é que, na verdade, há aqui um país que está majoritariamente do lado do chefe e da autoridade. E que está um bocado farto desta coisa da diva, do miúdo mimado, birrento, que acha que tem o estatuto, não sei o quê. "Isto não há cá direitos adquiridos agora, isto não há cá estatuto pra ninguém, és igual aos outros, tem que ser tratado como os outros". E isto em Portugal parece-me uma novidade. Eu estou muito contente por ver. Podia ser que agora pudéssemos aproveitar este tema para discutir outro tipo de coisas. Não há direitos adquiridos e não há estatutos e não há superestrelas que estão acima dos outros?

Que grande a volta que ele foi dando.

Que bom! Gosto muito disto.

É isso a que eu chamo Ronaldismo e Sepastinismo invertido. É a rara oportunidade que temos de nos livrar da mania de esperar o homem providencial. Pela primeira vez nos vejo a querer que o homem providencial vá embora e deixe funcionar o coletivo.

Sim.

Em vez de estar aqui de roda do salvador da pátria, do homem que vem para resgatar isto, mais a instituição, a empresa, o país, a política.

Sim, mas eu vou dar um salto por cima disso, que é: a seleção nacional precisava, de fato, de um líder E ele apareceu dizendo: "Quem manda aqui sou eu."

Jesus é o nosso líder?

A primeira vez que eu entrei num estádio de futebol foi no Estádio da Luz para ver um Amora-Benfica em 1992.

Com Jesus.

E o treinador era o Jorge Jesus. Eu adoro o homem há 34 anos.

Incondicionalmente.

Não incondicionalmente. Eu quase que tive vontade de chorar. No dia em que ele saiu do Benfica para ir para o Sporting, a minha mulher perguntou-me o que é que foi. Eu disse: "O Jesus vai para o Sporting." Ela: "Também não é preciso ficares assim." Eu estou chateado até hoje por ela me ter dito isto.

Incompreensão total.

Sensível.

Alexandre, queres acrescentar?

Sim, acrescento. A Judite ainda quer falar de escolas, é só por isso.

É isso.

Eu não me importava que um jogador fosse um produto, porque isso queria dizer que tinha prazo de validade, em princípio. Mas aparentemente, na cabeça do Ronaldo, esse prazo não existe. E não é só na cabeça do Ronaldo, é na cabeça de toda a gente à roda dele, incluindo na do primeiro-ministro, que considera isto um assunto digno da sua atenção.

Mas é que o primeiro-ministro veio dizer que nós precisávamos de uma atitude à Ronaldo. Ele agora não pode.

Mas isso não me pareceu errado. Eu concordo com isso na medida em que nós somos um país que, já algumas vezes discuti sobre o assunto, a mentalidade do Ronaldo ao longo da carreira é uma mentalidade que não corresponde à dos portugueses.

Ele devia ter dito: "Nós devíamos ter a mentalidade do Ronaldo até aos 30 anos."

Exato. Em princípio, esperava-se que imperasse o bom senso, que pelos vistos, sim, tens razão, também não abunda para os lados de São Bento. Vejam o que se passou ontem na Argentina. Vejam o jogo de despedida de Messi. Vejam como alguém que tem muito mais títulos para exibir. Já nem vou às imagens, bastariam os números. Ver o que o Messi fez nos últimos anos, vejam o jogo de despedida, vejam um país comovido, vejam como saber sair em grande. Em vez de estarmos aqui neste jogo em que parece que estamos todos a fingir que, de facto, não há um prazo, não há um limite. Nós temos uma equipa, e terminaria assim para passar a bola, salvo seja, à Judite.

Não tenho grande jeito, sou capaz de a deixar passar.

As únicas pessoas que verdadeiramente me apetece elogiar aqui são os nossos outros jogadores, é o resto da seleção nacional, que atura isto há anos e continua a aturar. Uma equipa que tem quatro bicampeões europeus em título. Não é há 10 anos, é agora. Mais uma série de outros campeões europeus ainda há pouquíssimo tempo, uma grande equipa, grandes jogadores, um guarda-redes extraordinário, que foi o nosso melhor jogador no Europeu, e eu sou insuspeito, não sou da equipa dele. No último Europeu, não, no último Mundial, peço desculpa. Estes jogadores extraordinários, com carreiras magníficas, que estão em topo de carreira, como o Ronaldo esteve há muitos anos, e que têm que aturar isto tudo em silêncio enquanto continuam a fazer grandes jogos. Não me admiraria que um dia destes algum destes verdadeiramente se chateasse. E com razão.

Notas?

Eu não vou dar nota, mas vou dar um zero ao futebol atual e à federação.

Alexandre, o que queres dar?

Eu tenho, obviamente, um sete.

Um sete. Judite, tu queres falar de escolas.

Eu quero falar de escolas.

E de miúdos que não têm aulas e faltam professores.

Sim, porque descobri, através de uma peça do Expresso, que há um novo documento no sistema educativo português que se chama comprovativo de trabalho. E eu vou explicar como é que isto funciona. Na Escola Básica do Condado, em Marvila, esse comprovativo decide quem é que pode passar o dia-

Não é do Condado de Marvila, é a Escola do Condado.

Escola Básica do Condado, em Marvila.

Ok.

Chalas.

Sim. Decide quem pode passar o dia na escola, que é mais do que fazem noutras escolas, que pura e simplesmente mandam os alunos para trás porque não têm professores. Então, em Marvila há seis escolas do primeiro ciclo com turmas sem professores. São 307 alunos do primeiro ao quarto ano. Faltam 14 professores, segundo a Junta de Freguesia. Há pais que levam os filhos à escola de manhã e não há professores, voltam com eles para casa. Na Escola do Condado, a tal Escola Básica do Condado, há outra solução, porque ficar com os filhos em casa, para pais que trabalham, objetivamente não é solução. Então se os pais provarem que trabalham, a criança é posta noutra turma. Se não provarem que trabalham, a criança fica em casa. Isto por quê? Porque o diretor do agrupamento disse ao público que a escola assume uma espécie de parte social, que não tem de assumir legalmente, mas admite que faz isso prejudicando os outros, ou seja, em turmas que já chegam aos 30 e 32 alunos. Nós temos falta de 340 professores do primeiro ciclo. Primeiro ciclo, é mesmo uma coisa muito importante. E ao mesmo tempo, há 1380 docentes do primeiro ciclo à espera de colocação. Parece um contrassenso gigantesco, não é? Porque há professores sem escola e escolas sem professores. Só que o problema não é a falta de gente. O problema é a geografia, é a renda da casa. Há professores que não se conseguem candidatar, pura e simplesmente, a alguns círculos escolares. Antigamente andavam com a casa às costas e queixavam-se, e bem, porque andar com a casa às costas é uma chatice, mas conseguiam alugar outra casa, hoje em dia não conseguem. E portanto, ou há compensações salariais para horários em zonas onde a habitação é muito cara, ou então não vai haver solução para estes miúdos.

E tu realmente achas que o futuro dessas crianças e do país é mais importante do que um tipo que esteve a aquecer e não entrou?

Acho.

Tu tens a lata de dizer isso aqui no microfone da Rádio Observador.

Microfone aberto.

E queres deixar alguma nota?

Eu quero deixar um seis para o ministro da Educação, porque acho que ele tem que ir bater à porta do Miranda Sarmento e pedir dinheiro.

E amanhã há mais "E o Vencedor É?", nas manhãs 360, amanhã com a Ana Sanles, que se junta ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral.