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"O Vencedor" é na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com André Azevedo Alves, Ricardo Ferreira Reis e Pedro Jorge Castro. Hoje temos uma viagem de comboio entre Paredes e Pequim, com passagem pela Bielorrússia e Rússia, uma viagem que está a provocar polêmica, mas temos ainda outros temas e muito variados. Ainda a história de um príncipe norueguês que veio estudar para Lisboa e o caso de um professor da Universidade de Cambridge a quem a vida não correu assim tão bem. E ainda olhamos para como está, afinal, a política a lidar com o eclipse. Mas começamos pela auditoria. Temos auditorias em cima da mesa, a Luís Neves, com o próprio ministro da Justiça, o primeiro-ministro e a ministra da Justiça a desvalorizar esta auditoria. André Azevedo Alves, é razão para estarmos todos tranquilos com esta auditoria à Polícia Judiciária, aos tempos de Luís Neves na Polícia Judiciária?
Olá, boa tarde aos Ricardos e também ao Pedro. Eu acho que só poderemos estar razoavelmente tranquilos ou menos intranquilos quando Luís Neves se demitir ou for demitido de ministro da Administração Interna. Quanto mais tempo passa, quanto mais o primeiro-ministro e o governo procuram empurrar com a barriga para a frente este caso, parece-me que pior vai ficando não só a situação de Luís Neves, não só a situação do governo, mas a própria situação das instituições em Portugal. A auditoria é mais um episódio fiel ao estilo a que rapidamente nos habituou a Luís Neves, já veio declarar com pompa e circunstância que está desejoso que essa auditoria prossiga e que a vê com muito bons olhos.
Só faltou dizer quantos são, quantos são.
Não, faltou dizer mais que isso, Ricardo. Eu ia dizer que ele não foi ao ponto, como fez na questão do Tribunal de Contas, de dizer que era ele próprio que tinha pedido à colega de governo para que essa auditoria existisse. Recordo as palavras, aliás, na altura citadas também pelo Observador, a propósito do Tribunal de Contas: "Eu não vou ser julgado, sou eu próprio que faço intervir o Tribunal de Contas." Há até um meme a circular em que o compara a Chuck Norris, Chuck Norris dizendo: "Eu não uso relógio, eu decido que horas são." Um daqueles memes muito populares atribuídos a Chuck Norris. E de facto, o ministro parece cada vez mais ele próprio um meme. E estas reações e o arrastar deste episódio parece-me francamente mau para as instituições. E enfim, parece-me que quanto mais tempo Luís Neves continuar em funções ou pior ainda, se acabar por não se demitir nem ser demitido, os efeitos desta degradação institucional vão infelizmente transcender em muito o próprio ministro da Administração Interna, e temo que vão até transcender só este governo em particular.
Pedro.
Deixe-me só juntar aqui um dado interessante, que é: aconteça o que acontecer na auditoria, que interessa pouco já ao nível dos factos, infelizmente, isto é um pau de dois bicos, porque se esta auditoria concluir que Luís Neves foi um santo, o que não é impossível, muito pouca gente vai acreditar na auditoria. E na verdade, isso pode ter o efeito de arrastar o descrédito sobre o resto do governo.
Só para acrescentar um ponto sobre isso. É que pode até ter um efeito, eu concordo, e um efeito duplamente perverso. A ideia de que esta auditoria faz parte da tentativa do governo de branquear a situação de Luís Neves e permitir que o mesmo continue em funções, ou seja, que pode de alguma forma ser uma espécie de auditoria preventiva para, face ao que já se conhece, possibilitar essa continuidade. Agora, o que me parece é que independentemente do que venha a ser esclarecido, e há muitas coisas pra esclarecer, politicamente, acho que o que já sabemos já é mais do que suficiente para que Luís Neves não continue em funções, independentemente de tudo o resto.
Sim, eu já estava a falar mesmo do efeito de arrastamento que isso pode ter para o resto do governo, caso as conclusões da auditoria venham a invalidar as bonomia que o ministro tem sempre na boca neste momento. Caso venha a ser de facto apurado que houve irregularidades, enfim, coisas graves, não restará alternativa então aí ao ministro que não seja, de facto, demitir-se. Portanto, não há nenhuma saída, parece-me, boa já para nenhum dos envolvidos no meio deste processo, o que tem um efeito, de facto, bastante perigoso. Portanto, aquilo que vai acontecer, também posso anunciar já, mesmo sem saber, que é: vão encontrar umas irregularidades, mas vão dizer que não teve gravidade face à iminência dos graves perigos que o senhor ministro, enquanto diretor da Polícia Judiciária, teve de combater e que ao pé do combate ao crime transnacional e à iminência da entrada de perigosos criminosos em Portugal, as pequenas irregularidades que foram cometidas, que são graves, claro, e em relação às quais deve haver uma atenção maior por parte de todos os diretores da Polícia Judiciária daqui pra frente, mas que não são assim tão graves face aos benefícios que daí advieram.
Ricardo.
Mais Luís Neves.
Mais um tempo.
Mais um dia.
Podemos sempre citar também, já que estamos aqui a falar de pessoas que gostam de enfrentar o perigo com um sorriso nos lábios: "Homem que é homem não come o mel, come as abelhas."
Chupa a abelha, é a expressão, e não descasca ananás. Havia aqui uma coisa que dizer: os ministros vão e vêm e não sei se este já deve ir ou não ir. Preocupa-me este último ponto que eu estava a dizer, que o próximo ou o atual diretor nacional da Polícia Judiciária, para resolver problemas relacionados com o tráfico de drogas ou com a criminalidade internacional, não tenha que cometer irregularidades. Eu espero, antecipo e desejo que a auditoria, pelo menos, não queira saber do Luís Neves, se fica, não fica. O que eu quero é que a Polícia Judiciária não deixe de cumprir a sua função, porque tem que ter resultados destas auditorias, procedimentos que sejam fazíveis e que a ajudem a proceder à sua missão da melhor forma possível.
Se há entraves, que sejam resolvidos.
Se há entraves, que sejam resolvidos, que não se deixe à criatividade regulatória ou regulamentar, ou à improvisação sentimental do ministro à la bom polícia de Hollywood com o mau. Eu não estou a dizer isto, estamos cheios de filmes em Hollywood de polícias, dos bons, Clint Eastwoods, que têm que dar a volta às regras para se safar. O que eu queria era que as regras fossem claras, bem estabelecidas e que não deixassem espaço nenhum para o anterior diretor da Polícia Judiciária, o atual e os próximos, tivessem que tornear as regras para cumprir isso. No resto, na questão da piscina, do tanque, das declarações, naquilo que é pessoalmente ligado ao Luís Neves, acho que há muito pouca defesa a fazer, e que seja auditado da forma como deve ser feito.
André Azevedo Alves, há então uma nota para Luís Neves ou para alguém, algum vencedor nesta...?
Há uma nota para Luís Neves, que é alinhada com a minha apreciação do que tem sido a sua conduta atual e passada, e que é de sete valores.
Tens uma nota, Pedro?
Tenho, pois. Tenho um quatro. Este quatro tem uma explicação: estamos a falar de duas facas, dois gumes, a do governo versus Luís Neves. Não é possível saírem todos bem disto. E também a do diretor da Polícia Judiciária atual versus o anterior diretor da Polícia Judiciária. A Polícia Judiciária foi muito rápida a fazer passar a ideia de que tinham sido eles a pedir esta auditoria aos mandatos de Luís Neves. Isso mostra uma tentativa de blindar aquilo que é a instituição e o futuro da instituição, ao mesmo tempo que foram permissivos em relação ao diretor financeiro, face ao desmentido. Portanto, duas facas, dois gumes, quatro.
E queres falar sobre, não sei se lhe podemos chamar a gestão política do eclipse. Estás a sentir falta de governo?
Estou. Na verdade, isto atravessa todos. Nós não estávamos cá, mas sabe-se há muito tempo que iria haver este eclipse. Eu diria quase desde 1912, do último, que isto podia estar a ser preparado, passo o exagero.
Sabíamos, em 1912, sabíamos de certeza.
Sabia-se que ia haver este agora. Mas como ninguém ia estar cá, ninguém ligou. Portanto, atravessa todos os regimes até chegar ao dia de hoje, que temos aqui a 48 horas, mais ou menos esta hora, já se começará a ver os primeiros sinais do eclipse, numa grande emissão especial que tu vais conduzir com o José Manuel Fernandes e com o Vanderding. Estamos a 48 horas disto e o que é que acontece? Há muita gente que deixou para a última, claro, quer óculos e não consegue encontrar óculos. Também há o outro dado, que é: não está previsto nenhum reforço de oftalmologistas nas urgências para as horas a seguir ao eclipse, sabendo-se que a observação do fenômeno sem a proteção devida pode provocar lesões oculares muito graves. Isto parece-me tudo uma imprevidência de todos. É uma imprevidência, mas também de políticos. De todos, porque empresas não quiseram arriscar fazer grandes encomendas de estoque para uma maior fatia da população, porque tiveram medo que viessem nuvens e que as pessoas desistassem disto. Não houve risco, apesar dos óculos serem baratíssimos, a produção ser baratíssima, teriam conseguido fazer bom dinheiro com isto, não quiseram arriscar e portanto, neste momento, não há óculos, ninguém encomendou óculos a tempo. Não havia tempo nestes 100 anos para produzir a quantidade de óculos que este pequeno país e os seus 10 milhões de habitantes iriam precisar. Também os particulares, claro, as pessoas que têm acesso à Amazon, mandaram vir muitos óculos por €0,50, e há muitas pessoas que nem se lembraram disso, já não vão a tempo e agora estão desesperadas a bater às farmácias para ver se arranjam uns óculos, sabe-se lá com que esquemas o estão a fazer. Mas sim, também os políticos. Eu lamento, mas eu tenho visto muito pouca gente a falar sobre este lado de saúde pública do fenômeno, que eu acho que não deve ser ignorado. Viu-se muito pouco a diretora geral da saúde, mesmo políticos que poderiam. Não é politizar a questão, de maneira nenhuma. É, apesar de tudo, aproveitar o mediatismo que têm das suas ações para chamar a atenção para isto, sensibilizar e anunciar uma ou outra coisa relacionada com isto, que não anunciaram porque não prepararam. Nomeadamente este reforço de escalas de oftalmologistas nas urgências. Nós temos um artigo sobre isso, do Tiago Caeiro, que publicamos ontem de manhã a explicar onde é que há oftalmologistas, que nem sequer é em todos os hospitais, obviamente. E também ninguém previu que iria haver esta falta de estoque de óculos, ninguém tomou a iniciativa de tentar garantir que houvesse mais óculos disponíveis para a população. Acho que, francamente, há aqui responsabilidades também a assumir da parte do governo e acho que deveriam ter sido mais ativos nisto e não custava assim tanto, houve 100 e tal anos para preparar isto.
E que nota? Tens alguma nota?
Vou dar aqui um sete, porque o eclipse era às 19h30, portanto um 7,5, na expectativa de que não seja nada assim tão grave. Apesar de em todos os outros países haver relato de pessoas que ficaram com lesões oculares, esperar que no meio disto tudo não haja assim tanta gente a ficar com problemas e isto não seja um grande escândalo com muita gente a fazer perguntas sobre o que não foi feito para evitar isso.
Ricardo, ainda temos tempo aqui para uma centelha.
É só avisar que há outro para o ano. Dia 2 de agosto há um eclipse, não de 94%, mas de 92%, anda lá próximo, portanto guardem os óculos.
Mas depois de um de 100, quem é que quer um de 92?
Não, aqui não vai ser 100. Também avisar as pessoas não ficarem desiludidas, que não vai ser 100 aqui.
É preciso ir até Rio do Norte, mas não dá pra passar.
Não dá. E o próximo do próximo ano é menos do que isso. Aqui este é na Península Ibérica, os 100. Este vai andar em Luxor, no Egito, os 100, que também deve ser bonito. Já agora, fica aqui uma sugestão de viagem.
Mas Ricardo, havia aqui uma solução operacional fácil mesmo a 48 horas do evento, que era ter pedido os óculos ao empreiteiro amigo do Luís Neves, que certamente os conseguiria obter em tempo recorde.
Poderia ter algum "deal" com alguns.
Certamente, ou um outro lado.
Bom, mas fica aqui a recomendação uma vez mais. Sabes que eu estou mais preocupado com ortopedistas. Eu acho que vai haver muita gente a tropeçar por causa dos óculos e do eclipse. É que com os óculos não se vê absolutamente nada. É só mesmo para olhar para o céu.
Eu, por já estou preocupado com o estado do tempo, se vai conseguir ver ou não.
Não, vai dar.
A gente já vai ver.
E agora embarcamos numa verdadeira viagem de sonho, de comboio, de Paredes a Pequim. Para mim seria uma viagem de sonho, porque eu confesso, gosto muito de comboios e de viajar de comboio. Ora, nesta viagem, que está a ser feita por um deputado do Partido Socialista, está a levantar alguma polémica devido à passagem na Bielorrússia e na Rússia. Já motivou uma queixa negativa por parte da Associação de Ucranianos em Portugal e também por parte de um deputado da Iniciativa Liberal, Rodrigo Saraiva. É razão para tanto, Ricardo, tanto desconforto com a viagem de sonho de um maluquinho dos comboios, podemos chamar-lhe assim?
Podem, eu não, mas podem chamar-lhe assim.
É uma grande viagem de comboio. Eu acho que sou um pouquinho maluquinho de comboios.
Pronto, acho muito bem.
Era no bom sentido.
Claro que é, e eu conheço o deputado e a sua afinidade pela ferrovia.
Por aqui se vê quem tem educação e quem não tem.
A sua afinidade pela ferrovia. E sim, isto é uma viagem que aparentemente o senhor tinha o desejo de ir de Paredes a Beijing em ferrovia, e está a realizar esse sonho. Tem aí o conveniente é que não há nenhuma-
Estamos a falar do deputado João Carlos Barbosa?
João Carlos Barbosa. Não há nenhuma ligação de Paredes a Beijing que não passe pela Rússia e Bielorrússia.
Minsk, Moscovo.
Sim, ele ainda deu uma volta para ir a São Petersburgo, que não quis deixar para depois. Curiosamente, eu tenho seguido a viagem do senhor deputado.
Sim, também estou a seguir.
E nota-se que ele tem algum cuidado na forma como reporta as conversas que tem com os locais. Não é o tipo de viagem que se possa fazer de improviso. Ele está a dar essa ideia de que aquilo é um bocado improvisado, tem algumas coisas que são improvisadas. O atravessar da fronteira pra Bielorrússia foi bastante improvisado. Meteu-se lá no carro com alguém, aquilo custou-lhe €20, ele contou a história. Mas depois nota-se que, e ele próprio diz isso, que há coisas ali que têm que ser feitas com reservas. Há vistos, o papel de imigração que ele a determinada altura perdeu. Aquilo é uma sequência de episódios bastante engraçados. Tenho algum carinho pela ideia, mas é completamente desopinado nesta altura da geopolítica internacional meter-se no Transiberiano. Aqui há um momento de Pinto Lopes Viagens, um conjunto de sugestões para o deputado, que não passam pela Bielorrússia nem pela Rússia. Também não começam em Paredes, mas há uma viagem muito interessante no Canadá, por exemplo, de Vancouver a Toronto, que também pode ser feita. Há outra na Austrália que vai de Perth a Sydney, que também é bastante interessante. Há uma que deve ser muito gira de ser feita, Ricardo, talvez um dia temos os dois nisso, da Cidade do Cabo até Dar es Salaam, na Tanzânia, que deve ser encantadora. E tem uma que podemos fazer, Ricardo. Eu agora vou para os Estados Unidos, portanto para o ano, se quiseres ir ter comigo nesta altura do ano, vai ter comigo a Filadélfia, metemos num comboio até Chicago e de Chicago apanhamos o Zephyr para São Francisco.
Exatamente.
Que faz um percurso muito semelhante ao transcontinental original, portanto, até podemos falar sobre PPPs na ferrovia e um conjunto de outras coisas que são interessantes desde essa altura, que demora menos tempo até do que este do Transiberiano e, sobretudo, não o coloca numa situação tão... O deputado Barbosa também está convidado, se quiser. Não passa por Paredes isto, em nenhuma das quatro.
Isso parece-me lamentável.
Mas pronto, é uma questão dele ir de Paredes a Pedras Rubras e em Pedras Rubras apanha o avião. Pronto, abro uma exceção nessa.
André, foi imprudente esta viagem de sonho feita agora?
Parece-me sim, imprudente acho que é o mínimo que se pode dizer. Apesar de estarmos a falar de alguém que é deputado, não tem mais responsabilidades que isso Mas a política também é o domínio do simbólico. Mesmo não tendo mais responsabilidades do que as de ser deputado, apesar de tudo, é alguma responsabilidade e é um cargo representativo. E naturalmente que quando alguém opta por fazer uma viagem deste gênero, mais ainda por fazer a viagem e por publicitar, que é perfeitamente legítimo e se calhar até expectável para alguém que decide fazer um empreendimento desses.
Olha a quantidade de eleitores que ele está a ganhar com isto, ou potenciais eleitores ou pelo menos notoriedade. Não é? Já viste.
Notoriedade será a ganhar alguma. Embora também me parece que daqui por uns meses algum pequeno efeito que possa ter de notoriedade estará exatamente no ponto inicial.
Uma coisa é certa, se ele for apanhado em mais alguma bronca, vai ser o deputado da Transiberiana. Isso aí. Não é?
Certo.
Vamos lembrar mais facilmente disso do que do nome.
E aquilo está bem feito, ou seja, os vídeos estão bem feitos. Mostra cuidado. O senhor não tem nada a dizer sobre aquilo que lá está?
Ele está a ganhar certamente notoriedade e no mau sentido, é nomeadamente na comunidade ucraniana que vive em Portugal, que aí sim, certamente não será esquecido esta viagem. Não questionando a tal afinidade ferroviária, nem a legitimidade do deputado para fazer a viagem, parece-me que do ponto de vista simbólico, mais do que imprudente, é infeliz, porque passa claramente uma mensagem que mesmo não sendo a mensagem desejada, neste contexto geopolítico e considerando a situação da Rússia, considerando a situação da Bielorrússia, considerando até como Portugal se posiciona nesse contexto, como o Ricardo já referiu várias alternativas, certamente também muito estimulantes e muito fascinantes para quem tem afinidade pela ferrovia, se calhar podia adiar algum tempo esta pulsação.
Estou aqui a notar um certo desdém pelo fascínio da ferrovia.
Não, eu viajo todas as semanas na ferrovia, com exceção do mês de agosto. Eu sou um grande adepto da ferrovia, não da Transiberiana, não quero gerar essa expectativa.
E tu até vais para perto de Paredes, portanto, alguma parte da viagem até fazes.
Eu morto perto de Paredes, exatamente. E essa viagem semanal inicia e termina relativamente perto de Paredes todas as semanas. Mas longe de Pequim, longe de Moscovo e longe de Minsk. E parece-me que de facto é infeliz e não me parece algo também particularmente grave, acho que também não devemos exagerar nesse sentido, mas é aquelas iniciativas que se olha e pelo menos no meu caso, pensa: "Mas que raio de ideia!". Quer dizer, neste momento não conseguia pensar noutro passeio ou noutra viagem para fazer. E termino só com esta nota: e percebo que, nomeadamente para a comunidade ucraniana em Portugal, que seja bastante mais do que simplesmente uma brincadeira ou algo infeliz, justamente por causa desse conteúdo simbólico. Naturalmente, para quem sofre na pele, para quem tem familiares que sofrem, até nalguns casos que morreram, que sofrem com o conflito, é mais do que simplesmente algum episódio com alguma graça, que não deixa também de ser neste sentido, mas que me parece também uma escolha profundamente infeliz neste contexto.
Isto começou com um vídeo do deputado Rodrigo Saraiva, vice-presidente do Parlamento, que tem estado muito atento a esta questão das liberdades nas ditaduras, façamos-lhe justiça nisso, mas eu acho que há aqui um exagero. Lamento imenso dizê-lo. Percebo que a comunidade ucraniana se sinta de certa forma ofendida, mas respeitando isso, obviamente, não podemos também transformar as coisas todas em branco e preto. O que eu quero dizer com isto? O facto de ele estar a viajar pela Rússia e pela Bielorrússia mesmo neste momento, sim, ele está a dar receitas eventuais de turismo ao país de Putin, mas isto não o transforma num apoiante da guerra e num apoiante da política de Vladimir Putin. Nós não podemos ver as coisas dessa maneira. Acho que entramos aí por caminhos muito complicados, porque vamos ver se calhar que deputados é que têm carros chineses. Entramos aqui num caminho mesmo muito difícil. São apoiantes do regime chinês, se calhar ninguém permitiria que fosse tirado uma ilação dessas. São os carros se calhar mais baratos e aqueles que os nossos próprios políticos podem comprar e ficaremos por aí Deixe-me dizer que, por coincidência, na mesma altura, outro deputado da Iniciativa Liberal, que é o caso Guimarães Pinto, também tem andado em viagens e fez um post muito interessante e muito apelativo sobre o Quirguistão, a elogiar também as fantásticas paisagens naturais do país. Eu sei que o Quirguistão, obviamente, não está tão na berlinda como a Rússia de Vladimir Putin. Não é propriamente um modelo de desenvolvimento e de democracia que se recomende. Se nós vamos deixar de visitar países por razões destas, se apenas visitarmos países que têm democracias ocidentais como aquelas com que nós nos identificamos, estamos a ficar reduzidos a uma parte muito ínfima do mundo e a deixar de ver muitas coisas bonitas. Eu acho que não podemos entrar por aí, não podemos entrar nesse branco e negro. Não é o facto de a Rússia de Vladimir Putin estar nesta agressão contra a Ucrânia que me vai fazer dizer que São Petersburgo não é uma das cidades mais bonitas onde já estive, que tenho sorte.
Tens essa sorte?
Antes ou depois de 2022?
Foi antes de 2022, foi em 2015. Mas de qualquer maneira, já tinha começado 2014. Que estive a contribuir para o regime de Vladimir Putin. Claro que eu tenho curiosidade em ver os vários países do mundo, os vários regimes do mundo, falar com as pessoas e perceber como é que elas se sentem em relação aos seus líderes políticos e às coisas mais tenebrosas de que eles são acusados. E tudo isso é uma curiosidade pelo mundo que, na verdade, eu acho que favorece a evolução do mundo. Quanto mais pessoas os próprios residentes contactarem, se calhar mais se abrem também na sua perspectiva para o mundo. E vou com isto adiantar já a minha nota, que é uma equação. E a equação é fácil. A equação é X, sendo que X é o número de países que cada político já visitou, menos 195. Estou a simplificar. Vamos só ao número de países consensuais, que toda a gente aceita, sem reconhecimentos disto e daquilo. Portanto, X menos 195. É uma nota negativa que todos devemos ambicionar levar até zero. Quando a equação for zero, creio que seremos todos mais felizes e teremos uma democracia mais madura, porque mais conhecedora do mundo.
Muito rapidamente, eu vou dar nove valores, mas dobrarei para 18 se o regime de Putin cair durante a passagem do meu deputado.
Ricardo, a nota que é para irmos ao príncipe.
Não são 5 mil km ou o que é que é então? Para 5 mil ou alguma coisa do género, de Paredes a Pequim, são nove horas de viagem.
Ainda temos aqui três minutos para a história de "era uma vez um príncipe norueguês".
É, que vai em busca de uma princesa espanhola também.
Que acabou no Bairro Alto.
Que acabou no Bairro Alto, nos Chiados.
Em Lisboa.
Acabou? Não, espero que não.
Não, exato.
Começou no Bairro Alto.
Acabou a viagem. Coitado do príncipe.
Não sei se virá de comboio lá de Paredes ao Bairro Alto, da Noruega até ao Bairro Alto.
Ninguém deseja esse mal.
Mas isto é o resultado também de algo que é bastante interessante. Isto é uma universidade ou uma escola, uma instituição.
É um príncipe norueguês que vem estudar para Lisboa, onde esteve também-
Vem estudar numa instituição que é o Forward College, o Forward University. É uma instituição francesa, acreditada pelo Ministério da Educação Francês ou equivalente ao Ministério da Educação Superior Francês, com os títulos assinalados pela Universidade de Londres, que é uma prestigiada universidade estatal, e que opera aqui em Portugal e noutras geografias. É só uma nota de que Lisboa e Portugal está no mapa destes percursos de aprendizagem da parte das escolas de gestão, sobretudo. Aqui uma nota, um disclaimer, a minha instituição também participa nessa internacionalização e que tem sido um percurso extraordinariamente bem-sucedido a nível nacional.
É uma nota positiva?
É uma nota positiva para Lisboa, para Portugal e para estes esforços de internacionalização.
André Azevedo Alves, temos mesmo um minuto para ainda ir a Cambridge.
Então muito rapidamente e como teaser para o meu próximo artigo na próxima semana no Observador, o caso de Jason Hardey, mais jovem professor catedrático negro em Cambridge, que muito recentemente se demitiu na sequência de basicamente se ter verificado que toda a sua carreira assentava não só num conjunto de plágios, mas numa sucessão de mentiras e de fraudes. Acho que aqui o caso mais interessante, e encorajo os nossos ouvintes a pesquisar, quer dizer, desde ele afirmar que tinha corrido 30 maratonas em 35 dias, desde ter dito que não conseguia ler e escrever até aos 18 anos e depois ter feito o percurso subsequente. Acho que aqui o mais interessante e o que merece mais reflexão não é tanto a personalidade, em inglês há uma expressão, con artist, nós traduziríamos por aldrabão, do Jason Hardey, mas o facto como é que sucessivos júris e sucessivos processos académicos, nomeadamente, mas não só na Universidade de Cambridge, validaram este trajeto. E a meu ver, é isso que merece mais reflexão, porque remete mais do que para um problema específico, individualizado, para problemas sistêmicos no sistema académico e no sistema científico, que a meu ver são muito graves e de que este caso é uma evidência. E já agora dou a nota nove valores para a Universidade de Cambridge, pessimamente em todo o processo, apesar de tudo não dou mais baixo, porque abriu a investigação, depois de muita pressão pública, que acabou por conduzir à demissão de Jason Hardey.
O Ricardo quer dar uma nota também?
Tanto quanto eu percebi, houve queixas de alunos sobre aquilo que o professor estava a ensinar e a forma como o fazia, de colegas, e esses alunos e esses colegas foram investigados pela polícia, não o próprio.
Exatamente.
Mas a polícia foi atrás.
E jornalistas, inclusivamente.
Exatamente. Foi atrás disso, porque ainda há mais grave.
Porque fizeram perguntas que eram ofensivas.
Eu não posso dar nove à Universidade de Cambridge.
E amanhã há mais, e o vencedor é nas manhãs 360, amanhã com o José Manuel Fernandes a juntar-se com a Helena Matos, a juntar-se ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferreira e também à Ana Salés. É este o elenco de amanhã no "E o Vencedor É".