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O "O Vencedor É" na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Também é possível ver o que se passa na rádio e em direto. Hoje com a Judite França, o Alexandre Borges e o Anselmo Crespo, vamos falar sobre o código laboral. Está a decorrer a esta hora um novo encontro entre André Ventura e Luís Montenegro. Vamos ver se termina em tempo útil para merecer comentário no "O Vencedor É". Também faz parte do menu de hoje José Luís Carneiro, que decidiu chamar Mário Centeno, entre outros ex-ministros investigadores, para tentar construir uma estratégia alternativa à reforma laboral que está a ser apresentada pelo governo. Mas vamos começar pela paixão dos políticos pela bola e os convites aos líderes políticos e parlamentares para dar um saltinho aos Estados Unidos e ver a seleção a jogar. A esquerda já disse que não vai, a direita sim, a convite da Federação. O convite é dirigido ao cargo e não à pessoa, para que tudo fique legal. Judite, assim está legal?
Não está legal. Acho que não. Vamos começar só pelo início para ter aqui um pouco de contexto, porque para quem não se lembra, em 2016 nós tivemos três secretários de Estado que foram ao Euro, em França, ver a seleção e as viagens, os bilhetes, tudo foi pago pela Galp. E na altura rebentou o escândalo, como se costuma dizer.
Demitiram-se.
E nasceu uma regra. Nasceu a regra do código de conduta, que fixa em 150 € o limite das ofertas que um titular de cargo público pode aceitar. Foi uma regra desenhada à medida deste preciso problema, que é políticos a irem à bola, à borla, que é um problema do qual padecemos. Dez anos depois, cá estamos outra vez e agora é a Federação Portuguesa de Futebol a convidar, não é uma empresa, é diferente, mas a convidar os líderes partidários e os líderes da bancada para a estreia de Portugal frente ao Congo. É evidente que um bilhete para o jogo, mais a viagem aos Estados Unidos, ultrapassa largamente os 150 €. Portanto, pela regra de 2016, nenhum deputado podia aceitar. Só que lá está, há aqui uma vírgula, e a Federação encontrou a vírgula, que o convite não é dirigido ao deputado Hugo Soares, ao deputado Pedro Pinto ou ao deputado Mário Amorim Lopes, é dirigido ao líder da bancada do PSD, ao líder do Chega e ao líder da Iniciativa Liberal. Portanto, é dirigido aos cargos.
Aos líderes parlamentares, nesse caso.
O que é curioso, porque a dada altura está na carta da Federação que o convite é pessoal e intransmissível. Pessoal. E é precisamente por ser pessoal que é para o titular do cargo.
Não é para o pessoal.
Que é institucional. Não é pessoal. O cargo é tão dirigido à pessoa que deixa de ser a pessoa e passa a ser o cargo. É uma acrobacia, literalmente, para se conseguir convidar políticos para ir à bola e escapar à fiscalização do Parlamento. Agora vamos só ser justos na distribuição dos papéis aqui, porque o PSD limitou-se a comunicar, acho que o Hugo Soares vai viajar mais tarde, por causa do debate quinzenal.
É que amanhã é o debate quinzenal e o presidente da Assembleia da República não estará. Aguiar Branco estará em Houston a ver o jogo.
Mas quer dizer...
É representação institucional.
O líder da bancada do PSD não estar num debate quinzenal, que vai ser tão importante, porque temos reforma laboral e prestação social única. Vai estar. Depois há aqueles que disseram que não, o PS recusou, o PAN recusou, o Livre recusou, o PCP também recusou, o Juntos pelo Povo também. O mais eloquente de todos foi Fabian Figueiredo, digo eu, porque agradeceu o convite.
Mas o Bloco diz que não recebeu o convite.
Não, mas depois entretanto deve ter encontrado aquilo no spam. Devia estar no spam, no lixo. E portanto, que fosse dado a uma pessoa que merecesse, ou seja, um bombeiro da Proteção Civil, ou uma pessoa atingida pelas cheias ou pelas tempestades. Eu não sei se Fabian Figueiredo se inspirou nesta história, mas a presidente do México recebeu o primeiro bilhete, o bilhete número um do seu próprio mundial, oferta da FIFA para o jogo inaugural, e Claudia Sheinbaum deu, ofereceu a uma jovem que ganhou um concurso e foi ver o jogo. Claudia Sheinbaum foi ver o jogo à rua, num ecrã gigante. E questionada por que não foi ao estádio, respondeu: "Um bilhete no Azteca custa 120 mil pesos. Quem é que pode pagar isso?" Nós não precisamos de andar aí a confraternizar, dizendo para as pessoas que foram ver os jogos, ou seja, os altos dignitários que foram ver os jogos. Eu não me importo que os políticos vão à bola e também não me importo que vão à borla se for a federação a pagar. O dinheiro da federação, em grande parte, também advém do dinheiro que é posto no IPDJ, portanto, também é dinheiro do Estado. Mas não me importo. Só me importo é que façam isto com estas engenharias do convite ao cargo. Acho que devia haver aqui uma forma de isto ser transparente e honesto. Queremos ir ver a bola.
Alexandre.
Sim.
A bola é irresistível.
A bola é irresistível e em Portugal ocupa, de facto, um lugar de Um lugar de exceção que depois, no fim, acho que faz mal. Nós podíamos ser a Alemanha, que é muito forte no futebol e é muito forte no resto. Nós normalmente deslumbramos.
Não sei se os políticos alemães não vão. Também não sei. Isto não é caso único.
Não sei, mas admito que pudessem ir. Agora, não os vejo a fazer o espetáculo que nós fazemos. Não sei se alguma vez a Angela Merkel fez uma flash interview, como chegamos a ver o Presidente da República em Portugal a fazer depois de um jogo da seleção, passar naquele stand das flash interviews e a comentar a partida. Se tivemos secretários de Estado em protesto, em comissões, como também estava a recordar aqui em 2010, que houve uma bancada, pelo menos, que recusou adiar aquela sessão de uma comissão parlamentar. Então, o secretário de Estado, na altura da Juventude e Desporto, ainda por cima, foi em protesto e os outros deputados em protesto, porque estavam na comissão obrigados, porque não tinham adiado, porque sabe que àquela hora estava a dar a seleção na televisão, era para ir à África do Sul. E tipicamente o discurso, a mistura das coisas, os discursos dos Ronaldos, a colagem que de facto o país faz já de alguns anos para cá. Tivemos primeiros-ministros em funções a aceitarem integrar comissões de honra de candidatos à presidência de clubes, candidatos esses que eram já à época investigados pela justiça e na altura eram já suspeitos e viriam mais tarde a ser constituídos arguidos. Suspeitos de ilegalidades e viriam mais tarde a ser constituídos arguidos. Isso aconteceu com António Costa, aconteceu com Fernando Medina, o Luís Montenegro faz o discurso dos Ronaldos, estas coisas todas, em que as vezes se deslumbra e se compraz, aparentemente, no contentamento de que temos aqui uma maravilha qualquer em mãos ou de que isso serve para salvar o que quer que seja, que é uma coisa, de facto, um bocado terceiro-mundista. E nessa confusão e nesse estado de exceção que se dá, de facto, ao futebol, é que depois fica este terreno movediça em que é difícil separar as águas. Em 2016, esses três secretários de Estado que acabaram por se demitir, três secretários de Estado de uma vez que se demitiram, e se bem me lembro, foram as primeiras baixas nesse governo António Costa, porque o governo tinha tomado posse para aí no final de 2015, isto é meio ano depois. Dá-se ainda, por cima, a trágica coincidência de dois deles terem falecido muito jovens. Mas esse foi quase o epitáfio às suas carreiras políticas. No caso de João Vasconcelos e de Fernando Rocha Andrade, que se demitiram com pedidos de demissão, por exemplo, do CDS, com o PSD a pedir que se averiguasse a questão, com pressões do PCP. Na altura era porque eram governantes e porque era um patrocinador. Portanto, era um patrocinador da seleção. Mas lá está, temos os dois lados. Se convidares o cargo e não a pessoa, se for a federação e não um patrocinador da federação a fazê-lo, já está tudo bem. Sendo que uma coisa é uma viagem a Paris e outra coisa é uma viagem aos Estados Unidos. Não é pelo dinheiro envolvido, lá está. Não é pelo dinheiro envolvido, apesar de ser mais. É claro que é uma coisa insignificante, mas é as pessoas, os representantes políticos aceitarem fazer este jogo e depois, num outro momento, estarem preparados para considerar isto uma coisa gravíssima. Isso é que é confuso. E desculpa, se me permites só para terminar, Ricardo, que é: neste caso em concreto, ao longo do dia de hoje, ainda por cima assistimos à exibição da demagogia, porque houve um bocadinho dois discursos ou duas respostas. Ao início do dia, o PS estava a avaliar. O PCP não quis comentar. O Bloco não tinha recebido nenhum convite. Quem é que me falta aqui?
Só o PAN é que disse logo que não ia.
Só o PAN é que disse logo que não ia. Justiça lhes seja feita, é verdade. E o Chega ia, pelo menos Pedro Pinto ia. O convite foi feito ao líder da bancada parlamentar e ao líder do partido. Portanto, o Chega tinha dito que sim. A IL também me faz uma certa impressão. Por que a IL aceita estas coisas? A IL que tem o discurso, em princípio, de não andar a reboque do Estado em coisa nenhuma. Por que aceita uma boleia para ir ver um jogo ao Texas? Mas só o PAN realmente é que disse logo que não. Ao fim de umas horas, é para isso também que servem os media e a opinião pública. Espera lá, que afinal o PCP, que não comentava, de repente já comenta "não vamos".
Espera lá que isto está a dar barulho.
É isto. O PS já avaliou, rapidamente, de repente avaliou a pessoa que estava cheia de trabalho, que não dava, agradeceu imenso, não dava. O LIVRE também não. O Bloco aproveita para um festival de demagogia, que de facto é: "Não podemos, agradecemos imenso, deem isto a um bombeiro ou a uma pessoa afetada pelas tempestades". E agora, claro, quem é que não pode ficar atrás no jogo da demagogia? André Ventura, que também agora ao fim da tarde também já compreendeu que: "Não, com o país a atravessar esta situação económica, não posso ir para os Estados Unidos". Em princípio, ele não irá nas próximas décadas a lado nenhum, porque a situação económica não deve ser muito mais famosa do que esta.
Anselmo, e há algum ganho? A pergunta não tem ironia. Há algum ganho político em ver um titular de um cargo político no futebol? E o futebol ganha alguma coisa por ter lá o presidente da Assembleia da República, o presidente da República ou o primeiro-ministro?
Não, mas há um ganho político em dizer que não se vai. E esse é o ponto para mim. Eu vou aqui um bocadinho contra a corrente dos meus colegas de painel hoje. Eu não vejo nenhum problema. Vi e critiquei na altura, quando se tratava de uma empresa privada, governantes irem a convite de uma empresa privada, nalguns casos em que eles tinham alguma tutela até sobre essa empresa. E nós sabemos para que servem estes networkings futebolísticos. Nós sabemos para que eles servem. No caso da federação, eu confesso, eu não vejo nenhum problema Ser pago pela Federação. É verdade que a Federação tem uma componente de dinheiro público, mas eu também não acho que seja pelo valor. E para mim, a grande crítica que eu faço é, de facto, a hipocrisia dos que andaram à espera durante a manhã para ver para onde é que estava o vento, para depois decidirem o que é que faziam. Entre os que andaram à procura na caixa de e-mail, como o Bloco de Esquerda, o PS que estava a pensar.
O Bloco pode não ter sido convidado.
Se não foi, fez figura ridícula.
Não, depois entretanto alguém disse na Federação: "Epá, não convidamos o Bloco".
Se calhar pode ter sido. Mandaram lá de Houston, mandaram um e-mail. Eu acho extraordinária a hipocrisia, que é das duas, uma: ou quem foi convidado acha que não há problema nenhum e aceita, ou não aceita porque não pode ir, e isso é uma justificação legítima, uma questão de agenda, não pode ir, mas iria e assumiria que iria se tivesse agenda para ir. Ou bem que acham que um titular de um cargo político, seja ele líder da bancada parlamentar, seja outro cargo político qualquer, entende que não deve aceitar este tipo de convites e explica porque é que acha que não deve aceitar este tipo de convites. O que eu não consigo entender é qual é a explicação para não aceitar. Eu tenho uma opinião sobre empresas, sobre um convite da Federação Portuguesa de Futebol, eu não tenho. E a tua pergunta é muito interessante, porque visto ao contrário, de facto, tem uma vantagem enorme, porque repara, primeiro fica-se bem na fotografia em dizer que não se vai. E em segundo lugar, ainda dá para fazer alguma demagogia e populismo, como dizia o Alexandre no meio disto, que foi o que Fabian Figueiredo não resistiu à tentação. Olha, está aqui uma oportunidade para eu como é que eu me vou distinguir aqui dos meus camaradas de Parlamento? Vou sugerir que ofereçam isto a uma vítima da tempestade Kristen. Pronto, por que não a uma vítima dos incêndios do ano passado? É só porque está mais recente, é aqui mais próximo, dá para capitalizar aqui um bocadinho politicamente. Acho uma hipocrisia, acho uma estupidez.
Mas tu traças uma diferença entre a seleção e os clubes?
Traço uma diferença. Eu acho que é uma diferença grande entre a seleção e os clubes. Uma coisa é um clube português ir à final da Liga dos Campeões. Até é do barato que o clube convide as principais figuras do Estado para ir à final. Agora, nós sabemos que não é isso que acontece. Ainda para mais, claro, um jornalista não é exatamente o mesmo que um titular de cargo político. O que não falta aí é jornalistas que já aceitaram, que passam a vida a aceitar convites ou pedir convites para ir a jogos de futebol.
Ou concertos.
Ou concertos. Portanto, vamos lá ver uma coisa. Mais uma vez, um jornalista tem outro tipo de deveres e de obrigações, ainda que, em muitos casos, as incompatibilidades também possam existir. Mas o ponto aqui não é esse. É a Federação, é a Seleção Nacional, é um mundial de clubes. Vou pôr de outra maneira: eu não embirro com o tema. Não embirro. Acho que é uma coisa muito importante? Não, acho que não é uma coisa assim tão importante, ainda que não deixe de registar que os nossos principais titulares de cargos políticos não tenham sequer a coragem para assumir as opiniões deles. Porque se o PS acha que o partido não deve aceitar, o líder da bancada ou o secretário-geral não deve aceitar, não fica a ponderar. Desculpa lá, isso é só um absurdo. E claro, a Federação olhou para a lei e tentou perceber como é que fazia o convite sem chocar de frente com a lei, como é óbvio. Mas eu não vejo propriamente um tema nisso e não vejo que isto seja um problema nacional.
Vamos às notas. Anselmo, queres começar tu? Queres dar uma nota?
Eu vou dar a Fabian Figueiredo.
Já que estavas com a bola.
Vou dar a Fabian Figueiredo e vou lhe dar um três, que espero que seja um 3 x 0 da seleção portuguesa nesse jogo.
Pensei que ias dar uma nota artística a Fabian.
Não, um três pela demagogia.
Alexandre.
Só comentando isto, que é percebendo perfeitamente o que o Anselmo está a dizer. Acho é que há um lado reflexo do mesmo lado, que é: ok, não se convida a pessoa, convida-se o cargo, não é o patrocinador da federação que convida, é a federação que convida. Mas percebendo o que estás a dizer, que não é uma coisa chocante, mas depois como é que pode ter uma consequência tão grave num momento, que é a demissão de secretários de Estado e noutro não.
Mas porque nunca são empresas privadas e neste caso não é.
Mas a federação, no fundo, tem dinheiro para fazer estas coisas por causa dos patrocinadores privados.
Está bem, Alexandre. Certo, de acordo. É a seleção, certo? É a federação.
É um organismo de utilidade pública.
Tu não achas normal que a seleção nacional queira convidar os mais... No fundo, o líder da bancada parlamentar ou o líder de um partido está a representar o país de alguma forma. Tem funções de representação.
Por isso está lá a representar.
O que eu estou a dizer é o que eu acho que é o racional que está por trás do convite.
Eu entendo, não é uma coisa de uma grande importância.
Tu não estás a convidar o secretário-geral do PS ou o líder da bancada do PSD porque a seguir, em princípio, a federação lhe quer pedir um favor qualquer. Diz assim: "Mas calha mal?" Não, calha bem, como é evidente.
É para o mesmo networking que falava.
Sim, como é evidente, está bem. Mas, em princípio, eu acho que a federação não tem interesses privados, não tem interesses particulares. O bem da federação, eu quero acreditar que é o bem do país, mas se calhar estou a ser ingénuo.
Acho que estás, porque a federação tem patrocinadores. O SNS não tem patrocinadores ou qualquer coisa, é um organismo de utilidade pública.
Tu achas que ir um político ao mundial vai para os patrocinadores, sei lá o que, o Continente, a Galp, que esses patrocinadores vão capitalizar isso? Porque está lá um líder político.
Acho que é para o mesmo networking que falávamos com o secretário de Estado. Mas entendendo que não é uma coisa muito grave. À nota, aqui, que eu acho que é o dar a volta, que é temos jeito para dar a volta. Temos um problema, olha, contorna-se.
E somos ótimos nisso.
É um sete, que é um número caro à seleção.
É um remate em arco
É a mesma nota que eu dou, dou um seis a esta artimanha. Desculpa, sete.
Eu dei o sete, que é caro à seleção, tu deste o seis, é um médio-volante.
Porque é uma artimanha, que se dá uma volta à lei e isso encanita-me um bocado.
Agora já entramos em modo futebolês, porque já faltam menos de 24 horas para o Portugal República Democrática do Congo.
Estás a fazer o bilhete?
Estou. Eu estava a pensar se me convidassem, não podia ir, porque tenho que fazer a emissão amanhã.
E por causa da situação do país.
Sim, sobretudo pela situação do país. Eu recusaria.
Espero que convidassem pelo cargo e não a ti. Que convidassem o moderador do "E o Vencedor É?".
Claro. Olha, por acaso nunca tinha pensado nesse cargo, mas sou titular desse cargo, sim, exatamente. moderadorvencedor@gmail.com tenho que desligar o spam. Vamos agora olhar para José Luís Carneiro, que decidiu chamar Mário Centeno e outros pontas de lança, sou muito forte, ex-ministros e investigadores para constituir uma estratégia alternativa, uma espécie de contrarreforma laboral para o código laboral. Já vem tarde, Anselmo Crespo?
Eu diria que tendo em conta a situação do país, mais vale tarde do que nunca. Mas tu chamaste ponta de lança a Mário Centeno, eu olhei pra equipe e pareceu uma equipe das velhas glórias do Partido Socialista.
Os veteranos, os legends.
Com algumas novidades, naturalmente, pra não ser totalmente injusto, mas o grosso não tem propriamente grande novidade. E isto, atenção, não significa que estas pessoas não sejam válidas e não tenham, de facto, alguma coisa a acrescentar, mas o facto da escolha ter sido esta ou das escolhas terem sido estas e não terem sido outras, eu acho que ajuda a explicar um bocadinho depois o próprio documento ou pelo menos a definição dos objetivos que José Luís Carneiro tem pra isto. E aquele que é o objetivo principal, eu diria que é praticamente impossível discordar dele. O objetivo principal é aumentar o rendimento dos portugueses, de forma a convergir com a média salarial europeia. Aliás, depois mais à frente, José Luís Carneiro até tem como objetivo pôr o salário médio acima da média europeia. A questão está no como, e José Luís Carneiro ou o PS neste documento também tenta explicar o como. E quando nós entramos no como, como diz o povo, aí é que a porca torce o rabo, porque o como é através de uma transformação estrutural da economia geradora de incorporação de mais valor acrescentado, mais inovação, mais sofisticação tecnológica, mais produtividade na estrutura produtiva nacional que permita crescer mais e melhor. Ora aí está, como é que nunca ninguém se lembrou disto antes? Depois, o documento vai tentando ir a vários pontos e atenção, mais uma vez pra ser justo, isto é o enunciar de um conjunto de objetivos genéricos que, em princípio, esta equipe agora depois vai concretizar na prática. E eu andei à procura e li isto mesmo com o máximo de profundidade possível, que se pode ler um PowerPoint, e andei à procura de fatores diferenciadores, ou seja, de coisas que qualquer um de nós, português, patriota, não defenda pra economia portuguesa e pro mercado de trabalho, porque há coisas que de facto são comuns. Depois a questão é que caminhos é que cada partido tem para lá chegar. E andei à procura, sobretudo da parte fiscal, porque na parte laboral, basicamente o que está neste documento é a agenda do trabalho digno. Nem vale a pena perdermos grande tempo. É uma contrarreforma, como chama José Luís Carneiro, que este governo está a fazer. José Luís Carneiro quer responder com uma outra contrarreforma, que é voltar à reforma anterior e, portanto, andamos nisto, parecemos um hamster numa roda. Mas chegando à parte fiscal, que me parece que é crítica, sobretudo para chegar ao tal objetivo de colocar os salários, sobretudo o salário médio, a crescer na média europeia ou, se possível, até acima da média europeia, a conclusão é a seguinte: passando a ficar uma política fiscal que assegure a redução da carga fiscal, e eu pensei, vai no bom sentido, a utilização do IRC como instrumento estratégico de fortalecimento das empresas, ou seja, exatamente a estratégia de IRC que o PS teve até agora, que não é descer a taxa pra todas, é descer a taxa cirurgicamente para as áreas ou para os territórios em que o Partido Socialista entende que se deve atrair investimento, mas não se desce o IRC pra toda a gente. E na parte do IRS, usá-lo como instrumento de fixação de talento jovem e coesão territorial, ou seja, exatamente a mesma coisa, IRS jovem e IRS provavelmente mais baixo para territórios de baixa densidade. Eu fiquei a olhar pra isto e pensei: mas se era pra isto, podíamos ter ido buscar o PowerPoint do António Costa, que era exatamente igual.
E foi isso que foi feito.
Foi isto que foi feito. Se este grupo de pessoas vai trabalhar nestes propósitos, a princípio, se formos buscar as políticas de António Costa, está lá tudo, porque é exatamente a mesma coisa.
Hoje de manhã entrevistamos aqui Mário Centeno no explicador da manhã, nas "Meias 360", e foi confrontado com a história da contrarreforma. Ele ficou, eu diria, um pouco incomodado com a ideia de contrarreforma e no fundo disse: "Não, vamos a umas reuniões." E no fundo, a ideia que fica é isso, são mais umas reuniões.
Pronto, mas a princípio eu estou à espera. Mário Centeno fez parte daquele grupo de 10, salvo erro, economistas que António Costa apresentou para fazer o programa do Partido Socialista quando António Costa ocupou pela primeira vez o cargo de secretário-geral do Partido Socialista. Aliás, desse grupo de economistas, vários foram depois para o governo, outros foram para deputados a seguir, outros saíram chateados ou desiludidos com o Partido Socialista, mas enfim, isso faz parte. O meu ponto é: se a grande prioridade do PS é voltarmos a 2022, então eu acho que estamos conversados. Eu estava sinceramente à espera de mais. E mais não é pôr aqui um ponto sobre inteligência artificial, porque se nós hoje em dia estivermos a discutir pedras da calçada, também temos que pôr lá um ponto sobre inteligência artificial, porque inteligência artificial dá para tudo. Convinha, e eu espero mesmo, e vou dar esse benefício da dúvida, que isto seja, para já, o programa da Miss Mundo, socialista, mas da Miss Mundo, e que a seguir, quando este grupo se reunir, olhe para aquilo que correu bem, olhe também para aquilo que correu mal, e houve muita coisa que correu mal, porque senão não estávamos a discutir em 2026 exatamente a mesma coisa que estávamos a discutir em 2016: falta de produtividade, salários baixos, etc.
E em 2006.
E em 2006. Portanto, olhe para aquilo que não correu bem e consigam apresentar, de facto, uma alternativa, não apenas uma alternativa ao governo da AD, mas uma alternativa àquilo que foi a política do Partido Socialista que não nos tirou do sítio onde estamos.
Sim, em cima disto, a minha conclusão é mesmo esta: se for um ponto de partida, que seja esse ponto de partida só, porque senão era fácil, é só fazer uma economia capaz de gerar mais-valias em setores diferenciados. Portanto, ok, é isto, é ligar e avançar. Mas é verdade que o caminho tem que ser esse, e também é verdade que esse caminho está muito ausente da reforma laboral proposta pelo governo. A contrarreforma, curiosamente, a expressão que estás a usar, Ricardo, é aquilo que o PS tem usado para chamar à reforma do governo. Portanto, isto é uma contracontrarreforma, contrarreforma sombra, qualquer coisa deste género. Há aqui algumas pessoas, percebendo perfeitamente o que o Anselmo disse, há aqui muitas das velhas glórias, de facto. Há aqui nomes interessantes neste grupo de pessoas. Carlos Tavares, ex-CEO da Stella Atlantis. E havendo gente das empresas, particularmente mega empresas com esse conhecimento internacional, parece-me importante tê-los nestas conversas, justamente para não serem os do costume. Há um conjunto de catedráticos ligados a alguns dos setores envolvidos, incluindo o da inteligência artificial, que de facto faltava, por exemplo, à proposta de reforma do governo e que depois foi acrescentado nesta que chegou ao Parlamento, e que já vamos falar a seguir, mas um bocadinho à última hora. E há dois ou três nomes interessantes do PS, conhecidos, Manuel Caldeira Cabral, Pedro Siza Vieira, acho que são nomes interessantes para esta discussão. Agora, sim, dentro do que o PS não foi capaz de fazer antes e de algumas discussões a que tem faltado, isto não me parece mal. A ideia de: "Esta reforma que está não vai acontecer, vamos discutir outra?" Não acho mal jogado pelo PS. Mas enfim, é óbvio que tem que ser mais do que o discurso da Miss Mundo.
Entretanto, terminou a reunião entre André Ventura e Luís Montenegro. André Ventura está a esta hora, 18h45, a falar nos Passos Perdidos, no Parlamento. Disse que não há possibilidade de acordo e o Chega não desiste da exigência de baixar a idade da reforma. Judite, regressamos ainda ao plano de Carneiro.
Vou ser rápida só para dizer que estes diagnósticos têm 20 anos e que são exatamente os diagnósticos que o PS tinha em mãos durante o tempo todo que esteve no governo e que teve uma maioria para os pôr em prática, e aparentemente não conseguiu pôr. E portanto, o homem que hoje diz que faltam números ao governo foi ministro das Finanças. Eu acho que quem hoje fala em valorizar salários foi ministro das Finanças depois dele, que foi Fernando Medina, que também está neste grupo. Eu acho que convocar Mário Centeno ou Fernando Medina para criticar a falta de estratégia económica de um país é mais ou menos como chamar o arquiteto da casa e dizer: "Olha, estão ali infiltrações." Porque quem as pôde resolver esteve no governo até há menos de dois anos e meio.
Desculpa, a não ser que seja para fazer uma autocrítica.
Pois, pode ser um ato de contrição. Eu acho que é tarde discutir agora uma coisa que já devia ter sido apresentada pelo PS como uma alternativa àquilo que estava a ser feito. Acho que o PS devia apresentar essa alternativa, acho que tem a obrigação de o fazer e acho que tem massa crítica para o fazer e, portanto, já o devia ter feito e acho que isto vem tarde. E portanto, eu acho que aquilo é uma lista de intenções e uma lista de presenças e pensar o país depois de três anos de ter perdido.
Não se afirma como uma alternativa.
Acho que não. Acho que é rodeado das mesmas pessoas que já lá estiveram. Não está rodeado de pessoas diferentes, está num auditório da Nova SBE, rodeado dessas pessoas, três anos depois ou dois anos e meio depois de ter perdido o poder. E, portanto, eu acho que isso é curto.
Queres dar uma nota?
Quero dar uma nota, vou dar a José Luís Carneiro um 11.
E tu, Alexandre?
Pensei que ias dar pior. Eu ia dar menos do que tu, com a parte qualitativa parecendo melhor. Eu complete no 11, na esperança de que dê mais.
Eu ajudo, eu dou um nove. É um nove com o benefício da dúvida de ver o que é que vai sair daqui deste grupo.
Nós não ouvimos o que disse André Ventura, que está ainda a falar a esta hora no Parlamento, mas fica essa notícia de que não há acordo entre o Governo e o Chega, neste caso, entre Luís Montenegro e André Ventura, que estiveram reunidos esta tarde para discutir a questão do Código Laboral, que na próxima quinta-feira vai ser discutido no Parlamento e quiçá votado na generalidade na sexta-feira, isto se entretanto não baixar à especialidade sem votação. Anselmo, em 30 segundos.
Muito rápido, só para dizer que longas horas têm dois dias. Daqui até quinta-feira ainda vamos assistir a muita coisa. Eu nunca mais me esquecerei da discussão do Orçamento de Estado para 2025, a quantidade de reuniões, saiu pelas traseiras, saiu pela frente, fez declarações, deu entrevistas, andou pra frente, andou pra trás, ameaçou. E depois acabou por chumbar. A conclusão pode ser o chumbo na mesma, mas eu acho que daqui até quinta-feira.
É sempre aquele caso para citar o povo na sua infinita sabedoria: até o lavar dos cestos é vindima. Amanhã há o "E o Vencedor É", de manhã, pela fresca. Depois das 08h30, Luís Rosa junta-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e ao Bruno Vieira Amaral para dar notas aos temas e protagonistas do dia.