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Yuven Sodré, na Rádio Observador, com Judite França, Pedro Benevides e Gonçalo Sousa. Hoje vamos ter de falar de presidenciais, vamos também falar do governo do país e do governo das autarquias e, obviamente, das autárquicas. Tu queres, Judite França, precisamente começar a falar de ingovernabilidade?

De ingovernabilidade, precisamente, Ricardo.

É uma palavra dificilmente de se dizer.

É verdade.

Só pessoas com muitos anos de estudo é que conseguem dizer ingovernabilidade.

Há palavras drúxilas difíceis. Sim, porque ontem, no Explicador da Tarde Política, Rita Matias deixou claro que o resultado do Chega pintava o país. A frase é: "O país está pintado de ingovernabilidade". Basicamente, o que Rita Matias quer dizer com essa frase é que o Chega passa a ser um partido charneira para tomar decisões, e uma das decisões pode ser ajudar ou bloquear decisões no governo da cidade. O Expresso fez as contas e das 75 câmaras sem maioria absoluta, em 39 há vereadores do Chega que podem entrar nas contas, e em 24 é mesmo um dos três partidos a eleger. Portanto, pode desempatar, obrigar a coligações e obrigar a acordos. Por exemplo, o caso do Porto: são seis vereadores para a coligação liderada pelo PSD, seis para Manuel Pizarro, do PS, e um vereador do Chega para desempatar, precisamente, que é Miguel Costa Real. Acontece em Gaia o mesmo, cinco, cinco, um. Isto parece tática de futebol. Não percebo nada, mas parece que estou a ouvir falar disso.

Cinco, cinco, um dá. São 11, dá 11.

11 contra 11. Em Sintra, por exemplo, são quatro para Marco Almeida, quatro para o Partido Socialista e três para o Chega. Portanto, a questão aqui é a importância que o Chega vai ter nas decisões. Nós já percebemos, ainda hoje ouvimos Pedro Pinto dizer que não há qualquer tipo de acordo ou de aliança com o Partido Socialista, e essas alianças só poderão ser feitas com o PSD, só podem ser feitas à direita ou com movimentos independentes. A questão aqui é que dá-me a ideia de que quem agora vai utilizar as famosas linhas vermelhas é o Chega. O Chega vai pegar nas linhas vermelhas e vai dizer assim: "Não, eu tenho uma linha vermelha ali e aí eu não passo". Portanto, tem na mão a possibilidade de bloquear muitas decisões nas câmaras.

Mas isso tem um custo político.

Isso trará bons resultados.

Quando estamos no Parlamento, quando estamos a falar de decisões do governo, é mais fácil a um partido explicar as decisões que toma.

Podemos estar a falar da Rotunda.

Aqui podemos estar a falar da Rotunda e as pessoas conversam umas com as outras e não avançou porque este partido não quis. É mais difícil ter o palco, que é o controle da narrativa, como se tem quando se está no Parlamento a fazer exatamente isso.

Por isso eu acho que não é por acaso esta task force, que é um artigo que nós temos no Observador, da Inês André Figueiredo, em que o Chega vai criar uma task force para ajudar os autarcas. Não é por acaso. Eu acho que isto é exatamente para ver medida a medida, decisão a decisão, caso a caso, e isso vai implicar um grande trabalho de um partido que não tem esta implantação autárquica como outros grandes partidos que estão rotinados nisso.

Nem vamos à parte autárquica. É um partido que tem muita dificuldade de recrutamento para o crescimento que teve, como se viu, e que agora assume que, do ponto de vista autárquico, tem ali muita gente que foi eleita, não necessariamente presidentes de câmara, porque não foram muitos, mas muitos autarcas que foram eleitos do Chega e que não têm a mínima ideia, isto são expressões que constam desse artigo do Observador, expressões de dirigentes do Chega que dizem que há muita gente que não tem a mínima ideia de como é que funciona o poder local. E como nós já vimos bastantes casos que foram um embaraço para o Chega, não é mal pensado criar essa task force, assim o partido tenha também a estrutura para que essa task force funcione como deve ser.

São cerca de 2000 autarcas, o call center vai ter de ser robusto.

E, em princípio, não vai ter imigrantes a atender as chamadas.

Quem é que vai atender as chamadas?

Eu acho que esta questão da ingovernabilidade diz mais da vontade de ser uma força de bloqueio aqui e além do que outra coisa. Porque a expressão de Rita Matias é: "Ou cedem às nossas bandeiras". Isso não é uma negociação. "Ou cedem às nossas bandeiras" não é uma negociação. Portanto, eu acho que em algumas câmaras, sobretudo as mais importantes, vão ser momentos de alguma tensão que o Chega pode resolver se quiser, juntando-se ao PSD. E atenção, estamos a falar de Porto, de Sintra, de Gaia, onde os próprios três autarcas, que são os vencedores, já disseram que não têm esse tipo de pruridos a fazer acordos pontuais com o Chega. Portanto, acho que é isso que nós vamos ver acontecer.

E em Lisboa também não há maioria por parte de Carlos Moedas. Tem um governo facilitado com a conquista de mais um vereador.

Sim, mas também vai precisar de ajuda.

Esse, pelo menos, tem experiência nisso, de negociação e de dificuldades.

Tem experiência na Assembleia Municipal.

Eu acho que no caso do Chega, o que vai acontecer, aquilo que me parece evidente, é que o Chega tem medo que aconteça aquilo que já aconteceu antes, que é autarcas eleitos pelo Chega que fazem acordos com a CDU e até ganham pelouros de governação.

E que não vão sair do partido à conta disso.

Claro, porque perdem a confiança política.

E essa regra mantém-se.

Essa regra mantém-se e estende-se ao Partido Socialista. Mas uma coisa é fazer um acordo de governação na câmara, inclusivamente com atribuição de pelouros, que já agora, não é uma coisa assim tão estranha com forças partidárias que não têm nada a ver umas com as outras.

Sim, aconteceu no Porto, por exemplo.

Deixa-me só pôr aí um dado adicional. Mas é que se isso acontecer e eventualmente se for um deputado e se tiver um lugar de vereação executivo, vai ter de deixar o Parlamento

Pode acumular?

Eu acho que, na verdade, podem acumular.

Podem acumular em todos.

Eu acho que tu tens casos de pessoas, deputados que eram presidentes de juntas de freguesia.

Não, isso é diferente. Estou a falar de vereador com pelouro executivo. Por exemplo, Assunção Cristas não tinha um pelouro quando foi vereadora da Câmara Municipal.

Confesso-te que não sei exatamente qual é a regra aí.

É por isso que eu estou cá.

Não, exatamente. E é também para deixar os nossos ouvintes com estas dúvidas todas e à procura de resposta para isso. E para também mostrar que nós não sabemos tudo. É sempre importante para nós, já que somos seres humanos.

Mas eu interrompi, cortei-te a raiz ao pensamento.

Não, sim, e tiraste a credibilidade daquilo que eu estava a dizer, que as pessoas agora estão a ouvir e estão a dizer: "Mas ele não sabe nada daquilo que está a dizer."

Nós somos amigos.

Eu vou encurtar só para dizer que acho que o que vai acontecer, houve essa preocupação, que me parece que faz sentido do ponto de vista da manutenção de alguma coerência narrativa, que não é a coisa que mais preocupa o Chega, mas acho que há mínimos. E não quer que os seus autarcas vão fazer acordos com os comunistas ou com os socialistas, mas também vão permitir, obviamente, que se aprovem coisas medida a medida. Ou seja, não é um acordo formal, é medida a medida. E se o assunto for a Rotunda ou se for não sei o quê, em princípio, nada disso será verdadeiramente um escândalo.

Não será um engulho.

Uma amiga acaba de me dizer que eu tenho razão. Com pelouro têm de deixar.

Então, lá está, fica fácil para todos os elementos que não vão deixar o Parlamento, que já percebemos que são todos.

Exatamente.

Todos os candidatos do Chega.

Pedro, só antes de passar ao Gonçalo, e há nesta altura os partidos a fazerem reflexões sobre os resultados, PSD, PS, PCP também. O que é que estas reflexões te dizem?

Dizem-me aqui várias coisas. Primeiro, o PCP igual a si próprio. Teve um resultado que é o pior resultado autárquico de sempre do PCP e da CDU em câmaras municipais, mas tem este discurso que ouvíamos há pouco o Paulo Raimundo, que é um sinal de resistência num contexto particularmente difícil. O PCP está sempre em contextos particularmente difíceis.

E sempre a ser maltratado pela comunicação social.

Sempre a ser maltratado, sempre a ser em circunstâncias completamente difíceis e sempre a definhar de eleição para eleição, apesar de não ter a quebra, por exemplo, que o Bloco de Esquerda tem tido nos últimos tempos em várias eleições, a verdade é que ouvimos sempre o mesmo argumento. Mas isso não surpreende propriamente. Aquilo que me surpreende nestas eleições e nestes balanços que têm sido feitos é, mais uma vez, as narrativas políticas que os partidos conseguiram impor. O Partido Socialista, que teve um francamente mau resultado nas autárquicas.

Ninguém perde.

Houve alguns que perderam, curiosamente. Quem não devia estar a perder...

Não assumem que perderam, no caso.

Não, mas é que eu acho que houve uma coisa diferente. É que tu tiveste o Chega, por exemplo, a fazer um discurso naquela noite em que parecia exatamente um discurso de assunção de derrota, sendo que é um partido que teve um crescimento enorme. E Pedro Nuno Santos voltou para dizer: "Anda tudo distraído." Eles não tiveram ali nenhum travão. Pelo contrário, se nós olharmos para as eleições autárquicas como elas são, eleições autárquicas e não uma continuação das eleições legislativas.

Das fasquias das eleições.

Porque é esse que é o problema. Eu tenho um amigo que escrevia no outro dia no Facebook e que eu lhe disse: "Olha, vou citar-te um dia destes." É hoje, vou citá-lo. Ele dizia: "Não confundam as coisas. O PS só ganhou face às últimas legislativas. O Chega só perdeu face às suas próprias expectativas." E essa é que é a diferença. E de repente, José Luís Carneiro, que vem com aquele discurso de crescemos face às legislativas e o PS renasceu das cinzas, parecia que o PS tinha tido um resultado extraordinário e não teve, em comparação com as últimas autárquicas e até em termos de número de votos, foi das eleições autárquicas onde o Partido Socialista teve menos votos. No dia seguinte havia jornais que publicavam a Fénix renascida, como se houvesse algum fundamento naquilo. Quer dizer, não há e não se pode comparar aquilo que aconteceu nas legislativas com as autárquicas, dizendo que é uma continuidade e que de repente agora os portugueses olharam para o Partido Socialista como uma alternativa verdadeira, porque não é comparável, da mesma forma que não é comparável aquilo que o governo hoje fez, o PSD hoje fez, quer dizer que as autárquicas mostram que os portugueses estão muito satisfeitos com o governo. Quer dizer, não parece que essas leituras sejam imediatas e sequer lógicas e razoáveis e honestas. Agora, o que eu acho curioso nisto é: temos um PCP que perdeu, mas é porque é uma vítima das circunstâncias. Temos um Chega que fez um discurso, hoje já começou a afinar um pouquinho e a dizer: "Não somos nada derrotados", mas efetivamente era o discurso daquela noite, quando o partido cresceu, efetivamente. Cresceu em número de votos, em número de autarcas eleitos, em número de câmaras.

Para um partido com a idade que tem, candidatou-se a 308 autárquicas.

Exatamente.

Acho que acabou por não ser, porque depois havia algumas irregularidades, mas inicialmente era o único partido até candidato às 308 câmaras. Gonçalo, ainda não falaste muito nessa primeira parte, mas vais falar na segunda.

O nome apareceu no boletim, esse era o objetivo.

Mas Gonçalo, ainda não te ouvimos, nem ouvimos a tua reflexão sobre estas eleições autárquicas. Os partidos estão a fazer as suas reflexões. Encontras vencedores, vencidos? Claramente. Aliás, basta olhar para o plano e há aqui um dado interessante que é: o número de câmaras que a AD ganha é exatamente o número de câmaras que o PS perde. Não é uma transferência de voto direto entre os dois partidos, mas quantitativamente falando, há aqui 21 a mais para a AD, 21 a menos para o Partido Socialista. E é curioso porque esta tendência de perda para o PS não é de agora, nem só das últimas legislativas, porque eu recordo que em 2021 o PS já vinha a perder território autárquico comparativamente a 2017. Em 2017, curiosamente, aquelas eleições autárquicas é que há um grande boom para o Partido Socialista que leva à demissão.

É quase o dobro do PSD.

Exatamente, quase o dobro, que leva à demissão do próprio Passos Coelho posteriormente. Ou seja, eu diria até que esta queda autárquica, e depois podemos até argumentar se influencia também a esquerda genericamente, já vem até desde 2021 e não só tão recente, desde o histórico final de António Costa. Portanto, eu até daria esse ponto. Obviamente que o PSD sai reforçadíssimo. Luís Montenegro aqui faz Faz o penta. Eu já tinha abordado esta questão do penta anteriormente, ou seja, o PSD neste momento tem o governo nacional, tem o governo regional da Madeira, o governo regional dos Açores, a Presidência da República e agora tem a Associação Nacional de Municípios e a Associação Nacional de Freguesias.

E agora deixa de ter menos desculpa para avançar com reformas?

Deixa, claramente. Ontem até se falava na questão de o PSD começar a seguir mais uma agenda própria, porque há quem diga que há uma grande cedência ao Chega, sendo que é preciso compreender também que os contextos são diferentes, obviamente, numa eleição legislativa e parlamentar e numa eleição autárquica, e isso viu-se. Há bocado tu falavas aqui, Pedro, da questão do Chega, que efetivamente teve um grande crescimento que não se aproxima do PSD. Eu acredito que o governo tinha mais receio daquilo que poderia acontecer com o Chega nestas eleições do que propriamente com o PS, porque era expectável essa perda de votos. Eu devo dizer que o discurso do José Luís Carneiro pra mim não me fez sentido absolutamente nenhum. Ele vem dizer antes da noite eleitoral terminar, ou seja, deixou a batata quente do discurso final pra Alexandra Leitão. Com líderes destes, é um bocado complicado, não foi muito simpático da parte dele. E vem dizer: "Foi um reforço do PS, quase assim meia vitória."

O PS não sai humilhado desta, porque chegou a temer-se que isso pudesse também acontecer.

Sim, mas como é que eu vou dizer? Humilhado, não acho que saia.

Exato, não sai humilhado.

Mas não sair humilhado não é propriamente uma vitória. Lá porque o Desportivo das Aves pode perder cinco a zero com o Benfica, não quer dizer que por perder dois a zero não perca também. Portanto, é um bocado por aí. Isto pra dizer depois, acho que o maior vencedor é claramente o PSD, o maior perdedor, a par do Bloco de Esquerda, se quisermos concluir com isso, sai o Partido Socialista, mas há aqui um dado curioso genericamente, é que apesar das dinâmicas serem diferentes das legislativas quantitativamente falando, as dinâmicas são iguais, ou seja, todos os partidos à direita do PS cresceram. O PSD cresceu relativamente às últimas autárquicas, o CDS também cresceu, curiosamente, a IL cresceu, o Chega cresceu, e na mesma medida, todos os partidos à esquerda, exceto o LIVRE, caíram. Exatamente a mesma coisa aconteceu nas eleições legislativas. Ou seja, embora a dinâmica seja diferente, a tendência foi exatamente igual.

O LIVRE aqui nestas autárquicas, um bocadinho por episódios mais surreais, nomeadamente em Felgueiras e não sei o quê.

Tem uma câmara, não é?

Sim.

Que era a somação.

A designação é LIVRE PS.

Como é que se chama aquilo?

Aparentemente...

É uma barriga de aluguer, basicamente.

Exato. É por aí.

Mas há aqui mudanças estruturais, de facto. A perda da influência da CDU. O Bloco nunca foi propriamente uma grande força autárquica.

Nunca teve muita força autárquica, é verdade.

Mas quer dizer, havia zonas, por exemplo, na Amadora, há quatro anos o Bloco e o Chega estavam empatados. Hoje tu tens o Bloco que perde dos 3 mil e tal, cai pros 1000, e o Chega sobe dos 3 mil e tal pros 12 mil. E isto em várias outras localidades. Portanto, há aqui uma transformação que de facto está a passar e tu há pouco dizias que talvez não ter a agenda do Chega. Eu acho é que nós próprios vamos ter que começar a deixar de usar essas expressões, porque efetivamente esta agenda do Chega se calhar é uma agenda dos eleitores.

Sim.

E eu acho que se alguma coisa se começou a perceber aqui, quer do ponto de vista legislativo e também autárquico, é que houve políticos de outras forças políticas que começaram a assumir algumas bandeiras que não é que são do Chega. Isso sim, que é uma bandeira do Chega.

O Chega foi o primeiro a apresentá-las politicamente.

O Ricardo Leão explicou aqui de manhã na comissão de inquérito.

Disse o António Costa que fica lá na Europa, que não faz falta nenhuma.

Ele foi muito atacado dentro do próprio Partido Socialista, verdade seja dita, não por Pedro Nuno Santos.

Aliás, o Pedro Nuno, quando saiu da liderança do PS, disse logo que o PS tinha que mudar de estratégia, o que é curioso, porque sempre o vimos como o representante da ala mais à esquerda do partido.

Mas a verdade é que esse tipo de discurso é o discurso que efetivamente interessa e preocupa os eleitores. Depois, se os políticos ao incorporá-lo devem fazer uma espécie de pedagogia, explicar, mas tu não podes fazer isso se tu não assumires esse tema como uma causa. Se tu não disseres: "Temos este problema, temos que falar sobre ele e depois resolvê-lo."

Há notas, Pedro? Tens notas pras autárquicas?

Tenho, mas eu vou aquecer o último. Desculpa lá que eu agora me destranque.

Goçalo.

Eu vou ter que dar inevitavelmente uma nota 17 a Luís Montenegro, porque consegue uma agregação de poder que nenhum líder do PSD conseguiu até hoje.

Eu não vou dar nota a esta questão das autárquicas, prefiro falar no tema esquisto.

Mas eu tenho uma nota que eu entretanto, não é que me lembrei agora, mas eu sei a quem é que eu quero dar nota. Quero dar nota a todos aqueles que vão proceder a todas as recontagens de votos das autárquicas, porque isto de ganhar e perder é tudo muito bonito e na democracia, mas depois-

Ainda vai ao ar

...há sempre quem resista e, portanto, a recontagem dos votos.

A nossa solidariedade para com esses cidadãos que dão de si.

Um grande 19 pra eles.

Que dão de si em prol da sociedade e dos outros. Muito obrigado. Um 19 pra quem vai recontar votos. E agora presidenciais, Judite de França.

E agora presidenciais. Soubemos ainda há pouco.

Sim, há uma hora, 45 minutos, mais ou menos.

Que José Luís Carneiro e Carlos César vão propor apoiar António José Seguro.

Não digas isso assim com essa ar.

Tenho que ser mais exultante?

Mais solene, porque isto é uma coisa que tu viste há quanto tempo é que eles andavam a ignorar António José Seguro?

Sim, como se ele não existisse, exatamente.

Tinha ficado prometido pra depois das autárquicas, cá está.

Até parece que estás a dizer: "Está bem, o PS apoia António José Seguro."

Finalmente.

Seguramente, eles não estão com esse espírito, nem pensar.

O que eu queria dizer era finalmente José Luís Carneiro vai apoiar António José Seguro, que é aquilo que tem que fazer, como não tem outra alternativa.

Acho que foi mais António José Seguro que levou o PS a apoiá-lo do que o PS propositadamente a apoiar o António José Seguro.

É, por aí, isso é tudo muito bonito, mas o PS também não tem ninguém pra apoiar.

Certíssimo.

Eles bem tentaram.

Tentaram, claro.

Não tem ninguém pra apoiar. Que pode ser apoiado, está de pedra e cal em terceiro lugar nas sondagens.

Terceiro lugar? Na nossa estava ali a uma distância muito curta de Marques Mendes.

Era empate técnico.

No segundo lugar também é empate técnico.

Exatamente.

Na verdade.

Isto para dizer o quê? Para dizer que objetivamente acho que José Luís Carneiro não podia fazer outra coisa, não tinha outra solução. E portanto acho que apoiar de forma inequívoca António José Seguro é aquilo que lhe compete também, neste momento, enquanto líder do Partido Socialista.

Pedro.

Eu só não sei é se aquilo é inequívoco no sentido de que demorou tanto tempo, houve tanta resistência, tanta subidela para o lado, tanto desconforto, tanta tentativa de encontrar outro candidato que não fosse ele.

Mas agora...

Mas agora parece desespero. Parece gente: "Pronto, vá, vamos lá apoiar o homem."

Achas que agora António José Seguro vai dizer: "Agora não quero."?

Não, por acaso era de homem. Era de homem dizer isso.

António José Seguro está sempre a dizer que é uma candidatura completamente apartidária.

E vai continuar a fazê-lo, sem nenhuma dúvida.

Como são todas as candidaturas.

Aliás, talvez seja isso que o PS tentou fazer, mostrar que não é o motor da candidatura de António José Seguro.

Isso ficou bem claro.

Acho que isso ficou bem claro.

O motor nem é vela.

Não é nada. Até achei graça à coreografia. Começa com a líder da JS a fazer uma declaração de apoio, a dizer que não é só política, é a pessoa, é o ser humano. E tu olhas e dizes: "Mas estiveste distraída até agora? A JS esteve distraída?" E no mesmo dia, o presidente e o secretário-geral também confirmam, através de uma coisa à Agência Lusa, que vão propor o apoio oficial do Partido Socialista. Acho graça. Acho que, de facto, as autárquicas, nós ainda falamos delas, mas agora o que vai começar a mexer são as presidenciais. Sinal disso também o anúncio de Marques Mendes de que Rui Moreira vai ser o mandatário dele. Acho que é um bom trunfo que Marques Mendes apresenta.

É um bom nome.

Porque Rui Moreira tem, sobretudo no Norte, naturalmente, mas que construiu um bocadinho. Se nós pensarmos naquilo que é um político independente, Rui Moreira é talvez o rosto mais visível desses movimentos independentes, com bastante sucesso, de resto, na passagem pela Câmara do Porto, três mandatos sucessivos. Logo a seguir às autárquicas apresentar este nome acho que é uma boa jogada de Marques Mendes, que não está fora do campeonato da vitória. As sondagens mostram ali um empate técnico, mas estes trunfos acho que ajudam também a dar uma graça a esta corrida que... Força, Gonçalo.

Estávamos aqui num compasso de espera para mais.

O complemento que eu ouvi era...

Sim, isso foi quase cinematográfico, Vlad, espetacular para rádio, está ótimo. Eu acho que aconteceu aqui um fenômeno interessante com António José Seguro, que foi o receio de várias alas dentro do Partido Socialista de que isto eventualmente pudesse correr bem a António José Seguro, porque vamos colocar aqui um cenário hipotético. António José Seguro, imaginando que eventualmente não ganharia a eleição presidencial, mas ia a uma segunda volta e possivelmente quase ganharia contra Gouveia e Melo ou outro nome qualquer nessa mesma segunda volta. Muitas alas dentro do Partido Socialista certamente ficariam preocupadas com aquilo que seria o ascender novamente de António José Seguro como um possível líder do Partido Socialista. Porque vejamos, que nomes no centro-esquerda, que é onde a esquerda neste momento se quer posicionar para não perder ainda mais eleitorado, é que existem para conseguir captar eleitorado nesse espaço ideológico? É que não há muitos. E António José Seguro tem uma coisa a seu favor, que é: pode sempre dizer, e tem razão nisso, "eu quando fui líder do Partido de Centro-esquerda em Portugal, eu não tive a oportunidade de me candidatar em eleições legislativas absolutamente nenhuma". Porque ele vem a seguir a José Sócrates e vai embora em 2014. As eleições são só em 2015. Portanto, eu acredito que dentro do Partido Socialista haja muito receio que isso seja sequer uma possibilidade. Vamos a notas, Gonçalo.

Para António José Seguro?

Ou para o PS, ou para este tema.

Eu vou dar um 10 ao Partido Socialista por apoiar.

Estão bem ali há bocadinho a dar notas altas, e agora?

Não, tive que dar o mínimo olímpico ao PS, porque acho que era o mínimo, até porque era como há dias estava a dizer há bocado, não tinham muito mais opções, portanto eram os mínimos olímpicos para passar.

Eu vou dar 10 a José Luís Carneiro, porque é o que ele merece.

10 também?

10. Ok.

Eu vou dar aqui um 18 a António José Seguro, que tem um ar plácido, calmo, não é propriamente a pessoa com o maior carisma de uma sala.

Certo.

Mas conseguiu levar água ao seu moinho.

E quebrar o tabu.

E o Partido Socialista a apoiá-lo oficialmente, e eu acho que ele merece aqui uma nota alta.

Estão dadas as notas no "E o vencedor é?", amanhã há nova edição nas manhãs 360 depois das 08h30.