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E o Vencedor É, na Rádio Observador, com a Judite França, o Alexandre Borges e a Helena Garrido. Além da rádio, também estamos em direto e a cores no YouTube. Também é possível ver este E o Vencedor É através das redes sociais do Observador. Hoje vamos falar do caso da família do guarda-freio que morreu num acidente no elevador da Glória, em Lisboa, e que ao fim de seis meses ainda não recebeu a prometida ajuda, a bolsa para os filhos deste homem. Também olhamos para os números do desemprego e a aprovação do lay-off a 100% para os trabalhadores das empresas afetadas pelo mau tempo. Mas começamos pelo debate quinzenal desta tarde no Parlamento, que, Helena Garrido, teve mais momentos, não sei como classificamos.

Cansativo.

Sim, eu ia dizer tristes.

Cansativos.

Cansativos, sim.

Já chega. Eu penso que André Ventura vai ter de começar a sair deste registo se tem alguma ambição de alargar a sua base eleitoral, se quer baixar a sua taxa de rejeição, porque aquilo que se passou hoje foi manifestamente desnecessário.

Um bate-boca desagradável entre André Ventura e Teresa Morais, que estava a presidir à Assembleia da República.

Teresa Morais, de facto, podia ter-se irritado um pouco menos, mas acredito que não é fácil. Mas o incidente em si é completamente injustificado. Nem se conseguiu perceber.

Ver de onde é que veio.

De repente, aquilo escalou por ali acima sem se perceber muito bem por que o André Ventura estava a considerar que estava a ser, mais uma vez, injustiçado. E passamos o tempo nisto, injustiçado e roubou 50 anos. Acho que a partir de um determinado patamar, nós temos de entrar no tipo de discursos, sobretudo se André Ventura quer ter ambições de reduzir a sua taxa de rejeição, ou se quer ficar como está, com 60 deputados, sempre a dizer que houve 50 anos a roubar e que há muita corrupção e que são todos muito injustos nas intervenções no Parlamento. E que, para quem estava a seguir o tema, aquilo de repente escala de uma maneira irracional, aparentemente por causa de uma questão processual, daquelas do regulamento do Parlamento, que só os entendidos que estão há muitos anos entendem. Obviamente que aquilo depois gerou o nós contra eles, que é o Parlamento inteiro a bater palmas contra a bancada de André Ventura. Não tenho a certeza que isto continue a funcionar. Admito, se calhar vivo numa bolha, mas parece-me que está-se a atingir o limite da capacidade deste tipo de desempenho se redundar em mais votos. Parece-me.

Eu também queria ir à substância do debate, à parte noticiosa. Não sei se a Judite e o Alexandre querem.

Eu percebo o que a Helena estava a dizer, mas eu acredito que muitos portugueses tenham ficado com os cabelos em pé quando ouviram aquilo. Perdão.

Os que estavam a ouvir direito.

Os que estavam a ouvir direito. Não tenham percebido.

Do lado dos outros, do lado dos eles ou dos nós.

Eu acho que ficaram com os cabelos em pé por ouvir André Ventura e o resto da patiada da sua bancada parlamentar, porque basicamente André Ventura acusou Teresa Morais de não conseguir despir a camiseta do PSD.

Exato.

E de se comportar como uma dirigente do Partido Social-Democrata e não como uma vice-presidente da mesa. Para quem não ouviu, isto durou longos minutos, porque depois todas as outras bancadas parlamentares fizeram uma interpelação à mesa para falar sobre a condução dos trabalhos. Enfim, não era sobre isto o tema. O tema de hoje era sobre a intervenção no Irão.

Alexandre, queres dizer alguma coisa sobre isto? Rapidamente, só para irmos ao combustível.

Há a realpolitik e há a realpolitik tok, que é o que faz André Ventura. Está sempre à procura de criar esse momento de inflamação, que vai dar um vídeo maravilhoso de um minuto, ou dois de 30 segundos, que vão ter milhares e milhares de shares e de likes nas suas redes sociais, não tenho a menor dúvida. A história vai ser contada outra vez com essa forma de que é ele contra tudo e a seguir vai aproveitar as deixas ou os erros da restante oposição, que é depois vir Inês Sousa Real dizer que ele faz aquilo porque é contra uma mulher, que é um argumento tonto, acho eu. Que lhe permitiu responder, dizer: "As maiores guerras que eu tive neste Parlamento foram contra Ferro Rodrigues e Augusto Santos Silva." Portanto, ainda vai sair aplaudido e em ombros na sua base de apoio, que é grande, como sabemos. Agora, enfim, obviamente concordo com ambas, não sei até onde é que isto leva, mas por enquanto leva. É triste, mas quando a Helena diz, e com todo o bom senso do mundo, que estamos a atingir um limite

Tanto descoberto, infelizmente, que esse limite pode sempre recuar um bocadinho mais.

Vamos então falar de ISP.

ISP.

É um tema sempre fascinante. É um tema que eu trago para todos os jantares, o ISP. E não há ninguém melhor para falar apaixonadamente sobre o ISP do que a Helena Garrido.

O ISP.

Nessa altura, os carros estão a abrandar.

Para poupar.

Para te ouvir.

É sim, para poupar combustível. Ora bem, aconteceu aquilo que se esperava, que já se antecipava. O governo vai aplicar o mesmo modelo que foi aplicado na Ucrânia.

Deixa-me lá enquadrar, só para isso também não ficar muito estranho. Prevê-se uma subida muito robusta do preço dos combustíveis já na próxima semana, nomeadamente do gasóleo, até porque o gasóleo refinado passa muito pelo Estreito de Hormuz, que agora está bloqueado. E o governo diz que irá fazer um desconto no ISP, no Imposto sobre Produtos Petrolíferos, que é sempre uma coisa difícil dizer, se o preço dos combustíveis subir além dos R$ 0,10. E aí haverá um ajuste, um desconto, porque acima do valor que acresce ou aumenta o preço por litro, depois vêm os impostos, que são calculados também em conformidade.

Sobretudo o IVA. Na prática, o que o governo vai fazer é não ganhar dinheiro com a crise, para simplificar. Não ganhar mais receita fiscal com a subida do preço dos combustíveis. É o modelo que já foi seguido na altura da invasão da Ucrânia pela Rússia, e o que o governo estabeleceu foi que a partir da subida de R$ 0,10, começa a amortecer essa subida com a redução do ISP para manter exatamente a mesma receita de IVA.

Mas isso, obviamente, diminui um bocadinho o aumento do preço a pagar por litro, mas não acaba com o aumento.

Não. Há aqui várias perguntas. Qual é o preço de referência que vai usar? É o quê? O desta semana?

Aparentemente, sim.

Será o desta semana.

Porque senão é R$ 0,10 em relação a qualquer coisa. Há de ser R$ 0,10 em relação a esta semana e, portanto, aquilo que os portugueses poderão esperar é que, seja qual for o aumento, não aumenta mais de R$ 0,10, para neutralizar o tal efeito de subida da receita fiscal. Isto, basicamente, face às notícias que estavam a aparecer, e que apareceram, o Observador fez um texto bastante completo sobre esse tema, de subidas que podiam atingir até os R$ 0,30, no caso do gasóleo. Mas não se assustem, não era exatamente, o mais provável era os R$ 0,20. Que já é uma barbaridade.

R$ 0,20 em 30 litros são seis euros.

Exatamente, já era uma barbaridade. Não te ponhas a fazer contas em direto, senão acontece alguma coisa.

Eu tinha nojeito esta ontem. Era a segunda.

Não, esta já estava escrita. Tivemos um ouvinte nosso que nos ouve na Alemanha, que nos deu conta também, e por acaso hoje fui olhar também para esses dados, de aumentos já na Alemanha de R$ 0,30 no preço por litro nos combustíveis.

Há aqui um aspecto que valia a pena também sublinhar, que é: esta alteração não pode ser feita, parece-me, sem o enquadramento da Comissão Europeia. Como nós sabemos, um dos alertas que a Comissão Europeia estava sistematicamente a fazer era para a necessidade de voltar a reajustar os preços dos combustíveis àquilo que eram antes da intervenção na Ucrânia. Os alertas todos nas avaliações regulares que a Comissão Europeia faz à economia portuguesa. Eu não tenho a certeza que isto não tenha de ter uma abordagem ao nível da União Europeia para ser concretizado. Pode não ter, o governo é relativamente autônomo em matéria de receita fiscal, não é autônomo em matéria das taxas do IVA na totalidade, como sabemos, mas isto vai permitir, pelo menos, nós não irmos para a fila dos combustíveis, porque já era o tema que todos já debatíamos, se íamos já todos encher o depósito face à perspectiva de agravamento dos combustíveis. Isto não significa, obviamente, que dependendo da dimensão do impacto da crise, estamos a falar de um impacto que resulta da crise gerada pela guerra que está a decorrer no Médio Oriente, isto não impede que o impacto daquela crise não venha a ser significativo, dependendo do tempo que ela durar, como é óbvio.

Já não vamos ter tempo agora ainda na primeira parte para ouvir a Judite e o Alexandre sobre o ISP, mas eu sei que eles têm coisas para dizer. O Alexandre, aliás, enviava-me mensagens logo de manhã: "Eu quero falar sobre o ISP." Mas queres deixar já uma nota, Helena?

Não, eu quero deixar uma nota. A quem é que eu posso deixar uma nota? Ao primeiro-ministro, por ter acelerado, já que em geral não se acelera nada

Em muita coisa, ter acelerado na adoção destas medidas, que nós sabemos que é bastante sensível. Mais uma vez, os partidos da oposição estão sempre a falar dos combustíveis. É sempre uma matéria que provoca muito nervosismo.

Portanto, queres dar a nota?

Dou uma nota ao primeiro-ministro, um 12.

Um 12. Fica dado o 12. Judite, ficamos aqui. Vou guardar o Alexandre mais um pouquinho, porque o Alexandre quer mesmo falar sobre ISP, mas queríamos muito ouvir-te também, Judite, sobre o ISP.

Tenho muito pouco a dizer, a não ser que abasteci ontem.

Foste à bomba ontem.

Fui à bomba ontem. Logo que fizeste aqui a entrevista. Logo depois da entrevista que nós fizemos aqui sobre um analista de mercados financeiros, que nos falava de que o aumento pode ir até os €0,20.

No gasóleo.

No gasóleo, que é o meu caso. E como eu calculo que até o final da semana e com o avolumar de notícias sobre o assunto, as filas também se avolumem, eu decidi antecipar-me. Antecipaste. Mas em relação à medida do governo, eu acho que é uma medida absolutamente razoável quando estamos nesta circunstância, como já foi razoável no tempo do início da guerra na Ucrânia. E eu acho que se do ponto de vista europeu for preciso alguma margem, acho que essa margem será dada sem qualquer problema. Sim, sem problema. Todos estão a ser afetados.

Alexandre, vamos guardar a tua opinião sobre o déficit do subsetor Estado para outro dia, mas hoje queria mesmo ouvir-te sobre esta medida de ISP.

O déficit do subsetor Estado é muito.

Sinto falta do Rufar de tão bom.

Eu quando vou para esse jantar, achas que digo que sou amigo dele na Garrido? É tudo que eu tenho para impressionar as pessoas.

Portanto, tudo que sirva para controlar o preço do gasóleo.

Acho bem.

Pronto, aí estás. Acho bem. Pronto, obrigado, Alexandre. Foi uma opinião muito sincera.

Não, brinco. Obviamente, não tenho muito a acrescentar ao assunto, tirando que espero que o governo possa ter autonomia de ser ágil nessas matérias, até porque a carga fiscal é tão grande para tudo que malfeito fora se não pudéssemos responder nestes momentos, em que de facto o Estado não serve, ao contrário do que às vezes parece, para ter lucro. Não é uma empresa que precise de ter lucro, precisa sobretudo de viabilizar a atividade do país. Mas sobre o debate todo, e para lá daquilo que foi o incidente Ventura, o episódio Ventura desta semana ou desta quinzena, e da discussão sobre o ISP, há mais dois ou três aspetos só em que queria tocar. A questão da base das lajes, que inevitavelmente entrou no tema e de que nós temos falado aqui por força das circunstâncias toda esta semana. Há uma coisa que é: se há coisa um pouquinho mais irritante do que as falinhas mansas do governo, é o peito feito da oposição. É a maneira como quando a malta está na oposição, faz peito para estas coisas e de facto se põe de voz grossa, particularmente naqueles que às vezes têm responsabilidades governativas e como a gente sabe, não fazem nada de diferente do que isto. E parece-me que apesar de tudo e daquilo que já falámos nestes últimos dias, das ambiguidades do discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros, da demora, da má comunicação disto, parece-me que Montenegro esteve bem.

Sim, foi mais claro, não é?

Exatamente. Foi mais claro, assumindo, acho eu aí sem medo, o que tem que fazer, que é qual é a responsabilidade de Portugal, qual é a responsabilidade do primeiro-ministro, com o que a gente se compromete aqui. E ele diz: "A nossa defesa também passa pelas nossas alianças", que é sempre aquela coisa que nós não sabemos muito bem o que é que seria de Portugal. Eu nunca percebo muito bem o que é que nos aconteceria militarmente caso a gente se quisesse chatear muito com os Estados Unidos. Ou corríamos para a China ou então íamos restaurar o serviço militar obrigatório e correr a um armamento próprio. E eu não estou propriamente a ver as pessoas que contestam a nossa colaboração com os Estados Unidos a defender este tipo de caminho. Ou então vivemos num mundo de unicórnios e fadas em que ninguém nos atacaria, ninguém colocaria em causa os nossos interesses apenas pela nossa imensa simpatia e charme pessoal. Portanto, a defesa do interesse estratégico do povo português, que é o que diz que o governo aqui ia fazer, parece-me a posição correta. Depois, temos também a questão lamentável de perceber que o Parlamento volta a não chegar a um acordo para a eleição dos órgãos de Estado.

Exatamente.

E é isto que temos. Temos André Ventura a incendiar, temos o PS neste papel um pouquinho sonso nestas coisas, nos outros temas, temos o Chega a incendiar qualquer debate. Agora também já gastamos milhões na nossa rede consular e não fazemos nada e mandamos as pessoas vir a nado e coisas deste género, portanto, tudo tem que ser um grande incêndio, mas depois não se conseguem entender país. E portanto, a nova data para eleger-

É irónica. É muito.

É dia 1 de abril. Parece uma alusão.

Estamos a falar da Provedoria, Tribunal Constitucional, enfim.

Exatamente.

Temos de avançar agora para outro tema, o caso da família do guarda-freio, que morreu no acidente do elevador da Glória, e Judite de França, ao fim de seis meses, os filhos ainda não receberam a prometida bolsa de estudo.

Sim, uma bolsa escolar que ainda não foi recebida e foi a própria Câmara de Lisboa que a prometeu e que reconheceu a falha quando foi questionada pelo Partido Socialista, isto numa reunião camarária que decorreu hoje. Ainda não foi paga a bolsa escolar, nem lhes foi assegurado o apoio psicológico, que era devido. Nós já ouvimos numa peça quem levantou a questão na Câmara foi a vereadora do PS, Alexandra Leitão Segundo o Partido Socialista, confrontado com a notícia do guarda-floreiro, por um lado, e por outro, nos atrasos do pagamento das compensações às vítimas do acidente, a câmara remeteu para a seguradora, para a Fidelidade.

E para a Carris também.

E para a Carris, que é uma empresa da câmara, convém não esquecer.

A Carris diz que falta um regulamento, mas que amanhã sai esse regulamento.

Essa também é curiosidade. Pelos vistos, falta o regulamento há imenso tempo, porque já passaram seis meses, e depois das notícias saírem, o regulamento vai ser aprovado já amanhã. Eu recordo-me quando aconteceu o acidente, não faltaram homenagens da própria câmara ao herói André, referindo-se ao guarda-floreiro. Quando é preciso ajudar aquela família que perdeu o pai e o marido e a comoção já passou, são absolutamente esquecidos. E essa notícia de que o tal regulamento, curiosamente, vai ser aprovado amanhã, segundo garante a Carris, prova que não há grande paciência para este país, porque de fato é preciso que as notícias saiam para que seja feita justiça às pessoas.

Tens uma nota?

Isto está profundamente errado. Eu vou dar à Carris um oito.

Um oito. Helena Garrido, vamos também falar sobre o lay-off, que foi aprovado a 100% contra a vontade do governo e do PSD. Deixe-me tentar explicar isto rapidamente. Para os trabalhadores das zonas afetadas pelo mau tempo, cujas empresas estão impedidas de laborar por danos, porque estão danificadas, não conseguem voltar ao trabalho, entram em lay-off. Normalmente, no lay-off, a Segurança Social paga 66% do vencimento.

Bruto.

Aqui vai pagar 100%.

Vamos ver se vai pagar. A proposta, como já ouvimos nas notícias, foi aprovada por todos os partidos da oposição, com exceção da Iniciativa Liberal, CDS e PSD.

Por que isso pode ser um problema?

Isto não é um problema muito grave. Há aqui um problema que é: o governo comete aqui um erro, nomeadamente a ministra do Trabalho, quando se compromete a pagar a 100%. Agora, também concordo com o primeiro-ministro de que isto é uma questão de justiça relativa. O que é que se passa? Aquelas pessoas em lay-off naquela região iriam receber 100%. No resto do país inteiro, iam receber dois terços. Há aqui um problema de injustiça relativa quando nós, para ser rigoroso, devemos focar os apoios e desenhar os apoios especificamente para aquela região, para aquilo que aquela região precisa. E o primeiro-ministro disse, e bem, que aquela região vai ter um conjunto de apoios alargados. Nós podemos discutir se são poucos e se não devem ser mais, se esses apoios não devem ser superiores. Mas não podemos é estar a querer criar regras excepcionais, introduzir exceções numa regra que existe. É verdade que na pandemia foi assim, mas na pandemia era para toda a gente, era para o país inteiro. Percebe-se isso, é uma questão de justiça relativa. E depois, também me parece que não fica bem aos partidos andarem a encontrar táticas para contornar leis. Para contornar a lei-travão, disseram: "Mas o restante um terço é pago com o orçamento 2027." Se a partir de agora começarmos a fazer isso com tudo, já estamos a fazer o orçamento 2027 em 2026, ou a arranjar compromissos de despesa em 2027. Não me parece que a oposição tenha estado bem neste processo, independentemente de o governo também ter criado uma expectativa quando a ministra do Trabalho anunciou isso, mas a oposição podia ter tido um bocadinho de bom senso, para além do incidente que é relatado pelo público, de que foi preciso explicar ao deputado do CHEGA porque é que tinham de fazer isto assim para não violar a lei-travão e o governo não aplicar isto.

A lei-travão, no fundo, é a norma que impede que sejam aprovadas decisões ou medidas pelo Parlamento que ponham em causa aquilo que está no orçamento. Vamos imaginar que agora o Parlamento decidia que cada português vai ter uma casa com piscina.

Ou um Ferrari.

Ou isso. Isso iria exceder o orçamento, portanto, não é permitido.

O orçamento, como sabemos, além de outras coisas, é uma autorização de despesa, o máximo que o Parlamento autoriza. E está aprovado e o Parlamento não pode aprovar mais despesa que fure aqueles tetos. Obviamente que a oposição diz: "Apresenta-se um orçamento retificativo." Se o governo quiser, a iniciativa é do governo.

A oposição fica bem na fotografia.

É o populismo no seu melhor, porque nós, na prática, aquilo que vemos é que o populismo atravessa todos os partidos. Não são capazes de explicar às pessoas por que. O governo também não conseguiu explicar muito bem por que essa injustiça relativa. O primeiro-ministro só disse injustiça relativa.

Tens alguma nota para isto?

Olha, eu tenho uma nota para os partidos da oposição em geral, que vai um seis em geral para os partidos da oposição. E para o governo, um 9, porque falham sempre na explicação.

E os nossos ouvintes aqui do E o Vencedor É não precisam de agradecer. Já demos duas ideias para a conversa, para quem tem um jantar hoje: lei Travão. E lay-off também. Lei Travão e ISP é algo que fica muito bem.

E o déficit do subsetor Estado também gosto.

Esse vamos guardar, que eu gosto muito do déficit do subsetor Estado. Esse é um tema que me fascina.

O grande icebreaker.

Exato, no elevador fica sempre bem. E o valor do déficit do subsetor Estado. Alexandre, tu tens uma boa notícia.

Tenho, exato. É verdade, já não tenho assim muito tempo.

Tens. Ainda temos aqui três loucos minutos.

Não, podemos ir mais um pouquinho.

Então temos imenso. É sobre o desemprego, que quase sempre rodeamos os temas difíceis ou as más notícias, e de repente passou mais ou menos despercebida esta notícia de que continuamos a ter um desemprego muito baixo, foi de 5,6 em janeiro, o mesmo do mês passado, mas menos do que há um ano, bastante menos do que há um ano. E portanto, o dado é este: já há 24 anos não começávamos um ano com um desemprego tão baixo, mesmo abaixo da média europeia, que está em 5,8, na zona euro em 6,1. É menos 0,7 do que há um ano. Desculpem, que me tinha faltado este número. Ou seja, apesar de todas as críticas à economia portuguesa e se calhar contra todas as apostas, isto continua a portar-se excecionalmente bem. Portanto, tendo de recuar a fevereiro de 2002 para comparar, ainda a Josita andava de cueiros. Também para usar uma daquelas palavras que tu gostas.

Gosto disso.

Muito obrigada. Eu não sei se me vou ofender.

Isto era contra mim próprio. Helena, tu eras uma jovem, já estavas num liceu.

Exato.

Muito bem, num décimo primeiro, décimo segundo. Mas mais do que isto, há um dado que depois não é tão feliz, que é quando olhamos para o desemprego jovem. Isto é, no desemprego jovem estamos acima da média europeia.

Qual é o valor aí?

18,2% em Portugal, contra a média europeia, que ronda os 15. Ainda assim, também está a descer em relação ao ano passado, 0,4. Portanto, continua a descer nos últimos anos. Portugal tem até a sétima taxa de desemprego jovem mais elevada da União Europeia, mas tem vindo a descer. E esse dado eu acho interessante para pensar naquele que é realmente o caminho da economia portuguesa e no que tem sido o comportamento político em torno disto, com os temas da imigração, da emigração. Então, isto levou-me a um texto de Manuel Caldeira Cabral, insuspeito para comentar isto, porque foi ministro da Economia do primeiro governo Costa, já que há uns quantos anos. Ele, em dezembro, no final do ano passado, publicava um longo texto no Expresso acerca disto, acerca da questão do desemprego jovem e também do relatório do Banco de Portugal de outubro, que se dedicava a este tema da imigração jovem, no caso português. E então, nos três últimos anos, ao contrário daquilo que é muito voz corrente dizer-se ou achar-se, houve mais jovens portugueses a regressar do que a sair. E mais do que isso, houve mais licenciados a entrar em Portugal, no cômputo geral, do que sequer a serem cá formados. Ou seja, porque estamos também a atrair muita gente qualificada de fora, por muitas razões diferentes.

Os nômades digitais.

Os nômades digitais, certamente.

Não criam valor.

Mais ou menos.

Eles estão a trabalhar para o estrangeiro.

Uns estarão, outros criam cá empresas também. Aumentam as rendas, é por isso que isto está tudo ligado, mas também te trazem uma quantidade de pessoas que têm o poder de compra para gastar em Portugal.

Sim, é verdade.

Portanto, nós não podemos querer ter o bolo e comer o bolo.

Totalmente, exato.

E depois, lá está, se há gente a sair, quem é que a gente quer que entre? A gente não quer que entrem nem os imigrantes pobres, nem os imigrantes ricos. E depois, mesmo assim, esse é um dado sobre a questão de atrair talento, porque também nos diz outra coisa sobre a economia mundial. Nós não podemos continuar a olhar para o mundo como era há 30 anos. As pessoas movem-se, e movem-se bem, e fazem bem, procuram o melhor para as suas vidas, onde acharem que isso está. E isso também não significa que fiquem lá para sempre, porque também há muita gente a regressar, e que faz uns anos aqui, faz uns anos ali, regressa. E neste momento, o padrão da imigração em Portugal já não tem nada a ver com o que era nos anos 60. É um padrão de imigração que, neste momento, em termos de movimentação, tem tudo a ver já com aquele que é o resto do padrão europeu, que é uma imigração que se faz de norte a norte, que se faz entre países do hemisfério norte, que têm um determinado nível de desenvolvimento. Já não estamos a falar dos padrões de imigração antigos de norte sul ou de sul norte.

Vamos à tua nota, Alexandre.

A minha nota é que, apesar de tudo e contra todo o populismo que se faz, as teorias da substituição, por exemplo, vale a pena quem entender, a teoria da substituição, de que estamos a mandar embora os nossos melhores e a entrar gente desqualificada. Contra isso, acho que temos de dar mais algum valor à nossa economia e ela aqui porta-se bem. Acho que merece um 14 por estes números que tem apresentado.

Uma nota positiva a terminar este E o Vencedor É. E amanhã há mais, de manhã, depois das 08h30, nas manhãs 360.